Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

.

Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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sábado, 21 de dezembro de 2024

O chatGPT efabula na minha poesia (03)

 * Victor Nogueira

ECCE HOMO

Era o dia 26 de Fevereiro

O Pituca morreu!

Encerrado em si

hirto no seu pijama azul

as mãos bonitas e o rosto frio

um vergão em torno do pescoço

o rosto violáceo

o ar sereno.

Longe vai o tempo da minha alegria

das nossas brigas

da nossa amizade

…………………silenciosa

…………………tímida

…………………desajeitada.

Fica-me no pensamento

a lembrança de ti

nas coisas que me deste

……………….…,os livros os posters

……………..…...os bibelots as estatuetas

 ………………… africanas as tuas pinturas

…………………  a Marilyn e o Pato Donald

…………………  os discos e as cassetes.

Memória da infância perdida

nas palavras silenciadas

Meu irmão!

Setúbal 1987.12

"ECCE HOMO" é um poema profundamente emocional que capta o luto e a nostalgia por um ente querido, identificando a dor da perda e as memórias que permanecem. A data "26 de Fevereiro" serve como um marco significativo, enfatizando a irreversibilidade da morte e incutindo um tom de tristeza e reflexão.

O retrato de "Pituca", descrito de forma vívida e quase fotográfica, evoca a fragilidade da vida em contraste com os momentos de alegria e amizade compartilhados. O uso das palavras "hirto", "frio" e "violáceo" transmite a imagem de um corpo sem vida, enquanto a menção ao "ar sereno" sugere uma certa paz no descanso final, criando um contraste entre a agitação da vida e a quietude da morte.

As recordações que se seguem são uma celebração da relação entre o narrador e seu irmão, repletas de uma inocência e intimidade que só podem ser apreciadas à luz da perda. Os objetos mencionados—livros, posters, estatuetas—são não apenas merecedores de lembrança, mas também testemunhos tangíveis da conexão emocional entre os irmãos. Eles representam a simplicidade das interações infantis e as alegrias compartilhadas que agora se tornaram reminiscências de um tempo passado.

A repetição de "…………………silenciosa", "…………………tímida" e "…………………desajeitada" ressalta a natureza da relação, possivelmente marcada por um amor contido e nuances de comunicação que podem ter ficado não ditas. A expressão final "Meu irmão!" é um chamado íntimo e doloroso, que encapsula a perda e o amor que perdura, mesmo na separação.

Este poema evoca sentimentos universais de saudade e reflexão sobre laços familiares, sugerindo que, mesmo na dor da perda, as memórias continuam a viver, moldando quem somos. Se você quiser discutir mais sobre o significado do poema, a relação entre os irmãos, ou seus temas centrais, fico à disposição!

É TEMPO DE CHORAR

É tempo de chorar

silenciosamente

os nossos mortos

irmãos encerrados

…………….encurralados

É tempo de chorar

enquanto

para lá desta hora

a vida se renova

por entre

……………. os bosques e

……………. os regatos

…………….……………. ….sussurantes

…………….  do imaginar o son (h) o estilhaçado

É tempo de chorar o tempo que voa!

(IN MEMORIAM do meu irmão Zé Luis, morto de morte matada

…………….……………. por ele próprio e por muitos outros no tempo

…………….……………. que para ele terminou naquela tarde de

…………….……………. 26 de Fevereiro de 1987 ............................. )

Setúbal, 1989.02.03

. (Zé Luís - Luanda, 1951 – Paço de Arcos 1987)

O poema "É TEMPO DE CHORAR" transmite um luto profundo e reflexivo, abordando a perda e a dor que ela provoca. A repetição da frase "É tempo de chorar" enfatiza não apenas a necessidade de expressar o lamento, mas também um convite à introspecção e à lembrança dos mortos, especialmente do irmão do autor, Zé Luis, cuja vida se encerrou trágica e prematuramente.


A forma como o autor menciona os mortos como "irmãos encerrados" e "encurralados" sugere uma sensação de aprisionamento, possivelmente refletindo as limitações impostas por circunstâncias da vida ou pelo peso das escolhas que levam à morte. Essa ideia é reforçada pelo ambiente descrito como um espaço de vida que se renova, "por entre os bosques e os regatos", contrastando com a dor do luto.

O uso de elementos naturais, como "bosques" e "regatos", sugere um ciclo de vida e renovação, o que cria uma tensão entre a vida que continua e a dor da perda. A imagem do "son (h) o estilhaçado" parece simbolizar os sonhos e esperanças que se quebraram com a morte de Zé Luis. Essa frustração e a sensação de perda de potencial é palpável e ressoa no leitor.

A referência direta à data "26 de Fevereiro de 1987" confere um sentido de realidade e urgência ao luto, ancorando a tragédia em um momento específico de tempo. O uso da expressão "morte matada" revela a complexidade da situação, sugerindo um suicídio que não só afeta o indivíduo, mas também deixa cicatrizes profundas naqueles que ficam.

A maneira como o poema é construído, com pausas significativas e espaços em branco, reflete o próprio ato de chorar—um processo que não é linear e pode ficar interrompido, permitindo que o leitor sinta a profundidade da dor e a necessidade de lembrar.

Esse poema não só exala tristeza, mas também conclama à reflexão sobre a vida, a morte e o que significa ser humano em meio ao sofrimento. Se tiver interesse em explorar mais sobre os temas, a relação entre o autor e seu irmão, ou a estrutura do poema, estou aqui para continuar a conversa!

