Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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segunda-feira, 1 de junho de 2026

No Dia da Criança (2015 e 2016)

 * Victor Nogueira

1 de junho de 2015

 


foto victor nogueira -- crianças no bairro azul da belavista, em setúbal

Nas minhas deambulações em Portugal não poucas pessoas, especialmente crianças, me pedem para fotografá-las. Na maioria dos casos dava-lhes posteriormente as cópias indo a casa delas ou enviando pelo correio.embora neste caso nunca me acusassem a  recepção. Mas havia adultos que pretendiam apenas ser fotografados, como se daquele modo ficasse o registo para a eternidade. 

Esta é uma das fotos de que gosto imenso. O olhar fixo na câmara, de expectativa, o alheamento total de tudo o resto, o gesto como que protector da miúda relativamente à criança central.

1 de junho de 2016 
Conteúdo partilhado com: Público
Uma foto e dois escritos (Évora e Alcácer do Sal) - Foto Victor Nogueira - Alcácer do Sal, Vale de Guiso, Monte da Arouca / Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís - a minha amiga Eva, aluna da Celeste, uma "mulherinha!", dizia-me, companheira de folias da Susana, nossa filha. Que é feito da Eva, da mãe (a Aciolinda), dos irmãos e dos avós (a senhora Catarina e o senhor Custódio) ?
CENAS DO JARDIM
1. Era um jardim
geometricamente desconfortável
artificial
No coreto
a banda tocava.
Além
caridosamente
alguém partilhava com os "jardineantes"
as goelas do transístor escancaradas
No banco
ao meu lado
uma matrona e uma gaiata conversam
banalmente,
"Puxa a mala um bocadinho mais para baixo.
Isso! Assim!
Para que te não vejam as pernas"
E eu sorrio-me
por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política"
Pobres e ridículas gaiatas!
Pobres e ridículas matronas!
2. Era um miúdo esfarrapado
sujo
de rosto envelhecido,
Aproxima-se do guarda, mas o dinheiro não chega.
Mas o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar.
O miúdo envelhecido corre,
Para,
Hesita!
Os olhos sorriem no rosto sujo,
Balancé? Carrocel? Escorrega? Ou avião?
Não poder ele desdobrar-se!
Corre, sobe, escorrega
o mundo é dele
Agarra-lo.
Sobe, desliza, corre, sobe, desliza
sobe; desliza, corre, sobe, desliza
contorce-se
"MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!"
As avózinhas contorcem os lábios
num rictus de desprezo
os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios.
Ele hesita.
Baloiça, baloiça, baloiça!
Roda, roda, roda,
sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre!
contorce-se, baloiça, roda
Olhos brilhantes cheios de felicidade!
Um velho num corpo de criança
pequena para a roupa suja
esfarrapada!
As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo
Os meninos, esses apedrejam com a língua
e crucificam com os lábios
Velhas envelhecidas
Garotos moribundos
e uma criança num pequeno corpo de velho!
1969.Fevereiro.24 - Évora

domingo, 31 de maio de 2026

em évoraburgomedieval - as crianças (2012)

 * Victor Nogueira

31 de maio de 2012

As crianças em évora

Fui há pouco ao cinema ver um filme de desenhos animados. "Asterix e Cleópatra", interessante mas inferior á banda desenhada. Foi um dia de festa para a petizada, nesta cidade [de Évora] onde raramente as crianças são lembradas. (NSF - 1970.05.17)

Breve história dum miúdo: o Jorge

Em 5 de Abril de 1971 escrevia eu: "Sábado fui com o Jorge ao cinema, ver um filme de desenhos animados com o Asterix. Pois bem, o miúdo pulava e ria-se, enfim, era um espectáculo. Gosto dele, só tenho pena ... que não estude.

Tem-me oferecido rebuçados, uma daquelas bolinhas de plástico que saltam muito  e até me chegou a pagar o jornal ! Há dias apareceu-nos no café [Arcada] todo eufórico. Tinha ganho algum dinheiro e então comprou um cinto com uma espada de plástico, postais, maçãs e ... um copo. Enquanto não mostrou a espada a toda a malta sua conhecida não descansou. Queria também que aceitássemos as maçãs dele e os postais.

Quem não gosta da brincadeira é a D.Vitória [Prates, minha hospedeira na Rua do Raimundo] Um novo desenho existe no meu quarto, mas esse foi oferta dum outro miúdo, o Carlos . (MCG - 1971.04.05)

Nas minhas deambulações de hoje encontrei  a Lídia e o Jorge.  Este andava à procura de dez tostões para o cinema - eu fiz que não percebi a indirecta; informou me que esteve em Beja a trabalhar no circo e à minha observação sobre a sua magreza retorquiu "É da fome que passo." (e que não está em mim remediar) (MCG - 1972.02.23)

Podia falar te do Jorge, que agora anda todo bem vestido - fato cinzento com colete e gravata - , do seu amigo Carlos - que é moço de recados no Café Arcada e maça as pessoas com os seus préstimos (as gorjetas são a sua única remuneração).

Ou do Pedro, que esteve muitos anos no Brasil, que é um tipo expansivo e bom palrador, mas que fala com sotaque brazuca para impressionar (o Jorge desmascarou o no café, com um dos seus comentários de miúdo que não está ainda dentro de certos mecanismos sociais) (...)   (MCG - 1972.11.06)

Ah! acabei por não ir ao cinema. À tarde o nosso amigo Jorge  veio-cravar me dinheiro para o "Trinitá" (MCG - 1972.12 ?)

O Jorge  apareceu ontem pelo café, depois duma longa ausência. Mais velho, já não o miúdo que conhecemos, agora com os ombros curvados, mostrando-nos os calos do trabalho de servente de pedreiro. Gosto dele, mas não encontro nem os gestos nem as palavras que lho digam.  ( MCG - 1973.06.10)

Comigo, aqui na mesa encarnada do Arcada, após o jantar, a minha mãe e o Jorge, que trabalha como ajudante de carpinteiro, vencendo uma jorna de 70 $ 00. Em Setúbal ganharia 120 $ 00, mas os pais prendem no aqui no burgo [Évora] (...)

