Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

terça-feira, 30 de junho de 2015

a-ultima-accao-armada-contra-ditadura

6 COMMENTS:

Victor Nogueira disse...
Bem, as acções armadas contra a ditadura ainda se verificaram nas colónias e pelos movimentos de libertação até 25 de abril de 1974, tendo mesmo de prosseguir depois dessa data até que spínola e a parte do MFA que o apoiava tivesse sido forçados a reconhecer o direito à autodeterminação e à independência, abandonando de vez as teses federalistas e neo-colonialistas. É que aos Movimentos de Libertação cabe, a meu ver, uma quota-parte importante no derrube do fascismo em Portugal.
Joana Lopes disse...
Claro que tem razão, Victor Nogueira! É óbvio que estava a excluir as colónias, quando falei da «última» acção.
septuagenário disse...
De todos os movimentos que lutaram contra o colonialismo português tinham dirigentes que foram uns formados na mocidade portuguesa, outros funcionários coloniais, e muitos universitários com bolsas pagas pelo Estado Novo.

E, de todos os movimentos, UPA, FNLA, FRELIMO, PAIGC, MPLA, UNITA, MLSTP, etc., porque há alguns nados-mortos, há um que se gaba que todos os outros lhe devem a vitória e os portugueses lhe devemos o 25 de Abril.

Esse movimento é o PAIGC.

E na realidade foram eles que terão em Guidage levado Salgueiro Maia e outros a ter uma das mais terríveis batalhas sofridas nos 13 anos da guerra do Ultramar.

Depois de uma batalha contra cubanos, caboverdeanos e russos, na fronteira do Senegal com a Guiné, o Largo do Carmo terá sido uma situação bem tranquila como podemos ver no semblante das fotos de Salgueiro Maia desse dia.

Cada um terá direito ao seu 25 de Abril, mas os Caboverdeanos do PAIGC e Salgueiro Maia foram bem decisivos.

Victor Nogueira lá sabe!
Joana Lopes disse...
Manuel Duran Clemente deixou o seguinte comentário no FacebooK: «Esclareço que na GUINÉ depois do 25 de Abril só houve uma acção armada da qual resultou um morto. Das conversações clandestinas de Fabião com o PAIGC resultou não haver mais acções. Isto para esclarecer um comentário errado colocado no Blogue!!![Refere-se oa de VN]»
septuagenário disse...
Depois do 25 de Abril, se VN não sabe e se Duran Clemente não se lembra, houve muita bandalheira das chefias militares que levou ao abandono de fardas, de quartéis, de civis desde o Minho a Timor.

Não ficou nenhum cangalheiro nem nenhum delegado de saúde para enterrar e passar certidões de óbito.

Mas a guerra (mortes) não acabou à meia noite do 25 de Abril, embora as chefias "tugas" tenham ensarilhado as armas, sem falar nas que foram simplesmente abandonadas sem qualquer noção de responsabilidade e vergonha na cara.
Victor Nogueira disse...
Não quero entrar no diz que não diz. Mas não falei nem em mortos nem especificamente em qualquer colónia e muito menos na Guiné.

Spínola tentou empalmar o 25 de Abril e contrariar o Programa do MFA, incluindo procurar fazer vingar as suas teses "federalistas" e neocolonialistas. A cada um cabe o seu papel na história, sejam a(os vários) MFA, sejam Salgueiro Maia, os "esquecidos" Melo Antunes, Costa Gomes ou Vasco Gonçalves, entre muitos outros, cada qual com a sua “pureza”, sem esquecer e sobretudo os milhares de civis que “em desobediência” e nas ruas de Lisboa cercaram 2 pilares do fascismo - o Quartel do Carmo e a sede nacional da PIDE - e a quem cabe o elevado mérito da 1ª travagem aos desígnios de Spínola, que se reclamava da "pureza" original do MFA e pretendia evitar que o poder caísse na rua. Porque se foi importante obter uma insólita “rendição” de Marcelo e a entrega por este do poder a Spínola – porque terá a PIDE sugerido a Marcelo e não a Tomás que se recolhesse ao Carmo e não a Monsanto ? - a verdade é que importantíssimas foram as ocupações do Aeroporto de Lisboa (e a interdição do espaço aéreo), a ocupação das instalações da Rádio e da TV (que impediram a sua eventual utilização pelas forças do Governo e possibilitaram a sua utilização pelo MFA) e a neutralização da fragata Gago Coutinho, no Tejo. Por alguma razão em 25 de Novembro os “nove” e a heterogeneidade que os apoiava, entre os quais Salgueiro Maia, conseguiram que por Costa Gomes fosse decretado o estado de sítio na região da Grande Lisboa (RML) e o black-out noticioso.

A Guiné para Spínola e Marcelo estava perdida. Talvez também Moçambique, Mas não a "jóia" da Coroa, Angola, onde teve início a Guerra Colonial. E assim como o povo de Lisboa "desobedeceu" e saiu à rua, os Movimentos de Libertação não depuseram nem entregaram as armas. 

No meu comentário limito-me a referir que o triunfo do 25 de Abril não se deve apenas a uns, antes lembrando outros, aqueles que de armas na mão nas colónias também defrontavam o Estado Português e as forças armadas que de facto eram de ocupação. E não falo nos mortos, de ambos os lados, incluindo Amílcar Cabral ou Eduardo Mondlane, embora a história registe que houve demasiados, mesmo depois do 25 de Abril, até que Spínola e as forças que o apoiavam se viram forçados a reconhecer o direito à autodeterminação e à independência que Spínola havia conseguido na noite do 25 de Abril fosse retirado do documento original do MFA.

Não vejo pois o que está “errado” no meu breve comentário que duas réplicas obtiveram, na origem desta tréplica.

E foi para mim muito elucidativo ler, “testemunhos” em “Os Anos de Abril”, acabada de publicar, bem como “ver” na obra de Alfredo Cunha e Adelino Gomes, os depoimentos dos “rapazes dos tanques”, de oficiais a praças, sobretudo no que se refere a “o melhor do 25 de Abril”, “o pior” e as “figuras” que cada um dos que dão testemunho destacam em 40 anos. É verdade que serão apenas “histórias” e não a “História”. 

Mas penso que este assunto está perfeitamente esclarecido. O resto, não se resolve na blogosfera, mas na vida real com as acções concretas e suas consequências, certas ou erradas conforme o lado da barricada, a perspectiva no percurso do comboio, com as diversas estações, apeadeiros e ramais mais ou menos secundários face ao destino final. Não o mesmo para todos os passageiros que vão entrando e saindo ao longo do(s) percurso(s).

E citando-me: “ aos Movimentos de Libertação cabe, a meu ver, uma quota-parte importante no derrube do fascismo em Portugal”.