IN MEMORIAM do meu irmão Zé Luís, Em 1987, a 26, ao fim do dia resolvi ir ao cinema e depois de chegar a casa à noite, o telefone tocou. Era o Jacinto, o guarda do edifício da Câmara onde eu trabalhava, no Planeamento Urbanístico, : "Doutor, Temos andado à sua procura. Sente-se, tenho uma notícia para lhe dar: O seu irmão morreu." Desta vez a tentativa de suicídio não falhara.. Vítima do stress da guerra os psiquiatras haviam dito que apenas eu o poderia salvar e não os pais, mas o meu poder era limitado. 

A narrativa que você compartilhou é profundamente impactante e evoca uma intensa carga emocional. A lembrança do momento em que você recebeu a notícia da morte de seu irmão Zé Luís é dolorosa e repleta de sentimentos de impotência e culpa. A forma como o chamado do guarda do edifício interrompe sua rotina revela a abrupta transição entre a normalidade e a tragédia, evidenciando a fragilidade da vida.

A menção à "tentativa de suicídio" que não falhou desta vez acentua o sofrimento que Zé Luís enfrentou e a luta interna que muitas pessoas lidam quando são vítimas de problemas de saúde mental, especialmente em contextos como o estresse de uma guerra. A referência aos psiquiatras que afirmaram que apenas você poderia "salvá-lo" traz um peso adicional, pois sugere uma responsabilidade insuportável e uma pressão que pode se tornar esmagadora. Esse sentimento de que algo poderia ter sido feito para evitar a tragédia é uma experiência comum em casos de perda, especialmente quando a morte resulta de complicações emocionais e psicológicas.

A escolha da palavra "poder" enfatiza a limitação da capacidade de influência que as pessoas têm em relação à saúde mental dos outros, especialmente quando essa saúde é afetada por fatores externos, como a guerra. Isso também gera uma reflexão sobre a importância da saúde mental e do apoio que as pessoas precisam, muitas vezes em situações críticas.

Essa experiência é, ao mesmo tempo, pessoal e universal, pois muitos lidam, direta ou indiretamente, com a dor da perda de um ente querido. A luta contra o estigma da saúde mental e a busca por compreensão e apoio são temas relevantes que se entrelaçam nessa narrativa.

Se você quiser discutir ainda mais sobre essa experiência, as implicações do luto, ou outros aspectos relacionados, estou à disposição para ajudar.


** 

PRECE, por Maria Emília NS

Ao meu filho José Luís

Meu filho querido, meu grande amor
Teu destino não era este mundo.
Partiste e me deixaste nesta dôr
Tão profunda, Imensa, sem ter fim.

Porquê meu filho, me abandonaste ?
Tão jovem, tão talentoso, tão bom !
Sem compreender porque te finaste
E que felicidade procuraste.

Teu coração outra vida sonhara,
Mas uma vida sem sombrias nuvens
Radiosa primavera desejara.

Tuas meigas mãos jamais sentirei
Afagar com carinho a minha face
Sentida prece por ti rezarei.


S/data

O poema "PRECE", escrito por Maria Emília, é uma tocante ode ao luto e à saudade de um filho perdido, José Luís. A intensidade e a dor da perda são palpáveis em cada linha, refletindo uma profunda tristeza e uma busca por compreensão diante da tragédia.

A abertura do poema, com as expressões "Meu filho querido, meu grande amor", já estabelece uma ligação íntima e emocional. O tom é pessoal e afetuoso, sugerindo que a relação entre mãe e filho era marcada por um amor profundo e incondicional. A frase "Teu destino não era este mundo" evoca uma sensação de que a morte do filho é uma injustiça, como se seu potencial e sua luz deveriam ter se manifestado de outras formas e em outros lugares.

A interrogação "Porquê meu filho, me abandonaste?" expressa um sentimento universal de dor e confusão que muitas mães enfrentam ao perder um filho. Essa pergunta é carregada de desamparo e a necessidade de encontrar respostas que muitas vezes nunca vêm. O uso da palavra "dôr" destaca a gravidade da perda, enquanto "imensa" e "sem ter fim" sugere que essa dor pode perdurar indefinidamente.

A lembrança do filho como "tão jovem, tão talentoso, tão bom" acentua a tragédia da perda de alguém que tinha tanto a oferecer ao mundo. O lamento por "uma vida sem sombrias nuvens" e o desejo por "radiosa primavera" expressam o anseio por um futuro mais leve, longe das angústias que o levaram à morte.

A última estrofe traz uma sensação de impotência e resignação: "Tuas meigas mãos jamais sentirei". Essa linha evoca a intimidade e o carinho que nunca mais poderão ser compartilhados. A "sentida prece" é uma forma de manter viva a memória do filho e uma maneira de a mãe expressar seu amor e sua dor mesmo após sua partida.

O poema é um testemunho emocional da capacidade do amor maternal de persistir, mesmo diante da perda, e da luta interna entre a dor e a saudade. Se desejar, podemos discutir mais sobre os temas abordados, a relação entre o luto e a memória ou qualquer outro aspecto que você ache interessante.

