Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Letras empilhadas, ano após ano, em Junho, 09, (re)colhidas em 2025

 * Victor Nogueira

9 de junho de 2012  · 

Foto Victor Nogueira -  Serra da Arrábida - Forte do Outão

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     Bárbara Santos

Vctor, és um amigo muito querido. Bemhajas pela prendinha. Um abraço.

13 a

De Castro Barros Orlanda

conheco bem este forte...minha filha esteve la muito tempo depois de uma cirurgia pour causa de um accidente de route.

13 a

De Castro Barros Orlanda

obrigada Victor e desculpame se eu fui mal educada contigo.

13 a

Victor Barroso Nogueira

Orlanda De Castro Barros Mal educada comigo? Que ideia, Orlanda ! Bjos meus :-)*

13 a

Margarida Piloto Garcia

Tenho memórias de infância que me remetem para aqui. São memórias ternas das que nos fazem sorrir, porque não tiveram a ver com falta de saúde, e ao mesmo tempo me trazem saudades de tempos e pessoas que já não voltam.

13 a

Isabel Maria

Mais uma vez o azul!!! gosto muito ... grata:)))

13 a              


9 de junho de 2012  · 

Foto Victor Nogueira  -  Pôr do sol em S. Martinho do Porto

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José Inácio Leão Varela

Para mim caro Victor, esta foto, é das mais belas, senão a mais bela, que partilhaste. Obrigado por me identificares nela. Passei aqui umas férias que não me trazem boas recordações...Abraço.

13 a

Catarina Da Graça Rijo

Estou de acordo c/ o José Inácio, esta é uma belissima foto, das melhores, também em minha opinião. Obrigada Victor, um bom fim-de-semana p/ ambos.

13 a

Carmen Rosário Montesino

Além dos livros, muitas e boas fotos! Abraço, TY 🙂

13 a

Yolanda Botelho

Que foto tão bonita!Bj...

13 a

Victor Barroso Nogueira

Carmen Montesino Que é um abraço TY ? Espero que seja doce e cariciante LOL

13 a

Victor Barroso Nogueira

Amanhã, preparem-se, colocarei aqui uma foto horribilíssima LOL

13 a

José Inácio Leão Varela

Obrigado Catarina, igualmente para si...

13 a

Clara Roque Esteves

Tu estás ou és um mestre. Lindo!

13 a

Victor Barroso Nogueira

Um aprendiz, Clara Roque Esteves :-)*

13 a

Belaminda Silva

Que maravilhosa foto!!! Amei!!! Obrigada Victor,,, desejo-te uma noite de bom descanso e um bom Domingo. Beijinhos♥♥

13 a

Laura Rijo

Bonito por do sol!!

13 a

Thatalyscal Scaldelai

Lindo demais!!! 😊

13 a

Alice Coelho

Lindissimo.....................beijinhos!!!!!

13 a

Francisco Guilherme Marinha Barreiros

excelente boneco

13 a

Ana Roque

Fabulosa!!! obga pela partilha, bjs:)

13 a

Bárbara Santos

Linda, transmite uma Paz enorme. N

13 a

Bárbara Santos

Linda, transmite Paz. Beijinho.

13 a

Maria Jorgete Teixeira

Talvez a minha preferida...quase luz, quase sombra...o espelho da água entre o argênteo e o chumbo...o negro dos penhascos, a imprecisão dos arbustos...o alaranjado de um sol que se despede...

13 a

Margarida Piloto Garcia

Ai que maravilha Victor, amo !!!!

13 a

Ana Estrela

lindo..suave...apaziguador mesmo das emntes cansadas

12 a

Angélica Silva

Lindo ...

12 


9 de junho de 2013  ·   · 

Para quem marcou a sua presença,  porque soube (ler) ou esteve atento, a expressão do meu reconhecimento  --- quadro de Magritte

~~~~~~~~~

Manuela Miranda

Gosto do quadro com a cor um céu muito nublado assim como o tempo e o País que não anda bem, mas gostei de saber de quem era o quadro e eu andarei sempre por aqui Amigo. Obrigada pela partilha beijinhos

12 a

9 de junho de 2015  

imagens em movimento 01

VER    imagens em movimento 01

~~~~~~~~~~~

Manuela Vieira da Silva

Gostei de ver o primeiro filme. Também temos em Portugal uma história do cinema que acompanhou os tempos e a evolução das técnicas cinematográficas. Obrigada pelo excelente trabalho de pesquisa, Victor Barroso Nogueira. ❤ 🙂

10 a~

Silvia Mendonça

Victor Barroso Nogueira, admiro a tua capacidade em lidar com o passado, compartilhando conosco as maravilhas que descobres. Claro que também és um homem da atualidade, e como tal, também nos informa sobre o que vai no Portugal de hoje. Amigo, tenha certeza: gosto demais do teu trabalho. E se não leio no dia, leio depois. Parabéns! Beijos de mim.

10 a

Carlos Rodrigues

Obrigado, Vitor, maravilha esse comentário histórico-Kinematoscópico. Em Lisboa, já que mencionaste o Piolho ( Salão Lisboa ) também podias ter mencionado, entre os primitivos cinemas o Olympia, o das sessões contínuas, onde a principal curiosidade e naturalmente o acto insólito, para as gerações de hoje, do espectador atar um lenço à cadeira para marcar o lugar sempre que tinha de ir ao WC ou a outro lado qualquer , mas tencionando voltar. Na maioria dos casos resultava, noutras roubavam-lhes os lenços...é só uma noite do pitoresco relacionado com os cinéfilos do tempo, mas a casa estava sempre cheia...

é nota não é noite ( corrigido )

9 a


9 de junho de 2016  · 

Tino de Rans, candidato a "caudilho" ? Mas tem pedalada ou será um novo Gomes da Costa de 1926 ? (não confundir com ... Costa Gomes de 1974).E tendo ou não pedalada, alguém acredita que a democracia popular e da cidadania passam por ali ?