Sem acrimónia

sexta-feira, 26 de junho de 2015

João Baptista Cansado da Guerra (6)

* Victor Nogueira

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HISTORIAS DA PRINCESA COM SAB(O)R A CRAVO E CANELA
A QUEM JOÃ0 BIMBELO ESCRIBOU FALADURA

É como te digo, Princesa, o nome de guerra que me deste com esse teu ar trocista sem maldade foi o de senhor licenciado, embora eu não goste dele e porque não sei nem quero jogar ao gato e ao rato, resolvo mudar o meu em João Baptista Cansado da Guerra; deste modo juntando em Setúbal o tropicalismo de S. Jorge de Ilhéus e da nossa(terra) de S. Paulo de Luanda. Não creio que tenhas algumacoisa a ver com a Princesa da outra história (1), pois Baleizão não é terra quente no meio do alentejo mas sim saboroso e refrescantesorvete vendido pelas ruas em carrinhos, entre duas bolachas, ou ao balcão ou na esplanada do velho prédio de grossas paredes à sombra do morro de S. Miguel e da sua vetusta fortaleza setecentista, que foi museu de Angola e depois quartel de paraquedistas e agora de novo museu, mas da Revolução. Repara, Princesa, que isto parece terra de altares e conventos sem cheiro a santidade pois de outro modo a Clara não escreveria uma novela policial com sabor a coentros, nem encontraríamos um(a) santidade ao virar de cada prédio, edifício, povoado ou circunscrição administrativa, isto para não falar nos enredos de gatos e ratos em que nem todos são peritos e muitas fêmeas são, mesmo quando são pão-pão-queijo-queijo face aqueles que raramente vão direitos ao assunto, embora quando o façam causem securas na garganta do interlocutor. Gosto de ti, Princesa, e desfolho o malmequer? Ou não gosto, especialmente quando entrevejo as tuas palavras envoltas em pedras contundentes, sem o calor envolvente da tua voz voluptuosa? Olha, jogo com as palavras e também ás cartas e ao dominó e não acredito que sejas para altares, pois de outro modo não terias esse teu sabor a Cravo e Canela. Havia em terras de Espanha salvo seja uma princesa Joana mas dessa não rezam as histórias de João Bimbelo.

A propósito de santidades, rezam as crónicas e as novelas libertinas que os conventos de frades e freiras estavam ligados por subterrâneos corredores que permitiam o gozo na paz do Senhor e da Virgem sua Mãe. É sabido que as filha-família ingressavam nos claustros conventuais com seus dotes, aias e criadas em suas celas privativas. Com tão bastos exemplos achas, Princesa, que devemos acreditar em cheiros de santidade ou preferir o sabor do Cravo e da Canela, embora temperado com alguma pimenta e gindungo, que nesta terra chamam pirípiri?

E pronto, Princesa. com este novo intróito o escriba dá por encerrado este capitulo desta escribadura.
(1) referência a um romance de Clara Pinto Correia - «Adeus, Princesa»
1989.07.21
SETÚBAL

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Retratos (27) - A Malta de Évora, do Café e da Casa de Hóspedes

* Victor Nogueira

1º Retrato do pessoal da pensão de Évora

Além da minha pessoa outras mais existem aqui em casa. É natural. A sra. D. Vitória [Prates]. (1) A dona da casa. (...) Creio que é boa pessoa. De resto todos para mim são boas pessoas ... até ver (2) Ás vezes continuam mesmo a ser! A Ermelinda. Que é sobrinha. Que anda no 2º ano do Magistério Primário. Minha adversária ao "crapaud" e parceira à "sueca". Nem sempre. Uma colega: a Ana Maria [a Macrobianas]. A sra. D.Cacilda, mãe da sra.D. Noémia . Que foi há dias para Leitora de Português da Facultad de Filosofia y Letras de Santiago de Compostela. Com quem gostava imenso de conversar. Que via poesia, algo de valor, nas coisas simples e banais. Nas quais não reparo por não poder não saber ou não querer. Por demasiado perdido nos meandros das minhas introspecções filosóficas. A sra. D. Cacilda deixar nos à no fim deste mês de Novembro. Dois colegas meus do 3º ano de Economia de Empresas: O Alexandre [Vaz] - alto e de ombros curvados - e o Jorge [Carvalheiro] - alto e direito (ou não fosse tenente da Guarda Nacional Republicana). (3) E um terceiro, finalista do mesmo curso. O "fantasma" cá de casa. Aparece e desaparece quando muito bem entende. Para terminar, a Leolinda - afilhada e criada da dona da casa. E a filha - uma miúdinha de sua graça Ana Maria, [a Microbianas] de seis risonhas primaveras. (ELF - 1968.11.24)

Temos um novo hóspede. Ainda não o vi. Deveria ter vindo hoje. Sei unicamente que está empregado no Banco Espírito Santo. Veio para o nosso andar [2º], do "tribunal" cá de cima, constituído por mim e pelo Alexandre [Vaz]. Estou vagamente aborrecido com a vinda deste que é, pelo menos por enquanto, um estranho. De resto para o ano devo apanhar mais intrusos, pois as duas miúdas devem terminar o curso este ano. (NSM - 1969.02.11)

Já aprendi, ou melhor, dou assim uns passitos de dança, consequência dos bailinhos familiares que até ao Carnaval se realizaram cá em casa. (NSF - 1969.03.08)

2º Retrato do pessoal da pensão de Évora

É um domingo indefinido, um começo de tarde. Três novos hóspedes entrarão hoje lá para casa. Somos agora oito (para além da hospedeira, irmão [Ambrósio Prates] e sobrinho [Manuel] ): duas miúdas [Celeste Gato e Bia Almeida], estudantes no Magistério Primário, como este, e a mãe duma delas [D.Maria], e o Diogo[Guerreiro] (6º ano liceal e futuro economista). Os novos são um velhote, [o sr. Marquês], empregado comercial, uma assistente social [D.Teresinha] e a ilustre mãe [D.Ilda]. Sou, actualmente, o mais antigo. Todos os outros entraram este ano. (NSF - 1971.01.31)

A malta e cenas do Arcada I

Olho à minha volta e vejo malta conhecida: além, o Morte que me acena, como o Calisto, que há muito não via. O namorado da Gabriela discute acaloradamente e o senhor D. Alexandre de Lencastre (4) conversa com dois amigos (sê lo ão ?), que falam também com a cabeça e as mãos. Aqui, à minha esquerda, está o velhote pequenitates que anda à Charlot; costuma pôr uma flor no copo de água que normalmente acompanha a bica, fala em verso - os dois últimos primam quase sempre pela falta de rima e métrica - e oferece moedas da sua colecção às personalidades importantes que passam por Évora e às caras bonitas. Fala com toda a gente e não sei se falará com alguém. Quando regressei de Luanda reparou que eu tinha rapado a barba ... largos meses depois do acto solene que me tornou irreconhecível ao espelho, provocando me, durante alguns dias, ataques de hilariedade frente àquela face rejuvenescida e francamente risonha, sem o sorriso voltaireano que dizem ser o meu - irónico e trocista - de que muitas vezes me apercebo mas não contenho, mesmo nos momentos mais solenes e sérios, de gravidade de circunstância. (...) O ar está [agora] pesado; olho à minha volta e há clareiras na humanidade que me cercava. (NSF - 1971.01.31)

