Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

terça-feira, 21 de abril de 2026

Nos 49 anos do 25 de Abril (2023)

 


* Victor Nogueira

21 de abril de 2023 
Conteúdo partilhado com: Público
Em 1974, 48 anos de fascismo eram uma eternidade, num tempo de chumbo, sombrio, de cinzas e âncoras em cadeia. Naquele dia 25 de Abril o calor encheu e deu cor às ruas, numa torrente irresistível, anunciando que o futuro começava ali, ao virar duma esquina, no sorriso duma criança.
49 anos depois a memória daquela madrugada perde-se na neblina dos tempos e nenhuma criança sorri e corre dentro de mim, nos tempos sombrios que ensombram o que foram os sonhos de muitos de nós. Como dizia Eugénio de Andrade:
«Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
Eugénio de Andrade - Poesia e Prosa, 1987, Círculo de Leitores.
Imagem - Cartaz da CM Amadora - 49º aniversário de 25 de Abril

o candeeiro na escuridão. (2025)

 


* Victor Nogueira

21 de abril de 2025

Uma rua estreita, perto do castelo, e uma candeia, lá no alto, que pouco alumia. O passante, talvez com ânimo que assim esfria, ou não! Depende do objectivo e motivo do seu pass(e)ar


2025 04 21 Foto victor nogueira - Torres Vedras -  o candeeiro na escuridão F1070051

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A neblina do tempo e da(s) memória(s) (2023)

 

* Victor Nogueira

21 de abril de 2023

A neblina do tempo e da(s) memória(s) - “O que a fotografia reproduz no infinito aconteceu apenas uma vez: ela repete mecanicamente o que não poderá nunca mais se repetir existencialmente”.(Roland Barthes) - Foto MNS - Parque do Bonfim, em Setúbal, c 1982

sábado, 18 de abril de 2026

No Mone da Arouca (2019)

 


* Victor Nogueira

18 de abril de 2019

No monte da arouca (unidade colectiva de produção soldado luís), em Vale de Guiso, Alcácer do Sal, nas margens do Rio Sado, cerca de 1975 - junto à fonte de água potável (que abastecia as casas dos trabalhadores) e do tanque colectivo de lavagem da roupa - a Celeste e Eva bebendo água do cocho. À direita e à esquerda, os cântaros para transportar a água, à ilharga ou à cabeça.  (Foto Victor Nogueira)

A primavera ressurge no Parque Verde da Lanchoa (2016)

 


* Victor Nogueira

18 de abril de 2016

foto victor nogueira - A primavera ressurge no parque verde da lanchoa - as árvores de folha caduca vão reverdecendo e por entre o relvado aqui e ali sobressaem manchas floridas no branco ou amarelo das pétalas de pequenas flores. E, na base duma única árvore reparo, pela 1ª vez  numa "miríade" de cogumelos por entre as nodosas raízes que afloram à superfície, como ilhotas mais ou menos disformes. A tarde, essa está cinzentonha e abafadiça.

foto victor nogueira - A primavera ressurge no parque verde da lanchoa, em Setúbal

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A poesia em Abril 16 (2012)

 * Victor Nogueira

 de abril de 2012 
Conteúdo partilhado com: Público
Com palavras
lavras
de silêncio o caminho
sem dó
sustenido
Setúbal, 2012.04.16

NOS 40 ANOS DO 25 DE ABRIL 04 - O POVO NA RUA (2014)


* Victor Nogueira

16 de abril de 2014

NOS 40 ANOS DO 25 DE ABRIL 04 - O POVO NA RUA - A “maçadoria”, as pensões e os salários e a promessa

Na ditadura do Capital Salazarento o patronato pela voz de Passes de Coelho & Portas Seguro faria as suas "conversas em família" e as suas "narrativas" sem contraditório, com sindicatos atentos, veneradores e agradecidos a V.Exa por obra e graça da polícia política. Mas houve a chatice do 25 de Abril e do povo sair à rua desobedecendo ao MFA. 

Os verdadeiros heróis do 25 de Abril não foram Otelos, Spínolas, Salgueiros ou Maias Lourenço. Foi o Povo na rua, cercando e neutralizando três importantes pilares do regime: a PIDE, a GNR e a Cavalaria e seus tanques.