9 de junho de 2019  · 

foto victor nogueira - Praça de Touros  de Setúbal

Carlos Relvas (inicialmente de D. Carlos I) no Bairro Operário Baptista, ambos edificados pelo industrial conserveiro António José Baptista. Mais sobre o Bairro em O Bairro [operário] Baptista, em Setúbal


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Foto victor nogueira . Farol do Forte do Bugio
- Desta vez as minhas deambulações trouxeram-me até ao Jardim de Paço de Arcos. Aqui estou, pois, junto à Estrada Marginal, onde passam velozes carros e mais carros. O Tejo está defronte a mim e o Tejo seria uma baía como a de Luanda ou do Rio [de Janeiro] se eu não soubesse. Ao alcance da vista o mar e o Farol do Bugio. Para montante Lisboa, a Ponte e o Cristo-Rei. Além é Belém, di-lo o monumento que daqui se vê. Os bancos do jardim estão desertos: corre uma aragem fresca e algo desagradável. O jardim tem flores, mas as árvores estão ainda despidas. O céu nublado está belo, ao pôr do sol. As núvens negras nuns sítios, iluminam-se noutros. De resto vai se aproximando a hora de jantar - os dias agora estão mais compridos. (s/data - 1972/73 ?) (Notas de Viagem, 1997)
Uma programada ida à Torre do Bugio nunca chegou a concretizar-se. O convite foi dum faroleiro amigo meu e da minha tia avó Esperança, o João Meles. Nesse tempo já eu sabia que o João era comunista.
Já na zona residencial nova, a caminho de Caxias, o rio Tejo refulge lá em baixo e, mais longe, avista -se o farol do Bugio à entrada da barra. Junto à urbanização da Quinta do Alto, com a vista ainda não totalmente tapada pelos edifícios, a minha atenção é desperta para uma insólita construção, estilo mourisco, que o dono, um goês, diz ser indiana; no quintal desta residência despertam a atenção um aviário estilo oriental e um painel de azulejos, que me diz reproduzir a casa onde nascera em Goa. (Notas de Viagem, 1997, 1998.01.26)
aqui o paredão
ali as rochas
o iodo das águas
sem lodo
e
as velas
a dança ritimica
compassada
das ondas
marulhando
ao vento em filigrana
o teu cabelo bailando
ao fundo o bugio
e o teu sorriso planando
finas rugas no teu olhar
o mar
na praia e na rede
o mistério
e
o suave perfume
do corpo apetecido
e do sorriso
riso liberto
quem mora dentro de nós ? (Paço de Arcos 2014.06.10)
O Farol do Bugio localiza-se no Forte de São Lourenço do Bugio, na foz do Rio Tejo. Trata-se duma torre circular de cantaria, branca, encimada por uma lanterna e varandim vermelhos, no interior de um forte também circular. Em 1693 já existia no ilhéu uma torre com estrutura de farol, arrasada pelo sismo de 1755. Ordenada a construção dum novo farol pelo Marquês de Pombal, este, com a forma actual, entrou em funcionamento no ano de 1775. O Forte foi desarmado em 1945, sofrendo o conjunto edificado obras de reparação e consolidação em 1952 e em 2000.

9 de junho de 2020  · 

Foto victor nogueira - Carcavelos – Farol do Forte de S. Julião da Barra

Este farol foi instalado na fortaleza de São Julião da Barra em 1761, sendo remodelado em 1775, com alterações em 1933. Torre de secção quadrangular, com utilizações diferenciadas em cada piso, localizando a lanterna no topo, encontra-se activo.


9 de junho de 2024
 
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Foto victor nogueira - Setúbal Av José Mourinho Monumento aos Pescadores (2024 04 18 IMG_4446)
“Monumento de Homenagem aos Pescadores de Setúbal” da autoria de António Pacheco, inaugurado em 2006. A embarcação com a imagem de "N. Sra da Arrábida" retratada recebeu o nome de "Nossa Senhora Estrela-do-Mar" e, numa placa, está contido o poema "Naufrágio", de Sebastião da Gama.
NAUFRÁGIO
Não era por mal …
A onda que vinha
não vinha por mal.
Mas veio, mas veio…
E logo a barquinha
partiu pelo meio.
Nem homem, nem velas.
Quando a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.
Mas, se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.
Os meninos brincam.
Navegam em barcos
Feitos de cortiça,
Feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
sem nenhuma ajuda.
Mas não é por mal…
In ‘Cabo da Boa Esperança’



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

pelos caminhos da Serra da Arrábida

* Victor Nogueira



foto de família - pelos caminhos da Serra da Arrábida, nas primeiras décadas do século XX, vislumbrando-se a Pedra da Anixa, no Portinho da Arrábida.

Presumo que na foto figurem o meu bisavô e a minha tia-avó Esperanza Luís e se assim for talvez tenha sido numas férias que passaram no Forte de Santa Maria da Arrábida, na altura uma estalagem explorada pelos pais do poeta Sebastião da Gama.

domingo, 22 de junho de 2014

serra da arrábida


foto victor nogueira - 
pôr do sol em setúbal com a serra da arrábida, vista do alto das escarpas de s. nicolau

1993 - Ultimamente a rua parece um forno. como se estivéssemos no Alentejo, com uma brisa sufocante e uma luminosidade que fere o olhar. (...) Há dias em que o brilho do ar é tão intenso que não consigo ler o jornal ao fim de semana no cimo das escarpas de Santos Nicolau, com o Estuário do rio Sado ao fundo e a Serra da Arrábida à direita. Mas aqui à noite, na varanda, corre uma brisa acariciante, conjuntamente com o cheiro da terra molhada. (MMA - 1993.08.10)

Já é meio da tarde. Enquanto escrevo estou distraído. Como sempre fui comprar os jornais, mas desta feita não fui lê-los para debaixo duma árvore na estrada da Figueirinha ou no cimo das escarpas de Santos Nicolau, com o Rio Sado e a Serra da Arrábida ao fundo. Não, desta vez fiquei-me pelo porto de pesca, mas como o tempo se tornara de trovoada quente e desagradável, mudei para debaixo duma árvore do degradado   Parque José Afonso, agora transformado em parque de estacionamento automóvel, embora hoje quase vazio. (MMA -- 1993.09.10/11)

1994 - Antigamente, aos fins-de-semana, ia até à Serra da Arrábida ou até ao morro de S. Filipe ou para a Estrada da Comenda, o carro debaixo da sombra duma árvore para ler o jornal e para ouvir música. Mas agora fico-me pelo descampado no cimo das escarpas de Santos Nicolau, onde as árvores ainda não cresceram e para onde agora vão muitos carros, demasiados para o meu gosto. Aliás cada vez mais a cidade está sendo separada do rio, por causa do aumento do Porto de Setúbal, e cada vez mais nos arredores as casas substituem as árvores ou o arame farpado impede o acesso aos campos. (MMA - 1994.02.20)

