Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Entre Adão e Eva (2)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507

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* Victor Nogueira
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Por outro lado, há pessoas (homens e mulheres) que apreciam as minhas fotografias ou o que eu escrevo e o modo como escrevo e não te reconheço, (...), ou a qualquer pessoa o direito de exigir‑me que destrua ou que pretenda destruir o que fotografei ou escrevi (ou me escreveram) só porque te parece que deva fazê‑lo, porque isso em teu entender seria a prova de que gosto de ti e que mais ninguém disputa o meu afecto! O que escrevo vale para além de mim, embora não esteja interessado em publicar o que escrevo; quanto muito ofereço a pessoas que sei ou presumo que apreciarão a minha "escrita", como tu aprecias o Júlio Dinis e outros apreciarão Eça de Queiroz, Saramago, Camões ou Fernando Pessoa. ([1])

Não vejo porque hei‑de destruir os meus poemas ou parte da minha colecção de fotografias. Ao contrário do que tu dizes, não reli cartas minhas anteriores, designadamente para a mãe do Pelágio que vive na e Lua e da Natasha, ([2]) por qualquer motivo "doentio", de fixação no passado ([3]) - procurei apenas extrair delas material para "escritos" meus: comentários sobre as minhas viagens e as terras por onde andei (Apontamentos de Viagem e da Vida Quotidiana), sobre pessoas que conheci (Retratos), sobre literatura, cinema e música (ESCRItiCAS), sobre a política antes e depois do 25 de Abril (Escritos da Revolução), ou recolhendo os textos dos inúmeros postais que escrevi e que voltaram á minha posse. (Os Postais e o Texto)

Há uma grande diferença entre aquilo que tenho escrito ao longo dos tempos, desde as cartas da meninice e o "diário" de adolescente (secos, lacónicos, objectivos), passando pelas "filosofias" psicologizantes dos meus tempos de "perdido" em terra estranha de Portugal como universitário, "desenraizado" ainda hoje neste "jardim á beira-mar plantado", até ás cartas que passei a escrever a partir dos 25 anos. Como há uma grande diferença entre o meu desinteresse pela poesia, até começar a escrevê‑la, primeiro apenas em momentos de crise e de angústia, até passarem a reflectir outros sentimentos, desde a "seriedade" que caracterizava os primeiros poemas até à ironia, humor ou brincadeira das que escrevi após o meu divórcio. Há pessoas que influenciaram a maneira como escrevo ou a forma utilizada. Quando leio o que escrevo, leio como se tivesse sido outrem que tivesse escrito e não eu e gosto mais ou menos do que escrevi e comovo‑me mais ou menos não porque tenham sido escritas por mim mas porque também me comovo ou sensibilizo com o que outros escreveram, por exemplo, poetas como Eugénio de Andrade, António Reis, António Gedeão, Brecht ou Shakespeare. Mas tu consideras‑te o centro único da vida e dos afectos de quem gostes, por exemplo, amante ([4]) ou filhos, e não tens sido capaz de sair para além do teu umbigo.



[1] -Aliás muitas obras de escritores são baseados em textos que terão sido escritos para outrem e que não foram destruídos, sendo obras literárias: Sonetos de Camões, Cartas de Amor do Fernando Pessoa, escritos do Álvaro de Campos e do Alberto Caeiro, Cartas Familiares do Eça de Queiroz, Cartas de Soror Mariana de Alconforado, Diário de Anne Frank ... Nada disto existiria se pessoas como tu tivessem tido o poder de destruir tais escritos, porque destinados ou não a outrem (a outro ou a outra). Não é o próprio Manuel Tiago, aliás Álvaro Cunhal, que aproveitou material de sua vivência para escrever obras como "Até amanhã, camaradas" ou "Cinco dias, cinco noites"? E que dizer de pinturas célebres ou mesmo fotografias, que seria delas se tivessem sido destruídas apenas porque alguém como tu assim o tivesse exigido?

[2] - Aliás nessa altura reli muitas outras cartas, designadamente escritas para os meus pais e para o meu irmão.

[3] - Fi‑lo apenas porque estava retido em casa, primeiro de férias e depois doente e aborrecido por estar "fechado" em casa, desocupado . Não me apeteceu ir de férias sozinho e não tinha quem fosse comigo (Tu andavas e continuavas de candeias ás avessas com os meus filhos, que não queriam passar todas as férias comigo; por outro lado não tinha dinheiro para ir senão para o Mindelo, o que não me apetecia). Assim, primeiro era minha intenção procurar apenas as referências a viagens e terras onde estivera e depois, com o correr dos dias e do aborrecimento, fui alargando as minhas recolhas para outros "livros". Não foi nada como dizes. Aliás, tu "sabes" sempre tudo - com quem estive, o que fiz, onde fui, o que conversei. É tudo efabulação tua, mas falas como se aquela fosse a verdade indiscutível. Em vez de me "chagares" e a outros, deverias aproveitar essa faculdade ou facilidade para escreveres romances e peças de teatro. Deste modo sublimarias também as tuas angústias, receios e falta de confiança em ti e nos outros. Pode ser que viesses a ter êxito e uma vida mais livre e desafogada. Falo sinceramente, sem qualquer ironia.

[4] - No sentido camoniano de "amador e coisa amada".

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (14)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507

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* Victor Nogueira
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Esta é a minha casa, esta é a casa dos meus filhos, fosse ou não a mãe deles viva. Eles chegaram primeiro que tu, um em 1976, outro em 1980. Como vês, muito antes de ti. De quem me divorciei foi da mãe deles, não deles. Como naturalmente te divorciaste não dos vossos filhos, mas sim do pai deles. É completamente disparatada, irracional, a aversão que tens à Natasha e à Ester.


Enquanto estás para aí, eu estou para aqui. O tempo passou e já são três da manhã, sem que o meu cansaço ou fartura da vida e das pessoas tenha diminuído. O barulho provocado pelo vento amainou e o silêncio apenas é quebrado pelo zumbido contínuo do ventilador do computador e pelo tac tac mais ou menos regular, mais ou menos rápido, do teclado. A violenta tempestade passou, tempestade que fazia bater as janelas com fragor, conjuntamente com a porta de acesso ao terraço que se deve ter aberto e, em vai vem, soava com estrondo.


Diz a sabedoria popular que não há uma sem duas nem duas sem três. Como já estão três páginas escritas, vão sendo horas de ir para Vale de Lençóis, para os braços de Morfeia, na companhia esquiva mas pronta e quase sempre fiel da Joana Pestana.


Setúbal, 1997.11.23 / 24

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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sábado, 23 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (13)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507
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* Victor Nogueira
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Fiquei ontem muito preocupado contigo, com a tua aflição. Não podendo ir à da Rainha, fiz das tripas coração e liguei para tua casa, a casa de Setúbal onde deverias estar mas não estás. Por ti, porque estava preocupado contigo, s(...)Decididamente, deixei de gostar dos teus filhos: até prova em contrário, ambos não passam de meninos da mamã, mimados, egoístas (...)


Devo te algumas coisas: a tua ajuda, quando não é impositiva, a tua presença quando fiz o exame no Vasconcelos, a tua companhia e alguns momentos de alegria. O que te devo é pouco, face ao muito que os teusa filhos te devem, nem mais nem menos do que os meus devem à mãe e a mim. Sou lúcido, por vezes demasiado, e não sou de modo algum do estilo mãe galinha, sempre pronta a passar uma esponja sobre as suas crias e a ver com olhos negros e chamejantes as crias dos outros, como sucede contigo.


