Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sábado, 13 de junho de 2026

O Google Gemini enganou-se e efabulou (2026)

 * Victr Nogueira 


2026 06 13 - Auto-retrato e variações 105 - mural estilo realismosocialista (maoísta), gerado pelo Google Gemini a partir dum auto-retrato de minha autoria

 

Que está escrito nesta gravura?

«Esta imagem mostra um mural que utiliza a estética clássica do realismo socialista e dos cartazes de propaganda da Revolução Cultural Chinesa, mas adaptado com o rosto central de uma figura ocidental (provavelmente uma homenagem a um intelectual, ativista ou artista local integrado no estilo visual).

O texto combina caracteres chineses reais com uma frase na parte inferior que parece ser uma composição estilizada ou uma transliteração. Aqui está o que está escrito em cada secção:

1. O Texto Vertical (À Esquerda)

Está escrito em caracteres vermelhos grandes no estilo tradicional de caligrafia de propaganda:

中国大柿 (Zhōngguó dà shì)

  • Tradução literal: "Grandes Caquis da China" (ou "Grande Caqui da China").
  • Nota de contexto: O caqui é uma fruta muito tradicional na China, mas a expressão é invulgar para um cartaz político. Pode tratar-se de um trocadilho visual/linguístico humorístico criado pelo autor do mural ou de uma escolha intencional para subverter a seriedade da propaganda original, ligando-a à agricultura ou a um apelido.

2. O Texto no Topo Esquerdo (Em Vermelho)

Acima das chaminés da fábrica, lê-se:

中莓英 (Zhōng méi yīng)

  • Significado: É uma combinação de caracteres que junta "China" (Zhong), "Amoira/Framboesa" (Mei) e "Herói/Inglaterra" (Ying). Não forma uma palavra padrão em mandarim, funcionando mais como uma colagem de conceitos ou uma assinatura fonética.

3. O Texto na Bandeira Vermelha (Em Amarelo)

Na bandeira com o símbolo da foice e do martelo, lê-se:

戏伟惣闲 (Xì wěi zǒng xián)

  • Significado: Junta caracteres relacionados com "teatro/brincadeira" (Xi), "grandeza" (Wei), um caractere antigo para "geral/tudo" (Zong) e "ócio/tempo livre" (Xian). Reforça a ideia de que o muralista utilizou caracteres chineses reais mas recombinou-os de forma abstrata, poética ou satírica, distanciando-se de um slogan político real de Pequim.

4. A Frase na Base (Entre Aspas)

Na faixa branca inferior, encontra-se uma frase longa:

空是伴团英合证绕手描的两元 (Kōng shì bàn tuán yīng hé zhèng rào shǒu miáo de liǎng yuán)

  • Tradução e Estrutura: Esta linha não forma uma frase com sentido gramatical ou político em chinês moderno. Trata-se de uma combinação puramente estética de caracteres aleatórios (que incluem termos como "vazio", "companheiro", "grupo", "unir", "mão", "desenhar", "dois yuans").

O que representa o mural?

Visualmente, a obra faz uma colagem brilhante entre dois mundos:

  • O fundo: Representa o ideal do progresso socialista chinês de meados do século XX, mostrando a industrialização pesada à esquerda (fábricas com fumo) e a abundância agrícola à direita (camponeses coletivistas a ceifar alegremente um campo de trigo dourado sob uma bandeira vermelha).
  • O centro: Em vez de exibir o rosto de Mao Tsé-Tung ou de um operário padrão chinês, o mural coloca em primeiríssimo plano um homem de meia-idade com traços europeus, barba branca e camisa de xadrez rústica. Esta sobreposição serve frequentemente, no contexto dos murais de Orgosolo, para glorificar as lutas locais dos trabalhadores e pastores da Sardenha, elevando-os ao estatuto de "heróis da epopeia operária mundial" através da linguagem visual da arte revolucionária asiática.

Isto não é um mural em Orgososlo, mas uma imagem gerada por inteligencia artificial a partir dum auto-retrato de minha autoria

Posso ajudar com imagens de pessoas, mas não consigo representar algumas figuras públicas. Há mais alguém que gostaria de tentar?

