Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Letras empilhadas, ano após ano, em Junho, 30, (re)colhidas em 2025

 * Victor Nogueira

 30 de junho de 2012  · 

Foto Victor Nogueira - Setúbal - estuário do Rio Sado e Península de Tróia

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Maria Lisete Almeida

Foto maravilhosa! Parabéns!

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Teresa De Sampaio Lança

Imagem excelente. Parabéns!

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Thatalyscal Scaldelai

Linda imagem!!! 😊

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Isabel Maria

Finalmente Tróia! mas ao longe ...será que não gostas da península? o brilho da água está fantástico!!!

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Deolinda F. Mesquita

Foto FANTÁSTICA!!!! Parabéns.

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Victor Barroso Nogueira

Isabel Reis Há anos que não vou a Tróia. Tróia já não é do Povo, agora é do Belmiro até que suceda como na Ilha do Cabo em Luanda e o peso das construções nas dunas e a água acabem com a península.

13 a

Margarida Piloto Garcia

Um tarde de prata? Um entardecer prateado? Não sei mas a foto é bela.

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Manuela Vieira da Silva

Belos brilhos e contrastes. Obrigada.🙂

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Belaminda Silva

Linda foto amigo :))

13   


30 de junho de 2012  · 

texto de Victor Nogueira

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José Inácio Leão Varela

Verdade nua e crua caro Victor (Victor Nogueira)...

Por acaso Victor Nogueira, já passaste pelo grupo dos ex-ISESE? Se não passaste passa e dá-me a tua opinião s/ o interesse e/ou desinteresse que existe por lá...eu fiquei com uma ideia clara.. abraço.

13 a

Margarida Piloto Garcia

EU JURO QUE COMENTEI ISTO HÁ 10M GRRRRRRRR

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Isabel Maria

fácil de decifrar a tua vida... gostava mais que fossem dois sorrisos ...e lágrimas só de alegria

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Odete Maria Botelho

Aqui deixo mil sorrisos amigo Victor..Beijinhos mtos..e um feliz fim de semana!!!

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Belaminda Silva

Mil beijinhos, mil sorrisos e um forte abraço para ti amigo ♥

13 a

Maria Lisete Almeida

Grata por esta partilha Amigo! Verdade ..nem tudo são sorrisos, mas as lágrimas também nos ajudam a crescer ...

13 a

Teresa De Sampaio Lança

c'est la vie...obrigada Victor Nogueira. Gostei!

13 a

Victor Barroso Nogueira

Também se pode chorar de alegria,Isabel Reis, Odete Maria Botelho, Maria Lisete Almeida, Teresa De Sampaio Lança 🙂 Cadé o comentário, Maria Margarida Piloto Garcia ?

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Margarida Piloto Garcia

O comentário foi feito e escrito. Saiu espontâneo e livre e até me deu um enorme prazer. Mas tal como todas as coisas especiais e que escrevemos de rompante, agora é impossível de repetir. FIQUEI DANADA. O face eliminou-o? Ou que se passou?.

13 a

Victor Barroso Nogueira

E eu sei, Margarida Piloto Garcia ? Mas ficou a ideia do que escreveste, não? Deixas-me com curiosidade; perdida a forma, fica o conteúdo, não, Guida ?

13 a

Susana Garcia Ferreira

deves ter feito comment.no perfil e não aqui na foto.

13 a

Susana Garcia Ferreira

lol ou pelos vistos não ficou mesmo

13 a

Susana Garcia Ferreira

e aparece de novo amanhâ lol.gostei deste poema amigo Victor.bjs

13 a

Maria Jorgete Teixeira

Mesmo assim...mais alegrias que tristezas...e a maioria dos dias assim-assim...bj

13 a

Maria Jorgete Teixeira

Enganei-me : mais tristezas do que alegrias, metade, a bem dizer...

13 a

Victor Barroso Nogueira

Maria Jorgete Teixeira Maria Lisete Almeida, Isabel Reis ... O escritor escreve e o leitor não vê o que o escritor escreveu mas sim o espelho de si mesmo, leitor/a. Será? Este é um poema "científico", sem juízos de valor. LOL A vida, enquanto sangue houver e o coração bater e os sentimentos se puderem expressar - em cada momento só há um sorriso (só temos um rosto)(sorriso que não qualifico) e lágimas apenas podem ser duas de cada vez, pois temos apenas dois olhos, em princípio, se mortos eles não estiverem ! Será mérito poético deixar às pessoas a liberdade de se expressarem pela sua própria voz e não pela do poeta, assim se desnudando, ou não.

13 a

Maria Jorgete Teixeira

Hummmm! Inteligentemente deste a volta...mas não é obrigatório serem duas lágrimas, pode ser apenas uma...

13 a

Victor Barroso Nogueira

Maria Jorgete Teixeira Mas a leitora, coMo na vida, terá de ficar com a última "deixa"? LOL. Olha, a deixa que te deixo é um beijo, um de cada vez, tantos quantos deixar(es) que eu deixe lol

13 a

Maria Jorgete Teixeira

Já sabes que eu sou refilona e contestatária por natureza...bjs

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Yolanda Botelho

Vou guardar mesmo.....lindo e precioso para mim,meu amigo

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Deolinda F. Mesquita

Linda definição de Vida...um beijo Victor.

