Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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sexta-feira, 26 de maio de 2023

Textos em maio 26

·         Victor Nogueira



2023 05 26  Lawrence (da Arábia) é um dos personagens do fabuloso filme homónimo realizado rm 1962 por David Lean, interpretado fabulosamente por Peter O’Toole. Anos mais tarde tive ensejo de ler “Os 7 Pilares da Sabedoria”, escrito por T. E. Lawrence, que excede largamente aquela obra cinematográfica. O Deserto do Sahra que vislumbrei lá de cima, numa viagem de avião entre Luanda e Lisboa, e o que é mostrado por David Lean e outros cineastas noutros filmes, nada tem a ver com a diversidade paisagística e de vida (fauna e flora) que  El Aurens descreve. Um livro a ler

 


2020 05 26 foto victor nogueira - Setúbal - coreto na Avenida Luísa Todi

 -Oscoretos surgiram ligados ao florescimento das bandas filarmónicas locais, integrando o movimento nacional de descentralização cultural da música instrumental do século XIX. Nos séculos XIX e XX a Avenida Luísa Todi, antiga Rua da Praia, era um dos passeios públicos de Setúbal. O coreto nele existente, propriedade da Sociedade Musical Capricho Setubalense, foi inaugurado em 1899, substituindo um outro que se erguia no Jardim do Bonfim desde 1880, o então chamado "coreto velho", que, entretanto, foi deitado abaixo, o que ocorreu durante o mandato camarário de António José Baptista.

Existem presentemente  na área do município a Sociedade Musical Capricho Setubalense, a Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense e a Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, esta em Vila Nogueira de Azeitão.

 

2015 05 26 Foto victor nogueira - Sintra - São 3 as janelas gradeadas com vista soalheira e verdejante, num amplo salão, que me dizem ter sido a cadeia de Sintra, talvez em tempos medievos, atendendo a um arco ogival cuja vetustez não garanto, perto das Escadinhas de Lord Byron (o poeta romântico), e do hotel Lawrence (fundado em 1764) - não o das Arábias e dos "Sete Pilares da Sabedoria", livro cuja leitura vivamente aconselho, onde o deserto surge cheio de vida e diversidade paisagística, nada tendo a ver com o do célebre filme de David Lean interpretado por Peter O´Toole.  

Hoje o que teria sido a cadeia é um local coberto e mal amanhado para estacionamento não de cavalgaduras mas sim de automóveis, através dum estreito acesso, em ruas sinuosas e de calçada irregular, polida pelos passeantes. Se cadeia  foi e se as vistas de então fossem semelhantes às de hoje, não teria o ar soturno e sombrio de outras enxovias, como as do Limoeiro, em Lisboa, ou daquela no Porto em que estiveram  presos Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, estes cada um para sua banda porque  para escãndalo já chegavam os seus adúlteros amores e as tragédias do "Amor de Perdição".

Há muitas décadas que não ia a Sintra de comboio e a estação cheia de barreiras para controle de  blhetes dos passageiros já não é o que era. Mas adelante. 

Pela vila e na encosta do Castelo dos Mouros acima  -  que me faz lembrar Coimbra em torno da Sé Velha e da Calçada do Quebra-Costas - pelas estreitas ruas ou pelo amplo largo do Palácio da Vila, acotovelam-se turistas, incluindo brasileiros com seu falar cantante. Num banco um jovem alegre e risonho, colorido nas suas vestes e pele como se fosse uma estátua de bronze, toca viola e amealha uns cobres deixando-se fotografar junto às turistas.

Entramos na Igreja de S. Martinho, templo medieval completamente derrubado pelo terramoto de 1755 e muito descaracterizado. Insólito: pelos bancos algumas pessoas sentadas e duas delas  embrenhadas em ver talvez vídeos em tablets ou smartphones.  Uma placa publicita um Museu de Arte Sacra que não vislumbramos nem nos afadigamos a procurá-lo.

Voltando à "prisão" cuja janela ilustra este post, lembro-me do casarão duma amiga numa vila alentejana (Sousel), remontando aos tempos do senhor D. Manuel I, embora as janelas deste não tivessem grades mas sim uns banquinhos de pedra de cada lado, adossados à parede,  para as damas outrora apreciarem o movimento da ruas, talvez bordando e cavaqueando entre si, resguardadas embora e possivelmente por detrás das janelas com adufas, como  aquelas que ainda existem no Algarve, sobretudo em Tavira, e que foram preservadas nos balcões duma das ruas do centro histórico de Braga.

E se pachorra houver para ler, aqui se fala duma outra cadeia, a de Arraiolos, nos idos de 1973, e dum outro passeio a Sintra. 

Na cadeia e no tribunal de Arraiolos

 


2014 05 26 Foto victor nogueira - évora 1975 - feira dominical no rossio de s. brás

 

As feiras de Évora, Setúbal e Lisboa

 O Rossio de S. Brás está praticamente livre de feirantes. Restam apenas as barracas de louças e bugigangas. Depois do meu regresso de Beringel comprei um copo, uma caneca, colheres, um prato e uma tigela, que seria para o "Nestum" mas acabou por ficar para a fruta. (MCG - 1972.07.10)

.

Hoje será a noite de S. João, de festa para os eborenses, que passearão lá pela Feira.  Este ano há dois circos; o resto é como nos anos anteriores, com a novidade de haver barracas dos partidos políticos, onde comprei umas publicaçõezitas. (1975.06.24)

.

Hoje é o último dia oficial da Feira de S. João em Évora.  A Feira estava em decadência, cada ano que passava. Mas desta feita, para além de muitas tendas de comerciantes (vestuário, calçado, plásticos, louças, mobiliário), havia as tradicionais de comes e bebes bem como os divertimentos. Não vi o poço da morte - creio ser o 1º ano  que não vem - mas em contrapartida havia 3 pistas de carros eléctricos e nada mais nada menos que 3 circos, acontecimento inédito: o Billy Smart, o Royal e o Mariano. A Celeste foi ao 1º e diz que é igual ao que vimos em Lisboa, no Coliseu. (NSF - 1976.07.05)

.

