Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

.

Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
Mostrar mensagens com a etiqueta série entre eros e afrodite. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta série entre eros e afrodite. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de março de 2025

e de repente é como se todas as estrelas se apagassem

 23 de março de 2013  ·


Foto Victor Nogueira - pôr-do-sol em s. martinho do porto

* Victor Nogueira

Bem sei que os textos longos são ilegíveis para a maioria embrenhada no fastfoodwritereadanddiscard. Mas eu sou incorrigível, não reciclável, um caso completamente perdido. Bem sei também que "alguéns" dirão - com certa razão - que nas últimas semanas quase não me tenho pronunciado sobre a maioria do que partilham comigo, nem publicado no meu blog Ao Sabor do Olhar (1). É certo. Mas ...  nem sempre os amigos estão prontos, nos tormentos !     Porque em verdade vos digo: cada um de nós é apenas ele próprio e a sua boa ou má circunstância !

~~~~~~~~~~~~~~~~~

De repente é como se todas as estrelas se  apagassem ficando o cansaço e a velha vontade, por vezes renascida, de partir  para longe, de apagar tudo, como se fosse possível recomeçar tudo de novo,  rasgando o que escrevera, lixo para lançar aos quatro ventos, porque não ria,  nem chorava, nem tinha uma pedra no lugar do sentir pelo qual se deixara  envolver.

Estava assim porque o tinha considerado seu igual e confiara nele e com ele procurara falar sem reservas. Parecia contudo evidente que ele jogava à defesa e que as palavras seriam para ele fogo de artificio e manobra de diversão por detrás das quais se escondia e protegia. Assim o julgava, apesar de poder considerar-se má leitora dos factos e dos gestos, como outrora o fora de outras pessoas, nuns casos porque se ficara pelas palavras, noutros, como no presente, por ter procurado "ler” para além delas. 

Talvez a considerassem presumida porque em  determinada altura do seu  relacionamento não acreditara em tudo o que ele lhe  dizia, relativamente a ela  própria e aos sentimentos que afirmava nutrir por  ela: seria uma presunção diferente da que ele tinha, porque ela perante ele se  descobrira, talvez cedo e desajeitadamente demais, talvez porque tivesse lido  nele aquilo que desejara ler. E assim, conhecendo-lhe os sentimentos dela, seria  levado a pensar que lhe bastaria dizer quem era para que ela largasse o trabalho  ou interrompesse a reunião para atendê-lo ao telefone, fosse do emprego, fosse  da casa onde morava.  

Era simultaneamente verdade e mentira afirmar que pouco  ou nada lhe  interessava saber se ele estivera, estava ou algum dia poderia vir  a estar "enamorado” por ela. Era de presumir que fosse adulto, crescido,  responsável; então porque não haveria de acreditar no que ele lhe dizia e  deixar-se de "poesias" e de imaginações!?

Recordava-o por vezes com uma grande  ternura mesclada de inquietação e  desassossego. Lembrava-se das primeiras vezes  em que o vira, quando procurava  conhecê-lo, e de como se encantara por ele.  Recordava-se das vezes em que pretendera envolvê-lo numa longa e doce caricia ou  o desejara como um homem pode ser desejado por uma mulher. Como esquecer a rede  em que se deixara enlear, que ele muitas vezes parecera também tecer e outras  rompera? Recordava o seu jeito gaiato, sorridente e brincalhão, sem esquecer os  desencontros e as vezes em que ele disparatara ou faltara sem dizer água vai,  apesar da importância que ela, parvamente, dera à sua presença e  companhia.

Ele dizia-se amante da liberdade e no  entanto não poucas vezes desrespeitara a dela, deixando-a a falar sozinha, com a  refeição fria ou o fim de semana “estragado". Ele dissera preocupar-se com o  efeito que os seus actos e as suas palavras poderiam provocar nos outros, por  recear e não querer magoá‑los, mas não poucas vezes a magoara, sem que ela  soubesse verdadeiramente distinguir quando falava a sério ou na brincadeira ou  se estava apenas desatento por feitio ou preocupação. Não podia esquecer-se das  vezes em que ele lhe entrara pela casa dentro, enchendo o ar de poalha dourada e  refrescante, libertando a sua fragilidade, como ave inquieta na brisa que ela  era.

Recordava-se disso e de muitas coisas e  palavras, que gostaria tivessem (o)corrido ou acontecido de outro modo. E  lembrava-se de algumas cartas, poucas, duas ou três, que lhe escrevera,  arrumadas no fundo duma qualquer gaveta, porque resolvera deixar sedimentar as  palavras, que deste modo, com o decorrer do tempo, haviam perdido o sentido e a  oportunidade. Pensava ser natural que os homens e as mulheres procurassem uns  nos outros amizade, ternura e carinho, considerava natural que os homens e as  mulheres se sentissem mutuamente atraídos por serem de sexos diferentes ou que,  se fosse caso disso, pudessem ir para a cama um com o outro, dum modo saudável,  sem táximetro e tabela de preços consoante o serviço.