13 a

Manuela Vieira da Silva

A Vida numa simples fórmula. Se a vida fosse tão simples!!! seriam dois sorrisos e nenhuma lágrima. Obrigada, Victor Nogueira. Boa noite.🙂

13 a

Luísa Noronha

Gostei muito. Obrigada. Beijinho

12 a

30 de junho de 2016  · 

Lembro-me perfeitamente da enorme campanha em Luanda contra a independência do Congo Belga e depreciativa de Lumumba,(1925 - 1961) apresentado como um selvagem analfabeto tal como Luandino Vieira era com a sua "Luuanda" o que nem português sabia escrever. E lembro-me da revoada de "brancos" belgas em fuga e trânsito para a Europa, de que ficaram os entrançados artesanais com fio eléctrico - os scoubidou - de que tenho alguns. E lembro-me da campanha a favor da secessão do Katanga e dos elogios ao "amigo" Tschombé.  E assim se fazia ou era contada a quente e depreciativamente a história da descolonização africana,  Afinal, tirando os "amigos", todos os outros negros eram apresentados como irresponsáveis, "seres primitivos", crianças grandes e analfabetos e como traidores a soldo de Moscovo os "brancos" que defendessem a independência das colónias do chamado "fardo civilizacional do Homem branco" de que falava Rudyard Kipling.

"Um dia a História terá uma palavra a dizer, mas não será a História que Bruxelas, Paris, Washington ou as Nações Unidas quiserem transmitir, mas sim aquela que nós contaremos nos países emancipados do colonialismo e das suas marionetas ... uma História de glória e dignidade  (Patrice Lumumba Outubro de 1960)

CLICAR EM   http://www.avante.pt/pt/2222/memoria/


30 de junho de 2017  · 

foto victor nogueira - Setúbal - largo da Fonte Nova ou Praça Machado dos Santos - estátua de Mariana Torres operária conserveira assassinada pela GNR em 1911 durante uma manifestação por melhores condições de vida e de trabalho. Na mesma jornada de luta morreu também o operário António Mendes. Monumento da autoria do escultor Jorge Pé-Curto,


30 de junho de 2020  · 

foto victor nogueira - Setúbal - nascer do sol em 2020.06.30 - 

Por mais voltas que desse, esta madrugada Morfeia abandonou-me, pelo que resolvi ver no canal AMC o filme ""Revolta no Pacífico", realizado em 1984 por Roger Donaldson, com Mel Gibson e Anthony Hopkins, narrando a insurreição de parte dos marinheiros do navio HMS Bounty. O objectivo da viagem era proceder ao carregamento de fruta-pão, para plantar nas colónias britânicas da Jamaica, alimento mais em conta e menos oneroso para sustentar os numerosos escravos das plantações das Antilhas. O filme era interessante e seria mais ajustado à realidade dos factos que um outro, realizado por Lewis Milestone 1962 interpretado por Marlon Brando e Trevor Howard. Esta última versão, de 1962,de que encontrei um trailer, pareceu-me mais americanada e espaventosa que a de 1984.

A determinada altura e pelo canto do olho apercebi-me que o céu estava a ficar laranja, pelo que resolvi fotografar o nascer do sol, com alguma encenação. Já tentara fazê-lo há dias, mas dessa vez tinha a simpática companhia de Joana Pestana, por isso não tendo pachorra para esperar, pelo que recolhi então a vale de lençóis.

By the way, alguém com Vida e sem medo de covid's, convida-me para um encontro e passeio? Hummm, não acredito muito, que isto é  (quase) tudo , salvo raríssimas excepções, pessoal e garinas que ainda não ultrapassaram o estádio do clã, da tribo ou da famiglia.

Mas como a bola de fogo não surdia no horizonte, continuei a ver o filme, até me aperceber que ela ia ascendendo lá longe, nos limites que a minha vista alcançava.  Mas com céu límpido e sem nuvens, nada de especial foi possível registar, pelo que apenas uma das encenadas é foto de capa, esta.

Tenham um bom dia, um dia estival e quente, convidando a uns mergulhos nas salsas  ondas ou picnicando à sombra fresca duma qualquer mata que não esteja vedada ou cercada de arame farpado.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Questionário sobre o antes e depois do 25 de Abril de 1974

 



Francisco Gabriel / Victor Nogueira


1-Onde estavas na altura do 25 de abril?

Estava em Évora, concluindo o curso de Sociologia.

2-Quem eras na altura?

Estudante e dirigente no Movimento Associativo Estudantil Universitário

 

3-Como era Portugal antes do 25 de abril?

Em 1932, em todos os manuais de leitura estava incluída a seguinte frase: “Na família, o chefe é o pai; na escola, o chefe é o mestre; na igreja, o chefe é o padre; na Nação, o chefe é o governo.”

 

Era uma sociedade cinzenta e repressiva, com muita desigualdade social, controlada pelos Serviços de Censura e vigiada pela PIDE (polícia política) e a sua rede de informadores. Eram limitados os direitos de reunião, de manifestação, de associação e fraudulentos os processos eleitorais. Grande parte da população vivia em barracas ou habitações insalubres, sem saneamento básico, electricidade e água canalizada ao domicílio, especialmente a que vivia em bairros de lata ou no campo.

