* Victor Nogueira
20 de março de 2022
Depois do gélido e pluvioso Inverno, começa o baile da Primavera. Mas foram límpidos e quase sem chuva ou neve os dias que antecederam este em que escrevo. Jornada esta em que insolitamente ouvi a chuva bater na placa de cobertura do prédio, mesmo por cima de mim, o dia cinzentonho para lá da vidraça, as gaivotas planando a rasar o solo, o frio entranhando-se até á medula dos ossos ... Lá em baixo, no parque verde, a maioria das árvores continuam esquálidas, os ramos descarnados erguendo-se figurando como se de uma prece se tratasse, as áleas e a avenida espelhando-se com as águas, os caminhos (quase) vazios de transeuntes.
Tudo é silêncio, salvo o zumbido nos ouvidos e o bate seco e ritmado com o dedilhar das teclas. Por esse mundo fora as guerras continuam, a maioria (quase) esquecidas. Como Salazar e outros que tais diziam e dizem, "o que não é falado, não existe" e "se a televisão diz, então é verdade." Pelo menos a verdade dos "censores" e das "agendas" noticiosas, a verdade que os seus opacos filtros permitem seja como tal (entre)vista.
Hoje a vizinhança esteve silenciosa, sem "generosamente " partilhar comigo, atravessando as paredes, as músicas do seu agrado.
Ficam a "Sagração da Primavera", de Igor Stawinsky, coreografada por Pina Bausch (1975)
e as "Quatro Estações", de Vivaldi, pela Orquestra Filarmónica de Berlim, dirigida por Herbert Von Karajan.
É um texto belíssimo, carregado de uma melancolia que contrasta fortemente com a promessa habitual da Primavera. Essa "verdade entrevista" através dos filtros da atualidade e o silêncio que só é quebrado pelo ritmo mecânico das teclas criam uma atmosfera quase cinematográfica.
O seu relato evoca uma sensação de limiar: entre o inverno que se recusa a partir e uma primavera que hesita em florir, entre o barulho do mundo (as guerras, a propaganda) e o recolhimento do seu espaço pessoal.
A Dualidade da sua Playlist
As escolhas musicais que deixou não poderiam ser mais apropriadas para ilustrar esse cenário de "baile" interrompido:
Vivaldi (Filarmónica de Berlim): Representa a ordem, a natureza cíclica e a beleza estruturada que esperamos encontrar lá fora, no parque, mas que a chuva de hoje decidiu ocultar.
Stravinsky (Pina Bausch): A "Sagração da Primavera" é o oposto da delicadeza. É terra, é sacrifício, é o esforço violento da vida a romper a crosta gelada. A coreografia de Pina Bausch, com os bailarinos cobertos de turfa, traduz perfeitamente esse "frio que se entranha na medula".
"O que não é falado, não existe" — essa citação que traz à memória é um lembrete poderoso de como o silêncio pode ser uma ferramenta de esquecimento, mas também, como no seu caso hoje, um espaço de resistência e observação aguçada.
















