Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

terça-feira, 31 de maio de 2016

a infinita saga de josé rodrigues dos santos, o cordel e a guita



* Victor Nogueira

JRS sabe perfeitamente ao que vem e com as suas ideias "fracturantes" procura apenas publicidade para embolsar. E quanto mais gratuita, melhor. É um produto da TV e se se anuncia na TV – a tal caixinha mágica que pretende mudar o mundo - é porque é "bom" e "fala verdade" – toda a verdade e nada mais que a verdade - como ditam ou rezam os manuais publicitários. Daí a publicista vai “o passo de um anão"

Reza a Wikipedia que é “doutorado em Comunicação Social “ e “ é hoje um dos jornalistas mais influentes para as novas gerações e no panorama informativo nacional” Afinal e de acordo com a mesma fonte “Em 2016 foi eleito o melhor escritor português, por 28 000 portugueses” Quem sabe se com piscadelas de olho, publicidade gratuita e novas maratonas não será em próximo concurso eleito “o MAIOR Português de Todos os Tempos” e os seus “rimances” obras de referência  condensando toda a história, ciência e filosofia políticas, “clássicos” que dispensarão a leitura de farfalhudos e obsoletos “calhamaços”, sem necessidade de “queimar pestanas” e tempo em bibliotecas e centros de investigação, porque acessíveis no “sítio do costume” ali ao virar da esquina nas prateleiras intermédias, ao alcance da mão e do olhar. 

Sobre o efeito JRS, com “ligeireza” e “souplesse”, basta observar os instrutivos comentários nas caixas on-line, desde os tabloides aos “considerados” de referência. Afinal “Time is Money” & “It’s all Business”.  Na verdade "that's the question". E contra factos e "rimance", não há argumentos. Apenas e só, infinitas sagas para esticar o cordel e a guita ?





R
odrigues dos Santos gosta de polémicas, elas vendem livros. Umas serão por desatenção, outras por preconceito, outras ainda por literatura. Há de tudo, dos paralíticos gregos aos homossexuais portugueses, agora o marxismo e o fascismo, tudo vai a eito, umas vezes como jornalista, outras como romancista, no mais das vezes nas duas qualidades reunidas. Assim sendo, só posso elogiar este autor por escrever e dizer o que pensa, oxalá se conserve assim. Mas ainda há um problema: é que se quer polémica convém preparar-se.

*** http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/05/31/bom-senso-e-bom-gosto-ou-alguem-acuda-depressa-ao-rodrigues-dos-santos/

"O fascismo tem origem no marxismo", de Marx a Mussolini ou os novíssimos Tratados de Política

* Victor Nogueira

Antigamente havia e não sei se ainda hà a Reader's Digest, que publicava romances "condensados" na  revista e em volumes "encadernados" com capas vistosas para colorir as prateleiras. E há também os Ghost Writers ou "escritores fantasmas" que a granel ajudam a preencher com destaque e vistosamente as prateleiras de supermercados e de livrarias. É perfeitamente aceitável que quem publica queira ver o retorno chorudo dos seus escritos e engendre campanhas publicitárias com temas "fracturantes". Se AAA é ligeirinho para Professor de Política na Católica, já RS é um politicólogo de última apanha. Não é preciso queimar as pestanas a ler calhamaços dos clássicos e  dos novíssimos marxistas. Basta ler os romances de Rodrigo dos Santos. As novíssimas "condensações". Que geram milhares de páginas em comentários on line que são um case study sobre a ignorância atrevida,  preconceito ou má-fé, onde se misturam alhos com bugalhos. Afinas RS só escreve porque não gosta de ler. Ele o afirmou, do alto da sua auto-suficiência. É tudo uma questão de "espertos", "experts", "espetos" ou espectros. Com ou sem "fantasmas" à  mistura na escrita. É a publicidade - gratuita - e a bolsa. Para esse filme não dou esmola.



