Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

OS FILHOTES DE SALAZAR/CAETANO (2012)

 * Victor Nogueira

2 de outubro de 2012

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Mas que pobreza de argumentação. Com tal nível, os defensores de Salazar contra o 25 de Abril na sua universidade salazarista nem passariam do 1º semestre do 1º ano. Quanto muito seriam “licenciados” como polícias de giro e cacete. Daqueles que usavam fartos bigodes. E muitas vezes imponente barriga !

Como cogumelos depois da chuva aparecem os defensores de Salazar e do Paraíso. Transformado em  Inferno pela "traição" do 25 de Abril

Sim, antes do 25 de Abril era o Paraíso. Havia uma elite de iluminados e uma corja de milhões de analfabetos. Ou analfabrutos. Tão analfabrutos que largando o Jardim das Delícias à beira-mar plantado emigravam aos milhares de milhares para procurarem lá fora o pão e o mel que aqui não vislumbravam para além da fome e da miséria e dos bucólicos tugúrios campestres ou encantadores bairros de lata. Aos milhares de milhares. E só os brutos viam e sentiam o trabalho de sol a sol nos campos do Alentejo. E os dias não pagos quando fazia mau tempo. Dias não pagos na agricultura. . Na construção civil e obras públicas. Na indústria das conservas de peixe. E nas horas extraordinárias à borla. E trabalhadores despedidos se adoeciam. Sem assistência na doença. Nem eles nem as famílias. Trabalhadores e suas famílias sem qualquer apoio no desemprego. E trabalho sem direito a férias para a esmagadora maioria. 

E havia pedintes e crianças e aleijados - uma esmola “pelo amor de Deus”.Ou “pela sua rica saúde”. E pedintes e aleijados e crianças esmolando. Pelas ruas. Pelas esquinas. À porta das igrejas. E crianças trabalhando sem ir à escola. Vendendo jornais. Ou como marçanos levando as compras da mercearia às casas. E criadas de servir sem direitos e de que se serviam os patrões e seus filhotes. Despedidas – as desavergonhadas – se engravidavam. E maridos que matavam impunemente as mulheres para “lavarem a honra”. Machos lusitanos viris com amantes e ”espanholas” a quem montavam casa.

E mulheres dependentes da autoridade e arbítrio. do marido, senhor todo poderoso. E apenas “curiosas” para assistirem aos partos. E para fazerem abortos. E filhos, muitos filhos, arrastando-se pela miséria. Ranhosos, Esfarrapados, Famintos. Enfezados. . E as mães tendo de ir trabalhar logo a seguir ao parto. Para não serem despedidas !

E velhos que se enforcavam devido à miséria. Sem dinheiro. Sem saúde. Sem apoios sociais. E famílias a comerem o pai uma sardinha e os filhos côdeas de pão. E vinho, muito vinho e tabernas a cada esquina para “dar de comer a um milhão de portugueses”. E em muitas vilas e aldeias do Alentejo duas sociedades “recreativas” – a dos pobres e a dos ricos. E a pobreza envergonhada da pequena burguesia.

E os “criados” dos cafés e os motoristas de taxi e os engraxadores – velhos ou miúdos – vivendo apenas da gorjeta. Sem direitos.

E a Ponte sobre o Tejo ! Ah! A Ponte sobre o Tejo que não era de Salazar construída com o desalojamento forçado e com indemnizações de miséria aos habitantes e proprietários de Alcântara. E os bairros de lata. E os mortos nas cheias de 1967 em Lisboa porque Salazar não permitiu que as populações fossem alertadas das chuvadas torrenciais que se avizinhavam. E os milhares de camponeses mortos em Janeiro de 1961 na Baixa do Cassanje, em Angola, numa área maior que Portugal, em greve contra o regime de monocultura da Cotonang, metralhados e regados com napalm pelas Forças Armadas Portuguesas E tantos e tantos massacres com as almas voando para o Paraíso se inocentes de que os jornais não falavam. Antes dos massacres perpetrados pelos camponeses do Norte de Angola, enquadrados pela UPA com o apoio não da URSS mas dos EUA. Em 15 de Março de 1961..

A mentira do Portugal do Minho a Timor, onde nas colónias e apesar de 5 séculos de ocupação a esmagadora maioria das populações não falava português nem tinha direitos de cidadania. Apressadamente reconhecidos apenas depois do início das revoltas na Guiné, Angola, Moçambique, S. Tomé e Princípe  ... Isto é, depois de 1961. E  os brancos lá nascidos, durante muito tempo oficialmente considerados "brancos de 2ª. Colónias portuguesas cujos territórios em África apenas foram "ocupados" depois da Conferência de Berlim, em 1885. Após as campanhas militares de ocupação e "pacificação" contra a resistência dos africanos. Campanhas militares efetuadas no final da Monarquia e prosseguidas durante a I República !