O Camilo e o  Carlos Nunes da Ponte" não apareceram por aqui. O Jorge está aqui com uma conversa muito adulta, apesar dos seus dezasseis anos. Ele agora está atrapalhado. Por causa da minha mãe passou a tratar me por "Senhor Victor" e por "vocemecê" [abandonando o "Victor" e o "tu"] (...)

Perguntei ao Jorge  se queria escrever qualquer coisa [para ti, nesta carta], mas ele não quer, pois diz que parece mal a letra dele ao pé da minha de doutor.  (1)  (MCG - 1973.12.06)

1 - Ao arrumar papelada, encontrei um texto que ele dactilografara na minha velha Olivetti Lettera 2000: a primeira parte é um conto, escrito com piada embora com muitos erros ortográficos. É demasiado longo para esta nota de rodapé. Na segunda parte escreveu: "1. - O senhore Vitor Nogeira 'e muito meu amigo e axo que ele tambem gosta de mim | eu pelo menos gosto dele | as coizas que eo gosto de fazera! | gosto de escrever a maquina | gosto de houvir discos | gosto de ler livros | 2. - (gosto muito dos meus pais foram eles que me quriaram;" Ainda hoje me comovo com este escrito, especialmente com a segunda parte.

O Orlando, sobrinho da D. Vitória

O Diogo Guerreiro fica cá em casa. O Diogo Fialho  ainda não deu notícias. Comigo devemos ser os únicos hóspedes este  ano, que a D.Vitória  está cansada.  O quarto do sr. Marquês [e que fora do Jorge Carvalheira] agora é sala de visitas e o que foi vosso [da Celeste, da mãe e da Bia Almeida, com escadas para o terraço] é agora do sr. Prates  e do Orlando - sobrinho -  que vem estudar para Évora.  (MCG - 1972.09.22)

Isto aqui em casa são umas correrias escada acima,  escada abaixo, que nem calculas. Sim, que o amigo Orlando anda alvoroçado com a escola e um mundo novo para ele, de que me não fala mas pressinto. Os cuidados com os livros, todos bem arranjadinhos,  o ar tímido quando com ele falo! (...)

O sr. Prates já foi largando a bisca para um explicador ... À borla, pois então. Só que o coração já me caíra aos pés quando na véspera a D.Vitória  me comunicara que a minha pensão aumentara de 200 $ 00 mensais, isto é, para 1600 $ 00. [Eu pagava mais porque avisara que tmava banho e mudava de roupa diaramente.

E quer em Évora quer em Lisboa as hospedeiras ao fim de algumas semanas diziam-me que tanto banho fazia mal à pele ao que lhes retorquia que eu avisara e que o gasto estava incluído na mensalidade, pondo fim às "reclamações"] (MCG - 1972.10.04)

O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado(....) A Vicência faz exame depois de amanhã. (...)

[O Orlando] deu me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho  agora pediu me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou me revistas, separou me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)

Um Natal em Beja

Pois eu cheguei a Évora ontem à noite, cerca das 23:30, vindo de Beja, onde estive domingo e segunda, em casa dos tios do Camilo (1) e na companhia de mais dez adultos e umas catorze crianças, do recém nascido ao Pedro e à Teresa, os mais velhos com os seus treze anos. (2) Aquilo não era uma casa, era um quartel familiar ... que me "adoptou" por dois dias.

Por todas as salas não se viam senão miúdos. Domingo à tarde, horas antes da consoada, andava o Camilo ás voltas com a árvore de Natal e presépio, com a mania das perfeições e de as coisas serem como ele queria. Tenho a impressão que se não fosse o aparecimento da tia Emília, ou aquilo nem para o ano estaria pronto ou o tio Jacinto terminaria aquilo a grande velocidade, sem preocupações perfeccionistas. Sim, que afinal parecia me que o Camilo não queria nem deixava fazer, pedindo mas não aceitando as minhas sugestões.

Enfim ... Fosse eu romancista e estes dois dias teriam muito peso na minha renomeada. O mais interessante foi a tia freirinha, a irmã Maria, que se percebi bem saiu pela primeira vez em  24 anos de convento, e que tentava catequizar as crianças com umas prédicas tais que nem ouvidas! Ah!Ah!

Os miúdos é que se divertiam depois nos seus grupos, relatando e comentando as suas havidas conversas particulares, e que eu ouvi porque eles são desinibidos por educação - todos me tratavam por tu e por Victor, que é como eu gosto - e também porque não devo ter cara de polícia. Gosto de miúdos e acho que tenho um certo jeito para estar com eles.

Desta vez o João passou o tempo com o "Vitinhas", subindo lhe para o colo, fazendo lhe imensas perguntas ou mostrando os brinquedos e o modo como funcionavam, brinquedos que, na sua maioria, ao fim do 2º dia já andavam muito combalidos. Entretive me com um automóvel electrificado, com comando à distância, o que permitia manobrá-lo em todas as direcções. (MCG - 1972 NATAL)

1.- Em não poucos fins de semana eu, o Camilo e  o Carlos Nunes da ponte marchávamos para Beringel

2 .- Estes tios do Camilo eram os Brito Lança - ele médico - e tinham uma casa em Beringel, a poucos quilómetros de Beja. Do terraço da casa da quinta avistei pela primeira vez o espectáculo deslumbrante que foi contemplar o céu coberto de estrelas, sem a interferências das luzes da cidade a que estava habituado e que as escondiam.

Uma boa vida

Ali duas velhotas discutem as vantagens de ser criada de servir: ganham bem, vestem os vestidos da senhora, não gastam nada. Uma vida de fidalgas. (MCG - 1974.12.10)

Contraponto - A vida das "fidalgas"

Temos [em casa da D. Vitória] uma criada nova, a Ricardina,  míope e vestida de preto, com um ar submisso e tímido. O que não a impediu de pedir-me um casaco velho para o pai. Não, foi a resposta. (1)   (MCG - 1973.03.30)

1 - Não percebo nem me lembro da razão desta minha secura, que hoje me incomoda ao lê-la.