Mas nem sempre acontecia o que deveria ser  natural, não poucas vezes porque muitas e variadas razões levam a levam a renegar, condicionar, proibir e "regulamentar" a sexualidade e as suas manifestações duma forma que nada tinha a ver com a expressão saudável da vida. 

E fora como uma expressão de vida e um  cântico de alegria que ela o considerara, de forma aberta. No entanto e talvez  demasiado cedo partira, quando em vão por ele esperara, para logo de seguida  considerar o amor um bem que suaviza, quando alguém afaga a nossa vida, o que  lhe dissera inopinadamente. 

Há na vida um tempo e uma ocasião para  tudo e para cada coisa, segundo expressava um belo poema judaico, e por isso  talvez as palavras e os sentimentos dela tivessem sido expressos demasiado  cedo.

 Entendia ser natural que o desejasse como  natural seria que outros homens a desejassem, mas não ele, que até era um homem  que sabia "provocar" as mulheres, que a "provocara" não poucas vezes, embora dum  modo que na altura lhe parecera "natural", sem maldade.

Contudo, o passar dos dias e os  "desentendimentos” pelo que talvez fosse ou tivesse sido por ambos desejado  fazia com que ela pensasse já não ser natural que ele "provocasse" e  amesquinhasse (consciente e deliberadamente ou não) quem "provocara" (por ela  não o entender), apenas porque teria tido com a mulher com quem vivera  experiências, isto é, vivências, humilhantes ou perversas, gerando situações que  ambos não haviam conseguido ultrapassar (supondo que ele desejaria  ultrapassá-las), por preconceito ou falta de simplicidade ou por utilizarem  gestos e códigos diferentes. Situações que não haviam logrado superar em busca  da amizade, do amor, da ternura, do prazer, da paz ... .        

É um facto que fora por ele seduzida e  que, ao considerá-lo seu igual, procurara sobretudo a sua amizade. Mas tendo  ambos códigos e chaves de leitura diferentes, só veramente poderiam saber quem  eram através da convivência, para descobrir o que estava para lá das categorias  redutoras que (des)ajudavam ao entendimento das pessoas. Porque ele falava nas  mulheres dum modo simplista, cómodo, mas irreal (são todas iguais, logo são  todas tratadas da mesma maneira); outros falariam nos homens (são todos iguais,  andam todos ao mesmo, logo devem ser todos tratados da mesma maneira).

E no entanto, por temperamento, vivência e  "leitura", ela sabia que há  homens e mulheres, com características comuns, é  certo, mas que para além disso cada pessoa tem as suas características próprias,  especificas, da sua cultura e  classe social; para lá das "cómodas” categorias e  definições redutoras ela procurava o que existe de próprio, de pessoal, fosse no  Zacarias ou na Carlota, fosse na Maria ou no Manel, independentemente de se não  empenhar em "convencer”  as pessoas, o que por vezes em nada facilitava a sua  relação com outrem.

Falava com as gentes, é certo, mas não  como apóstolo; buscava aquelas com as quais se identificava, afastava-se das que  nada tinham em comum com ela naquilo que reputava essencial, aceitava e tolerava  as outras.

Sendo assim, é natural que tenha pensado  e lhe tenha dito "gosto deste  homem, gosto dos filhos dele, postaria de com ele  viver e compartilhar o dia-a-dia". É natural que ele lhe respondesse ter outros  objectivos prioritários na vida e que ela estava à margem deles, apesar dela o  considerar seu igual e procurar respeitar a sua liberdade. Admitia contudo que  algumas vezes os seus gestos e atitudes para com ele pudessem parecer  desmenti-la, apesar de serem também condicionados pelos gestos e atitudes dele.  Admitia pois que ele quisesse provar que sozinho poderia triunfar, sem a  solidariedade dos outros, e que ela o desejava "controlar", a ele que estava  farto de prisões, pressões e bofetões; por isso talvez tivesse sido erradamente  levado a pensar para consigo mesmo que o paleio é sempre igual e que no  princípio são tudo rosas e arco-íris, para lá dos quais surgem os espinhos e as  tempestades e os ventos ciclónicos.

Tudo bem, continuaria ela a pensar, ninguém  a mandara ser apressada, sem  dar tempo ao tempo, embora depois os erros se  possam a vir a pagar raro, face à brevidade da vida e à impaciência dos mortais.  É natural que os sonhos" não sejam os mesmos para todos, é "natural" que para  algumas pessoas fique a nostalgia dos sonhos que se sonharam mas não viveram ou  falharam. Afinal os sonhos nem sempre são pesadelos e por isso podem também  ser  a expressão dos anseios com vista à concretização, talvez por vezes dum modo  errado e desajustado, dos desejos de uma vida diferente, melhor, mais cheia e  saborosa.

Como a que ela pensara encontrar nele e  retribuir-lhe!

Setúbal 1990.03.19/20  

(Victor Nogueira, sobre uma epístola  de S. Sebastião aos gentios, em 4 de Outubro de 1989, a D.

(1) - Ao Sabor do Olhar - o blog das minhas amizades e conhecimentos