E cargas policiais e da GNR e a PIDE para os “desordeiros” “Desordeiros” eram todos os que faziam greve. Ou reivindicavam melhores salários ! Ou melhores condições de vida e de trabalho ! Ou que se manifestavam fora do enquadramento do Governo. .

Gente tão bruta que precisava de ser vigiada para não se tresmalhar. Tão bruta que precisava de autorização para se manifestar. Ou associar. Ou reunir. Tão bruta que não podia votar para não escolher ... mal. Isto é, para não mijar fora do penico. Outros pensavam e decidiam pelos analfabrutos. Sempre vigiados no que escreviam ou diziam pelos coronéis da censura prévia do lápis azul o vigiados por dez mil olhos e cem mil orelhas.

E as colónias que até 1961 se não podiam industrializar nem desenvolver para se proteger a indústria de Portugal, na Europa. E a guerra colonial. Cada vez com mais desertores. Entre os soldados e os oficiais. Analfabrutos que não percebiam porque haviam de morrer ou ficar inválidos e abandonados. Ou traumatizados pelo stress da guerra. E que, “sem inteligência”, zarpavam e zarpavam e zarpavam … de Portugal.

Sim não eram portugueses de rija cepa e pegas de cernelha ou a rabejar. Eram todos estrangeiros. Milhões de estrangeiros. Que analfabrutos não vislumbravam o Paraíso mas apenas a fome, a miséria, a doença, a falta de trabalho. Sim milhões de estrangeiros, milhões de estrangeiros na Pátria que os viu nascer. Pátria madrasta onde, analfabrutos, muitos sem a 4ª classe, apenas viam a fome, a miséria, a doença, a falta de trabalho.

Sem inteligência para vislumbrarem o Paraíso do dia-a-dia espelhado nos jornais e na televisão de Salazar/Caetano E lembrado pelos filhotes de Salazar/Caetano. Eles sim, Portugueses de alto gabarito ! Mas, ao contrário de Salazar/Caetano, pouco dados ao estudo. E à reflexão. E ao contraditório. Porque estudar e argumentar sem frases feitas ou bafos de café-taberna custa e cansa. Na razão inversa da inteligência 

sábado, 13 de julho de 2024

Do Livro de Viagens - Autorrodando com "A Setubalense"



Fotos victor nogueira - Azeitão EN 10 - rotunda com antiga camioneta da Setubalense, da empresa João Càndido Belo 'Os Belos' (2024 04  18   IMG_4530 e IMG_4538)

 * Victor Nogueira

Nos idos de 1925 foi por João Cândido Belo fundada a empresa "A Transportadora Setubalense", com sede em Vila Fresca de Azeitão, que fruto de aquisições doutras empresas foi crescendo tornando-se dominante em todo o Alentejo e nas ligações á Península de Setúbal, a Lisboa e ao Ribatejo, com ligações e operando também no Algarve. Um galgo era o símbolo da empresa, por mim utilizada nas viagens de e até Setúbal / Lisboa ou pelo Alentejo nos idos de '60 e '70 do passado milénio.

Em 1975 a empresa foi nacionalizada e integrada na "Rodoviária Nacional". O autocarro da foto é um dos pioneiros (c. 1930).

Os extractos subseqentes são na naioria provenientes da minha correspondência, desde 1968, quando em Évora me matriculei no ISESE.

De Évora para Lisboa pode ir‑se por estrada e por caminho de ferro. De camioneta ou de automotora, o tempo gasto no percurso é sensivelmente o mesmo: umas 3 h 30 m. A camioneta, embora mais enfadonha, é mais barata. A empresa [João Cândido Belo] concede cartões de estudante que permitem obter 50 % de desconto entre a localidade de residência e a de estudo e vice‑versa, no meu caso entre Lisboa e Évora. O comboio em 1ª classe fica à volta de 70 a 80$00 e a camioneta, com desconto, 20 a 30$00. (NSF. 1970.05.17)

Fui ontem aquela cidade‑mumificada (-museu, reza a propaganda turística!). Nem queiras saber como fiquei doente, como estive doente nas horas que estive naquela terra, que me parece um pesadelo, longe que dela estou. (...) Em Évora encontrei montes de malta: eram olás! hellos e bons dias quase pegados. Até encontrei o cobrador da camioneta da Amareleja! (MCG - 1973.09.08)