Estou no café, no "velho", barulhento e de ar viciado que é o Arcada. Deixei os jornais em cima de uma mesa, para marcar o lugar, enquanto ia à tabacaria comprar uma folha de papel. (...) Ao regressar encontrei um moço a folheá los muito descontraidamente. Devia ser dos Regentes Agrícolas. Que ficou algo atrapalhado e balbuciou pensando serem do café. Que não acabou de lê los, apesar da minha cordialidade. Enquanto escrevo vou bebendo o galão e comendo a sanduíche de fiambre, acto quotidiano das 17 horas. Na sala meio cheia umas pessoas conversam, outras lêm os jornais da tarde, alguns estudam, uns olham simplesmente para coisa nenhuma, embrenhados sabe se lá em que pensamentos. Reconheço alguns, poucos, companheiros indiferentes, quase móveis da casa. Dos outros, é de assinalar o seu mau gosto no vestir, fatos escuros, a boina ou o chapéu de abas viradas para os olhos. Conversam com a cabeça apoiada na mão, uns sorridentes, outros de rosto grave, testas enrugadas. Por vezes recostam se para trás nas cadeiras, outras juntam as cabeças, convergindo para o centro da mesa, quais conspiradores. Olho à minha volta e o café está [continua] meio cheio. O João Luís [Garcia] chegou e começou a ler o jornal. Daqui a pouco chegarão o Camilo e o Carlos, que virão do exame. Domingo Évora será um deserto, estupidificante. Eis que assomam à porta do café o Chico Garcia e o Manel. Ficaram se pelo balcão da pastelaria. Entretanto entra também o Álvaro Lapa, que é pintor, e corresponde cordialmente ao meu largo aceno. Entretanto o João Luís protesta porque não consegue ler o jornal; a mesa está desengonçada e tremeliques. (MCG - 1972.03.18)

O café é um mar de gente barulhentamente conversadora. As ventoinhas giram mas nem por isso o ar está mais fresco. Évora civiliza se: conto cerca de dezoito elementos do sexo feminino aqui no Arcada (minha pátria em terras alentejanas). O mundo caminha para a perdição, diriam os "moralistas" de porta para fora ! (MCG - 1972.07.24)

O Arcada é um mar de gente em burburinho, uns lendo, outros comendo, outros escrevendo ou preenchendo sonhos de Totobola, outros conversando com a língua e os dentes e os lábios e as mãos quando não com o corpo inteiro. Do outro lado, além à minha esquerda, um homem está sentado tirando dum saco de plástico algo cujo conteúdo lhe enche as mãos: talvez moedas. Insólito, a seus pés, uma enorme e brilhante bacia de cobre amarelado. O homem levanta se - tem uma pasta de cabedal quase do seu tamanho - pega na bacia e encaminha se para a porta, por onde entra e sai muita gente, com ar lento e vagaroso de quem nada tem para fazer. Lembro me de há quatro anos - ou mesmo há dois - e há muito mais mulheres e raparigas - algumas bem giras por estas mesas. Évora "civiliza se". Só a minha hospedeira continua com as suas concepções retrógradas de outros tempos e outras eras, que continuam [no fundo] a ser as de Évora. À minha direita dois velhotes conversam: um deles conta qualquer episódio relacionado com a sua estadia na Grande Guerra de 14/18. Olho à minha volta e o café está mais vazio; não encontro o Camilo, que pela segunda vez passou há pouco além no corredor central. Deve estar em dia não. Mais velhotes sentam se ao lado da minha, iniciando amena cavaqueira. Agora reparo que esta é a mesa deles. Adeus, estudo. Um deles diz que os gajos da situação são os que mais maldizem o Marcelo [Caetano] e os que mais o homenageiam. (MCG - 1972.09.28)

(...) Num ápice o Arcada enche se. Terminaram as condecorações, os toques de clarim e o desfilar das forças em parada. Já ontem se notavam muitos forasteiros que de longes terras vieram até ao povoado. Aqui à minha direita, muito ternos, uma moça conversa com o namorado e deixa entrever um grande pedaço da pele das costas, entre as calças e a blusa. Questões de posição! à esquerda, um marinheiro com familiares (?) exibe a sua condecoração de fresca data. Além o senhor Jaime abre e fecha os braços, como asas, enquanto vai dando lustro aos sapatos de um cliente. Passam empregados com as bandejas cheias de chávenas, copos e comes. O casalinho de namorados bebe chá com torradas. O mesmo que um casal já caminhando para a meia idade aqui à esquerda, na mesa ao lado. Ele já acabou de ler o "Diário de Notícias" (fraco gosto) e ela dá lhe uma torradinha. (...) O marinheiro levanta se e parte. Afinal a bengala não é dele mas do amigo que o acompanha. O senhor Tenente e o senhor Coronel cumprimentam se, batem a pala e apertam as mãos, enquanto as respectivas esposas se beijam. Na carequinha do senhor Coronel o vinco na pele assinala a presença do boné, agora sobre a cadeira. Entram pessoas de luto e há cumprimentos de mesa a mesa. Precisava duma câmara de filmar. Sobre a minha mesa, "O Século" (sabe) que dentro de dias será descerrada em Luanda uma estátua ao Marcelo [Caetano]. Para além d'O Século a lapiseira, um livro ("A Sociedade de Consumo") e o porta moedas (agora é incómodo trazê lo no bolso). (...) ( MCG - 1973.06.10)

Levanto os olhos e vejo muitos magalas, na sua farda verde oliva. Andam também pelas ruas, aos grupos, espalhafatosos, como quem já tem o seu grão na asa. "Cheira me" que haverá dentro em breve mais um contingente para a guerra em África. Alguns escrevem, curvados sobre o papel, a caneta firme na mão, como quem não está habituado a frequentes escrituras. Parecem rapazes muito novinhos; uns conversam, irrequietamente, outros têm um ar absorto, ausente.

