* Victor Nogueira
Ao (es)correr da pena e do olhar
Aprender, Aprender Sempre ! (Lenine)
Allfabetização
Escrevivendo e Photoandando
No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.
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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.
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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.
VNsexta-feira, 29 de maio de 2026
A poesia em Maio 29 (2014)
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Soap opera à vez (2026)
* Victor Nogueira
As gand'as campanhas da sopa no mel. Não há matéria para parangonas similares envolvendo 'les compagnons de route' no PSD, no CDS e no Chega?
O omniparlante do impoluto partido com telhados de vidro e paredes opacas, com sôfregos pés de microfone às mãos, atira-se com unhas, dentes e 7 folegos ao PS e PSD. Nisto caminhando de manitas dadas com a Mariana Leitão, a dos 'liberalescos'
«Entre responsabilizar o PS e rejeitar a diabolização: reacções à Operação Imergente
Se há quem aproveite a Operação Imergente para atirar em força ao PS (e de caminho ao PSD), há quem recuse diabolizar outros partidos. André Ventura não tem dúvidas de que o PS "tem responsabilidade" neste caso e deve prestar esclarecimentos. Mariana Leitão considerou que "não é novidade" que PS e PSD estejam envolvidos em casos de opacidade e ilegalidade no poder local. Uma posição "exagerada" para Inês Sousa Real, que rejeitou "particularizar". Pelo Livre, Rui Tavares avisou que o campo progressista tem de ser "absolutamente límpido". O ministro da Administração Interna, Luís Neves, escusou-se a comentar.
Em declarações aos jornalistas, na Assembleia da República, André Ventura, presidente do Chega, considerou "importante" que José Luís Carneiro, líder socialista, "desse os esclarecimentos que devem ser dados" sobre a megaoperação da Polícia Judiciária (PJ), que visa câmaras e juntas de freguesia lideradas pelo PS que contrataram militantes e empresas destes para lhes prestarem serviços e levou à detenção de cinco pessoas e a buscas na sede do partido, em Lisboa.
Mariana Leitão estendeu as críticas aos sociais-democratas, argumentando que "não é novidade que os dois partidos que vão disputando o poder entre eles no nosso país estão sempre envolvidos num conjunto de situações de grande opacidade, até mesmo algumas de ilegalidades, no exercício do poder político".» (Público 2026 05 28)
A talhe de foi-se - E quanto custa o desmantelamento das funções sociais do Estado, com a privataria agora com Montezero ao leme e o código 'liberal' nas mãos e a Constitução engavetada, à espera da machada final? Desmantelamento desde há décadas levado a cabo pelo PS,PSD, CDS aos quais se juntam IL & Chega?
Entretanto, para lá da privataria e de Duarte Lima, Montezero e outros 'compagnos de route', de momento o tiro à peça na central da manipulação: «Podcast Soundbite. Buscas ao PS tramam futuro de Carneiro»?
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Imagem gerada pelo Google Gemini a parti dum guião de minha autoria
Desenhar um mercado de rua, No meio um carrocel. A direita um homem faz de justiça, com um olho vendado e segurando na mão uma balança de dois pratos, desiquilibrados. À esquerda, entre dois mastros, um homem faz equilibrismo. perto dele uma mulher joga com larajas e rosas. Desenho colorido
A poesia em Maio 28 (2014)
* Victor Nogyeira
Sintra e o Castelo dos Mouros (2015)
28 de maio de 2015
foto victor nogueira - Sintra e Castelo dos Mouros alcandorado no cimo da penedia - Lá em cima estive há décadas e no passado milénio, no tempo em que era menino e moço, modo de escrever para tornar distante no tempo o que na história do Universo ou mesmo da desHumanidade não passa de fugaz instante, mais breve que o fugacíssimo lampejo dum fósforo que de imediato se apaga entre os dedos e ao sopro de levíssima brisa.
Tenho de lá voltar, vencida a inércia em que estou emaranhado, photoandarilhando por aquelas pedras e ruínas, buscando o horizonte infindo em redor. E talvez dalgum recanto e das penedias e fraguedos (res)surja a moura encantada que o meu desencanto quebre. Bem posso esperar sentado, para não me cansar, na úmbria, murmuram-me os meus botões e o meu lado racionalista.