Passe de estudante

Custou, mas na camioneta, rumo a Lisboa, senti‑me renascer, como se tivesse saído dum opressivo ambiente tumular. Esta Lisboa do miúdo que choraminga. E do velhote, límpidos olhos azuis, humildemente vestido mas não enxovalhado, que é brutalmente arrastado para o passeio por um pai rude, exaltado, mal barbeado, que lhe torceria o nariz, o esmigalharia, lhe daria duas bofetadas,... se ele não estivesse bêbedo. Enquanto aquele retorquia: "Estavam a maltratar os pombinhos", sem muita firmeza, de olhos perdidos sabe Deus onde Ou do miúdo que me aponta uma pistola: "Mãos ao ar", num Chiado repleto de gente azafamada. Que é admoestado por uma mãe derretida. Que se perdeu no rio das gentes que sobem ou descem. Das duas "meninas bem" que, especadas no passeio qual escolhos, lançam olhares furibundos ao pirralho esfarrapado e sujo que lhes aponta uma espingarda de lata. Do café Nicola, donde sou desalojado sem cerimónia, pois um "garoto" e um "croissant" não permitem a ocupação indefinida de uma mesa para escrever, especialmente à hora de almoço. Dos vendedores ambulantes, que jogam ao corre‑corre com os polícias, de tabuleiros cheios de quinquilharia, jogando ao passo‑passa com os automóveis.(NSM - 1968.12.27)

Gosto muito deste postal. E tu?

Está trovejando e o céu acinzentou-se subitamente neste princípio do anoitecer.

(...) Queria dizer-te da minha amizade por ti, mas não encontro outras palavras senão estas. Esperava hoje um aceno teu e nada veio.

Virás este fim de semana? Tencionava ir esperar-te à Setubalense. Mas se eu não estiver, telefona-me, OK?

(...) Faltou a luz. Acabei de escrever ao lusco-fusco. (MCG 1973 07 12)


Lisboa 1973 09 - Depois das férias, o regresso ao Alentejo

Às 14:30 apanharei [em Évora] boleia do Pintassilgo (e da miúda) rumo a Setúbal, onde apanharei a camioneta para Cacilhas, aqui o ferry-boat para o Cais do Sodré e lá o comboio para Paço de Arcos. Em lá chegando à estação, olhos para as malfadadas escadas [escadaria], atravesso a linha, subo‑as e ala pela Rua Conde de Alcáçovas abaixo, por entre as árvores que a ladeiam até ao fundo, onde viro à esquerda dando de caras com o nº 1 da Rua de Macau. (1973.08.03)

A neve parece esferovite e de vez em quando um tipo enterra-se até aos joelhos. Antes do cume a serra é negra, salpicada de branco; no cimo é um manto branco, que o nevoeiro confundia, tornando fantasmagóricos os vultos. Estava frio, mas suportava-se. Encontro-me num café da Covilhã que parece um do Porto, enquanto as ruas lá para trás lembravam Sintra. Almoçámos no Fundão, na Escola Secundária, um prédio de habitação adaptado - onde as pessoas tinham um ar seráfico e beatífico, falando com um sotaque de seminaristas, padres ou de freiras de Santa. Zita; - será que a maioria deles são destas bandas? - As miúdas desta região têm um ar rude ou agreste - serrano? - Demos liberdade aos miúdos e até agora não tem havido problemas. Estou é maçado, pois a camioneta não é cómoda e por causa da reunião na Escola só me deitei às 3 da matina para levantar-me às 5 1/2. (MCG - 1975.02.26)


Ontem em Arraiolos. enquanto fazia horas aguardando as vinte, quando regressariam a casa os únicos dois inquiridos que me restavam fui visitar a cadeia lá no largo onde param as camionetas da Setubalense e fica a Câmara mais o posto da GNR, os CTT e a praça de táxis (e quiçá também da má-língua). Do largo cadeia destaca-se pela sua torre sineira, qual igreja, e pelas suas duas janelas fortemente gradeadas. Há muitos anos que no seu segundo piso flutua um pano branco, indicativo de desocupação! (MCG - 1973.03.14)


30 foram as camionetas (fora os automóveis particulares) que de Évora se deslocaram a Lisboa para apoiar o Marcelo [Caetano]. Beja, Santarém, Leiria, Portalegre, enfim, milhares de tipos confluíram para a manifestação do entardecer [em Lisboa]. Pena não autorizarem as contramanifestações. (...) O Diogo diz que da Amareleja não terão ido pessoas à manifestação (salvo talvez os da Casa do Povo). Não porque sejam do reviralho, mas porque não se metem nestas coisas (viver não custa..). (MCG - 1973.07.19)

Ontem à noite (1973.10.24), no regresso de Arraiolos, muitos Mercedes a caminho de Évora, onde às 21:30 alentejanos cinzentos de ar sisudo aguardavam ordeiramente o início da sessão de propaganda da ANP [Acção Nacional Popular]. Debaixo dos arcos [arcadas], uma fila de homens, com ar humilde e jeito de rebanho descido da camioneta, dirigia-se para o cinema onde se realizaria a tal sessão. A oposição não comparecerá as eleições no domingo. O Marcelo Caetano] bater-se-à contra nada. (MCG - 1973.10.25).


