Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

.

Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 5 de março de 2026

Pingos do Mindelo em dia invernal e nos dias finais

 

* Victor Nogueira

De súbito, de ontem para hoje, o dia esteve muito frio, pluvioso e ventoso, por vezes em rajadas, com o céu pejado de nuvens com várias tonalidades de branco acinzenttado. Amanhã e durante o fim de semana o tempo melhorarámas para 2ª feira, dia programado para retornsr à beira Sado, está previsto o regresso da chuva.

Terminei de ler o volumoso 'Por Dentro do Chega . A face oculta da extrema-direita em Portugal. de Miguel Carvalho. Dizia a publicidade que a sua leitura era um murro no estômago. Na verdade, nada do que lá e exposto é para mim novidade. Com maior ou menor frequência o mesmo sucederá nos partidos da central de negócios e  negociatas, embora na agremiação do Mestre André se  atinja o 'ground zero', entre miliantes, incluindo fundadores e dirigentes aos vários níveis, com 'facadas', expulsões, subserviências, dissidências, saídas, carreirismo e traições, sem esquecer o crescente culto da personalidade em torno do líder.

O livro divide-se em quatro capítulos, antecedidos dum Prólogo. Cada uma destas cinco partes é antecedida duma foto a preto e branco, em cada uma delas figurando o líder messiânico. Os quatro capítulos são designados de acordo com os lemas do Chega: 'Deus, Pátria, Família e Trabalho'. Supus que cada um dos capítulos reflectisse as posições do partido  sobre cada um dos temas, mas isso não é a realidade. Dum modo geral estes capítulos registam os testemunhos de militantes, dirigentes e fundadores, quer no activo, quer em dissidência, bem como alguns dos mais ou menos generosos financiadores. Contrariamente à ideia propalada, há não pouco pessoal com cursos superiores: advogados, engenheiros, professores universitários ... Entre os financiadores estão não poucos agentes imobiliários

Não sei sei serão da chamada 'geração mais qualiicada', que inclui Passos Coelho, Miguel  Relvas e José Sócrtates. Mas da velha guarda há no livro  o testemunho dum professor universitário catedrático, no ISCSP, António de  Sousa Lara, que 'boicotou' a candidatura a um prémio literário do  livro "Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago. Sousa Lara era na altura  Sub-secretário de Estado da Cultura dumo Governo de Cavaco Silva, que posteriormente, em 2026, o condecorou, enquanto Presidente da República,  com a Ordem do Infante D. Henrique,por  «serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro»., Em 1992, Sousa Lara havia censurado a obra de José Saramago, atrás referida, impedindo a candidatura da mesma ao Prémio Literário Europeu por considerar que o livro "não representa Portugal". Pois o testemunho de Sousa Lara recolhido por Miuel Carvalho é duma pobreza confrangedora. Sosa Lara foi um dos 'ilustrs' ifrólogos do Chega, até que, eventualmente mensprezacdo, o abandonou em rota de colisão. Tal como posteriormente Gabriel Mirthá Ribeiro, também investigador e professor universitário.  Sousa Lara, um dileyante,  'anarquista' pois tem de admnistar a fortuna da família, depositada na Suiça, entre baboseiras consegue dizer algumas aceradas Entre os fundadores, apoiantes ou militantes do Chega figuram evangélicos, católicos ultraconservadores e alguns membros da Maçonaria

Mas nas páginas finais do livrro de Miguel Carvalho surgem alguns testemunhos sobre as razões e caracterização do eleitorado do Chega e do seu 'sucesso' e penetração ente a juventude e os 'desildudos' e abandonados pelas políticas do Centrão PS / PSD. Segundo esses testemunhos muitos, atraídos nas redes sociais,  valorizam as conquistas de Abril e ao cardápio do Chega vão buscar umas 'ideias' e rejeitar outras, contraditoriamente.  Como dizem alguns desses depoientes ostracizar a maioria desses 'seduzidos' e 'enganados' pelo Chega é contraproducente, servindo para acantoná-los'wm trincheiras.  Apenas uma outra política que não a do PS/PSD/IL & Chega permitiria 'reconquistá.los'