Mas ... por falar em descanso: áqueles povoados fortificados defendidos por castelos alpendurados em rudes e pedregosos fraguedos, deveriam chegar com os bofes na boca e tremuras nas pernas e nos braços , os peões de ventre ao sol e os cavaleiros de ferro cobertos para mal das cavalgaduras em que se transportavam, equinos ou mulas, após percorrerem penosamente estreitos e sinuosos carreiros, levando pelos costados acima com pedregulhos, setas e óleo fervente. O que hoje nos parece paradísiaco na sua verdejante serenidade seria então a antecâmara do inferno.
Tão dolorosas as queimaduras que se prolongavam no bailar das chamas e dos tormentos nas profundas do reyno de Belzebu, sem mil virgens que em Cristo amenizassem a glória dos cavaleiros e seuus peões de brega.
VER Fortificações 33 - Sintra e o Castelo dos Mouros
PANTOMINAS E PANTOMINEIROS NO CIRCO DAS PANTOMINAS (2014)
* Victor Nogueira
27 de maio de 2014
O CIRCO DAS PANTOMINAS - António Costa "naturalmente disponível" para liderar o PS. Seguro obriga Costa a reunir assinaturas para haver congresso
Sem denúncia do Pacto subscrito pelo PS(d)CDS e sem questionar esta UE, tudo isto será pura mudança de actores para que a encenação e a peça continuem as mesmas, com mais ou menos estrondosos tiros de pólvora seca ! Abrindo agora caminho a costa, seguro abre caminho para si próprio, caso Costa falhe. Resta saber se após um eventual naufrágio ainda haverá titanic para seguro ou sócrates !
Fazem-se agora extrapolações dos resultados das europeias como se legislativas fossem. Ora é impossível comparar e extrapolar o incomparável. Europeias, legislativas, presidenciais e autárquicas são realidades diferentes, com motivações e níveis de participação/abstenção diferentes, apenas com relativa estabilidade nas autárquicas e com participação decrescente nas rrestantes.
Outro exercício é comparar a distribuição de mandatos e de votos tendo em conta não o universo dos eleitores votantes mas o total de eleitores que figuram nos cadernos eleitorais. À 1ª vista, poderia servir de alerta. Mas o verdadeiro objectivo é dizer que como a "maioria silenciosa" não votou, a "minoria" activa não teria legitimidade para pôr em causa a dupla de pedro & paulo de psd/cds. Aliás, o ps seguro costa cisco assis nada fez para criar para as europeias uma nova esperança. Deu agora à costa o putativo santo António de Lisboa, aparentemente esquecido de futuros "tronos" presidenciais.,
Falta o "mexilhão". Pensam que ficará sempre alapado ao rochedo, sofrendo estoicamente o bater das ondas a morrerem na areia. Ficará ?
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Imagens geradas em 2026 05 27 pelo Perplexity AI Prtir do texto e pelo chatGPT a partir dum guião do Google Gemini
Crie uma ilustração colorida, satírica e altamente caricatural, em formato horizontal 16:9, com aspeto de cartoon editorial político. A cena passa-se dentro de uma lona de circo transformada em palco de teatro. No centro, quatro personagens políticas genéricas, inspiradas em António Costa, António José Seguro, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, devem aparecer com traços exagerados, expressões muito teatrais e poses cómicas, como atores a trocar de figurino em plena atuação. O ambiente deve transmitir a ideia de que a peça muda de atores, mas o enredo continua igual, com o fundo sempre igual e repetitivo. Ao fundo, represente um navio político a afundar-se de forma dramática e quase absurda, enquanto as lideranças discutem quem fica ao leme. Em primeiro plano, num canto da imagem, mostre o povo como mexilhões agarrados a uma rocha, com caras resignadas e expressão de sofrimento cômico, a levar com ondas agressivas que simbolizam “Austeridade”, “Tratados Europeus” e “Abstenção”, sem texto legível. Use cores fortes e contrastadas, com vermelho, azul, dourado e cinzento, mantendo um tom de sátira mordaz. O estilo deve ser claramente caricatural, com cabeças ligeiramente maiores, gestos expressivos, linhas vigorosas e composição visual muito narrativa, como uma capa de jornal satírico. Legenda curta: Caricatura do circo político, do naufrágio e do povo-mexilhão.»