A censura controlava a informação na imprensa escrita e audiovisual, proibindo tudo o que pusesse em causa  o Governo e o sistema. Os partidos políticos eram proibidos e os seus militantes ou simpatizantes perseguido, presos e torturados, por vezes mesmo assassinados, pela polícia política e outras forças policiais.  Os sindicatos eram controlados pela polícia política e as greves proibidas. A  entrada na Administração Pública (Estado)dependia de informação favorável da polícia política e de prestarem juramento que estavam integradas na ordem social vigente e repudiavam activamente todas as ideias subversivas e o comunismo. Era proibida a emigração, mas as pessoas emigravam clandestinamente, a salto, para fugirem à miséria e à guerra colonial. Era proibido dizer mal do Governo e da sua política, contestar a guerra colonial ou defender a independência das colónias; quem o fizesse estava sujeito a ser preso pela polícia política. Havia listas de livros e de filmes proibidos pelas Comissões de Censura.

 

As mulheres tinham menos direitos que os homens e estavam sujeitas à autoridade do marido. Estes podiam proibi-las de terem uma profissão ou de trabalharem fora de casa. O divórcio era proibido para quem tivesse casado pela Igreja Católica, o que era a maioria dos casamentos. Os filhos nascidos fora do casamento, considerados ilegítimos, tinham menos direitos que os filhos  “legítimos”, havendo muitas pessos cujos documentos de identificação diziam “filho de pai  incógnito”, porque o pai se recusara a reconhecê-los ou perfilhá-los. As relações entre rapazes e raparigas, especialmente em meios pequenos, eram vigiadas e controladas

O casamento era proibido às mulheres em profissões como hospedeiras da TAP, telefonistas e enfermeiras. As mulheres não podiam seguir as carreiras da magistratura, diplomática, militar e polícia. Mesmo assim, os costumes impediam as mulheres de exercer certas profissões.

As professoras do ensino primário só podiam casar se autorizadas pelo Ministro da Educação e desde que provassem que o futuro marido tinha rendimentos certos e informação favorável das autoridades administrativas e da polícia política. Nas exolas, sempre que fosso possível, havia separação entre rapazes e raparigas: havia escolas do ensino primário distintas, umas para rapazes, outras para as raparigas, assim como havia liceus masculinos e liceus femininos.  Quem tinha possibilidades frequentava o Liceu, que permitia tirar um curso universitário. Quem não tinha possibilidades económicas, ficava apenas com a 4ª classe do ensino primário ou tirava um curso tecnico-profissional numa escola industrial ou comercial. Os livros de estudo tinham de ser aprovados pelo Governo e eram o “livro único” no Portugal do Minho a Timor, como então se dizia.

 

Disto falo num poema meu, intitulado “Raízes”

(…) Em Luanda nasci

Em Luanda vivi

Em Luanda estudei

 

Não Angola mas Portugal

Todos os rios e afluentes

Todas as linhas férreas e apeadeiros

Todas as cidades e vilas

Todos os reis e algumas batalhas

as plantas e animais

que não eram do meu país.

 

De Angola

pouco sabiamos

até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março

Veio a guerra e

a mentira

que alimenta

a Guerra,

Veio a guerra e a violência

veio a guerra e a liberdade.

 

Em Évora a 11 de Novembro

Em Luanda a bandeira do meu país

no mastro subiu.

Era o tempo da liberdade e da esperança. (…)

 

As pessoas não tinham assistência na doença nem na maternidade, era proibida a interrupção voluntária da gravidez e não havia assistência/e acompanhamento durante a gravidez e no parto.  Por esse motivo a  mortalidade infantil era elevada.

Não havia subsídios de invalidez nem para os desempregados nem pensões de reforma para a maioria da população. Pelas ruas, nas esquinas e nos adros das igrejas ou batendo à porta das casas, muitas pessoas, especialmente crianças ou idosos, pediam “uma esmolinha, pela Graça de Deus”. Nas empresas privadas os salários e as pensões de reforma das mulheres eram muito inferiores aos dos homens. Nalgumas profissões os trabalhadores não tinham ordenado, como os empregados de café ou os taxistas, que viviam apenas das gorjetas dos clientes. Aliás, dar uma gorjeta era um hábito generalizado.

Havia uma elevada taxa de analfabetismo, com maior incidência nas mulheres. Os analfabetos não podiam votar nem serem eleitos.

 

4-Que mudanças sentiste na tua vida, o que é que alterou a nível pessoal?

Foi uma enorme sensação de alívio, por podermos falar e agir sem o receio de sermos perseguidos e presos

 

5-Como era Angola, antes da revolução e independência das colónias?

Para a população branca a situação era similar à de Portugal, embora houvesse mais à-vontade no vestuário feminino e liberdade nas relações entre rapazes e raparigas. Até ao início da guerra colonial a censura e repressão sobre a população branca era menor que em Portugal

A esmagadora maioria da população era negra e não tinha quaisquer direitos políticos nem sociais, estando sujeita ao “Estatuto do Indigenato”, que só foi abolido após o início da guerra colonial.

Os “indígenas” não podiam frequentar as escolas do ensino primário, salvo a das missões católicas ou protestantes, pelo que a maioria  não sabia ler nem escrever em português. Para terem os mesmos direitos que os brancos tinham de abandonar os costumes tradicionais e fazerem prova de se expressarem correctamente em português, escrito e falado, passando a ser considerados assimilados (o que era uma minoria na população angolana, tal como nas restantes colónias africanas) e poderem então frequentar o ensino técnico-profissional e o liceal.