Os teus filhos não são capazes de telefonar-me, mesmo que seja por causa da mãe deles, e o teu filho mais novo, nas tuas palavras, 'tadinho, é um joguete nas mãos de outrem ... Pareceu me que estavas aflita e se eu não estivesse doente teria ido ter contigo; coitados dos teus filhos, que não são capazes de telefonar-me, eu que lhe telefone, condescendia o Jorge, dando desculpas esfarrapadas, que tu perdoas! Coitados dos teus filhos, tão bonzinhos, tão educadinhos, que não são capazes de telefonar-me para saberem de ti ou para combinarmos a assistência de que tu precisarias ou para se arranjar alternativa ajustada, como consegui telefonando aos meus pais que - estes sim - a ti nada devem mas se prontificaram a ir buscar-te, se necessário e a qualquer hora! Decididamente, não gosto da educação que deram aos vossos filhos.


Admito que o telefonema do Jorge tenha sido uma das causas da tua crise e aflição! Tu dizes que não; eu, conhecendo as tuas histórias, admito que sim. Mas neste caso a verdade não me interessa. A verdade que me interessa é que os teus filhos não me gramam e tu não gramas os meus. Embora discordando dalguns resultados da educação que deste aos vossos, a verdade que me interessa e repito é que acho muito bem que tenhas sido e continues a ser amiga deles, que os tenhas acompanhado e ajudado e que continues a fazê lo, que tenhas convivido, convivas e continues a conviver com eles. A verdade que me interessa é que não me reconheces esses mesmos direitos e deveres relativamente aos meus filhos.


A verdade que me interessa é que as nossas casas são à beira Sado. A verdade que me interessa é que os teus filhos vivem na tua casa donde saíste e os meus vivem na minha casa, donde não saí. E a verdade que me interessa é que eu não entro nem tenho cabimento na tua casa enquanto tu entras e tens tido cabimento na minha casa. A verdade é que os teus filhos mimados não são pêra doce para ti, mas não é por isso que os pões fora de tua casa, o que, repito, acho muito bem, assim como acho muito mal que queiras que eu corra com os meus da minha, para estares à vontade comigo, como já mo disseste várias vezes! O que é verdade é que comes à mesa com os meus filhos mas eu não como à mesa com os teus, que te convidam como se eu não existisse.


Não é nada disto que eu quero, repito-te novamente. Jogas um jogo comigo que não é o jogo da verdade. Não estás habilitada para a profisssão que dizes ter.


Pensei um futuro contigo mas o que pensei não tinha consistência. Tu não me dizes a verdade, os teus filhos, que nunca hostilizei, não me gramam, tu não gramas os meus filhos, que praticamente desde o início tens hostilizado sem qualquer fundamento ou razoabilidade. A minha vida é em Setúbal, onde moro e trabalho. Não é onde vives agora Ausente de Setúbal durante a semana, não é fora da minha casa que quero passar sistematicamente os meus fins de semana, pois aqui tenho assuntos a tratar, para além das minhas coisas que gosto de desfrutar.


Se não fosse outro, o curso que estás a tirar aí, tirarias aqui em Setúbal ou no Barreiro. Em qualquer destas terras tens casa tua, que compraste, e só a tua terceira não é a minha porque não gramas os meus filhos nem os aceitas, nem é razoável que, vivendo tu comigo não os aceitando, tu saias para conviver com os teus filhos porque estes não me gramam. Não ao emprego em Setúbal


Estás por aí. Eu estou para Setúbal. Temos cada um de nós à volta de 50 anos de idade. Eu não vou aí sistematicamente porque a minha vida e a minha casa são em Setúbal e porque tenho dois filhos a quem tenho de dar assistência, quer tu queiras e aceites ou não. Atitude louvável que tomaste relativamente aos teus, que assististe até uma idade mais avançada, tão avançada que até saíste da tua casa sem que eles, beneficiários, o aceitem e compreendam. Dever de assistência que não aceitas nem compreendes tu que eu tenha relativamente aos meus filhos. No teu entender, os teus filhos, 'tadinhos, não podem ir buscar-te ou levar-te à povoação onde vives preesentemente ou a qualquer sítio, hoje como ontem. Mas, no teu entender, eu posso e devo!


Não vens a Setúbal porque é longe, porque é caro, porque não gramas os meus filhos. Doentes ou não, o futuro é passarmos os dias, férias e fins de semana cada um para seu lado. Eu telefono-te, por vezes mais duma vez. Tu não me telefonas ou porque é caro ou porque estás em casa dos teus tios e não estás à vontade. Tu podes telefonar-me a qualquer hora, desde que eu não tenha o telefone desligado. Eu não posso telefonar-te: ou porque te deitas cedo, ou porque está a chover, ou porque acordei os teus tios, ou porque estou a incomodá-los.


Se te telefono, procuro não aborrecer-te. Fazes tu sempre o mesmo? Não! Por exemplo, digo te que o micro-ondas está avariado e tu metes logo veneno contra os meus filhos, como meteste com os teus postais que eles teriam rasgado mas afinal ainda estavam em Terras da Rainha! Falei na história do micro-ondas a várias pessoas, algumas das quais têm filhos, que conhecem os meus tão bem ou melhor do que tu, e o que todas as pessoas disseram foi: Vê lá, que maçada, habituamo-nos à sua comodidade e depois faz falta!


Passo o fim de semana em Setúbal, metido em casa porque estou doente. Mas se não estivesse doente, se não estivesse contigo, então só teria ordem tua para sair com a minha mãe e os meus tios, para almoçar ou jantar com eles ou para telefonar-lhes!


Telefono-te porque estou sozinho, telefono-te porque talvez estejas sozinha, telefono-te porque me apetece falar contigo, embora as chamadas possam ser dispendiosas. E tu, esquecida dos amorzinhos e dos beijinhos e doutros ... inhos, manifestas surpresa e comentas que não me telefonaste nem tens que fazê-lo porque ... já tínhamos falado e porque acordara a tua tia e porque torna e porque deixa! Tens razão, queridinha, parvo sou eu.


Se estava a chover, a tua tia só tinha que dizê-lo. Se estavas a dormir, só tinha que dizer-me e tu continuares a dormir, porque não mando quem quer que seja telefonar-me. Mas se me telefonas, não tenho que ouvir-te dizer-me que estou a brincar contigo ... porque o meu telefone estava, uma vez mais, ocupado, talvez em prelúdio de mais uma descabida cena de ciúmes. Como se a linha tivesse que estar desimpedida para ti, à espera dum eventual telefonema teu, como se ninguém cá em casa pudesse entretanto fazer ou receber chamadas. Olha, minha linda, se marquei hora contigo, procuro que o telefone esteja desimpedido. Se não, o telefone está livre, nem que seja para eu falar com outrem, já que estás longe ou indisponível, pelo adiantado da hora, porque chove ou porque estás a dormir. Para falar com quem é meu amigo, não me chateie e me faça esquecer a minha solidão.

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (12)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507
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* Victor Nogueira
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Não sei se lá fora chove ou não. Mas está vento, porque as janelas e persianas batem cadenciadamente. Olho pela janela, gesto maquinal, e para lá das plantas e da varanda está o negrume da noite, pontuado lá ao longe por luzes brilhantes e dispersas. Também sei que está nortada porque a casa está cheia de correntes de ar, incómodas e cortantes.


Estou cansado e pesa-me o silêncio, mas não tenho música a tocar. O domingo foi triste, frio e cinzento; passei o dia fechado em casa e não comprei jornais. Continuei a escrever o meu infindável livro de viagens. Há sempre um acréscimo a fazer.


