Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Economia doméstica (62) - Marisco congelado: como utilizar?

 


* Gemimi Assistant

CONGELADO PARA A PANELA: COMO FAZER RENDER A MISTURA DE MARISCO SEM DESPERDÍCIO

Secção: Economia Doméstica | Guia Prático de Gestão Alimentar

Gerir uma cozinha de forma eficiente para uma só pessoa exige estratégia, especialmente quando compramos embalagens familiares ou preparadas de raiz. O marisco ultracongelado é um excelente aliado da economia doméstica: não ganha desperdício, está sempre limpo e tem uma durabilidade tremenda. Contudo, há mitos sobre a sua preparação que podem estar a fazê-lo perder o melhor do produto: o sabor e a textura.

1. O Mito da Descongelação Prévia

Ao contrário do que muitos pensam, para a maioria das preparações de panelas e estufados, não é preferível descongelar o marisco previamente. Quando o marisco descongela lentamente na bancada ou no frigorífico, liberta um líquido rico em nutrientes e compostos aromáticos. Se deitar essa água fora, está literalmente a deitar o sabor do marisco pelo ralo. Ao cozinhá-lo diretamente congelado num caldo ou molho já quente, esse líquido desprende-se diretamente na comida, enriquecendo o prato de forma natural.

2. Olhar Clínico sobre o Rótulo: Gestão de Porções e Alergénios

Analisando o rótulo de uma mistura de marisco ultracongelada padrão de 400g (composta por bivalves como amêijoas e mexilhões, crustáceos como camarão e sapateira, e delícias do mar), deparamo-nos com dois fatores cruciais para a economia diária:

·         A Ração Real vs. Ração de Embalagem: As embalagens comerciais de 400g costumam indicar que rendem 4 porções. Contudo, na economia doméstica real, essa quantidade rende apenas 2 porções satisfatórias ou 3 refeições individuais equilibradas. O marisco congelado traz uma película protetora de água (glaceamento). Ao cozinhar, o gelo derrete e o marisco reduz drasticamente de tamanho. Contar com 100g de marisco congelado por pessoa para um prato principal resultará numa refeição pobre e pouco saciante.

·         Atenção aos Alergénios Escondidos: Processados como as delícias do mar (surimi) utilizam frequentemente amido de trigo para dar textura. O rótulo avisa claramente: mesmo que o produto final seja isento de glúten, não é seguro para quem tem alergia severa ao trigo. Contém ainda soja, ovos e metabissulfito de sódio (sulfitos usados na conservação do camarão). Mantenha este detalhe em mente se cozinhar para visitas.

3. Estratégias Poupa-Tempo para Single-Cooking (Cozinhar para Um)

Se mora sozinho, cozinhar uma embalagem de 400g de uma só vez para criar várias refeições marmita poupa imensa eletricidade/gás e tempo de limpeza. No entanto, o tradicional 'arroz malandrinho' de marisco não aguenta o congelador porque o arroz continua a absorver a humidade e fica pastoso ao reaquecer. Aqui ficam as duas melhores alternativas técnicas:

Método

Como Preparar de Uma Vez

Vantagem na Economia Doméstica

Abordagem do Arroz Seco (Tipo Paella)

Frite 1 chávena de arroz agulha ou vaporizado num refogado rico. Junte 2 chávenas de água a ferver. Deixe cozinhar 8 min, adicione o marisco diretamente congelado, tape e cozinhe mais 6 min até secar. Divida em 3 recipientes.

O arroz vaporizado ou agulha não empapa. Permite congelar 3 refeições completas 'prontas a enfiar no micro-ondas'. Eficiência máxima de tempo.

Abordagem do Salteado de Alho

Passe o marisco 30s por água fria (só para tirar o gelo exterior) e seque-o. Salteie em lume forte com 2 colheres de sopa de azeite e muito alho por 4-5 min. Divida o marisco e o respetivo molho por 3 caixas.

O marisco salteado retém uma textura perfeita no congelador. Na hora de comer, basta reaquecer e juntar a uma base fresca (ex: puré de batata instantâneo ou massa cozida na hora).

 

4. O Truque Conforto: Marisco Salteado com Puré de Batata

Para quem escolhe a abordagem do salteado, o puré de batata é um acompanhamento excecional. Como o puré tem um sabor neutro e uma textura aveludada, ele absorve perfeitamente o molho de azeite e alho enriquecido pelos sumos do marisco. Pode congelar as doses de puré com o marisco por cima (deixando o puré ligeiramente mais fluido com um toque extra de leite para não secar no reaquecimento) ou fazer puré instantâneo em flocos na hora em apenas 5 minutos. Uma solução rápida, barata e com assinatura de restaurante!

