Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Das Cartas


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* Victor Nogueira
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4º Retrato do pessoal da pensão de Évora

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O silêncio que substituiu as discussões políticas à mesa após a partida da sra.D.Ilda e do sr.Marquês tem sido agora substituído por "importantíssimas" discussões entre o Diogo da Amareleja e o Victor [Dordio] do Cano sobre as altas percentagens de reprovações no Liceu e, sobretudo, como hoje, [por] questões automobilísticas. Enfim, se todos gostassem do mesmo era esta vida uma sensaboria, como diria a sabedoria popular. (MCG - 1972.06.30)

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O senhor Marquês escreveu me [de Aveiro], uma carta muito formal. Está bem. ([1]). Da Bia [de Safara] não há notícias; escrevi lhe meia dúzia de linhas pelo aniversário. O Diogo [de Santo Aleixo da Restauração] foi se embora sem dizer água vai nem a mim nem ao seu homónimo. O [da Amareleja] - agora mais sorridente e falador - fez hoje oral de Inglês [e passou com 13] (MCG - 1972.07.21)

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Sabes quem apareceu por Évora, hoje? O Aristides ! Vem fazer quatro exames, regressando aos Açores no fim de Outubro. Até lá será hóspede da D.Vitória, a quem pagará ... 50$00 diários. Safa! (MCG - 1972.09.29)



[1] - O senhor Marquês era um velhote, empregado bancário, que por problemas familiares que não recordo teve de ir para Aveiro. Na tertúlia da casa da D. Vitória era um pacato conversador, delicado, mas pouco sorridente, parceiro nas partidas de cartas. Fisicamente fazia lembrar o David Niven, embora sem bigodinho. Passado algum tempo soubemos que se suicidara.


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Auto retrato IV



Aqui em casa novamente; a tua carta amiga e cordial diante de mim, Zorba no gira discos, uma vontade doida, que acordou esta manhã comigo, uma vontade doida de bailar até ao delírio para cansar sei lá o quê ... as tensões pela alegria e pela impossibilidade da tua presença ... Mas o importante és tu e a alegria ao pensar-te. Como ficaria ou me sentiria se aceitasses namoro ao Diogo? É parva, a miúda! Sei lá como ficaria ou me sentiria se isso acontecesse! Vê lá se queres que eu me estenda ali na cama a pensar no que sentiria se... Somos demasiado cautelosos para nos comprometermos e portanto somos livres de fazermos o que quisermos (ou pensamos ser o nosso querer); continuando com as nossas interessantes conversas sem nada de concreto, podendo dar lhe o significado que queiramos. Apenas sei dizer te que gosto da tua maneira de falar e de escrever - reflexo teu - e que sinto um enorme desejo da tua presença, do teu riso, do teu corpo, em suma, de ti. E sei também que a minha maneira de ser, a minha frieza e austeridade, se não permitem que eu viva tão intensamente como desejaria, também não me deixarão morrer. Eduquei me para nunca me entregar totalmente e deixar sempre assegurada a retirada. Esta é a única resposta que posso dar à tua questão hipotética. (MCG - 1972.07.06)

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Não sou leve, saltitante, alegre nem sempre consigo com uma risada responder ás questões. Sei que sou frequentemente chato, impertinente (sem o "savoir faire" social). Sei que és diferente de mim. (MCG - 1972.08.24)

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Dia de correio

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São 12:30. [Em Paço de Arcos] ouço o portão chiar e assomo à janela ... e não vejo ninguém (Algum miúdo que entrou e saiu, penso eu). Mas eis que batem com a aldraba na porta. Abro a e lá está o carteiro no gesto habitual, mão estendida com as cartas (hoje, apenas carta!) Cumprimentamo nos e agradecemos mutuamente. Fecho a porta. Regresso à sala de estar, pego na tesoura para abrir o sobrescrito, que resguarda as notícias da Celeste. "Olá, mocinho! Tenho apenas 21 anos dizem me (a idade das, de algumas liberdades consentidas) ... " e continuo numa surpresa crescente, como a quem se revela numa faceta até aí ignorada. Todo eu sou uma crescente surpresa estupefacta! Apago o gira discos - que transmite canções do Nelson Eddy. Estou agradavelmente surpreendido e preciso de concentrar me para perceber isto tudo, estas linhas inabituais. Volto ao princípio. Releio com os olhos, com a inteligência, com sofreguidão, com todo o meu ser, para aperceber me duma Celeste desconhecida. Surpreso, não tanto pelo conteúdo, mas pela forma, pela linguagem invulgar (nela). É verdade que há alguns "senãos". (Não me apercebi ainda, p.exemplo, que ela soubesse que existe uma "certa técnica" aprendida, de beijar). Continuo a ler e, repentinamente, tudo se desmorona, numa enorme decepção. "Não Victor, tens razão, o palavreado não é meu ... "

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Resta me pois saber como é a personagem dum conto de [Urbano] Tavares Rodrigues com quem te queres identificar. É uma curiosidade desenganada que fica em mim. (MCG – 1972.09.06)

