Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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segunda-feira, 15 de junho de 2026

50 anos da Constituição de Abril (2026)

 

* Victor Nogueira

JST 133 | P6 | LINHA DO TEMPO – versão final 02

 

DO PROJECTO EMANCIPATÓRIO À PERIFERIA EUROPEIA

50 anos da Constituição de Abril

 

A CRP de 1976 consagrava a transição para o Socialismo, a apropriação colectiva dos meios de produção, o Poder Local Democrático, a Reforma Agrária e o controle operário. Mas as várias revisões introduziram-lhe graves retrocessos e a adesão à CEE levou ao desmantelamento progressivo deste projecto.

O retrocesso iniciou-se em 1982 com a eliminação do controlo de produção pelos trabalhadores, mas o verdadeiro ponto de viragem ocorreu na 2.ª Revisão (1989), que reverteu a irreversibilidade das nacionalizações. O poder político abriu caminho à privatização de sectores estratégicos (banca, energia, transportes e telecomunicações), alienando o património público e entregando monopólios lucrativos a consórcios privados e capitais estrangeiros, com alienação da soberania nacional.

A adesão à União Europeia (UE) foi ‘vendida’ como sinónimo de modernização e progresso. Na realidade Portugal aceitou quotas de produção que levaram ao desmantelamento da agricultura familiar, ao abate da frota pesqueira e à desindustrialização. No plano laboral e social Bruxelas foi um motor de desregulamentação.

A revisão de 1989 mercantilizou a saúde ao alterar o SNS de "gratuito" para "tendencialmente gratuito" e a revisão de 1992, com os critérios de Maastricht, submeteu os direitos sociais e os salários ao controlo obsessivo do défice, subordinando o Estado Social e os direitos laborais e das populações aos interesses do grande capital e às directrizes impostas e provenientes de Bruxelas. Os direitos à Habitação, à Educação e à Segurança Social foram esvaziados de conteúdo.

Nas frentes ambiental e cultural a CRP passou a reflectir a mesma subordinação ao mercado. Embora o art.º 66.º tenha acolhido conceitos como "utilização racional dos recursos" (1989) e "desenvolvimento sustentável" (1997), a prática ditada pelas directivas económicas europeias converteu a ecologia num activo financeiro.

Sob o pretexto do progresso financiado por fundos, assistiu-se à desertificação do interior do território, à destruição de ecossistemas pela monocultura intensiva e à privatização de monopólios naturais, como a gestão da água e resíduos. 

No plano cultural a promessa original de "democratização da cultura" e salvaguarda do património (reforçada em 1989) foi asfixiada pelo subfinanciamento crónico, tendo a cultura deixado de ser vista como um direito de emancipação para integrar as "indústrias criativas" voltadas para o consumo turístico.

O património histórico foi mercantilizado e alienado à especulação imobiliária, e conquistas como o reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa (1997) ou a valorização do Mirandês (2004) surgem isoladas num panorama em que os criadores artísticos foram empurrados para a intermitência e para a precariedade absoluta.

ACTO DE RESISTÊNCIA E COMBATE

A inserção na UE fez com que o País transitasse dum projecto de democracia económica, política, social e cultural avançada para uma periferia dependente. O texto resultante de sucessivas revisões introduziu um crescente desequilíbrio entre o capital e o trabalho, subordinando os direitos, liberdades e garantias das populações e dos trabalhadores à financeirização da economia e do lucro máximo, a qualquer preço.

No 50.º aniversário da sua promulgação, a CRP ‘76 está sujeita a um violento ataque para que sofra um retrocesso ainda mais radical. Não obstante, mesmo amputada, ainda constitui um obstáculo para as forças antipopulares.

Comemorar os seus 50 anos é um acto de resistência e combate. Os direitos, liberdades e garantias fundamentais que nela persistem continuam a ser a trincheira das populações e dos trabalhadores contra a barbárie neoliberal.

Reerguer o projecto de uma sociedade justa, soberana, inclusiva e solidária, defensora da Paz e da solidariedade entre os povos, é uma tarefa inalienável. Defender a CRP hoje – contra as tentativas latentes de a desfigurarem ainda mais – exige trazer de volta a força colectiva das populações e dos trabalhadores, nas ruas e nos locais de trabalho.

E a melhor forma de defender a Lei Fundamental é devolver ao Povo o direito de decidir o seu próprio destino e futuro, numa democracia avançada, política, económica, social e cultural. Cumprindo Abril em Maio.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Evolução da CRP '76 ~ do Projecto Emancipatório à Periferia Europeia

 

* Victor Nogueira

Foi na rua, nos locais de trabalho e de residência que os trabalhadores e as populações foram conquistando direitos e liberdades que até 1974 lhes eram negados. A Constituição da República Portuguesa (CRP) de 1976, promulgada há 50 anos, consagrava a transição para o socialismo, a apropriação colectiva dos meios de produção, o poder local democrático, a reforma agrária e o controlo operário. Contudo revisões subsequentes introduziram graves retrocessos no texto original. Paralelamente, a adesão à CEE/UE levou ao desmantelamento progressivo deste projecto.