[Os meus padrinhos em Lisboa] exigiam naturalmente  que a criada Maria Guerreiro, vivendo no quarto de «arrumos» (1), estivesse de serviço permanente e desperta para recebê-los fosse a que horas regressassem de madrugada e que estivesse de manhã cedinho a pé para servir-nos o pequeno-almoço, na casa onde havia sempre um quarto para mim, aparecesse eu quando aparecesse. Por outro lado os negócios em Lisboa e de armamento em Luanda permitiam  ao meu padrinho duplas virtudes e privados defeitos,

.(1) - Este quarto de «arrumos» existia normalmente anexo à cozinha, quer nas vivendas de Alvalade ou dos andares das Avenidas Novas em Lisboa, quer nos «andores» então «finos» do Bairro do Liceu, em Setúbal. Apesar de tudo, sempre tinham melhores condições de habitabilidade vigiada que os tugúrios da «bucólica» aldeia de origem das «criadas», para todo o serviço ou não.

A Maria Antónia, tal como as «criadas» para todo o «serviço» permanente, tinha uma tarde de domingo de «folga» cada 15 dias. Na altura eu tinha 16 anos e estudava no Porto, mas quando vinha a Lisboa tinha sempre um quarto na casa dos meus padrinhos. Às vezes eu e a Antónia, jovens, saíamos, passeávamos, conversávamos ou íamos ao cinema. Apenas como amigos e nunca como amantes, o que era um caso raro entre um «menino» e uma «criada».

Depois regressei a Luanda e durante anos escrevemo-nos com regularidade espaçada. Um dia, a correspondência cessou abruptamente, não porque ela tivesse morrido mas talvez por se ter «entregue» a algum magala. Nunca mais soube dela, embora anos depois uma das minhas tias a tenha encontrado numa rua de Lisboa e terem falado uma com a outra.

A miúda e a matrona 

(...) Era um jardim geometricamente desconfortável, artificial, No coreto a banda tocava. Além, caridosamente, alguém partilhava com os "jardineantes" as goelas do transístor escancaradas. No banco, ao meu lado, uma matrona e uma gaiata conversam banalmente: "Puxa a mala um bocadinho mais para baixo. Isso! Assim! Para que te não vejam as pernas". E eu sorrio-me por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política". Pobres e ridículas gaiatas! Pobres e ridículas matronas! (1)

O miúdo e o carrocel

No mesmo jardim, era um miúdo esfarrapado, sujo, de rosto envelhecido. Dele aproxima-se do guarda, para cobrar o bilhete da entrada, mas o dinheiro não chega. No entanto, o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar. O miúdo envelhecido corre, para, hesita! Os olhos sorriem no rosto sujo: balancé? carrocel? escorrega? ... ou avião? Não poder ele desdobrar-se! E assim, corre, sobe, escorrega - o mundo é dele. Agarra-lo, sobe, desliza, corre, sobe, desliza, sobe, desliza, corre, sobe, desliza, contorce-se ...

De repente alguém exclama: "MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!" Então, as avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo, os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios. Ele hesita. Baloiça, baloiça, baloiça! Roda, roda, roda, sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre! contorce-se, baloiça, roda ... Olhos brilhantes cheios de felicidade! Um velho num corpo de criança, pequena para a roupa suja, esfarrapada

As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo, os meninos, esses apedrejam com a língua e crucificam com os lábios. Velhas envelhecidas. Garotos moribundos. E uma criança num pequeno corpo de velho! (POE - 1969.02.24) (1)