~~~~~~~~~~~

 Luisa Neves

Excelente. Bom fim de semana. Abraço. 😉 🙂

12 a

Maria Célia Correia Coelho

Li a primeira vez, mas creio que devo reler, prmeiro porque gostei mtº, depois porque tem tantas emoções, recordações, culpa, análise das relações sentimentais, enfim, meditar sobre encontros e desencontros da vida! BFS Victor 🙂

12 a

Manuela Vieira da Silva

Começa a escrever um livro a partir daqui, Victor Nogueira. É boa literatura e começas lindamente. As complexidades entre homem e mulher, o jogo de sedução mesclada de inocência; as decepções que limitam e bloqueiam situações aparentemente fáceis. Porque a espontaneidade é sempre verdadeira, depressa acaba a brincadeira. Gostei muito.Bjos.🙂

12 a

Maria Célia Correia Coelho

"Afinal os sonhos nem sempre são pesadelos e por isso podem também ser a expressão dos anseios com vista à concretização, talvez por vezes dum modo errado e desajustado, dos desejos de uma vida diferente, melhor, mais cheia e saborosa." Mas é verdade tudo isto, muitas vezes somos incapazes de concretizar alguns sonhos para nós, pesadelos para outros a quem não queremos magoar, nem temos coragem... 🙂 Pronto, já reli!!

.

12 a

Ana Maria Madail

Excelente!!! Obrigada pela partilha..

12 a

Carlos Rodrigues

Bela imagem, Victor, não sei se é nascente se é poente. Li o texto atentamente e lembrou-me Lobo Anunes em " A explicação dos pássaros ", mais propriamente nos encontros e desencontros homem-mulher e o peso do meio em tudo isso. Obrigado, um abraço.