(...) Quando era estudante, em Évora, a Feira de S. João era um alvoroço - embora coincidisse com a época apertada de exames - onde a malta ia nas frescas noites, em grupos, passear ou "espairecer" pelas diversões e movimento. Depois, bem, depois a Feira de S. João, como a Santiago, deixaram de ter o encanto de outrora, tal como o circo, maravilha, delícia e alegria sempre renovada da infância. Hoje, do circo, gosto dos palhaços e dos ilusionistas, (embora nem sempre), ao contrário do que sucede nos programas que a TV por vezes transmite. Das feiras, hoje em dia, vejo as exposições e um ou outro espectáculo, extasiando-me nas tendas das vergas e olaria, que jamais compro. (MMA - 1986.07.28)

.

No regresso passámos por uma feira ali na Luz, em Lisboa, defronte ao Colégio Militar. (1) Era uma feira praticamente de louça e bugigangas, quase todas feias para o meu gosto. Comprei dois bonecos de barro (artesanato). Havia lá umas canecas de barro, em forma de sorridentes e rechonchudos monges (dispunha bem olhar para eles, tinham um ar simpático) Estou arrependido de não ter comprado um. Ficará para a próxima. Aquilo é uma roubalheira. Um tipo tem mesmo de regatear. Chegam a fazer abatimentos de 50 % sobre o preço inicial. Safa! (MCG - 1973.09.19)

,

A Feira Popular de Lisboa é muito sem graça. Nada nos saiu nas rifas. Não encontrámos as barracas das farturas (seguir o cheiro não foi suficiente). Joguei nas máquinas dos carros de corridas. As pistas dos carros de choques estavam quase vazias e assim não tinha piada andar nelas. De resto são mais caras que em Évora (também alguma diferença deveria haver entre os provincianismos de Évora e de Lisboa). Ah! mas o que gramei, onde apanhei dois valentes sustos, donde saí gelado mas com uma vontade enorme de repetir a proeza, foi na montanha russa. Aquilo é que é emoção! Ao menos enquanto um tipo não se habitua, Duas descidas bruscas (um tipo até trava com os pés, o coração a saltar lhe pela boca), uma curva a grande velocidade, toda inclinada (e um tipo, esquecendo -se da força centrípeta, agarra -se desnecessariamente para não ser projectado)... Também no outro "comboio fantasma", que afinal nada tinha de especial, salvo os ruídos (bater as portas e chiadeira) e a escuridão. Não tem qualquer emoção. (MCG - 1973.09.22)

,

Começando naquela Igreja e estendendo-se quase até ao Rio, passando ao lado da Igreja de Santa Engrácia, Panteão Nacional, estende-se a Feira da Ladra onde se encontra um pouco de tudo. (2) Especialmente roupa, mas também fardas, sapatos, capacetes de aço e caixas vazias de munições (relíquias da I Guerra Mundial ?), malas, sacos, carteiras, ferro-velho, antiguidades, móveis, moedas... enfim. De tudo o que vi, no entanto, só me interessava um par de candelabros. Mas não cheguei a perguntar o preço. Havia um jardim com vista para o rio e para a parte baixa da Feira. As ciganas vendiam roupa e tinha a sua piada ver as pessoas experimentarem calças por cima das que traziam vestidas. Havia de ser uma grande experimentação! Já eram 17 horas quando lá chegámos. Havia um mar de gente modesta (mais alguns hippies e estrangeiros), que se acotovelava e furava, enquanto os automóveis passavam tangentes aos peões e buzinavam. (3)

.

Não comprei nada. Só me interessavam antiguidades, mas receio ser facilmente enganado, pois não sei avaliar aquela mercadoria. Mas estendais de antiguidades havia poucos; a maioria era ferro-velho: dobradiças, fechaduras, chaves enormes, bicos de fogões a gás... Ouvi lá um negociante de antiguidades dizer a outro que à 3ª feira o negócio é melhor. (XXX - 1973.09.23) 

.

Cheguei há pouco da Feira [de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de conversa com o pessoal conhecido após o jantar lá em baixo no Centro, única maneira de variar o cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para grandes variações e aprendizagens. Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de ter ao lado, para consulta permanente, um dicionário da especialidade, para decifrar os termos técnicos como "refogado" ou "esturgido" e quejandos. (XXX - data ?) (4)

´.

Em Setúbal é tempo da Feira [de Santiago] onde fui duas ou três vezes e onde sempre vou encontrando gente conhecida para dois dedos de conversa. Este ano há apenas uma exposição dedicada a uma das celebridades cá da terra, que foi a cantora lírica Luísa Todi. Falta me ver a parte da cerâmica e olaria, embora este ano já tenha comprado o "recuerdo", cerâmica dum país andino ou como tal vendida. Mais uma "bonecada" ali para uma das estantes, para dificultar a limpeza do malfadado pó que mal acabado de limpar logo renasce dum modo que faria inveja à capacidade reprodutora dos coelhos! (MMA - 1993.08.03)

 

1 - Realiza-se anualmente, durante o mês de Setembro.

2 - Realiza-se todas as 3ªs feiras e sábados, de manhã. Trata-se duma feira cujas raízes remontam aos tempos medievais.

3 - Outra feira que merece referência é a do Relógio, no bairro de Chelas, aos domingos de manhã.

4 - Passe a publicidade, trata se do Guia Prático de Cozinha, da autoria de Léone Bérard, editado pela Livraria Bertrand em 1977.