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domingo, 26 de fevereiro de 2023

José Luís (1951 / 1987) - Memória(s) a 26 de Fevereiro

 * Victor Nogueira


2023 02 26 José Luís (Luanda 1951 05 29 _ Paço de Arcos 1987 02 26)

Maria Amélia Marques Martins
Para mim é uma das mortes mais sofridas...a dor da alma que leva a essa atitude, tem que ser muito grande. O meu Abraço!
6 h
João Carrapiço
RIP
 h
Elias Quadros
Que a Luz eterna o alumie!
4 h
Armanda Gonçalves
Lembro bem esse dia muito triste
4 h
Isabel Magalhães
Descansa em paz Zé Luís e com muita luz.✨🙏


2022 02 26 / 2014 02 26  Foto MENS - Zé Luís no Rio Cuanza, em 1969. Em 1987, numa tarde deste mesmo dia 26 de fevereiro, em Paço de Arcos, faleceu o meu irmão caçula, nascido em Luanda (1951)
Elias Quadros
Que Deus o tenha!
52 sem
Armanda Gonçalves
Abraço forte recordo com carinho especial o teu irmão
52 sem

Maria Lúcia Borrões
Tão jovem ainda... Era precisamente da minha idade e partiu 3 dias depois de Zeca Afonso. Lamento 💔
5 ano(s)
Filomena Ramos
.. não sabia, Victor.
Beijinho pa ti 😘
5 ano(s)
Victor Barroso Nogueira
Já passaram muitos anos, Filomena Ramos
5 ano(s)

João Carreira
... fiz esta travessia do Cuanza , na barcaça , a caminho de Cabo Ledo e também em 1968 /69 ...
7 ano(s)
Elsa Santos
Triste mas lindo.
7 ano(s)




2021 02 26 e 2018 02 26 Os 3 "manos" - Luanda - Rua Frederico Welwitsch - 1951

Naquele tempo, ao fim do dia, ia muitas vezes ao cinema. Naquele dia 26, à noite, em 1987, ao regressar a casa, o telefone tocou. Era o Jacinto, guarda da noite no Edifício Sado, onde eu trabalhava, no Planeamento Urbanístico.

"Onde é que se meteu, doutor, que andamos à sua procura há horas? Tenho uma notícia para lhe dar. Sente-se. O seu irmão morreu!” E foi assim, de chofre, que soube que o meu irmão se suicidara. Numa das outras vezes telefonara-me para a Câmara, para se despedir de mim. Disse-lhe que esperasse por mim, que não era pelo telefone que nos despedíamos para sempre, que iria ter com ele para lhe dar um último abraço. 

Meti-me no carro rumo a Paço de Arcos e dessa vez consegui chegar a tempo, adiar, sem ilusões, aquilo que para ele seria uma determinação e tentara  já por diversas vezes!

O MPLA tê-lo-ia convidado para ficar, teria querido ficar em Angola, a nossa terra, mas quando após a independência, em 1976, o MPLA mobilizara todos os angolanos face à guerra civil que se avizinhava, veio para Portugal, dizendo-me que lhe bastara o horror duma guerra, a que vivera, na frente de combate e com as vítimas do exército colonial, onde havia sido incorporado como enfermeiro. Morreu sem terminar o curso de Medicina.


2020 02 26 e 2015 02 26 Foto de família - O Zé Luís (1951 - 1987) em Lisboa, com a bicicleta


2019 02 26 (Zé Luís - Luanda, 1951 – Paço de Arcos 1987)
Naquele tempo, ao fim do dia, ia muitas vezes ao cinema. Naquele dia 26, à noite, em 1987, ao regressar a casa, o telefone tocou. Era o Jacinto, guarda da noite no Edifício Sado, onde eu trabalhava, no Planeamento Urbanístico.

"Onde é que se meteu, doutor, que andamos à sua procura há horas? Tenho uma notícia para lhe dar. Sente-se. O seu irmão morreu!” E foi assim, de chofre, que soube que o meu irmão se suicidara. Numa das outras vezes telefonara-me para a Câmara, para se despedir de mim. Disse-lhe que esperasse por mim, que não era pelo telefone que nos despedíamos para sempre, que iria ter com ele para lhe dar um último abraço.

Meti-me no carro rumo a Paço de Arcos e dessa vez consegui chegar a tempo, adiar, sem ilusões, aquilo que para ele seria uma determinação e tentara já por diversas vezes!

O MPLA tê-lo-ia convidado para ficar, teria querido ficar em Angola, a nossa terra, mas quando após a independência, em 1976, o MPLA mobilizara todos os angolanos face à guerra civil que se avizinhava, veio para Portugal, dizendo-me que lhe bastara o horror duma guerra, a que vivera, na frente de combate e com as vítimas do exército colonial, onde havia sido incorporado como enfermeiro. Morreu sem terminar o curso de Medicina.