Morreu António Lobo Antunes. A minha memória já n~so é o que era, mas seguramente li alguns dos seus romances, que figuram na minha biblioteca, em Setúbal, embora não consiga de momento precisar quais. Terei gostado das primeiras obras, com a guerra colonial portuguesa como pano de fundo. Para além de achar que tinha um  ego do tamanho do Mundo, os seus romances eram, não puucas vezes, duma leitura difícil- Apreciava deveras as suas Crónicas na imprensa, reclhidas em vários volumes ao longo dos anos. Também o que me ficou de Lobo Antunes foi o desprezo por José Saramago e a 'mágoa de não ter sido ele o Nobel da Liberatura, sem esquecer o seu deslumbramento ao receber o Prémio Camões em 2007, o galardão literário mais importante da língua portuguesao, o mesmo com  que Saramago fora homanageado em 1995

Outros cronistas que aprecio são António Sousa Homem, autor das 'Crónicas do Moledo', e Miguel Esteves Cardoso, especialmente o MEC dos primeiros tempos, e José Eduardo Águalusa.

Sobre os cronistas atrás referidos ver no meu blog D'Aqui e D'ali as etiquetas

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Ant%C3%B3nio%20Lobo%20Antunes

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Ant%C3%B3nio%20Sousa%20Homem

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Miguel%20Esteves%20Cardoso

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Jos%C3%A9%20Eduardo%20%C3%81gualusa

Imagens geradas pelo chatGPT segundo guiões da minha autoria

1. - O texto deste post, que deu origem à gravura seguinte



.2. - Face ao resultado, 'encomendei' outra gravura com um outro guião: um homem idoso sentado defronte a uma secretária. O homem, pensativo, tem barba branca e cabelo grisalho. Escreve num computador. Á esquerda um livro aberto. Á direita uma pilha de livros e alguns jornais. Ao fundo uma estante com as prateleiras cheias de livros. 

É este último que serve de abertura a estes 'Pingos do Mindelo'

domingo, 12 de janeiro de 2025

Letras empilhadas, ano após ano, em Janeiro, 12, (re)colhidas em 2025

 * Victor Nogueira

12 de janeiro de 2014  · 

Cá estou sózinhito no alto da torre no cimo duma encosta vislumbrando de vez em qd os carros passarem lentos lá em baixo na avenida, após o parque verde - agora passa um autocarro - enquanto as gaivotas se recolheram e não fazem voos planados no céu acastelado de núvens cinzentas. 

Verde é a relva no parque, mas de ramos esquálidos e despidos a maioria das árvores, cintilantes as áleas. Os cafés do outro lado têm as esplanadas vazias, que não "prendem" os raros passantes, agora sem guarda-chuva. 

Tirando o dedilhar no teclado, tudo é silêncio, até silenciosos estão os meus pensamentos.

Setúbal não conta e as amizades do inFaceLock são meras virtualidades. Pensava que hoje estaria sol, mas não, está frio e de chuva, e eu engripado e gelado. Bem convido as amizades mas elas ou estão longe ou presas de interditos ou com os pensamentos muito para além desta janela, muito para lá do horizonte que neste momento é um luzeiro de luzes cintilantes, a maioria amarelas, algumas de anúncios brancos ou vermelhos, como os do Jumbo, dentro em breve nova catedral do consumo - allegro - que rebentará com o resto do comércio, não só no centro histórico como no resto da cidade.