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Daqui desta terra

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Aqui estou no meu quarto, buscando para ti as palavras que não encontro, corpo sem imaginação mas irritado e desassossegado pela constipação que me percorre as veias e me enche dum nervoso miudinho. Busco para ti as palavras dos outros, nos livros dos outros, os ponteiros aproximando se das nove e trinta, hora da vinda do homem que levará de mim as letras que cadenciadamente vão surgindo no papel branco que já não é só! Busco as palavras e apenas encontro estas, hoje vazio de ti pela tua ausência, ontem pleno pela nossa presença. São vinte e uma e vinte, hora de parar, os livros espalhados pela mesa, o corpo quebrado, a imaginação e a voz quase secas e frias. Daqui desta terra, para ti noutra terra, te abraço e beijo com ternura e amizade, na memória do tempo que fomos juntos. Aqui estou! (MCG - 1972.09.21)

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Desabafo

" ... mas palavra que fico desiludida quando pego na caneta para escrever te e saiem coisas tão diferentes das tuas (...) Somos tão diferentes! --- que ... a ver vamos!" (de MCG para o «mocinho» - 1972.10.03)

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8º Retrato do pessoal da pensão de Évora

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A propósito de miúdas, a D.Vitória desistiu da salinha de estar para as visitas importantes - agora é o seu quarto de dormir - por ter alugado o outro a três alunas do Magistério, altas como torres. Como é natural, há duas mesas - a dos senhores importantes (eu e o Diogo da Amareleja) ([1]) e a outra. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1972.12.04)

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Já almocei. Isto agora come se mal p'ra burras. Como comerão o Diogo [de Santo Aleixo da Restauração] e as miúdas na cozinha? (MCG - 1973.01.10)

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Disse me a D.Vitória que a "menina" Celeste telefonara. (Ah! este tratamento!) Não sei se haveria "festinha familiar" [pelo meu 27 º aniversário], mas sabes como as não aprecio por nada me dizerem. Jantar fora e chegar de madrugada foi um pretexto para malográ la e, simultaneamente, estar com amigos. (MCG - 1973.01.06)

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É sem grande prazer que daqui a pouco vou até ao café perder mais tempo. Aborrece me, no entanto, este enorme quarto, vazio de pessoas. A casa da D.Vitória, por motivos óbvios, não oferece condições para convívio. E este ano é o fim. O Diogo [da Amareleja] passa a vida fora de casa. As miúdas, enfiadas no quarto. De resto as nossas relações agora estão muito desagradáveis para mim. Como não sou tipo de salão e como as condições de convívio são praticamente nulas, limito me ás minhas secas e distantes saudações, a que nem sequer correspondem. Mas já antes disso passavam pela sala [vindas da cozinha], quais bichos do mato, sem nos saudarem. (...) Ouço subir as escadas. A propósito, sabes que estas miúdas não vêm cá acima senão duas a duas !? Que reles! Imaginar me ão e ao Diogo ali atrás da porta de olhos brilhantes e respiração opressa prontos a "saltarmos-lhes ao espinhaço", como se diz na gíria?! Já o sr. Prates não se enfia no quarto dele sem dar duas voltas à chave! Ah! Ah! Ah! ([2]) (...) Daqui a pouco vou sair - à chuva, ao vento, desafiando as intempéries e o furor das divindades - para meter esta presença de mim no marco do correio. (MCG - 1973.01.16)

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Ali na sacada a Eglantina - com os seus longos cabelos louros e os bonitos olhos verdes - secava aqueles enquanto estudava Geografia Económica. (...) A Vi aprimaverou se no vestuário mas eu é que não abandono a gabardina enquanto não vierem melhores dias. ([3]) (MCG - 1973.03.22)

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O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado(....) A Vi. faz exame depois de amanhã. (...) [O Orlando] deu me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho agora pediu me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou me revistas, separou me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)



[1] - Desde sempre e por princípio os rapazes, cada um com seu quarto e pagando mais por isso, e as pessoas empregadas e mais velhas comiam na sala, que dava para a cozinha, onde comiam as alunas do Magistério, que compartilhavam o(s) respectivo(s) quartos, pagando individualmente menos de pensão. Na cozinha comiam também a hospedeira e família.

[2] - Nunca nenhum dos rapazes fechara a porta do respectivo quarto á chave!