A maioria dos que terminavam o liceu, qualquer que fosse a etnia, não tinha possibilidades de prosseguir estudos universitários em Portugal (a Metrópole) Até ao início da guerra colonial, em 1961, havia Liceus apenas nalgumas capitais de distrito (Angola era 14 vezes maior que Portugal) e só em 1962  foram criados estudos universitários em Luanda, cursos de medicina, ciências e engenharias, em  Nova Lisboa,  (actual Huambo), cursos de agronomia e veterinária, e em Sá da Bandeira (actual  Lubango), cursos de letras, geografia e pedagogia. Alguns anos mais tarde foi criado em Luanda o curso de economia.

A maioria da população negra, sobretudo nas regiões rurais, estava sujeita ao regime de contrato, na prática ao trabalho forçado, nas explorações agrícolas e nas obras públicas, sem direitos e sujeitas a castigos físicos, sem julgamento prévio, aplicados quer pelas autoridades administrativas, quer pelos patrões. Até ao início da guerra colonial a população negra trabalhadora tinha de ter uma caderneta de trabalho, assinada pelo patrão, sem a qual estava sujeita a ser presa e a trabalhar na estrada (obras públicas). As forças policiais, em busca de elementos subversivos, faziam periodicamente “rusgas” nos musseques, bairros da população negra e de brancos pobres, água ao domicílio ou saneamento básico.  

Não havia regime de apartheid (como na colónia portuguesa de Moçambique e nos países racistas de minoria branca, como as antigas colónias inglesas da Rodésia do Sul e da África do Sul).  Mas existia uma enorme segregação social, que afectava a maioria da população negra, sujeita aos trabalhos mais pesados ou menos gratificantes e mal remunerados.

 

 

6. Alguma história ou curiosidades que possas partilhar

Uma vez, em miúdo, em Luanda, ao atravessar uma rua, fui atropelado por um negro que conduzia uma bicicleta. Nem ele nem eu conseguimos evitar o atropelamento, embora tivéssemos tentado evitá-lo. Considerei então de uma enorme injustiça que ele ele tivesse sido castigado, sem apelo nem agravo, por ter atropelado um “menino branco”.

Quando fui estudar para Évora, habituado à liberdade de convívio entre rapazes e raparigas, em Luanda e na Universidade em Lisboa, “surpreendeu-me” a segregação na convivência entre  rapazes e raparigas. As raparigas e nossas colegas que frequentavam o café connosco, por serem irmãs   ou namoradas dum ou doutro no nosso grupo, ou apenas amigas, eram consideradas pela maioria dos eborenses como raparigas perdidas ou mesmo prostitutas.  Na casa de hóspedes em que vivia, os estudantes e as pessoas empregadas tinham quartos próprios, independentes, mas as raparigas estudantes dormiam no mesmo quarto com a hospedeira, não fosse o diabo tecê-las.

No Instituto [Económico e Social de Évora} onde ia frequentar sociologia, ao entrar pela 1ª vez noma sala de aulas, como a 1ª fila de carteiras estava vaga, sentei-me numa delas. Era obrigatório assistir às aulas, pelo que o contínuo marcava as faltas aos ausentes.  O senhor Veladas abordou-me dizendo que não podia sentar-me nas 1ªs filas, pelo que mudei de lugar pois, entretanto, entrara o professor. No fim da aula fui ter com o contínuo para me dizer porque não podia sentar-me na 1ª fila, que aliás continuara desocupada. Respondeu-me que as 1sª filas eram reservada às meninas.  Perguntando-lhe a razão disso, respondeu.me que as meninas não se podiam sentar no meio dos rapazes, porque podiam fazer coisas que não deviam. Como o meu curso tinha alguns contestatários, de que passei a ser o líder, pouco depois as meninas sentavam-se no meio dos rapazes, não só no nosso curso, como nos restantes!

Uma vez estava no jardim público com a minha namorada Celeste, com quem vim a casar, quando lhe dei um casto e furtivo beijo, logo de seguida sentindo a varinha do guarda, que não vira, batendo-me no ombro e avisando-me que “poucas vergonhas” daquelas não eram permitidas!

 

7-50 anos depois, que conquistas consideras as melhores do 25 de abril?

O fim da guerra colonial e todas, as conquitas então alcançadas com o movimento dos trabalhadores e das populações por melhores condições de vida e de trabalho, apesar de alguns das liberdades, dos direitos e dos nossos sonhos de então ainda se não terem concretizado ou terem sido desvirtuados.

 

8-E se achas que se perdeu algo, ou ficou por fazer?

Apesar dos retrocessos e das insuficiências no mundo do Trabalho, da Justiça, do Ensino, da Saúde, da Segurança Social face a vicissitudes da vida, a luta por uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais fraterna e mais solidária mantém-se como necessária à Humanidade, conjuntamente com a luta pela Paz entre os Povos e a resolução pacífica dos conflitos internacionais.

 

9-Uma obra em formato de livro música ou outra arte que represente o 25 de abril?

Não há “uma”. Mas pelo contraste entre o antes e o “agoramente”, na música e poesia “Os vampiros”, “Grândola, Vila Morena” e “Canto Moço”, de José Afonso, “Soneto do Trabalho” e “Portugal ressuscitado”, de Ary dos Santos, “Liberdade”, de Sérgio Godinho, “Pedra filosofal”, de António Gedeão …  Sem esquecer as “Canções Heroicas”, de Fernando Lopes Graça.

