Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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quinta-feira, 1 de maio de 2025

O 1º de Maio de 1974 - relatos na na imprensa portuguesa, mas não apenas



 * Victor Nogueira

O 1º de Maio de 1974 na imprensa portuguesa.

O Povo unido jamais será vencido, por Luís Cilia


Canção emblemática do povo chileno na sua luta decorrente do 11 de setembro de 1973, é aqui interpretada em português por Luís Cília com o acompanhamento dos próprios Quilapayun (autores da canção chilena) os quais no seu exílio em França colaboraram com o Luís Cília nesta gravação de 1974.

De pé, cantar, que vamos triunfar
Avançam já bandeiras de unidade
Já vão crescendo brados de vitória
E tu verás teu canto e bandeira, florescer
A luz de um rubro amanhecer,
Milhões de braços fazendo a nova história.
.
De pé, marchar, que o povo vai triunfar
Agora já ninguém nos vencerá
Nada pode quebrar nossa vontade
E num clamor mil vozes de combate nascerão
Dirão, canção de liberdade;
Será melhor a vida que virá.
.
E agora, o povo ergue-se e luta
Com voz de gigante, gritando avante
.
O povo unido jamais será vencido…
.
O povo está forjando a unidade
De norte a sul, na mina e no trigal
Somos do campo, da aldeia e da cidade
Lutamos unidos pelo nosso ideal, sulcando
Rios de luz, paz e fraternidade
Aurora rubra serás realidade
.
De pé, cantar, que o povo vai triunfar
Milhões de punhos impõem a verdade
De aço são, ardente batalhão
E as suas mãos levando a justiça e a razão
Mulher, com fogo e com valor
Estás aqui junto ao trabalhador.
.
E agora, o povo ergue-se e luta
Com voz de gigante, gritando avante
.
O povo unido jamais será vencido…


:Sobre o 1º de Maio de 1974, na minha correspondência dessa altura, registo:

«O Partido Comunista Português pretendia declarar uma greve geral para o próximo 1º de Maio. Mas a Junta de Salvação Nacional instaurada após as 1ªs convocações - Haverá greve ou não? Ou limitar-se-á a uma convocação gigantesca? Até que ponto a SEDES e a CDE bem como os sindicatos conseguirão “controlar” a situação para não obrigar a Junta a desmentir as suas afirmações ?» MCG – 1974.04.27/28)

Em Évora, no ISESE, antes do 25 de Abril o ISESE encerrava no dia 1º de Maio – Dia de S. José Operário, cuja estátua, com esta etiqueta, estava no 1º lance das escadas do piso térreo para os superiores.

«Passaram hoje em Évora uma coluna de carros de assalto, jipões e jeeps. Os soldados iam sorridentes, acenavam, alguns tinham flores nos canos das armas. Os populares gritam "Obrigado, rapazes!" e eu depois tenho pena de não ter correspondido ao aceno dos militares, apesar de estar comovido. (...)

O 1º de Maio - Dia do Trabalhador - é finalmente feriado. Prevê se uma manifestação, que de resto agora são livres.

Viste o TV 7, ontem, domingo? É muito para um homem só ouvir finalmente, aquilo que alguns pensavam, muitos sentiam, mas não se podia dizer. E sobretudo o fim da guerra colonial, o direito à greve...

Não, (...) não creio que se possa retroceder. A luta dos próximos tempos será de morte (não, não me refiro à guerra civil!); espero que o povo português não perca tudo o que pretenderão tirar lhe: uma sociedade mais justa e humana. Mas de algo estou certo: "a longa noite do fascismo não voltará!".» (MCG - 1974.04.27/28)

ADENDA -

O 1º de Maio de 1974 esteve na base duma Reunião Geral de Alunos convocada para esse dia, conforme comunicado da Comissão Coordenadora das Actividades da AEISESE:

«Ao 1º dia do mês de Maio de 1974, pelas 16,35h, estudantes do ISESE, reunidos em Assembleia na sede do MDE [Movimento Democrático de Évora], como anteriormente se verificara a 30 de Abril, para informalmente discutirem alguns objectivos ligados ao funcionamento interno daquele estabelecimento de ensino, a fim de em RGA [Reunião Geral de Alunos] a realizar 6ª feira, pelas 21:00 horas, serem definidas as medidas a tomar e a sua resolução imediata.

No início da reunião verificou-se a presença de 47 estudantes.

As razões que levaram aqueles estudantes a tal procedimento foram justificadas pelo apoio ao 1º de Maio – DIA DO TRABALHADOR – e a sua celebração festiva.

Mais se acrescenta que para além do momento histórico porque passamos a vontade dos estudantes foi aceite pela mesa informalmente constituída.. (...)»

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Textos em janeiro 24

 * Victor Nogueira




2021 01 24 Na Escola do 1º de Maio as filas eram pequenas, os eleitores usavam máscara e cumpriam a distância de segurança. Na mesa onde votei não havia fila, foi entrar, identificar-me, receber o boletim, sacar da caneta, fazer a cruzinha bem dentro do quadrado, entregar o boletim, receber o cartão de cidadão e ala a despachar  saindo por outro percurso, devidamente assinalado. Como fui de carro, pois já me custa fazer grandes distâncias a pé, verifiquei que os super e minimercados estavam abertos, sem filas à porta. 


O dia tem estado soalheiro, de temperatura amena, com céu azul e límpido.  Se estivesse a chover teria sido um impedimento para muitos/as eleitoras/as aguardarem à chuva. Na hora em que votei, embora houvesse muitas pessoas idosas, a maioria eram jovens.