José Rodrigues dos Santos tem um livro publicado em 1992, com o título «Comunicação» que deve ser a tese de doutoramento em Ciência da Comunicação. Depois, está 10 anos sem publicar. Em 2002, surgem três livros com o seu nome. Uns cadernos de guerra divididos em 2 volumes; outra obra sobre guerra e o seu primeiro romance. A partir de 2004, temos um romance por ano, publicado com o nome de José Rodrigues dos Santos. 

Temos três prémios atribuídos pela CNN ao jornalista, entre 2002 e 2004. Por coincidência, nesta data ocorre a cimeira da vergonha nas Lages e a invasão do Iraque.

Durante a apresentação do livro «A Fúria Divina» fez-se acompanhar por um ex-membro da dita «Al-Qaeda» (ou «CIA»). Após alguma pesquisa em alguns dos seus romances, denoto alguma dificuldade na escolha dos nomes das personagens. Temos um «Dr. Mário Branco», um Tomás (que aparece em 2 romances) e um «Siza».

A meu ver, os guiões são enviados (possivelmente já traduzidos) para o José Rodrigues dos Santos, apenas corrigir as lacunas (como os nomes das personagens). Não parece que a um mero funcionário da RTP que lê notícias e seja professor na Universidade Nova sobre tempo suficiente para escrever romances com 600 páginas e tão diferentes na abordagem dos temas. Além disso, o próprio José Rodrigues dos Santos nunca fala sobre as suas criações literárias. Deixa um e.mail em cada um dos seus livros que pede ao leitor para deixar uma apreciação. Em vez de falar ou escrever sobre os seus livros, aborda outros assuntos. Em vez da ciência da comunicação ou romance, escreve sobre filosofia política. Provavelmente, JRS não ligou ao dito popular «quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão»... Muito provavelmente, não estava nos guiões que lhe enviaram dos livros, aos quais póe o nome, como autor.

Jorge

http://otempodascerejas2.blogspot.pt/2016/05/chamem-o-112-ele-esta-uma-febre.html
http://observador.pt/opiniao/de-marx-a-mussolini/

OPINIÃO

O espetro

Desde há anos vivemos o regresso da parafernália anticomunista como no tempo de Salazar.
https://www.publico.pt/opiniao/noticia/o-espetro-1733453?frm=opi

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Jonathan, por Cosey


* Victor Nogueira

O que há dezenas de anos me atraiu nesta série de Cosey, intitulada "Jonathan" , localizada nos Himalaias, foi sobretudo o grafismo, tal como sucedera com os de Hergé nas aventuras de Tintim em "No Tibete", "Lotus Azul" e "O Templo do Sol". Isto para não falar no belíssimo e fabuloso filme "O Narciso Negro", realizado em 1947 por Emeric Pressburger e Michael Powell

Jonathan é a reflexão dum jovem suíço que em espaço aberto vagueia pelos Himalaias, atravessando o Norte da Índia, Tibete e Nepal, à procura de um amor de infância, mas acima de tudo em busca de si próprio e tomando parido face à realidade que o rodeia.

A jovem de cabelo preto é Drolma, uma criança cujos pais foram mortos pelos chineses e que vagueia em estado semi-selvagem até ser recolhida e "adoptada" como filha por Jonathan.

Uma colecção de 10 álbuns (dos 16 publicados) está a ser semanalmente distribuída pelo Jornal Público Mais sobre Jonathan em https://fr.wikipedia.org/wiki/Jonathan_(bande_dessinée)









quarta-feira, 25 de maio de 2016

o "golorioso" dragão

Deixei ,propositadamente , o assentar da "poeira" nestas coisas da bola e que ,como saberão , me fizeram ter uma época nada famosa ....Pensando porém, que atrás de tempo , tempo vem e na minha "religião "de sempre ,deixo por aqui uma síntese dos últimos 25 anos . Secundo a pergunta que está expressa e coloco mais outra : o que fariam os meus Amigos ?!... Boa noite .