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27 de maio de 2014
A PANTOMINICE PROSSEGUE - No PS(d)CDS recomeçou com pólvora seca uma nova noite das facas longas. Mudam-se os actores para encenar a mesma peça que só não é farsa pk se trata duma tragédia para a maioria.A encenação para que tarde a alvorada, para que o dia continue a nascer como os anteriores, sem andorinhas no horizonte.
Relativamente às águias, essas voam por outros céus e em terra, dando à costa pardalitos, em dias de tempestade com estalidos de perlimpimpim ! Quanto ao lacrau, eterno sempre-em-pé, com ou sem passes de coelho por lebre, não estou certo que os mandantes o não obriguem a beber a cicuta até ao fim, irrevogavelmente.
Há depois as urnas, caixões de pinho melhor ou pior salgalhadas. Cisco Assis e Ana Gomes e Zorrinho e restante companhia, já antes disseram que preferem a direita. Demasiado nédios para saírem das alcatifas para a rua. Encenando a mesma serôdia peça. Até que a sala se esvazie com o fosso que orquestram ! Como teria dito Galileu contra as aparentes evidências "E no entanto ela (a Terra) move-se"
27 de maio de 2014
NOTÍCIAS DA CONTRA-PANTOMINA - O voto exerce-se quotidianamente, nos locais de trabalho, na rua, nas comissões sindicais, nas comissões de trabalhadores, nas comissões de utentes, nas comissões de moradores ... Dia-a-dia, com avanços e recuos, com sonhos mas sem ilusões, pés e mãos na terra e na lama ! Com desilusões, é certo, mas sempre em frente ! Lado a lado, ombro a ombro, frente a frente ! Unidos e seguros no que é essencial ! Sem demagogos nem falsas promessas. Nem caixões de pinho salgalhado.
27 de maio de 2014
NOTÍCIAS DA PANTOMINA - No PS a crer nas declarações à imprensa e pela maioria dos blogs a ele afectos que conheço, começou uma nova noite das facas longas. Para que o dia nasça como os anteriores, sem andorinhas no horizonte. As águias voam por outros céus e em terra, quanto muito, pululam pardais ! Quanto ao lacrau, eterno sempre-em-pé, com ou sem passes de coelho por lebre, não estou certo que os mandantes o não obriguem a beber a cicuta até ao fim, irrevogavelmente. E o POVO ? O povão e as camadas intermédias ficaram em casa barricados no sofá. Esperando talvez pelas barrigas de aluguer, por um sebastião de pinho, pior ou melhor salgalhado
28 de maio de 2014
o programa da pantomina segue dentro de momentos, depois do intervalo, com ou sem outros actores, todos da companhia PS(d)CDS, um elenco com estrelas, de estalo !
28 de maio de 2014
IZNOGOUD ou Cenas da pantomina "QUERO SER CALIFA NO LUGAR DO CALIFAZINHO" em que se mudam as mosquinhas por moscardos para que tudo continue na mesma. Qualquer semelhança com a realidade será pura coincidência ?
E que faz o "mexilhão" ? Ah! --- o mexilhão, pois então !
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Pombo na sacada em Setúbal (Troino) (2018)
`Victor Nogueira
27 de maio de 2018
Cenas do quiotidiano (2024 e 2025)
* Victor Nogueira
terça-feira, 26 de maio de 2026
em évoraburgomedieval - Retratos (2012)
* Victor Nogueira
26 de maio de 2012
Eu bem sei que isto aqui nas redes sociais e na blogosfera é o mundo do fast write, fast read and discard. Eu bem sei porque mo dizem que escrevo muito, demasiadas linhas. E por isso talvez seja abuso meu partilhar o que talvez não interesse e não desperta grandes comentários nem partilhas de retorno nos comentários. Enfim, sejam ousados (m/f) ... usem o "não gosto", se for caso disso LOL
Uma boa vida
Ali duas velhotas discutem as vantagens de ser criada de servir: ganham bem, vestem os vestidos da senhora, não gastam nada. Uma vida de fidalgas. (MCG - 1974.12.10)
A miúda e a matrona
(...) Era um jardim geometricamente desconfortável, artificial, No coreto a banda tocava. Além, caridosamente, alguém partilhava com os "jardineantes" as goelas do transístor escancaradas. No banco, ao meu lado, uma matrona e uma gaiata conversam banalmente: "Puxa a mala um bocadinho mais para baixo. Isso! Assim! Para que te não vejam as pernas". E eu sorrio-me por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política". Pobres e ridículas gaiatas! Pobres e ridículas matronas! (1)
O miúdo e o carrocel
No mesmo jardim, era um miúdo esfarrapado, sujo, de rosto envelhecido. Dele aproxima-se do guarda, para cobrar o bilhete da entrada, mas o dinheiro não chega. No entanto, o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar. O miúdo envelhecido corre, para, hesita! Os olhos sorriem no rosto sujo: balancé? carrocel? escorrega? ... ou avião? Não poder ele desdobrar-se! E assim, corre, sobe, escorrega - o mundo é dele. Agarra-lo, sobe, desliza, corre, sobe, desliza, sobe, desliza, corre, sobe, desliza, contorce-se ...
