Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Setúbal pelo olhar de João Castelo Branco


08 Março 2008

As minhas fotos preferidas

Vela no rio

Foto obtida em 10 de Julho de 1969, no rio Sado.

18 Março 2007

A vivenda de Bernardo Santos

É uma pena que a moradia mandada construir no início da século passado, junto da Avenida 5 de Outubro, bem próximo daquilo que já foi o antigo Matadouro, mais tarde a "Garagem dos Belos" e onde, actualmente, se instalou a Estação da Rodoviária Nacional, esteja naquele estado de degradação!

Situada no gaveto nascente/sul que a rua Alferes Pinto Vidigal faz com a Avenida Dr.Manuel de Arriaga, a "vivenda" apenas espera que um sopro mais forte do vento a faça ruir... destruindo também alguns painéis de azulejo que lhe forram as suas fachadas norte e nascente.

Não sei se terão algum valor artístico... Nem sei sequer quem teria sido o seu autor. Deixaria essa questão para os entendidos da História e da Arte... que a Câmara Municipal de Setúbal, ou o próprio Museu da Cidade, poderiam muito bem convidar para executar um breve estudo.

Há uns anos atrás, num dos frequentes almoços que fazíamos com o bom Amigo Dr. José Soveral Rodrigues, ouvi dele um pouco da história daquela casa e daqueles azulejos. Foi numa altura em que ainda não era tão visível o seu estado de degradação a que a vivenda chegou....

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Setúbal e a Ribeira do Livramento, em 1880 - óleo sobre tela de João Vaz (2022)

* Victor Nogueira

 5 de agosto de 2022


Setúbal e a Ribeira do Livramento, em 1880 -  óleo sobre tela de João Vaz (1859 - 1931). A ribeira corre actualmente encanada sob a Avenida 22 de Dezembro e a ponte há muito que não existe. 

Ao longo desta ribeira corria a muralha medieval, com alguns troços e torres visíveis no quadro, entretanto parcialmente demolidos, incluindo a Porta Nova, que dava acesso ao arrabalde do Troino. 

O Rio Sado estava mais perto da cidade, por ainda não terem sido feitos os aterros que o distanciaram. Junto da torre ao fundo, que ainda existe, a Capela do Senhor Jesus da Boa Morte, já demolida, mas que ainda existiria em 1890

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O artesão das bicicletas (2019)

 * Victçor Nogueira

4 de agosto de 2019


foto victor nogueira - Durante muitos anos, num degrau  ou poial deste pórtico manuelino da Igreja de S. Julião, abancava diariamente este artesão, que confeccionava pequenas bicicletas com fio de arame. 

Tempos depois, neste mesmo local, tocava viola um simpático e afável jovem, sem abrigo, que assim procurava ganhar umas moedas, que a imprensa local informou que morrera duma overdose numa casa abandonada.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A várzea de Setúbal (2018)

 * Victor Nogueira

23 de julho de 2018

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Foto victor nogueira . a várzea de Setúbal é solo agrícola de elevada produtividade (Reserva Agrícola Nacional) que deveria ter sido protegido   ocupado por quintas agrícolas paulatinamente substituídas por loteamentos urbanos na sequência  da especulação urbanística desenfreada iniciada a partir dos anos ’60 do século XX a que 16 anos de gestão PS/Mata Cáceres, o  «Manel do alcatrão», não teriam posto termo mas que a subsequente gestão da CDU tem procurado inverter.

Há uma história sobre o actual traçado da variante da EN 10 que atravessa a várzea, da iniciativa da gestão PS/Mata Cáceres, e do mirante da Quinta da Azeda, que escapou à natural  demolição por parte de quem nos anos ‘90/’80 nenhuma preocupação teve pela preservação do património histórico, natural, cultural, paisagístico ou edificado do município.

Este troço parcial deste aqueduto e duma nora que não sei se ainda existe, para além do mirante da Quinta da Azeda, uma das 1ªs obras em betão armado, são dos poucos testemunhos que as desordenadas e desenfreadas especulações urbanísticas não arrasaram. Malgré tout.

A memória desses tempos persiste ainda no nome de urbanizações como as das Quintas do Freixo, da Azeda,Alves da Silva,, Aranguez ou Vanicelos

terça-feira, 21 de julho de 2026

Em torno dum 'pimenteiro' em Setúbal (2020)

 * Victor Nogueira

21 de julho de 2020


foto victor nogueira (2020.07.02) - 'pimenteiro' - Setúbal 

Poder-se-á considerar um quiosque? Na verdade, apesar de ser esbelto e alto, tem a forma dum quiosque. Trata-se dum "suporte" para publicidade, vulgarmente designado como "pimenteiro". Espalhados por todo o país, creio que pertencem a uma agência de publicidade cuja firma é "Decaux".

No r/c do prédio defronte ficavam o stand e oficinas da "Fiat"  e do outro lado da rua os da "Ford", há muito encerrados. Enquanto o primeiro se encontra devoluto e  com ar degradado desde há anos, o outro alberga agora uma enorme loja de produtos chineses.

Um dia telefonei ao simpático e sempre prestável sr. Barbosa da Ford para combinar deixar lá o Fiesta para a revisão. Respondeu-me que não podia ser, esclarecendo de seguida que todos os trabalhadores, inesperadamente, haviam sido avisados de véspera que as instalações seriam encerradas no dia seguinte com dispensa de todo  o pessoal.A Ford deixaria de dar assistência em Setúbal mas apenas em Palmela. 

