Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Monte da Arouca (Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís) - os alunos da Celeste (2019))

 * Victor Nogueira

19 de junho de 2019


foto  victor nogueira - 1978.04 - Monte da Arouca (Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís) - os alunos da Celeste.

Este monte/herdade, onde a Celeste deu aulas de 1973 a 1978, uma aldeia nas terras que haviam sido do agrário, ficava na margem direita do Rio Sado, defronte da aldeia de Vale de Guiso, a poucos km de Alcácer do Sal. 

Os alunos da Celeste nunca haviam ido à Vila e ficaram admirados com o "monstro" que nunca haviam visto, um comboio , numa visita de estudo a Alcácer do Sal. 

Um dos trabalhadores mostrava-se eternamente reconhecido ao agrário porque, tendo partido uma perna ao trabalhar, fora pelo latifundiário levado ao hospital no seu jipe, pois considerava que a tal este não era obrigado.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Memórias do Monte da Arouca (2014)

 * Victor Nogueira

20 de maio de 2014


foto victor nogueira - monte da arouca (unidade colectiva de produção soldado luís)

O catrelas, como diz o zé pinto, em frente à casa do feitor  todas iguais, como a da professora e do "mais que tudo" (este nas férias ou aos fins-de-semana) como as dos restantes trabalhadores - telha vã, 3 "quartos" sem portas  interiores e paredes a pouco mais de meia-altura, com uma lareira/cozinha, moscas durante o dia e muitos mosquitos dos arrozais, hordas deles, ao cair da tarde. Lama por todo o lado no tempo das chuvas,nuvens de  pó nos restantes. Uma "santa" vida, água acartada em bilhas desde a fonte junto ao lavadouro público, um pouco mais adiante, iluminação a petróleo, banhos num enorme alguidar de zinco e necessidades satisfeitas ao ar livre. O avio provinha da aldeia defronte, duas travessias de bote, em cais de palafitas. Avio transportado à cabeça ou naa mão, para quem não tinha senão os pés. Eram os "bons" tempos do latifúndio.

Algumas das casas tinham um alpendre com videira, como as da foto, outras canteiros com flores, como a nossa. O resto eram aridez, ervas, estevas, sardinheiras e cactos, para além dos arrozais, de pinheiros mansos e de sobreiros. Na primavera ficava tudo de verde coberto, com pequenas flores campestres, umas brancas, outras amarelas, como as dos tremoceiros, ou vermelhas,das malvas.

O acesso de carro  - o R4 da professora ou o jipe dos agrários - fazia-se por um trilho desde a Barrosinha, paralelo à vala de irrigação, intransitável no inverno, ou através dum labirinto de trilhos não sinalizados a partir da estrada de alcácer do sal a montemor-o-novo.

O agrário, que morava na vila, tinha neste monte uma casa, com mais comodidades, mas fechada. Embora a mulher do agrário e a Celeste fossem ambas professoras e nos encontrássemos por vezes em Alcácer do Sal, só qd começaram as ocupações da Reforma Agrária se lembraram de no-la oferecer, o que nunca haviamos solicitado. A casa viria a ser ocupada por uma família mais numerosa que a nossa, na herdade.

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Meta Centro Al - Muitos, votando ou não, apelam a esses "bons" tempos do latifúndio... alguns, contra os seus próprios interesses e por pura inconsciência... outro... bem os outros defendem os seus interesses de classe, claro!

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Jose Francisco M Candeias  - O cenário está idílico mas há que dar um melhor trato á íingua portuguesa para dar mais ênfase ao espaço

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Victor Barroso Nogueira - Jose Francisco M Candeias O cenário não é idílico, para quem o viveu e nele viveu como eu e dele fala. Quanto à "necessidade de se dar melhor trato à língua portuguesa para dar mais ênfase ao espaço" ... Não percebo 🙂

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Gloria Bfreixo - Como parece a Herdade da Laranjeira......!!