De repente alguém exclama: "MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!" Então, as avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo, os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios. Ele hesita. Baloiça, baloiça, baloiça! Roda, roda, roda, sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre! contorce-se, baloiça, roda ... Olhos brilhantes cheios de felicidade! Um velho num corpo de criança, pequena para a roupa suja, esfarrapada!
As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo, os meninos, esses apedrejam com a língua e crucificam com os lábios. Velhas envelhecidas. Garotos moribundos. E uma criança num pequeno corpo de velho! (POE - 1969.02.24) (2)
1 - Do poema Cenas do Jardim, escrito em Évora em 1969.02.24
2 - Ver nota anterior.
Dia de S.Porco
Hoje, em Évoraburgomedieval é terça feira e, para além dos turistas habituais, a Praça do Giraldo e o Café Arcada encontram se cheios de forasteiros, solidamente especados, indiferentes a quem passa e no estorvo provocado. É dia de S. Porco, i.e., dia de mercado, em que os homens vêm à cidade para o negócio do gado, enfiados nos seus fatos escuros, de mau corte, botas enlameadas e chapéu na cabeça. Detesto a sua falta de maneiras, embora por vezes seja uma distracção observar as suas atitudes. O mais interessante neles é o modo como se escarrancham nas cadeiras, à mesa do café, solidamente instalados, o chapéu na cabeça atirado para trás.
Mas para além deles e quotidianamente há outras figuras curiosas no café, figuras de todos os dias nas mesmas posições. Todo um mundo parado, parecendo indiferente à passagem do tempo. (MAF - 1971.10.09)
Évora é uma terça-mercado numa praça.
numa praça em terça-mercado um café.
de um café em praça numa terça-mercado.
de agrários cinzentos..
como cepos sem vida. (POE - (1)
Amanhã é 3ª feira, o meu dia negro, pois a cidade - e o café - enchem-se de alentejanos corpulentos, solidamente parados no meio do caminho, de chapéu na cabeça e fatos escuros, como se nada mais existisse no mundo senão as suas irritantes pessoas ! (NID - 1973 ?)
1 - Do poema Natureza Morta, escrito em Évora
Um homem na Lua
Ontem um bêbado abordou-me quando via os livros na montra da Livraria dos Salesianos. Queria saber qual era a melhor história que ali estava. Ou a maior ? A de todo o mundo! De todos os tempos. Que todos aqueles livros eram mentiras. Para as pessoas comprarem pensando serem verdades. Era a máquina! Se eu acreditava que o homem tinha ido à Lua, se eu vira com os meus olhos. Que os jornais e os livros só diziam mentiras. Que nenhum homem pudera ter ido à Lua porque ele não vira. E que eu tinha sido enganado pelos jornais. Era mentira, talvez tivessem ido, mas tinham morrido todos. Que isso dos submarinos andarem debaixo de água era diferente: era a Terra.