Acabei de ler um livro de Fernando Dacosta, chamado Máscaras de Salazar, feito essencialmente de colagens de pequenos testemunhos do personagem e de quem com ele conviveu, convenientemente interligados. É um livro que se lê duma penada, com agrado, mas que me não trouxe novidades. Tinha me sido recomendado pelo sr. Graça, livreiro da Antecipação. Li, confirmando no catálogo aí comprado nas Caldas, que foi o escultor António Duarte quem fez os moldes da máscara funerária e da mão direita de Salazar após o seu falecimento, sem que depois aparecessem interessados, segundo Dacosta, o que é desmentido no referido catálogo, pois embora o molde em gesso pertença ao escultor, existem bronzes numa colecção particular. Ora, independentemente do que Salazar tenha sido, é inquestionável que foi um personagem determinante e marcante na história portuguesa e condicionante do desenvolvimento dos portugueses e dos povos das colónias. Inválido, muitos se afastaram, morto, muitos o esqueceram ou desprezaram, o espólio disperso quando não vendido ao desbarato, a casa da aldeia em ruínas, a estátua estralhaçada por uma bomba em Santa Comba Dão, onde quem afinal vence eleições parece ser o Partido Socialista.


Mas, deixando as leituras e reflexões, que fiz mais? Andámos os três em arrumações: aspirar a casa, limpar o pó, descongelar o frigorífico e a arca, matar as baratas que parece terem vindo para ficar, limpar azulejos e casas de banho. Nos intervalos ouviu se música, umas vezes escolhida por mim, outras pelo Pelágio com a Cabeça na Lua. Era para ver um filme português, Oxalá, de António Pedro Vasconcelos, mas como entretanto me apercebi que na TV estava a dar uma fita do James Bond interpretada pelo já envelhecido Roger Moore, acabei por escolhê lo. A história era uma cowboyada, essencialmente passada num comboio, mas como envolvia uma companhia de circo com números circenses e algum humor, acabei por vê lo até ao fim.


Ainda não vi a 5ª e 6ª séries d'O Polvo. Qualquer dia tem de ser, pois não vale a pena esperar por ti, senão esqueço os episódios anteriores. Entretanto, nestes dias de recolhimento forçado, vi um documentário de Mariana Otero sobre a SIC e o debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares. A SIC reagiu mal àquele documentário, que comprou e passou de madrugada. A mim não me trouxe novidades, mas passado em horário nobre poderia eventualmente levar ingénuos tele-espectadores, que são a maioria, a mudarem de canal e lá se iam as audiências, a publicidade e os lucros do sr. Balsemão e Pandilha. Quanto ao debate, embora ambos os intervenientes dissessem coisas com interesse, este foi um pouco monótono, pois qualquer deles se limitou a ler as folhas, com maior ou menor ênfase, com pior desempenho e embaraço do Cunhal no que se refere à leitura. Foi mais vivo quando passaram ao taco-a-taco. Entre a assistência estavam jovens, muitos, e menos jovens, bastantes, aqueles com ar interessado, artilhados de bloco e caneta para as notas que raramente tomavam, estes muito sérios, alguns mesmo com cara patibular. Durante a intervenção do Soares um assistente da 1ª fila dormia esparramado na cadeira, a cabeça apoiada na mão. Mas fora este, a câmara não focou pessoas a bocejarem ou com ar de muito enfado.


Na assistência distinguiam se algumas celebridades: Durão Barroso, Francisco Louçã, Pezarat Correia, Pedro Canavarro, Jorge Coelho, Medeiros Ferreira, Fernando Rosas ... Alguns dos assistentes sobretudo os menos jovens, mostraram-se pouco à vontade quando focados pela câmara, outros não esconderam o seu inchaço, talvez babosos para o vídeo lá em casa gravando para a família e para a posteridade. Contudo, a 2ª parte do programa televisivo foi perfeitamente surrealista: nela participaram três jornalistas: Maria João Avilez, Bettencourt Rodrigues e Vicente Jorge Silva. Aquilo foi um fartar vilanagem a desancar no Álvaro Cunhal, a propósito e, sobretudo, a despropósito, com especial relevo para os dois últimos e alguma moderação da Joãozino Avilez. Uma autêntica masturbação, daquelas que se admitem lá em casa ou à mesa do café, em roda de família e amigos, mas não para massacrar os telespectadores.


E, neste ponto da leitura, imagino te a murmurar: mas que raio de carta, ainda não me chamou amorzinho uma vez que fosse ou me disse que tinha saudadinhas minhas ou me mandou beijinhos. Pois é ! ...


Levanto me, fecho a janela da sala e as correntes de ar diminuem, embora continue a entediante batida de portas e janelas. Continuo cansado, dói me a garganta, que parece estar por dentro aos folhos, e tenho o nariz semi entupido. Levanto me novamente e vou pôr a água a aquecer para tomar o antibiótico. Não no micro ondas mas sim no fogão a gás, porque o micro ondas começou a fazer um ruído estranho e resolvi pô lo fora de serviço. Não imaginas a falta que faz. É como se de repente deixássemos de ter electricidade e passássemos a ser alumiados com luz de vela ou candeia. Uma seca! A propósito, embora elegantes, as chávenas brancas que comprei contigo para substituir as que se foram partindo têm pouca estabilidade e são fáceis de entornar quando postas aqui em cima da mesa onde trabalho, no meio de livros e papéis; é preciso mais cuidado. Por vexes não se pode ter tudo: ou estabilidade, ou elegância!


Recebi três postais teus, havendo um quarto em Paço de Arcos, devendo amanhã chegar outro lá abaixo à caixa do correio. Como nos telefonamos, mais propriamente sou eu que o faço, por escrito poucas novidades temos a dar. Ainda bem que os postais apareceram todos. E ainda bem que, datados por ti de 4 e 5 de Novembro, ostentam ambos os envelopes carimbos do dia 13 (treze) do mesmo mês, embora recebidos por mim em dias seguidos. Azar teu, que eu tinha razão ao dizer que devia ser problema dos correios, azar teu, porque não foram os meus filhos que lhes haviam dado sumiço, como era a tua verdade.

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Azar meu porque, embalado nesta conversa, bebi o café sem tomar o antibiótico, o que se remedeia com o resto da água quente que ficou na cafeteirinha e que previdentemente não havia despejado no lava louças! Resolvido este incidente, prossigamos.