Esparsos, espaçados, são os carros na avenida ou mais além, noutra rua. Ainda mais para lá o movimento raro das luzes dos automóveis na auto-estrada. O céu, esse agora está dum cinza arroxeado e o asfalto é um entrecruzar de faixas cintilantes como lantejoulas. Está de chuva, num tempo cinza e gelado. É pois tempo de inverno !

~~~~~~~~~~~

  Graça Maria Teixeira Pinto

Domingo de chuva ...Dantes, gostava de passear à chuva.Agora não posso, constipo-me logo.Mas os amigos do Fb serão só meras virtualidades? Se calhar, nem todos.Beijo.

11 a

Silvia Mendonça

Victor Nogueira, no Brasil vivemos o que chamamos de "veranico de janeiro": muito calor, seguido de fortes chuvas. Eu disse "fortes" - levam casas, vidas, dignidade... Eu, depois que adoeci, me comunico com o mundo através desta janela, a virtual - vivo em um mundo cibernético, nem por isso só nele - o mundo real é cruel. Aqui, posso deletar a crueldade. Amigos, só virtuais. Raros. Também estou em casa, sozinha com meus bichos (que são ótimas companhias), com dores por causa do câncer, discutindo os problemas do Brasil, que são muitos e maquiados pelos números positivos nas estatísticas. Se hoje estou em casa, devo a um amigo que pagou meus aluguéis, pois não recebo nenhum benefício do governo - tento a aposentadoria por invalidez. Invalidez, palavra forte. Pois estou em plenos poderes das minhas faculdades mentais; do meu corpo, não. Não posso trabalhar (sou jornalista), vivo de ajuda. O câncer nos tira tudo, até a dignidade. Beijos de mim.

11 a

Isabel Dias Alçada

Feliz noite amigo, antes só do que mal acompanhado 😃

11 a

VictorNogueira

Um abraço e beijos, Silvia Mendonça Eu nasci e vivi na costa defronte, em Luanda/Angola e vocês ersam os meus vizinhos do outro lado do atlântico sul. Sei o que eram as tempestades de verão 🙂

11 a

Judite Faquinha

Boa noite Victor, está uma noite para estar no quentinho do sofá bem enrolado numa mantinha haver um filme, na paz dos anjos, chove e frio...que mais podemos fazer, é assim que eu estou. Não tenho ninguém para me incomodar me rodeia apenas silêncio, trata essa gripe, e vai para o sofá bem quentinho. bjinhos.

11 a

Maria Márcia Marques

Cura a gripe, com bebidas quentes, lê algo que te prenda a atenção e vais esquecendo a solidão, começa a ordenar os teus livros....olha a paisagem, disserta sobre ela, ou simplesmente deixa voar o pensamento.....

11 a

Yolanda Botelho

Pela minha parte não estás só,sou tua amiga e por isso não gosto de te sentir triste e abatido,quero que trates essa gripe meu esquerdista preferido,Bj

11 a

Viriato F. Soares

Boa foto. Setúbal, é uma cidade pela qual tenho um carinho especial. Obrigado Victor e uma óptima semana!

11 a

José Manuel Marques

Cura-te e passeia por Al-kantara que também é fixe 😉

11 a

Victor Nogueira

conheço bem alkantara, José Manuel Marques embora tenha de descobrir uma grnde livraria que por lá existe e cujo nome não me ocorre de momento 🙂

11 a

José Manuel Marques

Não sei qual mas se deres referências talvez te ajude

11 a

Victor Nogueira

não me lembro do nome. É uma livraria enorme, numa antiga fábrica ou armazém

11 a

Victor Nogueira

Dsecobri o nome pesquisando na net - LerDevagar, na Rua Rodrigues Faria

11 a

José Manuel Marques

Ah, deve ser na Lx Factory, a Ler Devagar. http://www.lxfactory.com/PT/welcome/

Bem-Vindo - LX Factory

11 a

José Manuel Marques

Exactamente 😉

11 a

Victor Barroso Nogueira

Acertaste. Essa Lisboa Factory fica ali na 24 de Julho, perto do Infante Santo ?

11 a

José Manuel Marques

Por trás da Esquadra do Calvário camarada. Facílimo de encontrar

Naquela zona outrora industrial. Vê o link que tem o mapa.

11 a

Victor Nogueira

a esquadra do calvário fica num pequeno largo onde havia um cinema de bairro e há algumas cervejarias e se cruzam os electricos ?

11 a 

José Manuel Marques

Eu acho que têm parque, ou então deixas o carro ali ao pé do Pingo Doce. Ou no parque deles, não é longe.

Exactamente 😉 Largo do Calvário.

E há o outro antes que agora não me ocorre o nome mas é por ali

Aqui vai o link directo para a localização 😉 http://www.lxfactory.com/PT/localizacao/

Localização - LX Factory

E o largo é o das fontaínhas

A entrada é pela Rua Rodrigues Faria, a LX Factory fica ao fundo. Certo? Melhor que isto só indo lá indicar-te pessoalmente 😉 Quem sabe, se apitares e andar por aqui tenho todo o gosto em beber um café com o meu camarada 😃

11 a

Ester L. Cid

Ao ler o teu belo texto, onde falas da tua "solidão" e da gripe que te atingiu, lembrei-me do poema sobre os homens com gripe de António Lobo Antunes. Vá lá toca a sorrir que a gripe é como a chuva, passa logo.. Deixo-te o poema e um beijinho grande 😃

11 a

Ester L. Cid

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
  • 11 a

Victor Nogueira

LOL Ester L. Cid Não preciso de Lourdes, sou a Lourdes de mim mesmo. Outra, é a companhia ou interlocutor/a 😛

Gostei do poema - pensava que o Lobo Antunes era apenas cronista e romancista

11 a

Ester L. Cid

É tudo isso mas tambem um grande poeta. Ora ouve este poema dele na voz da Katia Guerreiro ,

11 a

Ester L. Cid


Kátia Guerreiro - 10 - Valsa

11 a

Maria João De Sousa

Obrigada, Victor Nogueira! Gostaria de me conseguir "mover" por aqui, como dantes... mas não me está mesmo a ser possível... o raio do mural nem sequer se "desloca" facilmente... por vezes, nem dificilmente, eheheh... ainda me dá para rir de tanta dificuldade junta... vá lá, já não é mau... as melhoras dessa gripe!

11 a

12 de janeiro de 2020  · 

foto victor nogueira - 'Ninguém pode dar aquilo que não tem!' Grafito em setúbal, no bairro do troino (2018.07.24)

 
Conteúdo partilhado com: Público
Público
O meu tio Joaquim António, que morreu com 20 e poucos anos (1913 / 1936), escrevia poesia, poesia triste, porque, tuberculoso, sabia que em breve morreria. Herdei dele, no espólio da minha mãe, dois cadernos manuscritos de poemas seus. Mas não é dele mas de António Nobre este poema, embora este tipo de poesia não seja a minha praia.
A minha mãe também escrevia poesia, por vezes alegre, alguma publicada em jornais do Porto, e contos, alguns publicados num jornal de Luanda. Mas destes últimos nenhum ela guardou.
Virgens que passais - António Nobre
Virgens
que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.
Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o Mar
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!
Cantai! Cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas
Que eu vi morrer num sonho, como um ai....
Ó suaves e frescas raparigas,
adormecei-me nessa voz...cantai !

12 de janeiro de 2022 
Conteúdo partilhado com: Público
Público
AO VOLANTE DO CHEVROLET PELA ESTRADA DE SINTRA, por Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…
Maieável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…

12 de janeiro de 2023  · 

Foto victor nogueira -  Pôr do Sol em Vila do Conde (2022 12 09 IMG_1456)

Vista a partir da Meia-Laranja; para lá da ponte sobre o Rio Ave divisam-se a Capela de N. Sra do  Socorro e o relógio de sol, alusivo aos Descobrimentos, na Praça D. João II.

 A Praça D. João II, nas margens do Rio Ave, inaugurada em 2001, mostra ao visitante diversas celebrações dos Descobrimentos Portugueses, tais como os padrões das “cinco partidas do mundo”, o lago da sereia, vários chafarizes em forma de globo e, em destaque, um grande relógio de sol. O nome da Praça evoca o nome do rei que ordenou a construção da Alfândega Régia, edifício localizado nas proximidades.

Memória dos 500 anos dos Descobrimentos Portugueses e da participação de Vila do Conde na Epopeia Marítima é uma praça-monumento concebida pelo escultor José Rodrigues, marcada pela afirmação vertical de um mastro e do velame de nau sulcando ondas geométricas, com uma sereia pontuando um mar encantado e onde o firmamento se espelha.