Victor Barroso Nogueira Bem, a minha hostória é muuuuiiiiiiiiitttttttttoooooooooo mais longa, mais de 60 anos a torcer pelo "glorioso", desde os tempos em que o 1º lugar nos campeonatos era dividido quase exclusivamente entre o Benfica e Sporting, com um "Belenenses" de que já não reza a história LOL
GostoResponder1 h
João Carreira Eu Também , Victor ... Sou dos que passou 19 anos sem ganhar nada ! e aguentei , SEMPRE firme ! Reporto-me aos últimos vinte e ciinco anos para não ocupar muito espaço na página do Face e ser mais fácil a "compreensão " para algumas cabecinhas (pensadoras ...) . Grande abraço , Amigo .
Não gostoResponder11 h
Victor Barroso Nogueira João Carreiraois, mas referir os anos anteriores a 1974 é prova de que não somos de "aviário" 




Esta é uma lista de títulos oficiais do Futebol Clube do Porto nas modalidades de futebol, hóquei em patins e andebol de 7.
PT.WIKIPEDIA.ORG
João Carreira Victor Barroso NogueiraObrigadinho pelo "auxílio" , ó Victor ! Está atento à jogada : ou muito me engano ou os "águias " estão a afinar o ..."azimute" p'rátacar ... (onde eu me fui meter , carago ! )
GostoResponder4 min
Victor Barroso Nogueira João Carreira O 1º milho é para os "pardalitos" LOL Deixa-los pousar
GostoResponder13 min

terça-feira, 24 de maio de 2016

Porto Sentido


Duas opiniões minhas retiradas da minha correspondência de outrora

1. em 1962.12.21 Anteontem houve um tremor de terra, mas aqui no Porto parece que só se abriram brechas num prédio. Em Lisboa é que o sismo teve maior intensidade, tendo abatido alguns telhados e rachado as paredes de muitos prédios. (...) Já estou a gostar um bocado mais do Porto. Contudo não modifiquei a minha opinião: é uma cidade triste e velha.

2. em 70.12.26 - Hoje tentei pôr a correspondência em dia, mas aquilo está tão atrasado que devem ser necessários uns longos serões. A partir da recepção deste postal devereis começar a escrever‑me para Évora. Espero que tenhais recebido o SDS que enviei na véspera de Natal.. Que mais dizer? Estou na estação dos CTT da Batalha; a escrivaninha treme que se farta com o esforço que um "hominho" faz para fechar um envelope. Uma mulherzinha procura quem lhe preencheu um telegrama para dar‑lhe qualquer coisa. E ao contar‑me isto poisa‑me a mão no braço. Gosto da gente do Porto; parece‑me mais humana que a de Lisboa e de Évora.

Respostas

  1. Obrigado por esta partilha Victor Nogueira. Li o texto com um sorriso de concordância e creio que alguns leitore terão feito o mesmo.

COMENTÁRIOS EM 

Porto Sentido ( um post para perder alguns amigos)

https://cronicasdorochedo.blogspot.pt/2016/05/porto-sentido-um-post-para-perder.html


ADENDA


em 1962/63, os contrastes entre Luanda e o Porto (a)notados por um adolescente com 16 anos

1962

Por cá tudo bem. Tem feito algum frio e há uns dias que não conseguia pegar na caneta para escrever. No dia de Natal fomos a Goios. Gostei do passeio. Ontem o tio [Zé Barroso] foi a Vila Nova de Gaia, a Matosinhos e à Foz do Douro e eu fui com ele.
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Anteontem houve um tremor de terra, mas aqui no Porto parece que só se abriram brechas num prédio. Em Lisboa é que o sismo teve maior intensidade, tendo abatido alguns telhados e rachado as paredes de muitos prédios. (...) Já estou a gostar um bocado mais do Porto. Contudo não modifiquei a minha opinião: é uma cidade triste e velha. (NSF - 1962.12.21)
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1963

VI NEVAR PELA 1ª VEZ QUANDO IA PARA CASA DO AVÔ LUÍS, E À TARDE, QUANDO FOMOS AO CAFÉ ASTÓRIA. (1963.01.13 - DIÁRIO III)
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Como tem chovido a cântaros, limitámo-nos a ir comer qualquer coisa ao café Águia, o café dos estudantes. Foi o que deduzi das inúmeras placas académicas que ornam as paredes. (1963.01.06 - Diário III)

As pessoas aqui no Porto, tanto homens como mulheres, falam um português vernáculo que nem fazeis ideia. Aí quem fala assim são os carroceiros.