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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terça-feira, 19 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (11)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507
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* Victor Nogueira
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Quando tu precisas de mim, sabes sempre onde estou ou como procurar me. Não te minto nem ando fugido. Mas se precisar de ti, nem que seja só para falar com uma voz amiga, nem sempre sei onde estás, como resultado das tuas fugas e mentiras.
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Não era assim que esta carta estava escrita no meu pensamento. Aliás, no meu pensamento esta carta já teve várias formas. Mais fluidas. Variando conforme o estado de alma e o correr do tempo. Mas quando chegou a altura de fixar a fluidez do pensar, o que fica é esta pálida, imperfeita e distorcida imagem, feita de signos que se alinham em carreirinha uns a seguir aos outros.
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Esperei que aparecesses no Brasil-América á hora de almoço. Estupidez minha! Porque haverias de aparecer hoje no Brasil-América? Afinal telefonaste me, faz uma semana, prometendo que ligarias no dia seguinte. Esperei por ti, pelo teu prometido telefonema na 6ª, no sábado e no domingo. Primeiro com preocupação pelo teu silêncio (estará doente? ter lhe á acontecido alguma coisa?). Depois com desencanto e alguma ira por estares de novo a fazer de mim palhaço ou gato sapato. No domingo á noite telefonei á tua irmã Ester, que não sabia de ti desde 6ª feira anterior. Se saberia ou não, isso é lá convosco.
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E quanto a fugas, é no mínimo a terceira vez. E há muitos ditos populares em torno deste número. Por exemplo: Não há uma sem duas, nem duas sem três. Ou ainda: Á terceira é de vez. Para não dizer que Na primeira, todos caiem, na segunda cai quem quer e na terceira ... Olha, não me lembro como termina esta expressão! Faço um telefonema cultural e ... cá está! Na primeira, todos caiem, na segunda cai quem quer e na terceira só quem fôr parvo ou louco. Pois é, agora percebo. Há uma outra expressão que diz De médico e louco todos temos um pouco! Como não sou médico nem louco como é que me desenvencilho disto, Capuccinno Vermelho??!
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Mas isto também não é muito importante. Quiseste entrar na minha vida de rompante, como quem ocupa uma cidade para se impôr aos seus habitantes. Quizeste entrar na minha vida e na minha alma como se eu não existisse: tentaste impôr me amizades, vivências, comportamentos, atitudes. É como a história da tua fotografia na minha mesa de cabeceira, ali, como quem marca o terreno e a propriedade. Não preciso da fotografia para me recordar de ti ou para me comover ou enternecer ao pensar em ti. Não é preciso que os outros saibam que eu me lembro de ti. E não me recordo de ti por causa da fotografia. Lembro-me de ti quando arrumo o armário da sala e vejo os frascos que me deste. Ou quando abro o porta-moedas e encontro o pequeno canivete. Ou quando reparo no colorido boneco do negro tocando trompete. Ou quando vejo a saboneteira, ao utilizar o lavatório. Recordo-me de ti quando barro o pão com o doce que me deste e que está no fim. Ou quando visto a camisa de flanela aos quadrados. São marcas tuas, a partir das quais, conforme o dia, nascem outras recordações, enquanto para mim tiveres qualquer significado.
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Olho para a saboneteira e lembro me de Gaio-Rosário e da casa cheia de sol e do corredor com "azulejos". Vou ao Barreiro e no jardim lembro me que estivemos lá: "Estive aqui com o Capucinno Vermelho!" E lembro me do Seixal e dos cafés barulhentos e da primeira vez que foste a minha casa. Ou recordo a vez em que fomos ao Carregado ou a Santarém.. Recordo me das vezes em que me apeteceu ficar contigo até de manhã, mas em que não fiquei porque não queria que as pessoas falassem de ti .
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São tanto marcas tuas que um dia, após aquele em que saíste de minha casa na sequência de mais um dos teus disparates, fiz um molho com as tuas "ofertas" todas: camisas, toalhas, suspensórios, barrete do Pato Donald, fronhas das almofadas, camisolas de lã, "bonecos", para ir descarregar tudo na tua casa. Porque não queria coisas que me fizessem lembrar de ti. Salvo erro foi pela altura em que te pus a tua fotografia no teu saco. Porque o que é importante és tu e não a tua fotografia ou as tuas "marcas", que sem ti nada valem. Quando deixares de ser importante para mim, então não passarão senão de adornos ou de objectos utilitários no meio de outros adornos e objectos utilitários.
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Mas voltemos atrás. Tivesses tu outro feitio, fosses menos disparatada, impulsiva e temperamental ! ... Já te disse e já te escrevi: gosto de ti e sinto a falta de ti, da ajuda que me dás, da companhia que me fazes, do teu corpo junto ao meu, da tua cabeça no meu braço, do teu braço no meu peito, da minha mão cariciando os teus cabelos e não só. Mas não sou impulsivo como tu e não gosto dos teus ciúmes descabidos, dos teus disparates, dos teus destemperos, numa palavra, de tudo aquilo que referi muitas vezes de viva voz e na carta que te escrevi.
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Como te disse, procuro paz, alegria, serenidade e bem estar comigo e com os outros.
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Quiseste entrar na minha vida de rompante, como quem ocupa uma cidade para se impôr aos seus habitantes. O que foi contraproducente. Terás tentado entrar ávida e possessivamente na minha vida, talvez como que bebe com sofreguidão a água da fonte, sequiosa por carinho e atenção após a travessia do deserto. Como se só tu existisses! Tu e os teus filhos e eu por acréscimo! A vida tem um ritmo e tu não avanças com a delicadeza duma flor mas sim com o rompante dum bulldozer ou dum furacão, que arrasam tudo por onde passam.
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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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sábado, 16 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (10)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507
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Olá, Capuchinho Vermelho


O tempo está frio e cinzento, como aliás sucede desde a nossa chegada. No entanto, ao contrário dos dias anteriores, o sol ainda não deu um arzinho da sua graça. Daqui da janela da sala avisto as couves enormes que crescem no quintal e, mais além, os campos verdejantes e, ao fundo, uma mata [um renque] de árvores cujo nome desconheço.


O Pelágio com a Anda Cabeça no Ar e a Natasha vêm televisão na sala da frente enquanto a minha mãe dorme no quarto dela. Ainda não fui á praia (o tempo não ajuda, embora esteja cheia de gente) nem dei nenhum dos meus passeios. É difícil fazer andar uma "carruagem" com tantas locomotivas, cada um com seu gosto e hora de levantar. Gostaria que tivesses vindo, para passearmos por estas bandas.


Não gosto muito de escrever á mão, porque tenho de fazê-lo lentamente para ver se percebem a minha letra hieroglífica, o que nem sempre sucede. E tu, tens conseguido decifrar o que tenho escrito?


A tua carta levou quase uma semana a chegar! Recebi-a no dia em que chegámos, após uma viagem não muito tormentosa.


O que nela expressas poderia em grande parte ser dito por mim, embora possivelmente eu o fizesse doutro modo.


Bem, faz me falta o computador; mas não quis deixar de dar-te um arzinho da minha graça, para que não penses que me esqueci de ti.


Beijo te com amizade e ternura.


Algures à Beira Rio Ave, 94.08.21

VM

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (9)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507
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* Victor Nogueira
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Se isto é, pela tua parte, a expressão de compreensão, amizade, amor e desejo de paz, então, Capuchinho Vermelho, eu vou ali e já não volto.

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Como escrevi atrás, como amigo e apenas nesta qualidade posso tentar perceber e "desculpar" os teus ciúmes descabidos, os teus sentimentos possessivos, o teu mau relacionamento com os meus filhos, a tua "submissão" de mãe galinha para com os teus. Mas nem aos amigos e muito menos á minha companheira desculpo o cinismo, a mentira, a falsidade, o engano premeditado. Porque nada de sólido e perene se fundamenta no lodo destas atitudes.

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Ao contrário do que combinaras, não me telefonaste no dia seguinte, após o teu pretenso "regresso" de Leiria. Por um lado era natural que me falasses da tua "viagem" e por outro deixaste-me preocupado com o teu silêncio, porque foras viajar e com uma pessoa desconhecida e poderia ter acontecido algum precalço ou acidente. Mas entendi também que resolveras cortar comigo (1) e até admiti que te tivesse deixado numa casa e logo tivesses partido para outra. Um facto é certo: nunca procederia contigo como tu procedeste para comigo, porque apesar de tudo, Capuchinho Vermelho, não és para mim uma pessoa qualquer.

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1 - Como atrás disse, esta carta tem sido escrita ao escorrer do tempo e numa conversa entretanto havida confirmaste a primeira destas minhas suposições.