O barulho invade me e cansa me. Há pouco, dei de repente com um silêncio gradual, profundo. Levantei os olhos do papel e era um magote de gente à volta duma mesa, em pé. Um silêncio em crescendo, gradual. Gente levantando se, esticando o pescoço. Continuo a escrever. Alguém se deve ter sentido mal, mas o meu curso de primeiros socorros já tem oito anos. Um homem sai do meio do magote, os seus lábios mexem se e leio "Desculpe me" a mão passada pela testa como quem tem suores ou tonturas. Sai pela porta giratória (há pouco atrás de mim) e perde se na noite das arcadas. (MCG - 1973.11.26)

É segunda-feira em Évora. O Arcada vozento e cheio. Circundo o olhar e não reconheço a maior parte das pessoas, que falam com grandes movimentos das mãos e do corpo - alguns - ou lêm o jornal: "A Bola" ou "O Século". Está um dia luminoso e soalheiro, este ano sem desfiles militares. Jovens esquerdistas cá do burgo pretendiam organizar um comício anti-colonialista mas parece me que ficou tudo em águas de bacalhau (MCG - 1974.06.10)

Os Companheiros das horas vazias

Abraça por mim a malta da mesa do café Arcada, companheiros das horas vazias. Como estas no Porto, aguardando os exames de Fevereiro. Um abraço especial para a Guida [Morgado] e para a "terrorista" que é a Zeca. (5) (Lídia - 1972.01.01)

3º Retrato do pessoal da pensão de Évora

[Foi] o tempo de ter visto a D.Vitória e lhe ter dito uns piropos até ao próximo chá. Tempo de travar conhecimento, ao jantar, com duas novas hóspedes - temporárias - cá de casa. Ambas de Montemor: uma é velhota, professora primária, de sua graça Maria Inocência, outra auxiliar social, a menina Maria do Céu, em breve senhora de não sei quem. Enfim, se eu não conseguir "controlar" as conversas à mesa terei de ouvir conversas de chacha - Porque será que há pessoas tão chatas?! (...) [Esta] minha falta de jeito para conversar em qualquer circunstância e sobre qualquer assunto! (MCG - 1972.06.07)

4º Retrato do pessoal da pensão de Évora

O silêncio que substituiu as discussões políticas à mesa após a partida da sra.D.Ilda e do sr.Marquês tem sido agora substituído por "importantíssimas" discussões entre o Diogo da Amareleja e o Victor[Dordio] do Cano sobre as altas percentagens de reprovações no Liceu e, sobretudo, como hoje, [por] questões automobilísticas. Enfim, se todos gostassem do mesmo era esta vida uma sensaboria, como diria a sabedoria popular. (MCG - 1972.06.30)

O senhor Marquês escreveu me [de Aveiro], uma carta muito formal. Está bem. (6). Da Bia [Almeida, de Safara] não há notícias; escrevi lhe meia dúzia de linhas pelo aniversário. O Diogo Fialho [de Santo Aleixo da Restauração] foi se embora sem dizer água vai nem a mim nem ao seu homónimo. O Diogo Guerreiro [da Amareleja] - agora mais sorridente e falador - fez hoje oral de Inglês [e passou com 13] (MCG - 1972.07.21)

Sabes quem apareceu por Évora, hoje? O Aristides [Picanso da Silva] ! Vem fazer quatro exames, regressando aos Açores no fim de Outubro. Até lá será hóspede da D.Vitória, a quem pagará ... 50$00 diários. Safa! (MCG - 1972.09.29)

5º Retrato do pessoal da pensão de Évora

O Diogo Guerreiro fica cá em casa. O Diogo Fialho ainda não deu notícias. Comigo devemos ser os únicos hóspedes este ano, que a D.Vitória está cansada. O quarto do sr. Marquês [e que fora do Jorge Carvalheira] agora é sala de visitas e o que foi vosso [com escadas para o terraço] é agora do sr. Prates e do Orlando - sobrinho - que vem estudar para Évora. (MCG - 1972.09.22)

6º Retrato do pessoal da pensão de Évora

Isto aqui em casa são umas correrias escada acima, escada abaixo, que nem calculas. Sim, que o amigo Orlando anda alvoroçado com a escola e um mundo novo para ele, de que me não fala mas pressinto. Os cuidados com os livros, todos bem arranjadinhos, o ar tímido quando com ele falo! (...) O sr. Prates já foi largando a bisca para um explicador ... À borla, pois então. Só que o coração já me caíra aos pés quando na véspera a D.Vitória me comunicara que a minha pensão aumentara de 200 $ 00 mensais, isto é, para 1600 $ 00. (MCG - 1972.10.04)

O Diogo Fialho regressou ontem, mas não foi colocado na mesa dos hóspedes [sala de jantar] mas sim "adoptado" pela família Prates [mesa da cozinha]. (MCG - 1972.10.10)

A D.Vitória arranjou uma ajudante, que chegou hoje de manhã. Não conheço ainda a sua graça: é uma rapariguinha - 12/13 anos - de negros e revoltos cabelos e um ar de bicho de mato. Enfim, mais uma pessoa que entra para a vida, possivelmente para servir os outros. (MCG - 1972.10.26)

7º Retrato do pessoal da pensão de Évora

Tenho de interromper que a D.Vitória já me chamou pela 3ª vez - com inflexões de zangada - e o Aristides deve ir no 2º prato.De resto o coraçãozinho deve estar em trevas, pois hoje uma miúda amiga veio visitar o Aristides e ele mandou a subir. E como era uma miúda toda alegre, nova e de mini saia ... bem, imagino a tempestade que deve ser o sentido de honra e decência da recatada senhora! Se a coisa me não tocasse também dar me ia vontade de rir de tudo isto. Raio de gente que só vê pernas abertas e "poucas vergonhas!" (MCG - 1972.10.17)

8º Retrato do pessoal da pensão de Évora

A propósito de miúdas, a D.Vitória desistiu da salinha de estar para as visitas importantes - agora é o seu quarto de dormir - por ter alugado o outro a três alunas do Magistério, altas como torres. Como é natural, há duas mesas - a dos senhores importantes (eu e o Diogo Guerreiro) (7) e a outra. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1972.12.04)

Já almocei. Isto agora come se mal p'ra burras. Como comerão o Diogo [Fialho] e as miúdas na cozinha? (MCG - 1973.01.10)

Disse me a D.Vitória que a "menina" Celeste telefonara. (Ah! este tratamento!) Não sei se haveria "festinha familiar" [pelo meu 27 º aniversário], mas sabes como as não aprecio por nada me dizerem. Jantar fora e chegar de madrugada foi um pretexto para malográ la e, simultaneamente, estar com amigos. (MCG - 1973.01.06)