Ou os romances “Cerro Maior”, de Manuel da Fonseca, “Levantados do chão”, de José Saramago e “Até amanhã, camaradas”, de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal.  De referir a peça teatral “O Canto do Papão Lusitano”, de Peter Weiss, entre outras.

Na pintura “A poesia está na rua”, de Helena Vieira da Silva, os “Desenhos da prisão”, de Álvaro Cunhal ou os cartoon de João Abel Manta, que retratam os tempos anteriores e posteriores ao 25 de Abril.  

Sobre a colonização portuguesa, os poemas “Monangambé” e “Carta dum contratado”, de António Jacinto, “Meninos do Huambo”, de Rui Monteiro”, poetas angolanos, “Reza Maria”, de José Craveirinha, poeta moçambicano, “Trindade”, de Alda do Espírito Santo, poetisa santomense sobre o massacre de Bafetá. Em prosa são de referir, p. ex., o romance “Maiombe”, de Pepetela, angolano, ou os contos reunidos sob o título “Luuanda”, de Luandino Vieira

 

10 - em conclusão, como explicarias a alguém o 25 de abril?

Como outras revoluções anteriores, no mundo e ao longo dos séculos, o 25 de Abril foi o resultado da luta do povo português e dos povos das colónias pela liberdade e por melhores condições de vida e de trabalho, numa sociedade mais justa, igualitária, fraterna e solidária.

 

Galeria fotográfica

(Se tiveres alguma foto da altura estás a vontade para enviar)

Fotos Victor Nogueira – Mural na Rua António Maria Cardoso (sede da PIDE-DGS)    [Comissão Organizadora das Comemorações Populares do 25 de Abril] - E quatro companheiros nesta rua antes de se render a PIDE matou, tombaram pela liberdade no dia da libertação


Foto Victor Nogueira - Mora, 1975

CAMARADA NÃO TE DEIXES ILUDIR COM FALSOS SOCIALISMOS. SOCIALISMO HÁ SÓ UM, O SOCIALISMO PROLETÁRIO O QUE LIBERTA O HOMEM DA EXPLORAÇÃO DO CAPITALISMO E O CONDUZ AO COMUNISMO. NÃO TE ILUDAS, NEM COM FALSOS SOCIALISMOS NEM COM FALSAS LIBERDADES


Foto Victor Nogueira - Évora 1976 03 12 manifestação dos trabalhadores rurais alentejanos


Foto Victor Nogueira - Évora 1976 03 12 Manifestação dos trabalhadores rurais, pela Reforma Agrária – ‘A terra a quem a trabalha´

Fotos Victor Nogueira – Mural na Rua António Maria Cardoso (sede da PIDE-DGS)    [Comissão Organizadora das Comemorações Populares do 25 de Abril] - E quatro companheiros nesta rua antes de se render a PIDE matou, tombaram pela liberdade no dia da libertação


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Em Pointe Noire e a Guerra Colonial Portuguesa

* Victor Nogueira 




Na praia, com Nicole Tiolais, em Pointe Noire (Afrique-Équatoriale Française - Congo  Brazzaville), nas Férias Grandes de 1958

As indumentárias indicam que ao Verão no hemisfério Norte correspondia a estação fria, a Sul do Equador. Em 1962/63, no ano em que estive a estudar no Porto, muito gélidas e desagradáveis me foram as praias de Matosinhos á Póvoa de Varzim e. depois desta experiência, me pareceram amenas as frias do "cacimbo". em Luanda. 

VER  em Pointe Noire, 1958 / 1959

Elias Quadros

Ponta Negra do Coronel ???

Um piloto maçarico, do Algarve, lá aterrou por engano, em 71, ou 72.

A pusilanimidade de Xico Rolhas - enquanto consulta o guarda chuva Lisboa, que ciumeira de Spirolas - não permitiu recuperar o aparelho. Que, desmontado, ficou a enfeitar o palácio do dito.

Pobres piloto e mecânico que haveriam de padecer longo cativeiro.

Já nos ominosos tempos - apesar de notáveis inteligências - nem todos justificavam dragonas do generalato.

2 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

Elias Quadros Não percebo. O coronel? Qual coronel? Ah. O Spínole e o Costa Gomes, na sequência dum acidente de aviação durante a guerra colonial?

Não me lembro desse episódio e a minha estadia foi muito anterior

2 ano(s)

Elias Quadros

Victor Barroso Nogueira Não: referia-me à R. do Congo ex-Francês. O acidente ocorreu com aterragem de heli - do lado daquele território, julgando que aterrava no Miconge, Cabinda. Costa Gomes não consentiu num golpe de mão - com forte probabilidade de sucesso - para ir resgatar o aparelho ou , ao menos, os tripulantes. Spínola, se o caso fosse com ele, provavelmente não deixaria de "ignorar" a operação. Quando Costa Gomes obteve anuência de Lisboa, o tempo oportunidade...

2 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

Sim, percebi que o acidente ou incidente ocorrera na República do Congo (Brazza)

Desconhecia os factos. Em meu entender Costa Gomes foi sempre mais diplomata e politicamente hábil que Spínola

2 ano(s)

Elias Quadros

Victor Barroso Nogueira Claro: Lá desde a Origem das Espécies: Nem sempre são os melhores que sobrevivem...