Na zona onde moro revoadas de pombos enchem os ares, enquanto as gaivotas planam com elegância. em voos rápidos ou batendo asas ou descansam nos beirais dos prédios.

Prontus, este é o meu testemunho  🙂




2015 01 24 A violência doméstica é transversal a todas as classes e camadas sociais e graus de instrução. Nuns casos essa violência é física, da que deixa marcas, noutras é psíquica, insidiosa, mas não menos virulenta e destrutiva. E tanto a sofrem homens como mulheres, pais, filhos, avós e netos ... (m/f)

Mas a violência doméstica não é a única forma de violência nesta sociedade. Há outras não menos graves. Que é perpetuada no dia-a-dia, com a negação dos direitos e da liberdade.

2011 01 24 Até quando, senhor Silva, teremos de vos suportar e à vossa companha?

Ganharm ainda desta vez a calmaria e a paz. A paz dos cemitérios. A paz de nos comerem até ao tutano dos ossos. Até que a maioria se reveja e aja como o operário em construção de Vinícius de Morais


António Jacinto - Monangambé, por Rui Mingas



Cartoon - Zé de Oliveira

VER Na recta final das ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS por Victor Nogueira

Ana Albuquerque

Calma! Este é o seu último mandato. E não será pacífico. Quem diz que, "foi a vitória da verdade sobre a calúnia" ou que, "a honra venceu a infâmia", acabará mesmo por ter de se explicar!...

12 ano(s)

Clara Roque Esteves

Subscrevo a Ana. Não me adianta manter uma atitude diferente, né?

Abraço para todos. Vão-se portando bem! Bjos.

12 ano(s)

Lia Branco

Talvez eu esteja enganada, oxalá que sim, mas vai ser sim um mandato pacífico. Porque são todos farinha do mesmo saco. Mete lá o Passos Coelho e governam na sua santa paz.... para nosso inferno. Beijos, Amigo Victor 🙂

12 ano(s)


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Sapore di sale, sapore di mare


* Victor Nogueira

Não é propriamente o Vale da Morte ou a Bigorna do Inferno. Não é nada que quem tenha vivido nos trópicos não conheça, semanas ou meses seguidos.

Mas o corpo ´é  um suadouro como se mil aguaceiros com "sapore di sale" de nós brotassem, as gotas escorrendo como se moscas varejeiras fossem. E nas torneiras a água jorra, não fresca, mas como se caldo salobro fosse.

Sapore di sale, sapore di mare
Che hai sulla pelle, che hai sulle labbra Quando esci dall'acqua, e ti vieni a sdraiare Vicino a me, vicino a me Sapore di sale, sapore di mare Un gusto un po'amaro di cose perdute Di cose lasciate lontano da noi Dove il mondo è diverso, diverso da qui Qui il tempo è dei giorni che passano pigri E lasciano in bocca il gusto del sale Ti butti nell'acqua e mi lasci a guardarti E rimango da solo nella sabbia e nel sole Poi torni vicino e ti lasci cadere Così nella sabbia e nelle mie braccia E mentre ti bacio sapore di sale Sapore di mare, sapore di te Qui il tempo è dei giorni che passano pigri E lasciano in bocca il gusto del sale Ti butti nell'acqua e mi lasci a guardarti E rimango da solo nella sabbia e nel sole Poi torni vicino e ti lasci cadere Così nella sabbia e nelle mie braccia E mentre ti bacio sapore di sale Sapore di mare, sapore di te.


Sapore di sale - AutorGino Paoli - 1963 

domingo, 17 de maio de 2020

Liberdade?

 

Foto victor nogueira-1974/75 - cartazes e murais de abril 16


O Congresso da Oposição Democrática (Aveiro 1973) e o Programa do MFA (1974) tinham 3 D - Democracia Desenvolvimento e Descolonização. Muitos hoje não sabem ou esqueceram o que foram 13 anos de guerra colonial. Muitos dizem hoje que a maior conquista e o maior bem da chamada Revolução dos Cravos foi a Liberdade. Mas esta tem outros dois braços de que não falam e que são a Igualdade e a Solidariedade. A Liberdade com a Fraternidade, a Igualdade e a Solidariedade de que fala Sérgio Godinho mas não os capatazes de turno no ps(d)cds


Liberdade, por Sérgio Godinho

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente e a sede de uma espera só se estanca na torrente e a sede de uma espera só se estanca na torrente Vivemos tantos anos a falar pela calada Só se pode querer tudo quando não se teve nada Só quer a vida cheia quem teve a vida parada Só quer a vida cheia quem teve a vida parada Só há liberdade a sério quando houver paz, o pão habitação saúde, educação Só há liberdade a sério quando houver Liberdade de mudar e decidir quando pertencer ao povo o que o povo produzir quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O glorioso futebol clube do porto



* Victor Nogueira

Perante a maré encarnada, o azul e branco dos "bermelhos" que são vermelhos

EM TEMPO - Já era do "glorioso"  em Angola, no tempo da outra senhora, quando os campeonatos eram normalmente ganhos pelos verdes lagartos e os encarnados que ainda não passaram a vermelhos.
Em 1956 ou 58  o Porto lá conseguiu um campeonato e foi uma eufórica enchente azul e branca a que invadiu as ruas de Luanda, com multidões acenando e carros buzinando.

Em 1962/63 estive a estudar no Porto e sabia-se à 2ª feira nos eléctricos e nas ruas se o "glorioso"  vencera ou não na véspera, conforme o povo apresentava um ar contente ou macambúzio.