O retrocesso iniciou-se em 1982 com a eliminação do controlo de produção pelos trabalhadores, mas o verdadeiro ponto de viragem ocorreu na 2.ª Revisão (1989), que reverteu a irreversibilidade das nacionalizações. O poder político abriu caminho à privatização de sectores estratégicos (banca, energia, transportes e telecomunicações), alienando o património público e entregando monopólios lucrativos a consórcios privados e capitais estrangeiros, com alienação da soberania nacional.

A adesão à União Europeia foi ‘vendida’ como sinónimo de modernização e progresso. Na realidade, Portugal aceitou quotas de produção que levaram ao desmantelamento da agricultura familiar, ao abate da frota pesqueira e à desindustrialização. No plano laboral e social, Bruxelas foi um motor de desregulamentação. A Revisão de 1989 mercantilizou a saúde ao alterar o SNS de "gratuito" para "tendencialmente gratuito" e a Revisão de 1992, com os critérios de Maastricht, submeteu os direitos sociais e os salários ao controlo obsessivo do défice, subordinando o Estado Social, e os direitos laborais e das populações aos interesses do grande capital e às directrizes impostas  e provenientes de Bruxelas.

Nas frentes ambiental e cultural, a CRP passou a reflectir a mesma subordinação da soberania ao mercado. Embora o Artigo 66.º tenha acolhido conceitos como "utilização racional dos recursos" (1989) e "desenvolvimento sustentável" (1997), a prática ditada pelas metas económicas europeias converteu a ecologia num activo financeiro. Sob o pretexto do progresso financiado por fundos, assistiu-se à desertificação do interior do território, à destruição de ecossistemas pela monocultura intensiva e à privatização de monopólios naturais, como a gestão da água e resíduos.  

No plano cultural, a promessa original de "democratização da cultura" e salvaguarda do património (reforçada em 1989) foi asfixiada pelo subfinanciamento crónico. A cultura deixou de ser vista como um direito de emancipação para integrar as "indústrias criativas" voltadas para o consumo turístico. O património histórico foi mercantilizado e alienado à especulação imobiliária, Conquistas como o reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa (1997) ou a valorização do Mirandês (2004) surgem isoladas num panorama onde os criadores artísticos foram empurrados para a intermitência e para a precariedade absoluta.

Em suma, a inserção na União Europeia fez com que  o País transitasse dum projecto de democracia económica, política, social e cultural avançada para uma periferia dependente. O texto resultante de sucessivas revisões introduziu um crescente desequilíbrio entre o Capital e o Trabalho, subordinando os direitos, liberdades e garantias das populações e dos trabalhadores à financeirização da economia e do lucro máximo, a qualquer preço. 

No 50º aniversário da sua promulgação, está sujeita a um violento ataque para que sofra um retrocesso ainda mais radical. Não obstante, mesmo amputada, a CRP 76 ainda constitui um obstáculo para as forças antipopulares.

Comemorar os 50 anos da CRP é um acto de resistência e combate. Os direitos. Liberdades e garantias fundamentais que nela persistem continuam a ser a trincheira das populações e dos trabalhadores contra a barbárie neoliberal. Defender a CRP hoje — contra as tentativas latentes de a desfigurarem ainda mais — exige trazer de volta a força das ruas, dos locais de trabalho e das populações que a ergueram em Abril.    Reerguer o projecto de uma sociedade justa, soberana e solidária, defensora da Paz e da solidariedade entre os povos, é a uma tarefa inalienável. A melhor forma de defender a Lei Fundamental é cumprir e fazer cumprir Abril, devolvendo ao povo o direito de decidir o seu próprio destino e futuro, numa democracia avançada, política, económica, social e cultural.

 Jornal do STAL 133 - 2026 Junho

Imagens geradas pelo Google Gemini e chatGPT tendo como guião os dois últimos parágrafos do texto

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

50 anos de luta pela Igualdade

 

Jornal do STAL 132 

Linha do Tempo

Victor Nogueira

50 anos de luta pela Igualdade

Da subalternização à cidadania plena, as mulheres portuguesas têm percorrido um longo caminho na conquista dos direitos laborais e da igualdade de oportunidades.

O Estado Novo agravou a subalternidade das mulheres, proveniente do século XIX. A discriminação baseava-se na ideologia da “mulher mãe e dona de casa” e na inferioridade feminina, que reservava para os homens as funções de autoridade. Havia profissões vedadas às mulheres, como as forças armadas, diplomacia, magistratura ou cargos de chefia no Estado, outras impunham que fossem solteiras (enfermeiras hospitalares, hospedeiras da TAP e telefonistas) e algumas exigiam autorização ministerial para casarem (professoras do ensino primário). A violação destas normas implicava o despedimento.