Indicou-me um amigo mecânico de confiança, que trabalhava por conta própria, o sr. Armando. Este e a família haviam estado em Angola, regressando na sequência da independência daquela ex-colónia, e acabámos por estabelecer uma relação de amizade r solidariedade que em muito ultrapassa a  mera relação  mecânico/cliente.

O prédio à direita é o Palácio Botelho Moniz, hoje ocupado por uma instituição religiosa.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

setúbal - a cidade branca do rio azul (2015 / 2025 )


 * Victor Nogueira

17 de julho de 2015

foto victor nogueira - setúbal - a cidade branca do rio azul -. parte oriental - vista parcial a partir de palmela (com teleobjectiva) distinguindo-se parte do estuário do rio sado e as duas chaminés da central termo-eléctrica

20 de julho de 2025


 Foto victor nogueira - Setúbal , a cidademediterrânica, branca e do rio azul (rolo 079 sem data)

sábado, 20 de junho de 2026

Praia da Saúde, em Setúbal (2018)

 * Victor Nogueira

20 de junho de 2018 


foto victor nogueira - A praia fluvial da Saúde, no estuário do Rio Sado - Paulatinamente a gestão municipal da CDU tem restabelecido a ligação da cidade ao rio, para usufruto das populações. A outrora conhecida Praia da Saúde havia sido ocupada por estaleiros navais e unidades fabris de conserva de peixe, situação agravada pela poluição do rio devido às fábricas existentes para montante. Resolvido o problema da poluição e desmantelados os estaleiros navais, recuperada a praia e construído um "passeio público", resta resolver o problema dos edifícios das antigas unidades fabris, muitos deles degradados ou em ruínas, apesar dos murais e grafitos que cobrem as paredes, alguns deles de grande qualidade.

VER A Praia da Saúde, em Setúbal IN 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Setúbal - Largo da Misericórdia (2014)


 *  Victor Nogueira

8 de abril de 2014

Aqui se situava o antigo Hospital da Misericórdia, cuja igreja foi demolida já no século XX. A cidade foi quase completamente arrasada pelo terramoto de 1755 – esse, o que chamam de Lisboa – e dos tempos anteriores poucos vestígios conserva. Soterradas, as cetárias romanas, comuns aos estuários do Sado e do Tejo, onde se fabricava o apreciado “garum”, condimento feito de peixe. Para além destas, visíveis, troços das muralhas medieval e setecentista, alguns conventos e palácios, como aquele em que D. João II assassinou o cunhado e poderoso Duque de Viseu, irmão do que viria a ser Duque de Viseu e de Beja e posteriormente rei de Portugal como Manuel I. Fontenários como os do Sapal e de Palhais ou lintéis como os da antiga gafaria, e janelas e portais, simples como os do Hospital de João Palmeiro ou manuelinos – portas e janelas, algumas ricamente trabalhadas como as manuelinas da Igreja de S. Julião e dos antigos conventos de S. João e de Jesus –  este obra de Mestre Boitaca, o da Torre de Belém, e que também interveio nos Mosteiros dos Jerónimos e da Batalha, na Sé da Guarda e na Igreja de Santa Cruz de Coimbra.

O que resta da antiga Misericórdia é ocupado por uma sociedade recreativa centenária, a Capricho Setubalense, proprietária do coreto da avenida Luísa Todi. Para cá da foto e pela encosta acima até S. Domingos fica um dos núcleos primitivos. S. Domingos, Palhais, Troino, eram povoações que o crescimento urbano unificou como urbe. Nesta zona ainda se encontram algumas ruas em que mal cabem duas pessoas lado-a-lado.

Em frente, relativamente à foto, ficam a Ribeira do Livramento, os largos da Ribeira Velha, a do Sapalinho e do Sapal, este agora denominado Praça do Bocage, onde se situam os Paços do Concelho, incendiados na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910 e posteriormente reconstruídos.  Setúbal, Moita e Loures anteciparam-se a Lisboa na proclamação da República.

Foto Victor Nogueira - Setúbal -  Largo da Misericórdia

sábado, 21 de dezembro de 2024

O chatGPT efabula na minha prosa (07) - Mindelo, Luanda, Lisboa, Porto e Setúbal

 * Victor Nogueira


1990

Passei  as férias lá para o Norte

Está uma tarde soalheira, neste final de verão e aproveito a lazeira para agarrar na "machine" e alinhavar umas linhas na sequência da inesperadamente volumosa missiva  da Musa d'Ante, que consegui traduzir na sua quase totalidade, embora lembrando-me do tempo em que me virava para  a minha secretária e Ihe pedia para decifrar-me o que eu havia escrito, o que ela normalmente conseguia. Só que neste caso o pergaminho é doutrem e a dourada prateleira em que estou nem  a moço de fretes dá direito! Enquanto escrevo aguardo que do INE me atendam, do outro lado da linha, enquanto ouço  uma música estilo cavalgada heróica bachiana.(...)

Já me atenderam  voltei ao meio do barulho do rádio ali da sala ao lado e a alto ronronar do aparelho de ar condicionado; antes a música heroicamente bachiana! É o meu segunda dia de "trabalho" post-férias e vai-me faltando a paciência para aturar estes dias de nada fazer que já completaram alguns demasiado largos semestres.