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sábado, 18 de abril de 2026

No Mone da Arouca (2019)

 


* Victor Nogueira

18 de abril de 2019

No monte da arouca (unidade colectiva de produção soldado luís), em Vale de Guiso, Alcácer do Sal, nas margens do Rio Sado, cerca de 1975 - junto à fonte de água potável (que abastecia as casas dos trabalhadores) e do tanque colectivo de lavagem da roupa - a Celeste e Eva bebendo água do cocho. À direita e à esquerda, os cântaros para transportar a água, à ilharga ou à cabeça.  (Foto Victor Nogueira)

terça-feira, 18 de março de 2025

Letras empilhadas, ano após ano, em Março 18, (re)colhidas em 2025

 * Victor Nogueira


18 de março de 2013  · 

O capital financeiro passou a assaltante, sem máscara - já não lhe chegam os juros, as comissões e mil e um malabarismos - agora é o saque sem pudor sobre o dinheiro que lhe está confiado pelos depositantes que o não sejam em off-shore. É um fartar, vilanagem. É a brutalidade sem máscara, impiedosa, dos senhores do dinheiro ... e das nossas vidas! Não há saída dentro do capitalismo, intrinsecamente predador e destrutivo.

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 18 de março de 2013  · 

O capital financeiro passou a assaltante, sem máscara - já não lhe chegam os juros, as comissões e mil e um malabarismos - agora é o saque sem pudor sobre o dinheiro que lhe está confiado pelos depositantes que o não sejam em off-shore. É um fartar, vilanagem. É a brutalidade sem máscara, impiedosa, dos senhores do dinheiro ... e das nossas vidas! Não há saída dentro do capitalismo, intrinsecamente predador e destrutivo.    

Fernando Pires

os ladrões de hoje não usam mascáras nem pistolas... usam gravata e canetas parker com aparo de ouro...

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 Jose Ferreira

É curioso que, enquanto a faca foi metida nos trabalhadores atráves dos impostos, gritavam baixinho. Agora quando foram diretamente ao bolso da burguesia não financeira, desatam a gritar "agarra ladrão!".

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Victor Barroso Nogueira

Olá, Jose Ferreira Creio que tu tal como eu há muito que dizemos "Acabem-se com estes ladrões (de fraque)" e não apenas "Agarrem que é ladrão". LOL

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Jose Ferreira

Olha, um trabalhador com um salário de 700 euros perdeu, no Chipre 7% do que lhe restava do salário na conta. Um trabalhador português na mesmas condições perdeu 14% do seu salário anual.

Um médio empresário em Portugal perdeu dois terços dos seus clientes. Um médio empresário cipriota perdeu 10% do seu fundo de maneio.

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Jose Ferreira

Um especulador em Portugal não perdeu nada. Um especulador cipriota perdeu 10% do seu dinheiro parado.

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Victor Barroso Nogueira

Jose Ferreira As pessoas têm de receber as reformas e muitas o ordenado pela banca e esta, como os valores de muitas reformas são baixos, afinfa-lhes desde há muito com despesas de comissão e de gestão. E nas contas de D/O que não tenham depósitos de ordenados ou pensões, não só deixaram de pagar juros como cobram despesas de gestão.

Os especuladores e as grandes fortunas escapam sempre ao saque que é feito a favor deles.

A mim o que me interessa é por fim a este sistema capitalista, tão mafioso, criminoso e a favor da classe dominante como foram os anteriores modos de produção.

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Graça Maria Teixeira Pinto

Victor: recebo (e não é a 1ª vez...) aviso nas notificações q partilhaste comigo 1 publicação e vou ao meu mural e nada. 🙁

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Victor Barroso Nogueira

Graca Maria Antunes Há mais quem tenha feito reparos idênticos e será que as minhas partilhas não passam no crivo duma eventual censura ? Talvez. Não acredito em bruxas, como escrevia Cervantes, mas que as há, há. São os passes de coelho por lebre escavacada de sócretinos e seguros ! Bjo

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Manuela Vieira da Silva

Com a corrida aos levantamentos, os bancos fecharam até hoje e o OE do Chipre não passou. E depois não venham dizer que as manifestações e este tipo de atitudes não dão resultado. Se os deixassem fazer seria tudo legal e pela Pátria. A Igreja Ortodoxa é proprietária de dois terços do Chipre, além de uma avultada fortuna. Estou chocada. Assim como em Portugal, vamos tentar a ver se pega, e o povo é obrigado a sacrificar tudo, até a saúde e a alimentação para tapar buracos que outros abriram, e esses continuam bem. Alguns já se preparam para o assalto de novo ao poder, sem ética, princípios alguns. É a selva.

