Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Textos em janeiiro 02

 Victor Nogueira


2022 01 02 - Putin faz uma guerra de memória, afirma Maria Stepánova. E vai daí, lê-se o texto desta escritora russa, best-seller no «ocidente», e pasma-se com os laudatórios a quem de nós quer fazer tótós. E perguntar-se-á: apenas a Rússia e a Polónia fazem Guerras da Memória, embora por motivos diametralmente opostos? A história é ou não contada e afeiçoada na versão / visão dos vencedores e dos senhores, mas não a  do pé descalço e dos vencidos? E que faz a Ucrânia, quando faz o banimento da cultura russa, persegue os cidadão ucranianos russófonos e russófilos, ao mesmo tempo que reabilita e glorifica os banderantes colaboracionistas com os Eiszengruppen nazis?

«A que chama guerra de memória?

Tenho pensado muito na memória da Guerra Fria, sobretudo em países como a Rússia ou a Polónia, que estão tentar construir uma memória completa ao adoptar uma certa versão da história e prometer uma pena para os que não a apoiarem ou para quem apontar incongruências acerca de alguns acontecimentos que não sejam reconhecidos pela polícia de estado. Por exemplo, a Polónia está a criminalizar todas as menções a cidadãos polacos envolvidos no Holocausto durante a ocupação alemã.

A Rússia está a prometer consequências sérias para aqueles que compararem a União Soviética dos anos trinta e quarenta à Alemanha de Hitler, ao ponto de a visão da História promovida pelo estado ser profundamente problemática para a população. Há uma guerra promovida por um estado e parte da população discorda do abuso de poder por parte desse estado; um abuso que se apoia na promoção de uma versão da História em relação ao país vizinho. E está a fazê-lo usando qualquer coisa parecida com a velha guerra de trincheiras.

Já não é a memória da Guerra Fria, mas continua a ser uma memória de guerra. Os métodos são bem arcaicos. Há um anacronismo nesta guerra. Não vemos drones, nem novos instrumentos de guerra. E sabemos que a Rússia soube usá-los na Síria. Mas agora o que fizeram foi praticamente uma encenação de algumas memórias, ou talvez de alguns filmes sobre acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Só que na Rússia. Ataques, bombardeamentos. Se no dia 7 de Agosto de 1941 começaram a bombardear Kiev, agora, uns oitenta anos depois, a Rússia volta a bombardear Kiev usando os mesmos métodos, a mesma lógica. É bizarro.

Tenho a convicção de que Putin e os seus apoiantes estão profundamente insatisfeitos por viverem no século XXI. E não é que quisessem apenas viver no século XX, mas era mais fácil organizarem as suas máfias debaixo da mesa e continuarem como se nada fosse, numa sociedade em que não havia qualquer espécie de activismo, movimentos de mulheres, blá blá... Era apenas o grande jogo oligarca dos que estão no poder. Não sabemos o que vai sair daqui, mas acho que estamos sob uma grande ameaça.» (

Que diz a autora noutro passo da entrevista: 

«Este é um livro de não-ficção porque não inventei ou acrescentei qualquer espécie de enredo. Não é um trabalho de jornalismo, mas é uma tentativa de escrever o que aconteceu como aconteceu. Comecei a escrever fisicamente este livro quando tinha dez anos. 

Rebobinando, que diz Stepánova?:

«Por exemplo, a Polónia está a criminalizar todas as menções a cidadãos polacos envolvidos no Holocausto durante a ocupação alemã.

A Rússia está a prometer consequências sérias para aqueles que compararem a União Soviética dos anos trinta e quarenta à Alemanha de Hitler, ao ponto de a visão da História promovida pelo estado ser profundamente problemática para a população. Há uma guerra promovida por um estado e parte da população discorda do abuso de poder por parte desse estado (...)» (in Público 2023 01 02)

Estamos conversados sobre a bizarria desta salgalhada em torno da(s) memória(s) distorcida(s) de Maria Stepánova.