Bem pode a trindade Eanes/Sampaio/Mário Soares, ex-presidentes da República, dizer que o 25 de Abril já não divide a direita e a esquerda, que é consensual a aceitação das suas positividades. 

É falso. Eanes/Soares/Maia são homens do 25 de Novembro, o tal que finalmente de mãos dadas com Spínola, após 28 de Setembro e 11 de Março, retirou o Povo da Rua e dos Campos do Alentejo e das Fábricas ocupadas dando origem ao Estado Súcial do súcialismo em Liberdade. A Liberdade do grande Capital económico-financeiro, nacional e transaccional da "Europa Connosco", a d€£€$.

 

POLÍTICOS somos todos NÓS (2012)

 * Victor Nogueira

16 de abril de 2012

POLÍTICOS somos todos NÓS que a cada minuto fazemos POLÍTICA por accão ou por omissão, e não apenas os governantes que a maioria lá "BOTA", em baile mandado e com a maioria sempre para o mesmo. Não são todos os deputados e governantes filhos da mãe mas também e sobretudo do BOTO que os pariu e almenta; a dívida é dos banqueiros que com a ajuda de paus mandados privatizam os lucros e socializam os prejuízos para que especuladores e banqueiros continuem, a comer à tripa forra. COM O VOTO OU ABSTENÇÃO DA MAIORIA mas NÃO COM O MEU nem com o de algumas centenas de milhar

Gaeiras (2020)

 * Victor Nogueira


foto victor nogueira - Gaeiras (Caldas da Rainha) Largo de S. Marcos 1998.02 (rolo 222)

16 de abril de 2020

Gaeiras - A caminho das Caldas, situa-se esta povoação, cujo nome resultaria do facto de nela existirem caieiras ou caiadeiras. A terra é também conhecida pelo célebre vinho com o seu nome. 

No largo de S. Marcos encontramos um coreto, casas modestas e duas casas senhoriais, uma delas a Quinta da Ermida e a outra a Quinta das Gaeiras, similar a um solar francês, pintada de amarelo ocre, tal como a pequena ermida de S. Marcos; a côr amarela é a marca dos seus proprietários, os Pinto Basto, e encontramo la noutras casas de habitação, mais modestas, num fontenário, numa degradada casa de dois pisos num largo arborizado e, mais adiante, nas instalações vinícolas. 

Mais adiante a modesta Igreja de N. Sra. da Ajuda, onde encontramos a sra. D. Clarisse, professora primária aposentada e de ar senhorial embora filha de motorista dos senhores da terra, que nos conta histórias da terra e dos seus donos.  

Perto, numa rua estreita, alguns edifícios de dois pisos são-nos referenciados como um antigo hospital, com doze camas, hoje transformado em casas de habitação.

Nos arredores, à entrada de quem vem de Óbidos, perto da casa rural da Quinta das Janelas,  visitamos as ruinas do Convento de S. Miguel das Gaeiras, cujos frades inicialmente estavam em Peniche donde vieram por temor dos assaltos dos piratas, sem que por isso desistissem das oferendas forçadas dos pescadores e doutras mordomias, tudo para glória de Deus. Na fachada do edifício devassado, de cujo interior têm roubado painéis de azulejos, sobressaem uma imagem do Arcanjo S. Miguel e dois outros painéis de azulejos, um representando S. Roque e outro S. Barnabé, encimados por uma imagem de S. Miguel, colocada em nicho. 

É impossível penetrar no edifício, com aberturas emparedadas, pelo que me limito a rodeá-lo; tem uma aprazível mata e nas traseiras um arco, uma fonte monumental e uma casa de fresco, tudo muito degradado, com incrustações e azulejos vandalizados. 

Da toponímia registo as ruas da Bomba de Água, do Vale dos Ventos, das Escolas, da Ermida, do Lugar de Além e Principal, bem como a travessa da Rua Principal. (Notas de Viagem, 1998.01.14 e 1998.02.07)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Em Luanda, no Bairro do Maculusso (2020)

 

* Victor Nogueira

15 de abril de 2020

Foto de família - em Luanda, no Bairro do Maculusso, depois do triciclo e do carro de pedais, esta  foi a minha 1ª bicicleta, de que me não lembraria se não fosse esta foto. Mais tarde, já na Praia do Bispo, os meus pais ofereceram a mim e ao meu irmão uma bicicleta, para cada um de nós. 