[3] - O esquentador a gás encontrava se dentro da casa de banho, cuja janela dava para um telhado sem vistas indiscretas. Contudo, ao contrário dos rapazes, as raparigas cerravam sempre a janela, o que era perigoso quando os banhos se sucediam uns aos outros sem que se arejasse o aposento. De modo que algumas vezes lá havia uma miúda com princípio de intoxicação por monóxido de carbono. À Vi deu lhe forte e feio. Alertado pela barulheira no quarto ao lado da casa de banho e do meu, lá fui, encontrando a D. Vitória muito aflita tentando desatar o cordel que cerrava o postigo, para poder abrir a porta por dentro. Lá fui buscar uma tesoura ou canivete, cortei o cordel, abriu se a porta e, oh! céus, estava a Vi inconsciente no lajedo e como Deus a pusera ao mundo. Mandei que chamassem uma ambulância e entretanto fiz-lhe a respiração boca a boca. Entretanto chegara a ambulância e a D. Vitória, escandalizada com a nudez, queria à viva força que se levantasse a mulher, ainda inconsciente, para vestir-lhe um roupão, antes de metê-la na maca. Irritado, disse à D. Vitória que aquilo era o menos importante, pois com tanta delonga ainda a rapariga morria. Oh! Deus, o que fui eu dizer! A Vi levanta-se num repente, descendo as escadas completamente nua, a caminho da ambulância pelo seu pé e bramando: Não quero morrer! Não quero morrer!

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Já uns anos antes acontecera o mesmo a outra rapariga, a Linda, a quem tive também de fazer a respiração boca a boca. Mas essa não precisou de ir ao hospital



Uma troca justa

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Estou a escrever lentamente por dois motivos, o principal dos quais é o facto desta nova carga da esferográfica ser extra fina, e portanto pouco deslizante pelo papel. (...) Fiz um negócio com o Camilo e trocámos as cargas das canetas. Sem dúvida alguma ambos lucrámos; ele porque escreve mais palavras por linha, eu porque escrevo mais por minuto. Estas cartas, escritas ao sabor do tempo e das ocasiões, lidas posteriormente, devem mostrar o seu verdadeiro valor, isto é, nenhum. (MCG -- 1973.01.22)

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Interrogativamente

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Telefonei te, porque desejava falar contigo, ouvir te, acalmar a contrariedade. De lá veio a tua voz tímida, pequenina e depois ... depois o silêncio, o "não percebo o que queres dizer", o "então deixa me." Mas eu não queria magoar te, apagar o teu sorriso bom e alegre, de salta pocinhas que amo, no silêncio do meu quarto, e que perco tantas vezes. Parece me importante que as pessoas ajam com inteligência, procurando dominar os acontecimentos e as palavras e não serem dominados por eles. E não é isso que me está sucedendo. Mas queria te também mais senhora de ti, lutando pelo que te diz algo. Daí as pedras que semeio ou em que por vezes transformo aquilo em que toco. De ti saberei apenas que esperas de mim amizade e compreensão (e talvez também ternura) Seremos capazes de dar isso um ao outro? Que é realmente importante? A nossa relação só tem razão de ser se for fonte de liberdade e alegria, para nós e para quem nos rodeia. Que não se transforme em pesadas cadeias pantanosas. Seremos nós capazes disso ? Estará certo o nosso caminho ? Seremos ambos capazes de reconhecê-lo ?



A resposta busca-se no presente que me desagrada, sem saber em quem, onde e como encontrá la ! E no entanto pareceria tudo tão fácil, amiga. Soubesse eu mais de ti. Fosse eu menos impaciente !

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Somos nós e não só eu quem deverá decidir do futuro da nossa relação. (MCG - 1973.04.08)

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O apartado 65

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O Apartado 65 ([1]) pede me para dizer te que tem sentido muito a tua falta e que se sente muito sozinhito (como diria o João Machado); ele bem gostaria de dar me o contentamento das tuas notícias, e para isso bem se mantém alerta e vigilante, numa expectativa gorada sempre que se ouvem os passos do carteiro e o acender da luz. Mas é quase tudo ali p'ró lado, p'ró 63, que por sinal até é uma agência de casamentos muito falada nos pequenos anúncios do Diário de Notícias! Coitadinho, eu bem lhe digo que se não preocupe por ter a mala vazia quando lá vou, mas que queres, fica sempre triste por não me contentar. Digo lhe que os negócios do 63 são outros, que ali o 65 é mais para outros negócios, de coração ou não, mas ele não se convence. Lá o deixo meditabundo, mas diz me lá. C., que mais lhe hei de eu dizer? Ás vezes torno lá à tarde, para fazê lo apanhar uma lufada de ar fresco, mas ele mostra me logo que não! Vês, C., vês o que fazes? Habituaste lo mal e agora ...

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Sim, que o desconsolo dele acaba por ser contagioso. (MCG - 1973.04.12).



[1] - Sempre tive apartado em Lisboa, enquanto estudante, e em Évora, até de lá sair. Dava-me liberdade de mudar de quarto quando tivesse de acontecer ou de reexpedir a correspondência, quando em férias. Em Lisboa o apartado ficava na Estação dos CTT da Praça do Comércio, perto dos Paços do Concelho e era, salvo erro, o 2354.

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Breve história dum miúdo: o Jorge

(...)