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Economia doméstica (61) - Conservação de alimentos no congelador: molhos e outros ingredientes

 



* Gemini / Victor Nogueira

Congelar molhos em cuvetes de gelo é um dos melhores truques de organização na cozinha. Permite-lhe ter porções individuais prontas a usar sem desperdiçar nada.

Como funciona o processo?

  1. Coloque nas cuvetes: Despeje o molho (já aberto) nas cavidades da cuvete de gelo.

  2. Congele: Leve ao congelador até solidificar completamente (cerca de 4 a 6 horas).

  3. Desenforme e guarde: Depois de congelados, desenforme os cubos de molho e coloque-os num saco hermético próprio para congelação ou numa caixa com tampa. Identifique o saco com a data. Assim, liberta a cuvete para outros usos e evita que o molho ganhe sabores de outros alimentos no congelador.

Economia doéstica (60) - O tomate na alimentação

 


* Gemini / Victor Nogueira

O tomate é um dos frutos (usados como legumes) mais versáteis e consumidos no mundo. Existem dezenas de variedades, cada uma com características próprias de sabor, textura e uso culinário.

Tipos de Tomate Existentes

  • Tomate Chucha (ou Roma): Alongado, com pouca água e polpa firme. É o rei dos molhos, estufados e conservas (como o San Marzano).

  • Tomate Redondo / Salada: O mais clássico e comum, carnudo e equilibrado, ótimo para fatiar em saladas ou sanduíches.

  • Tomate Coração de Boi: Grande, irregular, muito carnudo e com poucas grainhas. Tem um sabor adocicado excelente para comer cru em saladas com um fio de azeite.

  • Tomate Cereja (e Pera): Pequenos, muito doces e suculentos. Perfeitos para comer inteiros, assar no forno ou colocar em espetadas.

  • Tomate Rama: Vendido ainda preso ao ramo, o que retém mais humidade e aroma intenso. Muito equilibrado para saladas e cozinhar.

  • Tomate Negro (ex: Noir Russe): De tom escuro/acastanhado, apresenta um sabor rico, ligeiramente fumado e menos ácido.


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Vade-mécum (16) - Organizar o trabalho com o Claude: sessões, Projects e memória

 

* AI Claude / Victor Nogueira

Guião-esqueleto, a preencher e adaptar conforme o blogue e o leitor. O exemplo-base é o de um trabalho de transcrição e organização de correspondência epistolar, dividido por remetentes.

1. O que é um Project 

3. Memória geral e memória do Project

4. Trazeo o trabalho antigo para o Project

5. Cuidados práticos

6. Roteiro resumido


terça-feira, 6 de outubro de 2026

Hoje o dia está cinzento e e chuva miudinha (2010)

 * Victor Nogueira

6 de outubro de 2010

Hoje o dia está cinzento e e chuva miudinha. Ah! Que falta faz uma lareira e ver as chamas dançarem. Apareçam ! Andam tão ausentes ! E tu também, responder-me-ão ! E o escriba dirá: talvez. É assim no real e no virtual. O virtual permite inventar personagens e no real é mais difícil. Mas a vida é sempre um jogo e um palco ! Duvidam ! Não duvidem dum saber dos livros e duma vida e do ser de experiência feitos !

A poesia em 2014 outubro 06

 * Victor Nogueira

1.
para lá da janela
o horizonte anoitecente
2.
para cá dela
o silêncio
teu
3.
no meio
a vidraça insonorizada
o muro transparente
.4.
de negro emudecido
o tempo que nos veste
como azorrague
5.
quem se nos vislumbra no cais ?
setúbal 2014.10.06


6 de outubro de 2014 
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1
nunca a distância foi tão curta
tão breve o tempo
2.
de calmaria
ou temporal
3.
a ilusão da voz
da imagem
instantâneas
as
ondas radioeléctricas
sequências de 01
0111001101100101011100010111010111101010011011100110001101101001011000010111001100100000011001000110010100100000001000000011000000110001
4.
a vida codificada
0110000100100000011101100110100101100100011000010010000001100011011011110110010001101001011001100110100101100011011000010110010001100001
5.
o teu nome um enigma
0110111100100000011101000110010101110101001000000110111001101111011011010110010100100000011101010110110100100000011001010110111001101001011001110110110101100001
setúbal 2014.10.06

