.
Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507 .
*
Victor Nogueira.
Todas as profissões, em si e por princípio, são igualmente respeitáveis. () Mas e de qualquer modo não há qualquer futuro numa relação com uma pessoa em quem não confie e em quem não acredite, não há para mim qualquer futuro numa relação que se baseie na deslealdade, na falsidade e na dúvida. ( ).
Como atrás disse e repito, quando iniciámos a nossa relação com o grau de intimidade que assumiu, isto aconteceu, pela parte que me cabe, com base em dois pressupostos, que te ias divorciar - e numa convicção - a profissão que afirmavas ser a tua.
Sou teu amigo, embora a amizade tenha limites, gosto de ti e sinto muitas vezes a tua ausência. Mas não há futuro de vida em comum com uma pessoa que não seja compreensiva e amiga dos meus filhos, que me não ajude no bom relacionamento com eles e com todo o mundo, que me infernize a vida com desconfiança e ciúmes descabidos.
Não era nada disto que eu pretendia. Assim, por tudo o que tem sido exposto, nunca poderia propor te, não tenho podido propor te que fizéssemos ou façamos vida em comum. Procuro paz, serenidade, entre-ajuda, e não um clima de constante ou intermitente guerrilha, desconfiança, dúvida, suspeição. E depois já não estou em idade de (re)começar a vida com uma pessoa cujo futuro profissional não sei qual seja.
Há um tempo para que as pessoas se encontrem e para que as coisas aconteçam. Passado esse tempo pode ou não voltar a surgir a ocasião. Foi por isso que te disse que daqui a dois ou três anos poderia haver condições para que as coisas se (re)justassem entre nós (). Mas tu, uma vez mais, mal entendeste o que eu disse. Aliás, essa tua característica sobre a peremptória e absoluta justeza intrínseca das tuas razões, interpretações e verdades e da falsidade das minhas é algo que (também) nos (tem) separa(do).
Falei atrás do que procuro na vida. E concebo as relações entre as pessoas baseadas na lealdade, na igualdade, na sinceridade, na responsabilidade, na cooperação e colaboração, na solidariedade, no caso, entre todos os membros do agregado familiar, embora em função das suas capacidades e situação. Não considero, por exemplo, que haja trabalhos e obrigações exclusivas das mulheres e trabalhos e obrigações exclusivas do homens. Não há que exigir ás mulheres sobrecargas e "espíritos" de sacrifício, que não se exijam aos homens. No caso concreto, nem tu nem a Natasha tem especiais "obrigações" relativamente ao Roderigo Que Vive na Lua ou a mim (ou aos teus filhos homens). () E parece me que não consegues entender ou agir em conformidade com estes princípios.
Como atrás referi, poderá parecer extemporânea esta longa "conversa", que no essencial já tivemos de viva voz por várias vezes ao longo destes anos. Mas quando eu penso que tudo está ultrapassado, surgem da tua parte os ciúmes, as exigências, os remoques, as "fúrias" (). E lá volta tudo ao princípio, porque és incompreensiva, ciumenta, injusta nas tuas apreciações, possessiva quanto á minha pessoa.() Eu sou, nas tuas palavras, o "maldoso", que te mente, que te "engana" com as amigas, que te "troca" pelos filhos ou por elas, que te achincalha, magoa e ofende a tua sensibilidade. () E assim acabo por ter para contigo "conversas" e atitudes que me desagradam mas que são a consequência do modo como te relacionas comigo e que não aceito. () Porque ou há igualdade, compreensão e respeito mútuos ou então não vale a pena chover no molhado. Como disse, não gosto de aborrecer os outros nem gosto que me aborreçam. Por exemplo, não te telefono para recriminar te () O que nem sempre tens procurado fazer para comigo. Não gosto de ver os outros tristes, magoados, aborrecidos, sejam eles quem forem.
E digo: “é bom ter quem nos afague e diga bom dia com alegria e fantasia". Mas não estou seguro que possa compartilhar e construir contigo a minha vida. () Com tantas mágoas e "barreiras" de lado a lado, creio que nenhum de nós seria feliz com o outro. Outra poderia ter sido por exemplo a nossa situação actual se desde o início não tivesses querido "controlar" a minha vida, amizades e sentimentos e se te tivesses relacionado com os meus filhos com a "bondade" que para com eles tens tido ultimamente. () Outro poderia sido o nosso relacionamento se não fossem os "mistérios" da tua vinda para Lisboa e da tua vida profissional. ()
.
.
.