É sem grande prazer que daqui a pouco vou até ao café perder mais tempo. Aborrece me, no entanto, este enorme quarto, vazio de pessoas. A casa da D.Vitória, por motivos óbvios, não oferece condições para convívio. E este ano é o fim. O Diogo [Guerreiro] passa a vida fora de casa. As miúdas, enfiadas no quarto. De resto as nossas relações agora estão muito desagradáveis para mim. Como não sou tipo de salão e como as condições de convívio são praticamente nulas, limito me ás minhas secas e distantes saudações, a que nem sequer correspondem. Mas já antes disso passavam pela sala [vindas da cozinha], quais bichos do mato, sem nos saudarem. (...) Ouço subir as escadas. A propósito, sabes que estas miúdas não vêm cá acima senão duas a duas !? Que reles! Imaginar me ão e ao Diogo G. ali atrás da porta de olhos brilhantes e respiração opressa prontos a "saltarmos-lhes ao espinhaço", como se diz na gíria?! Já o sr. Prates não se enfia no quarto dele sem dar duas voltas à chave! Ah! Ah! Ah! (8) (...) Daqui a pouco vou sair - à chuva, ao vento, desafiando as intempéries e o furor das divindades - para meter esta presença de mim no marco do correio. (MCG - 1973.01.16)

Ali na sacada a Eglantina - com os seus longos cabelos louros e os bonitos olhos verdes - secava aqueles enquanto estudava Geografia Económica. (...) A Vicência aprimaverou se no vestuário mas eu é que não abandono a gabardina enquanto não vierem melhores dias. (9) (MCG - 1973.03.22)

O sorriso e a voz terna da Eglantina fazem[-me] desejá la com toda a pureza da simplicidade que haveria de haver entre um homem e uma mulher. (MCG - 1973.06.17 A)

O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado(....) A Vicência faz exame depois de amanhã. (...) [O Orlando] deu me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho agora pediu me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou me revistas, separou me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)

9º Retrato do pessoal da pensão de Évora - Que sucedeu ?

Ora, recolhi ontem a vale de lençóis, com temperatura elevada, que assim como veio, assim se foi, durante a noite. De qualquer modo resolvi hoje manter me encafuado no quarto, malgrado a minha impaciência ...

Por toda a casa soam estalidos, consequência do irrequietismo do Orlando. Não descortino bem qual o gozo daquilo, mas enfim ...

Volto a página e pergunto me que mais vou eu escrever? Levanto me, dou uma volta pelo quarto, remexo numas quantas coisas e torno a sentar me para escrever isto.

Entretanto a D.Vitória regressa, para levantar a bandeja do lanche e despejar o cinzeiro (o João, o Carlos, o Tobias e a Lídia empestaram me o quarto com cigarros). Há cinco anos que lido diariamente com a D.Vitória e nunca as nossas relações foram muito cordiais nem estreitas!

Acendo o candeeiro, não porque seja absolutamente necessário, mas num gesto algo inconsciente ou automatizado.

Olho para a minha direita e vejo um enorme calhamaço: "Os Macondes de Moçambique", vol III - "Vida Social e Ritual". Terei de consultar este e os dois primeiros para redigir a monografia de Antropologia Cultural. (MCG - 1973.01.26)

10 º retrato do pessoal da pensão de Évora

Verdadeiramente o quarto até parece outro, mesmo atendendo à evolução na continuidade. Que não gostou muito da brincadeira foi a D.Vitória, que ficou enxofrada por eu ter posto no corredor a abominável moldura do espelho da cómoda. Ao regressar a casa hoje aquilo estava de novo no meu quarto, arrumado embora num canto. Quando desci a ilustre senhora começou a mandar vir, que aquiloficava no meu quarto e mais blá blá que me ia enchendo as medidas. Enfim, disse me que me alugou o quarto para dormir e se eu queria uma sala de convívio que alugasse um apartamento. (!) Ah! Ah! Ah! ... e este até tem sido um ano sossegado: pouca gente vem para cá para o paleio e para ouvir música ou estudar como nos primeiros anos, nem as meninas (10) ainda cá puseram os pés, como algumas de outrora, muito menos tendo eu feito qualquer tentativa nesse sentido. Enfim, a gente tem de desculpar os nervos dos outros! (Aquilo deve também ser por causa das fotografias e posters "imorais e contra os bons costumes". " Porcarias e palhaçadas", como doutras vezes desabafou. (11) Mas o problema é que o monstro acima referido não ficará no meu quarto. Vamos deixar arrefecer o copo de água e quando a vozinha estiver menos agreste e o olhar menos sofredor atacarei novamente, desta vez com um sorriso Pepsodent, que doutro modo não vai a ilustre senhora. (MCG - 1973.03.13)
Os ares lá por casa andam tempestuosos. Começou já não sei bem porquê, continuou no dia em que paguei a pensão e deve ter piorado ontem: o João Luís e a Maria Antónia estiveram no meu quarto, à tarde, ouvindo música. A D.Vitória não grama o João Luís e uma rapariga lá em cima - ai Jesus, credo, que lá se vai o bom nome da minha casa! Para além disso o João Luís não tem o mínimo sentido das conveniências, o que de modo algum serve para lançar água na fervura. (MCG - 1973.03.20)

A Ermelinda veio cá este fim de semana, agora com o cabelo castanho fulvo e ondulado, mais o seu ar imponente, majestoso, de quem se julga e sabe boa (ou "sexy", que é o mesmo), de gato que brinca com o rato. Tenho ganas de quebrar lhe toda aquela prosápia de mulher fatal. Mas, adelante. (MMC - 1973.03.25)

Temos uma criada nova, a Ricardina, míope e vestida de preto, com um ar submisso e tímido. O que não a impediu de pedir-me um casaco velho para o pai. Não, foi a resposta. (12) (MCG - 1973.03.30)

1º instantâneo da pensão de Évora

Ainda estou a mastigar a última talhada dum dos bolos que a D.Vitória deixou naquela travessa, especialmente para o "menino", a transbordar. Só lá ficaram umas poucas de migalhas: um tipo não tem nada que fazer e nos intervalos do trabalho (muitos devem ser eles, não?) vá lá uma trincadela! Ah! Ah! Ah! Pois é, a ilustre senhora foi de abalada para o Cano, mai la sua sobrinha, mas o seu derradeiro gesto, à partida, comoveu me. (MCG - 1973.04.16)

11 º retrato do pessoal da pensão de Évora

Apareceu me hoje o Aristides lá pelo café; veio dos Açores para fazer exame de Economia II. Penso que tenciona fixar residência no Porto. Ficou hospedado na casa da D.Vitória, mais concretamente, no meu quarto. Esperemos que não me chateie muito a molécula. Sou amigo dele, mas isso não impede que me aborreçam algumas das suas tiradas. Reage, parece me, mais com ressentimento do que sentido revolucionário. (MCG - 1973.07.04)

Quem vai entrar em compressão de despesas sou eu. A D.Vitória, no próximo ano deixa de dar me comida (ela acha que eu sou muito exigente e que não me contento com qualquer mistela) Assim, diz que me leva 500 paus pelo quarto e banhos. Com tratamento de roupas, 750 $ 00. Mas não me põe cadeiras novas no quarto nem me substitui a rede do divã ("Venha a nós o Vosso Reino"). Desabafou, desabafou, com a minha ingratidão. A conversa do costume, e que ninguém lhe dissera, como eu ontem, que antigamente o serviço e a comida eram melhores. Ai, como ela é minha amiga! Mas isso é lá à maneira dela. (...) "Que eu só gostava de comer com quem me agradava. Que quando era com as "senhoras" [D.Ilda e Teresinha] preferia comer sózinho" (MCG - 1973.07.08)

A D. Vitória sempre pôs-me um colchão novo no divã. Sempre terá valido para algo a minha conversata de há dias. (1973.07.15)

O Aristides foi-se embora hoje. Reprovou a Economia II. O que não é de admirar, cada vez mais desnorteado que ele anda, inquieto e sem rumo. (13) (MCG - 1973.07.20)

Instantâneo do pessoal da pensão de Évora e da malta do Arcada.