~~~~~~~~~~

      

12 de janeiro de 2024  · 

auto-retrato num noite de inverno, já entrado no 1º de Janeiro de 2024, com o estralejar do fogo de artifício no longínquo horizonte, em Vila do Conde.

12 de janeiro de 2025

Foto Victor Nogueira - Mural em Leceia (Barcarena), no  Jardim-escola O Cebolinha  (1997 rolo 221 - 0026)

A "Turma da Mónica" é uma criação de Maurício de Sousa, nos anos '60 do passado milénio, constituída por um grupo de crianças, cada uma com sua idiossincrasia, sendo  presentemente Cebolinha, Mónica, Cascão, Chico Bento, Milena e Magali os personagens principais.  No mural figuram Cebolinha, Cascão e Mónica.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

~Cá estou sózinhito no alto da torre no cimo duma encosta

 * Victor Nogueira

2014 01 12 - ~Cá estou sózinhito no alto da torre no cimo duma encosta vislumbrando de vez em qd os carros passarem lentos lá em baixo na avenida, após o parque verde - agora passa um autocarro - enquanto as gaivotas se recolheram e não fazem voos planados no céu acastelado de núvens cinzentas. 

Verde é a relva no parque, mas de ramos esquálidos e despidos a maioria das árvores, cintilantes as áleas. Os cafés do outro lado têm as esplanadas vazias, que não "prendem" os raros passantes, agora sem guarda-chuva. 

Tirando o dedilhar no teclado, tudo é silêncio, até silenciosos estão os meus pensamentos.