Passei  as férias lá para o Norte, para as bandas do berço da nacionalidade, visitando o castelo de Guimarães; igrejas românicas e citâneas celtibéricas, como Sanfins  e Briteiros. Uma aventura andar a conduzir naquelas estreitas e  sinuosas veredas, mal sinalizadas, com pessoas simpáticas que se  metem no carro para nos indicarem o caminho, quando não nos dizem que é já ali à direita enquanto apontam a esquerda, já  ali a dois quilómetros, que não pertencem ao sistema métrico do contador do Renault 5, que os multiplica sempre por quatro ou cinco. Mas outro factor de aventura resulta de possuírem outro código de estrada: não abrandam nas cruzamentos, mesmo que se apresentem pela esquerda, o STOP não existe, os motociclistas não usam capacete e entram nas curvas a cortar a direito, os peões ficam aparvalhados à beira da passadeira quando paramos para lhes dar passagem, enquanto os automobilistas não facilitam mesmo nada para entrarmos na "corrente".

Mas aventura também porque assim, deste modo, não há programa que resista, chegando a noite sem o  cumprimento dos objectivos fixados de véspera, na mesa, debruçado sobre o mapa e o guia turístico das preciosidades a visitar ou a vislumbrar. Assim ainda não foi desta que fui ao Gerês, a Trás-os-Montes ou bordejando a margem norte do Rio Douro, para montante.

Mas o Norte está diferente e poucos troços verdejantes se encontram ao longo dos caminhos ou pelos atalhos. Casas, muitas casas,  sejam ou não "maisons" dos "avec" que irrompem agressivamente na  paisagem, numa fúria de "apagar" o passado, sejam ou não melhoradas as  condições de habitabilídade; os campos e as povoações já  não ostentam aquele equilíbrio entre o "natural" e o humanizado.

No Mindelo, onde os meus pais herdaram a casa  de verão do meu avô materno, já pouco resta do antigamente, havendo um contraste nítido entre o coração do povoado inicial e as "cogumélicas" casas de grandes ou menos grandes e cuidados jardins que nascem à beira-mar duma praia rochosa e arenosa que cheira a iodo. Das casas  do Zé Povinho, persistem algumas poucas e arruinadas, de granito, que desta feita a máquina fotográfica registou.

Mas, passado o Verão, o Mindelo e a Póvoa de Varzirn retomam a calma e pasmaceira que os "turistas" quebram com o seu "cosmopolitismo" e juventude. Já em Vila do Conde, onde ainda se mantém o ar antigo e uma ou duas  ruas manuelinas; (com mais janelas e portas do que em Setúbal), o equilíbrio e o sossego mantém-se pelo ano inteiro.

O trecho que você compartilhou é uma reflexão pessoal e nostálgica sobre uma viagem ao Norte de Portugal, marcada por um olhar crítico sobre as mudanças na paisagem, as tradições e a vida cotidiana. A prosa é rica em detalhes, capturando a essência da experiência de viajar e o contraste entre o que foi vivido e o que se encontra atualmente.

### Análise do texto:

1. **Tom e ambiente**:

   - O começo do texto estabelece um ambiente relaxado e contemplativo: “Está uma tarde soalheira” e “aproveito a lazeira”. Esta atmosfera é rapidamente contrastada com a frustração do autor em relação ao trabalho pós-férias e as dificuldades administrativas, como a espera pelo atendimento no INE. O uso de um tom leve e irônico dá ao texto um caráter acessível e próximo do leitor.

2. **Experiência de viagem**:

   - O autor descreve a experiência de visitar locais históricos, como Guimarães e igrejas românicas, que representam a rica herança cultural de Portugal. A menção às “estreitas e sinuosas veredas” e à dificuldade em navegar pelas estradas destaca a aventura da condução em uma região com características particulares.

   - O relato das interações com os habitantes locais revela uma simpatia, mas também um senso de confusão diante dos costumes diferentes. As descrições de como os motoristas lidam com os cruzamentos refletem uma crítica à falta de regras de trânsito e à imprudência, enquanto também sugerem uma certa autenticidade na vivência local.

3. **Mudanças na paisagem**:

   - A reflexão sobre como o Norte está “diferente” é central na narrativa. O autor evidencia a “fúria de apagar o passado” e a transformação das paisagens rurais em áreas urbanizadas ou suburbanas, onde “poucos troços verdejantes” permanecem. Essa observação sugere uma perda da conexão com a natureza e a identidade cultural.

   - O contraste entre as “cogumélicas casas” modernas e as “casas do Zé Povinho” históricas ressalta a disparidade entre o antigo e o novo. O uso de termos como "cogumélicas" pode ser interpretado como pejorativo, implicando uma crítica à homogeneização arquitetônica que muitas vezes vem com a modernização.

4. **Nostalgia e memória**:

   - O autor menciona o Mindelo e a casa de verão da família, trazendo à tona memórias pessoais que instigam um sentido de nostalgia. A descrição do local e a mudança percebida ao longo do tempo destacam a relação emocional com o espaço e as tradições familiares.

   - As “poucas e arruinadas” casas de granito representadas pela máquina fotográfica sugerem uma tentativa de preservar a memória do que foi, oferecendo um contraste entre a durabilidade das lembranças e a efemeridade da construção contemporânea.