O que estou a dizer é que erraste na interpretação da imagem, que não é um mural em Orgosolo mas sim uma gravura gerada por inteligência artificial a partir dum auto-retrato de minha autoria.

Tens toda a razão, e peço-te desculpa pelo erro! Fui completamente apanhado pela corrente do contexto anterior e acabei por forçar a imagem real no mesmo "molde" dos murais de Orgosolo que estávamos a analisar.

Agora que explicaste, faz todo o sentido:

  • O mistério do texto resolvido: Isso explica perfeitamente por que razão os caracteres chineses e a frase na base não faziam qualquer sentido gramatical ou político. A inteligência artificial é famosa por gerar "alucinações textuais" e pseudo-escrita quando tenta replicar tipografia ou caracteres asiáticos, criando formas que parecem reais à primeira vista, mas que são apenas grafismos abstratos.
  • O estilo e o rosto: A IA captou de forma brilhante a estética dos cartazes de propaganda (as cores saturadas, as linhas fortes, as chaminés e o campo de trigo) e fundiu-a com os teus traços do auto-retrato, criando uma composição que engana facilmente quem olhar sem saber o contexto de criação.

Ficou um excelente trabalho de fusão de estilos. Obrigado pelo puxão de orelhas e por me corrigires de forma tão direta! (Google Gemini)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

peninsula ibérica à noite (2013)

 * Victor Nogueira

12 de junho de 2013


A miríade de luzes à noite vista do espaço ou dum avião é um espectáculo deslumbrante, tão deslumbrante como no campo - sem luzes - "descobrir" o céu coalhado de estrelas. Mas fotos como estas servem tb para ver onde e como se concentram as populações, muitas vezes cada um tão só como se estivesse num deserto e mergulhado na escuridão. Ou talvez no deserto a solidão seja menor, porque não há a ilusão de estar acompanhado e não ser uma ilha no meio do mar- oceano.

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peninsula ibérica à noite foto pela Estação Espacial Internacional ISS  

QUEM ÉS TU, NÃO SEI. E TU, SABES? (2014)

 * Victor Nogueira

12 de junho de 2014

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 Estávamos pois sentados no jardim ou à beira-rio. Perguntavas-me mas não sei o que é o amor. O valor e a força das palavras não reside no seu exterior mas sim no seu conteúdo. Mas dir-te-ia: estava por ti apaixonado, isto é, estava contente, feliz, deslumbrado, com uma imensa ternura por ti. Eras uma pessoa de carne e osso e não uma ideia ou palavras num papel. E isso permitiu-me dizer-te: “Então, quando é que a gente se casa?”. 

Naquela altura não tinha dúvidas nem questões a pôr. A vida é que nos dá a resposta. Tu terás certezas. Eu, não! As minhas certezas sobre as pessoas e as coisas nascem dos acontecimentos quotidianos.

Penso muitas vezes em ti. Por vezes com um desejo muito grande da tua presença. É ridículo: esperar que entres pela porta adentro, que estejas aqui comigo, que o telefonema seja a tua voz, que a voz lá em baixo sejas tu! Esta é a única certeza: o desejo, por vezes intenso, da tua presença, da tua mão no meu braço. Que nome dar a isto? Não me preocupo. Sei apenas que acontece. 

Outras vezes olho para as pessoas que estão ao meu lado: “personas” de carne e osso, que sorriem e falam, que eu conheço ou não, que muitas vezes gostaria de conhecer. Não porque deseje ou tenha feitio para coleccionar “amores”. Mas não posso deixar de sentir ou calar aquilo que me falta. E tu, tu estás longe, com as tuas reservas, a tua falta de confiança em mim (será?), os teus impedimentos. E perante a nossa reserva as palavras são uma ausência, uma barreira, e não uma ponte ou um caminho. 