2014 - Nunca escrevi sobre a Serra da Arrábida textos literários mas, se os tivesse escrito, nunca seriam místicos. A Serra para mim é um imperfeito álbum photographico por mim recolhido ao longo dos tempos, um conjunto de memórias e sabores, a companhia e sua partilha com muitos alguéns, a maioria dos quais se volatilizou. A Serra na sua aspereza polvilhada de encantos em recantos,,na sua flora ascética, com o mar e o rio azul nas suas reentrâncias ou bordejando as penedias, onde raros animais se avistam: uma gaivota, uma salamandra,uma lagartixa, um coelho,  uma raposa … é um lugar de solidão para quem nela não se preocupe em buscar a mão de Deus e sim a do homem, sem a qual os acessos seriam quase inexistentes para os cumes encostas acima, com o esventramento pela cimenteira ou pelas pedreiras. 

Fica a serra em poemas de frei Agostinho da Cruz, Sebastião da Gama, José Manangão, ilustrada também em duas curtas-metragens e numa média metragem.

1. - Sebastião da Gama
 «O mais difícil não é ir à Arrábida (...). Difícil, difícil, é entendê-la: porque boas praias, boas sombras e boas vistas há-as em toda a parte para os bons banhistas, os bons amigos de bem comer, os bons turistas; o que não há em toda a parte é a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido. (...) Mas é fora de dúvida que o visitante, se o não apreendeu, saiu da Arrábida sem sequer ter entrado nela verdadeiramente!
Vá sozinho, suba ao Convento, que é onde o espírito da Serra converge e como que ganha forma, leve, se quiser, os versos de Agostinho (...) e experimente como afinal é fácil estar a sós com Deus», escreveu Sebastião da Gama.

Serra Mãe

O agoiro do bufo, nos penhascos, 
foi o sinal da Paz. 
O Silêncio baixou do Céu, 
mesclou as cores todas o negrume, 
o folhado calou o seu perfume, 
e a Serra adormeceu. 

Depois, apenas uma linha escura 
e a nódoa branca de uma fonte amiga; 
a fazer-me sedento, de a ouvir, 
a água, num murmúrio de cantiga, 
ajuda a Serra a dormir. 

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou 
e anda agora à procura, pela Serra, 
da verdade dos sonhos que na Terra 
nunca alcançou. 

E outros murmúrios de água escuto, mais além: 
os Poetas embalam sua Mãe, 
que um dia os embalou. 

texto completo em
http://cfp.cm-lisboa.pt/pls/htmldb/f?p=334:6:1167080594023003::::P6_POE_ID,P6_TEP_ID,P6_ANCORA,P6_AUTOR,P6_POEMA,P6_ID,P6_TIPO:5018,42081,32,Sebasti%E3o%20da%20Gama,Serra-M%E3e,141,autor

2. - Frei Agostinho da Cruz

DA SERRA DA ARRÁBIDA

Do meio desta Serra derramando
A saudosa vista nas salgadas
Águas humildes, quando e quando inchadas
Conforme a qual o tempo vai soprando,

Estou comigo só considerando,
Donde foram parar cousas passadas,
E donde irão presentes mal fundadas,
Que pelos mesmos passos vão passando.

Oh! qual se representa nesta parte
Aquela derradeira hora da vida
Tão devida, tão certa, e tão incerta!

Em quantas tristes partes se reparte,
Dentro nesta alma minha, entristecida,
A dor, que em tais extremos me desperta!

Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?

Daqui mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.

Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.

Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.

Mas ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.

Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

poema completo em 
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/fcruz.htm

3. -  Jose Manangão

                   Serra da Arrábida a grande jóia
                   Beijada pelas águas do rio "Sado"
                   Defronte, a Peninsula de "Tróia
                   A cidade de Setúbal, vive a seu lado
-
                   Tem no seu ventre um convento
                    Cercado por luxuriante vegetação
                    Não fora essa doença do cimento
                    A Natureza cumpriria sua função
-
                    As escarpadas afiadas pelo tempo
                    Suas grutas, ainda por desvendar
                    Sua beleza, acaríciada pelo vento

                    Os mirantes, onde vamos admirar
                    Ao seu redor e em cada momento
                    O infinito, onde o céu, abraça o mar
-
CURTAS METRAGENS
Arrábida da Serra ao Mar 

https://www.youtube.com/watch?v=_BK_TXZw-Hk

Arrábida - Serra de um poeta

https://www.youtube.com/watch?v=D27lePTINcA

MÉDIA METRAGEM
Arrábida, da Serra ao Mar

https://www.youtube.com/watch?v=3CoRwwe7FdU

terça-feira, 25 de março de 2008

Setúbal - Personalidades (5)

Bocage

Calafate

Michel Giacometti

Luísa Todi

Sebastião da Gama

Zeca Afonso

Lima de Freitas

Américo Ribeiro

Ana Castro Osório

Olga Moraes Sarmento

Luciano dos Santos


Bocage

(1765-1805)

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão de altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno; (...)

Assim se via Manuel Maria Barbosa du Bocage, considerado por muitos o maior poeta português do século XVIII.

Filho de um advogado e de uma francesa, Bocage nasceu em Setúbal, no número 12 da Rua Edmond Bartissol, a 15 de Setembro de 1765.

Desde muito cedo que levou uma vida atribulada, assentando praça aos 14 anos de idade e ingressando na Academia Real da Marinha aos 15. Os anos seguintes dividiu-os pelo estudo e pela vida boémia das cidades.

Na sua época, Portugal enfrentava tempos difíceis. A economia era frágil, o ouro do Brasil começava a escassear e o que vinha para o país era todo conduzido para a luxúria da Corte, o erário público era gasto com as despesas da marinha e do exército, as reformas do Marquês de Pombal não eram respeitadas e o povo passava fome.

Simultaneamente, em França, os tempos eram de mudança e revolta. Luís XIV e Maria Antonieta haviam sido decapitados por altura da revolução de 1789 e espalhavam-se pela Europa os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Em Portugal, os cafés, principalmente os de Lisboa, eram pontos privilegiados de debates políticos e encontros de subversão contra o Governo.