EM TEMPO - Escreve um -dos comentadores no Público, on line;

Francisco M. INICIANTE

«A memória como outros elementos sociais é sempre negociada. Pode ser colectiva mas também tão individual ao ponto de se tornar irreconhecível. Nós em Portugal tanto cremos que a carreira da Índia acabou com as caravanas terrestres e pelo Mar Vermelho e Golfo Pérsico entre Ásia à Europa que nada se conta que as caravanas simplesmente foram desviadas para norte, para a Rússia. Que São Petersburgo só vingou depois de Pedro I ter "forçado" os comerciantes a trazer as suas mercadorias ao novo Bazar de São Petersburgo em vez de Moscovo. Que o "grande jogo" dos ingleses na Ásia central tinha como objectivo acabar com essas caravanas que faziam uma tal concorrência ao comércio por mar. A memória de Moscovo da Sr.a Stepanova é bem diferente da de um Russo de Vladivostok ou das dos do Donbass.*



2022 01 02 - HÁ 4 ANOS, MARCELO DE SOUSA, O GLOBE-TROTTER, PARABENIZANDO O SEU IRMÃO BOLSANERO, O INGRATO QUE SE NÃO CANSOU DE DESFEITEÁ-LO E FAZÊ-LO ENGOLIR SAPOS: «“Como eu disse e como disse o Presidente Bolsonaro, era uma reunião entre irmãos e entre irmãos o que há a dizer se diz rápido, como se diz em família”.

2018 01 02 - Foto Victor Nogueira - em setúbal, fogo de artifício na passagem do ano visto duma das varandas no cimo da torre no alto duma encosta. Não tão majestoso como o da beira rio, para nornordeste também houve festa: no Faralhão e Praias do Sado, na Azeda e muito mais para lá, talvez no Montijo ou Pinhal Novo, embora neste caso muito minúsculo. Suponho que também terá havido em Palmela,  mas não reparei nele,caso tenha sido lançado.

2018 01 02 foto victor nogueira - Super Lua-Cheia em Setúbal, ao anoitecer do 1º de Janeiro

Num jogo de esconde não esconde  vislumbro a Lua na rua, lá no alto, com as nuvens que placidamente deslizam em vai-vem.como se fossem fantasmas vaporosos e eu pergunto-me: vais ou vens ? Muito ?  Pouco ? Nada ?

Ver a anterior Super Lua Cheia de 2017 em  A Super Lua de 2017, em Setúbal

 
2017 01 02 A propósito de quem "cobrou" no inFaceLock porque apenas cerca de 25 dos cerca de 5 mil amigos no inFaceLock lhe desejou "Boas Festas".
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Olha, [...] Bom Ano. E tu, lembraste-te de mim, [telefonaste-me ou ao menos enviaste-me um SMS ou MSG no chat] ? Lembraste-te de mim, que deixaste de partilhar comigo até que eu deixei de fazê-lo contigo [ou continuo a fazê-lo, porque ainda te considero] ? Gosto de ti, gosto do modo como escreves mas ... A amizade e a estima vivem da realidade, do gesto e do afecto físicos.
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Bom ano, [...] A vida é feita de palavras sem conteúdo ? Se estivesses em Portugal, eu convidar-te-ia para minha casa, para saireis comigo ou ajudar-te-ia se fosse caso disso. E tu, se estivesses em Portugal ou eu na tua terra, farias o mesmo em relação em mim [sobretudo na festinha da família, a do Natal, mas não da Amizade, em que todos somos Irmãos, diz a conversa da treta ]?
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A tua seria para mim uma casa aberta como a minha é para quem dela precise e tenha a minha estima, como para toda a gente era a dos meus pais em Angola mas não é a casa da maioria das pessoas no inFaceLock ? Sabem as pessoas do inFaceLock se estou só ou acompanhado, triste ou alegre, doente ou cheio de saúde, se estando doente, a minha doença é terminal e dolorosa ou não ?
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Bom Ano, [...], sem tretas!


2015 01 02 foto victor nogueira - pôr-do-sol na foz do Rio Ave (Vila do Conde - entrada da barra) 2015.01.01

Por estas bandas nortenhas está muito frio e gélido, mas sem as temperaturas negativas de setúbal. Dizem que de manhãzinha por vezes os campos estão cobertos de neve, mas deve ser geada. Fora isso, os dias estão soalheiros, de céu azul. com núvens boas para fotografar o pôr-do-sol. Contudo o entardecer do 1º dia do ano esteve neblinado.