Setúbal não conta e as amizades do inFaceLock são meras virtualidades. Pensava que hoje estaria sol, mas não, está frio e de chuva, e eu engripado e gelado. Bem convido as amizades mas elas ou estão longe ou presas de interditos ou com os pensamentos muito para além desta janela, muito para lá do horizonte que neste momento é um luzeiro de luzes cintilantes, a maioria amarelas, algumas de anúncios brancos ou vermelhos, como os do Jumbo, dentro em breve nova catedral do consumo - allegro - que rebentará com o resto do comércio, não só no centro histórico como no resto da cidade.

Esparsos, espaçadps, são os carros na avenida ou mais além, noutra rua. Ainda mais para lá o movimento raro das luzes dos automóveis na auto-estrada. O céu, esse agora está dum cinza arroxeado e o asfalto é um entrecruzar de faixas cintilantes como lantejoulas. Está de chuva, num tempo cinza e gelado. É pois tempo de inverno !

~~~~~~~~~

Fatima Mourão

lindo ❤

9 ano(s)

Graça Maria Teixeira Pinto

Domingo de chuva ...Dantes, gostava de passear à chuva.Agora não posso, constipo-me logo.Mas os amigos do Fb serão só meras virtualidades? Se calhar, nem todos.Beijo.

9 ano(s)

Silvia Mendonça

Victor Nogueira, no Brasil vivemos o que chamamos de "veranico de janeiro": muito calor, seguido de fortes chuvas. Eu disse "fortes" - levam casas, vidas, dignidade... Eu, depois que adoeci, me comunico com o mundo através desta janela, a virtual - vivo em um mundo cibernético, nem por isso só nele - o mundo real é cruel. Aqui, posso deletar a crueldade. Amigos, só virtuais. Raros. Também estou em casa, sozinha com meus bichos (que são ótimas companhias), com dores por causa do câncer, discutindo os problemas do Brasil, que são muitos e maquiados pelos números positivos nas estatísticas. Se hoje estou em casa, devo a um amigo que pagou meus aluguéis, pois não recebo nenhum benefício do governo - tento a aposentadoria por invalidez. Invalidez, palavra forte. Pois estou em plenos poderes das minhas faculdades mentais; do meu corpo, não. Não posso trabalhar (sou jornalista), vivo de ajuda. O câncer nos tira tudo, até a dignidade. Beijos de mim.

9 ano(s)

Isabel Dias Alçada

Feliz noite amigo, antes só do que mal acompanhado 😃

9 ano(s)Editado

Victor Barroso Nogueira

Um abraço e beijos, Silvia Mendonça Eu nasci e vivi na costa defronte, em Luanda/Angola e vocês ersam os meus vizinhos do outro lado do atlântico sul. Sei o que eram as tempestades de verão 🙂

9 ano(s)

Judite Faquinha

Boa noite Victor, está uma noite para estar no quentinho do sofá bem enrolado numa mantinha haver um filme, na paz dos anjos, chove e frio...que mais podemos fazer, é assim que eu estou. Não tenho ninguém para me incomodar me rodeia apenas silêncio, trata essa gripe, e vai para o sofá bem quentinho. bjinhos.

9 ano(s)

Maria Márcia Marques

Cura a gripe, com bebidas quentes, lê algo que te prenda a atenção e vais esquecendo a solidão, começa a ordenar os teus livros....olha a paisagem, disserta sobre ela, ou simplesmente deixa voar o pensamento.....

9 ano(s)

Maria Rodrigues

(Y)

9 ano(s)

Yolanda Botelho

Pela minha parte não estás só,sou tua amiga e por isso não gosto de te sentir triste e abatido,quero que trates essa gripe meu esquerdista preferido,Bj

9 ano(s)

Viriato F. Soares

Boa foto. Setúbal, é uma cidade pela qual tenho um carinho especial. Obrigado Victor e uma óptima semana!

9 ano(s)

Maria Mamede

bjs...

9 ano(s)

José Manuel Marques

Cura-te e passeia por Al-kantara que também é fixe 😉

9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

conheço bem alkantara, José Manuel Marques embora tenha de descobrir uma grnde livraria que por lá existe e cujo nome não me ocorre de momento 🙂

9 ano(s)

José Manuel Marques

Não sei qual mas se deres referências talvez te ajude

9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

não me lembro do nome. É uma livraria enorme, numa antiga fábrica ou armazém

9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

Dsecobri o nome pesquisando na net - LerDevagar, na Rua Rodrigues Faria