2 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

Elias Quadros Mas o que tenho lido é que Spínola perdeu a guerra na Guiné, para além de ter falhado todos os golpes depois de Abril, enquanto Costa Gomes teria neutralizado os Movimentos de libertaçao em Angola, estando prestes a vencer militarmente a guerra.

Já uma vitória política, essa não estaria ao alcance de Costa Gomes, em Angola, salvo se houvesse uma independência ao estilo da de Iann Smith, na Rodésia.

Talvez o futuro de Angola tivesse sido diferente se em vez de Spínola tivees sido Costa Gomes o Presidente da República, como teria pretendido o "MFA" na altura.

Spínola foi irrealista ao insistir numa inviável solução federalista e ao não reconhecer o direito das colónias á autodeterminação e á independência, pois com o rumo que tomou o 25 de Abril as Forças Armadas ficaram praticamente dissolvidas e inoperacionais.

Nem Spínola nem Marcelo Caetano eram o General De Gaule

2 ano(s)

Elias Quadros

Victor Barroso Nogueira

Costa Gomes ~ a quem fiquei a dever não estar dentro ao 25 de Abril e talvez o homem mais inteligente que já conheci - sempre se soube adaptar, 'flutuar'. Penso que o cognome de Chico Rolhas lhe assenta.VER «em Pointe Noire, 1958 / 1959»   in https://kantophotomatico.blogspot.com/.../em-pointe-noire...

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Textos em junho 30

 * Victor Nogueira

2022 06 30 - Em 2015 nem o PáF de Marcelo/Cavaco/Pedro & Paulo do PSD / CDS nem o PS de Costa tinham possibilidades de governar. Se o Secretário Geral do PS fosse da tralha de Cisco Assis/Sócrates/Seguro, este teria viabilizado o Governo dos Pafiosos, servindo de muleta. A posição do PCP, secundada pelo Bloco e Verdes, permitiu a viabilização do Governo minoritário do PS. Ainda se poderia pensar que o PS adoptaria uma política social-democrata, mas o arranjo a  médio prazo revelou-se um logro, com o PS, a partir de 2019, a tentar secundarizar os "parceiros" de esquerda, alcançando o pleno nas eleições antecipadas de 2021, que lhe deram maioria absoluta, para governar abertamente e - sem empecilhos á esquerda - em conluio com o PSD nas matérias estruturantes.

Pedro Nunes dos Santos, apresentado com alternativa de esquerda dentro do PS, seria apenas uma alternância  na substituirão da fraude costista, teria de demarcar-se dum Governo do PS em putrefacção, com um PSD/Marcelo á deriva e sem liderança credível e mobilizadora, esperando esta que o poder lhe caia nos braços, com apoio do Chega e da IL. 

No teatro de sombras, PNS e AC jogam dentro do princípio de Salinas, em "O Leopardo": é preciso que alguma coisa mude para que o essencial se mantenha", sendo o essencial a completa submissão á cartilha neoliberal, protofascista, e ao suicida belicismo da USA/NATO com os dirigentes daiUé de cócoras, balindo como cordeiros e pastoreando os inocentes até ao matadouro.  

2016 06 30 Patrice Lumumba

Lembro-me perfeitamente da enorme campanha em Luanda contra a independência do Congo Belga e depreciativa de Lumumba,(1925 - 1961) apresentado como um selvagem analfabeto tal como Luandino Vieira era com a sua "Luuanda" o que nem português sabia escrever. E lembro-me da revoada de "brancos" belgas em fuga e trânsito para a Europa, de que ficaram os entrançados artesanais com fio eléctrico - os scoubidou - de que tenho alguns. E lembro-me da campanha a favor da secessão do Katanga e dos elogios ao "amigo" Tschombé.  E assim se fazia ou era contada a quente e depreciativamente a história da descolonização africana,  Afinal, tirando os "amigos", todos os outros negros eram apresentados como irresponsáveis, "seres primitivos", crianças grandes e analfabetos e como traidores a soldo de Moscovo os "brancos" que defendessem a independência das colónias do chamado "fardo civilizacional do Homem branco" de que falava Rudyard Kipling.


"Um dia a História terá uma palavra a dizer, mas não será a História que Bruxelas, Paris, Washington ou as Nações Unidas quiserem transmitir, mas sim aquela que nós contaremos nos países emancipados do colonialismo e das suas marionetas ... uma História de glória e dignidade."  (Patrice Lumumba Outubro de 1960)


2012 06 30  escrito de 1989 06 25 / 26

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

o regresso a Luanda, em 1974

* Victor Nogueira



Foto de família - o regresso  a Luanda, em Maio de 1974, após a "licença graciosa". 

Completamente alheia ao terramoto que foi o 25 de Abril, a minha mãe regressou a Luanda.

