O
Liceu era um mundo novo e diferente; a minha mãe lá conseguiu convencer-me que
não deveria levar todos os livros de estudo na pasta diariamente, pois passaria
a ter vários professores, cadernos diferentes para cada disciplina e em cada dia
precisaria apenas dos livros das que fossem lecionadas.
Num território onde não havia
Universidade, frequentar o Salvador Correia era fazer parte da elite num
estabelecimento de ensino onde figuravam praxes e rituais similares aos de
Coimbra, com diferenciação entre “caloiros”
e “veteranos” e “tonsuras” àqueles no 1º dia de aulas. Para novatos como eu alguns dos
“veteranos”, designadamente os do 3º
ciclo, faziam gala de insubordinação, eram “malcriados”,
como registo no meu “diário” da
altura. Nesse tempo entre estes alguns usavam negras capa e batina e era com
alguma jactância que dizíamos alto e bom som “larga o osso, que não é teu, é da malta do Liceu”, quando víamos
rapazes doutros estabelecimentos de ensino acompanharem uma engraçada e vistosa
mocinha.
Não me recordo se nesse tempo o
Salvador Correia já era misto no 3º ciclo ou se isso sucedeu apenas alguns anos
mais tarde. No princípio do ano lectivo havia falta de professores nalgumas
disciplinas por vezes durante todo o 1º período e nas “borlas” umas vezes
éramos obrigados a permanecer na sala de aula, outras saíamos para o recinto
exterior, ficando na conversa ou travando renhidas batalhas com torrões de
barro nas barrocas junto ao Liceu, as camisas vestidas do avesso para que não se notasse a sujidade quando voltássemos para as
aulas. Por vezes debandávamos à aproximação dum dos contínuos cuja alcunha era
o “Ramona”, pois quem ele
identificasse seria castigado pelo Conselho Disciplinar. Quando havia diferendos entre os estudantes
estes eram dirimidos à pancada no fim das aulas, na rampa ajardinada defronte
do Liceu, com séquito de seguidores e apoiantes duma ou doutra parte.
Havia professores que
estimávamos, uns mais, outros nada, e as aulas de Religião e Moral eram muitas
vezes uma tourada, mesmo no 3º ciclo. Uma vez numa aula a insubordinação atingiu tal nível que o padre deu ordem de expulsão a toda a turma, colocando-se à saída para identificar cada aluno. Quando chegou a minha vez disse-lhe polidamente que só me identificaria se me dissesse para que queria a nossa identificação. Dali não saíamos até que desesperado ele exclamou qualquer coisa como "Não estou para te aturar, tu és completamente maluco" e foi-se embora desarvorado, deste modo escapando todos nós a um castigo colectivo. Aqueles que como eu não tinham ouvido
para a música ou que por razões de saúde não podiam participar nas aulas de
Educação Física ou nas actividades da Mocidade Portuguesa restava a frustração
de passar a aula sentado a ver os outros ou conseguir-se dispensa mediante
atestado médico.
No final do ano lectivo havia
arruaças mais ou menos inofensivas na Avenida Brito Godins, defronte ao Liceu,
envolvendo os automóveis que passavam, por vezes obrigando a intervenção
policial. Recordo-me que num dos anos entre os estudantes levados para a
Esquadra estava o filho do Governador-Geral, que reclamava em vão essa condição
para não ser preso, retorquindo-lhe o polícia “Pois, pois, e eu sou o Presidente da República”. Dessa vez a ordem
de soltura acabou por ser mais rápida.
Entre o 4º e o 6º anos estive
matriculado em colégios particulares, em Luanda e no Porto. Quando me
matriculei de novo no Salvador Correia já algumas coisas eram diferentes embora
se mantivessem outras, como o autoritarismo e o rigoroso acantonamento das
raparigas em espaços interditos à permanência dos rapazes, nos intervalos e “borlas”, salvo na biblioteca. Um rapaz
que permanecesse num espaço reservado às raparigas sujeitava-se a ser punido
com suspensão das aulas, o que também sucedia a quem permanecesse sentado nos
passeios ou muros do Liceu após terminadas as aulas. Todo esta “segregação” não existia fora do Liceu,
pelo menos no estrato social a que pertenciam os meus pais, onde as relações
entre rapazes e raparigas eram mais livres e abertas.