Podia falar te da tristeza sem sentido desta vida que levo. Da necessidade de agarrar o presente com ambas as mãos. Do nenhum entusiasmo ao avistar anteontem à noite as luzes de Évora. A viagem [de regresso da Amareleja] foi rápida, com minutos de silêncio, outros de conversa animada e outros de busca desesperada de palavras, no negrume da noite, com a estrada deslizando sob nós, o rádio transmitindo música e as pontes aparecendo bruscamente na curva da estrada, dois parapeitos brancos, esguios, varridos pelos faróis do automóvel. Chegados ao burgo, deixada a Marília e [outro] em casa, foi a busca dum lugar para estacionar. As aulas recomeçaram, mas ... quero ir me embora. É quase uma obsessão. Évora e o Instituto não são apenas o negativo. Mas é ele que sobressai. Obsessivamente. O Diogo e eu temos falado. Como dantes. Quanto à Adélia ... tenho de dar lhe a desculpa dos seus quinze anos! Quanto à D. Vitória tem me recebido com um sorriso bom. (14) O sorriso que não tenho à minha volta nem dentro de mim. O Orlando tem feito grandes estádios no meu quarto. Por causa da máquina de escrever. O Camilo lá anda, com a verborreia do costume, um enorme trabalho de fim de curso (três caloiros a trabalharem para ele). O Carlos [Nunes da Ponte] com a pacatez habitual. O Guerreiro com os seus problemas, intolerável porque só descobre defeitos e motivos de críticas a mim. Sou a válvula de escape dele. Muito lhe deve aturar a Elvira! (MCG - 1973.11.20)

Descobri hoje que a Eglantina tem olhos verdes. Encontrei a ali na Rua Nova, quando ia ao correio. Apanhámos uma frialdade por causa do paleio. Falou-me nas "desventuras" da nossa amiga [Adélia] e na desculpa que merecem os seus 15 anos. O que não impede que os "ares" andem maus. (MCG - 1973.11.27)

12 º retrato do pessoal da pensão de Évora

Lá em casa houve mudanças. As miúdas passaram para o "vosso" quarto [o das escadas para o terraço], no 2ºandar. Agora passam o tempo lá em cima e - parece me - acabou o sossego, com subidas e descidas constantes, a porta sempre abrindo e fechando, chamamentos do fundo das escadas para cima. Esperemos que acalme.

Vindo da rua, deparei com a D.Vitória carregada com camas, que ajudei a transportar escadas acima, enquanto ouvia um desabafo: "Muito pena a gente para ganhar uns tostões!" Já ontem o Orlando me retorquira "ora, isto vai mal!"quando lhe fiz a pergunta habitual: "Então, sô Orlando, como vai isso?!" Referir se ia à sua "exclusão" do 2º andar? (MCG - 1973.12.04)

A Adélia [Guerreiro] agora passou ao outro extremo e anda muito cumprimentadora e sorridente. (MCG - 1973.12.06)

 No Café Parque

São 20:30; aqui estou [em Évora] no café Parque, um bocadinho contigo, a televisão trabalhando e homens ao balcão conversando e bebendo a bica. Ali a minha mãe faz as contas com a sra.D.Alice [Quaresma], das refeições na messe [dos oficiais]. Estava eu aqui muito bem acabando o meu jantar com o João Luís e o Guerreiro quando elas irromperam por aqui a dentro. A Maria Antónia - penso que é o nome da cozinheira -muito delicada e sorridente, "recebe as ordens". Sou levado a concluir que tem qualquer preconceito contra os homens, pois nunca lhe ouvimos nem saudação ou vislumbrámos um sorriso. (MCG - 1973.12.04)

(...) Lá em baixo no café Parque (a cozinheira anda muito simpática. Até já me trata e ao Guerreiro pelos nossos nomes!) (MCG - 1973.12.06)

A malta do Arcada III

No Arcada o João [Garcia], a Filomena, o Camilo, o Zé Pinto, o Ribeiro, o "Chinês" e o irmão cantavam em coro desde as cantiguinhas da primária ("Ó Rosa, arredonda a saia", "Tia Anica de Loulé"...) às excursionistas ("Santa Catarina", "Rapsódia Portuguesa" ...) passando por cânticos gregorianos e pelos coros alentejanos e canções da Beira Baixa. Enfim, uma grande audição, no café cheio e entretido com outros assuntos. (15) (MCG - 1974.02.11)


2º instantâneo da pensão de Évora

O quarto está gelado. Passei o fim de semana lendo umas coisas de antropologia. Tenho os "conhecimentos" um tanto ou quanto baralhados. A D.Vitória veio aqui há pouco trazer-me um doce e pêras de arroz doce. Está uma simpatia de senhora! (MCG - 1974.01.03)
A D. Vitória levou me hoje ao quarto uma dose de arroz doce. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1974.02.16)

13º retrato do pessoal da pensão de Évora

A Adélia não está já em casa da D.Vitória - quando fora de férias ia com armas e bagagens. Quanto ao Diogo - que passou a tarde no meu quarto - disse me que vai também sair. Está nas mesmas condições que eu e paga mais 50 paus que eu, i.e., 800 $ 00. (MCG 1974.04.17)

3º instantâneo da pensão de Évora

A D. Vitória levou me 500 paus pelo quarto em Agosto e 250 pela semana que estive em Setembro!!! Amigos, amigos, negociatas à parte. Diz que a partir do momento em que estiver empregado passarei também a pagar o armazém. Entretanto o [Custódio] Cónim ofereceu se para guardar a tralha toda lá no monte do pai, em Évora Monte. (MCG - 1974.09.13)

A malta do Arcada IV

Passei pelo café onde encontrei o João Luís, a Filomena, o Marçal. Fiquei contente por vê los mas já não é como antigamente. É como um fósforo que logo se apaga. De resto o João Luís é muito infantil. A Filomena manda cumprimentos e isso faz me lembrar que o mesmo fizeram o Manuel Gonçalves (cada vez mais louco) e a mulher do Queiroga (reaccionária em questões de namoros)