(...) Aí em Luanda (que é uma aldeola na opinião de muito parolinho) respeita‑se a ordem de chegada. Aqui não.

Nos eléctricos é a mesma coisa. É um vale‑tudo. E não são capazes de oferecer o lugar a uma senhora ou a uma pessoa idosa.

Vai‑se a um café à noite, está tudo cheio de estudantes (raparigas) a fumarem até altas horas. Quando é só isso! (...)

Tirando a parte central (com os seus anúncios luminosos), o Porto, quase se pode dizer, é a cidade das trevas. O mesmo não se pode dizer de Luanda, que embora não seja uma cidade‑luz, sempre é melhor neste ponto (NSF - 1963.01.28).

No dia 24.03 [1963] fui com o avô Luís e a Arminda [sobrinha da D. Alexandrina] ver o barco liberiano que encalhou na Foz do Douro.  Nunca apanhei maior aperto, que me lembre. Os eléctricos iam cheios e em todas as paragens cabia mais um passageiro! (Diário III - pag. 156)

Vi cair granizo  pela 1ª vez. Tem estado muito frio. (1963.02.06 - Diário III))

No dia 3 [02.1963] fui com o avô Barroso ao Palácio de Cristal. Gostei bastante do jardim e das belas vistas para o rio [Douro], com bastante arvoredo. Vimos o leão e diversos animais. (Diário III - pag. 162)
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Em 23 [02.1963] fomos ao Palácio de Cristal ver o circo no Pavilhão dos Desportos. Gostei de alguns números, mas outros não valiam um real.
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Sempre apreciei os espectáculos de circo    e quando era mais miúdo desejava ser proprietário de um, para poder correr mundo, pois seduzia-me a vida ao ar livre. Em Luanda é raro haver espectáculos destes.  Mas sempre que os havia, lá estava eu. Mesmo agora não desprezaria fazer uma digressão com uma dessas companhias. O circo atrai todos, jovens e velhos. (Diário III - pag. 151)

Fomos ao Palácio de Cristal . Diverti me bastante, com a Fernanda e a Elvira [primas da D. Alexandrina] Jantámos no Restaurante Santa Luzia, na Feira do Palácio de Cristal". Andámos nos carros eléctricos 1963.05.16 - Diário III) ~

O Presidente da República, Américo Tomás, veio ao Porto inaugurar a Ponte da Arrábida (1963.06.22/23 - Diário III)

À noite não fui gozar o S. João [nas Fontainhas]. Preferi ir para a cama. Acordei às duas da manhã. Disso se encarregaram as minhas tias, Isabel e Teresa,  batendo-me suavemente (irra!) com os alhos e falando pelos cotovelos. (Diário III - pag. 1963) ( )
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À tarde fomos, o avô Luís e família, à Ponte da Arrábida, tendo percorrido a auto-estrada [neste tempo a AE eram ... 5 km, até aos Carvalhos]. Em seguida fomos ao Palácio [de Cristal] onde jantámos. Escusado será dizer que andei nos automóveis eléctricos. Andei também nos barcos do lago. A princípio não sabia guiar aquilo, mas... aprender até morrer! (Diário III - 1963.06.30)

Vi na rua [de Santa Catarina] um grande ajuntamento. Logo compreendi o motivo: uma goesa vestida com um traje regional [sari e véu]. Foi preciso a polícia para dispersar aquela parolada toda, que assim demonstrava a sua estupidez, com ditos, assobios e piadas imbecis. (1963.10.24 - Diário IV)

1966

Se por   "ambiente do Porto" se entender a sociabilidade e amabilidade das suas gentes, talvez eu concorde. Mas em Lisboa também há pessoas simpáticas. Se a referência é a cidade em si, discordo, pois Luanda é mais moderna, embora com 4 séculos de existência, e mais airosa. Mas nem tu és de Luanda nem eu do Porto. (MEB - 1966.12.12)