6 de outubro de 2014 
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1.
de cobre se entretecem as palavras
em filigrana
incandescente o chumbo
2.
enrodilhadas se despem
desfeito o rendilhado
3.
são pegadas fossilizadas
4.
e as mãos adejam
em vaporosas vagas
5.
ressequidas
na orla do tempo desmaiado
Setúbal 2014.10.06
6 de outubro de 2014 
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1.
o sol escorre pelo horizonte
e dentro dele
são pétalas liquefeitas
as palavras aprisionadas.
2.
e as pétalas acobreadas
enverdecem com verdete
no óxido do coração
3.
em grandes haustos o silêncio
setúbal 2014.10.06

ruínas do moinho de maré das Praias do Sado (2025)

 * Victor Nogueira

6 de outubro de 2025

 ·


 Foto victor nogueira - Setúbal - ruínas do moinho de maré das Praias do Sado (rolo 113 26)

No âmbito do Planeamento Urbanístico e em colaboração com o Dr. Fernando António Baptista Pereira, conservador do Museu de Setúbal ,procedi ao levantamento, cartografia e registo do património edificado de Setúbal e Azeitão, com interesse histórico, cultural ou arquitectónico, tendo em vista o eventual intereese na classificação e protecção, projecto que não teve seguimento.

Sempre estive convencido que em Setúbal apenas teriam existido três moinhos de maré: o da Mourisca (no Faralhão), o aa Mitrena e este, nas Praias do Sado. Um texto  entrevisto há dias, refere a existência de um quarto, não o identificando e localizando. (1)

Do moinho das Praias do Sado praticamente já nada existia, na altura em que o fotografei, com o  Carlos Mouro no cimo do que restava. Há uns dois anos atrás tentei voltar ao local, mas não consegui localizar o sítio, por entre o emaranhado do esteiro.

(1) - «Espaço Interpretativo da Herdade da Mourisca» dgterritorio.pt

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Legislativas 2015

* Victor Nogueira

 5 de outubro de 2015

A CDU e o Bloco, com cerca de 20% dos votos e 36 deputados representam  mais de um milhão de eleitores.

Apesar de coligados e de perderem a maioria absoluta e cerca de um milhão de eleitores, no PSD e das catacumbas saem à  luz dos holofotes Marco António e Miguel Relvas.

Onde concorreu sozinho - açores e madeira - o CDS e Paulo Portas foram varridos do mapa.

No PS - como é habitual - afiam-se facas e contam-se espingardas, em recorrentes guerras intestinas, dando folego ao PáF que fez ploff.

domingo, 4 de outubro de 2026

Depois dum domingo cinzento (2010)

 * Victor Nogueira

4 de outubro de 2010

Depois dum domingo cinzento, nublado e chuvosamente peganhento, uma segunda de céu com nuvens brancas como flocos de algodão em fundo azul e brilhante, pleno de claridade !

em Évora, assando sardinhas (2018)

 4 de outubro de 2018


foto celeste gato - Em évora, no quintal da casa na Quinta de Santa Catarina, assando sardinhas, cerca de 1975 / 76

em viana do castelo, 1973 ou 1975 (2020)

 4 de outubro de 2020

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foto jj cf em viana do castelo, 1973 ou 1975

Em Lisboa (Castelo de S. Jorge) ou em Sintra (Castelo dos Mouros) (2022)

 4 de outubro de 2022


Foto José Luís NS - Em Lisboa (Castelo de S. Jorge) ou em Sintra (Castelo dos Mouros)

Mindelo Trabalhos agrícolas (2023)

 * Victor Nogueira

4 de outubro de 2023


Foto victor nogueira  Mindelo Trabalhos agrícolas (2023 10 03 IMG_3408)

Hoje, 4 de outubro, terminaram os trabalhos agrícolas nos campos entre a Estrada Nacional e a linha do metro de superfície do Porto. No campo das traseiras já adubaram o solo com água choca, que empestou os ares e feriu as pituitárias, para gáudio das moscas sarnentas que se nos colam à pele e picam, como se fossemos gado. Bandos de pombos percorrem os ares, aterrando ciclicamente para debicarem os grãos de milho, enquanto pequenos pássaros saltitam no quintal, para cá do muro - rolas ou pardais.

A ceifeira debulhadora é atrelada a um tractor, seguido em paralelo com outro com reboque   que vai neste despejando o milho, através duma manga. Na peugada, segue outro tractor com reboque, para substitui-lo quando cheio. Três homens, cada um em seu tractor, fazem assim todo o trabalho, que outrora ocupava dezenas de trabalhadores.

sábado, 3 de outubro de 2026

O silêncio não tem nós (2010)

 * Victor Nogueira

3 de outubro de 2010

O silêncio não tem nós, é uma planície imensa, umas vezes seca, outras  verdejante, mas por vezes a garganta sente os ditos como nozes duras de ... roer ! 