Em 1966 vim para Portugal, prosseguir estudos universitários, num país que então já era para mim o "estrangeiro"




As minhas idas a Luanda a partir de 1967 acabavam em "tragédia" com o meu pai,  contra a minha vontade,  puxando a conversa para a política e eu lhe contrapunha  que aquela era uma guerra perdida e que a independência de Angola era inevitável, quer com um regime multi-racial como o preconizado pelo MPLA, quer com um regime da minoria branca, como o de Ian Smith na Rodésia do Sul,

Se havia "censura" em Portugal, a partir de 1961 ela passou a ser férrea em Angola, até aí mais liberal, com a autêntica manipulação de que "Angola é nossa", mesmo influenciando  quem até aí não era afecto a Salazar e defendia a independência de Angola face a Portugal.+

A ironia é que o regresso tenha sido feito no transatlântico "Infante D. Henrique", da Companhia Colonial de Navegação (CCN), e que a tragédia tenha sido o chamado "retorno" a Portugal de centenas de milhares brancos e negros, pouco depois, muitos dos  quais nunca tinham estado em Portugal ou que de alma e coração, como o meu pai,  se consideravam não portugueses,  mas angolanos, que a long time ago haviam preconizado a independência de Angola multirracial, como defendia o MPLA.

A tragédia é que muitos brancos acabassem a defender a UNITA, um movimento racista e trIbalista, apoiado  pela PIDE e pela a União Sul-Africana, a do "apartheid".

Porque em abono da verdade se diga, nem o Manuel nem  a Maria Emília, alguma vez foram racistas ou defenderam o apartheid.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Paralelo 75 ou O segredo de um coração traído - 01