Évora é uma cidade estúpida. 6 meses de ausência (e se calhar a saturação de 6 anos) fazem me ressaltar toda esta falta de dinamismo, de interesse, de imaginação. É um encolher de ombros, um arrastar se pelos cafés, um encostar se pelas paredes, um nada ter que fazer ou para onde ir. Uma perfeita estagnação. (MCG - 1974.11.27)

1 - As miúdas chamavam-lhe Ti Vita.
2 - A D. Vitória, em contrapartida, dizia que primeiro tinha que se provar que se merecia a amizade.
3 - Não sendo o Jorge afecto à situação, provocávamo-lo perguntando o que faria se o mandassem carregar contra os estudantes do Instituto e seus colegas caso houvesse agitação estudantil. Respondia que daria a volta a Évora pelos caminhos mais compridos. Perante a nossa insistência - Então, e se ainda não tivéssemos dispersado quando chegasses à frente da cavalaria? Outro motivo de conversa eram as sessões musicais no meu quarto, onde passava montes de malta, da casa da D. Vitória ou do Instituto, para ouvir a minha discoteca. O Jorge aparecia sempre empertigado, com um lote de discos dele debaixo do braço, para ouvir. Quando se retirava, retirava-se com eles debaixo do braço, insensível aos nossos comentários. Lá deixá-los, isso é que não!
4 - O senhor D. Alexandre de Lencastre era entre nós conhecido pelo BIDON, porque a família o baptizara como D. Alexandre de Lencastre, conveniente para o devido tratamento numa república. Mas assim sendo, ele ficou a ser o Senhor D. D. Alexandre de Lencastre! Se a história verdadeira é esta, não sei, mas lá que era o que corria, disso não tenho dúvidas.
5 - A Lídia, a quem se dirigia esta carta, era uma das nossas companhias num tempo em que as meninas sérias não andavam com os rapazes nem iam ao café. Por isso tinha má fama perante as boas consciências eborenses. Depois empregou-se nos correios e entretanto nunca mais soube dela.
6 - O senhor Marquês era um velhote, empregado bancário, que por problemas familiares que não recordo teve de ir para Aveiro. Na tertúlia da casa da D. Vitória era um pacato conversador, delicado, mas pouco sorridente, parceiro nas partidas de cartas. Fisicamente fazia lembrar o David Niven, embora sem bigodinho. Passado algum tempo soubemos que se suicidara.
7 - Desde sempre e por princípio os rapazes, cada um com seu quarto e pagando mais por isso, e as pessoas empregadas e mais velhas comiam na sala, que dava para a cozinha, onde comiam as alunas do Magistério, que compartilhavam o(s) respectivo(s) quartos, pagando individualmente menos de pensão. Na cozinha comiam também a hospedeira e família.
8 - Nunca nenhum dos rapazes fechara a porta do respectivo quarto á chave!
9 - O esquentador a gás encontrava se dentro da casa de banho, cuja janela dava para um telhado sem vistas indiscretas. Contudo, ao contrário dos rapazes, as raparigas cerravam sempre a janela, o que era perigoso quando os banhos se sucediam uns aos outros sem que se arejasse o aposento. De modo que algumas vezes lá havia uma miúda com princípio de intoxicação por monóxido de carbono. À Vicência deu lhe forte e feio. Alertado pela barulheira no quarto ao lado da casa de banho e do meu, lá fui, encontrando a D. Vitória muito aflita tentando desatar o cordel que cerrava o postigo, para poder abrir a porta por dentro. Lá fui buscar uma tesoura ou canivete, cortei o cordel, abriu se a porta e, oh! céus, estava a Vicência inconsciente no lajedo e como Deus a pusera ao mundo. Mandei que chamassem uma ambulância e entretanto fiz-lhe a respiração boca a boca. Entretanto chegara a ambulância e a D. Vitória, escandalizada com a nudez, queria à viva força que se levantasse a mulher, ainda inconsciente, para vestir-lhe um roupão, antes de metê-la na maca. Irritado, disse à D. Vitória que aquilo era o menos importante, pois com tanta delonga ainda a rapariga morria. Oh! Deus, o que fui eu dizer! A Vicência levanta-se num repente, descendo as escadas completamente nua, a caminho da ambulância pelo seu pé e bramando: Não quero morrer! Não quero morrer!
10 - Hóspedes da casa.
11 - As porcarias a que a D. Vitória se referia eram um poster com um casalinho sentado junto a um muro e beijando-se, com o título O amor é um pássaro azul no alto da madrugada. Outro era uma inocente fotografia a preto e branco dum dorso feminino, das nádegas ao pescoço. Um terceiro era uma fotografia retirada duma revista (Paris Match?), salvo erro relativa ao Maio de 68 e mostrando jovens de ambos os sexos sentado no chão dum modo descomposto. Enfim ... Não sei se também incluiria duas fotos coloridas, uma expressiva do rosto da Liz Taylor chorando, do filme Quem tem medo de Virgínia Wolf e outra relativa à guerra do Vietname, com uma mãe chorando com o filho morto ao colo, talvez um guerrilheiro vietcong!
12 - Não percebo nem me lembro da razão desta minha secura, que hoje me incomoda ao lê-la.
13 - O Aristides era um açoriano "perdido" no Continente. Ex-seminarista, como muitos nos cursos de Sociologia do ISESE, fizera a guerra colonial. Era um revoltado, sempre contra a situação, mas tinha uma bonita voz a cantar. Não aceitava as imperfeições dos outros e sempre ia dizendo que nem sempre estava com o nosso grupo, mas como não se podia incompatibilizar com todos, então nós éramos os menos maus. Nunca mais soube dele, salvo numa notícia de jornal, post 25 de Abril, sobre uma manifestação do PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias), lá no Norte, onde aparecia o seu nome.
14 - A nossa relação mútua sempre foi algo distante, talvez por não sermos muito expansivos. Mas a verdade é que a D. Vitória me aturou algumas madurezas e creio que me estimava. Sempre foram seis anos de convivência. Visitei-a algumas vezes quando ia a Évora depois de sair de lá e telefonei-lhe algumas outras, ficando contente por não esquecê-la. Morreu em 1998 e desse facto soube acidentalmente pela Noémia, que me vai dando notícias dos nossos conhecimentos comuns em Évora. A D. Vitória era solteirona, tal como os irmãos que com ela viviam: o sr. Prates e, posteriormente, a D. Joana. Na pensão ficavam sucessivamente os sobrinhos que do Cano vinham para Évora estudar, como o Manuel, a Ermelinda e o Orlando.
15 - Bem, por vezes dávamos outros espectáculos no café, quando a noite ia adiantada, cujo programa era imitarmos vozes de animais, ao desafio!


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adelia disse...