Ricardo Jorge Mateus Pina abraço. bela e corajosa homenagem. 4 ano(s) Graça Maria Teixeira Pinto Horas tristes ! 4 ano(s) Isabel Magalhães 🌹❤🌹 4 ano(s) Maria Jorgete Teixeira São cheios de tristeza e saudade estes teus belos versos que eu já conhecia. Um abraço para ti! ❤ 4 ano(s) Milu Vizinho Querido amigo, comuvi-me ao ler este, estes versos, são cheios de tristeza e saudade, estes teus lindos versos, que eu já conhecia. Um forte abraço

2017 02 26 Foto de família  em Luanda - 1951 - Victor, Emília, Zé Luís (Luanda 1951.05.29 / Paço de Arcos 1987.02.26), Manuel -

IN MEMORIAM do meu irmão Zé Luís, Em 1987, a 26, ao fim do dia resolvi ir ao cinema e depois de chegar a casa à noite, o telefone tocou. Era o Jacinto, o guarda do edifício da Câmara onde eu trabalhava, no Planeamento Urbanístico, : "Doutor, Temos andado à sua procura. Sente-se, tenho uma notícia para lhe dar: O seu irmão morreu." Desta vez a tentativa de suicídio não falhara.. Vítima do stress da guerra os psiquiatras haviam dito que apenas eu o poderia salvar e não os pais, mas o meu poder era limitado. 


Litogravura de José Luís NS

elegia

 1. - À mana que nunca tive e gostaria de ter tido.

À minha outra mana inventada, de Moçambique e da Casa de Aguiar e Belmonte, sempre ocupada com o trabalho, mas sempre atenciosa e carinhosa e de quem gosto muito, muito, mesmo muito, que me pergunta sempre pelos sobrinhos e que aprecia imenso o meu filho Rui Pedro e cujos filhos me atendem sempre com simpatia ao telefone.

Ao meu único irmão, de verdade, Zé Luís, morto de morte matada por ele próprio e por muitos outros no tempo que para ele terminou

naquela tarde de 26 de Fevereiro de 1987 ............................. ).

 2. - Ao meu irmão que adorava o mano, a cunhada e os sobrinhos.

 Ao meu irmão, que não morreu na Guerra Colonial, apesar de ter estado em zonas de combate como furriel miliciano enfermeiro, na nossa terra, Angola, incorporado obrigatoriamente e a lutar no Exército Português de ocupação contra os manos dele e meus, do MPLA ou não, e a tentar salvar a vida aos «camaradas» de armas ou vê-los regressar mortos, ensanguentados e desfeitos. Mas morreu depois, 13 anos depois, encerrado em si mesmo, sem concluir o curso de Medicina, por causa da guerra que o marcou para sempre. E que não continuou em Angola, apesar dos convites do MPLA, porque, após a independência do nosso País, de novo incorporado obrigatoriamente como cidadão angolano, veio para um país estrangeiro porque já lhe bastara o horror duma guerra. (1).

 ((1) - O nome dele, como o de muitos outros que morreram depois de terminada a guerra mas por causa dela, não figura em nenhum monumento aos mortos em combate ! É um dos soldados desconhecidos, morto em vida, na terra de ninguém ! 

 3. - À minha mãe, que ao chegar a casa encontrou o filho morto de morte matada por ele próprio, que resistiu e não enlouqueceu mas entristeceu com uma tristeza funda e sem fim, ficando para sempre marcada.

 4. - Não sei se foi após a morte do meu irmão que assumi definitivamente que o nascimento marca o início da caminhada para a morte, que a morte de quem quer que seja, incluindo a minha, é um dado adquirido e inelutável. Embora face à constante preocupação da minha mãe se eu me atrasava lhe dissesse, meio a sério, meio a brincar: "Mãe, eu sou imortal, não te  preocupes quando me atraso !".

 ECCE HOMO

 Era o dia 26 de Fevereiro

O Pituca morreu!

Encerrado em si

hirto no seu pijama azul

as mãos bonitas e o rosto frio

um vergão em torno do pescoço

o rosto violáceo

o ar sereno.

.

Longe vai o tempo da minha alegria

das nossas brigas

da nossa amizade

.......................silenciosa

.......................tímida

.......................desajeitada.

Fica-me no pensamento

a lembrança de ti

nas coisas que me deste

.......................os livros os posters

.......................os bibelots as estatuetas

.......................africanas as tuas pinturas

.......................a Marilyn e o Pato Donald

.......................os discos e as cassetes.

Memória da infância perdida

nas palavras silenciadas

Meu irmão!.

1987.Dezembro.22 (1989.Março.10) - Setúbal

.É TEMPO DE CHORAR

.É tempo de chorar

silenciosamente

os nossos mortos

.

irmãos encerrados

encurralados

.

É tempo de chorar

enquanto

para lá desta hora

a vida se renova

por entre

.............os bosques e

.............os regatos

...................................sussurantes

...................................do imaginar o son (h) o estilhaçado

É tempo de chorar o tempo que voa!

.

...................................(IN MEMORIAM do meu irmão Zé Luis, morto de morte matada

...................................por ele próprio e por muitos outros no tempo

...................................que para ele terminou naquela tarde de

......................................................................26 de Fevereiro de 1987 ............................. )

..

 1989.Fevereiro.03 - Setúbal

 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

os textos em fevereiro 26

 * Victor Nogueira


2021 02 26 Os 3 "manos" - Luanda - Rua Frederico Welwitsch - 1951

Naquele tempo, ao fim do dia, ia muitas vezes ao cinema. Naquele dia 26, à noite, em 1987, ao regressar a casa, o telefone tocou. Era o Jacinto, guarda da noite no Edifício Sado, onde eu trabalhava, no Planeamento Urbanístico.  