Quanto pagaria eu para ele me contar uma história daquelas, vinda do fundo do coração? (E vai daí, faz um gesto como que proveniente das profundezas do mesmo mas, ou pela bebedeira, ou lá porque fosse, o gesto iniciou-se baixo demais e não pude deixar de comentar com a minha habitual ironia: "O seu coração está baixo demais!". )
Quis saber o que eu fazia - se era escritor e já escrevera o meu livro - e não acreditava que eu vivesse do ar e do vento. Enfim, que se tivesse 25 anos como eu estava mas é em Lisboa, que isso sim! E lá se ia agitando desequilibradamente o velho (de 57 anos), num asilo, convidando-me (ou convidando-se) para um copo ali na taberna, beata ao canto da boca com um grande morrão e deitando perdigotos como nuvem rota em dia de inverno. Mas nem queiram saber a insistência com que ele duvidava da ida dos homens à Lua. (MCG - 1972.10.23)
Uma sessão cultural em Évora
Aqui, espalhados pela mesa, vários recortes de jornais, a maioria deles da Isabel da Nóbrega, que já conheço desde há seis anos pelos artigos que tem publicado no "Diário de Lisboa" e na "Vida Mundial". Actualmente já nem sempre aprecio tanto os seus artigos como outrora: porque ela teria mudado a sua maneira de escrever? Ou eu a minha maneira de ser?
Vi a apenas uma vez (em Évora) há dois anos, num colóquio sobre poesia ( o Ary dos Santos - conhecido pelas letras da "Desfolhada" e de "Menina" - declamou - e bem - poemas seus ) A esse colóquio o Ary chegou muito atrasado e já "entornado" e com uma garrafa de brandy com que ia molhando as goelas ao longo da sessão.
Quem costuma andar lá pelas reuniões em Évora, como eu, conhece um certo número de autodidactas, o mais enfadonho dos quais é um tipo de bigode e óculos. Pois esses autodidactas - numa atitude compreensível mas inaceitável - aproveitam estas "manifestações " culturais para botar faladura a propósito e - sobretudo - a despropósito.
De modo que para o fim aquilo começou a aquecer - o Ary dos Santos, bêbado, a falar contra a situação, em português vernáculo (e o Presidente da Direcção da Sociedade Operária de Cultura e Recreio Joaquim António de Aguiar muito aflito, por causa da PIDE e dos castos ouvidos das senhoras presentes) os autodidactas discutindo com a assembleia e a mesa, o Victor Ângelo e outros alimentando a discussão (dessa vez não abri o bico, pois por mim falava o ... Ângelo). O José Saramago e a Isabel da Nóbrega procuravam, em vão, acalmar os ânimos. Apaixonei-me pelo rosto da Isabel. Se a vissem, aqueles olhos grandes, as suas mãos, a atenção e o cuidado para não ferir os autodidactas - vaiados pela assistência! Estou a vê la sentada, aflita à procura da palavra e do gesto, falando às pessoas, voltada para elas, aflita por não poder falar com os dois campos simultaneamente, um grande respeito pelas pessoas! Entrevi a depois à saída e fiquei algo desiludido: o seu corpo não me pareceu corresponder à nobreza do seu espírito. Pouco sei dela: que tem escrito alguns romances, que terá dois filhos da minha idade.(MCG - 1972.09.02)
A Bela e o Monstro
Falta falar do enxovalho (que não foi meu). Bem, eu conto. Hoje antes do almoço tive de telefonar (...) por causa de informações sobre o pretendido emprego na CP. Pois as pessoas que pretendiam telefonar eram mais que muitas na tabacaria do cimo da Rua [do Raimundo]. As cabines estavam todas ocupadas e alguns dos "aguardantes" impacientes e apressados. Eis senão quando ... Bem, mas ainda um esclarecimento. Um dos ocupantes duma das cabines era uma tal Bia, prostituta cá da praça. É gorda como um batoque e, para a minha vista, simplesmente asquerosa. (1)
Ora a Bia, quando eu entrei, esperava vez e, entretanto, chegado o momento, ocupara uma das cabines. Cinco pessoas a falarem, outras tantas cabines ocupadas. Eis senão quando a dona do posto abre a cabine nº 1, com a maior sem cerimónia, e diz lhe: "Vamos a sair depressa que há mais gente à espera." Ó céus, o que foste fazer! A mulherzinha, com toda a razão, diga se de passagem, disparatou - Que ela também tinha esperado e que os outros fizessem o mesmo. Muito cordatamente, como devem imaginar, a dona retorquiu-lhe "Vamos lá a fazer pouco barulho e a despachar", o que provocou nova onda de regateirice da outra (de resto estavam uma para a outra, só que a dona não tinha razão!).
