terça-feira, 21 de abril de 2026

Nos 49 anos do 25 de Abril (2023)

 


* Victor Nogueira

21 de abril de 2023 
Conteúdo partilhado com: Público
Em 1974, 48 anos de fascismo eram uma eternidade, num tempo de chumbo, sombrio, de cinzas e âncoras em cadeia. Naquele dia 25 de Abril o calor encheu e deu cor às ruas, numa torrente irresistível, anunciando que o futuro começava ali, ao virar duma esquina, no sorriso duma criança.
49 anos depois a memória daquela madrugada perde-se na neblina dos tempos e nenhuma criança sorri e corre dentro de mim, nos tempos sombrios que ensombram o que foram os sonhos de muitos de nós. Como dizia Eugénio de Andrade:
«Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa, 1987, Círculo de Leitores.
Imagem - Cartaz da CM Amadora - 49º aniversário de 25 de Abril

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Águas passadas não movem moinhos? Bem ... enquanto passaram podem ou não tê-los movido e assim ajudado ou não a produzir a farinha para o pão que alimenta o corpo sem o qual o espírito não existe. (Victor Nogueira)