Comigo, aqui na mesa encarnada do Arcada, após o jantar, a minha mãe e o Jorge, que trabalha como ajudante de carpinteiro, vencendo uma jorna de 70 $ 00. Em Setúbal ganharia 120 $ 00, mas os pais prendem no aqui no burgo [Évora] (...) O Camilo e o Carlos não apareceram por aqui. O Jorge está aqui com uma conversa muito adulta, apesar dos seus dezasseis anos. Ele agora está atrapalhado. Por causa da minha mãe passou a tratar me por "Senhor Victor" e por "vocemecê" [abandonando o "Victor" e o "tu"] (...) Perguntei ao Jorge se queria escrever qualquer coisa [para ti, nesta carta], mas ele não quer, pois diz que parece mal a letra dele ao pé da minha de doutor. ([1] ) (MCG - 1973.12.06)

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[1] - Ao arrumar papelada, encontrei um texto que ele dactilografara na minha velha Olivetti Lettera 2000: a primeira parte é um conto, escrito com piada embora com muitos erros ortográficos. É demasiado longo para esta nota de rodapé. Na segunda parte escreveu: "1. - O senhore Vitor Nogeira 'e muito meu amigo e axo que ele tambem gosta de mim | eu pelo menos gosto dele | as coizas que eo gosto de fazera! | gosto de escrever a maquina | gosto de houvir discos | gosto de ler livros | 2. - (gosto muito dos meus pais foram eles que me quriaram;" Ainda hoje me comovo com este escrito, especialmente com a segunda parte.

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(...) Daqui a pouco vou sair - à chuva, ao vento, desafiando as intempéries e o furor das divindades - para meter esta presença de mim no marco do correio. (MCG - 1973.01.16)

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Uma ida ao correio

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Vai uma pessoa de manhã ao correio, para o monte das que esperam pela abertura dos portões. Vai uma pessoa após o almoço, a cidade envolta num bafo quente Penosamente o corpo abre caminho pelas ondas de calor. Sai do Arcada, curva à esquerda, segue em frente até ao Largo do Sertório. Faltam só 20 passos, 19. 18 ... 10 . 9 . 8 . 7 . 6 . 5 . 4 . 3 . 2 . 1 . (Uffa, finalmente a sombra dos arcos do correio, agora mais bonito porque deitaram abaixo o prédio nas traseiras do edifício da Câmara Municipal - o prédio que agora se avista é lindo. Deviam, no terreno vago, plantar erva e árvores frondosas. E colocar bancos. Mas tá quieto! Já andam lá tractores a escavar. Deve ser para outro prédio.) Entretanto entro no edifício. Viro à esquerda, dirijo me para o apartado e ... levanto me da mesa onde estou e procuro no monte das cartas e ... ah! deve estar ali. EUREKA - cá está! Não é! Olha, não encontro. Paciência. Mas que baldes de água ando apanhando! Safa! Nem um postalinho! (MCG - 1973.06.17)

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O harém do Carlos

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O Carlos faz hoje 24 anos, mas preferiu o harém dele a mim e ao Camilo. O nosso jantar fica para amanhã. (MCG - 1973.06.17)

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Está tudo dito: é um sentimental

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Disse ao Carlos que ia casar a 1 de Agosto. Ele ficou tão comovido, tão comovido, que até me deu vontade de rir. 'Tadinho dele. Depois disse‑lhe que tínhamos acabado tudo, e ele ficou tão triste, tão triste, que nem imaginas. Está tudo dito: é um sentimental! Se ouvisses os elogios que ele te fez, que nós estávamos talhadinhos um para o outro, blá, blá. De modo que tive pena dele e disse‑lhe que sim senhor, que íamos casar a 1 de Agosto. (MCG - 1973.06.26)


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O 1º emprego, a tempo inteiro

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Estava eu já todo porreiro da vida, de saco aviado, prestes a partir para Lisboa, quando telefonei ao [Aníbal] Queiroga, como combinado. Assim, tive de adiar a viagem e estou aqui na Escola Industrial de Évora há quase 2 horas, primeiro aguardando que chegasse o Presidente da Comissão de Gestão e agora que S.Exa se digne terminar o despacho com o Chefe de Secretaria (…)

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Não sei bem se isto que está em mim é "nervoso" ou ... gripe. Os dados estão lançados e vou para Évora dar aulas na Escola Industrial. O Dr.Pimentel queria que me apresentasse ao serviço já na 3ª feira, a mim convinha me na 4ª e acabou por ficar para 5ª! Vamos lá ver como isto corre. Hoje e amanhã tenho de preparar a lição. Ah!Ah!Ah! (isto é para disfarçar a morte que me vai na alma). Francamente, não me seduz ser professor de meninos! Mas ... podia ser pior! (MCG – 1974.12.02)

