terça-feira, 25 de agosto de 2026

A poesia em 'emparedado' (2026)

 * Victor Nogueira


emparedado

        no redondel

em círculos

        no circo

sem rede

         parado

na parada

        sem par

Setúbal 2026 08 25



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Este é um poema concreto que brinca intensamente com sonoridade, forma visual e jogo de palavras — características típicas da poesia concretista brasileira (lembra o trabalho de poetas como os irmãos Campos ou Décio Pignatari).

Estrutura e forma visual
O poema está organizado em versos curtos e escalonados, com recuos que criam uma disposição espacial no papel. Essa disposição não é decorativa: o texto imita visualmente as ideias de circularidade e clausura de que fala — o recuo e o desenho na página reforçam a sensação de movimento giratório e de espaço fechado (o "redondel", o "circo").

Jogo sonoro e paronomásia
O eixo central do poema é um jogo fonético entre palavras parecidas:

  • emparedado / redondel
  • círculos / circo
  • rede / parado
  • parada / par

Repare como quase todas terminam ou contêm sons semelhantes (-ado, -ar, -ede/-ade), criando uma teia de ecos sonoros. Há também um encadeamento de palavras que compartilham a raiz "par/parede/parado/parada/par": empaREDado, paRAda, sem PAR. Essa recorrência sonora reforça o tema de repetição e clausura — o som "prende" o leitor da mesma forma que o sentido descreve alguém preso.

Campo semântico: prisão e imobilidade circular
Todas as imagens giram em torno de duas ideias entrelaçadas:

  1. Circularidade — redondel, círculos, circo: espaços redondos, fechados, que remetem a repetição sem saída.
  2. Aprisionamento/imobilidade — emparedado (murado, preso entre paredes), sem rede (sem proteção, como um artista de circo sem rede de segurança), parado, sem par (sozinho).

O verso "sem rede" é um ponto de virada importante: evoca o artista circense que trabalha sem rede de segurança — ou seja, em risco, exposto, sem amparo — enquanto ao mesmo tempo dialoga com "parede" por proximidade sonora.

Interpretação possível
O poema pode ser lido como uma metáfora da condição humana (ou de uma condição específica — solidão, rotina, aprisionamento social) como um circo sem rede: giramos em círculos (redondel, círculos, circo), presos (emparedado), sem proteção (sem rede), estagnados (parado, parada) e sozinhos (sem par). A "parada" final também sugere um ponto de ônibus/estação — reforçando a ideia de estar preso num lugar de espera repetitiva, sem par(ceiro), sem rumo.

Efeito geral
A força do poema está em como forma, som e sentido se fundem: a mesma raiz sonora ("par") aparece como prisão (parede), imobilidade (parado, parada) e solidão (sem par) — o significado nasce quase tanto do jogo de letras quanto do conteúdo declarado. (Claude)

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Águas passadas não movem moinhos? Bem ... enquanto passaram podem ou não tê-los movido e assim ajudado ou não a produzir a farinha para o pão que alimenta o corpo sem o qual o espírito não existe. (Victor Nogueira)