Isabel Dias Alçada

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Festas, Feiras e Santos Fora do Tempo

* Victor Nogueira

 Santos Populares e Feiras - 

Em 1995 resolvi concorrer ao concurso das marchas populares de Setúbal, com pseudónimo.. Fartei-me de ouvir marchas de Lisboa para apanhar o ritmo e o tom, mas não ganhei e, sem falsas modéstias, acho que as vencedoras eram de qualidade inferior ás minhas, que também me parecem "musicáveis". Mas ... enfim ! Na altura as letras vencedoras eram musicadas posteriormente. Mas entretanto passou a ser exigência que as letras fossem acompanhadas pela  respectiva música pelo que terminou a minha carreira "marchista".

 

Setúbal, terra d'encanto João do Grão

Venham ver a nossa terra

É jardim à beira-mar

Do vale ao cume da serra

Um espelho d'encantar.

 

Póvoa doce, sem igual,

Pescado com moscatel

Trigo, pão, um laranjal,

Bem perfumado, com mel.

 REFRÃO

 Ai venham ver,

sem maldade!

Com balões, doce florir,

Gaiata, namoradeira,

Sempre jovem, a sorrir.

E bailando sem canseira

Ai venham ver,

sem maldade!

Ardem nossos corações

Em cravinho de papel,

Cantam Bocage, canções,

Em versinho d'água-mel.

Ai venham ver,

sem maldade!

Com este mar, rio á janela,

Em nós cant'a liberdade

De manjerico, singela.

E azul da mocidade.

 

Meu amor vem á janela,

São os Santos a bailar,

Vai-te embora, sentinela,

Fiquem todos a cantar.


Com o povo a sorrir

E bondade no olhar,

Sem vontade de partir,

Numa noite de luar!

 

Setúbal, sempre varina Manuel Vicente

 Setúbal sempre varina

Capital do pescador

Terra airosa e mui ladina

Póvoa com sal e calor.

 

Venham ver a nossa terra

Com arquinho e balões,

Num tempo de paz, sem guerra,

Em florindas tradiçõ 

REFRÃO

 Baila Setúbal a cantar,

Gaiata, namoradeira,

Com o Sado ao luar,

Corações numa fogueira!

Baila Setúbal sem parar,

Alegre, bela e vistosa,

Com a brisa a marulhar

Numa canção preciosa.

Baila Setúbal, um altar,

Com giesta e rosmaninho,

Os golfinhos a pular

Numa terra de carinho.


Valha-nos Sant'Antoninho,

Com mil cravos de papel,

Procurand'o sapatinho,

P'ró casamento sem fel.

 

Cada canção, um desejo

Em cantata de papel,

Manjerico no cortejo

Da nossa terra sem fel.

 

Setúbal mar de prata Maria Papoila do Mar

 Setúbal nasceu,

Com um mar de prata,

Setúbal cresceu,

Generosa e farta.

 

O rio tem pescado,

No vale com giesta

Por todos bem amado,

Com o povo em festa.

 

Setúbal navega,

Na sua falua

Vistosa, boneca,

Com o pé na lua.

 

Cantem os andores,

No azul do céu,

Amam os amores,

Em doce pitéu!

REFRÃO

 Venham ver Setúbal,

Airosa e ladina,

Dançando Asdrúbal

Com sua varina.

Venham, não se cansem,

No baile da terra,

A tristeza encerrem,

Com o mel na guelra.

Cantem salmonetes

Saiam da janela

Pulem os pivetes

Na rua singela.

 

Lá vem Setúbal,

Cheira a rosmaninho

Não é Tentúgal

Mas belo cantinho.

 

Tem bom moscatel

Doce São João,

Pedro no batel,

António na mão.

 

Com a boca um beijo,

No arco em foguete,

P'ra matar desejo

Sem qualquer ralhete.

 

Contem esta trova,

Ao Santo confessa,

Não há Casanova

Sem falsa promessa.


*****

 

À noite não fui gozar o S. João.   Preferi ir para a cama. Acordei às duas da manhã. Disso se encarregaram as minhas tias  Isabel e Teresa, batendo me suavemente (irra!) com os alhos e falando pelos cotovelos. (Diário III - 1963 - pag. 196) (1)

1 - Trata-se duma festa muito animada, que se desenvolve pela madrugada dentro, sobretudo na encosta das Fontainhas, com os concursos das rusgas e das cascatas.

 

*****

 

Uma  única vez fui à noite de Santo António em Lisboa, com as minhas tias Lili e Esperança e mais pessoas amigas. Elas deliciaram-se com as sardinhas assadas  mas eu nada comi. As ruas estavam atravancadas de mesas com barricas cheias  de água nunca mudada e onde mergulhavam a louça talheres e copos dum freguês para o outro, os pratos e copos "lavados" engordurados e os talheres com restos de sardinha agarrados. Era fruta demasiada para o meu estômago e sensibilidade pelo  que passei fome enquanto o pessoal se divertia e em vão me queria convencer a saborear os "pitéus".  [2011.06.23]

 

 

 As feiras de Évora, Setúbal e Lisboa

O Rossio de S. Brásxe  §está praticamente livre de feirantes. Restam apenas as barracas de louças e bugigangas. Depois do meu regresso de Beringel comprei um copo, uma caneca, colheres, um prato e uma tigela, que seria para o "Nestum" mas acabou por ficar para a fruta. (MCG - 1972.07.10)

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Hoje será a noite de S. João, de festa para os eborenses, que passearão lá pela Feira.  Este ano há dois circos; o resto é como nos anos anteriores, com a novidade de haver barracas dos partidos políticos, onde comprei umas publicaçõezitas. (1975.06.24)

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Hoje é o último dia oficial da Feira de S. João em Évora.  A Feira estava em decadência, cada ano que passava. Mas desta feita, para além de muitas tendas de comerciantes (vestuário, calçado, plásticos, louças, mobiliário), havia as tradicionais de comes e bebes bem como os divertimentos. Não vi o poço da morte - creio ser o 1º ano  que não vem - mas em contrapartida havia 3 pistas de carros eléctricos e nada mais nada menos que 3 circos, acontecimento inédito: o Billy Smart, o Royal e o Mariano. A Celeste foi ao 1º e diz que é igual ao que vimos em Lisboa, no Coliseu. (NSF - 1976.07.05)