Depois disso, embora nunca tenha deixado de saber andar de bicicleta, nunca mais tive uma, ao contrário do meu irmão que já  adulto em Lisboa teve uma. Faz-me impressão e não consigo andar de bicicleta no meio do trânsito automóvel citadino.

Aprendi a equilibrar-me num dia, no Parque Florestal da Ilha do Cabo, em Luanda. Cheguei ao fim desse dia esfolado e com nódoas negras das quedas, mas levei a minha avante.

NOS 40 ANOS DO 25 DE ABRIL - 03 - A CENSURA PRÉVIA DA IMPRENSA (2014)

 


* Victor Nogueira

15 de abril de 2014

NOS 40 ANOS DO 25  DE ABRIL - 03 - A CENSURA PRÉVIA DA IMPRENSA - ouve o Noticiário RTP do dia 25 de Abril de 1974 em 

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/noticiarios-sobre-a-revolucao-de-25-de-abril-de-1974/

Tivesse o povo de Lisboa obedecido às instruções do MFA, não tivesse saído à rua e cercado o quartel-general  da GNR no Carmo e a sede nacional da PIDE e spínola e os seus oficiais teriam mandado o MFA recolher aos quartéis, recebendo o poder de Marcelo para que este não caísse na rua e se tivessem mudado apenas algumas moscas. Mas o povo que saíu à rua  e deu os primeiros passos  para a tomada do poder foi mais sábio que o MFA e o seu Posto de Comando. Para desespero de Spínola e de Marcelo Caetano. E do Capital !.

O República foi o 1º jornal a ser publicado sem visto da censura prévia  após 48 anos de fascismo, repressão e ausência de liberdades e 13 de guerra colonial..  Durante esses 48 anos apenas a imprensa clandestina, como o Avante, do PCP, eram publicados sem submissão à censura prévia, distribuídos e lidos "clandestinamente. A publicação, distribuição e leitura dos livros "proibidos" e da imprensa clandestina como o Avante eram punidos com a detenção pela Pide para averiguações, com a prisão e mesmo a tortura.

terça-feira, 14 de abril de 2026

A poesia em Abril 14 (2015)

 ª Victor Nogueira

Está Penélope ausente
em roda viva
e a ruína não pressente
Abandonada a teia;
em areia se desfaz.
sem nós a voz
É o coração atroz.
De palavras vãs
se branqueiam as cãs.
2015.05.14 - setúbal

As prisões políticas antes e depois do 25 de Abril

 


Entre 1974 e 1977 a que organizações pertenciam os presos políticos?

Entre 1974 e 1977, o perfil dos chamados “presos políticos” em Portugal mudou bastante em relação ao período do Estado Novo. Já não se tratava, em geral, de opositores ao regime autoritário, mas sim de militantes envolvidos em ações revolucionárias ou consideradas subversivas no contexto turbulento do pós-Revolução dos Cravos e do PREC (Processo Revolucionário em Curso).

Principais organizações associadas a esses presos:

1. Extrema-esquerda revolucionária

  • PRP/BR (Partido Revolucionário do Proletariado / Brigadas Revolucionárias)
    • Uma das mais relevantes.
    • Envolvida em ações armadas (explosões, sabotagens).
    • Vários militantes foram presos ainda em 1974–75.
  • LUAR
    • Já ativa antes do 25 de Abril, manteve alguma atividade depois.
    • Associada a ações armadas contra o regime anterior e, pontualmente, no período revolucionário.
  • Pequenos grupos maoístas ou marxistas-leninistas:
    • MRPP
    • UDP (embora sobretudo política, alguns militantes foram detidos em confrontos)

2. Extrema-direita e contra-revolucionários

  • MDLP
    • Ligado a setores anti-comunistas e a António de Spínola.
    • Envolvido em atentados bombistas contra alvos de esquerda.
  • ELP
    • Também anti-comunista e clandestino.
    • Atuou sobretudo a partir do estrangeiro (Espanha), com incursões e atentados.