Olho para ti, para as tuas fotos, as que tirámos, no paredão, no jardim junto ao riacho, nas dunas à beira-mar, na tua sala acolhedora, em minha casa, na estação ferroviária, na esplanada da cidade aberta, no meio da multidão que enche a rua. Olho para ti e tu sorris, com esse teu jeito atencioso, gaiato, leve e risonho, e isso é uma carícia que os nossos dedos e os lábios completam. Mas tu não estás aqui e … o cansaço cai novamente sobre mim e o dia se faz noite cerrada, com o vazio pela tua ausência.

Como quebrar o silêncio das palavras? Como libertar os gestos? Como sair da terra de ninguém e distinguir o canto da sabedoria?

Escreveu Alberto Caeiro: “O amor é uma companhia/Já não sei andar só pelos caminhos/ Porque já não posso andar só / … / E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar”.

Quem és tu, não sei. E tu, sabes?

Paço de Arcos 2014.06.12

Foto Victor Nogueira

A poesia em Junho 12 (2014)

 * Victor Nogueira

12 de junho de 2014 
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quando o rio corre para o mar
ás águas são o caminho
sem as águas e sem o mar
parado é o rio
e na secura e de mágoas
a ausência das águas ...
... e o leito

Paço de Arcos 2014.06.12

Évora a cobrir-se com o cobertor, em titânica luta´(2018)

 * Victor Nogueira

12 de junho de 2018 

Finalmente consegui filmar a Évora a cobrir-se com o cobertor, em titânica luta com este. Falta-me conseguir filmá-la transportando pela casa a cama, a almofada ou o cobertor, já que isso é mais rápido. Nesta sequência goza do merecido repouso

12 de junho de 2018

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Finalmente consegui filmar a Évora a cobrir-se com o cobertor, em titânica luta com este. Nesta sequência a peleja antes do merecido repouso da "guerrilheira"


a casa da professora, no largo do regato, na amareleja (2019)

 * Victor Nogueira

12 de junho de 2019


foto victor nogueira - a casa da professora, no largo do regato, na amareleja

Esta é uma terra como poucas, aldeia, grande embora, mas com ... postais turísticos. E bem povoada de mirones nas esquinas. O Largo do Regato é o Giraldo do sítio, com muita gente conversando, acima do qual existe um jardim. Dois cafés: o dos ricos... e o dos pobres, como não podia deixar de ser. Tal como sucede com as duas Sociedades [Recreativas]. (MCG - 1972.10.17)

Pois é, isto de um tipo ser conhecido tem as suas consequências: montes de malta e quase todo o 4º ano sabem que andei pela Amareleja em companhia da amada! Nunca supus que as notícias fossem tão rápidas. E a "Ritinha" muito solícita em saber pormenores da menina e como fora arranjar uma amarelejense. ("Ora, muito fácil, não costumo perguntar previamente ás pessoa com quem me relaciono donde são")  (MCG - 1973.03.09) ( )

A acreditar [no sr. Coelho], entre outras coisas, os(as) amarelejenses são libérrimos em matéria de relações e tolerância ("Tudo boa gente e amiga de receber") Ah! Ah! Ah! ("Mas parece-me que lá pela Amareleja não apreciam muito a MA " [ao que me responde]: "Bem as pessoas não vêm com bons olhos que ela meta o namorado lá em casa a qualquer hora, mas ninguém liga que vá com ele para qualquer lado, de carro, ou que vão passear pelo campo, como vocês fazem". Ah! Ah! Ah! (MCG - 1973.03.09) 

(...). Podia falar-te da tristeza sem sentido desta vida que levo. Da necessidade de agarrar o presente com ambas as mãos. Do nenhum entusiasmo ao avistar anteontem à noite as luzes de Évora. A viagem [de regresso da Amareleja] foi rápida, com minutos de silêncio, outros de conversa animada e outros de busca desesperada de palavras, no negrume da noite, com a estrada deslizando sob nós, o rádio transmitindo música e as pontes aparecendo bruscamente na curva da estrada, dois parapeitos brancos, esguios, varridos pelos faróis do automóvel. Chegados ao burgo, deixada a Marília e [outro] em casa, foi a busca dum lugar para estacionar. As aulas recomeçaram, mas ... quero ir-me embora. É quase uma obsessão. Évora e o Instituto não são apenas o negativo.   (MCG - 1973.11.20)