Hino Oficial Do F.C. do Porto

Oh, meu Porto, onde a eterna mocidade
Diz à gente o que é ser nobre e leal.
Teu pendão leva o escudo da cidade
Que na história deu o nome a Portugal.

REFRÃO:

Oh, campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto

Quando alguém se atrever a sufocar
O grito audaz da tua ardente voz
Oh, Oh, Porto, então verás vibrar
A multidão num grito só de todos nós


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

I Want You (She's So Heavy)


* Rui Gato

A crítica divide-se.
A maioria dirá que a última cantiga gravada com os 4 ao mesmo tempo em estúdio terá sido esta. Em 69. Tendo sido esta ou uma das outras, visto que eram gravadas aos bocados, a verdade é que já se odiavam e pouco falavam sem discutir. Ainda assim faziam belas músicas e esta é uma delas. Sempre a amei não sabendo sua cronologia. Agora posso ouvir imaginando yoko sentada atrás de John. George a tocar com raiva de não gravarem as músicas dele. Paul a tocar com raiva de os outros 3 terem escolhido um manager que ele não queria. Ringo a achar que não era bom o suficiente. E uma raiva generalizada por yoko estar sentada atrás de John.

Gosto muito de saber histórias de coisas. (2019.12.13)

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"I Want You (She's So Heavy)"
(John Lennon)

I want you
I want you so bad
I want you
I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad

I want you
I want you so bad, babe
I want you
I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad

I want you
I want you so bad, babe
I want you
I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad

I want you
I want you so bad
I want you
I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad

She's so heavy
Heavy, heavy, heavy

She's so heavy
She's so heavy
Heavy, heavy, heavy

I want you
I want you so bad
I want you
I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad

I want you
You know I want you so bad, babe
I want you
You know I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad
Yeah

She's so

quinta-feira, 19 de abril de 2018

auto retrato no mindelo e mona lisa

* Victor Nogueira




Elisa Fardilha Sempre triste!
Victor Nogueira My godness. Não estou triste, estou sério. Quem convive comigo diariamente sabe que sou um pessoa naturalmente sorridente e com sentido do humor.. Mas tu já esqueceste dessa minha faceta LOL


Mona Lisa Song by Nat King Cole

Elisa Fardilha Mal te conheci, Victor.
Victor Nogueira Ora, mas conheci-te bem embora nesse tempo da nossa juventude nem para mim olhasses :-P
Elisa Fardilha A culpa não foi minha...
Victor Nogueira Elisa Fardilha Não há culpas. Aconteceu pk vim para Portugal continuar os estudos que não havia em Angola :-P
Elisa Fardilha Sabes???Tudo tem o seu tempo e nada acontece por acaso.
Victor Nogueira Elisa Fardilha Ora, ora, esse fatalismo ! 
Elisa Fardilha É como penso!
Elisa Fardilha O meu tempo já era...já comecei a minha descida...

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Mona Lisa 
autores : Ray Evans e Jay Livingston 
intérprete: Nat King Cole

Mona Lisa, Mona Lisa, men have named you
You're so like the lady with the mystic smile
Is it only 'cause you're lonely they have blamed you?
For that Mona Lisa strangeness in your smile?

Do you smile to tempt a lover, Mona Lisa?
Or is this your way to hide a broken heart?
Many dreams have been brought to your doorstep
They just lie there and they die there

Are you warm, are you real, Mona Lisa?
Or just a cold and lonely lovely work of art?

Do you smile to tempt a lover, Mona Lisa?
Or is this your way to hide a broken heart?
Many dreams have been brought to your doorstep
They just lie there and they die there

Are you warm, are you real, Mona Lisa?
Or just a cold and lonely lovely work of art?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O enigma do Trem das Onze, sem faúlhas, e da Musa Electrizada


Eldad Erel - Publicado a 29/11/2006



Lembrando a ridente, salerosa, gostosa e colorida companhia da Musa do Eléctrizado Trem, sempre no andor mas sem andor por mim 
***
Há uma outra versão do angolano duo Ouro Negro 




joao do rio - Publicado a 04/02/2011

Trem das Onze é uma famosa canção de Adoniran Barbosa, popularizada pelo grupo Demônios da Garoa. Em sua letra faz referências ao bairro do Jaçanã, situado na zona norte da cidade de São Paulo.

A música foi premiada no carnaval de 1964 do Rio de Janeiro, sendo vencedora do Prémio de Músicas Carnavalescas do IV Centenário do Rio de Janeiro, além de ter sido escolhida pela população de São Paulo em um concurso da Rede Globo, tendo sido incluída entre os 10 maiores sucessos da música popular de todos os tempos (wikipedia)

 

 - Publicado a 06/10/2014


Trem das Onze
Adoniran Barbosa
  
“Trem das Onze” é o título da famosa canção de Adoniran Barbosa, popularizada pelo grupo Demônios da Garoa, que em sua letra faz referência ao meio de transporte popular da época, bem como ao bairro do Jaçanã, situado na zona norte da capital de São Paulo.

A música foi premiada no carnaval de 1964, sagrando-se vencedora no Prémio de Músicas Carnavalescas do IV Centenário do Rio de Janeiro.
O famoso trem foi desativado em 1965, tendo funcionado por 50 anos e fazia o percurso do centro de São Paulo até Guarulhos, passando pelo bairro do Jaçanã. Saia da estação do Tamanduateí, seguia pelo ramal do Areal, passava pelas estações do Carandirú, Vila Paulicéa, Parada Inglesa, Tucuruví, Vila Mazzei, Jaçanã, Vila Galvão, Torres Tibagi, Gopoiva, Vila Algusta, Guarulhos e Cumbica, num todal de 21 km.