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Já hoje me deram o horário ("o senhor doutor para aqui", "o senhor doutor para acolá" - deixarei de ser o Victor contestatário ?), ([1]) fizeram me as recomendações ("isenção, nada de transformar as aulas em comícios", "CDS não, mas PPD para a esquerda, sim, mas não extrema esquerda" informaram me do ambiente político (predomina a UEC, há divergências entre os alunos de dia e de noite, por causa da Associação de Estudantes); enfim, eis me apanhado pela engrenagem. ([2]). Tenho 29 1/2 horas semanais de aulas (não sei quanto será ao fim do mês) ([3]) e um horário muito sobrecarregado (a maioria das aulas à tarde, 3 à noite, nenhuma ao sábado e 2ª de manhã - "Assim o sr. dr. pode ir para Lisboa". ) Tenho alunos - rapazes e raparigas - desde os 13 aos 30 anos. A maioria entre os 14 aos 19. Só à 3ª tenho aulas ás 9 da manhã. (...) Cá recebi hoje no apartado a tua carta cheia de "bons" conselhos (Como se aturar adolescentes e dar "Introdução à Política" for o mesmo que aturar ingénuas criancinhas!) De qualquer modo, obrigadinho. (MCG - 1974.12.05)



[1] - No princípio este tratamento por senhor doutor incomodava-me deveras. Agora já me habituei e por vezes faz jeito, embora goste mais de ser apenas o Victor Nogueira. Estudante, na casa da D. Vitória era apenas o Victor ou o senhor Nogueira

[2] - Centro Democrático e Social, Partido Popular Democrático

[3] - Recebi anteontem o vencimento; apenas as horas normais, a 60 $ 00 (Não recebi os 4 primeiros dias). Creio que o meu vencimento líquido são 6 700 $ 00, aos quais serão de acrescentar as horas extraordinárias, pagas ... a um preço inferior ás normais! Ah!Ah!Ah! Isto é que o Estado é um bom patrão! As extraordinárias devem ser aí mais uns 1 800 $ 00 a 2 100 $ 00. Quanto a 13º mês ... só para o ano. (MCG - 1974.12.21)

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terça-feira, 20 de maio de 2008

NOTA IMPORTANTE - Esta não é uma mensagem de SPAM

NOTA IMPORTANTE
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Esta não é uma mensagem de SPAM mas sim enviada a alguém que por qualquer motivo conheço na vida real ou na WEB. Se não quiser receber mais mensagens devolva esta com a indicação «Retirar da Lista» na barra de assunto.
Saudações do
Victor Nogueira

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NOTÍCIAS DO BLOQUEIO - I

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Do Victor Manuel para alguém, saudações

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Não as notícias do meu amigo

mas apenas um aceno

entre a espontaneidade e a reserva

com maior ou menor lucidez e serenidade

neste deserto mais ou menos florido

neste caminho quotidianamente (des)feito

por entre os farrapos das alegrias

dos sonhos

das imaginações

por coisa nenhuma

um apelo

um gesto

apenas

uma simples palavra

Olá amiga!

9501.231.1 / 2.057

.Na tua mão

bate estrangulado

o meu coração.

Preso no teu olhar

bate suave

muito leve

com desejo de voar.

Onde o riso e a palavra

que o façam sossegar?

Neste jogo de palavras

e de gestos comedidos

Aqui

neste canto da cidade

preso à roda do leme

em sonhos

que sonho em ti

busco o passado que não fui

no futuro que não serei

.

suspenso do teu andar

.

Arde-me o sangue nas veias

neste fogo vento suão

murmúrio do teu sorriso

verde brisa na planura

fresca do teu olhar

SEM A VENTURA

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Tu foste a esperança

em que mergulharam meus dias sequiosos

Esperança feita de pequenos nadas

Um sorriso

Uma palavra amiga

Um gesto de alegria!

Mil pássaros nasceram nos teus lábios!

Mas hoje

hoje

escuto nas tuas mãos

o silêncio dos campos destruídos

enquanto um navio sulca

lento

um deserto de flores esmaecidas!

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1988.01.04

Setúbal

SÃO TRISTE MADRIGAL E MELANCOLIA 8909.153.0 / 2.045

Pus a bordada toalha de renda,

No candelabro acendi a vela,

Alindei a mesa com trigo e rosas,

Preparei o vinho e a codorniz.

Em surdina a música e a prenda,

Feliz contigo, poema na tela:

Ternura e beleza mui preciosas.

Mas faltaste ao amador-aprendiz;

O jantar lixou-se, não estou feliz!

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1989.09.11

SETUBAL

Amizade

espelho de muitas leituras

encanto descoberta

aventura de ser

presente pássaro lançado no vento

gaivota

inebriante

flor

uma rosa verde papoila

um bosque

nas encostas do mar sem fim

um canto de alegria

canto

delicado

suave

leve

suspenso

de alguém

Amor

espelho de muitas leituras

encanto descoberta

aventura de ser

amigo pássaro lançado no vento

rio tumultuoso

violento

inebriante

flor

uma rosa verde papoila

um bosque

nas encostas do mar sem fim

um canto de alegria

canto

delicado

suave

leve

suspenso

de ti

AMOR BREVE OU SERENO

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Amor rompante

de repente

ou deslizante

.