A isto somava-se a faculdade do marido poder livremente denunciar o contrato de trabalho da mulher casada. Esta dependia da autorização marital para abrir contas bancárias, exercer o comércio por conta própria, integrar sociedades de responsabilidade ilimitada sem autorização do cônjuge, que as podia revogar a qualquer momento. O “chefe de família” controlava ainda a correspondência da mulher, decidia se esta podia viajar para o estrangeiro e administrava livremente os bens desta, qualquer que fosse a sua origem. Apenas as mulheres solteiras e as viúvas podiam, em condições estritas, ser “chefes de família”. Se casassem ou tivessem filhos maiores, perdiam esse estatuto, ficando subordinadas à autoridade masculina.

Em 1933 /34 ampliou-se a capacidade eleitoral feminina, mas só para quem tivesse curso secundário ou superior, num país onde o analfabetismo entre as mulheres era dominante e a escolaridade delas nada incentivado e pouco facilitado. Algumas restrições suavizaram-se com o Código Civil de 1967, mas o Código Comercial de 1888 e a Constituição de 1933 mantiveram desigualdades. 

A Revolução dos Cravos alterou radicalmente esta realidade. Nas ruas e nos locais de trabalho, as mulheres conquistaram a igualdade, participando e liderando lutas sociais. A Constituição de 1976 consagrou a igualdade de direitos, proibiu a discriminação e reconheceu o trabalho feminino. O acesso ao ensino, à autonomia jurídica e à participação política transformaram o papel da mulher. No entanto, a igualdade jurídica não eliminou ainda as barreiras ideológicas, culturais, económicos e sociais, que persistem e limitam  e condicionam a participação social e política femininas e a plena igualdade.

Apesar de mais qualificadas, as mulheres continuam confinadas a sectores marcados por baixos salários e precariedade — educação, saúde, limpeza, apoio social — enquanto as áreas dominadas por homens oferecem melhores remunerações e progressão. O fosso salarial mantém-se entre 12% e 14%. Não por falta de mérito, mas porque o peso do trabalho doméstico, invisível e não remunerado, continua a recair sobre as mulheres, limitando a sua disponibilidade e servindo de justificação para a sua subalternização ou exclusão.  

A comparação entre privado e público é reveladora: a igualdade predomina na Administração Pública, sobretudo na Central, enquanto a desigualdade é a regra no sector privado, especialmente nas grandes empresas; quanto maior a responsabilidade hierárquica e a autonomia profissional, menor a presença feminina.

 A sociedade portuguesa continua a penalizar a maternidade, a tolerar discriminações, empurrando as mulheres para secundarização profissional, social e política.

Os avanços em Portugal resultam em grande parte da luta das mulheres, da acção sindical e de políticas públicas que defendem a conciliação entre vida familiar e laboral, combatem a discriminação salarial e alargaram os direitos parentais. Mas a igualdade efectiva ainda não é uma realidade.  Cinquenta anos depois de Abril, a luta continua. Pela igualdade, pela justiça social e por uma sociedade verdadeiramente igualitária, livre e solidária.

~~~~~~ 

Leituras complementares

“Mulheres e Revolução”, de Maria Velho da Costa, in https://www.urap.pt/index.php/cultura-mainmenu-42/961-revolucao-e-mulheres-de-maria-velho-da-costa

“Calçada de Carriche”, de António Gedeão, in https://www.citador.pt/poemas/calcada-de-carriche-antonio-gedeao

quarta-feira, 8 de março de 2023

Mulher: Luta(s) pela Igualdade

 


Jornal do STAL nº 124 - 2023 Março

* Victor Nogueira  

As mulheres são cerca de 50 % da Humanidade,  sujeitas às mesmas ou mais agravadas condições de trabalho, exploração e restrição dos direitos socio-económicos.  (1)

Na Revolução Francesa   Olympe de Gouges contrapôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (2), em oposição ao patriarcado da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Devido às suas ideias revolucionárias, Olympe  foi guilhotinada em 1793. A igualdade entre homens e mulheres foi foi reconhecida pela efémera Comuna de Paris (1871), sangrentamente reprimida pela burguesia europeia.

Em 1910  na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, Clara Zetkin  e Alexandra Kollontai propuseram a criação do Dia Internacional da Mulher, como jornada anual de luta pelo direito de voto para as mulheres, pela igualdade dos sexos e pelo socialismo. 

O primeiro Dia Internacional da Mulher foi e 19 Março 1911. Posteriormente, passou a 8 de Março. Com efeito, neste dia, em 1857,  nos EUA,  na sequência da violenta repressão dum protesto por melhores condições de trabalho,  130 tecelãs morreram carbonizadas.

A luta pela igualdade entre homens e mulheres e pelos direitos destas e do proletariado foi uma constante. A Revolução Russa de 1917 é uma importante etapa, ao reconhecer e aplicar os direitos dos trabalhadores e a igualdade entre homens e mulheres, servindo de guia para as lutas pela igualdade e anticapitalistas que se lhe seguiram por todo o Mundo.

Em Portugal a igualdade formal entre sexos só foi alcançada com a Constituição de 1976, embora cada vez mais os sucessivos governos ao serviço do capital limitem os direitos de todos os trabalhadores, atingindo com especial gravidade as mulheres. (3)  (4) (5) (6)


(1) urap.pt/index.php/cultura-mainmenu-42/961-revolucao-e-mulheres-de-maria-velho-da-costa 

(2) dhnet.org.br/direitos/anthist/mulheres.htm 

(3) repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/146221/2/595246.pdf 

(4) publico.pt/2020/09/27/sociedade/noticia/cem-anos-lutas-femininas-feministas-portugal-exemplo-pioneiras-1932367 

(5) fem.org.pt/feminismos/ 

(6) fem.org.pt/contributo-para-a-contextualizacao-historica-das-lutas-feministas-na-historia-mundial-e-em-portugal-1848-1950/