12 a

Deolinda F. Mesquita

Victor, Excelente! adorei. Obrigada, bom fim de semana, bjs

12 a

Isabel Dias Alçada

Bom fim de semana amigo, 😘

12 a

Graça Maria Teixeira Pinto

🙂

12 a

Ana Albuquerque

Pois é. É exactamente como tu dizes; Nós somos nós e as nossas circunstâncias. Com tudo o que isso possa acarretar.

12 a

Alice Coelho

Há pesadelos que são sonhos lindos de se viver e guardar!!

12 a

Yolanda Botelho

Obrigada meu esquerdista preferido.....Bjs

12 a

Margarida Piloto Garcia

Victor Nogueira, ontem escrevi um extenso comentário a este teu texto. Foi feito ao sabor do momento e por tal genuíno e sentido. Agora o dito desapareceu e eu já não posso recriar os sentimentos de ontem.

12 a

Victor Barroso Nogueira

Graças a todos os/as comentaristas. Mas ... Alice Coelho xxxxxxxxxxxxxiiiiiiiiiiiiiiii pesadelos, não !!! Só sonhos com hidromel e avezinhas a chilrearem de regato em regato LOL Ana Albuquerque Nas circunstâncias estão também as envolventes. Margari… Ver mais

12 a

Margarida Piloto Garcia

Estás engando amigo Victor Nogueira mas não gosto de frases feitas e lugares-comuns. Assim sendo, aquilo que esvrevo a dada altura sai naturalmente expressando o que sinto. 24h depois os sentimentos até se podem manter mas as palvras já não são as mesmas. E depois o problema de saúde traz-me um infinito cansaço que não me deixa fazer flash-back. Talvez numa outra altura...quem sabe?

12 a

Belmira Patrício

grata amigo!

12 a

Helena Sousa

A vida é uma maré, com tanta turbulência, e auqela espuma branca das ondas (com a puluição às vezes bastante branca acastanhadsa), assim são as vidas com pouca luz

11 a

Vitor Durão

"Estava assim porque o tinha considerado seu igual e confiara nele e com ele procurara falar sem reservas. Parecia contudo evidente que ele jogava à defesa e que as palavras seriam para ele fogo de artificio e manobra de diversão por detrás das quais se escondia e protegia. Assim o julgava, apesar de poder considerar-se má leitora dos factos e dos gestos, como outrora o fora de outras pessoas, nuns casos porque se ficara pelas palavras, noutros, como no presente, por ter procurado "ler” para além delas." Não se deve julgar sem se conhecer tudo, ou seja - os dois lados. Às vezes há acontecimentos de irracionalidade que só atingiram um dos lados e que impossibilitam leituras racionais por parte do outro. Podem até conduzir a impossibilidades de encontro mesmo contrariando a vontade desse lado. Enfim cada caso é um caso.

11 a

Editado

Judite Faquinha

Eu li com muita atenção, e, não acredito que me leve a considerar que haja seres humanos ele ou ela como iguais, podem ter muito em comum e, terem uma vivência muito saudável, mas há sempre um momento de desencontro... porque os caracteres não são totalmente comuns, e acontece que sonhos se tornem em pesadelos, mas se ambos forem mentalmente bem formados, podem conduzir-se a uma boa harmonia de entendimento...cada pessoa tem o seu eu, e este homem do texto não me parecia apaixonado por ela!!! A vida ainda com diferentes condições sociais, ou com as mesmas,há sempre um mar revolto com tempestades. Mas Victor o texto para mim, ainda que a minha formação social, seja apenas a experiência da vida...achei bem explicito e um belo trabalho adorei.bons sonhos. São neste momento 4:h 53 m beijokinhas,

11 a

Madalena Mendes

Excelente literatura! A ver já em livro em partilha pelo mundo!