D. Maria I enlouquecera e foi o Intendente Diogo Inácio de Pina Manique quem assumira o poder, instaurando um regime totalitário e repressivo, agravando, ainda mais, a conjuntura.

Depois do regresso a Portugal, em 1790, vindo de uma passagem agitada pelo Oriente, Bocage levou, durante uma década, uma vida de boémio em Lisboa, onde, por exemplo no Botequim das Parras ou no Café Nicola, marcou presença quase todas as noites, juntando admiradores e criando grandes amizades, devido ao carisma e às críticas que ia rubricando contra o despotismo de Pina Manique, sobre os vários problemas do país e ausência dos direitos humanos, hoje em dia, considerados elementares.

Personalidades do regime, classes sociais e clero também não escaparam à visão crítica e audaz do escritor, que, por essa altura, já se apelidava de Elmano Sadino, anagrama adquirido quando aderiu à Nova Arcádia, onde foi protegido, durante algum tempo, por Filinto Elísio e pela marquesa de Alorna.

Naturalmente que o espírito livre, rebelde e contestatário de Bocage entrou de forma irremediável em conflito com a autoridade, sendo, em 1797, preso por “desbragamento de costumes e livre pensamento”.

A Inquisição condenou-o a receber doutrina pelos oratorianos, no mosteiro de S. Bento. Quando terminou a pena, era um homem diferente, passando a trabalhar, vivendo em dificuldades e a sustentar uma irmã.

Apesar de ter pertencido formalmente a uma escola poética neoclássica, Elmano Sadino era já um pré-romântico por temperamento, lamentando-se do destino e da infelicidade e lutando contra as violentas contradições existenciais típicas dos autores românticos.

Do erotismo ao brejeirismo, da crítica construtiva ao escárnio, Bocage escreveu, até à morte, em 21 de Dezembro de 1805, em Lisboa, de tudo e sobre tudo, sendo, por isso, alvo de censura durante toda a vida, tendo visto muitos versos cortados, largamente alterados ou simplesmente omitidos e publicados apenas a título póstumo.

Artigos relacionados (textos publicados, em 2005, no 'Sant'Iago - Diário da Feira', jornal da Feira de Sant'Iago)

Vida e Obra:

Património edificado: Estátua

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Calafate

(1815-1911)

António Maria Eusébio, “o Calafate”, nome pelo qual era conhecido devido à profissão que tinha, poeta analfabeto, apelidado também de “o cantador de Setúbal”, nasceu em 15 de Dezembro de 1819, na Freguesia de S. Sebastião e morreu em 22 de Setembro de 1911.

Apenas em 1904, já com 84 anos de idade, começou a pôr em versos, publicados em folhetos, a forma como via e vivia Setúbal, ganhando com isso a subsistência.

A publicação de folhetos com esses versos foi ideia de um amigo, o general Henrique das Neves, que juntou 50 pessoas dispostas a dar cem réis por exemplar, pagando, assim, o custo da impressão na Tipografia Mascarenhas, revertendo o produto da venda dos restantes a favor do poeta, já incapaz de exercer a profissão.

Na primeira edição do folheto dava-se a seguinte explicação: “Ao amigo do autor afigurou-se-lhe que, publicando em edição especial estas Recordações, não somente contribuiria para afirmar mais uma vez o engenho do Cantador de Setúbal, auxiliando-o conjuntamente com a receita que daqui lhe possa advir, mas também se lhe afigurou que enriqueceria a nossa literatura popular com uma obra de singular valor no seu género literário.”

Em 1901, e por iniciativa também de Henrique das Neves, são impressos 600 exemplares de “Versos do Cantador de Setúbal”, com prefácio de Guerra Junqueiro.

António Eusébio passou a maior parte dos dias a trabalhar de sol a sol no calafeto de barcos na margem do Sado.

Os 82 anos de idade do “cantador de Setúbal” foram festejados, por iniciativa, uma vez mais, de Henrique das Neves e também dos escritores Ana Castro Osório e Paulino de Oliveira, com um sarau no Teatro D. Amélia, onde hoje é o Fórum Municipal Luísa Todi.

O último dos sete folhetos com poemas de Calafate foram publicados em 1910.

Fonte: www.lasa.pt

Património edificado: artigo relacionado

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Michel Giacometti

(1929- 1990)

Michel Giacometti, de origem francesa, rendeu-se aos encantos de Portugal, onde viveu mais de 30 anos até morrer, desde o momento em que chegou, em 1959, dedicando-se, desde então, à investigação da música popular.

Nascido em Ajaccio, na Córsega, em 1929, Michel Giacometti foi criado por um tio, funcionário colonial da rota do Império Francês.

Desde muito novo que as aventuras – ou desventuras - começaram a persegui-lo. Apenas com três anos de idade foi raptado por uma tribo, sendo salvo por Herratin, uma criada negra descendente de antigos escravos.

Enquanto estudante fundou várias revistas e esteve ligado a actividades culturais. Foi poeta, crítico de arte, actor e director de uma companhia teatral.

Expulso de todas as universidades francesas, por um período de cinco anos, por participar numa greve contra a discriminação dos árabes na vida pública de Argel, Giacometti decidiu viajar, chegando a frequentar as universidades de nove países, exercendo, ao mesmo tempo, mais de três dezenas de profissões para poder subsistir e financiar os estudos.

Após a diáspora, regressou a Paris, terminando o curso de Letras e Etnografia, na Universidade de Sorbonne.

“Mediterranée 56” é o nome da missão que criou, a seguir à conclusão da licenciatura, com o objectivo de investigar as tradições populares de todas as ilhas do Mediterrâneo. A dimensão do projecto, contudo, obrigou-o a considerá-lo como um fracasso, mas, por outro lado, com os conhecimentos antropológicos que adquiriu, passou a ter um curriculum invejável.

A “descoberta” de Portugal dá-se em 1959, ao decidir fixar-se em Bragança, quando lhe diagnosticaram tuberculose e recomendaram um clima mais propício à cura. O casamento com uma portuguesa influenciou a escolha, iniciando, então, a investigação musical no Nordeste Transmontano.