* Victor Nogueira 

Dentre os livros para ler estava este - Paralelo 75 ou O segredo de um coração traído, de Jorge Araújo e Pedro Pereira - que comprei não sei onde nem quando, provavelmente na sequência do passar das páginas e de breve leitura entre as mesmas. Para além do texto, as imagens, cativantes e algo etéreas. Parte do que é referido no extracto seguinte consta do meu poema "Raízes" (1). O resto, é a memória/história de muitos amigos. incluindo os meus pais,  que em 1975 desembarcaram na doca de Alcântara, em Lisboa, deixando para trás um país que tinha conquistado a alma e o coração do  meu pai, apanhados pelo desenrolar dos turbilhões da História. Na derrocada do Império, aquela viagem no "Infante D. Henrique" era o dobrar dos sinos, a tentativa de na viagem sem regresso o luxuoso paquete tentar manter as aparências apesar do descalabro, o meu irmão, de camisola de gola alta, impedido de entrar na sala das refeições porque não tinha gravata,  a gravata que à civil nunca usara, que não era hábito usarmos, problema resolvido pelo empréstimo do pedaço de pano em torno do pescoço que marcava a diferença da "classe" e garantia o direito de acesso.

~~~~~~~~~~


II

O senhor engenheiro embrenhou-se nas ruas da cidade, por uma vez não seguiu o caminho do costume, não apanhou o autocarro do costume, não se cruzou com as pessoas do costume. Preferiu caminhar sem destino, queria estar sozinho no meio da multidão, ser apenas mais um na romaria que àquela hora regressava a casa depois de mais um dia de trabalho.

Parecia que tinha um turbo na sola dos sapatos, por ruas e ruelas, por praças e travessas, foi a primeira vez que olhou para a cidade olhos nos olhos, era muito mais bonita do que imaginara. E continuou a andar, esta cidade afinal tem o seu encanto, pensou em voz baixa, deixou-se deslizar pelas colinas, pelas escadinhas, estava a ter um prazer enorme de a descobrir mesmo que as circunstâncias não fossem as ideais. E chegou finalmente ao rio. Nesta cidade todos os caminhos vão dar ao rio, confirmou, deixou-se entranhar na zona ribeirinha, era como desaguar no mar da tranquilidade.

(…) Chegou a um imponente edifício de traça colonial, enormes portas e janelas de ferro, o pé direito a rasgar os céus, as salas a perder de vista, candelabros de cristal a balouçar no tecto. Poderia viver mil anos, perder a memória, que nunca se esqueceria daquela imagem. A Doca da  Saudade foi a primeira coisa que viu quando atracou na Metrópole.

Nas memórias do senhor engenheiro, o ano de I975 foi ontem, nem parecia que tinham passado mais de trinta anos, o tempo passa sempre depressa quando deixa de contar, deixa de interessar, para ele deixou de contar no dia em que foi obrigado a abandonar a sua África natal.

O melhor daquela viagem foram mesmo os quinze dias em alto mar, foram, sem dúvida, os melhores dias destes últimos trinta anos. É verdade que o paquete Pátria era um verdadeiro luxo e nem o facto de vir a abarrotar de gente lhe retirava parte do seu esplendor. Parecia um hotel de cinco estrelas a deslizar pelo oceano, o pequeno-almoço servido em Vista Alegre, talheres de prata adormecidos sobre guardanapos de linho, o almoço à beira da piscina, a ceia de fato e gravata apesar do calor tórrido. Era um ambiente digno de um filme americano, não faltavam os concorridos bailes ao fim da noite onde bailarinos de méritos reconhecidos escreviam no chão cartas de amor com passos leves e delicados.                                

(…)
-
- A Metrólope é aquilo? - gritou um miúdo enquanto apertava bem forte as mãos do avô.

Ele encolheu os ombros. Era mesmo. Aquilo não era apenas uma cidade diferente, era um país diferente, um mundo diferente. Um mundo que a maioria apenas conhecia de ter ouvido falar. Conhecia as cidades todas, as aldeias todas, os rios todos, os seus afluentes também, os apeadeiros de caminhos-de-ferro todos, os horários dos comboios também, conhecia tudo isso porque era matéria obrigatória nos manuais escolares. Mas não conhecia o essencial. Não conhecia as gentes e, sobretudo, não lhes conhecia a alma.

Assim, numa primeira impressão, o que os seus olhos viam não era um bom prenúncio. A multidão que enchia a varanda do edifício imponente tinha um ar desconfiado, pareciam espectadores tristes de um espectáculo de circo, os homens trajados com fatos de flanela cinzenta, as mulheres forradas de negro dos pés à cabeça, era a plateia de um enterro à beira-rio, faltava uma capulana para alegrar o ambiente. Apesar do sol celestial que a iluminava, a cidade tinha um ar sombrio.

À medida que o barco se aproximava do cais reparou em alguns braços que acenavam sem parar. Deveriam ser familiares dos passageiros que aguardavam impacientemente para abraçar os seus entes queridos. Não era nada que lhe dissesse respeito, certamente que não teria ninguém à espera, toda a sua família ficara na terra que acabara de abandonar. Na sua terra. Na sua África.

(…)


Em cima do cais havia caixotes por tudo quanto era canto. Havia grandes, médios e pequenos. Bonitos e feios. Havia caixotes humildes - restos de grades de cerveja costurados com pregos enferrujados -, caixotes remediados - esqueleto da mobília de sala jantar com direito a prego de aço -, caixotes supra-sumo - feitos com madeira de mogno, parafuso de meia polegada e cinta de alumínio. Era uma floresta de caixotes, retalhos de muitas vidas, pedaços de muitas memórias.

(…)

E partiu à procura do seu caixote. Do seu passado. Do que restava da sua vida. Como ele muitas outras pessoas também procuravam o seu bem mais precioso. Era tudo o que tinham conseguido trazer depois de uma vida de trabalho. Inconscientes, como sempre, as crianças brincavam à cabra-cega no meio do tesouro de muitas vidas.

- Já me roubaram o meu caixote - gritou uma mulher a transpirar  menopausa.

- Maria, o nosso está aqui - sossegou o marido com palavras empapadas de suor.

O  senhor engenheiro assistia ao rebuliço com um sorriso na berma dos lábios. Aquele espectáculo era um pouco da sua África que não se tinha extraviado na viagem de regresso. Mas deveria ser o único que não tinha um caixote para amostra - trouxera apenas uma mala que pesava que nem chumbo e um baú leve que nem uma pena -, deveria ser o único que não tinha memórias revestidas a madeira.

- Deixe comigo que eu trato das suas bagagens - não foi um pedido mas quase uma ordem.

O senhor engenheiro não respondeu porque ainda estava embriagado pela confusão. Mas nem precisava porque o carregador já tinha colocado a mala e o baú num carrinho de mão.

- As suas ordens, patrão – acrescentou com palavras revestidas de bajulação.


E ficou sentado sobre o baú à espera de novas instruções. E ele nada, não queria desperdiçar destroços de um mundo moribundo, pedaços de uma África que já só existia na sua cabeça. Por isso foi-se ficando, não tinha pressa nem lugar para onde ir, o carregador cada vez mais nervoso, cada vez mais falador.

- O patrão não acha que devíamos avançar para a alfândega?

E ele nada. Tinha mais olhos do que palavras. Por isso reparou num indiano de barriga avantajada e cabelos cor de açafrão numa roda viva de contactos com os passageiros recém- -chegados - estava a angariar clientes para a sua pensão. Certamente que é um retornado, pensou, mas como a palavra soou-lhe mal emendou a língua, deve ser mais um que veio de África. Foi por isso que simpatizou com a cara dele, bastou trocarem um olhar, nem foi preciso dois dedos de conversa.

- Diga-me o endereço - perguntou só por perguntar.

Ele estendeu-lhe um cartão-de-visita cheio de letras douradas.

- Pensão Bombaim, ao seu dispor - respondeu com banha de cobra a enfeitar cada uma das suas palavras.

O senhor engenheiro segurou o cartão-de-visita com a ponta dos dedos e dirigiu-se para a praça de táxis. O carregador, impaciente, salivava gorjeta nas suas pegadas.

- Isto chega? - perguntou ao mesmo tempo que lhe estendia uma nota novinha em folha.

- Sempre ao seu serviço, patrão - agradeceu o carregador à medida que endireitava as costas maltratadas pelo peso das bagagens.

O senhor engenheiro apanhou o primeiro táxi que se encontrava em fila de espera. Quando o motorista lhe perguntou em voz alta pelo destino da corrida, ele apenas respondeu:

- Praça da Alegria, por favor.

in Araújo Jorge e Pereira, Pedro Sousa – Paralelo 75 ou O segredo de um coração traído – Oficina do Livro – Cruz Quebrada 2006
12 comentários
Comentários
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Maria João De Sousa Partilho daqui mesmo, Victor Barroso Nogueira, obrigada!
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Maria José Pracana · 3 amigos em comum
Qe maravilha ...*******************
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Maria Rodrigues Obrigada Victor pela partilha, maravilhoso, adorei    
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Maria Lisete Almeida Bem haja pela partilha Amigo Victor Nogueira. Abraço. 
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Viriato F. Soares Obrigado Victor pela tua partilha, um grande abraço!
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Milu Vizinho Bem hajas pela partilha camarada Victor Nogueira. Adorei    
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Deolinda Figueiredo Mesquita Muito obrigada, Victor 
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Filipa Calado Obrigada Victor
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