Enfim .. a Bia julgava-se na praça, a vender peixe e vai daí a dona diz-lhe que ela até fazia bem se não pusesse ali os pés para telefonar. O que tu foste dizer!
Completamente entornado o caldo, a Bia respondeu que aquilo é um posto público, que podia telefonar o tempo que quisesse e que agora é que continuava; que chamassem a polícia se quisesse! A dona não teve outro remédio senão ir tomar ares para a porta, enquanto as empregadas conciliabulavam entre si e os clientes brilhavam pelo silêncio. Quando me vim embora, o "namoro" ao telefone continuava. A afirmação dos seus direitos não lhe deve ter ficado cara e talvez para a próxima a "burguesa" de cabelos brancos e pretensões (a não sei bem quê) pense duas vezes antes de estalar-lhe o verniz. (MCG - 1973.01.10)
1 - Em Évora, nesta altura, a prostituição estava acantonada na Rua do Terrique, que entroncava na Rua da Alagoa ou Cândido dos Reis. Quando se passava nesta, viam-se os homens naquela, com ar mais ou menos comprometido, em fila, à espera de vez para fazerem o serviço, defronte a várias portas dos prostíbulos.
A fúria do Zé do Casarão
Hoje à tarde o dono do Zé do Casarão estava furioso, telefonando quando por lá passei a comprar o "Comércio do Funchal" (agora gastando páginas numa inútil polémica com a "República"; uma guerra de alecrim e manjerona!).
E o senhor desabafou comigo. Estava furioso com o chefe da PIDE. Que mandou lá buscar o último fascículo da "Enciclopédia do Vilhena", que foi devolvido meia hora depois, por um contínuo, que disse: "O senhor chefe diz que pode vender!" Ah! Ah! Ah! Porque, dizia o Zé, isto é um abuso. Se queria ler, pedia-mo emprestado. Porque ele não tem competência para decidir ou não da apreensão de revistas e livros, sem autorização do Ministro do Interior." Ah! Ah! Ah! E acrescento-lhe eu: "E de qualquer modo não podia levá lo sem levantar um auto de apreensão" E lá deixei o Zé, furioso, telefonando não sei para quem." (1) (MCG - 1973.11.27)
1 - No final de 1998 voltei a Évora e onde era a tabacaria do Zé do Casarão havia outra que nada tem a ver com a desta história, atafulhada de papeis e jornais amontoados e impregnada do cheiro a mijo de gato e uma cabine telefónica não tão concorrida como as que havia ao cimo da Rua do Raimundo. Na tabacaria do Zé do Casarão parava uma prostituta de grandes óculos e alguma timidez que, sem provocação, me saudava sempre que nos cruzávamos e a que faço referência no meu poema Obrigado.
Ai que mataram a Maria!
Dois colegas meus foram a Arraiolos apreciar um órgão setecentista pelo qual um deles se apaixonou. Na Igreja entraram e ao coro subiram, para apreciá-lo, autorizados pelo pároco. E ao descerem. o insólito! Não foram presos por uma unha negra.
Contava uma velhota, que tinha estado à janela com o marido: "Ó "qualquer coisa", entraram dois homens para a Igreja, que não conheço!" Tiraram-se de cuidados e assomaram à porta do templo, chamando pela Maria (a mulher da limpeza) Mas da Maria nem voz nem presença.