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(...) Quando era estudante, em Évora, a Feira de S. João era um alvoroço - embora coincidisse com a época apertada de exames - onde a malta ia nas frescas noites, em grupos, passear ou "espairecer" pelas diversões e movimento. Depois, bem, depois a Feira de S. João, como a Santiago, deixaram de ter o encanto de outrora, tal como o circo, maravilha, delícia e alegria sempre renovada da infância. Hoje, do circo, gosto dos palhaços e dos ilusionistas, (embora nem sempre), ao contrário do que sucede nos programas que a TV por vezes transmite. Das feiras, hoje em dia, vejo as exposições e um ou outro espectáculo, extasiando-me nas tendas das vergas e olaria, que jamais compro. (MMA - 1986.07.28)

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No regresso passámos por uma feira ali na Luz, em Lisboa, defronte ao Colégio Militar. (1) Era uma feira praticamente de louça e bugigangas, quase todas feias para o meu gosto. Comprei dois bonecos de barro (artesanato). Havia lá umas canecas de barro, em forma de sorridentes e rechonchudos monges (dispunha bem olhar para eles, tinham um ar simpático) Estou arrependido de não ter comprado um. Ficará para a próxima. Aquilo é uma roubalheira. Um tipo tem mesmo de regatear. Chegam a fazer abatimentos de 50 % sobre o preço inicial. Safa! (MCG - 1973.09.19)

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A Feira Popular de Lisboa é muito sem graça. Nada nos saiu nas rifas. Não encontrámos as barracas das farturas (seguir o cheiro não foi suficiente). Joguei nas máquinas dos carros de corridas. As pistas dos carros de choques estavam quase vazias e assim não tinha piada andar nelas. De resto são mais caras que em Évora (também alguma diferença deveria haver entre os provincianismos de Évora e de Lisboa). Ah! mas o que gramei, onde apanhei dois valentes sustos, donde saí gelado mas com uma vontade enorme de repetir a proeza, foi na montanha russa. Aquilo é que é emoção! Ao menos enquanto um tipo não se habitua, Duas descidas bruscas (um tipo até trava com os pés, o coração a saltar lhe pela boca), uma curva a grande velocidade, toda inclinada (e um tipo, esquecendo -se da força centrípeta, agarra -se desnecessariamente para não ser projectado)... Também no outro "comboio fantasma", que afinal nada tinha de especial, salvo os ruídos (bater as portas e chiadeira) e a escuridão. Não tem qualquer emoção. (MCG - 1973.09.22)

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Começando naquela Igreja e estendendo-se quase até ao Rio, passando ao lado da Igreja de Santa Engrácia, Panteão Nacional, estende-se a Feira da Ladra onde se encontra um pouco de tudo. (2) Especialmente roupa, mas também fardas, sapatos, capacetes de aço e caixas vazias de munições (relíquias da I Guerra Mundial ?), malas, sacos, carteiras, ferro-velho, antiguidades, móveis, moedas... enfim. De tudo o que vi, no entanto, só me interessava um par de candelabros. Mas não cheguei a perguntar o preço. Havia um jardim com vista para o rio e para a parte baixa da Feira. As ciganas vendiam roupa e tinha a sua piada ver as pessoas experimentarem calças por cima das que traziam vestidas. Havia de ser uma grande experimentação! Já eram 17 horas quando lá chegámos. Havia um mar de gente modesta (mais alguns hippies e estrangeiros), que se acotovelava e furava, enquanto os automóveis passavam tangentes aos peões e buzinavam. (3)

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Não comprei nada. Só me interessavam antiguidades, mas receio ser facilmente enganado, pois não sei avaliar aquela mercadoria. Mas estendais de antiguidades havia poucos; a maioria era ferro-velho: dobradiças, fechaduras, chaves enormes, bicos de fogões a gás... Ouvi lá um negociante de antiguidades dizer a outro que à 3ª feira o negócio é melhor. (XXX - 1973.09.23) 

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Cheguei há pouco da Feira [de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de conversa com o pessoal conhecido após o jantar lá em baixo no Centro, única maneira de variar o cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para grandes variações e aprendizagens. Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de ter ao lado, para consulta permanente, um dicionário da especialidade, para decifrar os termos técnicos como "refogado" ou "esturgido" e quejandos. (XXX - data ?) (4)

´.

Em Setúbal é tempo da Feira [de Santiago] onde fui duas ou três vezes e onde sempre vou encontrando gente conhecida para dois dedos de conversa. Este ano há apenas uma exposição dedicada a uma das celebridades cá da terra, que foi a cantora lírica Luísa Todi. Falta me ver a parte da cerâmica e olaria, embora este ano já tenha comprado o "recuerdo", cerâmica dum país andino ou como tal vendida. Mais uma "bonecada" ali para uma das estantes, para dificultar a limpeza do malfadado pó que mal acabado de limpar logo renasce dum modo que faria inveja à capacidade reprodutora dos coelhos! (MMA - 1993.08.03)

 

1 - Realiza-se anualmente, durante o mês de Setembro.

2 - Realiza-se todas as 3ªs feiras e sábados, de manhã. Trata-se duma feira cujas raízes remontam aos tempos medievais.

3 - Outra feira que merece referência é a do Relógio, no bairro de Chelas, aos domingos de manhã.

4 - Passe a publicidade, trata se do Guia Prático de Cozinha,da autoria de Léone Bérard, editado pela Livraria Bertrand em 1977.