Giacometti recolheu informações etnográficas em mais de 600 freguesias, apesar das dificuldades financeiras por que passou, que o forçaram a dormir em pensões degradadas, choupanas de pastores, na casa de um contrabandista e, inclusivamente, na rua.

Apesar da dedicação e da enorme qualidade da compilação musical que possuía, das mais ricas da Europa Ocidental, nunca chegou a viver deste trabalho.

Os conhecimentos que possuía permitiram-lhe fazer programas de rádio para estações europeias e, durante três anos, realizou, para a RTP, “Povo que cantas”. A inspiração para o título foi buscá-la à letra de uma cantiga da resistência espanhola que diz que “pueblo que canta no puede morir”.

“Antologia da Música Regional Portuguesa”, uma colecção de cinco discos, feita com a colaboração do compositor Fernando Lopes Graça, e o “Cancioneiro Popular Português”, editado pelo Círculo de Leitores, são algumas das obras de maior valor de Michel Giacometti.

Para ter algum desafogo económico teve de vender o espólio que detinha, como a colecção dos arquivos sonoros, a biblioteca particular e instrumentos musicais, estes últimos adquiridos pela Câmara Municipal de Cascais.

Por coincidência, Giacometti, que pertenceu e viveu para o povo, que acreditou nas minorias e defendeu a identidade das culturas e das nações, viu pela primeira vez a luz do dia a cem metros da casa onde nasceu Napoleão Bonaparte.

Michel Giacometti morreu em 1990 e foi sepultado, como desejava, no país do coração: em Portugal, mais precisamente em Peroguarda, no concelho de Beja.

O Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, não existiria sem o valioso contributo do etnólogo corso, que, em 1987, ajudou na elaboração da exposição “O Trabalho faz o Homem”, a primeira daquele espaço cultural.

Fontes:

- Público Magazine, Agosto de 1990

- www.terravista.pt/guincho/1452/michel.htm

- Documentação cedida pelo Museu do Trabalho Michel Giacometti

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Luísa Todi

(1753-1833)

Luísa Todi nasceu em Setúbal, na freguesia de Nossa Senhora da Anunciada, a 9 de Janeiro de 1753, na actual Rua da Brasileira, não criando grandes raízes na cidade, pois os pais mudaram-se para Lisboa ainda ela era de tenra idade.

Luísa Rosa de Aguiar, nome de solteira, estreou-se, ainda como actriz, em 1767 ou 1768, no teatro montado na propriedade do Conde de Soure, em Lisboa, recitando, com a irmã, as falas das personagens de Tartufo, de Molière.

Foi, também, aí que Luísa Aguiar conheceu Francesco Saverio Todi, violinista de origem italiana.

Em 28 de Julho de 1769, com apenas 16 anos de idade, Luísa casou com Todi, na Igreja de N.ª S.ª das Mercês, indo habitar no Pátio do Conde de Soure, perto do Teatro.

Um ano após o casamento, actuou no mesmo teatro, onde se estreou como actriz, mas, desta vez, como cantora, na ópera "Il Viaggiatore Ridicolo", de Guiseppe Scolari. A partir desse momento, a carreira de Luísa Todi tomou outro rumo, apresentando-se logo no ano seguinte em Londres.

A 6 de Junho de 1772 actuou no Porto, cantando árias do compositor David Perez, mestre da Capela Real, passando a ser, figura de relevo na sociedade nortenha.

As críticas dos jornais, mesmo os estrangeiros, em relação à cantora não eram modestas, elogiando as capacidades vocais, o relevo que dava à expressividade e à emoção na caracterização das personagens que interpretava.

Londres, Paris, Berlim, Turim, Varsóvia, Veneza, Viena, São Petersburgo foram algumas das cidades em que Luísa Todi passou largas temporadas, alcançando consideráveis êxitos. Nessas ocasiões, conviveu de perto com a aristocracia europeia, como foi o caso de Frederico II da Prússia e Catarina II, imperatriz da Rússia.

"La Didone Abbandonata" talvez tenha sido, de entre todas as que cantou, a ópera onde alcançou maior êxito.

Até 1793 andou em tournée pela Europa e foi já com 40 anos de idade que voltou a Portugal para cantar nas festas da filha primogénita do príncipe regente, futuro D. João VI.

Este espectáculo foi uma excepção em Portugal, visto que D. Maria proibira as mulheres de actuarem em público. Apesar da autorização, a família real não esteve presente, nem a actuação de Luísa Todi foi devidamente referenciada.

Talvez por isso, pelas limitações impostas em Portugal, regressou ao estrangeiro, voltando a Portugal, mais concretamente ao Porto, em 1803, já viúva.

Com as invasões francesas, em 1809, Luísa Todi viu-se forçada a abandonar o Porto, perdendo, na fuga, grande parte dos bens, entre os quais se contavam jóias.

Em 1811, quando regressou a Lisboa, já era uma mulher amargurada, em parte pela morte de alguns dos seis filhos e por uma das filhas ter sido internada no Recolhimento de Rilhafoldes, destinado a doentes mentais.

Em 1813, Luísa Todi viveu na rua do Tesouro Velho, hoje, rua António Maria Cardoso, e mais tarde mudou-se sucessivamente para as ruas da Barroca e da Atalaia, Largo de S. Nicolau e Travessa da Estrela, onde morreu, em 1 de Outubro de 1833, com 80 anos de idade, cega devido a uma doença que tinha desde nova.

Fontes:

- “Cantores de Ópera Portugueses, 1º volume”, Mário Moreau

- “Setúbal e as suas celebridades”, Fran Paxeco

- “Setúbal no Século XVIII. As informações paroquiais de 1758”, Rogério Peres Claro

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Sebastião da Gama

(1924-1952)

Sebastião Artur Cardoso da Gama nasceu em 10 de Abril de 1924, em Vila Nogueira de Azeitão, tendo falecido a 7 de Fevereiro de 1952.

Licenciou-se em Filologia Românica, em 1946, na Faculdade de Letras de Lisboa, leccionando provisoriamente, dois anos mais tarde, na Escola Técnica de Setúbal.

“Serra Mãe” foi a primeira obra do poeta, que surgiu em 1945, seguindo-se, nos dois anos sequentes, “Loas a Nossa Senhora da Arrábida” e “Cabo da Boa Esperança”.