Autocarro da Setubalense, 1964 (in "Restos de Colecção")

Na camioneta para o Sabugueiro, aguardo a sua partida, no meio da vozearia fina da miudagem que a enche, de regresso a casa. (1973.11.08)

Conheci a Ana SorRiso dos Olhos Grandes e o Zé Honrado naquela aldeia grande que é a Amareleja, onde existe um Largo do Regato que se não vislumbra e morava a Maria Papoila, no 1º andar por cima duma loja, numa casa sem portas interiores. No tempo da outra senhora era aquela uma aldeia aberta, com os bailes na Sociedade e os longos passeios dos casalinhos ao longo das estradas que dela partiam ou para ela convergiam. Tinha a Amareleja muita gente conhecida: a Marília (muito bonita) e o tio, o sr. Coelho (da oposição ao regime e dono da farmácia), o Diogo (meu colega na pensão da D. Vitória), a Adélia, o sr. Guerreiro (regedor da aldeia) e a D. Marcelina (pais do Diogo e da Adélia), a Ivone (muito faladora, à espera do pretendente e do casamento que tardava), a D. Manuela (dona de uma loja e, como a anterior, professora), para além do casal velhote com a mercearia, [o senhor Cachopo] no largo da igreja arruinada, em cuja casa ficava aos fins de semana, com o motorista da camioneta da carreira. Seguramente que havia mais gente, como a minha colega do Instituto, simpática, cujo nome esqueci e que por vezes me dava boleia [Ana], ou o Chico (Lucas] Honrado, que também fora meu colega. (AMC) ([1])

Cercal do Alentejo, na serra do mesmo nome, situa‑se na fronteira entre o Alentejo e o Algarve. Trata‑se duma pequena povoação, com algumas casas mais imponentes, onde se destaca o largo principal, com os cafés e a paragem da camioneta. Merece visita o Vale da Mandorelha, a cerca de 1 km. (Memórias de Viagem, 1997)

A camioneta vai daqui a pouco para Montemor(-o-Ñovo). Está sol e daqui te envio saudades. Já engraxei os sapatos e estou mais apresentável. (MCG - 1974.10.28)


Largo Luís de Camões, em Alcácer o Sal, onde paravam as camionetas (1974)

Gosto de passear pelas ruas da vila, de passar pelos seus arcos, de avistar os campos de arroz na outra margem, viveiro do que me desagrada: os mosquitos. Alcácer é terra de passagem e breve paragem das camionetas no seu largo incaracterístico. É também terra dos agrários, senhores das enormes propriedades dos arredores, como os Montes de Porshes, Arouca e Barrosinha.

Estamos a meio da tarde de domingo, aqui no Monte de AROUCA  ([2]) onde a Celeste dá aulas, uma herdade enorme que quase parece uma aldeia, agora abandonada (quase) pela crise da agricultura e da política dos agrários. O monte fica junto ao rio Sado, a 10 km ao sul de Alcácer do Sal e a 2 horas de camioneta de Lisboa. No meu colo está a minha amiga Eva, filha duma trabalhadora [Aciolinda], e que tem 3 anos. Uma "mulherinha", como me diz. A mãe dela aquece‑se ali ao lume, enquanto a Celeste lê e a mãe arranja as azeitonas que colheu ontem à tarde. (NSF - 1974.11.27)

Havia alunos da Celeste que nunca tinham ido à Vila, a uma dezena de km, e que ficaram abismados quando viam o comboio pela 1ª vez, um monstro para eles. O Renault 4 ficava com a Celeste, para ir à Vila ou para Évora, ou para ir-me buscar à Rodoviária, em Alcácer, nos fins-de-semana que me calhavam. (A Vida no Monte da Arouca - UCP Soldado Luís (2) 2007 10 08 )

Terminei a minha digressão turística com uma visita às Igrejas de Santa Maria e de S. Julião. ([3]) Depois dum lanche frugal, apanhei a camioneta para Cacilhas, depois o ferry-boat para o Cais do Sodré e o comboio para Paço de Arcos. Só me faltou andar de avião. Em Setúbal reconheci o Zeca Afonso. Refreei o impulso de perguntar‑lhe "Você é que é o Zeca Afonso?" e deixei‑o seguir para um café da Praça do Bocage. (MCG - 1972.12.29)