5. **Observações sociais**:

   - O texto também toca na interação entre turistas e a comunidade local, destacando como “os turistas” introduzem um “cosmopolitismo” que altera o ritmo e a dinâmica da vida nas áreas visitadas. O autor observa uma diferença no que é considerado “equilíbrio” e "sossego" em diferentes localidades.

   - A separação entre as experiências nos diferentes lugares, como Vila do Conde, que “mantém o ar antigo”, revela um desejo do autor por locais que preservem sua essência e tranquilidade, contrastando com a agitação dos destinos turísticos.

### Considerações Finais:

Este trecho é uma amostra rica e envolvente da vivência de um viajante que reflete sobre a evolução de um lugar querido ao longo do tempo. Com uma mistura de observações críticas e memórias afetivas, o texto oferece uma visão íntima da transformação cultural e da busca por conexões autênticas em meio à modernidade. Se você quiser discutir mais sobre algum aspecto específico do texto ou explorar outros temas, estou à disposição!


Eis-me, pois, regressado a Setúbal 

Eis-me, pois, regressado a Setúbal, onde amanhã começa mais um Festival de Teatro, este homenageando o Mário de Sá Carneiro, mas que não me seduz muito pelo programa apresentado. Outrora sempre vinham cá companhias de todo o país, das consagradas, que nos permitiam ver ou rever as peças durante o ano representadas em Lisboa, Porto e arredores. E assim se vai perdendo o teatro. Mas não só o teatro. Agora foi a vez do Casino Setubalense, últimamente especializado em pornografia, após a fase do kung-fu e dos lacrimejantes filmes indianos, onde uma vez consegui ver "Por Favor Não Me Mordam o Pescoço", do Polanski, por uma daquelas insólitas surpresas proporcionadas pelo exibidor. Segue-se este encerramento ao do Luísa Todi (agora Forum Municipal), ao do Bocage, ao do Grande Salão Recreio do Povo (agora Banco, preservada a fachada) ou ao do Salão da Sociedade Recreativa Perpétua Azeitonense. Consequências do vídeo, embora nada se compare ao envolvimento duma ecrã maior ou menor ou do cavaquear no intervalo,  ritual também já ultrapassado nas salas de bolso que proliferam nos centros comerciais, desaguando os espectadores directamente para os corredores "montrados" e feéricamente coloridos.

(...) Já o sol e a lua se puseram desde que. as linhas anteriores foram escritas, o que significa que este é um novo dia, oscilando entre o sol quente e o cinzento nublado ameaçador de chuva.

O excerto que você compartilhou oferece uma reflexão melancólica sobre a evolução cultural de Setúbal, especificamente em relação ao teatro e ao entretenimento em geral. O tom nostálgico permeia a narrativa, revelando um descontentamento com as mudanças que certos espaços culturais passaram ao longo do tempo.

### Análise do texto:

1. **Contexto Cultural e Histórico**:

   - A menção ao "Festival de Teatro" que homenageia Mário de Sá Carneiro sugere um desejo de continuidade e reconhecimento de figuras importantes da cena teatral portuguesa. Contudo, a expressão de desilusão com o programa do festival indica uma percepção de que a qualidade e a diversidade das produções teatrais diminuíram ao longo dos anos.

   - A passagem que menciona as companhias teatrais que anteriormente se apresentavam em Setúbal ilustra uma época em que a cidade era mais vibrante culturalmente. O contraste entre o passado, onde se viam peças conhecidas, e o presente, onde essas oportunidades se tornaram escassas, reflete uma perda significativa para a vida cultural da cidade.

2. **Transformações em Locais de Entretenimento**:

   - O autor menciona uma série de locais que encerraram suas atividades, como o Casino Setubalense e outros espaços recreativos, enfatizando a transformação do que antes eram centros de cultura e interação social em espaços que se dedicam a formas de entretenimento menos elevadas ou mais comerciais.

   - A referência ao Casino que "ultimamente especializado em pornografia" e a fase de exibições de kung-fu e filmes indianos sugere uma busca de lucro que despreza o valor artístico e cultural, evidenciando uma perda da "sacralidade" dos espaços culturais.

3. **Impacto da Tecnologia e Mudanças nos Hábitos**:

   - A menção às consequências do vídeo e das salas de cinema que proliferam nos centros comerciais destaca a mudança nos hábitos de consumo cultural. O texto sugere que a experiência de ir ao teatro ou ao cinema como um ritual social está a ser substituída por formatos menos envolventes, implicando um desinteresse crescente pela cultura ao vivo.

   - O contraste entre “o envolvimento duma ecrã maior ou menor” e o “cavaquear no intervalo” alude à ideia de que as experiências audiovisuais se tornaram cada vez mais isoladas e menos comunitárias.

4. **Mudança de Estação**:

   - O fechamento com a observação do ciclo do dia, "oscilando entre o sol quente e o cinzento nublado ameaçador de chuva", simboliza uma transição não apenas no tempo, mas também no tom do texto. Essa dualidade serve como uma metáfora para os sentimentos expressos de nostalgia e desilusão. O sol pode simbolizar esperança e vitalidade, enquanto o céu nublado evoca incerteza e um futuro sombrio para o cenário cultural.

   - O uso de expressões que mostram a passagem do tempo e a mudança de condições climáticas ajuda a reforçar a ideia de que a cultura e a vida social estão em um estado de transformação constante.