No dia 4 de Maio de 1951, casou com a amiga de infância Joana Luísa, no Convento da Arrábida, tendo sido a primeira cerimónia ali celebrada.

No mesmo ano surgiu a quarta obra, intitulada “Campo Aberto”.

A 7 de Fevereiro de 1952, Sebastião da Gama morre, vitimado por uma tuberculose renal, de que sofria desde a adolescência.

Após a morte do poeta, foram publicados, em 1953, “Pelo Sonho é que vamos” e “Lugar de Bocage na Poesia Portuguesa”, este último em resultado de uma conferência proferida em 15 de Setembro de 1950, em Setúbal.

“O Diário”, com prefácio de Hernâni Cidade, e “O Segredo é Amar” surgiram em 1958 e 1959, respectivamente.

O último livro editado, “Itinerário Paralelo”, data de 1967.

Em 1999, a Câmara Municipal inaugurou um pequeno museu dedicado ao poeta, em Vila Nogueira de Azeitão. Neste espaço, onde está também instalado o pólo local da Biblioteca Municipal, figuram o espólio literário e numerosos objectos pessoais de Sebastião da Gama, relacionados com a vida e obra do poeta.

Fonte:

- Publicação Câmara Municipal de Setúbal, 2001

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José Afonso

(1929-1987)

José Afonso, ou Zeca Afonso, 'pai' de canções, que marcaram o País antes, durante e depois da Revolução dos Cravos, como “Grândola Vila Morena”, “Venham Mais Cinco” ou “O que faz falta”, nasceu, em Aveiro, em 2 de Agosto de 1929.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, de nome completo, filho de um juiz e de uma professora primária, tendo passado os primeiros anos de vida entre a terra natal, Angola e Moçambique.

'Bicho-cantor' foi a alcunha que lhe deram no liceu, por cantar serenatas durante as praxes. Nesta altura conhece a vida boémia e os fados tradicionais de Coimbra.

Entre 1946 e 1948, enquanto terminou o liceu, conheceu a costureira Maria Amália de Oliveira, com quem casou às escondidas, devido à oposição dos pais.

Quando, em 1949, ingressou no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras, revisitou Angola e Moçambique, integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra.

Em 1953, nasceu o primeiro filho, José Manuel, e, enquanto dava explicações e fazia revisões no “Diário de Coimbra”, viu os primeiros discos serem editados.

O Emissor Regional de Coimbra, da Emissora Nacional, foi o local escolhido para a gravação dos dois discos, de 78 rotações, com faixas de fados de Coimbra.

“Fados de Coimbra” é o título do primeiro EP, editado em 1956. Nos finais dos anos 50, princípios de 60, começou a frequentar colectividades e a cantar, com regularidade, em festas populares.

Em 1963, concluiu o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre e a nota de 11 valores.

A senha para o início da Revolução de Abril, “Grândola Vila Morena”, nasceu após Zeca Afonso se ter inspirado numa actuação na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Maio de 1964.

O único disco editado pela Valentim de Carvalho, “Cantares de José Afonso”, é desse ano, altura em que regressou a Moçambique, onde viveu e leccionou durante três anos.

O regresso a Portugal deveu-se à oposição José Afonso ao sistema colonial . O destino, desta vez, foi Setúbal, onde foi colocado como professor, tendo sofrido uma grave crise de saúde que o forçou ao internamento hospitalar durante vinte dias. Quando recuperou, ficou a saber que tinha sido expulso do ensino oficial, passando a viver de explicações que dava.

O álbum “Contos Velhos Rumos Novos” e o single “Menina dos Olhos Tristes”, que contem a canção popular “Canta Camarada” , são editados em 1969.

Seguem-se “Traz Outro Amigo Também”, em 1970, gravado em Londres, “Cantigas do Maio”, em 1971, gravado em Paris, e, no ano seguinte, “Eu Vou Ser Como a Toupeira”, editado em Madrid.

Em Abril de 1973, foi preso, passando vinte dias em Caxias, e no Natal desse ano gravou, em Paris, “Venham Mais Cinco”, com a colaboração musical de José Mário Branco, então exilado na capital francesa.

Muitas outras canções, espectáculos e prémios surgiram nos anos posteriores à revolução e, em 1982, os primeiros sintomas da doença que lhe causou a morte, uma esclerose lateral amiotrófica, começaram a manifestar-se.

No último álbum, “Galinhas do Mato”, editado em 1985, Zeca Afonso já não conseguiu cantar todos os temas, sendo substituído por muitos cantores portugueses, como Luís Represas e Janita Salomé.

Dois anos mais tarde, no dia 23 de Fevereiro de 1987, às 03h00, José Afonso morreu, no Hospital de S. Bernardo, em Setúbal.

Mais de 30 mil pessoas prestaram-lhe homenagem, no dia do funeral, nas ruas de Setúbal e na Escola Secundária Sebastião da Gama, de onde o corpo saiu para o cemitério da Nossa Senhora da Piedade, numa das maiores manifestações de que há memória na cidade.

Fotos: www.google.com

Fonte: www.instituto-camoes.pt

Artigos relacionados (textos publicados em várias edições do 'Guia de Eventos')

Vida e Obra:

• Saudade e exemplo

• Foi há vinte anos

• Os primeiros passos do cantor

• O professor do diálogo

• Símbolo de Abril

• Maio Maduro

• O aluno inadaptado

• Aos olhos dos outros

• O desportista sem fôlego

• Técnica própria

• O inconformado

Associação José Afonso:

• Finalmente casa própria

• No verso do verso

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Mestre Lima de Freitas

(1927 – 1998)

“Mas o que é exactidão óptica? Apenas uma ilusão dos ingénuos ou dos mal informados. A exactidão, disse-o Almada Negreiros, é inimiga da perfeição. E a perfeição, acrescente-se, é a coerência, alcançada entre a forma e a intenção, entre o sentido e o sinal (...)”

Lima de Freitas, In “Lima de Freitas – 50 anos de pintura”

Neo-realismo, surrealismo, realismo fantástico, pós-modernismo. O legado artístico de Lima de Freitas confunde-se com várias correntes, o que impede, por isso, que seja unânime a atribuição de uma terminologia que defina, claramente, o traço do pintor.