Setúbal - Praça de Bocage (Postal VN 1973 11 01)

Daqui da esplanada do café, olhando à minha direita, a paisagem é esta. ([4])   Olha lá, e se a gente viesse viver para Setúbal? É mais sossegada que Lisboa e é uma hora de camioneta! A tarde está chuvosa, o café está cheio de gente, rapazes e raparigas, e a passarada faz uma chilreada enorme por entre as árvores. (...) A minha mãe trouxe-me até aqui, onde às 18 h apanharei a camioneta para Évora. (MCG - 1973.11.01)


 [1] - Escrito em Setúbal em 1989.06.06 - ESCRITOS EM UMA NOITE DE PRIMAVERA PRESTES VERÃO / POR ISSO NÃO SE FALANDO EM MANHÃS DE NEVOEIRO

[2] - No tempo da Reforma Agrária esta herdade e as vizinhas foram integradas na Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís, homenagem ao militar morto no ataque aéreo das forças do General Spínola ao Quartel do Ralis, em Lisboa, a 11 de Março de 1975.

[3] - A igreja de Santa Maria é a Sé, com aspecto imponente; a de S. Julião, destruida pelo terramoto de 1755, tem um aspecto desgracioso, mas  conserva dois portais manuelinos.

[4] - Árvores frondosas e trânsito automóvel, que já não existem em 1996,  a estátua do Bocage e, ao fundo, o edifício da Câmara, onde vim a trabalhar de 1984 a 1986, além da casa, na altura azulada, por cima duma tabacaria, cheia de sol, onde gostaria de viver e que compraria se tivesse dinheiro.. O café referido no postal deveria ser o Central.

VER "A Transportadora Setubalense" in https://restosdec oleccao.blogspot.com/2016/11/a-transportadora-setubalense.html

sábado, 18 de março de 2023

Textos em março 17 /18 . A saga de Gouveia e Melo

 * Victor Nogueira

2023 03 17 Durante o tempo do fascismo, em Portugal, os Presidentes da República foram militares: o General Carmona (Exército - 1926/1951), o General Craveiro Lopes (Aeronáutica Militar - 1951/1968) e o Almirante Américo Tomás (Marinha de Guerra - 1968/1974), estando o poder de facto nas mãos do Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar (1932/1968). A Constituição fascista  preconizava que o Presidente do Conselho de Ministros era responsável perante o Presidente da República, que livremente  o nomeava ou demitia. Na realidade, durante o longo Governo de Salazar, o Presidente da República era uma figura decorativa, cuja escolha ou manutenção em funções dependia do todo-poderoso Presidente do Conselho de Ministros.

Não me parece que estes Chefes de Estado fossem pessoas cultas ou excepcionalmente inteligentes.  Quer Carmona, quer Craveiro Lopes tentaram apear Salazar, mas enquanto este teve de aguentar Óscar Carmona em nome da unidade das Forças Armadas, um dos suportes do regime fascista, o mesmo não sucedeu com Craveiro Lopes, que Salazar afastou colocando em seu lugar Américo Tomás, uma figura apagada e anedótica. 

Após a exoneração de Salazar na sequência dum AVC, Américo Tomás, em aliança com a ultradireita, torpedeou a  tímida "Primavera marcelista" da "renovação na continuidade", encetada por Marcelo Caetano com o apoio da chamada "ala liberal" na Assembleia Nacional fascista, então liderada por Pinto Leite, Sá Carneiro e Pinto Balsemão, que depois de Abril esteve na base da criação do  PPD, depois travestido de PSD.

Depois do 25 de Abril a Presidência da República foi detida sucessivamente por Generais do Exército: António de Spínola (1974), contra revolucionário, apoiado pelo CDS pelo PPD/PSD e pela ultradireita,  Costa Gomes (1974/1976) (que in extremis promulgou a Constituição da República Portuguesa em 1976) e Ramalho Eanes (1976/1986), o operacional por detrás do golpe militar de 1975 que pôs termo à chamada "Revolução dos Cravos".

Após Ramalho Eanes todos os Presidentes da República têm sido paisanos, sucessivamente do PS (Mário Soares e Jorge Sampaio) e do PPD/PSD (Cavaco Silva e Marcelo de Sousa), estes dois por omissão activa da Direcção Nacional do PS.

Especialista em aparentes tiros nos pés, em tempos covidescos, para gerir a pandemia, o PS afastou os paisanos, colocando no pedestal e ao leme um Almirante da Armada, Gouveia e Melo, que fala  grosso, com voz de comando, adepto inquestionável do respeito cego pela hierarquia e da linha de comando, defensor do  princípio de que, mesmo em tempos de Paz,  as ordens não se discutem, mas cumprem-se sem discussão, sem lugar para números circenses na comunicação social, salvo os seus desempenhos.