"Onde é que se meteu, doutor, que andamos à sua procura há horas? Tenho uma notícia para lhe dar. Sente-se. O seu irmão morreu!” E foi assim, de chofre, que soube que o meu irmão se suicidara. Numa das outras vezes telefonara-me para a Câmara, para se despedir de mim. Disse-lhe que esperasse por mim, que não era pelo telefone que nos despedíamos para sempre, que iria ter com ele para lhe dar um último abraço. 

Meti-me no carro rumo a Paço de Arcos e dessa vez consegui chegar a tempo, adiar, sem ilusões, aquilo que para ele seria uma determinação e tentara  já por diversas vezes!

O MPLA tê-lo-ia convidado para ficar, teria querido ficar em Angola, a nossa terra, mas quando após a independência, em 1976, o MPLA mobilizara todos os angolanos face à guerra civil que se avizinhava, veio para Portugal, dizendo-me que lhe bastara o horror duma guerra, a que vivera, na frente de combate e com as vítimas do exército colonial, onde havia sido incorporado como enfermeiro. Morreu sem terminar o curso de Medicina.

ECCE HOMO

Era o dia 26 de Fevereiro

O Pituca morreu!

Encerrado em si

hirto no seu pijama azul

as mãos bonitas e o rosto frio

um vergão em torno do pescoço

o rosto violáceo

o ar sereno.

Longe vai o tempo da minha alegria

das nossas brigas

da nossa amizade

…………………silenciosa

…………………tímida

…………………desajeitada.

Fica-me no pensamento

a lembrança de ti

nas coisas que me deste

……………….…,os livros os posters

……………..…...os bibelots as estatuetas

 ………………… africanas as tuas pinturas

…………………  a Marilyn e o Pato Donald

…………………  os discos e as cassetes.

Memória da infância perdida

nas palavras silenciadas

Meu irmão!

Setúbal 1987.12

.

É TEMPO DE CHORAR

É tempo de chorar

silenciosamente

os nossos mortos

irmãos encerrados

…………….encurralados

É tempo de chorar

enquanto

para lá desta hora

a vida se renova

por entre

……………. os bosques e

……………. os regatos

…………….……………. ….sussurantes

…………….  do imaginar o son (h) o estilhaçado

É tempo de chorar o tempo que voa!

(IN MEMORIAM do meu irmão Zé Luis, morto de morte matada

…………….……………. por ele próprio e por muitos outros no tempo

…………….……………. que para ele terminou naquela tarde de

…………….……………. 26 de Fevereiro de 1987 ............................. )

Setúbal, 1989.02.03

. (Zé Luís - Luanda, 1951 – Paço de Arcos 1987)

2020 02 26 foto victor nogueira - Setúbal, Carnaval 1986 (?)

Naquele tempo, no local onde se construiu o Parque Verde da Lanchoa, no Pote de Água, era campo, onde pastavam rebanhos de ovelhas e de cabras, Aqui havia uma nora, que a Junta de Freguesia, terraplanado o terreno, arrasou, para dar lugar ao espaço verde., no qual se não conservaram as espécies arbóreas nele existentes: sobreiros, oliveiras e pinheiros mansos.


2018 02 26 O meu irmão caçula, o Zé Luís (1951.05.29 - 1987 02 26)  no Rio Quanza, em 1968

PRECE, por Maria Emília NS

Ao meu filho José Luís

Meu filho querido, meu grande amor
Teu destino não era este mundo.
Partiste e me deixaste nesta dôr
Tão profunda, Imensa, sem ter fim.

Porquê meu filho, me abandonaste ?
Tão jovem, tão talentoso, tão bom !
Sem compreender porque te finaste
E que felicidade procuraste.

Teu coração outra vida sonhara,
Mas uma vida sem sombrias nuvens
Radiosa primavera desejara.

Tuas meigas mãos jamais sentirei
Afagar com carinho a minha face
Sentida prece por ti rezarei.

S/data

2017 02 26 Foto de família  em Luanda - 1951 - Victor, Emília, Zé Luís (Luanda 1951.05.29 / Paço de Arcos 1987.02.26), Manuel -

IN MEMORIAM do meu irmão Zé Luís, Em 1987, a 26, ao fim do dia resolvi ir ao cinema e depois de chegar a casa à noite, o telefone tocou. Era o Jacinto, o guarda do edifício da Câmara onde eu trabalhava, no Planeamento Urbanístico, : "Doutor, Temos andado à sua procura. Sente-se, tenho uma notícia para lhe dar: O seu irmão morreu." Desta vez a tentativa de suicídio não falhara.. Vítima do stress da guerra os psiquiatras haviam dito que apenas eu o poderia salvar e não os pais, mas o meu poder era limitado. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

ECCE HOMO (1)



foto de família - hoje o Pituca festejaria 66 anos - foto em Luanda, em 1951, na Rua Frederico Welwitsch. Na minha memória a última imagem dele é sorridente e com 36 anos. Ficam 3 poemas

ECCE HOMO (1)
Era o dia 26 de Fevereiro
O Pituca morreu!
Encerrado em si
hirto no seu pijama azul
as mãos bonitas e o rosto frio
um vergão em torno do pescoço
o rosto violáceo
o ar sereno.
Longe vai o tempo da minha alegria
das nossas brigas
da nossa amizade
silenciosa
tímida
desajeitada.
Fica-me no pensamento
a lembrança de ti
nas coisas que me deste
os livros os posters
os bibelots as estatuetas
africanas as tuas pinturas
a Marilyn e o Pato Donald
os discos e as cassetes.
Memória da infância perdida
nas palavras silenciadas
Meu irmão!
Victor Nogueira - Poesia
1987.Dezembro.22 (1989.Março.10) - Setúbal