O próprio Lima de Freitas sentia relutância em se identificar com qualquer corrente. Contudo, é comum encontrar registos sobre a obra do artista setubalense que a conotam, fundamentalmente na sua última fase, com um surrealismo marcado pelo misticismo e esoterismo.

Representativos do traçado muito próprio, de motivos gnóstico e feérico, são quadros como “O anjo duplo” (1988) e a “A visão de Ezequiel” (1984).

A criatividade de Lima de Freitas esteve sempre aliada ao seu espírito crítico, que o fez, por exemplo, pertencer ao antigo MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática) e ser preso pela PIDE em 1949.

Partilhou as perspectivas de Júlio Pomar e começou por ser adepto do neo-realismo e da arte de teor social, características bem patentes em imagens como “O louco” (1950), “Estivadores” (1947) e “Cabeça amarrada” (1956).

O misticismo presente nos trabalhos de Lima de Freitas foi-o buscar, em determinado período, ao Oriente, elemento que pode ser admirado no quadro “S. Francisco Xavier na Índia”, patente no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Setúbal.

Detentor de uma técnica ao alcance de poucos, Lima de Freitas foi, também, ilustrador, gravador, publicitário, desenhador e, no campo das letras, tradutor e ensaísta, tendo publicado títulos como “Pintura incómoda” (1965), “Almada e o número” e “Imagens da imagem” (ambos de 1977).

Como pintor, vertente na qual que se estreou em público, com apenas 20 anos de idade, na II Exposição Geral da Academia de Música e Belas Artes da Sociedade Nacional de Belas Artes, teve oportunidade de expor em praticamente todo o País e em nações como Inglaterra, Polónia, França ou Dinamarca.

Nascido em 22 de Junho de 1927, em Setúbal, teve uma vida activa bastante preenchida, salientando-se a criação (em colaboração com o pintor irlandês Patrick Swift) da conhecida cerâmica algarvia de Porches, a ocupação dos cargos de presidente do Conselho Científico da Academia de Música e Belas Artes Luísa Todi, de primeiro director do IADE – Instituto de Arte e Decoração de Lisboa e do Teatro Nacional D. Maria II.

Entre as várias distinções que Lima de Freitas obteve durante a carreira, constam a homenagem pela Câmara Municipal com a Medalha de Honra da Cidade e as condecorações de "chevalier e officier de L’Ordre du Mérite", atribuídas pelo Governo francês. Recebeu ainda o título de comendador da Ordem de Santiago da Espada.

Exímio no retrato, perpetuou com o seu traço figuras como D. Manuel Martins, antigo bispo de Setúbal, Alves Redol ou Fernando Namora.

Pintou igualmente Snu Abecassis, num trabalho que se reveste da curiosidade de ter que refazer, a pedido da fundadora das Publicações Dom Quixote, o fundo original, uma vez que a então companheira de Sá Carneiro se sentiu “desnudada” com a configuração inicial do cenário criado pelo artista.

Lima de Freitas morreu em Lisboa, no dia 5 de Outubro de 1998.

Principais fontes:

- "Setubalenses de Mérito - 120 Biografias", João Francisco Envia

- "Lima de Freitas - 50 anos de pintura", Hugin Editores, 1998

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Américo Ribeiro

(1906 – 1992)

Durante 65 anos, Setúbal posou para a objectiva de Américo Ribeiro, fotógrafo que viu e viveu o Concelho como poucos.

Entre 1927, altura em que, com 21 anos, comprou por 60 escudos a primeira máquina fotográfica, e 1992, ano do seu falecimento, realizou mais de 100 mil instantâneos, adquiridos, quase todos, pela Câmara Municipal.

Carpinteiro e empregado de balcão antes de se dedicar por completo àquela que seria a paixão da sua vida, foi graças ao apoio oferecido pelo proprietário da tabacaria onde trabalhava na época que Américo Ribeiro pôde iniciar a carreira de fotógrafo.

A mudança para repórter-fotográfico deu-se naturalmente, primeiro por intermédio dos jornais O Setubalense e Diário de Notícias, do qual era correspondente já em 1929, a que se seguiram O Século, A Bola, Correio da Manhã, Diário Popular, Diário de Lisboa e Indústria, entre muitos outros.

A íntima ligação com Setúbal, onde nasceu no dia 1 de Janeiro de 1906, reflecte-se através da proximidade com o povo e, por exemplo, com diferentes colectividades locais, como o Grupo Dramático Juvenil de Setúbal e o Orfeão Cetóbriga. Ultrapassou os 50 anos de sócio do Vitória Futebol Clube e foi um dos mais antigos da Sociedade Musical Capricho Setubalense, da qual chegou a ser director.

Momentos da história do Concelho ficaram registados em imagem graças ao olhar de Américo Ribeiro. As visitas de vários presidentes da República Portuguesa e da rainha Isabel de Inglaterra e a queda de um avião britânico em Tróia, durante a II Guerra Mundial, são disso exemplos.

A lente do fotógrafo setubalense chegou, inclusivamente, a captar um jantar de militares alemães, oferecido nas instalações de uma fábrica de conservas pelo proprietário local, simpatizante da ideologia nazi.

A qualidade do seu legado fotográfico foi homenageada, ainda em vida, com a Medalha de Honra da Cidade, na Classe Cultura, entregue em 1985 pela Câmara Municipal, e, em 1991, com a Medalha de Mérito Distrital.

Coleccionador de máquinas fotográficas, realizou várias exposições e teve o seu trabalho patente em países como a antiga República Federal Alemã, França e Inglaterra.

Américo Ribeiro morreu no dia 10 de Julho de 1992.

Fonte:

“Setubalenses de Mérito – 120 fotografias”, João Francisco Envia

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Ana de Castro Osório

(1872 – 1935)

Ana de Castro Osório, escritora e militante pelos direitos das mulheres, nascida em Mangualde, em 18 de Junho de 1872, mas setubalense por opção, morreu em 23 de Março de 1935, deixando vasta obra literária.

Casada com Paulino Oliveira – também escritor e poeta – dedicou-se à literatura para crianças, embora também tenha escrito para adultos vários romances, novelas, comédias e contos.

Alguns destes textos foram traduzidos para castelhano, francês e italiano, enquanto outros estão dispersos por jornais e revistas portugueses e estrangeiros.

“Para Crianças” é o título de uma colecção editada por ela composta por 18 volumes.