Chove, faz frio (2010)

 * Victor Nogueira

3 de outubro de 2010

Chove, faz frio e o tempo está muito nublado.

Dia bom para estar à lareira que não tenho, a ver as chamas esvoaçarem, como em Goios (Barcelos), na aldeia do meu avô materno, quando lá íamos no inverno.

É noite e vou acabar de arrumar a secção de poesia (2010)

 * Victor Nogueira

3 de outubro de 2010

É noite e vou acabar de arrumar a secção de poesia da minha biblioteca ! Não vale a pena estar aqui à espera de Godot ou de Godota 🙂

Hans Hellmuth Kirst in "Os Lobos" (2011)

 3 de outubro de 2011

"Por mais que morram, o número de tolos é infinito, e os inteligentes não querem morrer. Mas a morte não poupaa ninguém." Hans Hellmuth Kirst in "Os Lobos"

Nada posso comentar a não ser que trago comigo o peso de todas as pessoas (2011)

 * Victor Nogueira

3 de outubro de 2011

Nada posso comentar a não ser que trago comigo o peso de todas as pessoas que tenho conhecido, sobretudo daquelas que na realidade e não apenas virtualmente corresponderam e me acompanharam em momentos mais ou menos breves da minha vida, de todas as terras, estradas e calçadas que tenho percorrido, das de quem, para além da escrita, conheço a voz única no meio de todas as outras, ou sentido a mão no ombro, a carícia no rosto ou nos cabelos, o ajeitar do meu kispo, o gesto físico de amizade, carinho, afecto e solidariedade verdadeiras. De quem não me cerrou portas e janelas. Tudo o resto são apenas palavras, poeira, ilusão e solidão ! Cada vez maiores !

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

OS FILHOTES DE SALAZAR/CAETANO (2012)

 * Victor Nogueira

2 de outubro de 2012

 ·


Mas que pobreza de argumentação. Com tal nível, os defensores de Salazar contra o 25 de Abril na sua universidade salazarista nem passariam do 1º semestre do 1º ano. Quanto muito seriam “licenciados” como polícias de giro e cacete. Daqueles que usavam fartos bigodes. E muitas vezes imponente barriga !

Como cogumelos depois da chuva aparecem os defensores de Salazar e do Paraíso. Transformado em  Inferno pela "traição" do 25 de Abril

Sim, antes do 25 de Abril era o Paraíso. Havia uma elite de iluminados e uma corja de milhões de analfabetos. Ou analfabrutos. Tão analfabrutos que largando o Jardim das Delícias à beira-mar plantado emigravam aos milhares de milhares para procurarem lá fora o pão e o mel que aqui não vislumbravam para além da fome e da miséria e dos bucólicos tugúrios campestres ou encantadores bairros de lata. Aos milhares de milhares. E só os brutos viam e sentiam o trabalho de sol a sol nos campos do Alentejo. E os dias não pagos quando fazia mau tempo. Dias não pagos na agricultura. . Na construção civil e obras públicas. Na indústria das conservas de peixe. E nas horas extraordinárias à borla. E trabalhadores despedidos se adoeciam. Sem assistência na doença. Nem eles nem as famílias. Trabalhadores e suas famílias sem qualquer apoio no desemprego. E trabalho sem direito a férias para a esmagadora maioria. 

E havia pedintes e crianças e aleijados - uma esmola “pelo amor de Deus”.Ou “pela sua rica saúde”. E pedintes e aleijados e crianças esmolando. Pelas ruas. Pelas esquinas. À porta das igrejas. E crianças trabalhando sem ir à escola. Vendendo jornais. Ou como marçanos levando as compras da mercearia às casas. E criadas de servir sem direitos e de que se serviam os patrões e seus filhotes. Despedidas – as desavergonhadas – se engravidavam. E maridos que matavam impunemente as mulheres para “lavarem a honra”. Machos lusitanos viris com amantes e ”espanholas” a quem montavam casa.

E mulheres dependentes da autoridade e arbítrio. do marido, senhor todo poderoso. E apenas “curiosas” para assistirem aos partos. E para fazerem abortos. E filhos, muitos filhos, arrastando-se pela miséria. Ranhosos, Esfarrapados, Famintos. Enfezados. . E as mães tendo de ir trabalhar logo a seguir ao parto. Para não serem despedidas !