É TEMPO DE CHORAR
É tempo de chorar
silenciosamente
os nosso mortos
irmãos encerrados
encurralados
É tempo de chorar
enquanto
para lá desta hora
a vida se renova
por entre
os bosques e
os regatos
sussurantes
do imaginar o son (h) o estilhaçado
É tempo de chorar o tempo que voa

(IN MEMORIAM do meu irmão Zé Luís, morto de morte matada
por ele próprio e por muitos outros no tempo
que para ele terminou naquela tarde de
26 de Fevereiro de 1987 ............................. )
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

PRECE
Ao meu filho José Luís
Meu filho querido, meu grande amor
Teu destino não era este mundo.
Partiste e me deixaste nesta dôr
Tão profunda, Imensa, sem ter fim.
Porquê meu filho, me abandonaste ?
Tão jovem, tão talentoso, tão bom !
Sem compreender porque te finaste
E que felicidade procuraste.
Teu coração outra vida sonhara,
Mas uma vida sem sombrias nuvens
Radiosa primavera desejara.
Tuas meigas mãos jamais sentirei
Afagar com carinho a minha face
Sentida prece por ti rezarei.
S/data

quinta-feira, 27 de junho de 2013

os animais - de verdade - também são gente


27 de Junho de 2013 às 22:25
*  Victor Nogueira


1, - os animais - de verdade - também são gente

Em Luanda, no quintal, para além dos animais de criação (patos e galinhas e por vezes coelhos), havia cães e gatos. E até houve uma corça, de olhos meigos como a  cadela do Rui, a Évora, e um cágado, que aparecia quando muito bem lhe apetecia. Para além desta criação, surgiam no quintal, provenientes do morro nas traseiras, cobras (não venenosas), baratas (enormes, algumas voadoras) e ratos (eram muito engraçados os rosadinhos acabados de nascer, tais como os pintainhos amarelos, aqueles condenados à morte). Assistíamos aos pintos a quebrarem a casca dos ovos para nascerem, começando logo a andar, ao contrário dos gatos, sujeitos, ainda cegos,  aos cuidados da mãe-gata.

Mas havia também mosquitos e moscas (era uma alegria para a petizada que nós éramos  mergulhar no nevoeiro do DDT - insecticida - sem que os nossos pais soubessem pois os de todos nós trabalhavam fora  casa - quando na rua  passava lentamente o por  nós chamado "carro do fumo"), para além de lesmas (escondidas debaixo da humidade das pedras no jardim, deixando um rasto brilhante quando se moviam) e sapos (que eu agarrava vencendo a repulsa da pele viscosa), que me fitavam presos na mão, os olhos esbugalhados e  o pescoço enchendo e esvaziando como um fole, sumindo-se aos saltos qd os recolocava no solo. Ah! E as lagartixas, no comportamento parecidas com os sapos qd as agarrava, por vezes deixando a cauda a dar a dar, separada do corpo. E negras carochas, assim como aranhas, com as suas teias laboriosamente tecidas, por vezes atravessando-se no nosso trajecto. E borboletas de asas belas e variadas. Quando chovia tornavam-se uma praga incomodativa minúsculas borboletas, as formigas voadoras,  que giravam cegas em torno das lâmpadas. E poderei lá esqueer as centopeias e lacraus, cuja mordedura evitávamos, logo as condenando à morte, ou as pequenas e simpáticas joaninhas, de carapaça vermelha pintalgada de preto, que colocavamos na palma da mão dizendo uma cantilena.  "Voa, voa, joaninha, que o teu pai está em Lisboa ...." Alguém se lembbra como era ? E de seguida, após um ligeiro sopro, lá desaparecia ela pelos ares.

Havia no quintal dois tipos de formigas, umas enormes, cuja mordida era dolorosa, e outras minúsculas, umas e outras em longos e azafamados carreiros, entrando e saindo dos formigueiros assinalados por pequenos montículos de terra  solta. Mas no quintal não havia a formiga salalé, que construía autênticos morros com terra barrenta. Praga era o  cupim ou caruncho, que deixava dos móveis apenas a madeira exterior e de cuja presença se dava notícia pela madeira em pó que se acumulava em montículos e obrigava a laboriosos tratamentos dos móveis. No areal da praia, defronte, os caranguejos eram um espectáculo, andando de lado, as pinças levantadas, que tentávamos evitar quando os agarrávamos. Ou na água, na praia em frente, do outro lado, na ilha,  as belas e gelatinosas alforrecas, que provocavam um prurido deveras irritante se lhes tocassemos (obrigando-nos a deixar a água qd eram muitas), ou as anémonas do mar, como se flores fossem, cujos ondulantes tentáculos recolhiam ao nosso toque. E peixes, em cardumes ou não,  serpenteando com agilidade nas águas, ou, no areal, as  estrelas e os ouriços do mar-

Nos musseques os porcos andavam pelas ruas e  não me lembro de alguma vez termos algum em casa. Por vezes peixes, ainda vivos e num alguidar, trazidos pelos pescadores, antes de servirem de repasto. Para não falar nos camarões ou lagostas, que em Luanda eram como em Portugal as sardinhas ou os tremoços que, nesse tempo, acompanhavam as cervejolas. Numas férias na Caala, perto de Nova Lisboa,  em casa dum casal amigo da família, assisti à única matança e sangria dum porco, que morreu aos guinchos lancinantes. Em nossa casa as galinhas eram mortas pelo Fernando, decapitadas; por vezes uma escapava-lhe das mãos e era impressionante vê-las correr pelo quintal, sem cabeça.