11 a



José Barata Moura - É a valsa da Burguesia

18 de março de 2014  · 

E siga a roda - depois de sócrates seguro passes de coelho: a narrativa é a mesma, apenas mudam (alguns) figurantes e os abraços dados por angela.

18 de março de 2014  · 

" A função dos socais democratas na Alemanha" - cartoon de "Arquivo Nacional" nº 93 - 1933.10.20 no artigo "A Alemanha ameaça a Paz no Mundo". Qualquer semelhança com a actualidade é pura coincidência !


18 de março de 2014  · 

foto victor nogueira - vila do conde e rio ave - uma cidade equilibrada com dimensão humana. A foto parece-me uma aguarela.

18 de março de 2017  · 

FOTO victor nogueira - setúbal - obras num edifício da avenda 5 de outubro ou "a força da natureza" rompe quaisquer barreiras à passagem do photographo

 18 de março de 2018

 
Conteúdo partilhado com: Público
Público
Lili - Há pessoas que me fazem falta, os meus tios José João e Maria Luísa, a minha mãe ...
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Tivemos divergências mas a nossa sempre foi uma relação de igualdade, foram meus confidentes desde a adolescência, visitávamo-nos e telefonávamo-nos reciprocamente, pudemos sempre contar desinteressadamente uns com os outros.
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Mais do que a relação de parentesco estavam a amizade, o respeito-mútuo, os gestos de delicadeza, afecto e a entre-ajuda.
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Mas também sinto a falta do meu pai, que no fim da vida conseguiu fazer as pazes com o filho rebelde. Eram para mim o Zé João, a Maria Emília, a Maria Luísa, o Manuel .....
FOTO victor nogueira, no aniversário do Francisco, em Setúbal.
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eugénio de andrade / o lugar da casa
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Uma casa que nem fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.


18 de março de 2020  · 
 
fotos victor nogueira - o junker 52, nas piscinas de Évora,c. 1975


18 de março de 2020  · 

Foto MENS - Nas piscinas de Évora em 1973.11

O avião Junkers 52 nas piscinas era uma peça de museu, já não voava

18 de março de 2021  ·  

100 Mil Anos de Lutas Mil - Graciliano Ramos, Ferreira de Castro, Fernão Mendes Pinto e João Cabral de Melo Neto

18 de março de 2023  · 

Foto victor nogueira  Vila do Conde  - Av. Figueiredo Faria  - "Drácula", grafito de Ciríaco Sir, artista vilacondense, executado   em 2022  11 (Foto em 2022 12 09 IMG_1484)

18 de março de 2024  · 

Foto victor nogueira - Vila do Conde - Av Figueiredo Faria, esquina com a Rua Afonso Costa - mural BD, da autoria de Anke_1 Ekna (2023 file954)

Bom S. João 2023 A vida é um carrossel. Aproveita!

18 de março de 2024  ·

 Fotos Victor Nogueira - Monte da Arouca - Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís, em 1973

Na margem direita do Rio Sado, neste monte, uma pequena aldeia, deu a Celeste aulas durante alguns anos lectivos. No local donde foi tirada a foto da esquerda, situava-se a casa do agrário, os Lince, desocupada antes da Reforma Agrária, pois o proprietário morava na Vila de Alcácer do Sal.

Na foto à direita vêm-se o galpão, junto ao tanque de rega que a miudagem usava como piscina, e, para lá do pinheiro manso, vê-se o edifício da escola primária.

As casas dos trabalhadores eram de telha vã, sem sanitários ou casa de banho: dois minúsculos quartos e uma sala mais ampla, com lareira e chaminé. Não havia energia eléctrica nem água canalizada. Esta era acartada em bilhas, transportadas à cabeça, a partir da fonte, onde se localizava também o lavadouro comunitário, ao ar livre, junto ao canal de rega dos arrozais. A casa do agrário, mais afastada, tinha outras comodidades.

O acesso era por intrincados caminhos desde a Estrada Alcácer / Montemor-o-Novo, por entre o montado, ou num trilho bordejando o canal de rega desde a Herdade da Barrosinha, intransitável na estação das chuvas.