E velhos que se enforcavam devido à miséria. Sem dinheiro. Sem saúde. Sem apoios sociais. E famílias a comerem o pai uma sardinha e os filhos côdeas de pão. E vinho, muito vinho e tabernas a cada esquina para “dar de comer a um milhão de portugueses”. E em muitas vilas e aldeias do Alentejo duas sociedades “recreativas” – a dos pobres e a dos ricos. E a pobreza envergonhada da pequena burguesia.

E os “criados” dos cafés e os motoristas de taxi e os engraxadores – velhos ou miúdos – vivendo apenas da gorjeta. Sem direitos.

E a Ponte sobre o Tejo ! Ah! A Ponte sobre o Tejo que não era de Salazar construída com o desalojamento forçado e com indemnizações de miséria aos habitantes e proprietários de Alcântara. E os bairros de lata. E os mortos nas cheias de 1967 em Lisboa porque Salazar não permitiu que as populações fossem alertadas das chuvadas torrenciais que se avizinhavam. E os milhares de camponeses mortos em Janeiro de 1961 na Baixa do Cassanje, em Angola, numa área maior que Portugal, em greve contra o regime de monocultura da Cotonang, metralhados e regados com napalm pelas Forças Armadas Portuguesas E tantos e tantos massacres com as almas voando para o Paraíso se inocentes de que os jornais não falavam. Antes dos massacres perpetrados pelos camponeses do Norte de Angola, enquadrados pela UPA com o apoio não da URSS mas dos EUA. Em 15 de Março de 1961..

A mentira do Portugal do Minho a Timor, onde nas colónias e apesar de 5 séculos de ocupação a esmagadora maioria das populações não falava português nem tinha direitos de cidadania. Apressadamente reconhecidos apenas depois do início das revoltas na Guiné, Angola, Moçambique, S. Tomé e Princípe  ... Isto é, depois de 1961. E  os brancos lá nascidos, durante muito tempo oficialmente considerados "brancos de 2ª. Colónias portuguesas cujos territórios em África apenas foram "ocupados" depois da Conferência de Berlim, em 1885. Após as campanhas militares de ocupação e "pacificação" contra a resistência dos africanos. Campanhas militares efetuadas no final da Monarquia e prosseguidas durante a I República !

E cargas policiais e da GNR e a PIDE para os “desordeiros” “Desordeiros” eram todos os que faziam greve. Ou reivindicavam melhores salários ! Ou melhores condições de vida e de trabalho ! Ou que se manifestavam fora do enquadramento do Governo. .

Gente tão bruta que precisava de ser vigiada para não se tresmalhar. Tão bruta que precisava de autorização para se manifestar. Ou associar. Ou reunir. Tão bruta que não podia votar para não escolher ... mal. Isto é, para não mijar fora do penico. Outros pensavam e decidiam pelos analfabrutos. Sempre vigiados no que escreviam ou diziam pelos coronéis da censura prévia do lápis azul o vigiados por dez mil olhos e cem mil orelhas.

E as colónias que até 1961 se não podiam industrializar nem desenvolver para se proteger a indústria de Portugal, na Europa. E a guerra colonial. Cada vez com mais desertores. Entre os soldados e os oficiais. Analfabrutos que não percebiam porque haviam de morrer ou ficar inválidos e abandonados. Ou traumatizados pelo stress da guerra. E que, “sem inteligência”, zarpavam e zarpavam e zarpavam … de Portugal.

Sim não eram portugueses de rija cepa e pegas de cernelha ou a rabejar. Eram todos estrangeiros. Milhões de estrangeiros. Que analfabrutos não vislumbravam o Paraíso mas apenas a fome, a miséria, a doença, a falta de trabalho. Sim milhões de estrangeiros, milhões de estrangeiros na Pátria que os viu nascer. Pátria madrasta onde, analfabrutos, muitos sem a 4ª classe, apenas viam a fome, a miséria, a doença, a falta de trabalho.

Sem inteligência para vislumbrarem o Paraíso do dia-a-dia espelhado nos jornais e na televisão de Salazar/Caetano E lembrado pelos filhotes de Salazar/Caetano. Eles sim, Portugueses de alto gabarito ! Mas, ao contrário de Salazar/Caetano, pouco dados ao estudo. E à reflexão. E ao contraditório. Porque estudar e argumentar sem frases feitas ou bafos de café-taberna custa e cansa. Na razão inversa da inteligência