9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

livraria LerDevagar

http://www.publico.pt/.../devagar-ate-ao-oeste-1581227

http://www.publico.pt/n1581227

PUBLICO.PT

http://www.publico.pt/n1581227

http://www.publico.pt/n1581227

Eliminar pré-visualização9 ano(s)Editado

José Manuel Marques

Ah, deve ser na Lx Factory, a Ler Devagar. http://www.lxfactory.com/PT/welcome/

Bem-Vindo - LX Factory

LXFACTORY.COM

Bem-Vindo - LX Factory

Bem-Vindo - LX Factory

9 ano(s)

José Manuel Marques

Exactamente 😉

Ver tradução9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

acertastwe. Essa Lisboa Factory fica ali na 24 de Julho, perto do Infante Santo ?

9 ano(s)

José Manuel Marques

Por trás da Esquadra do Calvário camarada. Facílimo de encontrar

9 ano(s)

José Manuel Marques

Naquela zona outrora industrial. Vê o link que tem o mapa.

9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

a esquadra do calvário fica num pequeno largo onde havia um cinema de bairro e há algumas cervejarias e se cruzam os electricos ?

9 ano(s)Editado

José Manuel Marques

Eu acho que têm parque, ou então deixas o carro ali ao pé do Pingo Doce. Ou no parque deles, não é longe.

9 ano(s)

José Manuel Marques

Exactamente 😉 Largo do Calvário.

9 ano(s)

José Manuel Marques

E há o outro antes que agora não me ocorre o nome mas é por ali

9 ano(s)

José Manuel Marques

Aqui vai o link directo para a localização 😉 http://www.lxfactory.com/PT/localizacao/

Localização - LX Factory

LXFACTORY.COM

Localização - LX Factory

Localização - LX Factory

9 ano(s)

José Manuel Marques

E o largo é o das fontaínhas

9 ano(s)

José Manuel Marques

Lg das Fontaínhas

9 ano(s)

José Manuel Marques

A entrada é pela Rua Rodrigues Faria, a LX Factory fica ao fundo. Certo? Melhor que isto só indo lá indicar-te pessoalmente 😉 Quem sabe, se apitares e andar por aqui tenho todo o gosto em beber um café com o meu camarada 😃

9 ano(s)

Ester L. Cid

Ao ler o teu belo texto, onde falas da tua "solidão" e da gripe que te atingiu, lembrei-me do poema sobre os homens com gripe de António Lobo Antunes. Vá lá toca a sorrir que a gripe é como a chuva, passa logo.. Deixo-te o poema e um beijinho grande 😃

9 ano(s)Editado

Ester L. Cid

Pachos na testa, terço na mão,

Uma botija, chá de limão,

Zaragatoas, vinho com mel,

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher.

Ai Lurdes que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela,

Cala os miúdos, fecha a janela,

Não quero canja, nem a salada,

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como me sinto,

Já vejo a morte nunca te minto,

Já vejo o inferno, chamas, diabos,

Anjos estranhos, cornos e rabos,

Vejo demónios nas suas danças

Tigres sem listras, bodes sem tranças

Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,

Põe-me a Santinha à cabeceira,

Compõe-me a colcha,

Fala ao prior,

Pousa o Jesus no cobertor.

Chama o Doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.

Faz-me tisana e pão de ló,

Não te levantes que fico só,

Aqui sozinho a apodrecer,

Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

9 ano(s)

Victor Barroso Nogueira

LOL Ester L. Cid Não preciso de Lourdes, sou a Lourdes de mim mesmo. Outra, é a companhia ou interlocutor/a 😛

Gostei do poema - pensava que o Lobo Antunes era apenas cronista e romancista

9 ano(s)Editado

Ester L. Cid

É tudo isso mas tambem um grande poeta. Ora ouve este poema dele na voz da Katia Guerreiro ,

9 ano(s)

Ester L. Cid


Kátia Guerreiro - 10 - Valsa

9 ano(s)

Arminda Griff

Aguarda teu sol...

9 ano(s)

Maria Rodrigues

lindíssimo poem (Y)

9 ano(s)

Maria João De Sousa

Obrigada, Victor Nogueira! Gostaria de me conseguir "mover" por aqui, como dantes... mas não me está mesmo a ser possível... o raio do mural nem sequer se "desloca" facilmente... por vezes, nem dificilmente, eheheh... ainda me dá para rir de tanta dificuldade junta... vá lá, já não é mau... as melhoras dessa gripe!

9 ano(s)

Maria Rodrigues

(Y)