10 a

António Saraiva

Que pena não consigo partilhar. Raios partam o facesemface

1 a    

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

entre eros e afrodite - 04 (a re-colecta dedilhada)



* Victor Nogueira

como não sei os caminhos das penedias e se são ou não acetinados como não ouço o murmúrio da brisa nos desfiladeiros serei em meus sonos cega e surda sem luz mergulhada nas trevas dos pesadelos pesados e sobressaltantes um dia que nos encontremos fecharei os olhos e com os nossos dedos e lábios traçarás o mapa de mim devidamente cartografado bem se calhar levarás uma lamparina que te fará ver as estrelas olha o abusador direi pimba, lamparina para te abrir os olhos ou abro os olhos e tudo será escuridão salvo as estrelas do teu olhar ou será uma metáfora porque os teus olhos são por vezes raios relampejantes não cintilantes  será apenas um jogo floral  ?  dardos setas, não de cupido ou vénus, mas de marte ?

só amanhã saberás os meus pensamentos até lá terás de contentar-te com os sonhos que sonho em ti. Tal como eu. Enquanto sonho, toda eu sou uma ave em ti, ave alvoraçada mas estrangulada nas tuas mãos, nas quais procuro a nossa liberdade

 

ele delira

e na pira

com a lira

suspira

 

com a pira

ateia

incendeia

preso na teia

setúbal 2013.08.28

~~~~~~~~~~

sem dó

 

sem dó

com poeira da jeira

na leira te cubro e descubro

com lazeira

a piteira

 setúbal 2013.08.25

 ~~~~~~~~~~

na leitura de ti

 

na leitura de ti

é dos deuses o manjar

bem picante e sonante

 

e eu

pobre escriba

sem fibra

na lira

esturrico

qual mafarrico

 setúbal 2013.08.25

  ~~~~~~~~~~

alinharei as letras

 

alinharei as letras

linha a linha

alinhavadas

sem tretas

 

nota a nota

a pauta

bem janota

 

- entoarei pela porta

tu à janela

singela

 

a mesa posta

com presteza

e gentileza

  Setúbal 2013 08 25

 ~~~~~~~~~~

 passo a passo

 

passo a passo

no paço

a espaço

passo o tempo

 

passa grainha

sem modinha

nem vinha

 

vou

não estou

 

virei

pé ante pé

 setúbal 2013.08.25

 ~~~~~~~~~

não sei qual é de ti o sabor

 

não sei qual é de ti o sabor

a paleta da cor

o aconchego do calor

 

de ti sei apenas a neblina

longe da oficina 

oh Céus

coberta de véus !

 

de linho te cobres

e não descobres

o leito

refeito

 

o rio

frio e seco

onde o norte

a ode 

 

piano-forte ?

 setúbal 2013.08.25

 ~~~~~~~~~~

Flor do Mar

 

entre eros e afrodite

................a via láctea

................duas lanternas cintilantes

e o beijo

bem vejo

a serpente serpenteante entrelaçada

estrangulada

...................entre a vida e a morte

 

na planura

duas colinas

........entreaberto o pico

........rosado e fremente do seio

o vale-desfiladeiro

 

na leveza da pele

............moreno vale

o prado-bosque

............da seara em flor

a rosada cisterna

ósculo

óculo

bainha de  veludo

onde nos perdemos

e re-encontramos

a nau à bolina

de onda em onda

o fragor silente do desejo

explodindo

 