1 - Do poema Cenas do Jardim, escrito em Évora em 1969.02.24

~~~~~~õoo0ooo~~~~~~

Yolanda Botelho - Maravilhoso.Bj

14 a

Manela Pinto - muito bem "sr" Victor Nogueira adorei. ´´es nortenho ou alentejano ou as 2 coisas ahahhaha. obg beijinhos

14 a

Victor Barroso Nogueira - 'Senhor nogueira', era o tratamento que em évora me dava quem por victor não me tratava, Manela Pinto E para os camaradas e amigos su apenas o "victor" ou o "victor nogueira" LOL. E não sou português, sou angolano com parentes do minho e trás os montes até ao alentejo. 😛

14 a

Manela Pinto - cidadao do mundo sr vitro como diziam os mais velhos no alentejo ha mais de 40 anos, ja tinha esquecido que es africano

14 a

Victor Barroso Nogueira - Manela Pinto Sou branco, cabelos levemente ondulados, expresso-me bem em português, ninguém me manda para a minha terra LOL Há muito tempo li uma crónica no Diário de Lisboa sobre um tipo de cor que dizia que qd o mandavam para a terra dele apanhava em lisboa o autocarro da carreira 27, para a Ajuda, onde nascera 😛

14 a

Manela Pinto - hahahhahahhaha nao te mando, estas ca muito bem!!!

14 a

Graca Maria Rito - Sem palavras amigo !! fantastico texto como sempre ......Bjs

14 a

Graça Maria Teixeira Pinto  Obrigada pela partilha. Gosto!

14 a

Alice Coelho - Como sempre...um texto para passear e vaguear ao longo da leitura..... beijinho

14 a

José Eliseu Pinto - Leitura saborosa, esta que nos ofereces. Como de costume, aliás.

Os teus textos têm a virtude de nos lembrar aquilo que sabemos mas não conseguimos evocar, ordenadamente.

Salvemos quem regista, pitoresca e laboriosamente, esta memória que nos devolve, de forma aprazível, dias que nem sempre o foram.

13 a

domingo, 1 de junho de 2025

Letras empilhadas, ano após ano, em Junho, 01, (re)colhidas em 2025

 * Victor Nogueira


1 de Junho de 2014

DIZ-ME COM QUEM ANDAS, DIR-TE-EI QUEM ÉS ?

A contagem das espingardas e o campo nas manobras da Guerra das Rosas XLIX entre califas e galos entre o laranja e o rosado, Na capoeira alguns hão-de-subir e outros descerão, enquanto o Titanic da social-democracia, aliado a Merkel e governando à direita por essa Euroa fora  se afunda irremediavelmente e o povo sofre a miséria, a fome, o desemprego e a falta de futuro em portugal e por toda a europa e no mundo.

Eles não reflectem pk estão em retrocesso, eles borrifam-se para a democracia, enredados com o psd-cds, eles cuidam apenas dos seus umbigos. .Eles querem menos deputados na Assembleia  da República para que nela tenham assento apenas o PS(d) nem que seja com uma centena de votos. Eles não querem  eleições, eles querem apenas que o psd destrua o país para  tomarem conta do cemitério. Eles não querem discutir nem referendam os tratados da União Europeia e os pactos orçamentais. 

Eles mostram o que verdadeiramente são: trampolineiros num saco de gatos e num ninho de víboras  !. Eles demonstram sem dúvidas que não merecem a confiança da maioria dos cidadãos e do eleitorado. Tudo se decide entre eles, entre barões e baronesas, e os militantes são apenas tropa para arregimentar. Para botar o boto nas urnas !

EM TEMPO - Costa é apoiado por duas outras grandes figuras: Mário Soares e José Sócrates. Terá razão o dito popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és ?


1 de Junho de 2014

Uma guerra intestinal varre o partido socialista. Alinham-se os generais, arregimentam-se os pregoeiros e no deserto de ideias uma relativa vitória é transformada em derrota enquanto o derrotado psd-cds esfrega as mãos e assiste de camarote e poleiro à guerra no galinheiro dos rosas. Num partido que se diz socialista, alguém os ouve falarem no … socialismo ?

No meio da poeirada os basbaques entreolham-se ? Mas então  costa não recuou há 12 meses e apertou a mão a seguro ? Não foi com o PS seguro que este teve uma folgada vitória nas autárquicas de 2013 ? É costa um homem sério ? É costa mais democrata que cisco assis seguro sócrates ? Então as divergências no PS resumem-se a nuvens de poeira e de fumaça para ascender ao poleiro ? É costa destemido? É costa um democrata ? Então costa e seus apoiantes trombateiam que eles é que são valentes, que o adversário é que é timorato e pouco seguro ?  E quais ferrabrás passam por cima de toda a folha ? E tão valentes que querem vitórias de bandeja, ao arrepio dos estatutos do partido ?  Então os estatutos do PS não foram aprovados em Congresso ? As decisões do Congresso só interessam a costa e seus apoiantes quando lhes convém ? Eles esganiçam-se e os estatutos e o congresso que  vão às urtigas ?  Costa diz que uma vaga de fundo que só ele e os seus apoiantes encenam o obriga a correr com seguro e a ser o salvador da Pátria ? Mas o país precisa de caudilhos no trono a decidirem e a falarem pela ralé e em nome do pé-descalço que sempre têm desprezado com papas, bolos e artimanhas ? A pífia vitória do ps seguro e a esmagadora maioria que não deu o voto ao ps costa seguro cisco assis transformou-se numa vaga de fundo para alcandorar costa ao poleiro ?

Em Lisboa já se viu o calibre da democracia de costa, que espaldado em relvas, o doutor, decidiu  com o apoio do PSD que era dele - costa - a Presidência da Área Metropolitana, pois apesar de ter o PS menos autarquias que a CDU tinha tido mais votos. Fosse o PCP a fazer isto e seria o fim. Mas ao democrata costa tudo é permitido, tudo deve curvar-se ao seu apetite de espojar-se no cadeirão do poder. É isso que de facto faz correr costa. Entre costa seguro ou PS(d), descubram-se as diferenças para além  de falarem uns melhores que outros ou uns com mais lábia e menos vergonha e mais desfaçatez que o adversário. Se são assim fraternos nas guerras intestinas, imagine-se que confiança lhes pode ser dada na vida real !

No meio desta encenação alguém os ouve falar de socialismo e (ou)viu dizer que o que está em causa para a maioria dos eleitores é a continuação ou não do rapinanço a favor da banca e a denúncia ou não dos tratados da união europeia e pactos orçamentais que PS(d)CDS assinaram nas costas dos eleitores e do país de que se querem servir para servirem ?  Servirem quem ? Se todos eles se têm entendido e dizem que farão alianças à direita, com a reedição do célebre bloco central ps-psd de mário Soares. Não encontra costa apoiantes mais credíveis que Sócrates e Mário Soares ? E deve a maioria confiar nesta gente ? Gente que ataca seguro porque ele não defendeu Sócrates os ataques da direita, direita que através de relvas deu a sócrates uma tribuna semanal na televisão para se "defender" e perorar à vontade ! Sócrates que se junta a soares para desancarem em seguro? 

Há uma pergunta, entre muitas. Se costa se preparava para de lisboa partir à conquista de belém post cavaco, na esteira de Jorge Sampaio, que leva costa a trocar o sossego da praça do pelourinho pela caldeirão do rato às traseiras de S. Bento ?

E para que se não diga que não há propostas sérias para discussão, cliquem na hiperligação a seguir, sobre as propostas do PCP. Discutam-nas, argumentem e contra-argumentem. Divulguem-nas!

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10202605049312816&set=a.1124829846327.2019339.1394553665&type=1&theater-----


1 de Junho de 2014

Que faz o PCP enquanto costa de lisboa transforma uma vitória do ps numa estrondosa briga de galos pelo poleiro com núvens de poeira para esconderem que o PS não tem programa de verdadeira mudança, alternativo  ao psd-cds e de ruptura com o pacto orçamental assinado por PS(d)CDS ?

O PCP defende a dissolução da Assembleia da República e a consequente demissão do Governo e realização de eleições e defende que «os trabalhadores e o povo hão de encontrar com a sua luta o caminho da política alternativa que, afirmando os interesses do povo e do País e a decisão soberana do povo português, se baseie em seis opções fundamentais e indispensáveis:

1.º - A rejeição dos condicionalismos externos e a renegociação da dívida nos seus montantes, juros, prazos e condições de pagamento rejeitando a sua parte ilegítima, com a assunção imediata de uma moratória negociada ou unilateral e com redução do serviço da dívida para um nível compatível com o crescimento económico e a melhoria das condições de vida;

2.º - A defesa e o aumento da produção nacional, a recuperação para o Estado do sector financeiro e de outras empresas e sectores estratégicos indispensáveis ao apoio à economia, o aumento do investimento público e o fomento da procura interna;

3.º - A valorização efetiva dos salários e pensões e o explícito compromisso de reposição de salários, rendimentos e direitos roubados, incluindo nas prestações sociais;

4.º - A opção por uma política orçamental de combate ao despesismo, à despesa sumptuária, baseada numa componente fiscal de aumento da tributação dos dividendos e lucros do grande capital e de alívio dos trabalhadores e das pequenas e médias empresas, garantindo as verbas necessárias ao funcionamento eficaz do Estado e do investimento público;

5.º- Uma política de defesa e recuperação dos serviços públicos, em particular nas funções sociais do Estado (saúde, educação e segurança social), reforçando os seus meios humanos e materiais, como elemento essencial à concretização dos direitos do povo e ao desenvolvimento do País;

6.º - A assunção de uma política soberana e a afirmação do primado dos interesses nacionais nas relações com a União Europeia, diversificando as relações económicas e financeiras e adotando as medidas que preparem o País face a uma saída do Euro, seja por decisão do povo português, seja por desenvolvimentos da crise da União Europeia.

Os trabalhadores e o povo hão de encontrar com a sua luta o caminho desta política patriótica e de esquerda que projete os valores de Abril no futuro de Portugal.*

1 de junho de 2015  · 

foto victor nogueira -- crianças no bairro azul da belavista, em setúbal

Nas minhas deambulações em Portugal não poucas pessoas, especialmente crianças, me pedem para fotografá-las. Na maioria dos casos dava-lhes posteriormente as cópias indo a casa delas ou enviando pelo correio.embora neste caso nunca me acusassem a  recepção. Mas havia adultos que pretendiam apenas ser fotografados, como se daquele modo ficasse o registo para a eternidade. 

Esta é uma das fotos de que gosto imenso. O olhar fixo na câmara, de expectativa, o alheamento total de tudo o resto, o gesto como que protector da miúda relativamente à criança central.

1 de junho de 2016 
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Uma foto e dois escritos (Évora e Alcácer do Sal) - Foto Victor Nogueira - Alcácer do Sal, Vale de Guiso, Monte da Arouca / Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís - a minha amiga Eva, aluna da Celeste, uma "mulherinha!", dizia-me, companheira de folias da Susana, nossa filha. Que é feito da Eva, da mãe (a Aciolinda), dos irmãos e dos avós (a senhora Catarina e o senhor Custódio) ?
CENAS DO JARDIM
1. Era um jardim
geometricamente desconfortável
artificial
No coreto
a banda tocava.
Além
caridosamente
alguém partilhava com os "jardineantes"
as goelas do transístor escancaradas
No banco
ao meu lado
uma matrona e uma gaiata conversam
banalmente,
"Puxa a mala um bocadinho mais para baixo.
Isso! Assim!
Para que te não vejam as pernas"
E eu sorrio-me
por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política"
Pobres e ridículas gaiatas!
Pobres e ridículas matronas!
2. Era um miúdo esfarrapado
sujo
de rosto envelhecido,
Aproxima-se do guarda, mas o dinheiro não chega.
Mas o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar.
O miúdo envelhecido corre,
Para,
Hesita!
Os olhos sorriem no rosto sujo,
Balancé? Carrocel? Escorrega? Ou avião?
Não poder ele desdobrar-se!
Corre, sobe, escorrega
o mundo é dele
Agarra-lo.
Sobe, desliza, corre, sobe, desliza
sobe; desliza, corre, sobe, desliza
contorce-se
"MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!"
As avózinhas contorcem os lábios
num rictus de desprezo
os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios.
Ele hesita.
Baloiça, baloiça, baloiça!
Roda, roda, roda,
sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre!
contorce-se, baloiça, roda
Olhos brilhantes cheios de felicidade!
Um velho num corpo de criança
pequena para a roupa suja
esfarrapada!
As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo
Os meninos, esses apedrejam com a língua
e crucificam com os lábios
Velhas envelhecidas
Garotos moribundos
e uma criança num pequeno corpo de velho!
1969.Fevereiro.24 - Évora
~~~~~~~~~~
Margarida Piloto Garcia