Segundo a revista Rolling Stone ela ocupa hoje o 15º. LUGAR entre AS 100 MELHORES MÚSICAS BRASILEIRAS DE TODOS OS TEMPOS.(Wikipedia)


Trem das Onze
Adoniran Barbosa

Não posso ficar nem mais um minuto com você Sinto muito amor, mas não pode ser Moro em Jaçanã, Se eu perder esse trem Que sai agora às onze horas Só amanhã de manhã. Além disso, mulher Tem outra coisa, Minha mãe não dorme Enquanto eu não chegar, Sou filho único Tenho minha casa para olhar E eu não posso ficar.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

1111 - mil cento e onze

* Victor Nogueira
Diz ali o contador que cerca das 15:45 horas de 2017.08.25 admiti o/a 1111º amigo/a. Claro que antes disso e ao longo destes oito anos e tal [desde 9 de Maio de 2009 pelas 10:53 h] houve não poucas pessoas que saíram sem dizer água vai, uma meia dúzia bloqueou-me mas alguns/mas retornaram, eu bloqueei apenas uns dois ou três, na maioria dos casos não inter-agimos. Dos que saíram sem dizer água vai alguns/as foram uma surpresa, pois inter-agíamos e a estima e a amizade virtual pareciam-me estreitas e sinceras.
A maioria ds 1ªas amizades no inFaceLock transitaram do hi5 e continuamos nas listas mútuas. Foi bom ter encontrado malta de Luanda, malta do Salvador Correia, malta de Económicas, malta de Évora, malta doutras lides ... Mas, após o breve e fulgurante brilho do reencontro, com maior ou menor brevidade (quase) tudo se extinguiu, como a chama breve dum fósforo que logo se apaga em negritude.

O 1111 foi um quarteto musical célebre nos idos de 60/70 do passado milénio, originalmente chamado “Conjunto Mistério”. O 1º disco do “Quarteto 1111” foi um EP, editado em 1967, e continha “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”. Ei-la, já de seguida


A Lenda D'el Rei D. Sebastião

Fugiu de Alcácer Quibir
El Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com seu cavalo real

As bruxas e adivinhos 
Nas altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado de Nevoeiro
Vinha D. Sebastião

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El Rei D. Sebastião

Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o povo
Afirmaram serem eles
El Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

Todos foram desmentidos
Condenados às gales
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés
Encontraram o cavalo
Farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração
de El Rei D. Sebastião

Fugiu de Alcácer Quibir
El Rei Rei D. Sebastião
E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o desejado
Pois que nunca mais voltou
El Rei D. Sebastião
El Rei D. Sebastião

domingo, 14 de maio de 2017

Perante a maré encarnada, o azul e branco dos "bermelhos" que são vermelhos

* Victor Nogueira

Perante a maré encarnada, o azul e branco dos "bermelhos" que são vermelhos
EM TEMPO Já era do "glorioso" em Angola, no tempo da outra senhora, quando os campeonatos eram normalmente ganhos pelos encarnados - que ainda não passaram a vermelhos -  e os verdes lagartos.
Em 1956 ou 58 o Porto lá conseguiu um campeonato e foi uma eufórica enchente azul e branca a que invadiu as ruas de Luanda.


Em 1962/63 estive a estudar no Porto e sabia-se à 2ª feira nos eléctricos e nas ruas se o "glorioso" vencera ou não na véspera, conforme o povo apresentava um ar contente ou macambúzio.




Hino Oficial Do F.C. do Porto

Oh, meu Porto, onde a eterna mocidade
Diz à gente o que é ser nobre e leal.
Teu pendão leva o escudo da cidade
Que na história deu o nome a Portugal.

REFRÃO:
Oh, campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto

Quando alguém se atrever a sufocar
O grito audaz da tua ardente voz
Oh, Oh, Porto, então verás vibrar
A multidão num grito só de todos nós

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Somos Livres"



foto victor nogueira - lisboa e cais das colunas, em 1975. No horizonte a Ponte 25 de Abril e na outra margem - a esquerda - o  Cristo-Rei.

Com Ermelinda Duarte (letra e música) , nos idos de 1974 / 75, "Somos Livres"

https://www.youtube.com/watch?v=9v15fr7Wfek

Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.

Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo cualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Pelo Sul está sol, mas frio, um frio pastoso

Pelo Sul está sol, mas frio, um frio pastoso, insidioso, ao contrario do norte, onde o frio é gélido e agreste, estando hoje e por lá nublado o céu. O sol aqui bate toda a tarde neste casarão donde das janelas se avista o Tejo refulgente e mais além o rochedo do Bugio com o forte e o farol que marcam o limite da barra. Tudo é silencio e nunca se ouvem aviões neste 9º andar, mais pertinho do céu como rezava a cancão brasileira “Avé Maria no Morro”, aqui sem telhado de zinco nem passarada.
"Ave Maria no Morro" é uma canção composta por Herivelto Martins e gravada por seu Trio de Ouro em 1942.
Barracão de zinco Sem telhado, sem pintura Lá no morro Barracão é bangalô Lá não existe Felicidade de arranha-céu Pois quem mora lá no morro Já vive pertinho do céu Tem alvorada, tem passarada Alvorecer Sinfonia de pardais Anunciando o anoitecer E o morro inteiro no fim do dia Reza uma prece ave Maria E o morro inteiro no fim do dia Reza uma prece ave Maria Ave Maria Ave E quando o morro escurece Elevo a Deus uma prece Ave Maria.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Mário Soares (1924 / 2017)