 

 Publicada por Victor Nogueira em Sexta-feira, Junho 24, 2011

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Textos em maio 26

 * Victor Nogueira






2022 05 26 - Conjuntamente com a febre dos macacos e o covid n ao infinito, os novos "quiduxos" na comunicação social, flores na "betoneira" do enCosta/PS, the big one

2014 05 26 - às 10:54 do dia seguinte às eleições europeias  jornais de "reverência" on line  informam que todas as freguesias estão apuradas mas continuam a "faltar" 4 deputados - assim, indicam PS 7 - PSD 6 - CDU 2 - MPT 1 BE 1, o que totaliza apenas 17 dos 21 lugares em disputa. Porque sucede e o que significa isto ? Alguém me explica ?

Ahhhhhhhhhhhhhhh. Afinal a fonte é o site da Comissão Nacional de Eleições que diz - 3.092 freguesias apuradas de 3.092 (0 por apurar)  (12 votações não realizadas) 55 consulados apurados de 71 (16 por apurar) FALTANDO APURAR  0,51 % dos votos !  

Pois .... mas então como se sabe que o MPT elegeu apenas 1 deputado e a CDU 3 ? Continuam a faltar .... 2

http://www.europeias2014.mai.gov.pt/

2014 05 26 foto victor nogueira - évora 1975 - feira dominical no Rossio de S. Brás

 As feiras de Évora, Setúbal e Lisboa

O Rossio de S. Brás está praticamente livre de feirantes. Restam apenas as barracas de louças e bugigangas. Depois do meu regresso de Beringel comprei um copo, uma caneca, colheres, um prato e uma tigela, que seria para o "Nestum" mas acabou por ficar para a fruta. (MCG - 1972.07.10)

Hoje será a noite de S. João, de festa para os eborenses, que passearão lá pela Feira.  Este ano há dois circos; o resto é como nos anos anteriores, com a novidade de haver barracas dos partidos políticos, onde comprei umas publicaçõezitas. (1975.06.24)

Hoje é o último dia oficial da Feira de S. João em Évora.  A Feira estava em decadência, cada ano que passava. Mas desta feita, para além de muitas tendas de comerciantes (vestuário, calçado, plásticos, louças, mobiliário), havia as tradicionais de comes e bebes bem como os divertimentos. Não vi o poço da morte - creio ser o 1º ano  que não vem - mas em contrapartida havia 3 pistas de carros eléctricos e nada mais nada menos que 3 circos, acontecimento inédito: o Billy Smart, o Royal e o Mariano. A Celeste foi ao 1º e diz que é igual ao que vimos em Lisboa, no Coliseu. (NSF - 1976.07.05)

(...) Quando era estudante, em Évora, a Feira de S. João era um alvoroço - embora coincidisse com a época apertada de exames - onde a malta ia nas frescas noites, em grupos, passear ou "espairecer" pelas diversões e movimento. Depois, bem, depois a Feira de S. João, como a Santiago, deixaram de ter o encanto de outrora, tal como o circo, maravilha, delícia e alegria sempre renovada da infância. Hoje, do circo, gosto dos palhaços e dos ilusionistas, (embora nem sempre), ao contrário do que sucede nos programas que a TV por vezes transmite. Das feiras, hoje em dia, vejo as exposições e um ou outro espectáculo, extasiando-me nas tendas das vergas e olaria, que jamais compro. (MMA - 1986.07.28)

No regresso passámos por uma feira ali na Luz, em Lisboa, defronte ao Colégio Militar. (1) Era uma feira praticamente de louça e bugigangas, quase todas feias para o meu gosto. Comprei dois bonecos de barro (artesanato). Havia lá umas canecas de barro, em forma de sorridentes e rechonchudos monges (dispunha bem olhar para eles, tinham um ar simpático) Estou arrependido de não ter comprado um. Ficará para a próxima. Aquilo é uma roubalheira. Um tipo tem mesmo de regatear. Chegam a fazer abatimentos de 50 % sobre o preço inicial. Safa! (MCG - 1973.09.19)

A Feira Popular de Lisboa é muito sem graça. Nada nos saiu nas rifas. Não encontrámos as barracas das farturas (seguir o cheiro não foi suficiente). Joguei nas máquinas dos carros de corridas. As pistas dos carros de choques estavam quase vazias e assim não tinha piada andar nelas. De resto são mais caras que em Évora (também alguma diferença deveria haver entre os provincianismos de Évora e de Lisboa). Ah! mas o que gramei, onde apanhei dois valentes sustos, donde saí gelado mas com uma vontade enorme de repetir a proeza, foi na montanha russa. Aquilo é que é emoção! Ao menos enquanto um tipo não se habitua, Duas descidas bruscas (um tipo até trava com os pés, o coração a saltar lhe pela boca), uma curva a grande velocidade, toda inclinada (e um tipo, esquecendo -se da força centrípeta, agarra-se desnecessariamente para não ser projectado)... Também no outro "comboio fantasma", que afinal nada tinha de especial, salvo os ruídos (bater as portas e chiadeira) e a escuridão. Não tem qualquer emoção. (MCG - 1973.09.22)

Começando naquela Igreja e estendendo-se quase até ao Rio, passando ao lado da Igreja de Santa Engrácia, Panteão Nacional, estende-se a Feira da Ladra onde se encontra um pouco de tudo. (2) Especialmente roupa, mas também fardas, sapatos, capacetes de aço e caixas vazias de munições (relíquias da I Guerra Mundial ?), malas, sacos, carteiras, ferro-velho, antiguidades, móveis, moedas... enfim. De tudo o que vi, no entanto, só me interessava um par de candelabros. Mas não cheguei a perguntar o preço. Havia um jardim com vista para o rio e para a parte baixa da Feira. As ciganas vendiam roupa e tinha a sua piada ver as pessoas experimentarem calças por cima das que traziam vestidas. Havia de ser uma grande experimentação! Já eram 17 horas quando lá chegámos. Havia um mar de gente modesta (mais alguns hippies e estrangeiros), que se acotovelava e furava, enquanto os automóveis passavam tangentes aos peões e buzinavam. (3)

.