Até 1961/62 apenas uma minoria
tinha possibilidades financeiras para frequentar o Liceu e dessa escassos
podiam prosseguir estudos universitários em Portugal. Para os restantes o Liceu
nenhuma preparação profissional dava, ao contrário do que sucedia nas escolas
industriais e comerciais. E para quem como eu seguiu para Económicas o Liceu
não nos fornecia conhecimentos básicos necessários, como os de contabilidade,
de estatística ou de matemática baseada na teoria dos conjuntos ou na álgebra
booleana. Dos cerca de 20 estudantes que pretendiam seguir Economia em Lisboa ou no Porto, apenas cinco conseguimos vencer as barreiras incluindo a da famígerada Matemática, rumo a Portugal. Mas logo na 1ª aula de Matemáticas Gerais no ISCEF o professor deu-nos as boas vindas dizendo que o que estudáramos anteriormente nada tinha a ver com a Matemática deixando-nos a ver navios enquanto impiedosamente desbobinava a álgebra booleana, entremeando com muitos "como é evidente", uma evidência que muitos de nós não conseguíamos alcançar..
Nos dois primeiros ciclos o ensino era essencialmente teórico e foram escassíssimas as aulas práticas nos laboratórios de físico-químicas ou de ciências naturais, conhecidos como o “Planeta Proibido”. Por vezes havia as chamadas “visitas de estudo” a unidades industriais como a cimenteira Secil, de fabrico de sabões ou cervejeiras, como à Cuca, que eram pelos estudantes apreciadas devido aos lautos lanches regados de cervejolas, embora eu fosse conhecido pelas minhas bebedeiras de … laranjada, Fanta ou Canada Dry. Desse ensino teórico e não poucas vezes desligado da realidade falo num poema meu intitulado “Raízes”
Nos dois primeiros ciclos o ensino era essencialmente teórico e foram escassíssimas as aulas práticas nos laboratórios de físico-químicas ou de ciências naturais, conhecidos como o “Planeta Proibido”. Por vezes havia as chamadas “visitas de estudo” a unidades industriais como a cimenteira Secil, de fabrico de sabões ou cervejeiras, como à Cuca, que eram pelos estudantes apreciadas devido aos lautos lanches regados de cervejolas, embora eu fosse conhecido pelas minhas bebedeiras de … laranjada, Fanta ou Canada Dry. Desse ensino teórico e não poucas vezes desligado da realidade falo num poema meu intitulado “Raízes”
(…) Em Luanda nasci
Em Luanda vivi
Em Luanda estudei
Não Angola mas Portugal
Todos os rios e afluentes
Todas as linhas férreas e apeadeiros
Todas as cidades e vilas
Todos os reis e algumas batalhas
as plantas e animais
que não eram do meu país.
De Angola
pouco sabíamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março
Veio a guerra e
....................a mentira
que alimenta
..................a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade. (…)
Em Luanda vivi
Em Luanda estudei
Não Angola mas Portugal
Todos os rios e afluentes
Todas as linhas férreas e apeadeiros
Todas as cidades e vilas
Todos os reis e algumas batalhas
as plantas e animais
que não eram do meu país.
De Angola
pouco sabíamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março
Veio a guerra e
....................a mentira
que alimenta
..................a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade. (…)
A partir de 1956 o ano lectivo passou a ser
idêntico ao de Portugal, para favorecer a minoria que prosseguisse estudos em
Portugal, de que resultou a aberração das aulas serem no tempo mais quente e as
Férias Grandes na estação fria do “cacimbo”.
O Estudante nº
84 (1964 Novembro) --Visita à Fábrica da NOCAL, segundo Barradas Teixeira - Durante a minha estada no Liceu participei
em várias visitas de estudo: à Cimenteira SECIL e a outras unidades
industriais, como uma de saboaria e à cervejeira CUCA (não me recordo se também
a esta à NOCAL). As que mais apreciávamos eram as visitas às cervejeiras,
atraídos pelos opíparos lanches e pela cerveja, embora a minha especialidade,
segundo os meus colegas, fosse apanhar bebedeiras ... de laranjada.