8 ano(s)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

"Luanda, como ela (NÃO)" era e os FILTROS de quem vê ou (re)lembra


Em tempos fui contactado pela autora para dar o meu testemunho para um livro de memórias sobre Luanda in illo tempore, o que declinei. Acidentalmente soube que o livro sempre veio à luz do dia, com imprecisões, deturpações  e visões parcelares, pois tive ocasião de ler extractos que valorizam anos e olhares “dourados” duma pretensa nostalgia que não vê a fuligem do carvão que impregnava as praias e o pôr-do-sol. 

Creio que havia várias Luandas como havia várias Angolas. Havia racismo em Luanda como o do apartheid ? Onde em Luanda acabava a discriminação social e começava o racismo ? E em Angola ? Havia preconceito e, sobretudo, desconhecimento do outro. Só quando estudei Antropologia Cultural “percebi” por exemplo que os conceitos de “família” eram diferentes para os “brancos” e para os chamados “indígenas”. Mas o início da Guerra Colonial  terá levado não poucos de nós a questionar a veracidade do “multirracialismo” e da “grandeza”  da “Pátria”, lá  muito para cima e que pouco ou nada nos dizia. Falo nisso no meu poema Raízes:  “(…) Em Luanda nasci / Em Luanda vivi / Em Luanda estudei // Não Angola mas Portugal / Todos os rios e afluentes / Todas as linhas férreas e apeadeiros / Todas as cidades e vilas / Todos os reis e algumas batalhas / as plantas e animais / que não eram do meu país. // De Angola / pouco sabíamos / até ao 4 de Fevereiro, / até ao 15 de Março / Veio a guerra e / a mentira / que alimenta / a Guerra, / Veio a guerra e a violência / veio a guerra e a liberdade (…)” 

Não me recordo de ver "meninas" a passearem" com tigres pela trela em Luanda. Mas se me não revejo nas “memórias” e nas “visões” coligidas por Rita Garcia (1), também não tenho as “visões” de Lobo Antunes, que “diaboliza”, compreensivelmente, Luanda, e ”dulcifica” Lisboa, a Lisboa de Salazar, dos bairros de lata e das  Avenidas Novas, da miséria, da pobreza, do trabalho infantil (dos ardinas, dos marçanos, das criadas de servir …),  da exposição da velhice desamparada (dos cauteleiros, dos vigilantes dos WC, dos engraxadores, [dos pedintes] …) das chagas purulentas e da[s pernas com paralisia infantil], expostas às esquinas [e nos adros das igrejas] para recolher uma “esmolinha, por amor de Deus”, num Portugal que era um sufoco, como o senti, triste, cinzento, mesquinho, pequenino, [de vistas curtas], em que as mulheres eram submissas e havia uma rigorosa segregação sexual. Mas isto não veria Lobo Antunes nas suas cartas coloniais (2).

Comentário em 
UM BLOG ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA


(1) COMO ERA A VIDA EM LUANDA (e comentários)  in http://www.noticiasmagazine.pt/2016/como-era-a-vida-em-luanda/#ixzz4NiJbzNmu 

(2)  Cartas da Guerra de António Lobo Antunes



“Escrevo-te num domingo insuportável de calor, numa esplanada diante da baía...Que cidade horrível. É como passar um domingo em Benfica na esplanada Estrela Brilhante, com o chão cheio de tremoços e de detritos. Uns negros aleijados, arrastam-se a pedir esmolas, outros oferecem-me cinzeiros de madeira, objectos esculpidos, jornais, farrapos e miséria. Nunca pensei vir encontrar tanta pobreza, tanta porcaria, tanto calor. Uns sujeitos sebentos, de pasta, trocam escudos por angolares, com 12% a mais. Mas é tudo caro, tórrido e feio.

...Ontem um amigo daquele outro médico afinal conhecido, levou-nos a visitar a ilha, uma espécie de promontório com praias de um e outro lado, casas, um clube de golfe. Uma espécie de Rodésia vista por um mestre-de-obras de Tomar.

...Luanda está longe de ser uma cidade vivível: toda ela é uma espécie de Areeiro de província, com o mesmo pretensioso gosto suburbano, e os brancos daqui têm todo o mesmo indefinível aspecto dos vendedores de automóveis daí, de patilhas sem classificação social, camisas transparentes, e mulheres tipo locutoras de rádio, demasiado bem vestidas para serem inteiramente honestas. Os musseques são uma espécie de bairro da Boavista ampliado, em que os moradores fossem todos jogadores do Benfica. Só a terra é que é vermelha, como a areia dos estádios, e as noites cheias de murmúrios de insectos e de folhas, mergulhadas num mormanço de suor.