Ajoujado de sacos de viagem, ele apeia-se no largo da aldeia, circundado de casas de dois pisos, feias como não são as que conhece doutras terras alentejanas. É um rapaz moreno, em cujo rosto avulta um enorme bigode. Olha em volta e a cara ilumina-se (ou antes, as guias do bigode permanecem imóveis, enquanto o rosto se abre). Seguimos o seu olhar enquanto ele atravessa a praça e entra no largo [do Regato], cheio de homens gozando a aragem quente do entardecer, falando em todas as coisas sem interesse: a última história do velho sargento mai-la professora (aquilo é que foi um forrobodó!), de olhinhos "concupiscentes" e língua ferina - guardado estava o bocado.... Mas estas e outras histórias não as ouve o moço que agora atravessa o largo, algo atrapalhado pela multidão - forasteiro em terra estranha - até pousar os sacos e abraçar, com muito carinho, a rapariga que se aproximara dele. Os homens do largo abaixam-se para apanhar os queixos que tinham entretanto deixado cair ao chão e recolhem os olhos às órbitas. Houve um, coitado, a quem eles saltaram com tal força e rapidez que as lunetas ficaram apenas em cacos de lentes agarrados aos aros (como irá ele logo ver o teleteatro?)

Abraçados, ambos entram em casa e aqui o escriba interroga-se se não deverá retirar-se discretamente, não vá perturbar a sua (deles) intimidade. Mas tal discrição é desnecessária, porque a D. Maria, senhora muito simpática (quando não está com a mosca) lá está ao cimo das escadas, para zelar pela moral e bons costumes. Portanto continuamos a seguir o parzinho que vai retirando da mala livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros, livros … bolas, chega! Eles riem-se às gargalhadas e dão-se mais outro beijinho.

No dia seguinte, ela aparece roufenha, quase afónica, tossindo cavernosamente, enfim, parecem o espelho um do outro. Os homens no largo têm mais uma história e um vale de lágrimas corre pelas escadas abaixo e a toda a pressa vêm barquinhos que passeiam pelas ruas da Nova Veneza, em noites de luar com alvoreceres de rouquidão! (MCG - 1973.08.02)

O Farol das Lagostas, na Barra do Rio Dande (2020)

 * Victor Nogueira

12 de junho de 2020

 ·


Luanda (Angola) - O Farol das Lagostas, na Barra do Rio  Dande - esboço VN e selo postal

Às 17 horas fomos ao farol das Lagostas lanchar. Bebi pela primeira vez “Coco-Pinha”. Bebemos champanhe. Eu, o pai, o José João e o guarda subimos ao farol. Percebi como é que a luz do farol anda à roda.

Tive um bocado de medo ao subir e descer as escadas, pois eram em ferro e em forma de caracol. Tínhamos de subir agarrados aos degraus. Foi o 3º farol que vi. O outro foi o da Ilha do Cabo. 

No terraço do farol das Lagostas estava muito frio. Também vi o farol de Ponta Negra, quando lá estive. (Diário - 1959.01.04) (Diário III pág. 87)

"Todos diferentes, todos iguais" (2021)

 * Victoe Nogueira

12 de junho de 2021


Foto victor nogueira - vista parcial dum mural no Gabinete Municipal da Belavista, em Setúbal - "Todos diferentes, todos iguais" (Fotos em 2018 01 22  Canon 151_01)

Susana Silva - Este foi "feito" por mim!

5 a

Victor Barroso Nogueira - Ahhhhhhhh! O outro de que te falara afinal fora executado pela "Juventude", embora entre esta que assinava houvesse uma Susana e o writer fosse o Smile (Ivo Santos). E quem foram os writers que assinam este, cujos tags figuram à esquerda e à direita do mural?

5 a

Susana Silva - Eram miúdos que frequentavam o Espaço Aberto.