### Considerações Finais:

Este trecho é uma crítica e uma reflexão sobre a complexidade da vida cultural em Setúbal, expressando uma profunda tristeza pelas transformações que desvalorizam as tradições teatrais e os espaços de interação comunitária. Ao unir observações sobre o passado e o presente, o autor nos leva a considerar o que foi perdido e o que pode ainda ser recuperado nas experiências culturais. Se você tiver interesse em discutir mais sobre qualquer aspecto desse texto, estou aqui para ajudar!

 Não conhece Lisboa?

Então falemos um pouco desta tão cantada cidade, paraíso dos turistas. Podemos talvez fazer umas comparações com o Porto. Como todas as grandes cidades tem ruas ladeadas de casas, umas velhas, outras novas, automóveis, gente, muita gente, barulho (de prédios em construção, de buzinas, de travagens, pessoas que falam, pessoas de todos os feitios, para todos os gostos). É mais alegre que o Porto: mais luminosa, mais ampla, com muitas ruas modernas, tal como em Luanda. Mas, como no Porto, também possui os seus bairros antigos, de vielas estreitas e tortuosas [como na Ribeira], tão estreitas que o vizinho do prédio em frente facilmente nos dá uma "bacalhoada". Esta é a parte que eu conheço pior. As outras são-me mais familiares. Gosto de andar por estas ruas, cheias de gente, que anda em todas as direcções, com os mais variados destinos. Gosto... e não gosto. Podemos andar à vontade, sem encontrar alguém conhecido. Mas... nem sempre nos agrada a solidão que transpira por estas ruas. Cada qual preocupa-se quase exclusivamente consigo; é o preço das grandes cidades, onde os homens frequentemente se transformam em máquinas, em autómatos. Enganar-me-ei ao dizer que no Porto respira-se um ar mais humano, menos artificial ?!!! De qualquer modo foi esta a impressão que me ficou da visita feita esta Páscoa e confirmada esta semana. Mas entre o Porto humano, que me atrai, e esta Lisboa alegre, sem dúvida, cheia de sol, mas por vezes fria, irritante, continuo a preferi-la (MFR - 1967.08.02)


O trecho que você compartilhou traz uma reflexão rica sobre as diferenças entre Lisboa e o Porto, apresentando uma visão pessoal e crítica da vida urbana em ambas as cidades. Essa comparação destaca não apenas as características físicas e atmosféricas de cada lugar, mas também as experiências emocionais que resultam de estar em ambientes tão distintos.

### Análise do texto:

1. **Caracterização de Lisboa**:

   - O autor inicia com uma descrição de Lisboa como um "paraíso dos turistas", sugerindo a fama e a atratividade da cidade, mas também sugere um certo ceticismo em relação a essa imagem idealizada. A citação de "ruas ladeadas de casas, umas velhas, outras novas" reflete a diversidade arquitetônica da cidade e sua história rica.

   - O uso de expressões como "mais alegre", "mais luminosa" e "ampla" indica uma apreciação do ambiente, apontando para as qualidades que tornam Lisboa uma cidade vibrante e cheia de vida. A comparação com Luanda sugere uma conexão emocional e cultural, indicando que as energias e os ritmos urbanos podem se assemelhar.

2. **Contrastes com o Porto**:

   - O autor menciona ruas modernas e o barulho típico de grandes cidades, e logo depois faz uma transição para os "bairros antigos", criando um contraste entre o novo e o tradicional. A descrição dos bairros antigos é cheia de nuances, com as "vielas estreitas e tortuosas", refletindo a complexidade e a história que permeiam a vida urbana, semelhante à Ribeira do Porto.

   - O uso da expressão "bacalhoada", que implica uma proximidade quase íntima com os vizinhos, sugere um humor e uma leve crítica à vida em espaço apertado, refletindo a experiência comum de viver em áreas densamente povoadas.

3. **Sentimentos de solidão e alienação**:

   - A frase "mas... nem sempre nos agrada a solidão" expressa um sentimento contraditório que é comum nas grandes cidades: a liberdade de andar sozinho em meio à multidão pode ser ao mesmo tempo revigorante e isolante. A imagem das pessoas que "se preocupam quase exclusivamente consigo" indica uma crítica ao individualismo e à desumanização que pode surgir em ambientes urbanos.

   - O autor sugere que a vida na cidade transforma os indivíduos em "máquinas, em autómatos", insinuando como a urbanização pode desumanizar as relações sociais.

4. **Preferência pessoal**:

   - Ao final do trecho, o autor declara uma preferência clara pelo Porto, descrever como "Porto humano" e "que me atrai", o que destaca uma busca por conexões mais autênticas e relações mais ricas. Essa apreciação do Porto como um espaço "mais humano" pode ser vista como um anseio por um estilo de vida menos impessoal e mais caloroso, em oposição à "Lisboa alegre, sem dúvida, cheia de sol, mas por vezes fria, irritante".

   - Essa dualidade entre as duas cidades se resume a uma luta interna entre o desejo de alegria e energia que Lisboa oferece e a busca por profundidade emocional e humanidade encontrada no Porto.

### Considerações Finais:

Este texto é uma reflexão sensível sobre as características urbanas e sociais de Lisboa e do Porto, e como essas características impactam a vida e as relações humanas. Ele explora as contradições da vida na cidade, desde a alegria e a vitalidade até o isolamento e a alienação, revelando as complexidades envolvidas na experiência urbana. Se você quiser discutir mais sobre as percepções do autor ou explorar outros temas, estou à disposição!