em cem mil lucernas

 setúbal 2013.08.25

 ~~~~~~~~~

quem vai ao mar

 

Tanto que ela parvamente gosta dele e por ele em vão espera mas com todos os seus passos/passes de dança ainda não me convenci se mulher sou para olhos nos olhos lhe dizer que o amo.

«Se me refiro a ti, não sei como, pk ou és inamovível como uma rocha, ou serpenteante como uma enguia». [perante esta provocação] levanta-se o mocinho inopinadamente a cadeira da esplanada atirada para trás um ar inquisitorial no olhar brilhante a mão esquerda na anca o indicador direito como gatilho apontado ao seu coração a voz imperativa: RESPONDE

Seria fácil responder se estivéssemos à beira-rio numa esplanada. Ele tem sempre uma fuga. [E em sonhos] meu deus que romântico eu na cama e ele desvendando-me aqui um bocadinhdo do lençol além uma entreaberta no pijama depois os dedos como pardalito desenhando o seu contorno dela.

O segredo e a arte estão na descoberta gradual. É muito mais sedutor na primavera uma camisa ou blusa entreabertas deixando ver um bocadinho do seio do que uma garina logo de supetão toda sem roupa na praia do meco. Convidas-me ? ts ts bem morrerei de fome faminta. Mas o meu véu para ti é estilo do eça ou estilo mata-hari? Podes fotografar-me de véu? Mas não de laranjeira. 

29 de agosto de 2013

Foto Victor Nogueira


"Sob o manto diáfano da fantasia a nudez forte da verdade" - Lisboa (Largo do Quintela) - pormenor da estátua a eça de queirós, inaugurada em 1803, da autoria do escultor Teixeira Lopes  

Lisboa queirosiana: a estátua de Eça e sua musa - Autor(a) Ana Ferreira  in http://olhares.sapo.pt/lisboa-queirosiana-a-estatua-de-eca-e-sua-musa-foto5367096.html

~~~~~~~~~~

Margarida Piloto Garcia - O estranho encantamento do quente Agosto. O delírio feito ave, sereia, corcel alazão, principe encantado, mata hari em véus ou maja desnuda. Um prazer para os olhos que te leem. 11 anos

Maria Jorgete Teixeira - Não sei como comentar esta profusão de sentires, este jogo de palavras, ora em tom coloquial, ora num registo mais cuidado, sempre resvalando para a ironia que é a forma de dizermos as coisas cuidando que não parecem tão pesadas, mas não, conhecendo a tua escrita sabe-se que é uma fuga onde o "eu" se esconde...um "eu " poético que por vezes aparece no feminino, numa tentativa de descobrir o que vai do outro lado...

Um prazer para os olhos como diz a Margarida. Há muitas coisas que se intitulam de poesia, mas não passam de um empilhar de palavras, metáforas, algumas até bem conseguidas. O que tu escreves é poesia, Victor, da boa! Bj 11 anos

Graça Maria Teixeira Pinto - Mordaz, irónico, terno.Que mais posso eu dizer depois destas duas poetizas que sabem e comentam melhor do que eu: Gostei muito, Victor Nogueira! 11 anos

Ana Wiesenberger - Talvez a mensagem mais organizada em partes distintas fosse mais acessível a uma leitura atenta. Quem sou eu para te dizer isto? Cada um tem o seu registo, o seu estilo. 11 anos

Victor Barroso Nogueira - Queres explicitar/exemplificar, Ana Wiesenberger ? A meu ver estão lá 3 partes - uma introdução-final em prosa,, uma parte sem métrca a que chamaria poética e uma 3ª final-introdução, de acordo com as datas da escrita, anotadas em cada "pedaço", como se fora um contínuo incessantemente recomeçado. Sem esquecer a foto das ervas no telhado. Ah! Mas a recolecta não contém qualquer mensagem, não foi essa a intenção do autor: são meros registos que se sucederam no tempo, em agosto, entre os dias 23 e 29 11 anos

Maria Lisete Almeida - Bem haja pela partilha destas verdadeiras pérolas. Abraço Amigo. 11 anos s

Graça Maria Teixeira Pinto - P.S. Eu escrevi "poetisas",mas o FB anotou erro.Francamente, já ando baralhada.E fico na minha: Acho que é mesmo "poetisas".(Cá está o sinal vermelho....🙁 11 anos