Diz-se nos "mentideros" que este almirante está na rampa de lançamento para sucessor de Marcelo Nuno, como putativo e sebastiânico Salvador da Naçóm!


2023 03 18 Gouveia e Melo prossegue a sua "Marcha Triunfal", desta feita visando canhestramente o Presidente da República, Comandante  Supremo das Forças Des-Armadas. O episódio do NRP Mondego,  que não estaria funcional, segue-se aos furtos de armas e munições nos Paióis de Tancos,  aos inoperacionais tanques Leopard enviados para a Ucrânia e previsivelmente, a outras situações similares nos três ramos das Forças Armadas. Isto para não falar nas recorrentes mortes durante a instrução de vários "cursos de formação" dos Comandos, das quais raramente se ouve falar para lá do dia imediato.

Admitindo que em tempo de Paz poderá constitui um grave problema a recusa de embarque num navio-patrulha preso por arames, também é um grave problema o estado comatoso em que se encontra a Marinha de Guerra. As quebras de disciplina são da responsabilidade do Senhor Almirante, o estado comatosos dos serviços que dirige são da responsabilidade do Governo e do Senhor Almirante, que permanece no cargo. 

Com voz grossa e de comando, pretensamente frontal, o Senhor Almirante, antes de qualquer inquérito e apuramento de responsabilidades, decidiu arengar para as televisões o "raspanete" em ordem unida, "sentenciando" sem apelo nem agravo, em causa própria! A questão que se coloca é se no silêncio recatado dos gabinetes ministeriais também fala com voz grossa e de comando reclamando contra a degradação e a inoperacionalidade do equipamento militar e das condições de trabalho do pessoas que, em tempo de  Paz, supostamente dirige em tão precárias condições, pelas quais (também) é responsável.

Mais arguto, o Comandante Supremo das Forças Armadas colocou a tónica no estado do equipamento, responsabilizando o Governo do PS, que aliás prossegue as políticas de anteriores Governos do PS, PSD e CDS. Mas ao Presidente da República interessa entalar o Governo do PS e, por arrasto, o Chefe do Estado Maior da Armada, embora alegando que mantém a confiança neste.

No caso do inoperacional NRP Mondego o Senhor Almirante poderia ter declarado simplesmente que tratando-se dum caso de indisciplina militar, as responsabilidades seriam apuradas em sede de Comissão  ou Comissões de Inquérito. Mas não, o Senhor Almirante resolveu apimentar o caso em frente às televisões, com pretensa frontalidade, voz grossa e de comando. 

Mas, perante as declarações de Sua Excelência, o  Senhor Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas,  o Senhor Chefe do Estado Maior da Armada limita-se a dizer: «“Não tenho de achar nada das declarações do Presidente”, mas “penso pela minha cabeça”» 

A serem reprodução textual do que disse, é de assinalar que, o Almirante disciplinado, com voz grossa e de comando, ordena aos seus subordinados, que devem cumprir ordens sem questioná-las, mas, canhestramente, afirma  que não comenta as declarações do "Presidente" (tout court), acrescentando ou esclarecendo que ele, Gouveia e Melo,  "pensa pela sua cabeça.", o que recusa a quem lhe está subordinado em tempo de Paz.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Textos em janeiro 18

 * Victor Nogueira


2023 01 18 - Foto victor nogueira - Vila do Conde - iluminações natalícias na Avenida João Canavarro (2023 01 14 IMG_1916)

JOÃO CANAVARRO Crispiniano da Fonseca nasceu em São Tomé e Príncipe (1881) e faleceu em Vila do Conde (1957). Advogado, foi Funcionário Público e Director da Escola Industrial da Reforma do Porto. Ligado ao Partido Republicano Português (PRP). Em Outubro de 1910 foi nomeado Administrador do Concelho de Resende e, em 1912, do Concelho de Vila do Conde. Nesta Cidade dirigiu o jornal O Democrático.

Esta artéria é um eixo estruturante em Vila do Conde, nela se localizando muitos estabelecimentos comerciais, o Cinema S. João, estabelecimentos bancários como a Caixa Geral de Depósitos, o Palácio da Justiça, os CTT e, nas cercanias, os Paços do Concelho, a Igreja de S. João Baptista, o Mercado Municipal e as Igreja e antigo Hospital da Santa Casa de Misericórdia. 



2020 01 18 SER AMIGO - Victor Nogueira .

Ser amigo é colorido presente
Ao darmos nossa mão, mas sem maldade,
Mantendo a vera luminosidade
Do silêncio ou do verbo assente.