Fabulosa foto! 7 ano(s) Maria Rodrigues Uma foto lindissima, Obrigada Victor pela Partilha bjs. da muito amiga ❤ ❤ ❤ 7 ano(s) Maria Rodrigues Lindissima foto adorei ❤ ❤ ❤ (Y) 7 ano(s) Clara Roque Esteves Maravilhosa mensagem, Vítor. Refiro-me à fotografia. A tua leitura é outro tipo de alerta, pedagógico, como sempre. 7 ano(s) José Manuel Candeias Linda foto, amigo. O olhar destas queridas vão muito para além da tua máquina e de tu próprio. Grande momento, parabéns e obrigado pela partilha! 7 ano(s) Manuela Vieira da Silva Eu diria da menina que segura a mais pequena: «Endireita-te e fica quietinha, para ficares bem na fotografia!». Olhares de expectativa, de nunca antes terem sido fotografadas. Bela foto, amigo Victor Barroso Nogueira. Feliz Dia da Criança! Bjo. ❤ 🙂 7 ano(s) Victor Barroso Nogueira Eu intrerpreo como um ar de protecção. Antigamente não havia quem receasse ou se recusasse a ser fotografado porque supunha que a máquina lhe roubasse o espírito ou a alma ? 7 ano(s) Milu Vizinho Excelente foto, camarada Victor. Obrigada pela partilha...Adorei...Beijinhos ❤ 7 ano(s) Deolinda F. Mesquita Excelente foto, Victor, estas meninas falam muito, muito bonitas. Adorei. Muito obrigada 🙂
6 ano(s)


1 de junho de 2018  · 

«OPTE POR AMAR MAIS» («UMA PRINCESA NÃO FUMA!») - Se vivemos num República, a que propósito se fala em "princesas" como se tudo isto fosse um conto de fadas e fados ? E porquê direccionada exclusivamente para as mulheres como mães ? É menos prejudicial e censurável que os homens fumem, sejam pais ou não?