Ali na varanda - batida pelo sol o dia inteiro - o tempo está quentinho, para ler estirado numa cadeira desdobrável.



quinta-feira, 17 de março de 2022

Oliver Stone entrevista Putin

 * Victor Nogueira


 Rede TVT
A TVT, em parceria com o Noucate, exibe os quatro episódios da série “As entrevistas de Putin”, com o cineasta norte-americano Oliver Stone. 

AMT - Vi na Netflix faz tempo, e também tenho as entrevistas em livro. Uma vantagem de ter livros em papel é que não podem ser excluídos eletronicamente

VN - E podem levar-se para qualquer lado, onde haja luz, mesmo que não haja um PC, salvo seja, wi fi ou internet   Mas o vídeo tem uma outra vantagem, para quem consiga interpretar a linguagem gestual do entrevistado. O realizador apresenta a entrevista em dois planos, oral e gestual / corporal.


Ucrânia em chamas - Ukraine On Fire 2016 Oliver Stone - Legendas disponíveis

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

o senhor duarte pio bota faladura

* Victor Nogueira

Segundo o senhor duarte pio, autoproclamado pretendente a monarca dum reino de Portugal inexistente desde 1910, tratar-se-ia apenas de "prudência" por arte do emérito e augusto monarca de seu nome Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón-Dos Sicilias

ESTE SENHOR DUARTE PIO, CUJO NOME COMPLETO É  Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de Bragança,  DESCENDE DUM RAMO BANIDO PELA MONARQUIA CONSTITUCIONAL, MIGUEL DE BRAGANÇA, O ABSOLUTISTA, PERJURO DA CARTA CONSTITUCIONAL OITOCENTISTA, DADO QUE O RAMO LIBERAL SE EXTINGUIU COM A MORTE SEM FILHOS DO ÚLTIMO REI DE PORTUGAL, MANUEL II.

ESTE SENHOR DUARTE PIO, CONSORTE E DESCENDÊNCIA, SÃO TEMA HABITUAL DAS REVISTAS COR-DE ROSA, COM MUITAS POSES FOTOGRÁFICAS. ESTE SENHOR DUARTE PIO REIVINDICA COISA POUCA: SER TRATADO POR ALTEZA REAL, COM LUGAR ESPECIAL NAS CERIMÓNIAS DE ESTADO DA REPÚBLICA PORTUGUESA E COISA POUCACHINHA, A CRER NA WIKIPEDIA

Reinstauração da monarquia constitucional em Portugal e os seguintes títulos:[Rei de Portugal, Príncipe Real de Portugal, Infante de Portugal, Duque de Barcelos, Duque de Bragança, Duque de Guimarães, Marquês de Vila Viçosa, Conde de Arraiolos, Conde de Barcelos, Conde de Neiva, Conde de Ourém, Grão-mestre da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Grão-mestre da Ordem Equestre e Militar de São Miguel da Ala.  E TEM UMA PÁGINA NA INTERNET ONDE É REFERIDO COMO Sua Alteza Real D. Duarte de Bragança.

FOSSEM EÇA DE QUEIRÓS E RAFAEL BORDALO PINHEIRO VIVOS E O SENHOR DUARTE PIO SERIA TEMA PARA A CAUSTICIDADE DE AMBOS,POIS  É PERSONAGEM QUE QUANDO ABRE A BOCA OU ENTRA BIGODE OU SAI ASNEIRA.

CONHECIDO PELA PROFUNDIDADE DO SEU PENSAMENTO E PELO BRILHO DAS SUAS TIRADAS, VEM AGORA O SENHOR DUARTE PIO PRONUNCIAR-SE SOBRE O REI EMÉRITO, NOMEADO REI DE ESPANHA E SUCESSOR PELO FASCISTA FRANCO, CAUDILLO DE ESPAÑA PELA GRAÇA DE DEUS, OPINANDO QUE ACREDITA NA INOCÊNCIA DE JUAN CARLOS, QUE «“Entregou a administração da fundação a um administrador e, provavelmente, não deve ter acompanhado de perto o que é que se passava em matéria de transferências de dinheiro para a fundação”..(...) Acredito na inocência e talvez na imprudência, no sentido em que ele confiou num administrador. E pronto…» AFIRMANDO QUE O AUTO-EXÍLIO É UMA MEDIDA DE PRUDÊNCIA: «Provavelmente será mais tranquilo e mais prudente poder defender-se de fora. Mas eu acredito que o Rei [emérito] Juan Carlos tratará dos assuntos com a Justiça com todo o rigor necessário.» E TERMINANDO COM A APROVAÇÃO DUMA EVENTUAL FIXAÇÃO DE RESIDÊNCIA DO EMÉRITO AUTO EXILADO EM PORTUGAL, «Mas acho que seria muito bom para Portugal. Quanto mais se falar agora que Portugal é um país seguro e que se pode vir fazer turismo para aqui, melhor. Assim toda a imprensa mundial, pelo menos durante uma semana, ia só falar disso. Aí os ingleses iam ficar envergonhados em estar a pôr Portugal numa lista negra.»