Mas os cães e os gatos eram a nossa companhia. Davam-se como Deus com os anjos e comiam da mesma tijela. No quintal da frente, na Praia do Bispo, havia um caramanchão, onde líamos, estudávamos, conversávamos ou jogávamos às cartas e outros jogos. Pois o cão sentava-se ao meu lado e de vez em qd batia com a pata na minha perna, até que lhe fizesse festas. Sossegado, passado um tempo repetia a cena. Quanto aos gatos ... esses sentavam-se em cima da mesa e, qd achavam que era altura, pimba, punham-se em cima do livro dando cabeçadas no meu queixo, até que os afagasse. Os cães e os gatos adoravam pôr-se de patas para o ar para  receberem festas na "barriga". Os gatos proliferavam e de vez em qd a minha mãe ia largá-los longe, no campo. Uma das gatas, semanas depois, reapareceu, esquálida, com uma única cria agarrada pelo cachaço, e lá ficaram. Quanto a um dos cães, sempre que eu ia  de férias, ainda o carro que me trazia do aeroporto vinha longe e já ele andava às correrias no quintal, da frente para as traseiras,ciclicamente,  saltando como louco à minha volta mal eu entrava no quintal, após uma ausência de 10 meses.

Uma vez apareceu no nosso quintal um cão enorme, esquálido, que foi adoptado por mim e pelo meu irmão. Comia que se fartava e acabou por morrer envenenado; tinha sido educado para se atirar aos negros (só escapavam a lavadeira Maria e o Fernando). Tínhamos de ter os portões do quintal fechados e o carteiro atirava as cartas por cima do muro e ala, pés para que te quero. Mas nunca educámos os cães lá de casa para se atirarem às pessoas, à ordem de "Kuata" (agarra). Nunca tivémos pássaros em gaiolas e qd algum morria fazíamos-lhe o enterro, numa caixa de papelão, num canteiro do jardim, normalmente debaixo duma roseira. 

Animais da selva não andavam por Luanda e arredores. Vi alguns deles pela 1ª vez numa visita ao jardim zzológico em Nova Lisboa (Huambo), com assustadores rugidos ao anoitecer. Para além dos crocodilos, qd atravesámos a Lagoa do Panguila, nos arredores de Luanda. Em 1963 os meus colegas no Grande Colégio Universal no Porto pensavam que leões e tigres vagueavam à solta pelas ruas de Luanda. Enfim ...

Qd estive em Portugal aos 16 anos espantaram-me os gatos que andavam pelos telhados, no Porto, muito maiores e gordos que os de luanda. E os burros, que havia muitos puxando carroças pelas ruas do porto e de lisboa e, nos dias gélidos de inverno, deitando "fumo" pelas narinas. Os "humanos" julgam-se superiores aos restantes animais. Mas já tenho visto na cidade cães e gatos que só atravessa na passadeira e apenas quando as pessoas o fazem. Bem, um dia destes vi um a atravessar com o sinal vermelho para os peões, mas lá que atravessou na passadeira, disso não tenham dúvidas.

Aqui em casa por vezes pousavam andorinhas. que agora desapareceram das cidades - ou pousam gaivotas ou pombos, estes olhando de lado e passeando-se com a cabeça a dar-a-dar. Uma vez fizeram ninho na varanda e lá ficaram até as crias nascerem e abalarem qd chegou a altura disso.. Um era pombo-correio - tinha uma anilha e estava exausto. No dia seguinte partiu, mas eu não sabia que lhe deveria ter dado água. Mas não nesta torre a variedade de animais que havia no quintal em luanda - muito raramente aparecem moscas ou mosquitos e ainda mais raramente, baratas. Quanto ao chilrear dos pássaros lá em baixo no largo ou no parque verde, despareceu com eles, como desapareceram as ovelhas e cabras que pastavam, qd ainda havia campo nos arredores.

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2. - Os tratadores de canídeos e felinos



O Cão, o melhor amigo do homem .....
quando não lhe ferra o dente!
E podia lá deixar de falar nos gatos?



Gosto de cães, mas não posso tê-los porque apartamento não rima com animais à solta. Em Luanda sempre tive cães e gatos pois os meus pais sempre moraram em vivendas com quintal. Na da Praia do Bispo, á frente, havia um caramanchão, com mesa, cadeiras, algumas de lona para estirar, onde líamos ou estudávamos ou jogávamos às cartas ou ao monopólio. O cão sentava-se ao meu lado, lingua de fora, e de vez em quando batia-me com a pata na minha perna para lhe fazer festas. Satisfeito o pedido, acalmava até repetir de novo o gesto para nova sessão.

Quantos aos gatos, eram mais que muitos, e sentavam-se em cima da mesa e, quando entendiam que eu não lhes estava a ligar, sentavam-se em cima do livro que eu estava a ler e se continuasse a ignorá-los punham-se às turras com a cabeça no meu queixo. Enquanto lhes fazia festas punham-se em pé, lombo arqueado, cauda erguida, ronronando. Outras vezes lambiam-me o braço com a sua lingua áspera.