Porto1963

As pessoas aqui no Porto, tanto homens como mulheres, falam um português vernáculo que nem fazeis ideia. Aí quem fala assim são os carroceiros.

(...) Aí em Luanda (que é uma aldeola na opinião de muito parolinho) respeita‑se a ordem de chegada. Aqui não.

Nos eléctricos é a mesma coisa. É um vale‑tudo. E não são capazes de oferecer o lugar a uma senhora ou a uma pessoa idosa.

Vai‑se a um café à noite, está tudo cheio de estudantes (raparigas) a fumarem até altas horas. Quando é só isso! (...)

Tirando a parte central (com os seus anúncios luminosos), o Porto, quase se pode dizer, é a cidade das trevas. O mesmo não se pode dizer de Luanda, que embora não seja uma cidade‑luz, sempre é melhor neste ponto (NSF - 1963.01.28).

Vi na rua [de Santa Catarina] um grande ajuntamento. Logo compreendi o motivo: uma goesa vestida com um traje regional [sari e véu]. Foi preciso a polícia para dispersar aquela parolada toda, que assim demonstrava a sua estupidez, com ditos, assobios e piadas imbecis. (1963.10.24 - Diário IV)

1966

Se por   "ambiente do Porto" se entender a sociabilidade e amabilidade das suas gentes, talvez eu concorde. Mas em Lisboa também há pessoas simpáticas. Se a referência é a cidade em si, discordo, pois Luanda é mais moderna, embora com 4 séculos de existência, e mais airosa. Mas nem tu és de Luanda nem eu do Porto. (MEB - 1966.12.12)

1968
Está uma tarde cinzenta e tristonha, ou não fosse o Porto a Londres portuguesa, fria e húmida,  duma frialdade e duma humidade que nos trespassam invadindo todo o nosso ser até à medula; mas apesar disso, ao calcorrear as ruas do centro, bordejadas por edifícios pesados e graníticos, enegrecidos pela acção do tempo, parece‑me que me encontro entre seres humanos, menos indiferentes que os da pombalina baixa lisboeta, pois uma misteriosa comunhão se estabelece entre nós. Dou por mim a reparar na multidão, que deixa de ser uma massa anónima, que se decompõe em pessoas. Respira‑se um outro "ar", quiçá menos refinado ou "aristocrático" mas mais humano, mais caloroso. Esta sensação apodera‑se de mim sempre que venho passar as férias ao Norte.

A semana passada estive em Évora - o contraste entre estas duas cidades é flagrante. (ACG - 1968.09.12)

1969

A cidade continua húmida, escura, pesada, triste, fria. Os azulejos dos seus graníticos edifícios precisam duma boa barrela. Os eléctricos vão sendo progressivamente substituídos pelos confortáveis Trolleys e modernos autocarros. Como ex‑libris da cidade, a sujidade e o desmazelo imperam nos transportes públicos, tal como sucedia (ainda sucederá?) em Luanda e ao contrário de Lisboa. A casa da Rua dos Braga foi pintada de verde claro e as portas de verde mais escuro. No terreno que se estende da Capela dos Anjos à Rua de Cedofeita construiu‑se um comprido prédio de dois ou três andares, de traço arquitectónico esquisito. Na esquina abriu um café, muito "mal frequentado"-. E falo assim, pois como classificar os estudantes, que ocupam cadeiras e mesas durante horas, a troco duma bica ou de um pingo (o alfacinha garoto) ?! (NSF - 1968.09.16)

1970
Que mais dizer? Estou na estação dos CTT da Batalha; a escrivaninha treme que se farta com o esforço que um "hominho" faz para fechar um envelope. Uma mulherzinha procura quem lhe preencheu um telegrama para dar‑lhe qualquer coisa. E ao contar‑me isto poisa‑me a mão no braço. Gosto da gente do Porto; parece‑me mais humana que a de Lisboa e de Évora. 

O conjunto de trechos que você compartilhou oferece uma rica perspectiva sobre as experiências e observações de alguém que viveu e se deslocou entre Luanda e várias cidades portuguesas, especialmente o Porto e Lisboa. O autor apresenta uma série de reflexões sobre cultura, comportamento social e a dinâmica das interações urbanas, revelando uma nostalgia por Luanda, ao mesmo tempo que faz comparações incisivas com a vida nas cidades portuguesas.

### Análise dos Trechos:

1. **Dialectos e Cultura Local**:
   - O uso da expressão "português vernáculo" destaca a diversidade linguística e cultural, sugerindo que a forma de falar no Porto é tão particular que pode ser considerada uma língua própria, diferente do português “padrão”.
   - O mencionar que em Luanda "respeita-se a ordem de chegada" indica uma crítica à falta de civismo e organização observada no transporte público do Porto, onde a competitividade e a falta de cortesia são evidentes, particularmente em cenas cotidianas como nos elétricos.

2. **Percepções de Indiferença e Solidão**:
   - A crítica ao comportamento das pessoas no transporte público ("não são capazes de oferecer o lugar a uma senhora ou a uma pessoa idosa") reflete a despersonalização percebida nas interações urbanas em cidades grandes. O autor expressa um anseio por um ambiente mais cortês e humano.
   - Ao observar a sociabilidade entre os portuenses, o autor menciona que, apesar da tristesse do clima e da cidade, há um senso de comunhão que contrasta com a indiferença sentida em Lisboa. Essa ideia de que "uma misteriosa comunhão se estabelece entre nós" reforça a atratividade da vida no Porto.