Amor quente bem se sente

escaldante ou suavizante

envolvente comoção

Amor paixão

amor de Verão

que dura

perdura

o instante dum clarão

breve (n)a escuridão

.

Amor de inverno

amor de inferno

temporão

.

Amor que dura

perdura

o da tua mão

o da razão

temperando o coração

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OU NÃO ?!

CANTILENA COM MAU GOSTO

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Quem quer ver a moça bela

Que na rua vai passando,

Florida, com sentinela,

0 meu sossego roubando?

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0 meu sossego roubando

Sem leveza d'andorinha,

Em má prisão esvoaçando

Não te vendo, Oh! sinházinha!

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Não te vendo, oh! sinházinha,

Um deserto vai nascendo;

Bem longe da minha vinha

Por ti mal, vou fenecendo,

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Por ti mal, vou fenecendo

Nesta casa sem calor;

Não quero ficar sofrendo

Como trigal sem verdor,

.

Como trigal sem verdor

Não me deixes tu ficar;

É bom ter calma d'amor

No mar alto a navegar,

.

No mar alto a navegar

Remando àquele porto,

Com roussinol a cantar

Mui cantante, sem desgosto.

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Mal cantante, com desgosto,

Vou deixando de cantar;

Ficando mal, mal disposto,

Pela companh'a a fugar!

SOSPIROS, CUYDADOS, PAYXOES DE QUERER,

SE TORNAM DOBRADBS, MEU BEM SEM VOS VER (Garcia de Resende)

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Sem feitio nem jeito

No mundo caminhando

Esta dor no meu peito

Levo, rindo e chorando!

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Ah!Ah!Ah!Ah!Ai!Ui!

Á procura d'amor

Ao teu encontro fui

Depressa, sem calor!

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É tam grande trysteza

Amar ssem sser amada

Que nam vejo beleza

Ssem ti, bem a meu lado.

.

Belas, d'amigo são,

Cãtygas medievais

Chora meu coração

Ay, já nam posso mais!

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Ruiz, Camões não sou

Mas muytos mil beijinhos

E abraços te dou

Nam fiquemos mal, sózinhos!

.

Oh! Ribeyras do mar

Que tendes mil mudanças

Minha dor e lembranças

Levai; trazei seu amar!

.

O Ssol bem escurece

Cai, a noite se vem

Minha alma nam falece

Se és comigo, meu bem.

.

Paço de Arcos

1989.08·30

TELEDRAMÁTICO

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Atenção

caros radióvintes e télespectadores

guardiães e defensores da moral e ordem públicas

um homem e uma mulher cruzaram-se à esquina da vida

Que buscam enganados?

um carro?

a ternura melodiosa?

uma casa?

a limpidez dos regatos?

crianças?

o marulhar das ondas?

uma vida sem fome?

o canto do rouxinol?

alegria de viver?

.

Procurem-nos nas colunas dos jornais

no “compro" no “ofereço"

no "procuro" no "vendo"

Atenção

Queridos télespectadores e radióvintes

afiem a língua viperina

a tesoura da costura

0 corte na casaca

.

Um homem e uma mulher sentaram-se à esplanada da vida

.

Atenção

.

mães

protectoras e zelosas

esposas

dedicadas estremosas

recatadas companheiras de trabalho

é necessário muita atenção

resguardem as vossas donzelias das lúbricas investidas

deste engenheiro - chefe

protejam os vossos maridos da devassidão

desta operária - dactilógrafa

defendam as vossas louras crianças deste escândalo

.

desta infâmia

guardem os vossos lares e as vossas famílias

(façam-no pela calada ou não o façam)

.

Este homem e esta mulher não sabem comportar-se

É necessário abatê-los

enquanto é tempo de

lavar esta afronta ao templo da Sagrada Família

da Propriedade Privada

da Democracia Musculada

da Santa Madre Igreja

.

Alguma coisa se repete

nas árvores que dão frutos

Um homem e uma mulher

.

encontraram-se no terraço

numa casa duma vila alentejana

sob o céu maravilhosamente estrelado

de uma noite de verão

ousaram desafiar os bons e seculares costumes

a desordem estabelecida

são ignorantes nada aprenderam

nos bancos das escolas

E no entanto deviam sabê-lo

Tinham obrigação de conhecê-lo

o jovem estudante e a professora

Foram demasiado longe

deram grandes passeios

pelas ruas da vila

pelos campos da mouraria encantada

subiram a pulso a muralha do castelo

sentaram-se à beira do penhasco

ousaram contemplar o sol

comer os frutos da árvore da vida

da ciência

do bem e do mal

.

e no entanto

enredados na tibieza dos seus fantasmas

enleados na teia do seu passado

quebrados pelos vigias na torre da atalaia

um homem e uma mulher naufragaram o norte e o futuro

salvando-se a honra e sossego deste convento

.

Atenção

estimados radióvintes e télespectadores

é preciso não esquecer que

os homens podem andar com os homens

desde que

não sejam paneleiros

as mulheres podem andar com as mulheres

mesmo que

sejam fressureiras

Mas ...