~~~~~~o0o~~~~~~

VER, de Victor Nogueira:


«A luta das mulheres» 

in https://aoescorrerdapena.blogspot.com/2013/03/victor-nogueira-luta-das-mulheres.html

«A mulher e o mundo do trabalho - igualdade por cumprir» 

in https://aoescorrerdapena.blogspot.com/2013/03/victor-nogueira-mulher-e-o-mundo-do.html

«Tanta gente, Mariana, tanta gente» 

in https://aoescorrerdapena.blogspot.com/2017/12/tanta-gente-mariana-tanta-gente.html

«A ideia e a prática da inferioridade "congénita" da mulher» 

in https://aoescorrerdapena.blogspot.com/2014/07/a-ideia-e-pratica-da-inferioridade.html

«As públicas virtudes e os vícios privados, "comme il faut"» 

in https://aoescorrerdapena.blogspot.com/2014/07/as-publicas-virtudes-e-os-vicios.html

domingo, 14 de agosto de 2022

Adriano, uma voz na Revolução

 


José Barata Moura, Vitorino, José Jorge Letria, Manuel Freire, Fausto, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira no I Encontro da Canção Popular - Lisboa, Coliseu, 1974 03 29 


* Victor Nogueira

Os anos ’60 e ‘70 do século XX foram em Portugal tempos de lutas contra o fascismo, de lutas por melhores condições de vida e de trabalho. Os anos ’60 são também anos do ascenso á independência das colónias europeias em África, não poucas vezes como resultado da luta armada. Também os estudantes das Academias de Coimbra e de Lisboa se vão paulatinamente associando a esses movimentos, sobretudo partir de 1961. Por essa altura Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça iniciam um processo etnográfico de recolha da música popular portuguesa. (1)

Paralelamente a chamada canção ou fado de Coimbra transforma-se, tornando-se socialmente interventiva ou baseada em temas populares, em que se destacam Edmundo de Bettencourt, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Este Canto Livre ou de Intervenção é também o de Luís Cila, Francisco Fanhais, Fausto, José Mário Branco, Vitorino e Manuel Freire, entre muitos outros. Com eles a cantiga é uma arma por uma sociedade mais igualitária e justa, que se projectou nos anos depois de Abril e da revolução. (2)

Adriano (1942 / 1982) distingue-se pelo timbre e clareza da sua voz, percorrendo Portugal e divulgando a poesia e temas populares.

“O Canto e as Armas” (1969), com poemas de Manuel Alegre, inclui a “Trova do vento que passa”, que se tornou uma das canções emblemáticas da luta pela democracia e contra o fascismo e a guerra colonial. Entre as suas gravações musicais Adriano contam-se sete LP’s (3) (4)

Tendo militado no PCP desde os tempos de estudante e até á sua morte, a sua vida foi de luta ao lado dos espoliados e pelo ideal socialista, em que se empenhou, integrado no colectivo com que se identificava, para que o poder pertença aos trabalhadores e às classes populares.

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(1)    comunidadeculturaearte.com/a-musica-portuguesa-a-descobrir-se-com-michel-giacometti-e-fernando-lopes-graca/

(2)    www.dip-badajoz.es/cultura/ceex/reex_digital/reex_LXII/2006/T.%20LXII%20n.%203%202006%20sept.-dic/RV000892.pdf

(3)    www.discogs.com/artist/1328881-Adriano-Correia-De-Oliveira

(4)    www.redalyc.org/pdf/822/82242883014.pdf

2022 08 10

terça-feira, 19 de abril de 2022

Paz, pão, igualdade, liberdade e democracia



* Victor Nogueira


Neste século XXI, com a guerra como fenómeno larvar, difíceis são os caminhos da Paz. É urgente, pois, defender e reforçar a Amizade, a Cooperação e a Solidariedade entre os Povos, sem os quais os conflitos poderão levar à extinção da vida sobre o planeta Terra.