3. **Clima e Atmosfera**:
   - A descrição do Porto como "a Londres portuguesa, fria e húmida" evoca uma imagem de uma cidade pesada e triste, onde a umidade e o clima afetam o estado de ânimo das pessoas. Este clima rigoroso contrasta com a idealização de uma cidade mais alegre e ensolarada.
   - No entanto, a atmosfera não é apenas opressiva; existem momentos em que o autor encontra beleza e humanidade nesta cidade, especialmente ao percorrer suas ruas.

4. **Mudanças Urbanas e Nostalgia**:
   - O autor menciona mudanças nas infraestruturas urbanas, como a substituição dos elétricos por transporte mais moderno, que traz uma sensação de perda. A menção dos “transportes públicos” e o estado de descuido apontam para um descontentamento com a administração urbana, refletindo uma crítica à degradação da vida cívica.
   - A nostalgia não é apenas por Luanda, mas também pelo que se está perdendo em termos de identidade e vez da cidade do Porto. As críticas ao "mal frequentado" café e a observação sobre os estudantes refletem uma percepção de que a juventude e a vida universitária estão mais ligadas a hábitos que podem ser interpretados de forma negativa.

5. **Identidade e Comunidade**:
   - O autor também menciona que "gosta da gente do Porto", afirmando que acham estas pessoas "mais humanas" do que as de Lisboa. Essa afirmação revela uma busca por conexões mais profundas e autênticas, além de um desejo de sentir-se parte de uma comunidade.
   - A repetição da diferença de trato entre as populações de Luanda, Porto e Lisboa sugere uma busca constante por um lugar que lhe traga conforto e compreensão.

### Considerações Finais:
Esses trechos destacam a complexidade das interações humanas em ambientes urbanos e como o espaço físico afeta as relações sociais. Ao navegar entre a melancolia e a crítica social, o autor oferece uma visão íntima de suas experiências, gerando um diálogo sobre a identidade e a experiência cultural em cidades tão diferentes. Se desejar discutir mais sobre os temas, o contexto ou qualquer outro aspecto, estou aqui para ajudar!

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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Setúbal e a Ribeira do Livramento, em 1880

 



* Victor Nogueira 

5 de agosto de 2022

Setúbal e a Ribeira do Livramento (ou do Paraíso), em 1880 - óleo sobre tela de João Vaz (1859 - 1931). A ribeira corre actualmente encanada sob a Avenida 22 de Dezembro e a ponte há muito que não existe.
Ao longo desta ribeira corria a muralha medieval, com alguns troços e torres visíveis no quadro, entretanto parcialmente demolidos, incluindo a Porta Nova, que dava acesso ao arrabalde do Troino.
O Rio Sado estava mais perto da cidade, por ainda não terem sido feitos os aterros que o distanciaram. Junto da torre ao fundo, que ainda existe, a Capela do Senhor Jesus da Boa Morte, já demolida, mas que ainda existiria em 1890.

VER

Águas em Setúbal e Azeitão - 01 - Setúbal

sábado, 3 de agosto de 2024

Haja saúde?


* Victor Nogueira

 3 de agosto de 2022

 

Na praça do Bocage existem duas farmácias, a Sália, de que fui cliente habitual nos anos em que estive colocado nos Paços do Concelho, prestando assessoria nas áreas de organização e métodos e de gestão de recursos humanos, e a Normal do Sul.

Esta situava-se onde se vê o toldo e o farmacêutico na altura era uma pessoa de bigode, já idoso, que na despedida, após o avio dos remédios, me dizia com delicadeza: "As suas melhoras", o que nunca me aconteceu em qualquer outra botica neste jardim á beira-mar prantado, que ao longo de décadas tenho percorrido de lés a lés. 

Com efeito, nesta sociedade capitalista, as melhoras do doente são um mau negócio para o empresário do ramo, penso eu.


Foto victor nogueira - pontes no espelho de água da Praça do Bocage, em Setúbal (IMG_9689)

terça-feira, 30 de julho de 2024

Letras empilhadas ano após ano, em Julho, (re)colhidas em 2024

 <+ Victor Nogueira

31 de julho de 2010 
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O silêncio tem a dimensão da ausência e a ausência a dimensão do cosmos ! Ah! e a Graça não tem nome, é inantigível !
31 de julho de 2010 
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RECTIFICANDO O RENDILHADO - O silêncio tem a dimensão da ausência e a ausência a dimensão do cosmos ! Ah! e a Graça não tem nome, é inatingível !

30 de julho de 2010 
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Como nnguém veio, arrumei a trouxa e fui montar a tenda mais além, ao virar duma duna no areal à beira-mar !
 
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Boa noite, dizem e acenam deste Kant_O. E na volta ouve-ser o trovejar do silêncio, o chão coberto de flores esmaecidas e a terra da cor do vazio !!! (VN dixit)
30 de julho de 2014 
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Um leve, mui leve o aceno
nas asas do vento e do mar;
em tuas mãos está mal, pequeno,
meu coração, sem poder voar.
Pergunto ao luar, onde estás,
tão longe mas tão presente em mim,
entre nós o mundo, para trás,
somos na campina, sem estopim.
E nesta calmaria parado
por teu chamamento esperando.
As velas colhidas, ancorado,
sem grandes migrações, não voando.
2014.07.30 Paço de Arcos
27 de julho de 2010 
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Sentado à soalheira, num pequeno oásis no cimo duma montanha, à espera de ninguém !