3. Militares envolvidos em tentativas de golpe

  • Oficiais ligados a eventos como:
    • 11 de Março de 1975
    • 25 de Novembro de 1975
  • Após estas crises, houve detenções de militares de diferentes fações (à esquerda e à direita).

Síntese

Entre 1974 e 1977, os “presos políticos” pertenciam sobretudo a:

  • Grupos revolucionários de esquerda (especialmente armados, como PRP/BR)
  • Organizações contra-revolucionárias de direita (MDLP, ELP)
  • Militares envolvidos em confrontos políticos dentro das Forças Armadas

Ou seja, tratava-se de um período de forte polarização ideológica, em que detenções tinham frequentemente origem em conflitos políticos ativos, e não num regime repressivo estável como antes de 1974.

Se quiser, posso detalhar casos concretos de presos ou prisões mais mediáticas desse período.

É possível quantificar por organização política?

Resposta curta: não com rigor estatístico sólido por organização.
Mas é possível dar ordens de grandeza e aproximações com base em estudos históricos, arquivos judiciais e trabalhos académicos sobre o PREC.


⚠️ Limitações dos dados

Há três problemas principais:

  1. Definição ambígua de “preso político” no período 1974–77
  2. Registos incompletos ou dispersos (tribunais militares, civis, processos arquivados)
  3. Militantes que transitavam entre organizações ou não tinham filiação formal

📊 Estimativas por organização (ordem de grandeza)

Extrema-esquerda

  • PRP/BR
    👉 ~100 a 200 detidos (1974–76)
    • É o grupo mais bem documentado
    • Inclui detenções após ações armadas e processos judiciais relevantes
  • LUAR
    👉 ~dezenas (20–60)
    • Já em declínio após 1974
  • MRPP
    👉 ~centenas (sobretudo detenções curtas)
    • Muitas detenções em manifestações/conflitos de rua
    • Poucos processos prolongados
  • UDP
    👉 dezenas
    • Maioritariamente detenções episódicas

Extrema-direita / contra-revolucionários

  • MDLP
    👉 ~50–150 detidos
    • Especialmente após 1975
    • Inclui redes ligadas ao exílio e ações bombistas
  • ELP
    👉 ~dezenas (20–80)
    • Menos detidos em Portugal devido à atuação a partir de Espanha

Militares (sem filiação partidária clara)

  • Após o 11 de Março de 1975
  • E o 25 de Novembro de 1975

👉 centenas de detenções temporárias

  • Difícil atribuição a “organizações” formais
  • Inclui oficiais de várias correntes (spinolistas, gonçalvistas, etc.)

📈 Leitura global (muito aproximada)

Se agregarmos:

  • Esquerda revolucionária: ~300–600 detenções (muitas de curta duração)
  • Direita contra-revolucionária: ~100–300
  • Militares (eventos políticos): ~200–500

👉 Total possível (com sobreposição): ~600 a 1.200 pessoas detidas em contexto político


🧭 Conclusão técnica

  • Só o PRP/BR permite uma quantificação relativamente consistente
  • Nos restantes casos, estamos perante estimativas historiográficas, não séries estatísticas consolidadas
  • O período é melhor analisado em termos de eventos (golpes, atentados, manifestações) do que por “listas de presos por partido”

Se quiser, posso ir mais fundo e montar uma tabela cronológica (1974–77) com picos de detenções por mês/evento — isso dá uma leitura muito mais precisa do fenómeno do que a divisão por organizações.

ok

Perfeito — vou estruturar isso de forma cronológica para dar uma leitura “operacional” do fenómeno, que é como os historiadores normalmente o tratam.