Paralelamente, desenvolveu actividade a favor dos direitos das mulheres, colaborando, com Afonso Costa, na elaboração da Lei do Divórcio e editando, em 1905, “As Mulheres Portuguesas”.

Escreveu, também, para a revista “Sociedade Futura” e esteve na criação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e da Cruzada das Mulheres Portuguesas, que tinha por objectivo ajudar os soldados que participaram na I Guerra Mundial, bem como as famílias.

Como reconhecimento, a Liga dos Combatentes da Grande Guerra tem no salão da sede, em Lisboa, um busto dela em bronze.

Militante activa, juntamente com o marido, na luta pela implantação da República, foi presidente da Escola Liberal de Setúbal.

Num tempo em que as mulheres tinham poucos ou nenhuns direitos cívicos, foi a única a participar num Congresso Municipal em Évora, ao qual apresentou uma tese.

Condecorada pela República com a Ordem de Santiago, recusou a distinção. O Estado Novo concedeu-lhe a Ordem de Mérito Agrícola e Industrial.

Fonte:

“Setubalenses de Mérito – 120 fotografias”, João Francisco Envia

Artigos relacionados

Vida e Obra:

• Lutadora dos direitos das mulheres

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Olga Moraes Sarmento (ver Comentários neste post)

(1881 – 1948)

O despertar da consciência feminista em Portugal, no virar do século XIX, tem em Olga Moraes Sarmento uma das referências, escritora que conviveu com o meio intelectual da Europa, onde, a par da luta pelos direitos das mulheres, alimentou um “vício”, o de coleccionadora de autógrafos.

Maria Olga de Moraes Sarmento da Silveira, nascida em Setúbal, em 26 de Maio de 1881, viajou muito, realizou conferências, escreveu livros, dirigiu uma publicação de pendor feminista.

Fixou residência em Paris, onde conviveu com o meio intelectual da época, criou relações de amizade com personalidades de relevo do mundo da arte, da música e da literatura e trocou correspondência com individualidades francesas, espanholas e portuguesas, como Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Marx Nordau e Henriette de Joffre. Destes contactos resultou a sua vasta colecção de autógrafos, em bilhetes-postais, cartas, livros e desenhos.

Apreciadora da obra e do pensamento de grandes personalidades, a colecção de autógrafos não se resume à compilação das missivas que lhe foram endereçadas por figuras da sua geração. Inclui também registos de figuras do meio intelectual, artístico, político e aristocrático, especialmente dos séculos XIX e XX. Destacam-se ainda duas cartas de outros períodos históricos: uma do Marquês de Pombal, outra do Rei Luís XIII de França.

Editou o primeiro livro, intitulado 'Problema Feminista', em 1906, a que se seguiram 'A Infanta D. Maria e a Corte Portuguesa', 'A Marquesa de Alorna' (com prefácio de Teófilo Braga), 'Mulheres Ilustres', 'Impressão de Viagem', 'La Patrie Brasilienne', 'Sa Magesté la Reine Amélie de Portugal' e 'Teófilo Braga'. Deste último título ofereceu um exemplar ao Rei da Bélgica, que a recebeu em audiência em 1937.

Ligada ao grupo de intelectuais portuguesas que no início do século XX lutou pelos direitos cívicos, legais e políticos das mulheres, que se encontravam relegadas na sociedade para um plano de inferioridade, Olga Moraes Sarmento dirigiu a publicação 'Sociedade Futura', criada em 1092, sucedendo no cargo à também setubalense Ana de Castro Osório, uma das principais teóricas do feminismo.

Condecorada com a Legião de Honra e com as Ordens de Cristo e de Santiago de Espada, morreu em 1948, sem antes ceder à Câmara Municipal de Setúbal a biblioteca e colecção de arte pessoais, legado que faz parte do acervo do Museu de Setúbal/Convento de Jesus. E, claro, os mais de cem autógrafos que juntou. Parte desta colecção pode ser vista, até dia 10, no Museu Sebastião da Gama.

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Luciano dos Santos

(1911 – 2006)

Parte do espólio artístico de Luciano dos Santos – autor do Tríptico dos Setubalenses Ilustres, patente no Salão Nobre dos Paços do Concelho –, falecido recentemente, encontra-se no estrangeiro, embora, a maioria, na posse do Estado português.

O facto não é, certamente, alheio à bolsa que, em 1951, recebeu do Instituto para a Alta Cultura, que lhe permitiu trabalhar em vários países europeus. Não admira, pois, que haja obras do pintor nas embaixadas portuguesas em Madrid, Moscovo, Berlim, Berna e Londres, tal como na nipónica da capital espanhola.

Nascido sem bafo de fortuna – aos 7 anos entrou para o Orfanato Municipal de Setúbal – Luciano soube ultrapassar alçapões que a vida lhe armou, tornando-se nome ilustre no mundo da arte.

Após a instrução primária, feita no orfanato, e os estudos secundários, também em Setúbal, ingressou na Escola Superior de Belas Artes (ESBAL), em Lisboa, terminando o curso em 1937. Enquanto estudante, beneficiou de bolsas da Câmara de Setúbal e da Junta Geral do Distrito e de uma pensão da ESBAL.

Mesmo antes de concluir o curso, expôs várias vezes. Em certames colectivos e individualmente. A partir daí, torna-se fastidioso referir quando e onde revelou a sua obra, parte significativa mostrada, em Setúbal, nos Paços do Concelho, em 1992, por iniciativa da Câmara Municipal, com a Exposição Retrospectiva de Luciano dos Santos.

Mais conhecido como paisagista e retratista, emprestou, também, talento à arte da cerâmica, de vitrais e da escultura. São exemplos, neste último caso, a imagem de S. João Baptista, patente na Basílica da Estrela, em Lisboa, e os bustos de Bocage e de Luísa Todi, que se encontram em Alcobaça. A medalha, em bronze, de Luísa Todi, afixada na fachada da casa, em Setúbal, onde a cantora lírica nasceu, é, igualmente, da autoria de Luciano dos Santos.

Entre as várias distinções que recebeu, conta-se a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal atribuída, em 1985, pela Autarquia.

Luciano dos Santos – nascido em Setúbal, em 25 de Março de 1911 – morreu, aos 95 anos, em 12 de Dezembro de 2006.

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in

município de setubal

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