Mário Soares por Júlio Pomar

* Victor Nogueira
Desde 1969 até hoje as minhas barricadas e as de Mário Soares foram muitas vezes opostas ou antagónicas. Na chamada Primavera Marcelista eu apoiei as CDE, que aglutinava a maioria da oposição ao fascismo, e ele cindiu a Oposição com as CEUD.
Em 11 de Novembro de 1975 eu continuava a apoiar o MPLA, tal como desde 1962, mas ele estava noutra barricada.
Em 1976 e pelo I Governo Constitucional do PS/Mário Soares/Cardia, tal como muitos professores, sofri o meu 1º saneamento, por razões estritamente políticas, seguido dois anos depois pelo despedimento /desemprego / subemprego.
Em 1986 o PS venceu as eleições autárquicas em Setúbal e com muitos trabalhadores sofri novo saneamento por razões estritamente políticas, ao mesmo tempo que sem engolir sapos votei Soares para derrotar Freitas do Amaral. Não fui despedido porque o meu vínculo de trabalho não era precário, mas vontade não faltou ao PS.
Ao longo de 47 anos só conjunturalmente as minhas lutas coincidiram com as do PS e de Soares. O "socialismo em Liberdade" que ele defendia é este, aquele em que estamos, resultante do 25 de Novembro de 1975, das "privatizações" de sectores estratégicos da economia nacional, incluindo a banca (os BANIF, os BPP, os BPN, os BES,os BCP, os BPI ...), das "troikas" e do FMI, do desemprego e do trabalho sem direitos e precário.
Fora das reportagens, dos noticiários e dos debates na TV só vi Soares uma vez. Uma noite descia com a minha companheira o Campo Grande em Lisboa quando o vislumbrámos à porta de casa de camisa desfraldada, descontraído, camisola atirada para as costas segura pelo indicador direito, enquanto o motorista retirava da bagageira caixotes de garrafas de vinho. Parámos brevemente à esquina apreciando a cena enquanto o polícia de guarda à residência nos olhava manifestamente sem saber o que fazer se estivéssemos ali para atentar contra Soares. Seguramente não saberia o que fazer. Rimo-nos com a atrapalhação do polícia e calmamente continuámos a descida do Campo Grande até ao local onde deixáramos estacionado o automóvel.
Para um leitor atento e para quem tenha uma vida de luta social e política iniciada anteriormente a 1969, o retrato de Soares, de corpo inteiro, feito por ele próprio, está na alentada entrevista em 3 volumes que deu a Mª João Avillez, em que reescreve a história do modo que lhe convém, com ele como centro do mundo.
Sérgio Godinho e a "Liberdade"
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
A paz, o pão
habitação
saúde, educação

terça-feira, 24 de maio de 2016

Porto Sentido


Duas opiniões minhas retiradas da minha correspondência de outrora

1. em 1962.12.21 Anteontem houve um tremor de terra, mas aqui no Porto parece que só se abriram brechas num prédio. Em Lisboa é que o sismo teve maior intensidade, tendo abatido alguns telhados e rachado as paredes de muitos prédios. (...) Já estou a gostar um bocado mais do Porto. Contudo não modifiquei a minha opinião: é uma cidade triste e velha.

2. em 70.12.26 - Hoje tentei pôr a correspondência em dia, mas aquilo está tão atrasado que devem ser necessários uns longos serões. A partir da recepção deste postal devereis começar a escrever‑me para Évora. Espero que tenhais recebido o SDS que enviei na véspera de Natal.. Que mais dizer? Estou na estação dos CTT da Batalha; a escrivaninha treme que se farta com o esforço que um "hominho" faz para fechar um envelope. Uma mulherzinha procura quem lhe preencheu um telegrama para dar‑lhe qualquer coisa. E ao contar‑me isto poisa‑me a mão no braço. Gosto da gente do Porto; parece‑me mais humana que a de Lisboa e de Évora.

Respostas

  1. Obrigado por esta partilha Victor Nogueira. Li o texto com um sorriso de concordância e creio que alguns leitore terão feito o mesmo.

COMENTÁRIOS EM 

Porto Sentido ( um post para perder alguns amigos)



ADENDA


em 1962/63, os contrastes entre Luanda e o Porto (a)notados por um adolescente com 16 anos

1962

Por cá tudo bem. Tem feito algum frio e há uns dias que não conseguia pegar na caneta para escrever. No dia de Natal fomos a Goios. Gostei do passeio. Ontem o tio [Zé Barroso] foi a Vila Nova de Gaia, a Matosinhos e à Foz do Douro e eu fui com ele.
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Anteontem houve um tremor de terra, mas aqui no Porto parece que só se abriram brechas num prédio. Em Lisboa é que o sismo teve maior intensidade, tendo abatido alguns telhados e rachado as paredes de muitos prédios. (...) Já estou a gostar um bocado mais do Porto. Contudo não modifiquei a minha opinião: é uma cidade triste e velha. (NSF - 1962.12.21)
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1963

VI NEVAR PELA 1ª VEZ QUANDO IA PARA CASA DO AVÔ LUÍS, E À TARDE, QUANDO FOMOS AO CAFÉ ASTÓRIA. (1963.01.13 - DIÁRIO III)
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Como tem chovido a cântaros, limitámo-nos a ir comer qualquer coisa ao café Águia, o café dos estudantes. Foi o que deduzi das inúmeras placas académicas que ornam as paredes. (1963.01.06 - Diário III)

As pessoas aqui no Porto, tanto homens como mulheres, falam um português vernáculo que nem fazeis ideia. Aí quem fala assim são os carroceiros.