Não comprei nada. Só me interessavam antiguidades, mas receio ser facilmente enganado, pois não sei avaliar aquela mercadoria. Mas estendais de antiguidades havia poucos; a maioria era ferro-velho: dobradiças, fechaduras, chaves enormes, bicos de fogões a gás... Ouvi lá um negociante de antiguidades dizer a outro que à 3ª feira o negócio é melhor. (XXX - 1973.09.23) 

.

Cheguei há pouco da Feira [de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de conversa com o pessoal conhecido após o jantar lá em baixo no Centro, única maneira de variar o cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para grandes variações e aprendizagens. Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de ter ao lado, para consulta permanente, um dicionário da especialidade, para decifrar os termos técnicos como "refogado" ou "esturgido" e quejandos. (XXX - data ?) (4)

Em Setúbal é tempo da Feira [de Santiago] onde fui duas ou três vezes e onde sempre vou encontrando gente conhecida para dois dedos de conversa. Este ano há apenas uma exposição dedicada a uma das celebridades cá da terra, que foi a cantora lírica Luísa Todi. Falta me ver a parte da cerâmica e olaria, embora este ano já tenha comprado o "recuerdo", cerâmica dum país andino ou como tal vendida. Mais uma "bonecada" ali para uma das estantes, para dificultar a limpeza do malfadado pó que mal acabado de limpar logo renasce dum modo que faria inveja à capacidade reprodutora dos coelhos! (MMA - 1993.08.03)

1 - Realiza-se anualmente, durante o mês de Setembro.

2 - Realiza-se todas as 3ªs feiras e sábados, de manhã. Trata-se duma feira cujas raízes remontam aos tempos medievais.

3 - Outra feira que merece referência é a do Relógio, no bairro de Chelas, aos domingos de manhã.

4 - Passe a publicidade, trata se do Guia Prático de Cozinha, da autoria de Léone Bérard, editado pela Livraria Bertrand em 1977.

domingo, 13 de setembro de 2015

o Mosteiro de Leça do Balio e a Feira Medieval

* Victor Nogueira


Na tarde soalheira em que por aqui passara dias antes não me fora possível tirar fotos  nem visitar a Igreja, então já encerrada. Retornámos para ver a feira medieval, em tarde cinzenta e ameaçando chuva, com o sol descoberto apenas ao final da tarde.

A fundação do mosteiro é anterior ao séc. X, mas da construção românica restam apenas, nas traseiras da igreja, uma ala incompleta do claustro, um portal e uma janela com decoração vegetalista. Foi reedificado no séc. XIV, segundo o modelo das igrejas fortaleza, num estilo de transição entre o românico e o gótico. Foi casa mãe dos Cavaleiros Hospitalários da Ordem de Malta em Portugal, os Hospitalários, a partir do século XII. A fachada principal de estilo gótico, com ampla rosácea radiada e rematada por uma cruz da Ordem de Malta, possui torre de menagem de traça românica, coroada de ameias. No interior, destaca-se a arca tumular de Frei João Coelho, Grão-Mestre da Ordem, com estátua jacente da autoria de Diogo Pires, o Moço, a quem se deve também o cruzeiro. Merece referência a pia baptismal.

Do mosteiro resta apenas a igreja e parte dos claustros românicos. Nas traseiras do Mosteiro passa o rio Leça. Outras igrejas-fortaleza em Portugal são as do Convento de Terena (Alandroal)  e a do Convento da Flor da Rosa (Crato) ou a Sé Velha de Coimbra.

Não assistimos a qualquer recriação histórica nesta que é a 1ª Feira Medieval por mim visitada, esta em torno do Mosteiro de Leça do Balio. Tendas que pretendem assemelhar-se às medievais "abrigam" um pouco de tudo: artesanato, vestuário, calçado, adereços florais, comes e bebes, artigos de couro,  óleos e ervas da "medicina" popular, objectos alusivos ao evento, cartomância .... Em enormes assadeiras com espeto volteiam ao lume porcos inteiros, a carne cortada às lascas para as zonas da comezaina. Numa tenda expôem-se cobras vivas  e um camaleão, dentro de caixas com tampo de vidro. Num cercado estão uma pata, uma galinha, uma cabra e uma porca com os respectivos filhotes. Debaixo dum toldo, corujas, mochos e aves de rapina que não identifico. Junto às margens neste troço verdejantes do rio Leça um mini-estábulo com alguns cavalos. Nas tendas, expostos ao ar e ao vento, os artigos alimentares (doçaria, ervas, carnes ... ) não merecem a atenção dos fiscais da Autoridade da Segurança Alimentar e Económica (ASAE). 

Pelas áleas passam pessoas pretensamente vestidas com trajes medievais: cavaleiros hospitalários, a pé ou a cavalo, freiras, damas, artesãos, gente do povo, saltimbancos ... Alguns adultos e crianças a  cavalo preso pela brida dão pequenas voltas pelo recinto, Nalgumas tendas, perto do que resta dos claustros, situam-se tendas de artesãos medievais, como o ferreiro que faz as cotas de malha.  Junto aos claustros um magote de pessoas ouvem as explicações de alguém - deve ser uma das visitas guiadas - e por entre as grades entre-vejo abancados em torno duma mesa em bancos corrridos o que presumo sejam os "cavaleiros-monge" à hora da refeição.

Vários são os eventos recriados nos 3 dias do certame: a chegada dos peregrinos a Santiago de Compostela, um auto de fé, um torneio a cavalo, a lenda do Ferro Calvo (a prova de Deus), a chegada e o casamento de D. Fernando I com Leonor Telles.