Carlos Rodrigues ~Inspiração na verdade crua e nua do Eça, com variações Vitorianas, Muito bom. Obrigado, Victor. 11 ano s

quarta-feira, 3 de março de 2021

Eros e Afrodite 03 - textos sobre a sedução, o encanto e a liberdade

  * Victor Nogueira

.eu bem sei que talvez já tenham lido, mas .... os dois primeiros correspondem à expressão dum sentir e a uma escrita como que espontânea. O 3º  (Um rio enche a casa com o  murmúrio de mil candeias) e o da 02 (gota a gota)  são fruto duma intelectualização, dum pensar a frio com a busca das metáforas, um trabalho de artesão mas não de artista. O 3º da presente nota é uma reelaboração dum outro texto, declaração de amor e sobre a ausência, que eu transformara "alargara" num hino à "Liberdade" mas que quem lê considera um texto de amor e não  um texto político. Considero tentativas falhadas quer o "gota a gota", quer "um rio ..." - crítico desapiedado de mim mesmo que sou.

Escritas e dispersas ao vento, as palavras deixam de pertencer ao autor e passam a ser vistas e lidas com os olhos e lábios e o pensar de quem as decifra e tenta descodificar.

~~~~~~~~~~~~~~~~~

SEDUÇÃO

 

O desejo é uma nave

..............penetrando na imensidão destes dias.

Gomo a gomo

desfolhamos o cetim

do nosso corpo.

O ar está pleno

.......deste cheiro agridoce

................almiscarado.

Procuramos a sombra

................fulva e ardente

................fresca

do sol

num murmúrio crescente e

........................ondulante

em vagas sucessivas

no chão arenoso

a macieza da boca

................no seio do ventre

os lábios traçando

..............o mapa do desejo

o sabor da cisterna

.............da viagem dos sentidos

.............ao fim do mundo

nos corredores

a ....ventura

por nós talhada

Descoberta inventada

sem sombras nem limites

.....................(des) enredada

No fragor da tempestade

a serenidade da calmaria

nesta cidadela

......................."sem muros

........................nem ameias"

 

 

 1989.Março.09 - Setúbal 

_________

 

Sedento nas tuas mãos esguias e belas

 

Sedento nas tuas mãos esguias e belas

aqui

na estrada da vida

à beira do caminho

de pé nesta tarde de verão

louco pássaro

.....................de asas partidas

busco a carícia do sorriso

..........o quente murmúrio da voz

..........o frémito das nossas mãos

..........o suave perfume do corpo apetecido

..........turbilhão incandescente sufocante

..........rio mar profundo

sigo ...com os dedos e os lábios o teu contorno

..........aqui os olhos ....a boca ....o lóbulo das orelhas

..........o andar decidido

..........os seios pequenos e firmes

além a ondulante seara

........a curva suave

........o moreno vale

fresco límpido agridoce refrigério

  

1985.Julho.28 - Setúbal

 


__________________

 

 Um rio enche a casa com o murmúrio de mil candeias

 

Um rio enche a casa com o murmúrio de mil candeias

enquanto  

............ondulados

............compassados

............rítmicos

ouço

sinto

e reconheço

............os teus passos

 

Em silêncio junto as palavras

.................percorro o teu corpo

.................flexível e moreno

 

Rio, choro e bailo contigo

quando assomas à porta e

..........busco o veludo dos teus lábios e do teu rosto.

bebendo o vinho da esperança

 

Tudo tem agora outra qualidade

..........................a qualidade do trigo em flor

...........................................da brisa incandescente

...........................................da sombra refrescante

...........................................do sol sem ardor

 

e no ar

o fragor e e a calma silente da tempestade liberta e  amainada

 

Setúbal 1989 / 2000

*************

Esta é a versão inicial (1989) do último escrito, que prefiro sem dúvida alguma

1989.06.07

Setúbal








nature,sea,black,and,white,ocean,view,water,waves - in http://linhacabotagem.blogspot.pt/2011/05/diurnos_30.html


"Operários", tela de Tarsila do Amaral, observados por olhos de um rosto na multidão - em http://blogdoricardonovais.blogspot.pt/2010/06/um-milagroso-acaso-de-amor.html