Na Grécia antiga, as guerras eram suspensas durante as Olimpíadas. Na Idade Média, a “Trégua de Deus” proibia os combates de sexta à segunda-feira seguinte e a “Paz de Deus” interditava ataques aos templos cristãos e às populações desarmadas.

No século XVII, no fim de várias guerras europeias, uma série de tratados – conhecidos como “Paz de Vestfalia” – afirmou como princípios a soberania e a igualdade jurídica entre os estados, a territorialidade dos mesmos, o equilíbrio de poder e a não intervenção. Nada disto impediu, contudo, posteriores conflitos sangrentos, na Europa e fora dela. (1)

O direito à Paz Universal ganhou especial acuidade no fim da I Grande Guerra, com a criação da Sociedade das Nações que, inoperante, não impediu a II Guerra Mundial. No termo desta é criada a Organização das Nações Unidas, com a meta de preservar a paz no Mundo, em conjunto com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. (2)

A Carta da ONU (1945) afirma o conceito de segurança colectiva, em articulação com tratados para a proibição e não-proliferação de Armas Nucleares, Químicas e Biológicas. (3)

O fim do Bloco Socialista europeu levou a nova fase nas relações internacionais, subalternizando a ONU, os EUA e a NATO foram ganhando crescente intervencionismo por todo o Planeta, pondo em causa o conceito de segurança colectiva, contrariando a Acta Final de Helsínquia, de 1975. Nesta, a URSS e 32 estados europeus, em conjunto com os EUA e o Canadá, tinham reafirmado princípios reguladores baseados na segurança colectiva e desenvolvimento de relações de cooperação entre os Estados, destacando-se a igualdade soberana destes, a não intervenção nas questões internas dos mesmos, a reafirmação da resolução pacífica dos diferendos internacionais, o respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais, a autodeterminação dos povos e a igualdade de direitos. (4)

Neste século XXI, com a guerra como fenómeno larvar, difíceis são os caminhos da Paz. É urgente pois, preciso reforçar defender e reforçar a Amizade, a Cooperação e a Solidariedade entre os Povos, sem os quais os conflitos poderão levar à extinção da vida sobre o planeta Terra.


Jornal do  Stal 22 Abril 2022

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(1) www.ipris.org/files/18/C_18_A_paz_de_Westfa_lia_a_histo_ria_do_sistema_de_Estados_moderno.pdf

(2) pt.wikipedia.org/wiki/Direitos_humanos

(3) unric.org/pt/direito-internacional-e-justica/

(4) www.cppc.pt/dossiers/temas/paz-e-desenvolvimento/1030-4oanos-acta-helsinquia-solido-caminho-para-a-paz-para-o-futuro


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Bento Jesus Caraça, Intervir, Ensinar e Aprender!


* Victor Nogueira    

Nascido há 120 anos, no Alentejo, Bento de Jesus Caraça, filho de gente modesta, teve a sorte, naquele tempo, de quem se apercebesse da sua grande capacidade intelectual e lhe favorecesse prosseguir estudos muitíssimo para lá das primeiras letras, obtendo a licenciatura no então Instituto Superior de Comércio, de que viria ser professor catedrático na área das Matemáticas, até ser demitido pelo Governo de Salazar, como sucedeu a muitos outros intelectuais. (1). 

Desde sempre com uma intensa intervenção social e cívica, militante do Partido Comunista Português, interveio nos movimentos oposicionistas, como o Socorro Vermelho, MUNAF e MUD (2), sendo fundador de várias associações científicas e da Gazeta da Matemática, para além da Biblioteca Cosmos, de divulgação científica e cultural (3).

Esta foi concebida de acordo com o seu pensamento como actor social, definido em muitos das suas intervenções, como as Conferências “A Formação Integral do Individuo Problema Central do Nosso Tempo” e “Escola Única”. Defendia que o conhecimento não pode ser privilégio de alguns, mas sim ser largamente disponibilizado às massas populares, preconizando a existência da escola pública universal, gratuita e de qualidade. Nesse sentido participou também nas actividades da Universidade Popular Portuguesa, fundada em 1919, que veio a ser extinta em 1933, na sequência do Golpe de Estado de 1926. (4)

Vigiado e preso pela PIDE, com a saúde debilitada, Bento de Jesus Caraça faleceu, prematuramente, em 1948. Depois de Abril o seu nome foi dado à escola de Formação Profissional da CGTP, tendo sido inaugurada a sua Casa-Museu em Vila Viçosa, em 2013.