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As pessoas não devem ser possessivas. Cada um de nós tem as suas qualidades e os seus defeitos, que se ajustam ou não. Não podemos é pensar que cada um de nós preenche todas as expectativas e todos os requisitos. Uma panela de pressão sem válvula de segurança é potencialmente explosiva e destrutiva. Uma coisa é as pessoas compartilharem aquilo que é comum, outra é quererem "policiar" tudo, com exigências exclusivistas. Num casal, o exigível, para mim, é a lealdade, a verdade, a confiança, respeito e solidariedade mútuas, a cooperação. E além disso deve deixar-se a cada um a liberdade das suas recordações, da sua memória, dos seus (outros) afectos e simpatias. Há um tempo e um lugar para tudo e para todos na vida, que para mim tu tens matado ao longo destes anos, com os teus ciúmes descabidos, os teus destemperos, as tuas exigências de exclusivismo e posse, os teus "mistérios". Não "ando" com esta e com aquela! Não ando pois a saltitar entre ti e as outras ou "aproveitando" as ocasiões". Estou contigo e com mais ninguém enquanto estiver contigo e não te disser o contrário. Mas tu não entendes isto. Não concluas daí que eu sou o bom e tu a má da fita. O que sucede é que não nos temos ajustado e cada um de nós não tem correspondido ás expectativas que trazia em si relativamente ao outro

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (8)

Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507
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* Victor Nogueira
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Continuando, desde logo um primeiro facto nos começou a separar: os teus ciúmes descabidos, a tua tentativa de me quereres impor a escolha das minhas amizades, todas elas anteriores ao nosso relacionamento mais íntimo, a tua tentativa de controlares a minha memória, os meus sentimentos e o meu passado, como se fossem um livro que duma penada rasgavas e deitavas ao caixote do lixo, ao sabor da tua insegurança, imaginação, conveniência e humores. (1)

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1 - A minha terra é Angola/Luanda; está longe, já não é a mesma e não sei se alguma vez lá voltarei. Por outro lado, já estive ou andei por muitas terras, já conheci muita gente, já tive e perdi muitos amigos porque o tempo, os lugares, a vida (ou a morte) e a política dificultaram ou cortaram a convivência. Gostaria que a vida fosse um eterno presente, com todos os lugares e todos os amigos ali sempre ao alcance da vista, da mão e da voz. Mas nada disto acontece e tu nada entendes da minha vida e sentir, porque és como és. Há pelo menos três poemas meus que "falam" disto: "Elegia pela minha família dispersa", "Raízes" e "Obrigado".

(...)

Nota que nessa altura, "andando" já comigo, tu, Capuchinho Vermelho, falavas me dos teus amigos, dos seus telefonemas, dos "flirts" que te faziam á mesa do bingo, acompanhada pela Leandra e que não rejeitavas, sem que eu te fizesse reparos, enquanto simultânea e possessivamente querias que eu rasgasse escritos, fotografias e pusesse termo ás minhas amizades e relacionamentos. As cenas e os teus "sofrimentos" por causa duma amiga minha, a quem pretendias partir a cara e cujas fotografias, anteriores ao nosso relacionamento íntimo, furtaste de minha casa abusando da minha confiança, e as tuas afirmações descabidas sobre o pretenso facto dela ser uma prostituta (1), de acordo com as tuas "investigações", só não puseram termo á nossa relação porque entendi que estavas psicologicamente perturbada e porque era teu amigo - e os amigos sempre "desculpam alguma coisinha".

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1 - Como outras duas, em teu entender, não passariam de malucas, que me deveriam desamparar a loja. Aliás tu dizes e desdizes com a maior das naturalidades: hoje fizeste "investigações", amanhã já dizes que não; hoje dizes que não "furtaste" as fotografias e ficas "indignada" e a seguir dizes que o fizeste por brincadeira, ontem dizias que me andaste a seguir de táxi, amanhã afirmarás que não fizeste nada disso! Hoje dizes que apareceram dois "amigos" que te convidaram para jantar e para os "fados", a seguir dirás que não foi bem assim, antes pelo contrário. Ontem, telefonaste para um amigo nas Caldas ou no Diabo a Sete para encontrar te com ele, a seguir é tudo invenção minha. As tuas parecem canhestras histórias do capuchinho e do lobo!

(...)

No contexto em que surgem estas "fábulas", tudo isto seria risível, Capuchinho Vermelho, se não fossem para mim duma imensa "tristeza" quando não enfado! É que, não te fazendo eu cenas destas, por muitíssimo menos tens me tu "chagado" a cabeça e a (boa) disposição. Que tenhas amigos, homens e mulheres, é natural. Que procures cultivar as tuas amizades, nada tem de censurável, do meu ponto de vista. Não tenho e muito menos faço cenas de ciúmes, ao contrário do que possas pensar dos meus comentários ou "brincadeiras"-resposta ás tuas "seriedades" por vezes disparatadas. Qualquer acto de convivência social com as minhas amigas, como um telefonema, uma qualquer ida ao cinema, ao restaurante ou, muito raramente, a casa de qualquer delas era e continua a ser para ti um acto condenável, na tua mente e nas tuas palavras acabando quase sempre na cama (e porque não no banco do carro?) em verdadeira "orgia". (1) Francamente Capuchinho Vermelho, isto é base para uma vida feliz e tranquila? (2) Não estou disposto a vidas duplas nem a descabidas cenas de ciúmes que infernizem a vida de quem quer que seja. (3)

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1 - Já nem telefonemas posso receber no dia dos meus anos!

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2 - Como te disse tenho mais amigas do que amigos, e a maioria deles já vêm de longe. São amizades que nuns casos já têm cerca de 40 anos, noutros apenas sete ou oito. São na esmagadora maioria amizades anteriores ao meu casamento ou posteriores ao meu divórcio, porque as amizades do casamento "foram-se" com o divórcio. Não tenho qualquer problema em apresentar-te ás minhas amigas, se e quando entender oportuno e conveniente. Mas não tenho que fazê-lo face aos teus descabidos ciúmes, "exigências" de rompimento de amizades de décadas, nalguns casos, ou com ameaças de escândalo ou de "pancadaria". Não és tu mas sim eu e mais ninguém quem decide das minhas amizades. Por exemplo, gosto de ajudar e ser prestável para com as pessoas. Sou amigo dos meus amigos! O que tu não aceitas ou mal entendes.

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3 - Disse e repito - há muitas pessoas casadas que convivem umas com as outras, sem que disso dêem cavaco à outra metade ou que esta faça dramas por tal motivo. É uma questão de "educação" e princípios de vida. Agora há homens e mulheres que efectivamente só pensam nas mulheres em termos de "perna aberta" e nos homens em termos de "boi de cobrição". Não é o meu caso nem o da maioria das mulheres com que me tenho relacionado ao nível da amizade. Mas isto não consegues tu aceitar e compreender. Como se durante os longos anos em que fomos apenas amigos ou conhecidos, em que andaste comigo sozinha no carro ou sozinhos estivemos nos teus gabinetes, eu alguma vez tivesse - como é que se diz ? Ah! ... como se alguma vez eu tivesse tentado faltar-te ao respeito! É assim que se diz em certos meios, não é, Capuchinho Vermelho?

(...)

Mas entretanto, como se não bastassem os teus descabelados ciúmes, um segundo facto veio agravar a situação. Quem me conhece sabe que condicionei a minha vida e carreira profissional, os meus fins de semana e as minhas férias e o tempo das férias escolares para poder acompanhar os meus filhos, tal como quotidianamente o fiz na vigência do meu matrimónio com a mãe deles. (1)

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1 - É natural que conheça os meus filhos melhor do que tu e assim como sempre lhes fiz ver que a mãe deles tinha o direito de (re) fazer a sua vida com outro homem (isto foi oportunamente falado entre nós os três), também eles sempre foram compreensivos e estiveram abertos a que (re) fizesse a minha vida com uma mulher que me fizesse feliz e que, obviamente, fosse amiga deles. Eles não levantaram qualquer objecção á nossa relação, até que, a partir de certa altura e claramente, lhes deste a entender que os querias escorraçar da minha vida. Foste tu e não eles que iniciaram uma guerra cujo termo é exclusivamente da tua responsabilidade se estivesses verdadeiramente interessada na persistência da nossa relação. Não são eles que te fazem guerra; és tu que a fazes, especialmente contra a Natasha, que pessoalmente e durante anos nunca te ofendeu, agrediu ou maltratou. Como aliás o Pelágio com a Cabeça na Lua, que apenas reagiu com um aviso face ao facto de estares sempre acintosamente contra a irmã dele.