luanda liceu
salvador correia - 1964~65 - 6º ano turma B (alínea G) 1965.06.08
1ª fila - Abranches, Jacques Pena, Monteiro
Torres (micro-torres)
2ª fila - Paula Coelho, Rogério Pampulha, Carlos
Aguiar, Fátima Rocha, Isabel de Almeida, Artur Reis, Isaura, Carlos Lourenço,
Teresa Melo, Victor Nogueira
luanda liceu salvador
correia - FOTO Nº 1 - 1965~66 - finalistas 1966-06 7º ano turma A
1ª fila - Manuela Vieira (1) Maria de Lurdes (2)
António Vasconcelos (3) Celestina (4) Ivone Magro (?) (5) Isabel Seiça (6)
Alcina (7 Maria João (8) Fátima Coelho (9) Álvaro Cardoso (10) Maria José
Fonseca (11)
Luanda - Liceu Salvador Correia - 1965.04.12 - visita à CUCA
Debaixo para cima e da esquerda para a direita
1ª fila - Abranches de Figueiredo (1), Carlos Arnaut (2), Jorge Cadete (3),
Dias (4), Carlos Lourenço (5)
2ª fila . Dr. Correia de Barros (1), Correia da Silva (2), Agante (3)
3ª fila - Assunção (1), Edmundo (2), Amorim (3), Carlos Aguiar (4), Guerra (5)
e Victor Nogueira (6)
4ª fila - João Martins (1), Pedro Brito,(3) sr. Sampaio (contínuo) (4)
Um jornal diário de Luanda cujo nome
não registei costumava publicar as fotos dos melhores alunos do Salvador
Correia, com uma breve biografia. Não fui colunável, embora tivesse terminado
Letras com 13 valores e reprovado a Ciências. Entre a papelada encontrei estes
recortes de colegas meus, todos eles naturais de Luanda, excepto o Oliveira
Gama. Todos eles, haviam terminado o 5º ano. De cima para baixo e da esquerda
para a direita, são eles: Herculano Araújo da Silva (tal como Jorge Zamith, meu colega desde a escola primária e meu "padrinho no "crisma" da 1ª comunhão) , Marcolino António
Pinto de Meireles, Nelson Rangel Pereira Duarte, Rui Filipe Matos de Martins
Ramos (também na foto pequena), Fernando Carneiro de Oliveira Gama, e António Maria
Amaro Monteiro
Tirando a foto da tonsura (http://www.escreveretriste.com/2015/03/este-e-o-meu-liceu-salvador-correia-o-mutu/ ), todas as restantes são do meu arquivo pessoal
* Victor Nogueira
RAÍZES
............."Maianga Maianga
.............Bairro antigo e popular
.............Da velha Luanda
.............Com palmeiras ao luar ..."
.............''A Praia do Bispo
.............Cheiinha de graça
.............De manha á noite
.............Sorri a quem passa ..."
............(das Marchas Populares em Luanda)
Longo era o bairro ao longo da marginal
Longo era o bairro do morro de
S. Miguel ao morro da Samba
Grande era o bairro e grandes
as casas
No meio o bairro operário e a
igreja de S. Joaquim,
estreitas as ruas, pequenas as
casas.
Nas traseiras, o morro, as barrocas,
no alto o Palácio,
Na frente a larga avenida,
o paredão, as palmeiras e os
coqueiros
a praia que já não era do Bispo
mas das pedras, dos limos e dos
detritos.
Mais além a ilha que era península
com a sanzala dos pescadores
casas de colmo no areal
da extensa e boa praia
o mar sem fim.
Em Luanda nasci
Em Luanda vivi
Em Luanda estudei
Não Angola mas Portugal
Todos os rios e afluentes
Todas as linhas férreas e
apeadeiros
Todas as cidades e vilas
Todos os reis e algumas
batalhas
as plantas e animais
que não eram do meu país.
De Angola
pouco sabíamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao
15 de Março
Veio a guerra e
....................a mentira
que alimenta
..................a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade.
Em Évora a 11 de Novembro
Em Luanda a bandeira do meu
país
no mastro subiu.
Era o tempo da liberdade e da
esperança.
No Porto
Em Lisboa
Em Évora estudei
Em Évora casei
Em Évora vivi e nasceram o Rui
e a Susana.
Em Setúbal moro e no Barreiro trabalho
Perdidos os amigos,
perdida a infância
Estrangeiro ......sem
raízes ......sou em Portugal.
Victor Nogueira
1989
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Águas passadas não movem moinhos? Bem ... enquanto passaram podem ou não tê-los movido e assim ajudado ou não a produzir a farinha para o pão que alimenta o corpo sem o qual o espírito não existe. (Victor Nogueira)