Defronte do Monte, na margem esquerda, lá no alto, situava-se a aldeia de Vale de Giso, onde era feito o avio das mercadorias e víveres.        

sábado, 13 de julho de 2024

Do Livro de Viagens - Autorrodando com "A Setubalense"



Fotos victor nogueira - Azeitão EN 10 - rotunda com antiga camioneta da Setubalense, da empresa João Càndido Belo 'Os Belos' (2024 04  18   IMG_4530 e IMG_4538)

 * Victor Nogueira

Nos idos de 1925 foi por João Cândido Belo fundada a empresa "A Transportadora Setubalense", com sede em Vila Fresca de Azeitão, que fruto de aquisições doutras empresas foi crescendo tornando-se dominante em todo o Alentejo e nas ligações á Península de Setúbal, a Lisboa e ao Ribatejo, com ligações e operando também no Algarve. Um galgo era o símbolo da empresa, por mim utilizada nas viagens de e até Setúbal / Lisboa ou pelo Alentejo nos idos de '60 e '70 do passado milénio.

Em 1975 a empresa foi nacionalizada e integrada na "Rodoviária Nacional". O autocarro da foto é um dos pioneiros (c. 1930).

Os extractos subseqentes são na naioria provenientes da minha correspondência, desde 1968, quando em Évora me matriculei no ISESE.

De Évora para Lisboa pode ir‑se por estrada e por caminho de ferro. De camioneta ou de automotora, o tempo gasto no percurso é sensivelmente o mesmo: umas 3 h 30 m. A camioneta, embora mais enfadonha, é mais barata. A empresa [João Cândido Belo] concede cartões de estudante que permitem obter 50 % de desconto entre a localidade de residência e a de estudo e vice‑versa, no meu caso entre Lisboa e Évora. O comboio em 1ª classe fica à volta de 70 a 80$00 e a camioneta, com desconto, 20 a 30$00. (NSF. 1970.05.17)

Fui ontem aquela cidade‑mumificada (-museu, reza a propaganda turística!). Nem queiras saber como fiquei doente, como estive doente nas horas que estive naquela terra, que me parece um pesadelo, longe que dela estou. (...) Em Évora encontrei montes de malta: eram olás! hellos e bons dias quase pegados. Até encontrei o cobrador da camioneta da Amareleja! (MCG - 1973.09.08)


Passe de estudante

Custou, mas na camioneta, rumo a Lisboa, senti‑me renascer, como se tivesse saído dum opressivo ambiente tumular. Esta Lisboa do miúdo que choraminga. E do velhote, límpidos olhos azuis, humildemente vestido mas não enxovalhado, que é brutalmente arrastado para o passeio por um pai rude, exaltado, mal barbeado, que lhe torceria o nariz, o esmigalharia, lhe daria duas bofetadas,... se ele não estivesse bêbedo. Enquanto aquele retorquia: "Estavam a maltratar os pombinhos", sem muita firmeza, de olhos perdidos sabe Deus onde Ou do miúdo que me aponta uma pistola: "Mãos ao ar", num Chiado repleto de gente azafamada. Que é admoestado por uma mãe derretida. Que se perdeu no rio das gentes que sobem ou descem. Das duas "meninas bem" que, especadas no passeio qual escolhos, lançam olhares furibundos ao pirralho esfarrapado e sujo que lhes aponta uma espingarda de lata. Do café Nicola, donde sou desalojado sem cerimónia, pois um "garoto" e um "croissant" não permitem a ocupação indefinida de uma mesa para escrever, especialmente à hora de almoço. Dos vendedores ambulantes, que jogam ao corre‑corre com os polícias, de tabuleiros cheios de quinquilharia, jogando ao passo‑passa com os automóveis.(NSM - 1968.12.27)

Gosto muito deste postal. E tu?

Está trovejando e o céu acinzentou-se subitamente neste princípio do anoitecer.

(...) Queria dizer-te da minha amizade por ti, mas não encontro outras palavras senão estas. Esperava hoje um aceno teu e nada veio.

Virás este fim de semana? Tencionava ir esperar-te à Setubalense. Mas se eu não estiver, telefona-me, OK?