1967



1967
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 Não conhece Lisboa?
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Então falemos um pouco desta tão cantada cidade, paraíso dos turistas. Podemos talvez fazer umas comparações com o Porto. Como todas as grandes cidades tem ruas ladeadas de casas, umas velhas, outras novas, automóveis, gente, muita gente, barulho (de prédios em construção, de buzinas, de travagens, pessoas que falam, pessoas de todos os feitios, para todos os gostos). É mais alegre que o Porto: mais luminosa, mais ampla, com muitas ruas modernas, tal como em Luanda. Mas, como no Porto, também possui os seus bairros antigos, de vielas estreitas e tortuosas [como na Ribeira], tão estreitas que o vizinho do prédio em frente facilmente nos dá uma "bacalhoada". Esta é a parte que eu conheço pior. As outras são-me mais familiares. Gosto de andar por estas ruas, cheias de gente, que anda em todas as direcções, com os mais variados destinos. Gosto... e não gosto. Podemos andar à vontade, sem encontrar alguém conhecido. Mas... nem sempre nos agrada a solidão que transpira por estas ruas. Cada qual preocupa-se quase exclusivamente consigo; é o preço das grandes cidades, onde os homens frequentemente se transformam em máquinas, em autómatos. Enganar-me-ei ao dizer que no Porto respira-se um ar mais humano, menos artificial ?!!! De qualquer modo foi esta a impressão que me ficou da visita feita esta Páscoa e confirmada esta semana. Mas entre o Porto humano, que me atrai, e esta Lisboa alegre, sem dúvida, cheia de sol, mas por vezes fria, irritante, continuo a preferi-la (MFR - 1967.08.02)

1968

Encontro-me em Rio Tinto,, povoação limítrofe (...) (AH - 1968.09.30) e a dois passos desta aldeia grande que é o Porto (1968.10.07)

A Faculdade de Engenharia foi pintada de branco e encarnado, como o edifício do Banco de Angola em Luanda. No quintal em frente ao 330 da Rua dos Bragas [onde morava o meu avô materno] construíram um imóvel que vai até à esquina com a Rua de Cedofeita (a padaria foi demolida). Quem não gostou da brincadeira foi o avô Barroso, em cujo quarto deixou de bater o sol nos meses mais frios do ano. (NSF - 1968.05.04)

Está uma tarde cinzenta e tristonha, ou não fosse o Porto a Londres portuguesa, fria e húmida,  duma frialdade e duma humidade que nos trespassam invadindo todo o nosso ser até à medula; mas apesar disso, ao calcorrear as ruas do centro, bordejadas por edifícios pesados e graníticos, enegrecidos pela acção do tempo, parece‑me que me encontro entre seres humanos, menos indiferentes que os da pombalina baixa lisboeta, pois uma misteriosa comunhão se estabelece entre nós. Dou por mim a reparar na multidão, que deixa de ser uma massa anónima, que se decompõe em pessoas. Respira‑se um outro "ar", quiçá menos refinado ou "aristocrático" mas mais humano, mais caloroso. Esta sensação apodera‑se de mim sempre que venho passar as férias ao Norte.

A semana passada estive em Évora - o contraste entre estas duas cidades é flagrante. (ACG - 1968.09.12)

A cidade continua húmida, escura, pesada, triste, fria. Os azulejos dos seus graníticos edifícios precisam duma boa barrela. Os eléctricos vão sendo progressivamente substituídos pelos confortáveis Trolleys e modernos autocarros. Como ex‑libris da cidade, a sujidade e o desmazelo imperam nos transportes públicos, tal como sucedia (ainda sucederá?) em Luanda e ao contrário de Lisboa. A casa da Rua dos Braga foi pintada de verde claro e as portas de verde mais escuro. No terreno que se estende da Capela dos Anjos à Rua de Cedofeita construiu‑se um comprido prédio de dois ou três andares, de traço arquitectónico esquisito. Na esquina abriu um café, muito "mal frequentado"-. E falo assim, pois como classificar os estudantes, que ocupam cadeiras e mesas durante horas, a troco duma bica ou de um pingo (o alfacinha garoto) ?! (NSF - 1968.09.16)