(...)


Aliás estas letras têm sido escritas ao (es) correr do tempo e, noutra vertente, posso acrescentar que um dias destes voltaste novamente aos teus ciúmes, agora com pretensas viagens de taxi por ti feitas atrás de mim para controlares as minhas "voltas" e "convivências". (1) Simultaneamente, continuaste as tuas canhestras e cansativas tentativas de provocar-me ciúmes, com “misteriosos” telefonemas que te fazem ou fazes, para além de almoços, jantares e “passeatas”.

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1 - E dizes tu que já estás curada" dos teus ciúmes. Por eles seria eu o responsável, em teu entender pela minha falta de "naturalidade", no meu entender tal sucede apenas pela tua falta de confiança em mim e em ti.
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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (7)

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.Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507


* Victor Nogueira
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Aliás este nosso relacionamento na Capital do Antigo Empório não faz para mim qualquer sentido. Como disse, não sei o que és nem qual o teu futuro profissional (1). Estando na mesma terra, não estou interessado em "conviver" contigo apenas depois das vinte horas. Não estou interessado em jantar ou em andar sozinho, convivendo apenas com quem tu queres ou autorizas. (2) Não estou para jantar contigo "fora" apenas quando se proporciona e muito menos por sistema. Gosto de comer em casa e não gosto de andar sempre na rua e aprecio estar na minha casa, no meu canto, sobretudo á noite, lendo, escrevendo, ouvindo música, convivendo ... Não estou para ter "namoros" policiados. (3) Não os tive aos 25 anos, no tempo do fascismo, muito menos os terei em "democracia" aos cinquenta. Vivendo na mesma terra, não estou para que durante a semana esteja cada um para seu lado, no seu "quartinho". (4) Não estou para viver em "quartinhos", alugados ou não, e não tenho dinheiro para ter uma casa de habitação à beira Sado e outra em Portucale ou noutra terra. (5) Não estou para "fins de semana" e "férias" encurtadas, por compromissos "profissionais" em duas urbes distintas, que arranjaste livremente. (6) Não estou para não me sentir bem comigo mesmo. Não estou para deixar de cultivar as minhas amizades. Não estou para deixar de ser quem sou, naquilo que considero positivo. Que temos pois para "dar" um ao outro, «Capuchinho Vermelho»?

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Como está e com as suas características e perspectivas de futuro, esta não é para mim uma relação sustentável. Não vejo que mudanças haverá e quais elas sejam. A continuar assim, para isto, prefiro continuar sozinho. O tempo dirá pois se o nosso futuro é de paz, liberdade, serenidade e confiança mútuas! O tempo dirá do futuro e da qualidade da nossa relação; isso depende também de ti. No entanto, por muito que aprecie certos aspectos da tua companhia e personalidade, por muito que sinta por vezes a tua falta, não mudo em nada daquilo que considero essencial. Nem te exijo a ti que o faças!

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Não te escrevi um poema. Não te escrevi uma carta poética. Escrevi-te simplesmente. E as minhas mãos estão vazias e o caminho á minha frente não existe; existe apenas o instante á frente do meu nariz e para além dele névoa e sombras. Nada mais do que isso, onde nasce o desencanto pela vida e pelas pessoas. (7) Não quero magoar-te, mas sinto-me tão cansado que gostaria que fossemos apenas amigos. Para serenidade de ambos. ( 8)

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Porque sou teu amigo e gosto de ti. Mas não .gosto que me magoem nem, de magoar os outros. Nem gosto dos teus destemperos e do modo como (re) ajes perante determinadas situações. Eu procuro a paz, a compreensão e o que me liga aos outros; tu não conheces senão a guerrilha intermitente.

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1 - Aliás, não percebo que futuro queres. Não sei se alguma vez puseste anúncios para arranjares emprego com a habilitação profissional que dizes ser a tua - não vieram publicados nos dias que disseste, na linha dos teus "azares" - nem sei se alguma vez respondeste a algum nesse sentido. O que sei é que afirmando tu que não queres continuar nessa situação de "dama de companhia", também andas há cerca de quatro meses (!) para pores um anúncio para arranjares emprego de acordo com a especialidade profissional que dizes ser a tua, com o argumento de que - oh ! céus - não tens tempo. Quando o terás ? Dizes me que tiveste para ir trabalhar para a Figueira ou para as Caldas, que estiveste em Lisboa, aqui ou acolá ! Se és o que dizes ser, então (re) faz a tua vida, segue em frente! Se não és, então (re) faz a tua vida e segue também em frente. Mas neste caso não creio que seja nas margens do Rio que corre para Norte, onde me parece terias dificuldade em justificar a tua passagem a "dama de companhia" ou "empregada de balcão". Talvez por isso me dizes que mesmo que vivêssemos juntos, estarias a semana inteira à beira Doiro, não irias e virias todos dias, "por ser cansativo". Não te prendas nem te "justifiques" comigo.

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2 - As pessoas não devem ser possessivas. Cada um de nós tem as suas qualidades e os seus defeitos, que se ajustam ou não. Não podemos é pensar que cada um de nós preenche todas as expectativas e todos os requisitos. Uma panela de pressão sem válvula de segurança é potencialmente explosiva e destrutiva. Uma coisa é as pessoas compartilharem aquilo que é comum, outra é quererem "policiar" tudo, com exigências exclusivistas. Num casal, o exigível, para mim, é a lealdade, a verdade, a confiança, respeito e solidariedade mútuas, a cooperação. E além disso deve deixar-se a cada um a liberdade das suas recordações, da sua memória, dos seus (outros) afectos e simpatias. Há um tempo e um lugar para tudo e para todos na vida, que para mim tu tens matado ao longo destes anos, com os teus ciúmes descabidos, os teus destemperos, as tuas exigências de exclusivismo e posse, os teus "mistérios". Não "ando" com esta e com aquela! Não ando pois a saltitar entre ti e as outras ou "aproveitando" as ocasiões". Estou contigo e com mais ninguém enquanto estiver contigo e não te disser o contrário. Mas tu não entendes isto. Não concluas daí que eu sou o bom e tu a má da fita. O que sucede é que não nos temos ajustado e cada um de nós não tem correspondido ás expectativas que trazia em si relativamente ao outro.

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3 - Aliás já passamos a fase da simples amizade ou do namoro, mas também não somos "companheiros" de vida em comum, mas apenas de fim de semana (24 a 36 horas por semana)

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4 - Não deixa de ser interessante notar que sendo tu tão "exageradamente" demonstrativa do teu afecto e amor por mim - ele são beijos, abraços e "amores" - qualquer que seja o local mais ou menos público e frequentado onde nos encontremos, és demasiado "reservada" quando estamos com José. Porquê esta diferença de comportamentos? Afinal, de facto, é como se vivesses comigo. É evidente para os meus filhos, para os meus pais, para os meus vizinhos. Porquê então este "recato" e estes "quartinhos" separados - um na Má Hora, outro na Tapada , face ao sr. José? Ou tudo isto faz parte dum jogo teu a ver se "amoleço" e me "esqueço" do que há para esclarecer entre nós ou do que nos tem separado?