(...) Faltou a luz. Acabei de escrever ao lusco-fusco. (MCG 1973 07 12)


Lisboa 1973 09 - Depois das férias, o regresso ao Alentejo

Às 14:30 apanharei [em Évora] boleia do Pintassilgo (e da miúda) rumo a Setúbal, onde apanharei a camioneta para Cacilhas, aqui o ferry-boat para o Cais do Sodré e lá o comboio para Paço de Arcos. Em lá chegando à estação, olhos para as malfadadas escadas [escadaria], atravesso a linha, subo‑as e ala pela Rua Conde de Alcáçovas abaixo, por entre as árvores que a ladeiam até ao fundo, onde viro à esquerda dando de caras com o nº 1 da Rua de Macau. (1973.08.03)

A neve parece esferovite e de vez em quando um tipo enterra-se até aos joelhos. Antes do cume a serra é negra, salpicada de branco; no cimo é um manto branco, que o nevoeiro confundia, tornando fantasmagóricos os vultos. Estava frio, mas suportava-se. Encontro-me num café da Covilhã que parece um do Porto, enquanto as ruas lá para trás lembravam Sintra. Almoçámos no Fundão, na Escola Secundária, um prédio de habitação adaptado - onde as pessoas tinham um ar seráfico e beatífico, falando com um sotaque de seminaristas, padres ou de freiras de Santa. Zita; - será que a maioria deles são destas bandas? - As miúdas desta região têm um ar rude ou agreste - serrano? - Demos liberdade aos miúdos e até agora não tem havido problemas. Estou é maçado, pois a camioneta não é cómoda e por causa da reunião na Escola só me deitei às 3 da matina para levantar-me às 5 1/2. (MCG - 1975.02.26)


Ontem em Arraiolos. enquanto fazia horas aguardando as vinte, quando regressariam a casa os únicos dois inquiridos que me restavam fui visitar a cadeia lá no largo onde param as camionetas da Setubalense e fica a Câmara mais o posto da GNR, os CTT e a praça de táxis (e quiçá também da má-língua). Do largo cadeia destaca-se pela sua torre sineira, qual igreja, e pelas suas duas janelas fortemente gradeadas. Há muitos anos que no seu segundo piso flutua um pano branco, indicativo de desocupação! (MCG - 1973.03.14)


30 foram as camionetas (fora os automóveis particulares) que de Évora se deslocaram a Lisboa para apoiar o Marcelo [Caetano]. Beja, Santarém, Leiria, Portalegre, enfim, milhares de tipos confluíram para a manifestação do entardecer [em Lisboa]. Pena não autorizarem as contramanifestações. (...) O Diogo diz que da Amareleja não terão ido pessoas à manifestação (salvo talvez os da Casa do Povo). Não porque sejam do reviralho, mas porque não se metem nestas coisas (viver não custa..). (MCG - 1973.07.19)

Ontem à noite (1973.10.24), no regresso de Arraiolos, muitos Mercedes a caminho de Évora, onde às 21:30 alentejanos cinzentos de ar sisudo aguardavam ordeiramente o início da sessão de propaganda da ANP [Acção Nacional Popular]. Debaixo dos arcos [arcadas], uma fila de homens, com ar humilde e jeito de rebanho descido da camioneta, dirigia-se para o cinema onde se realizaria a tal sessão. A oposição não comparecerá as eleições no domingo. O Marcelo Caetano] bater-se-à contra nada. (MCG - 1973.10.25).


Autocarro da Setubalense, 1964 (in "Restos de Colecção")

Na camioneta para o Sabugueiro, aguardo a sua partida, no meio da vozearia fina da miudagem que a enche, de regresso a casa. (1973.11.08)