(...) Aí em Luanda (que é uma aldeola na opinião de muito parolinho) respeita‑se a ordem de chegada. Aqui não.

Nos eléctricos é a mesma coisa. É um vale‑tudo. E não são capazes de oferecer o lugar a uma senhora ou a uma pessoa idosa.

Vai‑se a um café à noite, está tudo cheio de estudantes (raparigas) a fumarem até altas horas. Quando é só isso! (...)

Tirando a parte central (com os seus anúncios luminosos), o Porto, quase se pode dizer, é a cidade das trevas. O mesmo não se pode dizer de Luanda, que embora não seja uma cidade‑luz, sempre é melhor neste ponto (NSF - 1963.01.28).

No dia 24.03 [1963] fui com o avô Luís e a Arminda [sobrinha da D. Alexandrina] ver o barco liberiano que encalhou na Foz do Douro.  Nunca apanhei maior aperto, que me lembre. Os eléctricos iam cheios e em todas as paragens cabia mais um passageiro! (Diário III - pag. 156)

Vi cair granizo  pela 1ª vez. Tem estado muito frio. (1963.02.06 - Diário III))

No dia 3 [02.1963] fui com o avô Barroso ao Palácio de Cristal. Gostei bastante do jardim e das belas vistas para o rio [Douro], com bastante arvoredo. Vimos o leão e diversos animais. (Diário III - pag. 162)
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Em 23 [02.1963] fomos ao Palácio de Cristal ver o circo no Pavilhão dos Desportos. Gostei de alguns números, mas outros não valiam um real.
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Sempre apreciei os espectáculos de circo    e quando era mais miúdo desejava ser proprietário de um, para poder correr mundo, pois seduzia-me a vida ao ar livre. Em Luanda é raro haver espectáculos destes.  Mas sempre que os havia, lá estava eu. Mesmo agora não desprezaria fazer uma digressão com uma dessas companhias. O circo atrai todos, jovens e velhos. (Diário III - pag. 151)

Fomos ao Palácio de Cristal . Diverti me bastante, com a Fernanda e a Elvira [primas da D. Alexandrina] Jantámos no Restaurante Santa Luzia, na Feira do Palácio de Cristal". Andámos nos carros eléctricos 1963.05.16 - Diário III) ~

O Presidente da República, Américo Tomás, veio ao Porto inaugurar a Ponte da Arrábida (1963.06.22/23 - Diário III)

À noite não fui gozar o S. João [nas Fontainhas]. Preferi ir para a cama. Acordei às duas da manhã. Disso se encarregaram as minhas tias, Isabel e Teresa,  batendo-me suavemente (irra!) com os alhos e falando pelos cotovelos. (Diário III - pag. 1963) ( )
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À tarde fomos, o avô Luís e família, à Ponte da Arrábida, tendo percorrido a auto-estrada [neste tempo a AE eram ... 5 km, até aos Carvalhos]. Em seguida fomos ao Palácio [de Cristal] onde jantámos. Escusado será dizer que andei nos automóveis eléctricos. Andei também nos barcos do lago. A princípio não sabia guiar aquilo, mas... aprender até morrer! (Diário III - 1963.06.30)

Vi na rua [de Santa Catarina] um grande ajuntamento. Logo compreendi o motivo: uma goesa vestida com um traje regional [sari e véu]. Foi preciso a polícia para dispersar aquela parolada toda, que assim demonstrava a sua estupidez, com ditos, assobios e piadas imbecis. (1963.10.24 - Diário IV)

1966

Se por   "ambiente do Porto" se entender a sociabilidade e amabilidade das suas gentes, talvez eu concorde. Mas em Lisboa também há pessoas simpáticas. Se a referência é a cidade em si, discordo, pois Luanda é mais moderna, embora com 4 séculos de existência, e mais airosa. Mas nem tu és de Luanda nem eu do Porto. (MEB - 1966.12.12)

1967
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 Não conhece Lisboa?
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Então falemos um pouco desta tão cantada cidade, paraíso dos turistas. Podemos talvez fazer umas comparações com o Porto. Como todas as grandes cidades tem ruas ladeadas de casas, umas velhas, outras novas, automóveis, gente, muita gente, barulho (de prédios em construção, de buzinas, de travagens, pessoas que falam, pessoas de todos os feitios, para todos os gostos). É mais alegre que o Porto: mais luminosa, mais ampla, com muitas ruas modernas, tal como em Luanda. Mas, como no Porto, também possui os seus bairros antigos, de vielas estreitas e tortuosas [como na Ribeira], tão estreitas que o vizinho do prédio em frente facilmente nos dá uma "bacalhoada". Esta é a parte que eu conheço pior. As outras são-me mais familiares. Gosto de andar por estas ruas, cheias de gente, que anda em todas as direcções, com os mais variados destinos. Gosto... e não gosto. Podemos andar à vontade, sem encontrar alguém conhecido. Mas... nem sempre nos agrada a solidão que transpira por estas ruas. Cada qual preocupa-se quase exclusivamente consigo; é o preço das grandes cidades, onde os homens frequentemente se transformam em máquinas, em autómatos. Enganar-me-ei ao dizer que no Porto respira-se um ar mais humano, menos artificial ?!!! De qualquer modo foi esta a impressão que me ficou da visita feita esta Páscoa e confirmada esta semana. Mas entre o Porto humano, que me atrai, e esta Lisboa alegre, sem dúvida, cheia de sol, mas por vezes fria, irritante, continuo a preferi-la (MFR - 1967.08.02)