Lullabies from Around the World - Germany

1 de junho de 2018  · 

Ao lado de Costa, Merkel viu com “alegria” um Portugal “otimista” - Depois da marcelista "España Una e Eterna"pela Graça de Franco, Caudillo pela Graça de Diós, depois das princesas no anti-tabagismo, as merkelianas boas-fadas dos contos de embalar  ?

1 de junho de 2019  ·  

cartoon (pormenor) in KIMBO LAGOA - cartoon integral

mais abaixo https://kimbolagoa.blogs.sapo.pt/

1 de junho de 2021  · 

foto victor nogueira - Mural no Parque Urbano de Albarquel, em Setúbal -  "We are created to create" , executado por Latibule e Jony em 2017 (fotos em 2019 06 11  Canon 168_06 /  2020 12 29 Canon 187_12)

VER Murais em Setúbal 71 - Parque Urbano de Albarquel

Murais e grafitos em Setúbal 86 - Parque de Albarquel e Quinta da Saboaria


1 de junho de 2023  · 

Foto victor nogueira - nascer do sol em Setúbal, visto do cimo da torre no alto duma encosta, com a urbe lá em baixo, coalhada de mil luzeiros, como se estáticos pirilampos fossem.  (IMG_2182 2023 04 30)

1 de Junho de 2023

Costa PM e Marcelo II, PR, vivem em completa, insanável distopia, num mundo paralelo? Não há vácina para isto? Para Marcelo II a vácina ê mais do mesmo, substituir Dupond por Dupont, isto é, dissolver o Parlamento e pôr ao leme o seu PSD, acolitado pelo Chega e pelos iéles? 

E qual é a vácina quando Marcelo II, PR, o rei-ssol, o vigilante, o consiglieri, se torna um franco atirador que,  hora a hora, dia a dia, na sua infrene e despudorada guerrilha institucional, sem peias nem limites, se candidata a ser o coveiro da democracia de Abril, para que em 2024 se comemore um qualquer sucedâneo do 28 de Maio de 1926? Não há vácina ou antídoto que curem Marcelo II, PR, e nos livrem das suas catilinárias e da sua tirania e despotismo?

É caso para dizer: volta Cavaco, estás perdoado, pois ao menos tens menos artes e manhas para vender papas e bolos?

terça-feira, 1 de junho de 2021

em évoraburgomedieval - as crianças

* Victor Nogueira 

As crianças em évora

 

Fui há pouco ao cinema ver um filme de desenhos animados. "Asterix e Cleópatra", interessante mas inferior á banda desenhada. Foi um dia de festa para a petizada, nesta cidade [de Évora] onde raramente as crianças são lembradas. (NSF - 1970.05.17)

 

 

Breve história dum miúdo: o Jorge

 

Em 5 de Abril de 1971 escrevia eu: "Sábado fui com o Jorge ao cinema, ver um filme de desenhos animados com o Asterix. Pois bem, o miúdo pulava e ria-se, enfim, era um espectáculo. Gosto dele, só tenho pena ... que não estude.

 

Tem-me oferecido rebuçados, uma daquelas bolinhas de plástico que saltam muito e até me chegou a pagar o jornal ! Há dias apareceu-nos no café [Arcada] todo eufórico. Tinha ganho algum dinheiro e então comprou um cinto com uma espada de plástico, postais, maçãs e ... um copo. Enquanto não mostrou a espada a toda a malta sua conhecida não descansou. Queria também que aceitássemos as maçãs dele e os postais.

 

Quem não gosta da brincadeira é a D.Vitória [Prates, minha hospedeira na Rua do Raimundo] Um novo desenho existe no meu quarto, mas esse foi oferta dum outro miúdo, o Carlos . (MCG - 1971.04.05)

 

Nas minhas deambulações de hoje encontrei a Lídia e o Jorge.  Este andava à procura de dez tostões para o cinema - eu fiz que não percebi a indirecta; informou me que esteve em Beja a trabalhar no circo e à minha observação sobre a sua magreza retorquiu "É da fome que passo." (e que não está em mim remediar) (MCG - 1972.02.23)

 

Podia falar te do Jorge, que agora anda todo bem vestido - fato cinzento com colete e gravata - , do seu amigo Carlos - que é moço de recados no Café Arcada e maça as pessoas com os seus préstimos (as gorjetas são a sua única remuneração).

 

Ou do Pedro, que esteve muitos anos no Brasil, que é um tipo expansivo e bom palrador, mas que fala com sotaque brazuca para impressionar (o Jorge desmascarou o no café, com um dos seus comentários de miúdo que não está ainda dentro de certos mecanismos sociais) (...) (MCG - 1972.11.06)

 

Ah! acabei por não ir ao cinema. À tarde o nosso amigo Jorge  veio-cravar me dinheiro para o "Trinitá" (MCG - 1972.12 ?)

 

O Jorge  apareceu ontem pelo café, depois duma longa ausência. Mais velho, já não o miúdo que conhecemos, agora com os ombros curvados, mostrando-nos os calos do trabalho de servente de pedreiro. Gosto dele, mas não encontro nem os gestos nem as palavras que lho digam. ( MCG - 1973.06.10)

 

Comigo, aqui na mesa encarnada do Arcada, após o jantar, a minha mãe e o Jorge, que trabalha como ajudante de carpinteiro, vencendo uma jorna de 70 $ 00. Em Setúbal ganharia 120 $ 00, mas os pais prendem no aqui no burgo [Évora] (...)