(1)   maismemoria.org/mm/2011/11/25/notas-biograficas-dos-investigadores-e-docentes-alvo-de-depuracao-politica-das-universidades-portuguesas-pelo-estado-novo/

(2)   arquivos.rtp.pt/conteudos/legal-q-b/

(3)   webpages.ciencias.ulisboa.pt/~ommartins/seminario/bento%20caraca/biblioteca.htm

(4)   webpages.ciencias.ulisboa.pt/~ommartins/seminario/bento%20caraca/universidade.htm


Jornal do STAL 119 – 2021 Junho



segunda-feira, 2 de agosto de 2021

150 anos da I Internacional e 50 anos da CGTP-IN


* Victor Nogueira

A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) ou I Internacional, criada em 1864, é a 1.ª organização operária internacionalista, reunindo diversificadas correntes ideológicas da Europa e dos EUA. Karl Marx, que redigira os Estatutos, proferiu o discurso inaugural (1) (2)

 

A AIT, onde participaram movimentos camponeses, teve um papel crucial na organização do movimento operário, desenvolveu a consciência internacionalista de classe, lutou pela jornada de trabalho de 8 horas e reivindicou a igualdade entre homens e mulheres (3). Membros seus participaram na Comuna de Paris (1871), alvo de sangrenta repressão.

A organização cindiu-se em 1872, fruto da divergência entre as vias reformista e revolucionária, sendo dissolvida em 1876. Mas o seu legado foi assumido e continuado pela II (1889/1916) e pela III Internacional (1919/1943).

Há 150 anos, a I Internacional contacta os socialistas portugueses para a criação da Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa, apoiando as lutas operárias e contribuindo para a fundação do Partido Socialista Português (1875/1933).

Em Portugal houve um crescendo nas lutas operárias desde o séc. XIX, movimento que apoiou a implantação da República, em 1910.  O golpe militar de 1926 levou à violenta repressão sobre as organizações operárias, com restrição de direitos e liberdades, proibição de partidos políticos e formação de sindicatos “corporativos”, de “conciliação de classes”, o que não impediu a continuação das lutas dos trabalhadores, com intervenção activa do PCP, fundado em 1921, incluindo manifestações e greves por melhores condições de vida e de trabalho.

Em 1971, vários sindicatos fundam a Intersindical (actual CGTP) e aprovam, em 1972, o Programa Básico, no qual exigem as liberdades e direitos de reunião, associação, negociação e sindical, incluindo o direito à greve, entre outros. (4)



(1)            www/snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300844724_ARQUIVO_ArtigosobreMarxeaComunadeParis.pdf

(2)            www/marxists.org/portugues/marx/1864/10/27.htm

(3)            analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223913233Q1vMV4bm8Dx81FA4.pdf

(4)             www.cgtp.pt/











Jornal do STAL 120 - 2021 09

terça-feira, 28 de abril de 2020

Um 1º de Maio no tempo do fascismo [1962]

* Victor Nogueira
O 1º de Maio é um dia dos trabalhadores comemorado em muito países desde 1889, por vezes em festa mas quase sempre em luta por melhores condições de vida e de trabalho. O mesmo sucedeu em Portugal na longa noite fascista, apesar de repressão e da negação de direitos elementares, como os de associação, manifestação e reunião.
Ao folhear jornais desse tempo encontramos o 1º de Maio de 1962 segundo o Diário de Notícias de 3 de Maio, de que transcrevemos partes essenciais, mantendo os subtítulos originais:.
"O 1º de Maio foi assinalado em Lisboa por desagradáveis acontecimentos ocorridos ao fim da tarde, em várias artérias da Baixa. Os incidentes, com correrias e muito alarido, desenrolaram-se à hora em que o movimento era mais intenso (aquando do encerramento das actividades quotidianas) voltando a repetir-se à noite, após terminados os espectáculos, lançando a confusão e envolvendo a população ordeira que, nas duas circunstâncias, só tinha a preocupação de regressar aos lares.(...) Através de uma intensa propaganda por meio de panfletos clandestinos espalhados pela cidade e distribuídos de várias formas ilícitas, os perturbadores, além de pretenderem incitar as classes trabalhadoras a concentrarem-se na Praça do Comércio [em Lisboa] para apresentarem certas reivindicações, instigavam-nos também a faltar ao trabalho.
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Num belo exemplo de ordem e de compreensão, ninguém faltou à fábrica ou oficina, ao escritório ou ao estabelecimento, numa inequívoca afirmação de que o povo de Lisboa - e de todo o País, aliás - quer continuar a viver na ordem, na paz e no trabalho.