EFECTIVAMENTE O SENHOR DUARTE PIO QUANDO ABRE A BOCA, OU ENTRA BIGODE, OU SAI ASNEIRA. POBRE PORTUGAL, COM UM TRONO HEREDITÁRIO E  TENDO COMO CANDIDATO A REI VITALÍCIO, ATÉ À MORTE, PERSONAGENS COMO "Sua Alteza Real Duarte de Bragança» o Senhor Dom Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de Bragança, Infante de Portugal, Duque de Barcelos, Duque de Bragança, Duque de Guimarães, Marquês de Vila Viçosa, Conde de Arraiolos, Conde de Barcelos, Conde de Neiva, Conde de Ourém, Grão-mestre da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Grão-mestre da Ordem Equestre e Militar de São Miguel da Ala.»  E TEM UMA PÁGINA NA INTERNET ONDE É REFERIDO COMO «Sua Alteza Real D. Duarte de Bragança.»

DE SEGUIDA A PÁGINA ciber espacial  DA AUTO PROCLAMADA 

Resultados da procura



terça-feira, 12 de julho de 2016

Hugo Pratt - O desejo de ser inútil





* Victor Nogueira

Trata-se duma interessante e longa entrevista autobiográfica a Hugo Pratt, profusamente ilustrada, (des)mistificadora, da vida de quem (a)parecendo como progressista na sua obra, especialmente em Corto Maltese, nos dá nesta entrevista a "versão" dum aventureiro que preza(va) sobretudo a amizade, a boa vida, as mulheres, para lá das ideologias. Um homem das 13 vidas, "sob o signo do gato" com "7 portas para um universo"

Neste seu livro Hugo Pratt refere um poema de Fernando Pessoa

sábado, 11 de junho de 2016

OLHARES SOBRE LUANDA E PORTUGAL



OLHARES SOBRE LUANDA E PORTUGAL 

textos, de Francisca Van Dunem e de victor nogueira

1. - FRANCISCA VAN DUNEM
" (...)
P. - Não havia Direito em Luanda. O choque foi muito grande quando chegou a Lisboa?
R. - O choque foi tremendo. Tinha 17 anos. Luanda era uma cidade aberta. Lisboa era uma cidade fechada e sombria nesse tempo. Fechada nos costumes, havia grupos muito fechados, e era uma cidade cinzenta. Eu vinha de Luanda descontraidamente. As pessoas estavam habituadas a falar com toda a gente, a vestir-se sem nenhuma preocupação, não só pelas questões do clima mas por influência da África do Sul e de Moçambique. As raparigas tinham uma forma de vestir mais solta. Eu trazia umas saias que eram curtíssimas para cá, mas eu não sabia. Não tinha a mínima noção.

P. - Era o tempo em que uma mulher era mal vista se ia a um café...
R. - Não. Nessa altura ia-se muito aos cafés. Havia muitos cafés de estudantes. Mas até a isso eu não estava habituada, àquele ambiente escuro em que as pessoas estavam vergadas sobre os livros, a fumar. Naquele tempo fumava-se muito. Era um ambiente um pouco surreal, era como se entrasse de repente num filme fantástico. Eu estava habituada ao ar livre, às esplanadas, ao sol... Essa entrada inicial foi de facto um pouco traumática.
(...)
P.- Ele decidiu regressar e vive hoje em Angola. E o seu irmão João decidiu também regressar a Luanda para o apoiar. Como é que viu essa decisão?
R. - O João era a minha alma gémea. Eu vi com bons olhos o regresso do João. Embora ele tivesse uma carreira bem sucedida na BBC, chefiava a secção de língua portuguesa, sentia nele sempre um espaço de vazio. E o grande espaço de vazio que tinha era Angola. Angola fazia-lhe falta. Tinha necessidade física. E a sua ida acabou por ser associada à ida do Che.