 

O Camilo e o  Carlos Nunes da Ponte" não apareceram por aqui. O Jorge está aqui com uma conversa muito adulta, apesar dos seus dezasseis anos. Ele agora está atrapalhado. Por causa da minha mãe passou a tratar me por "Senhor Victor" e por "vocemecê" [abandonando o "Victor" e o "tu"] (...)

 

Perguntei ao Jorge  se queria escrever qualquer coisa [para ti, nesta carta], mas ele não quer, pois diz que parece mal a letra dele ao pé da minha de doutor. () (MCG - 1973.12.06)

 

1 - Ao arrumar papelada, encontrei um texto que ele dactilografara na minha velha Olivetti Lettera 2000: a primeira parte é um conto, escrito com piada embora com muitos erros ortográficos. É demasiado longo para esta nota de rodapé. Na segunda parte escreveu: "1. - O senhore Vitor Nogeira 'e muito meu amigo e axo que ele tambem gosta de mim | eu pelo menos gosto dele | as coizas que eo gosto de fazera! | gosto de escrever a maquina | gosto de houvir discos | gosto de ler livros | 2. - (gosto muito dos meus pais foram eles que me quriaram;" Ainda hoje me comovo com este escrito, especialmente com a segunda parte.

  

O Orlando, sobrinho da D. Vitória

 

O Diogo Guerreiro fica cá em casa. O Diogo Fialho  ainda não deu notícias. Comigo devemos ser os únicos hóspedes este ano, que a D.Vitória  está cansada. O quarto do sr. Marquês [e que fora do Jorge Carvalheira] agora é sala de visitas e o que foi vosso [da Celeste, da mãe e da Bia Almeida, com escadas para o terraço] é agora do sr. Prates  e do Orlando - sobrinho -  que vem estudar para Évora. (MCG - 1972.09.22)

 

 Isto aqui em casa são umas correrias escada acima, escada abaixo, que nem calculas. Sim, que o amigo Orlando anda alvoroçado com a escola e um mundo novo para ele, de que me não fala mas pressinto. Os cuidados com os livros, todos bem arranjadinhos, o ar tímido quando com ele falo! (...)

 

O sr. Prates já foi largando a bisca para um explicador ... À borla, pois então. Só que o coração já me caíra aos pés quando na véspera a D.Vitória  me comunicara que a minha pensão aumentara de 200 $ 00 mensais, isto é, para 1600 $ 00. [Eu pagava mais porque avisara que tmava banho e mudava de roupa diaramente.

 

E quer em Évora quer em Lisboa as hospedeiras ao fim de algumas semanas diziam-me que tanto banho fazia mal à pele ao que lhes retorquia que eu avisara e que o gasto estava incluído na mensalidade, pondo fim às "reclamações"] (MCG - 1972.10.04)

 

 O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado(....) A Vicência faz exame depois de amanhã. (...)

 

[O Orlando] deu me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho agora pediu me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou me revistas, separou me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)

 

Um Natal em Beja

 

Pois eu cheguei a Évora ontem à noite, cerca das 23:30, vindo de Beja, onde estive domingo e segunda, em casa dos tios do Camilo (1) e na companhia de mais dez adultos e umas catorze crianças, do recém nascido ao Pedro e à Teresa, os mais velhos com os seus treze anos. (2) Aquilo não era uma casa, era um quartel familiar ... que me "adoptou" por dois dias.

 

Por todas as salas não se viam senão miúdos. Domingo à tarde, horas antes da consoada, andava o Camilo ás voltas com a árvore de Natal e presépio, com a mania das perfeições e de as coisas serem como ele queria. Tenho a impressão que se não fosse o aparecimento da tia Emília, ou aquilo nem para o ano estaria pronto ou o tio Jacinto terminaria aquilo a grande velocidade, sem preocupações perfeccionistas. Sim, que afinal parecia me que o Camilo não queria nem deixava fazer, pedindo mas não aceitando as minhas sugestões.

 

Enfim ... Fosse eu romancista e estes dois dias teriam muito peso na minha renomeada. O mais interessante foi a tia freirinha, a irmã Maria, que se percebi bem saiu pela primeira vez em 24 anos de convento, e que tentava catequizar as crianças com umas prédicas tais que nem ouvidas! Ah!Ah!

 

Os miúdos é que se divertiam depois nos seus grupos, relatando e comentando as suas havidas conversas particulares, e que eu ouvi porque eles são desinibidos por educação - todos me tratavam por tu e por Victor, que é como eu gosto - e também porque não devo ter cara de polícia. Gosto de miúdos e acho que tenho um certo jeito para estar com eles.

 

Desta vez o João passou o tempo com o "Vitinhas", subindo lhe para o colo, fazendo lhe imensas perguntas ou mostrando os brinquedos e o modo como funcionavam, brinquedos que, na sua maioria, ao fim do 2º dia já andavam muito combalidos. Entretive me com um automóvel electrificado, com comando à distância, o que permitia manobrá-lo em todas as direcções. (MCG - 1972 NATAL)

 

1.- Em não poucos fins de semana eu, o Camilo e  o Carlos Nunes da ponte marchávamos para Beringel

 

2 .- Estes tios do Camilo eram os Brito Lança - ele médico - e tinham uma casa em Beringel, a poucos quilómetros de Beja. Do terraço da casa da quinta avistei pela primeira vez o espectáculo deslumbrante que foi contemplar o céu coberto de estrelas, sem a interferências das luzes da cidade a que estava habituado e que as escondiam.