Os visitantes começam a aumentar ao cair da tarde, quando abancamos para jantar: papas de serrabulho, sandes de carne de porco, alheiras e pão com chouriço, regados com sangria e, no meu caso, iced tea

A tarde esteve cinzenta e ameaçando chuva mas ao anoitecer o sol rompeu as nuvens, sem aquecer a brisa fria que escorria.



fotos em


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Santos Populares e Feiras - Victor Nogueira

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Em 1995 resolvi concorrer ao concurso das marchas populares de Setúbal, com pseudónimo.. Fartei-me de ouvir marchas de Lisboa para apanhar o ritmo e o tom, mas não ganhei e, sem falsas modéstias, acho que as vencedoras eram de qualidade inferior ás minhas, que também me parecem "musicáveis". Mas ... enfim ! Na altura as letras vencedoras eram musicadas posteriormente. Mas entretanto passou a ser exigência que as letras fossem acompanhadas pela  respectiva música pelo que terminou a minha carreira "marchista".


Setúbal, terra d'encanto João do Grão



Venham ver a nossa terra
É jardim à beira-mar
Do vale ao cume da serra
Um espelho d'encantar.

Póvoa doce, sem igual,
Pescado com moscatel
Trigo, pão, um laranjal,
Bem perfumado, com mel.



REFRÃO


Ai venham ver,
sem maldade!
Com balões, doce florir,
Gaiata, namoradeira,
Sempre jovem, a sorrir.
E bailando sem canseira
Ai venham ver,
sem maldade!
Ardem nossos corações
Em cravinho de papel,
Cantam Bocage, canções,
Em versinho d'água-mel.
Ai venham ver,
sem maldade!
Com este mar, rio á janela,
Em nós cant'a liberdade
De manjerico, singela.
E azul da mocidade.



Meu amor vem á janela,
São os Santos a bailar,
Vai-te embora, sentinela,
Fiquem todos a cantar.

Com o povo a sorrir
E bondade no olhar,
Sem vontade de partir,
Numa noite de luar!

Setúbal, sempre varina Manuel Vicente






Setúbal sempre varina
Capital do pescador
Terra airosa e mui ladina
Póvoa com sal e calor.

Venham ver a nossa terra
Com arquinho e balões,
Num tempo de paz, sem guerra,
Em florindas tradições.



REFRÃO


Baila Setúbal a cantar,
Gaiata, namoradeira,
Com o Sado ao luar,
Corações numa fogueira!
Baila Setúbal sem parar,
Alegre, bela e vistosa,
Com a brisa a marulhar
Numa canção preciosa.
Baila Setúbal, um altar,
Com giesta e rosmaninho,
Os golfinhos a pular
Numa terra de carinho.



Valha-nos Sant'Antoninho,
Com mil cravos de papel,
Procurand'o sapatinho,
P'ró casamento sem fel.

Cada canção, um desejo
Em cantata de papel,
Manjerico no cortejo
Da nossa terra sem fel.

Setúbal mar de prata Maria Papoila do Mar

Setúbal nasceu,
Com um mar de prata,
Setúbal cresceu,
Generosa e farta.

O rio tem pescado,
No vale com giesta
Por todos bem amado,
Com o povo em festa.

Setúbal navega,
Na sua falua
Vistosa, boneca,
Com o pé na lua.

Cantem os andores,
No azul do céu,
Amam os amores,
Em doce pitéu!

REFRÃO

Venham ver Setúbal,
Airosa e ladina,
Dançando Asdrúbal
Com sua varina.
Venham, não se cansem,
No baile da terra,
A tristeza encerrem,
Com o mel na guelra.
Cantem salmonetes
Saiam da janela
Pulem os pivetes
Na rua singela.

Lá vem Setúbal,
Cheira a rosmaninho
Não é Tentúgal
Mas belo cantinho.

Tem bom moscatel
Doce São João,
Pedro no batel,
António na mão.

Com a boca um beijo,
No arco em foguete,
P'ra matar desejo
Sem qualquer ralhete.

Contem esta trova,
Ao Santo confessa,
Não há Casanova
Sem falsa promessa.


*****

À noite não fui gozar o S. João.   Preferi ir para a cama. Acordei às duas da manhã. Disso se encarregaram as minhas tias  Isabel e Teresa, batendo me suavemente (irra!) com os alhos e falando pelos cotovelos. (Diário III - 1963 - pag. 196) (1)
1 - Trata-se duma festa muito animada, que se desenvolve pela madrugada dentro, sobretudo na encosta das Fontainhas, com os concursos das rusgas e das cascatas.

*****

Uma  única vez fui à noite de Santo António em Lisboa, com as minhas tias Lili e Esperança e mais pessoas amigas. Elas deliciaram-se com as sardinhas assadas  mas eu nada comi. As ruas estavam atravancadas de mesas com barricas cheias  de água nunca mudada e onde mergulhavam a louça talheres e copos dum freguês para o outro, os pratos e copos "lavados" engordurados e os talheres com restos de sardinha agarrados. Era fruta demasiada para o meu estômago e sensibilidade pelo  que passei fome enquanto o pessoal se divertia e em vão me queria convencer a saborear os "pitéus".  [2011.06.23]