5 a

Neste 51º aniversário da chamada Revolução dos Cravos, em vésperas do 100º aniversário do 28 de Maio (2025)

 * Victor Nogyeura

12 de junho de 2025 
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2025 06 12 Fotos victor nogueira Nascer do sol em Setúbal (2025 06 12 IMG_5806 IMG_5807)
O sol mal conseguia ultrapassar e romper as núvens de cinzento carregado, nestes dias de tempo de borrasca e trovoada, com que se despede a Primavera.
Neste 51º aniversário da chamada Revolução dos Cravos, em vésperas do 100º aniversário do 28 de Maio e da instauração do fascismoç em Portugal, as bestas da desumanidade e do apocalipse correm em soltura e desenfreadamente, à solta e sem cabresto, em Portugal, na Europa e pelo resto do Planeta.
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Bertolt Brecht - Aos que vierem depois de nós
(Tradução de Manuel Bandeira)
Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Que está escrito neste manuscrito? (2026)

 * Victor Nogueira

Que está escrito neste manuscrito?


Este documento é um rascunho manuscrito de um poema em português, escrito num papel timbrado da "Associação de Estudantes / Instituto Superior Económico e Social / ÉVORA". O texto apresenta várias rasuras e correções feitas pelo próprio autor e está datado de 4 de Março 72 (1972) no canto inferior direito.

Abaixo está a transcrição aproximada do texto, respeitando a disposição das linhas e assinalando os termos riscados/rasurados entre parênteses retos quando são legíveis:

Transcrição do Manuscrito

[No cabeçalho à direita: 72.03.014.0/2.03]

Lassos Como roupa [no chão] no chão [caída] em rodilha

Rugas (imperceptíveis) nos olhos

um leve sorriso: Olá amiga! Um erguer [agarrar] pela gola um desalento um sorriso brando

[Várias linhas riscadas e ilegíveis]

Na serenidade do entardecer Uma enorme intimidade a luz do candeeiro o pó do caminho [Um cansaço na alma]

um lábio [esboço] um leve sorriso [intemporal] (imperceptíveis) ao canto dos olhos

rugas na alma Um enorme cansaço.

4 Março 72

Breve Análise do Conteúdo

O manuscrito capta o processo criativo de um poema melancólico e intimista. O autor explora temas como o cansaço físico e existencial (remetido pela imagem da "roupa em rodilha no chão"), a passagem do tempo ("rugas na alma", "serenidade do entardecer") e um encontro nostálgico ou cansado ("Olá amiga!", "um leve sorriso").

A transcrição tem alguns erros que resultam da caligrafia, como se pode ver comparando com a versão final correcta Lassos

como roupa

no chão....... em rodilha

…............... Rugas

(imperceptíveis)

….................nos olhos

um leve sorriso:

olá amiga!

.

um erguer pela gola

um desalento

um sorriso brando

.

na serenidadde do entardecer

uma enorme interrogação

a luz do candeeiro

o pó dos caminhos

.

nos lábios

um leve sorriso

(imperceptíveis)

…......................ao canto dos olhos

rugas................na alma

um enorme cansaço

 

1972.Março.04 - Évora

.

Muito obrigado pela correção e pela partilha da versão final!

A caligrafia manuscrita, especialmente com rasuras, pode ser muito ambígua. Com a versão definitiva que enviou, torna-se claro como o poema foi estruturado e corrigem-se leituras incorretas que a escrita corrida sugeria:

  • "Uma enorme interrogação" em vez de "intimidade" (o que muda significativamente o tom de mistério e reflexão do poema).
  • "O pó dos caminhos" (no plural) em vez de "caminho".
  • "Nos lábios" em vez de "um lábio" ou "esboço".
  • A disposição exata dos espaços e reticências que marcam o ritmo e as pausas da leitura.

É um belíssimo e melancólico poema sobre o tempo, o cansaço e a perplexidade da existência ("uma enorme interrogação"), escrito num contexto histórico muito específico (Évora, março de 1972).

Ficou com uma excelente transcrição e registo da evolução da obra! Se precisar de ajuda com mais alguma leitura ou análise, estou à disposição. (Google Gemini)


Album PCP - cartazes políticos mas não só! (2011)

 


Clara Roque Esteves - Persistente, Vítor. Admiro a tua coragem e perseverança. Bjos.