MORALIDADE DE LA PARVÓNIA

.

um homem e uma mulher

só andarão juntos

de mãos dadas quando

marido e mulher recém - casados

solteiros

namorados

crianças ou coisas assim.

No resto ou são amantes

mal casados

quando não pior!

.

COM PÓZINHOS DE PERLIMPIMPIM

ESTE FOLHETIM

É MESMO O FIM

.

Victor Nogueira - Poesia

8507. 033.0 / 5. 007

1985.Julho.30

Agarro os restos de mim

Preso por arames

Meto-me na mala

Ponho o pé na estrada

Malabarista do verbo

Bordejando as chamas

Tiro das palavras o sentido que lá não está

Hoje,

De novo á beira do caminho

Ergo novamente os diques

Tapo os interstícios da muralha que rompeste

Baixo lentamente a vizeira

Reponho a máscara

Numa pirueta

Até que o coração pare

ou a serenidade regresse

De MM

Enviada: terça-feira, 20 de Maio de 2008 8:33
Para: vicnog

Assunto: Bom dia meu Amigo!

Você conhece o relacionamento entre seus dois olhos?
Eles piscam juntos, eles se movem juntos, eles choram juntos,
eles vêem coisas juntos e eles dormem juntos.
Embora eles nunca vejam um ao outro... A amizade deveria ser exatamente assim!
Estamos na SEMANA MUNDIAL DO MELHOR AMIGO.
Quem é seu melhor amigo? Envie isto para todos os seus melhores amigos. Mesmo para mim, se eu for um deles. Veja quantas você consegue de volta. Se você conseguir mais de 3, então você é realmente uma pessoa cativante.




quinta-feira, 15 de maio de 2008

Os «manos» Nogueira ou o poeta é um fingidor




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Autopsicografia
.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

,
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
.
***************
.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).
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Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
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Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.
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De Fernando Nogueira Pessoa
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Neste jogo de palavras
e de gestos comedidos
Aqui
neste canto da cidade
preso à roda do leme
em sonhos
que sonho em ti
busco o passado que não fui
no futuro que não serei
.
suspenso do teu andar
.
Arde-me o sangue nas veias
neste fogo vento suão
murmúrio do teu sorriso
verde brisa na planura
fresca do teu olhar
.
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******************
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Agarro os restos de mim
Preso por arames
Meto-me na mala
Ponho o pé na estrada
Malabarista do verbo
Bordejando as chamas
Tiro das palavras o sentido que lá não está
Hoje,
De novo á beira do caminho
Ergo novamente os diques
Tapo os interstícios da muralha que rompeste
Baixo lentamente a vizeira
Reponho a máscara
Numa pirueta
Até que o coração pare
ou a serenidade regresse
.
1987.08.07 - Setúbal
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Dizem que os livros são os nossos melhores e maiores amigos.
Mas os livros não se sentam á nossa beira,
nem tem olhos, nem sorriem
nem nos abraçam,
nem connosco passeiam pela rua, pelo campo.
Nada podemos dar aos livros
senão as letras dos nossos pensamento ou
um pouco de nós
para que chegue aos outros.
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Os livros têm os olhos que nós temos.
E os seus lábios são os nossos lábios.
Porque se os livros tivessem olhos
e lábios e mãos e dedos
seriam talvez pessoas
mas nunca livros.
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Évora
1969.Março.19
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Límpidas como veludo
Cálidas, delicadas, saltitantes

brotam dos nossos lábios as palavras ...
Por entre os dentes cerrados
duras, agrestes, cortantes

irrompem as palavras.
São uma ponte, um muro
alinhadas ou em torvelinho
um labirinto, um caminho
enquanto o tempo escorre
----------e o carinho apetece.
Tantas palavras para
não dizer
que somos jovens
homem e mulher
enquanto as mãos
compostas
pousam no regaço ou no volante

enquanto lá fora
correm o ar e a brisa e no mar se quebram as ondas
e na estrada
passam os carros velozes.
Tanto mar e tanta sede.
.
1986.01.01 - Paço de Arcos
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É UM PÁSSARO É UMA FLOR
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Uma águia paira no ar.
Correm os rios e as ondas
-----------------em espuma se desfazem
A brisa traz o cheiro a maresia
enquanto ouço nesta alvorada
----------------a carícia do teu rosto
----------------no veludo da voz quando despertas
----------------o teu corpo esbelto e apetecido.
Procuro-te na ternura das mãos
------------enquanto
------------sequiosos
------------os lábios murmuram
palavras de silêncio e prazer.
.
Gaivotas partem em bandos.
.
É um pássaro trémulo o silêncio desta flor do mar
E dói esta mágoa do que ficou encoberto
------------------como bosque semeado fora do tempo
------------------como sol arrancado antes de florir.
.
Ah! quem parasse o escorrer destes dias!
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1986.05.01 - Setúbal
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clicar nas imagens para ler