Na tarde calma, serena, luzente,
Ou de noite, dia sem claridade,
É uma dádiva, felicidade,
Esta da vigília ser não dormente.

Amigos têm vária feição:
Dão-nos sua tristeza ou alegria,
Compartilhando bons e maus momentos.

Velho, novo, mulher, homem, bem são;
Na estrada e no dia-a-dia
Nem sempre atentos, prontos, nos tormentos.
.
.
1989.09.03 (3)
[1989.12.22]

2020 01 18 foto victor nogueira - Todos os anos nos desfiles do 1º de Maio, em Setúbal, no Largo dos Combatentes, com um cravo na mão e acenando aos manifestantes, estava à janela um casal idoso. Depois, passou a estar apenas a mulher e nos últimos anos ninguém. Esta é uma das fotos que tirei ao longo dos tempos.

2019 01 18 Victor Nogueira visto por Camilo Monteiro em 1973.01.05

Este dedo assinalado
Não é para descuidar.
Tem pretensões, é ousado
É dedo parlamentar !
É de Aragão e Avis
Que a voz não te esmoreça
Vamos cantar
NOTA - a história do Aragão e Avis tem história. Havendo algum sangue azul no ISESE, embora tão vermelho como o meu, republicano, laico e subversivo, descobri que o meu nome ao contrário se lê Rotciv Leunam Osorrab Arieugon ad Avlis, visigótico, e pronto, dei-me umas pinceladas de azul celeste descendente das Casas de Aragão, Avis e Calatrava LOL


2018 01 18 Diz-me o InFaceLocked que não posso partilhar esta minha NOTA de 18 de Janeiro de 2013  pois contém matéria insegura e que ele bloqueou. Serão duas gravuras eróticas ilustrando As Cartas Portuguesas de Soror Mariana ?

2018 01 18 O que conta é o Projecto, o Partido. Quantos foram esforçados nas autarquias e no Parlamento ou no Movimento Sindical e depois alguns (m/f) foram no canto da sereia e mudaram de campo, de "renovadores" a "independentes" ou "socialistas/sociais-democratas". Eles e nós passamos, mas o que deve sobreviver e vencer são os ideias, a organização e a praxis comunistas.

Como escrevi nesse longínquo ano de 1972
«Salut, camarada!
Se puede enganar
a todo el pueblo
parte del tiempo
Se puede enganar
a parte del pueblo
todo el tiempo
pero no se puede enganar
a todo el pueblo
todo el tiempo. (Lincoln)
Aqui está a minha esperança! Nós venceremos. Mesmo que eu seja derrotado ou me venda, outros tomarão o meu lugar, empunharão o estandarte. Algum dia venceremos! Algum dia! Salut, camarada!»
Gravura - O 4º Estado, de Volpedo (1901)


2018 01 18 Lassos, por Victor Nogueira

Lassos como roupa no chão.......em rodilha .............Rugas (imperceptíveis) .............nos olhos um leve sorriso: olá amiga! , um erguer pela gola um desalento um sorriso brando . na serenidade do entardecer uma enorme interrogação a luz do candeeiro o pó dos caminhos . nos lábios um leve sorriso (imperceptíveis) .........ao canto dos olhos rugas .........na alma um enorme cansaço 1972.Março.04. Évora


2018 01 18 - Marcelo Caetanos e as Conversas em Família

Nem todos podem ser o Marcelo das selfies e dos afectos, afilhado do Marcelo que inaugurou em 1968 as então chamadas Conversas em Família.
Escrevia eu outrora, em 1973 74