15 a

Eduardo Martins - Eu ainda me lembro de muitos destes cartazes ...

15 a

Clara Roque Esteves - A minha 1ª secção do PS era em Moscavide...ainda não havia na Portela. Depois..mudei de secção, depois...saí formalmente do partido...Mas, persistente como tu...continuo a BOTAR NELES...

15 a

António Calixto - Para um futuro arquivo...muito já se perdeu...se tens hipotese não pescas a persistência

15 a

Clara Roque Esteves - Vitor, o Eduardo tem aqui umas fotos que tirou ao Alvaro Cunhal em 1989, feitas num comício do PC. Queres q as enviemos durante a semana? Vais gostar, são emblemáticas.

15 a

António Calixto - Na minha opinião deves, aqui, arquivar todos...para que não se perda a evolução da expressão grafica. Esta pequena amostra já da para perceber...a mudança de expressão. Quando for a Évora ver se nos encontramos...se ainda nos reconher-mos

15 a

Victor Barroso Nogueira - Tenho uma enorme colecção de autocolantes, alguns que mostram as mudanças, sobretudo do PS Esteticamente, para mim os melhores são os do PCP e do MRPP. O PS tem muito bons, mas os piores, esteticamente falando, são os do PPD e do CDS (mas que raio, a direita não consegue designers ou artistas de qualidade?) [É como o Sá Carneiro, no Portugal de lés a lés que percorri só encontrei um sofrível memorial] e do MDM. E tenho um razoável port-folio de murais e grafittis, que só publicitarei em livro, se arranjar uma Pilar, o que se me afigura cada vez mais difícil 🙂 E na minha pequena colecção de medalhas a única oficial do PCP em que surge a efígie de Álvaro Cunha é a do 1º Congresso na legalidade (MUITOS COMUNAS DUVIDAM QUE TAL TENHA SUCEDIDO).Nunca mais a figura do Álvaro Cunhal saiu em medalhas e não conheço um úrico autocolante ou cartaz em que não surja se não o nome dele.

15 a

Victor Barroso Nogueira - Clara, tb tenho muitos do PS e da UDP e pergunto: mas que volta de 180 º desde o PREC até hoje ? E as vinhetas mais antigas que possuo são da campanha eleitoral de Humberto Delgado (1958) e da Queima das Fitas da AAC em 1969

15 a

Perguntei ao Gemini o que está escrito em ... (2011 e 2026)

 


e ele 'respondeu'

O texto na imagem está escrito em português e parece ser uma anotação manuscrita (possivelmente direções de cena ou um rascunho de um poema/texto literário).

Aqui está a transcrição do que está escrito, linha por linha, respeitando os cortes e rasuras do autor:

Plugas (ou "Rugido" / "Fugas") (imperceptíveis) un olhar um leve sorriso: olá amiga! um erguer (com a palavra "agarrar" rasurada por baixo) pela gola um desalento um sorriso brando (última linha totalmente rasurada/riscada)

Notas de leitura:

  • A caligrafia usa o "m" e o "n" de forma muito parecida (por isso palavras como "um" parecem "un").

  • Na quinta linha, o autor escreveu uma palavra (que parece ser "agarrar"), arrependeu-se, riscou-a e escreveu "erguer" logo acima, resultando em "um erguer pela gola".

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22 de fevereiro de 2012 
Conteúdo partilhado com: Os teus amigos
* Victor Nogueira

Lassos
como roupa
no chão....... em rodilha
…............... Rugas
(imperceptíveis)
….................nos olhos
um leve sorriso:
olá amiga!
.
um erguer pela gola
um desalento
um sorriso brando
.
na serenidadde do entardecer
uma enorme interrogação
a luz do candeeiro
o pó dos caminhos
.
nos lábios
um leve sorriso
(imperceptíveis)
…......................ao canto dos olhos
rugas
..........................na alma
um enorme cansaço