A despeito da indiferença da população e dos trabalhadores, as entidades governativas ordenaram medidas especiais de segurança, tendo a PSP montado um dispositivo de vigilância e de patrulhamento na zona do Terreiro do Paço, onde foram estabelecidas as aconselháveis precauções. Junto das esquadras da área foram concentradas forças para acorrer em caso de necessidade, enquanto os automóveis das brigadas moveis [da Legião Portuguesa] não deixaram de percorrer a zona. Também foram montados serviços de vigilância, nas gares e estações, como medida de precaução. (...)"
."Aparece um grupo de desordeiros"
Mas pouco depois das 18,30, formaram-se grupos de indivíduos que, a pretexto da detenção de três desordeiros (...) injuriaram e vaiaram a polícia, tentando rodear um carro patrulha.
Acorreram os pelotões ao mesmo tempo que os grupos de desordeiros engrossavam, envolvendo, na massa, as muitas pessoas que transitavam despreocupadas. (...)
A força policial tentou afastar a multidão que então se formara num ápice, aconselhando, através de potentes altifalantes portáteis, as pessoas ordeiras a afastarem-se, o que muitos fizeram, e outros, embora o quisessem, não o conseguiram.
Á desobediência seguiu-se a tentativa de resistência e a Polícia viu-se obrigada a carregar de bastão em riste, no meio de gritaria e insultos dos manifestantes, sucedendo-se as correrias.
Não sem bastante trabalho a Polícia conseguiu fazer evacuar da praça, do lado oriental, os que ali se concentravam, tendo estes e mais outros grupos que então se formaram subido as ruas Augusta, da Prata e dos Fanqueiros. Nesta última artéria diversos díscolos desligaram os "trolleys" dos carros eléctricos para provocar o congestionamento do trânsito.

(...) Um carro patrulha da PSP foi igualmente atacado por outro grupo de díscolos (e a respectiva) "tripulação teve de sair e disparar alguns tiros para o ar, pondo em fuga os atacantes.
A Polícia teve de carregar novamente e os desordeiros, muito aumentados e continuando a misturar-se com a multidão que procurava, em vão, afastar-se desses locais, fugiam dum lado para logo aparecerem e se reagruparem noutro.
Em dada altura a situação piorou por motivo de alguns amotinados começarem a apedrejar os agentes da autoridade, que continuavam a dispersar os desordeiros, e os motins aumentaram.
Disparos para o ar para intimidar os desordeiros
Perante a agressão praticada pelos desordeiros a Polícia viu-se na necessidade de empunhar as armas de fogo para impor respeito e intimidar os díscolos. Várias descargas, algumas de armas automáticas, foram feitas para o ar e durante algum tempo ouviu-se tiroteio.
Os elementos provocadores não cessaram entretanto a sua actividade, procurando alastrar a confusão até à Praça da Figueira e Martim Moniz, para onde fugiram perseguidos pela força pública.

O aparecimento de um esquadrão de cavalaria da GNR facilitou depois a tarefa da polícia, abreviando a dispersão dos desordeiros.
Atingido mortalmente quando actuava com os desordeiros na área da Madalena
A despeito de a Polícia haver feito as descargas para o ar, com a preocupação de não atingir a multidão, alguns projecteis disparados mais baixo atingiram seis dos manifestantes e até mesmo um polícia foi ferido por uma bala.
Dos desordeiros atingidos um deles teve morte imediata, pois um projéctil atravessou-lhe o crânio (...)
Voltaram a repetir-se incidentes à noite
À noite, como atrás dissemos, depois de terminarem os espectáculos, outros grupos de desordeiros voltaram a tentar perturbar a ordem no Rossio e proximidades, obrigando os esquadrões da GNR e os pelotões da PSP a intervir mais uma vez. (...)
Num breve momento a Polícia teve de disparar alguns tiros de advertência.
Mais de uma centena de detenções.
No decorrer dos acontecimentos da tarde e da noite foram detidos mais de cem indivíduos que foram entregues à PIDE, que está a proceder a investigações sobre as suas actividades e apurar as responsabilidades que lhes cabem.
Entre as detenções efectuadas à noite figuravam duas senhoras e um homem que, dentro de um automóvel em que seguiam e haviam parado próximo de um ajuntamento que as forças da ordem dispersaram, injuriaram e ameaçaram a polícia.
Um outro indivíduo foi preso quando atirava pedras a um esquadrão de cavalaria. Na esquadra do Teatro Nacional foram-lhe apreendidos panfletos de propaganda subversiva que ele transportava dentro da capa de um livro.
A outros presos foram encontrados fragmentos de vidro com os quais chegaram a golpeara agentes da Polícia.
Temos informação de terem sido detidos três estrangeiros capturados no decurso dos incidentes.
A calma voltou a partir da madrugada.
Quando dos incidentes ocorridos à noite a Polícia mandou encerrar os cafés e casas de pasto existentes na área entre o Rossio e a Praça do Comércio. A partir da 1,30 da madrugada a cidade voltou à normalidade, mantendo-se, no entanto, de prevenção até ao alvorecer, as forças da polícia com intenso patrulhamento na Baixa.
O dia de ontem foi de inteira calma e apenas os estragos nalguns estabelecimentos, que ainda não tinham sido reparados, faziam lembrar as ocorrências da véspera."
Enquanto isto se passava em Lisboa, reinaria a paz noutras zonas do país, como na Covilhã, importante centro industrial onde, segundo o jornal que vimos citando, "o Governador Civil de Castelo Branco (havia comunicado) ao sr. Ministro do Interior ter recebido da Secção do Sindicato Nacional do Pessoal da Indústria de Lanifícios daquela cidade o seguinte telegrama da gerência duma fábrica de Cebolais de Cima, em que se empregam mais de mil operários: "Nesta hora em que tantos parecem esquecer o seu dever de portugueses, os operários da indústria de lanifícios de Cebolais de Cima dão o seu exemplo de trabalho, na ordem e no amor da Pátria"
No Porto a PSP dispersou os grupos de agitadores
Bem, não reinaria propriamente a paz em toda a parte, pois o Diário de Notícias anunciava que "no Porto a PSP dispersou os grupos de agitadores".
O esquema da notícia é o mesmo. Assim, segundo o jornal, "o 1º de Maio na cidade do Porto foi, para a a sua população, um dia de trabalho como outro qualquer. Todos os estabelecimentos funcionaram normalmente e nada houve até ao fim da tarde que fizesse prever uma alteração da ordem pública ou qualquer agitação".
Contudo não faltaram as medidas de precaução da PSP, o que não impediu os manifestantes de se manifestarem a partir das 18,30 .
Como em Lisboa houve feridos entre os manifestantes e a prisão de "alguns mais recalcitrantes" Tal como em Lisboa, "as correrias, diminuindo de intensidade a pouco e pouco, duraram até depois da meia noite, mantendo-se o serviço de vigilância enquanto foi julgado necessário."
Eis pois como a imprensa ao serviço do fascismo relatava o 1º de Maio, segundo ela obra de uma minoria de subversivos, díscolos e desordeiros, que forçavam multidões a manifestarem-se durante horas seguidas, obrigando à efectiva declaração do estado de sítio, apesar das forças policiais carregarem com os cavalos, dispararem tiros que matavam e feriam, e prenderem para que a PIDE averiguasse. e a "ordem pública" fosse mantida.
Comentários de VN
Jornal do STAL nº 53 (1999 Abril)