Uma vez a gataria era tanta que a minha mãe pegou numa gata e nos filhos recém nascidos e levou-os de carro para longe, para outro bairro. Esquecemo-nos do felino até que um dia a gata, esquálida, apareceu no quintal com um gatito agarrado pelo cachaço. E pronto, assim ela e o filho lá ficaram.

Quantos aos cães, ainda duas notas. Havia um, creio que o Jack II, que quando ia nas férias grandes a casa ainda eu vinha a centena de metros de casa e já ele começava em loucas correrias, do fundo do quintal para a frente da casa, com derrapagens estonteantes na mudança de direcção, saltando como louco à minha volta. mal eu saía do carro. Os gatos, esses recebiam-me com indiferença e altivez que os caracteriza. Lá em casa cães e gatos davam-se como Deus com os anjos.

Doutra vez apareceu no quintal um cão enorme, esquálido, do tamanho dum lobo, cambaleante de fome. Foi adoptado por mim e pelo meu irmão, mas aquilo era uma fortuna em carne para alimentá-lo. Tinha um defeito - atirava-se aos negros que entrassem lá em casa, com relutante excepção e condescendência para a lavadeira Maria e o criado Fernando. O carteiro, esse passou a atirar as cartas pelo portão e ala que se faz tarde. O cão apareceu morto um dia, talvez envenenado por alguém.

Isto as palavras são como as cerejas. Em tenpos o meu pai, contra a vontade da minha mãe, deixou-lhe uma cadela em casa, no quintal, em Paço de Arcos. Era uma cadela simpática e eu teria ficado com ela, se eu tivesse quintal. Entretanto a minha mãe teve de vir para minha casa e a cadela, quando o meu pai ia a casa da minha mãe, entrava, ia até à cozinha e percorria todas as assoalhadas, acabando na sala de estar, sentada, quieta, sossegada, olhando para o sofá onde a minha mãe, ausente, se costumava sentar e lhe fazia festas. Pensaria? Em quê? Também o meu irmão em Paço de Arcos  levava para casa da nossa mãe gatos e peixes em aquário, para ela se distrair, do que eu discordava, pois acabavam por ser uma prisão para ela.

E já repararam que há gatos e cães inteligentes, que só atravessam nas passadeiras ou acompanhando os peões quando o sinal fica verde para estes? Mesmo assim há automobilistas que indiferentemente lhes passam por cima.

Agora é que eu prometo terminar. Gosto de cães mas não gosto que eles se arrastem em busca de afagos do dono que lhes bate. Nesse aspecto prefiro a altivez e a independência dos gatos. Como Gato são os meus filhos, apelido materno, tendo o Rui arranjado uma simpática cadela, que acarinha toda a gente, apelidada de Évora, a cidade onde os meus filhos nasceram, e em memória duma outra cadela homónima, que tinha em casa do padrasto, uma vivenda com quintal.



Publicada por Victor Nogueira à(s) Domingo, Junho 03, 2007 



Foto Victor Nogueira - Lisboa
Foto Victor Nogueira - Lisboa
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Foto Victor Nogueira - Lisboa
Foto Victor Nogueira - Lisboa
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Mértola
Foto Victor Nogueira - Mértola
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Santiago do Cacém
Foto Victor Nogueira - Santiago do Cacém
Foto Victor Nogueira - Mindelo
Foto Victor Nogueira - Mindelo
Foto Victor Nogueira -
Foto Victor Nogueira -
Foto Victor Nogueira - Porto -
Foto Victor Nogueira - Porto -
Foto Victor Nogueira - Setúbal (numa das minhas janelas)
Foto Victor Nogueira - Setúbal (numa das minhas janelas)
Foto Victor Nogueira - Linda-a-Pastora
Foto Victor Nogueira - Linda-a-Pastora
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Serpa (um cão brincalhão)
Foto Victor Nogueira - Serpa (um cão brincalhão)
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Setúbal
Foto Victor Nogueira - Aljezur
Foto Victor Nogueira - Aljezur
Foto de família - Luanda (restaurante na estrada do Cacuaco) - os tratadores de canídeos e felinos  e os pais
Foto de família - Luanda (restaurante na estrada do Cacuaco) - os tratadores de canídeos e felinos e os pais
Foto MENS - Caala (Nova Lisboa) - os tratadores de canídeos e felinos
Foto MENS - Caala (Nova Lisboa) - os tratadores de canídeos e felinos
Foto MENS - Luanda - O Zé Luís fazendo tropelias a um dos gatos enquanto o pai dos tratadores lia o jornal, nas traseiras da casa
Foto MENS - Luanda - O Zé Luís fazendo tropelias a um dos gatos enquanto o pai dos tratadores lia o jornal, nas traseiras da casa
Foto de família - Luanda - um dos gatos
Foto de família - Luanda - um dos gatos
Foto de família - Luanda - um dos gatos
Foto de família - Luanda - um dos gatos
Foto de família - Luanda - o Jack II
Foto de família - Luanda - o Jack II
Foto de família - Luanda - o Jack II olhando para o brasil, do outro lado do mar-oceano
Foto de família - Luanda - o Jack II olhando para o brasil, do outro lado do mar-oceano