"Ai que mataram a Maria!" "Ó homem, o melhor é chamar o Cabo da Guarda." (A Igreja fora assaltada na semana anterior). Mas, ou a Maria ou o prior apareceram entretanto. O que livrou um dos "estrangeiros" do risco e do perigo de justificar (!) o tubo do órgão (uns 40 ou 50 cm) que, ao descer, trazia debaixo do casaco ... como recordação (sim, que um tubo dum órgão setecentista não são ... dois anéis num supermercado). Mesmo sendo diferentes a "lata" e o descaramento. (MCG - 1973.11.27)
O raio da tinta pega se à pele
Olho para os dedos que estão cheios de tinta. Pareço um menino da instrução primária. Como o sistema de enchimento da caneta está estragado - e só em acessórios esta caneta já me gastou mais que uma nova - tenho de fazer uma grande ginástica para enchê-la. É sempre esta fita. E o raio da tinta pega se à pele! (MCG - 1973.01.31) (1)
1 - Anteriormente: "Esta caneta parece me que torna mais ilegível a minha gatafunhada. Mas na sequência de pequenos acidentes em que Janeiro tem sido pródigo, a minha velha "Pelikan" passou à reserva por se ter avariado o sistema de enchimento. Recorri á outra, que tem um aparo demasiado fino" (MCG - 1973.01.16)
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Carlos Rodrigues
Das guerras do alecrim e manjerona à saudade " do tempo que fomos juntos ", Diário vivo e bem conservado, Victor, donde o último parágrafo é mesmo o melhor do Texto. O resto agradavelmente irónico. Abraço, Victor.
14 a
António Couvinha
O chefe da PIDE nesta altura era o chefe Melo.
14 a
António Couvinha
Estive ontem com a Margarida Morgado num encontro Literário em Montemor o Novo. Pode vê-la numa foto abaixo.
14 a
Victor Barroso Nogueira
Cadê a foto, António Couvinha ?:-)
14 a
Victor Freebird
Há "milhares" de anos que nao tinha notícias da Margarida M...Que bom ve-la activa e cheia de ideias! V
14 a
Maria Mamede
Olá Amigo...o que dizes, tem razão de ser...somente às vezes o tempo é curto ; pode parecer desculpa esfarrapada, mas não é! Bjs. M.M.
14 a
Victor Barroso Nogueira
Maria Mamede - Não tens de pedir desculpa. Bjos meus :-)*
14 a
Manuela Vieira da Silva
Com ironia se contam memórias e gentes, tempos que não se repetem, ou se acontecem, já não é bem o mesmo, embora as características de um povo não tenham grandes mudanças visíveis... só na aparência, há coisas que só quem as viveu as consegue escrever. Momentos que não fazem história mas fazem as gentes. Gostei de ler.🙂
14 a
Joao Garcia
Por acaso fui de visita ao dito órgão em Arraiolos julgo que com o Carlos Nunes da Ponte que agora tem outro nome e com quem ia às vezes eu ouvir ele tocar num órgão algures pros lados do tribunal(?)
13 a
Victor Barroso Nogueira
Joao Garcia Eu tb não sabia que o Carlos tinha outro apelido para além daqueles que conhecíamos. Sim, qualquer igreja que tivesse um órgão era aproveitada para os seus ensaios. Em casa da Margarida tocava piano
13 a
Joao Garcia
Pode ter adoptado o apelido da mulher se foi caso disso !
13 a
Victor Barroso Nogueira
Joao Garcia Ele não se casou. Estivemos um dia destes em casa dele- eu, o Aristides e o Viegas.
13 a
Graca Maria Rito
Gostei , muito .... Obrigada amigo ....
14 a
Maria Lúcia Borrões
Palavras para quê? É um artista português... ;-))
14 a
Alice Coelho
Longo ou curto, não é isso que interessa, o verdadeiramente importante é o conteúdo e a maneira sucinta com que se escreve... e eu gosto do que escreves, Victor!!! obrigado e um beijinho
14 a
Yolanda Botelho
Gosto do que escreves.....por vezes não leio logo tudo,vou lendo,só que com muito gosto.Tens histórias deliciosas,obrigada meu esquerdista preferido.
14 a
José Inácio Leão Varela
Tb tive uma altura que me dava para escrever Notas e tb, para além de poucos/as as lerem (eram grandes rsrsr) me disseram que eram mais próprias para um blogue...não continuei apenas porque vi pouco interesse nelas. Mas qq dia volto a tentar...e tu amigo não desanimes e continua pois textos destes vale sempre a pena escreve-los e ler...abraço Victor Nogueira.
14 a
Victor Freebird
Que memória! E que retrato de uma época! Muito bem! VA
14 a
Victor Barroso Nogueira
Maria Emília Não há qe pedir desculpa. Afinal somos amigos "virtuais" desde há uma eternidade, desde o hi5 :-)*
14 a
Victor Barroso Nogueira
Victor Freebird Sou ainda duma geração que, embora dominando a informática quase desde o inicio, ainda é do tempo do papel de carta e das canetas de tinta permanente e dos selos colados num envelope e do marco do correio e do alvoroço de receber e de enviar notícias em suporte não virtual.