P. - E, apesar de serem almas gémeas, a Francisca não tem esse espaço vazio em relação a Angola?
R. - Eu tenho. Fica sempre. Há sempre um lugar em nós, um bocado em nós que está perdido algures, não no espaço cósmico. Sabemos onde está. Mas nestas coisas tem de haver alguma racionalidade. No jogo entre o espaço do possível, do fazível e do desejável, é preciso encontrar algum realismo. A minha mãe tem 93 anos e vive comigo. Eu tenho uma carreira feita aqui que não me passa pela cabeça abandonar de um dia para o outro. A partir de uma certa altura, foi uma escolha que fiz. E foi uma escolha consciente.
(...)
P. - Acha que morreu de desgosto?
R. - O meu pai morreu de tristeza. Interiorizava muito as coisas. Escrevia muita poesia. Tinha uma vida interior muito intensa. Acabou por ficar num estado de tristeza e de desconsolo que não teve retorno.
(...)"

http://expresso.sapo.pt/politica/2016-06-11-Francisca-Van-Dunem-O-meu-presente-e-o-mais-imprevisivel-de-todos-os-futuros

2. - VICTOR  NOGUEIRA 
Victor Nogueira
Natal de calor sufocante, com humidade que colava miríades de gotículas de suor ao corpo, com violentas tempestades, aterradoras trovoadas riscadas de raios, era o de Luanda, com a única maravilha da praia. O Natal, esse ainda era mais faz de conta, um pai Natal enfarpelado qd tudo andava em mangas de camisa, a neve da árvore representada com flocos de algodão ou o esguicho dum spray em bisnaga, o presépio com animais que nunca víramos: carneiros, burros, vacas .... 

Era um Portugal de faz de conta onde a única maravilha real era o alvoroço de acordar manhã cedo, a 25 de Dezembro, para desembrulhar as prendas, mais dadas pelo Menino Jesus quase despido que propriamente por um Pai Natal encalorado em desapropriadas vestes. E como vivíamos num Portugal de faz de conta que a nós, angolanos por nascimento e vivência, nada nos dizia, o ano lectivo era igual ao de cá, mas com Verão/calor infernal durante 9 meses e as férias grandes na época "fria". Com o Euromilhões bastava-me um clima temperado como o da costa mediterrânica :-) 

Dum estrangeiro em Portugal, apátrida, ao contrário do que diz o BI
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Victor Nogueira
Sabes, a 2ª vez que estive em Portugal. tinha 16 anos e desembarquei em pleno inverno, a caminho dum Porto cinzento, frio e chuvoso, mas com, um calor humano nas ruas que já não existe ou já não sinto. A terceira vez tinha 20 anos e. descia em Lisboa a calçada da estrela até económicas, no Quelhas, transido de frio, noite cerrada ainda às 8 da manhã (em Luanda já era dia às 5/6 da manhã), mal conseguindo falar ou escrever, os lábios e os dedos gelados como prisões, admirado pelas nuvens de fumo saindo pelas narinas dos guarda nocturnos, dos pessoas com quem me cruzava, dos burros ja desaparecidos, puxando carroças, num tempo em que os pobres andavam a pé, de bicicleta ou de motorizada, em cidades onde os automóveis eram ainda uma raridade. Deste País de faz de conta e do meu país falo no poema Raizes (http://aoescorrerdapena.blogspot.pt/2014/01/raizes.html)
.
Ao fim dum ano em Portugal, tão pequenino, tão mesquinho, tão vistas curtas, o nosso desejo era regressar a África. Mas para mim significava ter de andar para trás, para mudar de alínea e seguir engenharia. Em história falava-se nas largas artérias pombalinas, espantosas ruelas qd as vi pela 1ª vez, face às largas avenidas e ruas de Luanda LOL
o
Victor Nogueira
E só voltei a sentir calor humano e solidariedade nas aldeias do Alentejo, mas não nas vilas e cidades onde vivi (como évoraburgomedieval), nas gentes da Beira Baixa, por onde deambulei, e do Barreiro, onde trabalhei.