Engraçado como após tantos anos e, por mero acaso, deparo com este blog em que sou uma protagonista secundária ou se calhar...melhor dizendo, figurante. Até receio perguntar como decorreram estes anos. São tantos!Contudo gostaria de saber

Adélia Guerreiro
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Victor Nogueira disse...

Olá, Adélia :-)
Não sei se lerás estas linhas. Fiquei contente por te «ver», mas a hiperligação leva a lado nenhum, o que é frustante e uma «maldadezinha» tua. Olha, se quiseres, escreve-me,tens nos meus blogs montes de endereços meus.
Um beijo, mocinha. Eu agora, naturalmente, estou mais velhote do que quando nos conhecemos. Mas gostava de saber de ti, da tua família e da malta da Amareleja.
Bjo
Victor Manuel


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adelia disse...
Engraçado como após tantos anos e, por mero acaso, deparo com este blog em que sou uma protagonista secundária ou se calhar...melhor dizendo, figurante. Até receio perguntar como decorreram estes anos. São tantos!Contudo gostaria de saber

Adélia Guerreiro

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Victor Nogueira disse...
Olá, Adélia :-)
Não sei se lerás estas linhas. Fiquei contente por te «ver», mas a hiperligação leva a lado nenhum, o que é frustante e uma «maldadezinha» tua. Olha, se quiseres, escreve-me,tens nos meus blogs montes de endereços meus.
Um beijo, mocinha. Eu agora, naturalmente, estou mais velhote do que quando nos conhecemos. Mas gostava de saber de ti, da tua família e da malta da Amareleja.
Bjo
Victor Manuel


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Victor Nogueira retratado em Évora - 1970.02



Victor Nogueira retratado em Évora - 1970.02. Apesar da assinatura, não me recordo de quem é a autoria

domingo, 14 de junho de 2015

victor nogueira retratado por Aníbal Queiroga, Évora 1970 04 20



victor nogueira retratado por Aníbal Queiroga, Évora 1970 04 20.

O Aníbal Queiroga era nosso colega no ISESE, creio que no curso de Economia. Baixo, entroncado, era director dum jornal de Évora, republicano e oposicionista, "A Democracia do Sul" publicado entre 1917 e 1971, A sede do jornal de que era proprietário situava-se perto de Rua da Selaria e aqui era impresso numa impressora "antiquíssima", à base de tipos de chumbo montados e alinhados nas caixas respectivas, sendo o produto final como se imprensa do século XIX fosse, no grafismo, na textura do papel ...


O nosso estágio de fim de curso foi um trabalho colectivo (meu, do Queiroga e do José Emídio Guerreiro), sob orientação do Pe. Augusto da Silva, sj, executado para a Fábrica da Siemens em Évora, creio que publicado numa revista alemã, mas dele não tenho qualquer exemplar.


Outras referências são-lhe feitas no blog "Viver Évora", que a seguir são transcritas:

"A distracção dos coronéis não foi tão longa quanto muitos desejavam. A seguir ao final da Segunda Guerra Mundial, os serviços de censura proibiram a afixação das sinopses prévias das edições. Desta medida resultou a desactivação deste tipo de painéis em todo o país, à excepção de Évora. As notícias de necrologia, agora diariamente incluídas no jornal de parede, foram o argumento utilizado para convencer as autoridades censórias da necessidade de preservar o painel na Praça. Uma vitória que comportava alguns riscos para o correspondente (Aníbal Queiroga), o qual ficava com a responsabilidade de, além da necrologia, apenas fornecer informações desportivas e o calendário das festas e romarias do concelho. À menor infracção a estas regras o ‘placard’ seria extinto e ao correspondente levantado um processo disciplinar e outro de natureza criminal. A manutenção do painel não foi pacífica nas duas décadas seguintes. Acontecia que tanto o Queiroga pai como depois o filho, além de correspondentes de “ O Século” eram proprietários da «Democracia do Sul», um jornal regional republicano de oposição ao regime. 

Os elementos situacionistas locais não descuravam a vigilância sobre as actividades dos dois homens. Diziam, à boca cheia, que ambos aproveitavam qualquer oportunidade para desrespeitar o sistema político vigente, o que se tornava notório na forma como tratavam os dados necrológicos relativos aos que tinham militado na oposição, ou apenas apoiado essas forças, os quais eram habitualmente acompanhados de menções elogiosas, ao passo que os falecidos afectos ao regime eram referidos de forma breve e seca. Até que, em 1967, já falecido o pai cinco anos antes, Aníbal Queiroga Pires foi preso pela PIDE. Sobre ele pesava (além da suspeita de ter auxiliado alguns dos assaltantes da agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz) a acusação de cumplicidade na deserção de um alferes miliciano que fugiria para Argel com armas roubadas no Quartel General da Região Militar do Sul: o então alferes miliciano Seruca Salgado, então apenas com 21 anos, depois membro fundador do Partido Socialista e jornalista da RTP. No seguimento da prisão veio o despedimento. O correspondente Queiroga recebia uma carta em que a direcção de “O Século”, «por razões conhecidas», lhe dispensava a colaboração." in http://viverevora.blogspot.pt/2010/08/o-painel-necrologico-da-praca-do.html


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  • Maria João De Sousa Muito interessante, Victor Barroso Nogueira, obrigada! É notável a imaginação dos jornalistas da oposição que até os artigos de necrologia conseguiam transformar em artigos de resistência ao regime. Quanto à caricatura... excelente! Abraço!
  • Maria João De Sousa Gostei mesmo! 
    smile emoticon
  • Filipa Calado Obrigada Victor e bom domingo 
    smile emoticon
  • heart emoticon
  • José Guerreiro No âmbito do trabalho académico de que que falas, fui ao INE a Lisboa com o Aníbal Queiroga recolher alguns dados estatísticos.
  • José Guerreiro E à noite, numa tasca, tivemos um encontro inesperado com um PIDE, que o Aníbal Queiroga conhecia da prisão. O Queiroga atirou-se ao PIDE e só de lá saímos vivos com a colaboração do dono da tasca e de outros clientes, que não simpatizavam com o regime.
  • José Elizeu Pinto Trabalhamos juntos, nos últimos tempos de vida do Aníbal Queiroga. Ele era o responsável pela área de planeamento dos serviços regionais de segurança social do Alentejo que eu dirigia, na altura. Essa proximidade permitiu estreitar uma amizade que vinha dos tempos do ISESE. Recuperei, então, o privilégio do seu convívio que me permitiu confirmar as razões que tinham originado a velha amizade, tantos anos atrás.
    A sua última tarefa profissional foi liderar, a meu pedido, a equipa nacional que viria a desenhar o departamento de planeamento do Instituto de Solidariedade e Segurança Social, criado poucos meses antes da sua morte, em 2000.
    É de 1997, a caricatura que me fez durante uma reunião de trabalho em que, porventura, a temática se revelava menos interessante.