terça-feira, 11 de junho de 2024

No tempo em que eu era mais jovem

 


11 de junho de 2014  · 

Público

No tempo em que eu era mais jovem

a minha memória não era uma manta de retalhos

cada vez mais esfiapados

em farelos

Tudo e todos apareciam nos seus lugares

com nitidez

Hoje sou menos jovem

e a história e o passado estão cada vez mais esmaecidos.

No tempo em que eu era mais jovem

o meu rosto era risonho

e o teu olhar cintilante;

caminhávamos lado a lado

As ruas da cidade eram largas e desassombradas

e tu a serei-a dos meus encantos.

Santa Maria dos travesseiros e das travessuras,

tanto que gostámos um do outro

tanto que de ti gostei

e escrevo no passado porque o futuro nunca se realizou.

Se hoje me sentasse perante mim

não reconheceria o jovem que fui nos vinte anos que tive

hoje com as olheiras das noites mal dormidas

e o rosto baço;

apenas os olhos continuam a sorrir com o brilho das pupilas

apenas iguais as finas rugas ao canto dos olhos.

A cidade não cresceu

manteve-se igual a si mesma

pequena, mesquinha, de vistas curtas

sem a vastidão das plagas africanas onde o horizonte estava para além do infinito e tudo era nítido e contrastante

sem meias águas

De abril e das manhã límpidas a grandeza do sonho

da claridade logo ali,

generosa e cintilante ao virar da esquina, ao alcance da mão e no sorriso duma criança, nada mais resta

foram-se as águas e ficaram as mágoas

sem anáguas

No tempo em que éramos jovens

as ilusões não eram mil paredões amortecidos com a dureza duma rocha!

Ainda haverá esse dia que seja alvorada e não cerrada noite?

Quem está por detrás das palavras, das máscaras?

Quem está sem assombro para lá do proscénio?

Quem mora em nós?

Porque azedou a suavidade do nosso riso cristalino e porque nos afogamos na mansidão das águas revoltas?

No tempo em que éramos jovens o futuro não era uma vereda nem a memória uma rede de interstícios

A vida era feita de portas e janelas abertas ao sol, ao vento, à chuva, à brisa ….

Hoje que já não somos jovens

que esperamos um do outro ?

De que cor são ás águas ?

Águas-mil, águas-fel, águas-mel, águas ardentes?

Que esperamos das ondas que morrem na areia da praia?

“Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas”

Cada dia que surge é sempre o 1º dia do resto das nossas vidas!

E cada vez menos são os primeiros dias após cada dia que passa para lá desta noite.

Haverá dia em que a noite se torne ainda alvorada alvoreada,

para além do (es)correr da fina areia que no cerca e soterra ?

De quantos rios e risos se faz o mar

e sobre que ondas as gaivotas se fazem ouvir para além do canto da cotovia?

No tempo em que éramos jovens …

,,, era límpido e generoso o futuro !

E hoje ?

Paço de Arcos 2014.06.11

Foto Victor Nogueira

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Maria Jorgete Teixeira

Fez-me lembrar, vagamente, o poema "Aniversário" de Álvaro de Campos. Volto a dizer: gosto deste teu lirismo nostálgico.

• 10 ano(s)

Clara Roque Esteves

Vítor Victor Nogueira, este é o teu registo que mais aprecio. Uma grande sensibilidade, uma ternura nostálgica, um tecer de sentimentos e sentidos muito bem elaborado, sentido e consentido. Gostei muito. Muito obrigada pela partilha e, mais uma vez, as minhas desculpas se não te leio regularmente porque nem todos os dias entro no FB. Um grande abraço.

• 10 ano(s)

Graça Maria Teixeira Pinto

Brilhante! Destes, gosto! Uma nostalgia, uma ternura,o poeta deixa-se ir por entre as emoções, sem se deter em barreiras. Bj

• 10 ano(s)

Margarida Piloto Garcia

Lirismo cativante neste belo poema. Há um certo desencanto e pessimismo mas ao mesmo tempo aquele "agora sou menos jovem" traz em si uma brisa de esperança. Adorei estas tuas palavras.

• 10 ano(s)

Jose Gravanita

quando nos soltamos num lirismo que abrange o nosso passado, é impossível libertar-nos do desencanto que a nossa vida revela em cada momento...saírmos do novelo é tão difícil!...

• 10 ano(s)

Manela Pinto

amei compadri Vitro, falta o livro, beijo

• 10 ano(s)

Texto reflexivo e encantador. Tudo já está dito, mas gostaria de acrescentar minhas impressões. Quando somos jovens, a esperança parece gritar alto e se mover em nosso peito, e vamos agindo, até sem pensar, porque o grito dela nos ensurdece. O futuro parece mais próximo, e conseguimos determiná-lo com mais clareza. ainda sou relativamente jovem, mas já sinto os sintomas a que você se refere. Quando éramos jovens, fazíamos tudo depressa, e aproveitávamos a vida para errar, já que tínhamos muito tempo para consertar. Agora, que não somos tão jovens, olhamos para trás e visualizamos erros que não foram corrigidos, e acertos sem vvalor ou validade. O desespero da nostalgia bate à porta, mas, como você mesmo disse, Victor, há uma solução; pensar que estamos sempre no nosso primeiro dia de vida. O que passou, passou. E o que ainda passará, não sabemos.

há 9 anos

Filipe Chinita

obrigado.meu querido camarada e poeta

• 5 ano(s)

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Águas passadas não movem moinhos? Bem ... enquanto passaram podem ou não tê-los movido e assim ajudado ou não a produzir a farinha para o pão que alimenta o corpo sem o qual o espírito não existe. (Victor Nogueira)