O que irrita é ver as revistas angolanas, de Luanda, cheias de fotografias de bailes e de festas e de eleições de misses, enquanto nós, que nada temos com eles, que pertencemos ao puto, como eles dizem com desprezo, estamos aqui a pôr os testículos no lume por eles. Não pormenorizo muito isto porque, mas os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo de novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável. Luanda é horrível de mau gosto, uma terra onde eu nunca quereria viver, feia pretensiosa, sem categoria de espécie alguma. Sente-se o dinheiro por todo o lado, principalmente nos automóveis americanos, porque a maneira de vestir destes tipos é absolutamente execrável. Não merecem a terra extraordinária em que vivem, e, julgo, não a sabem, sequer, apreciar. Não há em Luanda absolutamente nada que preste: as poucas estátuas que tem, ultrapassam em mau gosto tudo o que se possa suportar, os edifícios são todos no género daquele em que mora o Souto, e que para mim representa o paradigma da fealdade. É uma excrecência absurda e estúpida. E estes tipos aqui acham Luanda um paraíso, uma espécie de Rodésia em melhor. Não nos agradecem o nosso sacrifício por eles, e, no fundo, tratam-nos com uma condescendência desdenhosa de brasileiros ricos. Que diferença de Lisboa. Não se pode viver numa cidade )sem passado. Estes tipos são bem os descendentes dos degredados e está tudo dito.” (citado in http://recordacoescasamarela.blogspot.pt/2016/10/requiem-agora-novo-jornal-luanda-7-10.html)


* Victor Nogueira ´- Luuanda - Escritores Angolanos lá em casa e não só

(...) onde cabiam os livrinhos da Colecção Imbondeiro, do Lubango (então Sá da Bandeira), recebidos por assinatura, para além de poesia (...)  de Alda Lara e Geraldo Bessa Victor ou da «Antologia de Poetas Angolanos», mimeografada, publicada em Lisboa pela Casa dos Estudantes do Império, em 1962. É claro que não posso deixar de referir os livros etnográficos de Óscar Ribas e também os dum defensor da gesta imperial lusitana que era Reis Ventura, previamente publicados em folhetim, para além de Cochat Osório.
.
Lembro-me então da enorme celeuma que foi a atribuição a Luandino Vieira do Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1965, que levou à sua extinção pela «provocação» de premiar um livro de três contos intitulado Luuanda, baseados na oralidade dos musseques e no entrosamento do português com o quimbundo. Li nessa altura o livro, do qual gostei, apesar do ineditismo da linguagem escrita a que não estava habituado, embora na altura se desencadeasse uma grande ofensiva contra a obra, logo proibida pela PIDE, afirmando-se alto e em bom som que o autor nem português sabia escrever. (...)

in  Luuanda - Escritores Angolanos lá em casa e não só http://kantoximpi.blogspot.pt/2007/02/luuanda-sempre-foi-de-famlia-haver_08.html 


OBRAS DE LUANDINO VIEIRA, em pdf, PARA DOWNLOAD, inhttp://kantoximpi.blogspot.pt/2007/02/luuanda-sempre-foi-de-famlia-haver_08.html

Um artigo em tempos publicado sobre os Cinemas em Angola  fazem-se afirmações que mereceram o meu seguinte comentário:


Os cinemas tropicais de Angola


* Victor Nogueira


“Era uma coisa pomposa. As pessoas aperaltavam-se, iam de luvas e até de casacos de peles.” ? Não tenho qualquer ideia disto ser assim em Luanda nos anos 60/70- De peles ? De luvas ? Talvez às "estreias" no início do Cinema Restauração não se fosse em mangas de camisa, mas o ir ao cinema era um acto de convivialidade, não poucas vezes um pretexto para as pessoas se encontrarem.[Mas a generalidade ds pessoas não usavam nem casaco nem gravata e as mulheres vestiam-se com muito mais à vontade que em Portugal] De luvas ? De casacos de peles ? Lugares separados nos cinemas, brancos para um lado, pessoas de cor para outro ? Em Luanda ? Em Angola ? Huuuuuuuuummmmm]