1974

Safa, que o Porto é frio, duma frialdade enregelante. Estou aqui num café na Rua Formosa, aguardando o pequeno-almoço. A casa do meu avô Luís está superlotada - os meus tios [Zé João e Lili] estão lá - e resolvi ficar numa pensão, que só de pensar nela me arrepio. Ali a Pensão Brasil (3 estrelas) já deve ter tido uma certa categoria - no tempo em que as pensões eram uma casa, mas agora está em franca decadência, porca, suja e desleixada. 100 paus é a diária dum quarto num quinto andar. Enfim...
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O velho, dono da pensão, estava ontem às voltas com um dedo entalado, enrolado num pano que enchia a casa de cheiro a vinagre. Aconselhei o a pôr o dedo em água quente e hoje lá me foi dizendo que estava melhor. (...)
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No Porto, nova aventura: onde ficar? Pego na lista telefónica, retiro uma série de endereços de pensões e... nova preocupação. E então, os preços?! Pego em mim e venho andando, tentando adivinhar a categoria da pensão - e consequente modicidade do preço - pela fachada. E assim caí [nesta] espelunca. (MCG - 1974.09.22)

1975

No Porto as ruas e as pessoas são diferentes. A cidade é suja de papéis e lixo pelas ruas. E nas paredes os cartazes do PC são mais atractivos. Nalgumas praças há bancas dos partidos políticos de esquerda. (MCG - 1975.03.26

Em tempo - 
2013


A 1ª vez que estive no Porto, com a minha mãe, tinha 3 anos e ficámos a morar em casa do meu avô Luís, na Travessa da Carvalhosa. Guardei algumas memórias, não da cidade mas da vida em família. E dum espectáculo a que assistimos ficou a minha foto numa revista, espectáculo esse com a Amália Rodrigues e o Estevão Amarante. Ia com o meu avô Luís muitas vezes para o café. e ao cinema e lembro-me dum filme que vimos, do Walt Disney, Steamboat Willie, com Mickey Mouse. 

Voltei em 1962/1964, para frequentar o 5º ano do Liceu, sucessivamente no Grande Colégio Universal, na Rua da Boavista, e o Almeida Garrett, perto da rua de Cedofeita.  São desse tempo as notas respigadas do Diário que na altura escrevia, desde 1958. Embora gostasse das pessoas do Porto, do calor humano que sentia nas ruas, a cidade para mim era triste, feia, escura  e suja e com aquilo que eu chamava muita “parolice”. Uma parte do tempo morei em casa do meu avô Barroso, na Rua dos Bragas, e outra em casa do meu avô Luís, na Rua de Santos Pousada e também em Rio Tinto. Aliás o meu avô Luís, alentejano, dizia que o Porto era uma aldeia grande, falando também do tempo em que a viagem desde Lisboa levava 5 dias e as pessoas precavidamente fazerem testamento antes de se meterem à jornada na mala-posta.
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Quando íamos pela rua de Cedofeita muitas vezes o meu avô Barroso dizia-me a propósito  do vernaculismo tripeiro: "Tu não ouças, Victor, tu não ouças que as pessoas falam muito mal." E à 2ª feira sabia-se qual o resultado do "glorioso" na véspera - se as pessoas fossem caladas e tristes nos eléctricos, o FC Porto havia perdido, caso contrário iam mais alegres. Por essa altura a Câmara do Porto fez uma campanha para que os munícipes mantivessem a cidade limpa e ou no Comércio do Porto (lido pelo meu avô Barroso) ou no 1º de Janeiro (lido pelo meu avô Luís) publicavam-se umas notas diariamente. Numa delas o jornalista dizia que interpelara uma moradora que varria o lixo para a rua, se não sabia da campanha para uma cidade limpa, ao que esta lhe retorquira "Então que queria que eu fizesse ao lixo, que o guardasse em casa? Eu cá sou muito asseada !" fechando-lhe a porta na cara. Nada como no Alentejo, onde  nas aldeias as pessoas varrem e lavam os passeios e as ruas defronte das casas.