Estas memórias são "recortes" de muitas dessas cartas, centenas delas recuperadas, ou rascunhos ou inacabadas, que escrevi, especialmente as destinadas à família em Luanda, Porto ou Lisboa, ou à mãe dos meus filhos ou a algumas das minhas amigas. As que foram escritas aos amigos, essas perderam-se para mim, definitivamente, num qualquer cesto dos papéis deles LOL
São um registo do quotidiano e não só. 🙂
"(…) Antigamente as pessoas escreviam muito e as cartas eram meio de transmitir notícias e muitas delas, com maior ou menor valor literário, tornaram-se testemunho dos factos, acontecimentos, ideias e sentimentos.
Mas hoje, hoje as pessoas telefonam ou encontram-se, devido à facilidade e rapidez dos transportes e das comunicações, e o tempo é pouco, paradoxalmente, devido à sobrecarga do que se gasta em transportes, sentado frente à TV ou em tarefas domésticas [ou a teclar horas seguidas, infindas, nas salas de conversação].
O mesmo sucede com o convívio e a conversação: por vários motivos os cafés e as tertúlias desaparecem, só se conhece o vizinho da frente ou do lado, quando se conhece, e as pessoas metem-se na sua concha, casulo, carapaça ou buraco. Muita gente junta, ao alcance da mão ou da voz, não significa que estejamos mais acompanhados e humanizados. (…)"
(Victor Nogueira à «Maria do Mar», 18.08.1993).
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Margarida Piloto Garcia
Olha Victor, eu gosto imenso de te ler.É extenso o que escreves e tem muito para assimilar, mas o ritmo é rápido e atractivo. Tal como diz o poeta, " primeiro estranha-se e depois entranha-se ".Sabe bem ler todas estas vivências de extrema riqueza.Eu agradeço imenso a partilha do teu espólio de vida.
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Elena Viqueira
Me alegra haber descubierto una gran experiencia, gracias por poder leer sus escritos
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Maria Lúcia Borrões
Qual é o problema de ser extenso? (Qualificativo que é bastante subjectivo, diga-se em abono da verdade). Ler-te é um prazer, por isso quanto mais extenso, melhor!
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Graça Maria Teixeira Pinto
Obrigada pela partilha.Gosto destas memórias !
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Victor Barroso Nogueira
Varela José Inácio Qd quiseres criar um blog fala comigo. Já vou no 11º, 10 dos quais um pouco abandonados devido ao último que criei este mês LOL
http://kantodointegral.blogspot.pt/
Kant_O_dos_Integrais
KANTODOINTEGRAL.BLOGSPOT.COM
Kant_O_dos_Integrais
Kant_O_dos_Integrais
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Victor Barroso Nogueira
LÚcia - se naquele tempo já houvesse o facebook e similares nunca teriam sido publicados de Camões Os Lusíadas ou Guerra e Paz de Tolstoi ou A Comédia Humana, de Balzac, ou o Memorial do Convento ou Levantados do Chão, de Saramago, ou os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, ou do mesmo, Crime e Castigo ou de James Joyce - Ulisses, ou ... ou ... Têm muitas linhas e não se entendem num golpe de vista. NOTA BEM - não me estou a comparar a estes escritores LOL Bjos meus, Maria Lúcia Borrões que não complementa as minhas memórias Bi-LOL
Cadê "O Dia Seguinte" ? Tri - LOL
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Maria Lúcia Borrões
1ª parte- Não estás a comparar-te mas podias... 2ª parte-Sorry, sorry, sorry... 😢. 3ª parte-Bjinhos
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Victor Barroso Nogueira
Lúcia - eu sou um simples cronista do quotidiano, de sketches, talvez com linguagem cinematográfica. Muito melhor a efabular e a escrever novelas é o meu filho Rui Pedro LOL
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Maria Lúcia Borrões
Concordo que os teus escritos são altamente cinematográficos. Eu gosto! Adoro estar a ler um livro e estar a vê-lo adaptado ao cinema. Muitos dos meus escritores preferidos têm essa característica.
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