"Assisti ontem, como não podia deixar de ser, ao discurso do Marcelo Caetano sobre o Ultramar Português, na sequência dos incidentes verificados em Lisboa na Capela do Rato, após a atitude tomada por um grupo de católicos - chamados progressistas - sobre a paz - e as consequências da guerra colonial. (...) Pois o discurso do 1º Ministro foi atentamente escutado pela audiência ali do Café Alentejo onde vejo o pouco que me interessa na TV. Escutado atentamente mas não reverentemente. Um discurso notável pela sua construção, pelo encadeamento (embora falacioso) das ideias e factos, pela sua poesia ("Que bom poder ser moralista...", faz-me lembrar um dos poemas dum dos heterónimos do Fernando Pessoa), pela deturpação dos factos e pela demagogia. Nem o tom nem o tema me surpreenderam. Parece um facto que o Governo Português procura uma solução política para o problema colonial." (MCG - 1973.01.16)
"Só fiz um inquérito hoje [em Arraiolos. Um velhote de 72 anos, cabo reformado da GNR e ex-comandante do posto do Vimieiro. Muitos elogios ao Marcelo [Caetano] (já o carcereiro de Arraiolos me dissera: "Deus o conserve por muitos e bons anos"). Um casal de velhotes simpático, à moda antiga, que nunca bateram nos filhos, que no entanto tinham de andar na linha, nada de saídas nem bailes. " (MCG - 1973.03.16)
"Ontem à noite (1973.10.24), no regresso de Arraiolos, muitos Mercedes a caminho de Évora, onde às 21:30 alentejanos cinzentos de ar sisudo aguardavam ordeiramente o início da sessão de propaganda da ANP [Acção Nacional Popular]. Debaixo dos arcos [arcadas], uma fila de homens, com ar humilde e jeito de rebanho descido da camioneta, dirigia se para o cinema onde se realizaria a tal sessão. A Oposição não comparecerá ás eleições no domingo. O Marcelo [Caetano] bater-se-à contra nada" (MCG - 1973.10.25).
" Quando regresso à Praça [do Giraldo] já tudo havia terminado; apenas na placa central da Praça do Giraldo um grande magote de pessoas estão comprando "A Capital". São autênticas corridas aos jornais, avidamente disputados, como os dos últimos dias. Toda a gente anda de jornal debaixo do braço ou lê-o à mesa do café ou especado na rua. Até, oh! surpresa, raparigas! (Muitas mulheres têm tanta pena do Marcelo [Caetano], coitadinho, tão simpático, tão amigo do povo!). SAFA!" (MCG – 1974.04.27/28)


2014 01 18 -Ary dos Santos em Évora

Uma sessão cultural em Évora

Aqui, espalhados pela mesa, vários recortes de jornais, a maioria deles da Isabel da Nóbrega, que já conheço desde há seis anos pelos artigos que tem publicado no "Diário de Lisboa" e na "Vida Mundial". Actualmente já nem sempre aprecio tanto os seus artigos como outrora: porque ela teria mudado a sua maneira de escrever ? Ou eu a minha maneira de ser? Vi‑a apenas uma vez (em Évora) há dois anos, num colóquio sobre poesia (o Ary dos Santos - conhecido pelas letras da "Desfolhada" e de "Menina" - declamou - e bem - poemas seus) A esse colóquio o Ary chegou muito atrasado e já "entornado" e com uma garrafa de brandy com que ia molhando as goelas ao longo da sessão. Quem costuma andar lá pelas reuniões em Évora, como eu, conhece um certo número de autodidactas, o mais enfadonho dos quais é um tipo de bigode e óculos. Pois esses autodidactas - numa atitude compreensível mas inaceitável - aproveitam estas "manifestações " culturais para botar faladura a propósito e - sobretudo - a despropósito. De modo que para o fim aquilo começou a aquecer - o Ary dos Santos, bêbado, a falar contra a situação, em português vernáculo (e o Presidente da Direcção da Sociedade Operária de Cultura e Recreio Joaquim António de Aguiar muito aflito, por causa da PIDE e dos castos ouvidos das senhoras presentes) os autodidactas discutindo com a assembleia e a mesa, o Victor Ângelo e outros alimentando a discussão (dessa vez não abri o bico, pois por mim falava o ... Ângelo). O José Saramago ([1]) e a Isabel da Nóbrega procuravam, em vão, acalmar os ânimos. Apaixonei‑me pelo rosto da Isabel. Se a visses, aqueles olhos grandes, as suas mãos, a atenção e o cuidado para não ferir os autodidactas - vaiados pela assistência! Estou a vê‑la sentada, aflita à procura da palavra e do gesto, falando às pessoas, voltada para elas, aflita por não poder falar com os dois campos simultaneamente, um grande respeito pelas pessoas! Entrevi‑a depois à saída e fiquei algo desiludido: o seu corpo não me pareceu corresponder à nobreza do seu espírito. Pouco sei dela: que tem escrito alguns romances, que terá dois filhos da minha idade. (MCG - 1972.09.02)

[1] - Voltei a encontrar o José Saramago anos depois novamente em Évora, nos idos de 75, salvo erro numas reuniões para que assumisse a direcção do Diário do Sul, órgão reaccionário, e mais tarde numa sessão de autógrafos na Avenida da Liberdade em Lisboa, numa mesa debaixo dum toldo, cena que registei para o meu port-folio fotográfico. Ou várias vezes na Festa do Avante, com ar entediado a conceder autógrafos. Do Ary, recordo depois de Abril a sua voz empolgante, arrebatadora, umas vezes, mais intimista, noutras, conforme os poemas que “dizia”. Ouvir Ary emociona-me, ainda mais que outro "diseur" que foi João Vilaret.

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