1968

Encontro-me em Rio Tinto,, povoação limítrofe (...) (AH - 1968.09.30) e a dois passos desta aldeia grande que é o Porto (1968.10.07)

A Faculdade de Engenharia foi pintada de branco e encarnado, como o edifício do Banco de Angola em Luanda. No quintal em frente ao 330 da Rua dos Bragas [onde morava o meu avô materno] construíram um imóvel que vai até à esquina com a Rua de Cedofeita (a padaria foi demolida). Quem não gostou da brincadeira foi o avô Barroso, em cujo quarto deixou de bater o sol nos meses mais frios do ano. (NSF - 1968.05.04)

Está uma tarde cinzenta e tristonha, ou não fosse o Porto a Londres portuguesa, fria e húmida,  duma frialdade e duma humidade que nos trespassam invadindo todo o nosso ser até à medula; mas apesar disso, ao calcorrear as ruas do centro, bordejadas por edifícios pesados e graníticos, enegrecidos pela acção do tempo, parece‑me que me encontro entre seres humanos, menos indiferentes que os da pombalina baixa lisboeta, pois uma misteriosa comunhão se estabelece entre nós. Dou por mim a reparar na multidão, que deixa de ser uma massa anónima, que se decompõe em pessoas. Respira‑se um outro "ar", quiçá menos refinado ou "aristocrático" mas mais humano, mais caloroso. Esta sensação apodera‑se de mim sempre que venho passar as férias ao Norte.

A semana passada estive em Évora - o contraste entre estas duas cidades é flagrante. (ACG - 1968.09.12)

A cidade continua húmida, escura, pesada, triste, fria. Os azulejos dos seus graníticos edifícios precisam duma boa barrela. Os eléctricos vão sendo progressivamente substituídos pelos confortáveis Trolleys e modernos autocarros. Como ex‑libris da cidade, a sujidade e o desmazelo imperam nos transportes públicos, tal como sucedia (ainda sucederá?) em Luanda e ao contrário de Lisboa. A casa da Rua dos Braga foi pintada de verde claro e as portas de verde mais escuro. No terreno que se estende da Capela dos Anjos à Rua de Cedofeita construiu‑se um comprido prédio de dois ou três andares, de traço arquitectónico esquisito. Na esquina abriu um café, muito "mal frequentado"-. E falo assim, pois como classificar os estudantes, que ocupam cadeiras e mesas durante horas, a troco duma bica ou de um pingo (o alfacinha garoto) ?! (NSF - 1968.09.16)

1974

Safa, que o Porto é frio, duma frialdade enregelante. Estou aqui num café na Rua Formosa, aguardando o pequeno-almoço. A casa do meu avô Luís está superlotada - os meus tios [Zé João e Lili] estão lá - e resolvi ficar numa pensão, que só de pensar nela me arrepio. Ali a Pensão Brasil (3 estrelas) já deve ter tido uma certa categoria - no tempo em que as pensões eram uma casa, mas agora está em franca decadência, porca, suja e desleixada. 100 paus é a diária dum quarto num quinto andar. Enfim...
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O velho, dono da pensão, estava ontem às voltas com um dedo entalado, enrolado num pano que enchia a casa de cheiro a vinagre. Aconselhei o a pôr o dedo em água quente e hoje lá me foi dizendo que estava melhor. (...)
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No Porto, nova aventura: onde ficar? Pego na lista telefónica, retiro uma série de endereços de pensões e... nova preocupação. E então, os preços?! Pego em mim e venho andando, tentando adivinhar a categoria da pensão - e consequente modicidade do preço - pela fachada. E assim caí [nesta] espelunca. (MCG - 1974.09.22)

1975

No Porto as ruas e as pessoas são diferentes. A cidade é suja de papéis e lixo pelas ruas. E nas paredes os cartazes do PC são mais atractivos. Nalgumas praças há bancas dos partidos políticos de esquerda. (MCG - 1975.03.26

Em tempo - 
2013


A 1ª vez que estive no Porto, com a minha mãe, tinha 3 anos e ficámos a morar em casa do meu avô Luís, na Travessa da Carvalhosa. Guardei algumas memórias, não da cidade mas da vida em família. E dum espectáculo a que assistimos ficou a minha foto numa revista, espectáculo esse com a Amália Rodrigues e o Estevão Amarante. Ia com o meu avô Luís muitas vezes para o café. e ao cinema e lembro-me dum filme que vimos, do Walt Disney, Steamboat Willie, com Mickey Mouse. 