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DECLARAÇÃO: O poeta é um fingidor
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Maria do Mar, Maria Papoila, Maria dos Mil Sóis Rendilhados, Maria Vai com as Outras, Niña do Beco dos Passarinhos, Joana Princesa com Sabor a Cravo e Canela, Fatma das Caldas, Fátma da Ilhoa da Floresta Queimada, Madre Abadessa Diabinho Diabeza, Niña de Aguiar e Belmonte, Joana da Côr do Trigo em Flor, Joana Ratinho, Gaivotinha, Flor do Mar sem Guarida, Mana Flor ou Mana Clarisse , Raposinha, Penélope, Luciferazinha, são  personagens talvez verdadeiros mas com nomes inventados. João Bimbelo, João Baptista Cansado da Guerra ou o Conde Niño são personagens e como tal não existem. Se existissem, então eles não estariam de parabéns por qualquer delas. Mas elas, talvez os merecesssem, apesar de inventadas pelo escriba, a quem teriam deixado para trás :-)
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Talvez porque o escriba, embora malabarista do verbo bordejando a chama, pouco valor teria nas histórias que inventava com a liberdade e arte que a todos os escribas é permitido.
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Victor Nogueira aka Kant_O_XimPi.Manog
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PS – Mais declara o escriba que não costuma ficar a chorar pelo leite derramado e do passado procura reter apenas aquilo em que foi feliz. O resto, o resto são «estórias», como agora se diz.
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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Ok! Afirmativo :-)

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Sabugal

Mértola

Covilhã

Alcácer do Sal


Cabeço de Vide

Cabo Sardão



Vila do Touro




Vila Nova de Mil Fontes


Vilar de Mouros



Vila do Conde


Óbidos


Nazaré - Praia


Nazaré - Pederneira


Nazaré - Sítio


Monsanto



Monsaraz







Mértola




Évora




Aljezur


Alcácer do Sal

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texto e fotos de Victor Nogueira
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Rememorando:
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Esrá foto é de Vila Nova de Mil Fontes. Ou não?
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Bem, seja ou não, foi nesta zona que encontrei as únicas praias que sabiam a sol,a sal e areia como as da minha terra perdida. A vila era uma estival e atravancada babilónia mas nos arredores encontrei os tais quilómetroos de areia quase vazias.
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Outra surpresa foi encontrar Porto Covo, antes do Rui Veloso. Era uma comprida e rectílinia estrada alentejana, de margens «despovoadas» ao fim da qual desemboquei num largo com dimensão humana, na altura um oásis que me encantou tanto como uma aldeia alentejana chamada Santa Susana ou as vilas de Aljezur e Alcochete antes desta ter sido escavacada e descaracterizada por «Vasco da Gama».
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Claro que podeia citar outras maravilhas, como Silves, Mértola, Alcoutim, Monsaraz, Marvão, Castelo de Vide, Idanha a Velha, Monsanto, Castelo Novo ...

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VM

Onde está a verdade ? Ou a Hora da Verdade?

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É bom ficar pensando em você ....

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foto por Maya Della
,

É bom

ficar pensando

em você

mas às vezes

cansa ...


... pois gosto de ti e da tua presença e companhia, mas tu andas longe e por outros caminhos em busca do sol e do mar, deixando-me na berma da estrada com as mãos vazias e um conto amarfanhado e por terminar a meio caminho de coisa nenhuma "E houve um gesto, [ um nome, ] uma palavra que se intrometeram [ e confundiram ] e burilaram os sinais, refrearam as palavras [ e as mãos ] e não houve tempo nem ocasião para que João Qualquer Coisa dissesse com simplicidade:


Gostas de mim? Queres ser minha companheira ou namorada? Mas nem João nem Joana tinham a simplicidade da gente simples, pelo que o canto ficou a meio caminho de coisa nenhuma. E não havia nem sol nem mar nem estrelas nem o murmúrio de mil candeias, nem os olhos da cor do trigo em flor eram um campo de giestas com sabor a cravo e canela [ onde as aves encontrassem a liberdade. ] E por isso por todo o lado havia um pesado, envolvente e crescente cansaço, invadindo todos os poros e o menor interstício, as palavras e os gestos esfarelando-se em negro de fumo, um areal no lugar do coração, vulgaridade quanto baste, uma gasta armadura impedindo a pirueta e o sorriso de quem lança os males por cima do ombro e prossegue a caminhada de mãos nos bolsos e assobio nos lábios, a passada larga e despreocupada, em busca de outros portos e marés onde o viajeiro pudesse finalmente descansar da guerra e sentir o ar belo e calmo e o mar verde e sereno que busca(ra)em Joana Princesa dos muitos, doces e ásperos nomes, mulher-menina, mulher-achada de mil promessas em flor fugidas."


E voltando de novo sobre si mesmo, o viajeiro perguntou: Queres ser minha amiga e ensinar-me a ser teu amigo?!