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5 - "Censuras me" porque não ia ter contigo quando tinhas casa na Margem Sul à beira Douro. Ora a verdade é que durante esse tempo os teus ciúmes e, sobretudo, o teu mau relacionamento com o Pelágio que anda na Lua e a Natasha não o justificavam. Mas mesmo que fosse tudo ouro sobre azul na nossa relação - e não era - tinha e tenho obrigação de assistir e acompanhar as minhas crias, adolescentes (as crias são da mulher mas também do homem). Nunca entendeste isto, embora quisesses que eu entendesse e aceitasse com naturalidade que em contrapartida tinhas obrigação de olhar pelas tuas, bem adultas e de barba rija. Por outro lado "estranhas" porque não ia á tua casa ,como se fosse natural que a frequentasse, apesar da nossa relação íntima, em "amena" convivência e cavaqueira com ... o teu marido, embora há anos o fosse apenas ... no papel! O que ficou falado, incluindo com a Lena, foi que lhe darias a parte dele, ficando tu com a vossa casa. Não foi isto que acabou por suceder, mas por isso não sou responsável. Estando tu a tratar do divórcio, era óbvio que terias de "negociar" a saída do teu ex-companheiro. Nada disto sucedeu.

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Como posso então ser eu responsável pela situação em que te encontras presentemente, "dama de companhia" num "quartinho" na margem direita Doirada, como pretendes? E depois, durante a semana, estando ambos aí, que me propões durante a semana senão estar contigo até de madrugada aí pelas ruas ou dentro do carro, faça sol, frio, chuva ou calor, indo depois cada um para o seu "quartinho", abraçado á almofada e tu olhando para a minha fotografia?!

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6 - Não passaste comigo o Verão de 1996 porque estávamos de candeias ás avessas e tu com os meus filhos, não passaste comigo as "pontes" e feriados do Natal porque estavas comprometida com o sr. José não passaste comigo a "ponte" do Carnaval de 97 pelo mesmo motivo. E será isto durante quanto tempo? Porque não posso estar com outrem quando tu não podes estar comigo?

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Não estou em "cativeiro", aguardando a tua "liberdade" e disponibilidades de tempo! Não posso ajudar uma pessoa amiga, enquanto estás na casa dos teus filhos a arrumá-la. Não posso encontrar-me ou falar com outrem, enquanto estás "ocupada" com o sr. José ou com outros "compromissos". Tive uma "ponte" no Carnaval, mas passei-a estupidamente à beira-Sado, para evitar mais "chatices" contigo. E agora na Páscoa de 97, há mais uma "ponte" estragada. Tu não tens feriados, nem tardes, nem fins de semana completos nessa tua "profissão". E aos fins de semana estás ocupada com outras tarefas «inexistentes» e (pre-) ocupada com teus "miúdos". Programei as coisas para estarmos juntos esta Páscoa. Programei as coisas , mas tu só percebes da tua "guerrilha" e só vês a tua infelicidade e agravos. Queres um cãozinho e um capacho, mas isso é o que não sou para quem quer que seja. Porque se estivesse disposto a sê lo, então seria tudo ouro sobre azul e tu estarias, parece me, nas tuas sete quintas.

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7 -. Disto fala um outro poema meu: "Notícias do Bloqueio II" (Mu(n)do Phonographo: inFELICIDADE)

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8 - Os teus ciúmes, o teu mau relacionamento latente com os meus filhos, a tua vinda para a margem direita Doirada nos termos em que se verificou, o sempre adiado esclarecimento sobre a tua verdadeira habilitação e futuro profissionais, tudo isto são obstáculos / indicativos para que o nosso relacionamento não deva subsistir senão ao nível da amizade, para felicidade de ambos. A atitude dos teus filhos para contigo e para com a nossa relação, aliados aos "inacreditáveis" destemperos do teu Menino d'Oiro, descambando em descabidos insultos e ameaças para comigo, de modo algum abonam a favor do futuro da nossa relação noutra base que não seja a da amizade. Não fui eu que criei estas situações. Para solidão e separações na família já chegam a que trago comigo e existem na minha família. Como diz o Sérgio Godinho, numa das suas canções, "P'ra melhor, está bem, está bem, p'ra pior, já basta assim"

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Entre Adão e Eva (6)

.Quadro - Dürer, Albrecht Adam and Eve. 1507
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* Victor Nogueira
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Todas as profissões, em si e por princípio, são igualmente respeitáveis. (1) Mas e de qualquer modo não há qualquer futuro numa relação com uma pessoa em quem não confie e em quem não acredite, não há para mim qualquer futuro numa relação que se baseie na deslealdade, na falsidade e na dúvida. ( 2).


Como atrás disse e repito, quando iniciámos a nossa relação com o grau de intimidade que assumiu, isto aconteceu, pela parte que me cabe, com base em dois pressupostos, que te ias divorciar - e numa convicção - a profissão que afirmavas ser a tua.


Sou teu amigo, embora a amizade tenha limites, gosto de ti e sinto muitas vezes a tua ausência. Mas não há futuro de vida em comum com uma pessoa que não seja compreensiva e amiga dos meus filhos, que me não ajude no bom relacionamento com eles e com todo o mundo, que me infernize a vida com desconfiança e ciúmes descabidos.


Não era nada disto que eu pretendia. Assim, por tudo o que tem sido exposto, nunca poderia propor te, não tenho podido propor te que fizéssemos ou façamos vida em comum. Procuro paz, serenidade, entre-ajuda, e não um clima de constante ou intermitente guerrilha, desconfiança, dúvida, suspeição. E depois já não estou em idade de (re)começar a vida com uma pessoa cujo futuro profissional não sei qual seja.


Há um tempo para que as pessoas se encontrem e para que as coisas aconteçam. Passado esse tempo pode ou não voltar a surgir a ocasião. Foi por isso que te disse que daqui a dois ou três anos poderia haver condições para que as coisas se (re)justassem entre nós (3). Mas tu, uma vez mais, mal entendeste o que eu disse. Aliás, essa tua característica sobre a peremptória e absoluta justeza intrínseca das tuas razões, interpretações e verdades e da falsidade das minhas é algo que (também) nos (tem) separa(do).


Falei atrás do que procuro na vida. E concebo as relações entre as pessoas baseadas na lealdade, na igualdade, na sinceridade, na responsabilidade, na cooperação e colaboração, na solidariedade, no caso, entre todos os membros do agregado familiar, embora em função das suas capacidades e situação. Não considero, por exemplo, que haja trabalhos e obrigações exclusivas das mulheres e trabalhos e obrigações exclusivas do homens. Não há que exigir ás mulheres sobrecargas e "espíritos" de sacrifício, que não se exijam aos homens. No caso concreto, nem tu nem a Natasha tem especiais "obrigações" relativamente ao Roderigo Que Vive na Lua ou a mim (ou aos teus filhos homens). (4) E parece me que não consegues entender ou agir em conformidade com estes princípios.