2016

A 1ª vez que estive no Porto foi em 1949/50, tinha 3 anos de idade. Voltei depois em 1963/64. Nesta altura, para além do frio gélido, a cidade parecia-me soturna e triste, com prédios graníticos e painéis de azulejo escurecidos nas fachadas dos prédios e das igrejas. Espantava-me falarem tão "mal" nas ruas, com palavrões a torto e a direito. Mas cirandando entre as casas dos meus avós, isto é, entre Cedofeita, os Clérigos, a Trindade,a Praça da Batalha, S. Lázaro e o Campo 24 de Agosto, a cidade tinha para mim uma dimensão humana e nas suas ruas respirava-se um calor humano. Para quem tinha vivido em Luanda e passado por Lisboa, era uma cidade provinciana (o meu avô paterno, alentejano, dizia que o Porto era uma aldeia grande). Os meus pais e tios eram do Porto, e o meu Pai frisava "de Cedofeita". Os "tripeiros"  tinham um sotaque característico, que o meu Pai em Luanda perdeu mas a minha mãe manteveaté muito tarde. À 2ª feira sabia-se se o FC Porto tinha ganho ou não na véspera, as pessoraas cabisbaixas se perdera, alegres, se vencera.  Havia então a "mística" do FCP, que se notava nas ruas, mística de que no Sul não me apercebia relativamente ao Benfica ou ao Sporting.

Em 1966 voltei ao Porto, para frequentar a Faculdade de Economia. Mas incomodavam-me os palavrões dos meus colegas à mesa do Café (em Luanda e também na minha família, em Luanda, no Porto ou em Lisboa não se utilizavam palavrões e na altura nem "merda!" eu dizia mas apenas "popilas"). Isso e a luminosidade e brancura de Lisboa fiizeram-me rumar para Económicas, mais para sul, para a "grande cidade das muitas e desvairadas gentes" de que falava Fernão Lopes

Hoje - após o falecimento dos meus avós e a dispersão da família - o Porto já perdeu para mim o encanto de outrora, parecendo-me confuso e agreste, apesar da cidade estar mais limpa e cuidada e goste de deambular a pé pelas ruas da minha adolescência e juventude. Creio que foi em 1963 que a Câmara do Porto lançou uma campanha para uma cidade limpa, havendo creio que no Comércio do Porto uma rubrica regular sobre o tema. Nesta uma vez o jornalista relatava que encontrara uma mulher a varrer o lixoo para a rua; interpelando-se, se não sabiada campanha, ao que ela retorquiu que era uma pessoa limpa e asseada e por isso varria o lixo para a rua, fechando-lhe a porta na cara.


Porto Sentido
Rui Veloso
  
Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
És cascata, são-joanina
Erigida sobre o monte
No meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
Da Ribeira até à Foz
Por pedras sujas e gastas
E lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
Num rosto de cantaria
Que nos oculta o mistério
Dessa luz bela e sombria

E é sempre a primeira vez
Em cada regresso a casa
Rever-te nessa altivez
De milhafre ferido na asa

Maria Rita
Duo Ouro Negro
  
Foi um dia nas Fontainhas 
Que a vi falando com umas amigas 
Atirei-lhe beijos, elas riram das gracinhas 
São coisas próprias das raparigas 
E eu voltei, todos os dias a procurei 
E soube que ela se chamava Rita 
Foi a moça mais bacana que encontrei 
E tinha os cabelos presos com uma fita

Maria Rita, Maria Rita 
Eu pergunto à multidão, mas ninguém a viu passar 
Maria Rita, Maria Rita 
Dou uma vela a S. João se a voltar a encontrar

Quando chegou a madrugada 
Ninguém sabia de nada 
E eu voltei tão triste, tão triste 
Que se ela soubesse voltava para me abraçar

Era noite de S. João 
Toda a cidade estava iluminada 
E toda a gente vinha em folia, em turbilhão 
E nessa gente vinha a minha amada 
E trazia a amarrar o cabelo negro 
A mesma fita da cor do céu 
Com a mão atirou-me um beijo 
E entre a multidão desapareceu

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ao meu olhar, Porto sentido no antigamente