Voltei em 1962/1964, para frequentar o 5º ano do Liceu, sucessivamente no Grande Colégio Universal, na Rua da Boavista, e o Almeida Garrett, perto da rua de Cedofeita.  São desse tempo as notas respigadas do Diário que na altura escrevia, desde 1958. Embora gostasse das pessoas do Porto, do calor humano que sentia nas ruas, a cidade para mim era triste, feia, escura  e suja e com aquilo que eu chamava muita “parolice”. Uma parte do tempo morei em casa do meu avô Barroso, na Rua dos Bragas, e outra em casa do meu avô Luís, na Rua de Santos Pousada e também em Rio Tinto. Aliás o meu avô Luís, alentejano, dizia que o Porto era uma aldeia grande, falando também do tempo em que a viagem desde Lisboa levava 5 dias e as pessoas precavidamente fazerem testamento antes de se meterem à jornada na mala-posta.
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Quando íamos pela rua de Cedofeita muitas vezes o meu avô Barroso dizia-me a propósito  do vernaculismo tripeiro: "Tu não ouças, Victor, tu não ouças que as pessoas falam muito mal." E à 2ª feira sabia-se qual o resultado do "glorioso" na véspera - se as pessoas fossem caladas e tristes nos eléctricos, o FC Porto havia perdido, caso contrário iam mais alegres. Por essa altura a Câmara do Porto fez uma campanha para que os munícipes mantivessem a cidade limpa e ou no Comércio do Porto (lido pelo meu avô Barroso) ou no 1º de Janeiro (lido pelo meu avô Luís) publicavam-se umas notas diariamente. Numa delas o jornalista dizia que interpelara uma moradora que varria o lixo para a rua, se não sabia da campanha para uma cidade limpa, ao que esta lhe retorquira "Então que queria que eu fizesse ao lixo, que o guardasse em casa? Eu cá sou muito asseada !" fechando-lhe a porta na cara. Nada como no Alentejo, onde  nas aldeias as pessoas varrem e lavam os passeios e as ruas defronte das casas.

2016

A 1ª vez que estive no Porto foi em 1949/50, tinha 3 anos de idade. Voltei depois em 1963/64. Nesta altura, para além do frio gélido, a cidade parecia-me soturna e triste, com prédios graníticos e painéis de azulejo escurecidos nas fachadas dos prédios e das igrejas. Espantava-me falarem tão "mal" nas ruas, com palavrões a torto e a direito. Mas cirandando entre as casas dos meus avós, isto é, entre Cedofeita, os Clérigos, a Trindade,a Praça da Batalha, S. Lázaro e o Campo 24 de Agosto, a cidade tinha para mim uma dimensão humana e nas suas ruas respirava-se um calor humano. Para quem tinha vivido em Luanda e passado por Lisboa, era uma cidade provinciana (o meu avô paterno, alentejano, dizia que o Porto era uma aldeia grande). Os meus pais e tios eram do Porto, e o meu Pai frisava "de Cedofeita". Os "tripeiros"  tinham um sotaque característico, que o meu Pai em Luanda perdeu mas a minha mãe manteveaté muito tarde. À 2ª feira sabia-se se o FC Porto tinha ganho ou não na véspera, as pessoraas cabisbaixas se perdera, alegres, se vencera.  Havia então a "mística" do FCP, que se notava nas ruas, mística de que no Sul não me apercebia relativamente ao Benfica ou ao Sporting.

Em 1966 voltei ao Porto, para frequentar a Faculdade de Economia. Mas incomodavam-me os palavrões dos meus colegas à mesa do Café (em Luanda e também na minha família, em Luanda, no Porto ou em Lisboa não se utilizavam palavrões e na altura nem "merda!" eu dizia mas apenas "popilas"). Isso e a luminosidade e brancura de Lisboa fiizeram-me rumar para Económicas, mais para sul, para a "grande cidade das muitas e desvairadas gentes" de que falava Fernão Lopes

Hoje - após o falecimento dos meus avós e a dispersão da família - o Porto já perdeu para mim o encanto de outrora, parecendo-me confuso e agreste, apesar da cidade estar mais limpa e cuidada e goste de deambular a pé pelas ruas da minha adolescência e juventude. Creio que foi em 1963 que a Câmara do Porto lançou uma campanha para uma cidade limpa, havendo creio que no Comércio do Porto uma rubrica regular sobre o tema. Nesta uma vez o jornalista relatava que encontrara uma mulher a varrer o lixoo para a rua; interpelando-se, se não sabiada campanha, ao que ela retorquiu que era uma pessoa limpa e asseada e por isso varria o lixo para a rua, fechando-lhe a porta na cara.


Porto Sentido
Rui Veloso
  
Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
És cascata, são-joanina
Erigida sobre o monte
No meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
Da Ribeira até à Foz
Por pedras sujas e gastas
E lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
Num rosto de cantaria
Que nos oculta o mistério
Dessa luz bela e sombria

E é sempre a primeira vez
Em cada regresso a casa
Rever-te nessa altivez
De milhafre ferido na asa



Maria Rita
Duo Ouro Negro
  
Foi um dia nas Fontainhas 
Que a vi falando com umas amigas 
Atirei-lhe beijos, elas riram das gracinhas 
São coisas próprias das raparigas 
E eu voltei, todos os dias a procurei 
E soube que ela se chamava Rita 
Foi a moça mais bacana que encontrei 
E tinha os cabelos presos com uma fita

Maria Rita, Maria Rita 
Eu pergunto à multidão, mas ninguém a viu passar 
Maria Rita, Maria Rita 
Dou uma vela a S. João se a voltar a encontrar

Quando chegou a madrugada 
Ninguém sabia de nada 
E eu voltei tão triste, tão triste 
Que se ela soubesse voltava para me abraçar

Era noite de S. João 
Toda a cidade estava iluminada 
E toda a gente vinha em folia, em turbilhão 
E nessa gente vinha a minha amada 
E trazia a amarrar o cabelo negro 
A mesma fita da cor do céu 
Com a mão atirou-me um beijo 
E entre a multidão desapareceu

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ao meu olhar, Porto sentido no antigamente