Conheci a Ana SorRiso dos Olhos Grandes e o Zé Honrado naquela aldeia grande que é a Amareleja, onde existe um Largo do Regato que se não vislumbra e morava a Maria Papoila, no 1º andar por cima duma loja, numa casa sem portas interiores. No tempo da outra senhora era aquela uma aldeia aberta, com os bailes na Sociedade e os longos passeios dos casalinhos ao longo das estradas que dela partiam ou para ela convergiam. Tinha a Amareleja muita gente conhecida: a Marília (muito bonita) e o tio, o sr. Coelho (da oposição ao regime e dono da farmácia), o Diogo (meu colega na pensão da D. Vitória), a Adélia, o sr. Guerreiro (regedor da aldeia) e a D. Marcelina (pais do Diogo e da Adélia), a Ivone (muito faladora, à espera do pretendente e do casamento que tardava), a D. Manuela (dona de uma loja e, como a anterior, professora), para além do casal velhote com a mercearia, [o senhor Cachopo] no largo da igreja arruinada, em cuja casa ficava aos fins de semana, com o motorista da camioneta da carreira. Seguramente que havia mais gente, como a minha colega do Instituto, simpática, cujo nome esqueci e que por vezes me dava boleia [Ana], ou o Chico (Lucas] Honrado, que também fora meu colega. (AMC) ([1])

Cercal do Alentejo, na serra do mesmo nome, situa‑se na fronteira entre o Alentejo e o Algarve. Trata‑se duma pequena povoação, com algumas casas mais imponentes, onde se destaca o largo principal, com os cafés e a paragem da camioneta. Merece visita o Vale da Mandorelha, a cerca de 1 km. (Memórias de Viagem, 1997)

A camioneta vai daqui a pouco para Montemor(-o-Ñovo). Está sol e daqui te envio saudades. Já engraxei os sapatos e estou mais apresentável. (MCG - 1974.10.28)


Largo Luís de Camões, em Alcácer o Sal, onde paravam as camionetas (1974)

Gosto de passear pelas ruas da vila, de passar pelos seus arcos, de avistar os campos de arroz na outra margem, viveiro do que me desagrada: os mosquitos. Alcácer é terra de passagem e breve paragem das camionetas no seu largo incaracterístico. É também terra dos agrários, senhores das enormes propriedades dos arredores, como os Montes de Porshes, Arouca e Barrosinha.

Estamos a meio da tarde de domingo, aqui no Monte de AROUCA  ([2]) onde a Celeste dá aulas, uma herdade enorme que quase parece uma aldeia, agora abandonada (quase) pela crise da agricultura e da política dos agrários. O monte fica junto ao rio Sado, a 10 km ao sul de Alcácer do Sal e a 2 horas de camioneta de Lisboa. No meu colo está a minha amiga Eva, filha duma trabalhadora [Aciolinda], e que tem 3 anos. Uma "mulherinha", como me diz. A mãe dela aquece‑se ali ao lume, enquanto a Celeste lê e a mãe arranja as azeitonas que colheu ontem à tarde. (NSF - 1974.11.27)

Havia alunos da Celeste que nunca tinham ido à Vila, a uma dezena de km, e que ficaram abismados quando viam o comboio pela 1ª vez, um monstro para eles. O Renault 4 ficava com a Celeste, para ir à Vila ou para Évora, ou para ir-me buscar à Rodoviária, em Alcácer, nos fins-de-semana que me calhavam. (A Vida no Monte da Arouca - UCP Soldado Luís (2) 2007 10 08 )

Terminei a minha digressão turística com uma visita às Igrejas de Santa Maria e de S. Julião. ([3]) Depois dum lanche frugal, apanhei a camioneta para Cacilhas, depois o ferry-boat para o Cais do Sodré e o comboio para Paço de Arcos. Só me faltou andar de avião. Em Setúbal reconheci o Zeca Afonso. Refreei o impulso de perguntar‑lhe "Você é que é o Zeca Afonso?" e deixei‑o seguir para um café da Praça do Bocage. (MCG - 1972.12.29)


Setúbal - Praça de Bocage (Postal VN 1973 11 01)

Daqui da esplanada do café, olhando à minha direita, a paisagem é esta. ([4])   Olha lá, e se a gente viesse viver para Setúbal? É mais sossegada que Lisboa e é uma hora de camioneta! A tarde está chuvosa, o café está cheio de gente, rapazes e raparigas, e a passarada faz uma chilreada enorme por entre as árvores. (...) A minha mãe trouxe-me até aqui, onde às 18 h apanharei a camioneta para Évora. (MCG - 1973.11.01)


 [1] - Escrito em Setúbal em 1989.06.06 - ESCRITOS EM UMA NOITE DE PRIMAVERA PRESTES VERÃO / POR ISSO NÃO SE FALANDO EM MANHÃS DE NEVOEIRO

[2] - No tempo da Reforma Agrária esta herdade e as vizinhas foram integradas na Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís, homenagem ao militar morto no ataque aéreo das forças do General Spínola ao Quartel do Ralis, em Lisboa, a 11 de Março de 1975.