📅 Cronologia das detenções políticas (1974–1977)

1974 — Pós-Revolução dos Cravos (Abril–Dezembro)

Abril–Junho 1974

  • Libertação massiva de presos do regime anterior
  • Primeiras detenções pontuais:
    • Agentes da antiga polícia política (PIDE/DGS)
    • Elementos associados ao regime deposto

👉 Natureza: “expurgos” do antigo regime, não conflito ideológico novo


Verão–Outono 1974

  • Crescente agitação política e social
  • Primeiras detenções de militantes:
    • PRP/BR
    • MRPP

👉 Natureza: confrontos de rua, ocupações, ações simbólicas


1975 — Ano crítico (pico absoluto)

Janeiro–Fevereiro 1975

  • Radicalização crescente
  • Detenções ainda dispersas (esquerda e direita)

Março 1975 — após o 11 de Março de 1975

👉 Primeiro grande pico de detenções

  • Prisões de:
    • Militares ligados a António de Spínola
    • Civis associados à direita

📊 Ordem de grandeza: centenas de detenções


Primavera–Verão 1975 (PREC no auge)

👉 Detenções frequentes, mas fragmentadas

  • Militantes de:
    • PRP/BR (ações armadas)
    • UDP
    • MRPP
  • Conflitos:
    • Greves
    • Ocupações de terras e fábricas
    • Violência política localizada

📊 Muitas detenções, mas:

  • curta duração
  • difícil contabilização cumulativa

Verão–Outono 1975 — terrorismo político

👉 Intensificação de ações da direita:

  • MDLP
  • ELP

👉 Resultado:

  • Prisões seletivas
  • Investigação de atentados bombistas

Novembro 1975 — 25 de Novembro de 1975

👉 Segundo grande pico de detenções (talvez o maior)

  • Alvos principais:
    • Militares da esquerda radical
    • Paraquedistas e setores próximos do COPCON

📊 Ordem de grandeza:

  • centenas de detenções imediatas
  • muitas libertações semanas depois

1976 — Normalização institucional

  • Entrada em vigor da nova Constituição
  • Redução acentuada da instabilidade

👉 Detenções passam a ser:

  • mais judicializadas
  • menos massivas
  • Casos ligados a:
    • PRP/BR (processos ainda em curso)
    • Redes da direita clandestina

📊 Número global: dezenas a poucas centenas no ano inteiro


1977 — Fim do ciclo revolucionário

  • Situação já próxima de normalidade democrática
  • Detenções residuais:

👉 Associadas a:

  • julgamentos pendentes
  • desmantelamento de redes clandestinas

📊 baixo volume


📊 Síntese dos picos

Período

Tipo de detenções

Intensidade

Abril 1974

Antigo regime

Alta (transitória)

Março 1975

Golpe falhado

🔺 Muito alta

Verão 1975

Conflito político difuso

Média

Nov 1975

Crise militar

🔺🔺 Máxima

1976

Normalização

Baixa

1977

Residual

Muito baixa


🧭 Leitura analítica

  • O fenómeno não é linear → é pulsado por eventos críticos
  • Dois momentos dominam:
    • 11 de Março de 1975
    • 25 de Novembro de 1975
  • A maioria das detenções:
    • foi temporária
    • não resultou em condenações prolongadas

Se quiser dar um passo mais técnico, posso cruzar isto com:

  • tipos de crime (terrorismo, insubordinação, ocupações)
  • ou duração média das detenções por grupo

Isso já entra numa análise quase “forense” do PREC.

No perríofo em causa quantos membros da PIDE/DGS e da LP e quantoss membros do Governos anteriores foram preso?

A quantificação aqui é mais sólida do que no caso das organizações revolucionárias, mas mesmo assim continua a depender de fontes dispersas (processos judiciais, comissões de saneamento, estudos académicos). Ainda assim, há ordens de grandeza relativamente consensuais.


📊 1) Membros da PIDE/DGS

Após o 25 de Abril de 1974

  • Detenção imediata de agentes e dirigentes
  • Inclui:
    • Inspetores
    • Informadores relevantes
    • Quadros superiores

👉 Estimativa global:

  • ~1.000 a 1.500 detidos nos meses após a revolução

Evolução:

  • Muitos libertados entre 1974–1976
  • Alguns julgados em processos longos (Tribunal Militar / tribunais plenários adaptados)

👉 Condenações efetivas:

  • algumas dezenas a poucas centenas, dependendo do critério (penas efetivas vs. suspensas)

📊 2) Membros da Legião Portuguesa

  • Organização muito mais ampla e heterogénea
  • A maioria dos membros não foi presa

👉 Detenções focaram-se em:

  • Dirigentes
  • Elementos envolvidos em repressão ativa

👉 Estimativa:

  • ~100 a 300 detidos

📊 3) Membros de governos do Estado Novo

Inclui ministros, secretários de Estado e figuras de topo associadas a:

  • Marcelo Caetano
  • Fase final do regime

Situação típica:

  • Muitos foram:
    • detidos temporariamente
    • ou colocados sob vigilância

👉 Estimativa:

  • ~20 a 50 figuras governativas detidas (na maioria por períodos curtos)

Nota importante:

  • Casos de longa prisão foram raros
  • Vários acabaram:
    • exilados
    • ou afastados da vida pública

📊 Síntese global

Grupo

Detidos (estimativa)

Observações

PIDE/DGS

~1.000 – 1.500

Maior número, ação imediata pós-revolução

Legião Portuguesa

~100 – 300

Foco em dirigentes

Governos anteriores

~20 – 50

Detenções curtas na maioria


🧭 Interpretação técnica

  • O maior volume de detenções não está no PREC ideológico (1975), mas sim:
    👉 no momento inicial de rutura com o regime anterior (1974)
  • A lógica foi:
    • neutralização rápida dos aparelhos repressivos
    • seguida de:
    • libertações progressivas e judicialização parcial
  • Comparando:
    • PIDE/DGS → alvo principal e massivo
    • Legião Portuguesa → secundário
    • elite governativa → simbolicamente visada, mas pouco encarceramento prolongado
~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

Durante o período conhecido como "Verão Quente" de 1975, no contexto do Processo Revolucionário em Curso (PREC) após 25 de Abril de 1974, as principais organizações terroristas de extrema-direita que operaram em Portugal foram:
  • MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal): Fundado em maio de 1975, era liderado por figuras como o general António de Spínola e envolvia figuras da direita radical como Fernando Pacheco de Amorim. O grupo foi responsável por uma vasta campanha de bombardeios e violência política, focada principalmente no Norte do país, envolvendo sedes do PCP e outras organizações de esquerda.
  • ELP (Exército de Libertação de Portugal): Criado a 6 de janeiro de 1975, era uma organização terrorista com ligações à antiga PIDE/DGS (criada por Barbieri Cardoso, ex-subdiretor da PIDE), com base e direção em Madrid. O ELP também foi responsável por ações violentas e bombistas na mesma época. 
Principais características e contexto:
  • Vaga Terrorista: Estas organizações foram responsáveis ​​por centenas de ações violentas (entre maio de 1975 e abril de 1977, estimam-se cerca de 600 ações, incluindo bombas, assaltos a sedes e agressões), com o objetivo de travar a influência comunista e a revolução em curso.
  • Anticomunismo: Mais de 70% das ações ocorreram no Norte, especificamente o PCP (34% das ações).
  • Rede de Apoio: As redes terroristas de direita tiveram apoio na zona de Braga, com envolvimento de setores conservadores da Igreja Católica, e fizeram parte de uma estratégia golpista que, em 1975, levou o país à beira de uma guerra civil. 
É importante notar que, embora o MDLP e o ELP tivessem objetivos comuns anticomunistas, por vezes operavam de forma distinta, mas durante o "Verão Quente" de 1975, as suas ações contra o avanço da extrema-esquerda confundiram-se na luta armada. 
🛡️ Características Principais do 'Mara da Fonte'
  • Apoio Institucional: Foi organizado por figuras como o Cónego Eduardo Melo Peixoto (Braga) e reforçado por Arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva.
  • Nome Histórico: O nome foi inspirado na Revolução da Maria da Fonte de 1846 , evocando uma revolta popular e tradicionalista contra o governo central. 
📉 Impacto no PREC
  • Barreira Geográfica:
    • Dividiu Portugal efetivamente em dois: o Sul (revolucionário, com ocupações de terras) e o Norte (reacionário e conservador).
    • Criou "zonas libertadas" onde o governo central de Lisboa e o COPCON (de Otelo Saraiva de Carvalho) não conseguiam exercer autoridade.
    • Mobilização de Massas:
      • Uso de sinos das igrejas para convocar populações rurais para “defender uma religião” contra o “ateísmo comunista”.

Gravura gerada pelo chatGPT