Fiquei em Setúbal pk me fazia lembrar Luanda, mas esta é uma cidade individualista, um deserto, um cada um por si mas tudo coscuvilhando, um deserto cercado de maravilhas naturais que a mão do homem ainda não destruiu, ao contrário do que tem feito à cidade
.
Victor Nogueira
Ana, ainda existirá o Barreiro de humanidade onde trabalhei e, apesar de tudo, fui feliz ?
.
o
Victor Nogueira
E a mim dói-me a ausência da presença das amizades, feitas de bolas de sabão :-)

in http://mundophonographo.blogspot.pt/2010/11/respigado-daqui-e-dali-deste-ou-daquele.html


* Victor Nogueira.

Se me ficasse apenas pela aparência do que os meus olhos vêm, a neblina e o cinzento que envolvem a cidade prenunciariam um dia frio, de chuva miúdinha. Mas o suor goticular que permanece à flor da pele sem que se evapore indica que o resto do dia, para além de nublado, será quente e húmido; uma boa chuvada seguramente que refrescaria o tempo e afastaria este pesado chumbo que me envolve, que em Luanda, na estação quente, prenunciaria grandes e violentas bátegas de água quando não relampejantes e ensurdecedoras trovoadas. Mas este é um país de brandos costumes, de pequenas tempestades, de meias águas e de meias tintas. E depois nem sequer há os quilómetros de areia de praias para mergulhar como na minha terra perdida. Como se não bastassem os ajuntamentos, as praias da costa da Arrábida estão na sua maioria impróprias para consumo devido ao grau de poluição. De modo que ao fim do dia, após o emprego, resta apenas a água fresca do chuveiro. (MMA - 94.06.15)

Uma terra são as pessoas, as casas, as ruas, as memórias, que se vão (re)construindo lentamente ou com um corte radical entre o antes e o agora. sem um presente mais ou menos contínuo. A memória é assim como que um corpo amputado, como o que senti ao voltar a évoraburgomedieval, por um dia, após 20 anos de ausência.É disso que falo também em "Uma outra Luanda - o antes e o agoramente ou o impossível retorno." http://aoescorrerdapena.blogspot.pt/2011/02/uma-outra-luanda-o-antes-e-o-agoramente.html

Em 1986, numa encruzilhada da  minha vida, (o meu divórcio, o saneamento político pelo PS - o 1º de vários ocorrera em 1976, post 25 de Novembro) optei por continuar em Setúbal, onde nunca fui feliz, em vez de regressar a Angola ou ir para o Porto, para o Norte, onde vivia e vive a maioria da minha família. Valeu a pena a opção por  Setúbal ? Não, não valeu a pena. Mas não podemos refazer o passado, mas apenas tentar que o futuro seja um pouco diferente e menos cinzento e vazio.

Se o Victor de hoje se sentasse defronte do victor dos 20 anos, não se reconheceria embora para lá da pele estejam como se  fora um náufrago sem terra no horizonte, como que amortalhados e tentando resistir ao sufoco daquilo que Alda Lara expressa  em 

PRESENÇA AFRICANA

E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...

A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras, 
Salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!...)
pelos meninos

de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu
e corpo musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu  revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
Longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente...

Terra das acácias, dos dongos,
dos cólios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!                                

            Benguela,1953 (de  Poemas,1966)

Em tempo - Ao contrário de Francisca Van Dunem penso que naquele tempo, pelo menos em Luanda, as influências culturais identitárias eram do Brasil, (então visto como um país multi-racial) da França e dos EUA (estes na altura vistos como uma "democracia", em contraposição a Portugal). Afinal, em 1958, nas eleições presidenciais, o general Humberto Delgado obtivera expressiva votação nos principais centros urbanos, vencendo largamente em Benguela  e por 68 votos não conseguindo a maioria em Luanda. (1)

Por outro lado, em Angola e em Luanda não havia segregação racial de apartheid, como em Moçambique e na África do Sul.. Havia sim, segregação social, como aliás em Portugal, com a diferença de que os deserdados distinguiam-se pela cor da pele e pelo preconceito de não poucos "brancos".. 

Nas povoações do Alentejo, por exemplo, em terras de latifúndio, havia normalmente duas sociedades recreativas, a dos  "ricos" e a dos "pobres", não se misturando umas e outras.

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(1) Humberto Delgado - As eleições de 1958 em Angola e no Quitexe - http://quitexe-historia.blogs.sapo.pt/26949.html