1 comentários:

Vieira Calado disse...
Eu estava lá e assisti, desde o princípio ao fim, tanto mais que morava na rua dos Fanqueiros.
A polícia disparava para o ar?
Pois. Disparou para uma janela, na minha rua, onde alguém (creio que uma velhota) observava as cenas...
As cenas espalharam-se até à Rua do Salitre, se a memória não me falha.
E até ao Carmo.
Para quem olhava para o Rossio, desde a plataforma superior do elevador da Glória, onde eu estive, parecia uma guerra aberta, com tiros, fumarada, carrinhas da polícia, pequenos carros blindados, gente a fugir de um lado para o outro...
Um abraço
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quarta-feira, 1 de março de 2017

A Música na Sociedade

*  Victor Nogueira
 

Ao longo da história da humanidade a música é uma constante, em variados contextos, com finalidade religiosa, lúdica, amorosa e outras. Está também ligada ao trabalho (1), como no tempo da escravidão mas não só, quando os tambores marcavam o ritmo dos remadores.






A música reflecte-se nos conflitos sociais e como transmissora de atitudes face à mudança, de conformismo ou de luta e contestação. Nestes casos a “cantiga é uma arma”. 



São diferentes, antagónicos, os valores e atitudes transmitidos pelas canções – “uma casa portuguesa” (Amália), “na casa do  operário”  (Tino Flores), “avé maria no  morro” (Ângela Maria), "menino do bairro negro" (José Afonso) e "Liberdade" (Sérgio Godinho).





Joan Baez, Bob Dylan, Woody  Guthrie, Pete Seeger, Mercedes Sosa, Victor Jara, Violeta Parra, Leo Ferré, Jacques Brel, Geraldo Vandré (2) Chico Buarque, José Afonso (3),  Fanhais (4), Adriano, Luís Cilia, José Mário Branco entre outros são personagens do canto de intervenção numa perspectiva progressista (5). 



 



No campo da chamada Música erudita podemos referir Lopes Graça e seu Requiem pelas Vítimas do Fascismo (6). Colectâneas de Canções Revolucionárias de todo o mundo e por países encontram-se em “One Hour of Music” (7) e (8)






No campo da Música  Popular portuguesa Lopes Graça e Michel Giacometti procederam a recolhas que originaram as “Canções Populares e Regionais” (9) (10) ou programas na TV como Povo que Canta (11)





Por último, dois textos sobre o Canto de Intervenção: A canção-composição de intervenção em Fernando Lopes Graça, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, por Ana Saldanha (12) e O canto e o cante, a alma do povo, por Eduardo M. Raposo (13)

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(11 https://www.youtube.com/channel/UCoojHIgP2IRmcN5BD1BU48A



SOBRE Luís Cília VER 

https://www.youtube.com/channel/UChtBbefPIhHQws2uzUtHD6Q