 As feiras de Évora, Setúbal e Lisboa

O Rossio de S. Brásxe  §está praticamente livre de feirantes. Restam apenas as barracas de louças e bugigangas. Depois do meu regresso de Beringel comprei um copo, uma caneca, colheres, um prato e uma tigela, que seria para o "Nestum" mas acabou por ficar para a fruta. (MCG - 1972.07.10)
.
Hoje será a noite de S. João, de festa para os eborenses, que passearão lá pela Feira.  Este ano há dois circos; o resto é como nos anos anteriores, com a novidade de haver barracas dos partidos políticos, onde comprei umas publicaçõezitas. (1975.06.24)
.
Hoje é o último dia oficial da Feira de S. João em Évora.  A Feira estava em decadência, cada ano que passava. Mas desta feita, para além de muitas tendas de comerciantes (vestuário, calçado, plásticos, louças, mobiliário), havia as tradicionais de comes e bebes bem como os divertimentos. Não vi o poço da morte - creio ser o 1º ano  que não vem - mas em contrapartida havia 3 pistas de carros eléctricos e nada mais nada menos que 3 circos, acontecimento inédito: o Billy Smart, o Royal e o Mariano. A Celeste foi ao 1º e diz que é igual ao que vimos em Lisboa, no Coliseu. (NSF - 1976.07.05)
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(...) Quando era estudante, em Évora, a Feira de S. João era um alvoroço - embora coincidisse com a época apertada de exames - onde a malta ia nas frescas noites, em grupos, passear ou "espairecer" pelas diversões e movimento. Depois, bem, depois a Feira de S. João, como a Santiago, deixaram de ter o encanto de outrora, tal como o circo, maravilha, delícia e alegria sempre renovada da infância. Hoje, do circo, gosto dos palhaços e dos ilusionistas, (embora nem sempre), ao contrário do que sucede nos programas que a TV por vezes transmite. Das feiras, hoje em dia, vejo as exposições e um ou outro espectáculo, extasiando-me nas tendas das vergas e olaria, que jamais compro. (MMA - 1986.07.28)
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No regresso passámos por uma feira ali na Luz, em Lisboa, defronte ao Colégio Militar. (1) Era uma feira praticamente de louça e bugigangas, quase todas feias para o meu gosto. Comprei dois bonecos de barro (artesanato). Havia lá umas canecas de barro, em forma de sorridentes e rechonchudos monges (dispunha bem olhar para eles, tinham um ar simpático) Estou arrependido de não ter comprado um. Ficará para a próxima. Aquilo é uma roubalheira. Um tipo tem mesmo de regatear. Chegam a fazer abatimentos de 50 % sobre o preço inicial. Safa! (MCG - 1973.09.19)
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A Feira Popular de Lisboa é muito sem graça. Nada nos saiu nas rifas. Não encontrámos as barracas das farturas (seguir o cheiro não foi suficiente). Joguei nas máquinas dos carros de corridas. As pistas dos carros de choques estavam quase vazias e assim não tinha piada andar nelas. De resto são mais caras que em Évora (também alguma diferença deveria haver entre os provincianismos de Évora e de Lisboa). Ah! mas o que gramei, onde apanhei dois valentes sustos, donde saí gelado mas com uma vontade enorme de repetir a proeza, foi na montanha russa. Aquilo é que é emoção! Ao menos enquanto um tipo não se habitua, Duas descidas bruscas (um tipo até trava com os pés, o coração a saltar lhe pela boca), uma curva a grande velocidade, toda inclinada (e um tipo, esquecendo -se da força centrípeta, agarra -se desnecessariamente para não ser projectado)... Também no outro "comboio fantasma", que afinal nada tinha de especial, salvo os ruídos (bater as portas e chiadeira) e a escuridão. Não tem qualquer emoção. (MCG - 1973.09.22)
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Começando naquela Igreja e estendendo-se quase até ao Rio, passando ao lado da Igreja de Santa Engrácia, Panteão Nacional, estende-se a Feira da Ladra onde se encontra um pouco de tudo. (2) Especialmente roupa, mas também fardas, sapatos, capacetes de aço e caixas vazias de munições (relíquias da I Guerra Mundial ?), malas, sacos, carteiras, ferro-velho, antiguidades, móveis, moedas... enfim. De tudo o que vi, no entanto, só me interessava um par de candelabros. Mas não cheguei a perguntar o preço. Havia um jardim com vista para o rio e para a parte baixa da Feira. As ciganas vendiam roupa e tinha a sua piada ver as pessoas experimentarem calças por cima das que traziam vestidas. Havia de ser uma grande experimentação! Já eram 17 horas quando lá chegámos. Havia um mar de gente modesta (mais alguns hippies e estrangeiros), que se acotovelava e furava, enquanto os automóveis passavam tangentes aos peões e buzinavam. (3)
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Não comprei nada. Só me interessavam antiguidades, mas receio ser facilmente enganado, pois não sei avaliar aquela mercadoria. Mas estendais de antiguidades havia poucos; a maioria era ferro-velho: dobradiças, fechaduras, chaves enormes, bicos de fogões a gás... Ouvi lá um negociante de antiguidades dizer a outro que à 3ª feira o negócio é melhor. (XXX - 1973.09.23)
.
Cheguei há pouco da Feira [de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de conversa com o pessoal conhecido após o jantar lá em baixo no Centro, única maneira de variar o cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para grandes variações e aprendizagens. Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de ter ao lado, para consulta permanente, um dicionário da especialidade, para decifrar os termos técnicos como "refogado" ou "esturgido" e quejandos. (XXX - data ?) (4)
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Em Setúbal é tempo da Feira [de Santiago] onde fui duas ou três vezes e onde sempre vou encontrando gente conhecida para dois dedos de conversa. Este ano há apenas uma exposição dedicada a uma das celebridades cá da terra, que foi a cantora lírica Luísa Todi. Falta me ver a parte da cerâmica e olaria, embora este ano já tenha comprado o "recuerdo", cerâmica dum país andino ou como tal vendida. Mais uma "bonecada" ali para uma das estantes, para dificultar a limpeza do malfadado pó que mal acabado de limpar logo renasce dum modo que faria inveja à capacidade reprodutora dos coelhos! (MMA - 1993.08.03)

1 - Realiza-se anualmente, durante o mês de Setembro.
2 - Realiza-se todas as 3ªs feiras e sábados, de manhã. Trata-se duma feira cujas raízes remontam aos tempos medievais.
3 - Outra feira que merece referência é a do Relógio, no bairro de Chelas, aos domingos de manhã.
4 - Passe a publicidade, trata se do Guia Prático de Cozinha, da autoria de Léone Bérard, editado pela Livraria Bertrand em 1977.