Como atrás referi, poderá parecer extemporânea esta longa "conversa", que no essencial já tivemos de viva voz por várias vezes ao longo destes anos. Mas quando eu penso que tudo está ultrapassado, surgem da tua parte os ciúmes, as exigências, os remoques, as "fúrias" (5). E lá volta tudo ao princípio, porque és incompreensiva, ciumenta, injusta nas tuas apreciações, possessiva quanto á minha pessoa.(6) Eu sou, nas tuas palavras, o "maldoso", que te mente, que te "engana" com as amigas, que te "troca" pelos filhos ou por elas, que te achincalha, magoa e ofende a tua sensibilidade. (7) E assim acabo por ter para contigo "conversas" e atitudes que me desagradam mas que são a consequência do modo como te relacionas comigo e que não aceito. (8) Porque ou há igualdade, compreensão e respeito mútuos ou então não vale a pena chover no molhado. Como disse, não gosto de aborrecer os outros nem gosto que me aborreçam. Por exemplo, não te telefono para recriminar te (9) O que nem sempre tens procurado fazer para comigo. Não gosto de ver os outros tristes, magoados, aborrecidos, sejam eles quem forem.


E digo: “é bom ter quem nos afague e diga bom dia com alegria e fantasia". Mas não estou seguro que possa compartilhar e construir contigo a minha vida. (10) Com tantas mágoas e "barreiras" de lado a lado, creio que nenhum de nós seria feliz com o outro. Outra poderia ter sido por exemplo a nossa situação actual se desde o início não tivesses querido "controlar" a minha vida, amizades e sentimentos e se te tivesses relacionado com os meus filhos com a "bondade" que para com eles tens tido ultimamente. (11) Outro poderia sido o nosso relacionamento se não fossem os "mistérios" da tua vinda para Lisboa e da tua vida profissional. (12)


1 - Aliás, como queres que se mantenha a relação com uma pessoa que afirma possuir uma determinada habilitação profissional e ou não a tem - e mente - ou levianamente se despede, para aceitar um trabalho mal remunerado ou em subemprego?. Porque se não és, não sei como manterás o engano para todo o sempre.

2 - Até podias ser mulher a dias ou varredora de ruas, que não seria impedimento para relacionar me contigo se te achasse interessante e entendesse que era uma relação com futuro atendendo ás tuas qualidades pessoais e de carácter. Nem todas as mulheres por quem estive interessado eram "licenciadas" ou engenheiras ou advogadas ou médicas ou arquitectas ou professoras. Portanto não é o canudo e muito menos o dinheiro que me fazem "correr". Agora as que não tinham canudo não se fizeram passar por aquilo que não eram.

3 - Não tens pois qualquer razão quando afirmas que esta minha afirmação é porque nessa altura a atasha (já) terá saído de minha casa - porque, no teu errado entender, ela se oporia á nossa relação.. Nem ela nem o Roderigo Que Vive na Lua se opôem á nossa relação. Tu é que te opões á minha relação mútua com eles, por razões que não posso nem está ao meu alcance resolver.

4 - E quanto a "obrigações", as pessoas devem ser educadas apontando lhes os defeitos mas também elogiando o que está bem feito e solicitando a sua ajuda. Não é o que fazes com a Natasha. E no mesmo erro também tenho eu incorrido.

5 - Aliás tu reconheces que destemperas e dizes coisas - por vezes autênticos disparates (de que te arrependerás ou negarás convictamente), em atitudes, despropósitos e falta de chá assombrosos! Como se estivesses com autênticas "bebedeiras secas".

6 - Não é verdade que eu queira que estejas sempre comigo, a toda a hora, não compreendendo as tuas "obrigações profissionais". Não é verdade que queira proibir o teu convívio com os teus filhos. O que é verdade é o que digo ao longo desta "conversa" acerca da tua convivência comigo: "liberdade" para ti, para os teus compromissos, enquanto para mim a "liberdade é condicionada" e "policiada" devido aos teus ditames, insegurança e receios. Não te peço e muito menos exijo que prescindas do que quer que seja, sobretudo do que entenderes essencial. Agora apresentar como exemplos de "deixar de ser" o largar o tabaco (como fazia a Natasha comentava em conversa contigo) ou comparar filhos dos outros a cão teu é que não é aceitável.

7 - Como se eu não tivesse sensibilidade e nunca tivesse sido "magoado" por ti e pelas tuas atitudes e destemperos!

8 - Não gosto de aborrecer ou magoar deliberadamente os outros, mas também não gosto que os outros me aborreçam ou magoem. Não tenho que "censurar te" a tua falta de razoabilidade, os teus ciúmes, o teu afecto possessivo por mim e pelos teus filhos, não tenho de “minimizar” a tua profissão, os teus gostos, interesses e leituras. Trata se dum problema teu e, como não quero mudar te, nem aos outros, só me resta afastar me, na medida do possível e sem descurar as minhas responsabilidades. Assim como não quero mudar os outros, também não aceito que me mudem naquilo que considero essencial. Assim como não quero infernizar a vida dos outros, também não quero que infernizem a minha.

9 -E ultimamente aborrece me que te aborreçam alguns dos meus telefonemas e conversas, pois não adianta nem vale a pena chover em seco.

10 - Incomoda me profundamente que não tenhas a chave da minha casa, mas a verdade é que não tenho confiança na paz e felicidade resultantes da nossa convivência e co-habitação, para qualquer de nós. Por outro lado, falo-te da minha vida mas, devido ás tuas atitudes, reacções e descabidos ciúmes, procuro evitar falar-te dos meus filhos e dos meus problemas com eles ou das minhas amizades (femininas). Que temos nós de especial para compartilhar, «Capuchinho Vermelho»? Que alegria e felicidade temos para dar um ao outro?

11 - Procuro quem fomente a minha abertura aos outros e não quem me leve a encerrar-me em mim mesmo. E desde que te conheço tenho-me fechado cada vez mais, tenho-me afastado da convivência e do cultivo das amizades. Por outro lado procuro quem que me leve a atenuar a minha "dureza" para com os meus filhos e para com aqueles que me estão próximos, favorecendo a minha "ternura" e amizade para com todos eles. Procuro, enfim, quem me ajude a gostar da vida e dos outros. Afinal continuo e ando na mesma sozinho, com a diferença de não ser em "liberdade solitária" mas sim "condicionada" Não estás disponível para almoçares ou jantares comigo ou para sairmos ou irmos ao cinema senão nos "limites" que aceitaste. E depois aborreces-me com exigências descabidas; tomemos por exemplo as tuas "infelicidades" com as minhas companhias: queres saber onde vou, com quem vou, aonde vou. Para quê esta conversa?

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O resultado é sempre o mesmo: se te digo, há cena, se não te digo, cena há, estilo preso por ter cão, preso por não ter! " Liberdade" sim, mas apenas contigo, com os meus pais e tios ou então ... sozinhito. Não podes vir ter comigo, estás longe, é muita despesa e mais e aquilo e os teus "compromissos" e horários. E ficas ofendida, melindrada na tua sensibilidade, se com bonomia te digo que relativamente ás minhas amigas (e amigos) normalmente marcamos a hora e o local do encontro, sem "preocupações" e atrasos meus para ir buscá-los, ao emprego ou a casa. Quanto muito, dou-lhes boleia para casa, se quiserem e não tiverem carro ou transporte.

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Não sou menos independente do que tu, só que infelizmente não andas de elevador, não conduzes, não andas de metropolitano. Não há dramas com as minhas amizades, se podermos ou der para sair ou nos encontrarmos, muito bem, caso contrário, amigos como dantes. Porque complicas e confundes tudo? Porque vês "maldade" minha em tudo?

12 - Não te armes pois em vítima, santa de santuário, mártir das minhas mãos e "frieza" de coração. As tuas atitudes sucessivamente e ao longo do tempo para comigo e para com os meus filhos são também uma das causas da minha "frieza" e coração de gelo. Não me considero responsável pela situação em que estás nem tomo sobre os meus ombros a vida que deixaste aparentemente por minha causa; qualquer dia ainda te ouvirei dizer que a vida que deixaste é que era VIDA!

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ADENDA

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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.

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Victor Nogueira

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