[3] - A igreja de Santa Maria é a Sé, com aspecto imponente; a de S. Julião, destruida pelo terramoto de 1755, tem um aspecto desgracioso, mas  conserva dois portais manuelinos.

[4] - Árvores frondosas e trânsito automóvel, que já não existem em 1996,  a estátua do Bocage e, ao fundo, o edifício da Câmara, onde vim a trabalhar de 1984 a 1986, além da casa, na altura azulada, por cima duma tabacaria, cheia de sol, onde gostaria de viver e que compraria se tivesse dinheiro.. O café referido no postal deveria ser o Central.

VER "A Transportadora Setubalense" in https://restosdec oleccao.blogspot.com/2016/11/a-transportadora-setubalense.html

domingo, 11 de dezembro de 2022

Textos em dezembro 11

 * Victor Nogueira

2022 12 11 - Foto Victor Nogueira - Vila Franca de Xira - ponte Marechal Carmona, sobre o Rio Tejo (IMG_0513)

Inaugurada a 30 de Dezembro de 1951 foi na região de Lisboa a primeira ponte a ligar as duas margens do Rio Tejo. Durante muitos anos foi uma das principais vias que ligavam o Sul ao Norte, pagando-se portagem pela sua travessia.

A chamada Ponte Salazar, inaugurada em 1966, depois renomeada como "25 de Abril", ligando Almada e Lisboa, desviou para esta muito tráfego, para além de ter exponenciado o crescimento urbano e populacional da margem esquerda do Rio Tejo.

Contudo a ponte de Vila Franca de Xira continua a ser a do "Marechal Carmona"

VER   O Parque Marechal Carmona, em Cascais


2022 12 11 - Iluminações de Natal nas Caldas da Rainha

Eh! pá. Ai que vai dar uma coisa má aos algoritmos e censores do inFaceLocked 😛


2020 11 12 - foto victor nogueira - Fonte no Monte da Arouca / Unidade Colectiva de Produção Soldado Luís - Vale de Guiso (Alcácer do Sal) .

Não havia água canalizada nas casas dos trabalhadores e famílias moradoras no Monte e era em bilhas ou cântaros como os da foto que os moradores acartavam água, a bilha à cabeça ou apoiada na cintura. Neste local ficava também o tanque de lavagem da roupa, que se punha a secar e a corar ao sol. A maioria das casas estavam vagas, porque muitos dos trabalhadores preferiam viver na aldeia de Vale de Guiso, na outra margem do Rio Sado, que atravessavam de bote, por nela haver mais comodidades. A do agrário com mais comodidades estava também desocupada, pois este preferia viver na vila de Alcácer do Sal.
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VER «A Vida no Monte da Arouca - UCP Soldado Luís (1)» in https://kantophotomatico.blogspot.com/.../vida-no-monte...
«A Vida no Monte da Arouca - UCP Soldado Luís (2)» in https://kantophotomatico.blogspot.com/.../vida-no-monte...
«dando "brilho" ao 4L, de matrícula AG - 44 - 42» in https://kantophotomatico.blogspot.com/.../dando-brilho-ao...
«A Vida no Monte da Arouca - UCP Soldado Luís (3)» in




2016 12 11 - A RTP2 passa bons seriados de várias  nacionalidades. Presentemente de 2ª a 6ª transmite "A Fraude". Os episódios já transmitidos podem ser vistos na RTPlay, (http://www.rtp.pt/programa/tv/p33692/) e na  TV ou no PC  Qualquer  hipotética e vaga semelhança com Portugal será pura coincidência 

https://espalhafactos.com/2016/12/07/a-fraude-viagem-teias-crime-economico/

2010 11 12 - A FORÇA DE QUEM QUER UM MUNDO JUSTO, PACÍFICO E SOLIDÁRIO


2011 12 11 - A FORÇA E A RAZÃO DA DEMOCRACIA OCIDENTAL (9)