 

Uma boa vida

 

Ali duas velhotas discutem as vantagens de ser criada de servir: ganham bem, vestem os vestidos da senhora, não gastam nada. Uma vida de fidalgas. (MCG - 1974.12.10)

 

Contraponto - A vida das "fidalgas"

 

Temos [em casa da D. Vitória] uma criada nova, a Ricardina,  míope e vestida de preto, com um ar submisso e tímido. O que não a impediu de pedir-me um casaco velho para o pai. Não, foi a resposta. () (MCG - 1973.03.30)

 

1 - Não percebo nem me lembro da razão desta minha secura, que hoje me incomoda ao lê-la.

  

[Os meus padrinhos em Lisboa] exigiam naturalmente  que a criada Maria Guerreiro, vivendo no quarto de «arrumos» (1), estivesse de serviço permanente e desperta para recebê-los fosse a que horas regressassem de madrugada e que estivesse de manhã cedinho a pé para servir-nos o pequeno-almoço, na casa onde havia sempre um quarto para mim, aparecesse eu quando aparecesse. Por outro lado os negócios em Lisboa e de armamento em Luanda permitiam  ao meu padrinho duplas virtudes e privados defeitos,.

 

.(1) - Este quarto de «arrumos» existia normalmente anexo à cozinha, quer nas vivendas de Alvalade ou dos andares das Avenidas Novas em Lisboa, quer nos «andores» então «finos» do Bairro do Liceu, em Setúbal. Apesar de tudo, sempre tinham melhores condições de habitabilidade vigiada que os tugúrios da «bucólica» aldeia de origem das «criadas», para todo o serviço ou não.

 

A Maria Guerreiro, tal como as «criadas» para todo o «serviço» permanente, tinha uma tarde de domingo de «folga» cada 15 dias. Na altura eu tinha 16 anos e estudava no Porto, mas quando vinha a Lisboa tinha sempre um quarto na casa dos meus padrinhos. Às vezes eu e a Matia, jovens, saíamos, passeávamos, conversávamos ou íamos ao cinema. Apenas como amigos e nunca como amantes, o que era um caso raro entre um «menino» e uma «criada».

 

Depois regressei a Luanda e durante anos escrevemo-nos com regularidade espaçada. Um dia, a correspondência cessou abruptamente, não porque ela tivesse morrido mas talvez por se ter «entregue» a algum magala. Nunca mais soube dela, embora anos depois uma das minhas tias a tenha encontrado numa rua de Lisboa e terem falado uma com a outra.

 

A miúda e a matrona 

 

(...) Era um jardim geometricamente desconfortável, artificial, No coreto a banda tocava. Além, caridosamente, alguém partilhava com os "jardineantes" as goelas do transístor escancaradas. No banco, ao meu lado, uma matrona e uma gaiata conversam banalmente: "Puxa a mala um bocadinho mais para baixo. Isso! Assim! Para que te não vejam as pernas". E eu sorrio-me por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política". Pobres e ridículas gaiatas! Pobres e ridículas matronas! (1)

 

O miúdo e o carrocel

 

No mesmo jardim, era um miúdo esfarrapado, sujo, de rosto envelhecido. Dele aproxima-se do guarda, para cobrar o bilhete da entrada, mas o dinheiro não chega. No entanto, o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar. O miúdo envelhecido corre, para, hesita! Os olhos sorriem no rosto sujo: balancé? carrocel? escorrega? ... ou avião? Não poder ele desdobrar-se! E assim, corre, sobe, escorrega - o mundo é dele. Agarra-lo, sobe, desliza, corre, sobe, desliza, sobe, desliza, corre, sobe, desliza, contorce-se ...

 

De repente alguém exclama: "MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!" Então, as avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo, os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios. Ele hesita. Baloiça, baloiça, baloiça! Roda, roda, roda, sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre! contorce-se, baloiça, roda ... Olhos brilhantes cheios de felicidade! Um velho num corpo de criança, pequena para a roupa suja, esfarrapada!

 

As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo, os meninos, esses apedrejam com a língua e crucificam com os lábios. Velhas envelhecidas. Garotos moribundos. E uma criança num pequeno corpo de velho! (POE - 1969.02.24) (1)

 

1 - Do poema Cenas do Jardim, escrito em Évora em 1969.02.24


31 de Maio de 2012


Yolanda Botelho

Maravilhoso.Bj

 · 9 ano(s)

Manela Pinto

muito bem "sr" Victor Nogueira adorei. ´´es nortenho ou alentejano ou as 2 coisas ahahhaha. obg beijinhos

 · 9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

Senhor Nogueira, era o tratamento que em évora me dava quem por victor não me tratava, Manela Pinto E para os camaradas e amigos su apenas o "victor" ou o "victor nogueira" LOL. E não sou português, sou angolano com parentes do minho e trás os montes até ao alentejo. 😛

 · 9 ano(s)

Manela Pinto

cidadao do mundo sr vitro como diziam os mais velhos no alentejo ha mais de 40 anos, ja tinha esquecido que es africano

 · 9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

Manela Pinto Sou branco, cabelos levemente ondulados, expresso-me bem em português, ninguém me manda para a minha terra LOL Há muito tempo li uma crónica no Diário de Lisboa sobre um tipo de cor que dizia que qd o mandavam para a terra dele apanhava em lisboa o autocarro da carreira 27, para a Ajuda, onde nascera 😛

 · 9 ano(s)

Manela Pinto

hahahhahahhaha nao te mando, estas ca muito bem!!!

 · 9 ano(s)

Graca Maria Rito

Sem palavras amigo !! fantastico texto como sempre ......Bjs

 · 9 ano(s)

Graça Maria Teixeira Pinto

Obrigada pela partilha. Gosto!

 · 9 ano(s)

Alice Coelho

Como sempre...um texto para passear e vaguear ao longo da leitura..... beijinho

 · 9 ano(s)

José Eliseu Pinto

Leitura saborosa, esta que nos ofereces. Como de costume, aliás.

Os teus textos têm a virtude de nos lembrar aquilo que sabemos mas não conseguimos evocar, ordenadamente.

Salvemos quem regista, pitoresca e laboriosamente, esta memória que nos devolve, de forma aprazível, dias que nem sempre o foram.