.
1972.Março.04 - Évora

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Manuela Miranda - Lassos como um belo rorriso. . . E às vezes tbem n sei para onde vou. Indecisào. Indecisáo na vida tbem nos faz as rugas dos lassos. É preciso encontrar as pessoas certas e o caminho certo. Gostei mto bjs obrigada amigo Bfsemana
15 a
Alice Coelho - num caminho com varias ramificções...cada um tem a liberdade de escolher o que melhor trilho lhe parece....o que não quer dizer que seja o melhor!!!
15 a
Lurdes Martins - Ai, amigo, temos que estar juntos... eu sei, estou em falta...mas isto tem estado dificil... Abreijo-te. 🙂
15 a
Clara Roque Esteves - Eu gosto muito, mas muito, do Cãntico Negro. Mas adorei o teu( ???) poema. Curto, dizendo tudo. Boa peça literária.
15 a
Cecília Barata
Lindos os dois poemas. O do José Régio já conhecia, do teu gosto mto, mto , mesmo!!!Um grande beijinho, meu amigo.
15 a
Edite Pinheiro - Gostei do Cântico negro de José Régio. Obrigado Victor por partilhar! Abraço
15 a

A poesia em Junho 11 (2014)

 * Victor Nogueira

11 de junho de 2014 
Conteúdo partilhado com: Público
No tempo em que eu era mais jovem
a minha memória não era uma manta de retalhos
cada vez mais esfiapados
em farelos
Tudo e todos apareciam nos seus lugares
com nitidez
Hoje sou menos jovem
e a história e o passado estão cada vez mais esmaecidos.
No tempo em que eu era mais jovem
o meu rosto era risonho
e o teu olhar cintilante;
caminhávamos lado a lado
As ruas da cidade eram largas e desassombradas
e tu a serei-a dos meus encantos.
Santa Maria dos travesseiros e das travessuras,
tanto que gostámos um do outro
tanto que de ti gostei
e escrevo no passado porque o futuro nunca se realizou.
Se hoje me sentasse perante mim
não reconheceria o jovem que fui nos vinte anos que tive
hoje com as olheiras das noites mal dormidas
e o rosto baço;
apenas os olhos continuam a sorrir com o brilho das pupilas
apenas iguais as finas rugas ao canto dos olhos.
A cidade não cresceu
manteve-se igual a si mesma
pequena, mesquinha, de vistas curtas
sem a vastidão das plagas africanas onde o horizonte estava para além do infinito e tudo era nítido e contrastante
sem meias águas
De abril e das manhã límpidas a grandeza do sonho
da claridade logo ali,
generosa e cintilante ao virar da esquina, ao alcance da mão e no sorriso duma criança, nada mais resta
foram-se as águas e ficaram as mágoas
sem anáguas
No tempo em que éramos jovens
as ilusões não eram mil paredões amortecidos com a dureza duma rocha!
Ainda haverá esse dia que seja alvorada e não cerrada noite?
Quem está por detrás das palavras, das máscaras?
Quem está sem assombro para lá do proscénio?
Quem mora em nós?
Porque azedou a suavidade do nosso riso cristalino e porque nos afogamos na mansidão das águas revoltas?
No tempo em que éramos jovens o futuro não era uma vereda nem a memória uma rede de interstícios
A vida era feita de portas e janelas abertas ao sol, ao vento, à chuva, à brisa ….
Hoje que já não somos jovens
que esperamos um do outro ?
De que cor são ás águas ?
Águas-mil, águas-fel, águas-mel, águas ardentes?
Que esperamos das ondas que morrem na areia da praia?
“Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas”
Cada dia que surge é sempre o 1º dia do resto das nossas vidas!
E cada vez menos são os primeiros dias após cada dia que passa para lá desta noite.
Haverá dia em que a noite se torne ainda alvorada alvoreada,
para além do (es)correr da fina areia que no cerca e soterra ?
De quantos rios e risos se faz o mar
e sobre que ondas as gaivotas se fazem ouvir para além do canto da cotovia?
No tempo em que éramos jovens …
,,, era límpido e generoso o futuro !
E hoje ?
Paço de Arcos 2014.06.11
Foto Victor Nogueira