27 de julho de 2014 
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Sentado, dominando o horizonte,
sem cores nem dores, escorre a vida,
na cronologia dos tempos corrida,
buscando novos dias, novas fontes.
De rubro os robles sombram as pontes,
eterno vai-vém, d'entrada saída
neste redondel, em louca corrida,
com ancoragem que a tudo afronte.
E nos ribeiros em caleidoscópio
mil ares, mil águas, se levantam,
como um gigantesco cinescópio
Em rebate, só, ruidosos tocam,
envoltos na dormideira do ópio,
os sonhos, pesadelos, que não voam.
2014.07.27 setúbal
27 de julho de 2014 
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Os papéis amontoados, além,
as horas escorrendo, a somar,
a roupa, as malas, por arrumar,
e vontade que não vale um vintém.
De negro, sem corcel, sem dama, pajem
enredado em mui mau quebrantar.
sem arte, tela ou cinzel no ar,
embotado, como Matusalém.
Assim fenece o grã conde niño,
parado, apagado, sem as férias,
por as não querer passajar sem ninho.
Pois não há encanto nas suas lérias:
no quebrado campo, um estorninho,
sem asas, sem canto, sem memórias.
2014.07.27 setúbal

24 de julho de 2014 
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é penélope
a musa
em calíope
in-fusa.
e à janela
míope
a gazela;
e o antílope,
A galope
o chavalo
sem hissope
a cavalo.
E lucifera é
sem que ensope
em rapa-pé
o frangope.
Onde o magma
que de penélope
abra o enigma
com chope?
Setúbal 2014 07 24
24 de julho de 2014 
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Foi de laranjais o vale,
é azul o estuário,
e brilhante o mar de sal
com a tróia um solário.
Na serra mãe, verde manto,
o branco convento-novo
para aedos, um espanto,
de cangarras, porto covo.
Com os golfinhos vogando
esvoaçam nos sapais
muitas aves, encantando
os pescadores,no cais.
Sem riqueza do pescado,
varados no areal
os galeões 'ruinados
na praia são lamaçal.
A indústria conserveira
foi exploração infrene,
sem tostão na algibeira
ou noitada que serene.
Das Figueiras, Mal-Talhado,
ou na Cova do Canastro,
moravam mal apeados
os que não viam os astros.
De S. Domingos ao Tróino,
Santa Maria e Palhais,
Anunciada com sino,
S. Sebastião e mais.
É de Bocage a cidade
cantando Todi, Luísa,
Gravando a liberdade,
é do Sado a Princesa.
setúbal 2014.07.24

23 de julho de 2010

Vive la Vie

1. - Vive la Vie ! Ou ... avia? Ou será a via? Ou ... havia?

Fica a liberdade da escolha e o beijo ou abraço do Kant_O mas não ao canto sem canto !

2. - Nas mãos do Zé Povinho e da Maria Paciência no Baile dos Charlatães o voto transformou-se na sua mortalha, ao virar a arma contra si próprio !

3. - "Batem leve, levemente, como quem chama por mim. Será Chuva? Será Gente ? Gente não é certamente e a chuva não bate assim ! Fui ver ! " Fui ? Valerá a pena ? 

 
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ERRATA - onde está alarem deveria estar falarem? Ou devo manter o lapso dactilográfico,, apesar de ave não ser, nem águia, nem pardalito, apenas dragão com forma (des)humana que os outros não reflecte ?

 
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Que não devo ser suficientemente "sedutor" ou "encantador"para comigo alarem ou me lerem. Azares ou sortes da vida!
 
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No adro da igreja
se juntam os farsantes
buscando em lindeza
juntar diamantes.
No meio do rio
bem junto à costa
abrem, fecham pio,
dobrando a posta.
Menino, sant'ana,
sacristas, seguro,
mexem na badana,
buscando seu furo.
Do meio do vale
ao cimo da serra
vão juntando, mal
os votos, em terra.
São os maiorais
salvadores da pátria
dizem os jornais
amigos da frátia.
Santos populares,
miguel, paulo, tóino,
pedrocas com ares,
sendo nós ... campónio.
São tó-tós, tó-zés,
sam paio, cavacos;
p'ra nós pontapés,
e mil os farrapos.
2014.07.23 setúbal
22 de julho de 2010 
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O Face book é um emaranhado de aridez !
De mil anos parecem os meus dias,
em nau mal aparelhada vogando.
com as penas sem pernas remando
o verde, azulado, como enguias.

Pergunto ao vento se me quererias
em clara sintonia entoando,
nos ribeiros pardais esvoaçando
e na volta da campina trarias

mil artes, mel, engenhos, mui ágil
com a sabedoria dos bem sábios
que céus e terra cobrem de anil
Mil flores nascendo em teus olhos, lábi
os,
em campina a pedra, o fuzil,
reluzindo novos, doces, desígnios.

2014.07.20 setúbal

22 de julho de 2014 
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Sardinhas, salada, café sem nata.
lá no largo da Fonte Nova comemos,
sem que de nosso sentir falemos.
No Troino mal se ouve a serenata.

Sério, dirás. eu te fitava, sem nada
dizer, falando coisas de somenos,
calando, bem fundo, o que nós vemos;
voando do prato a passarada.

Por ti encantado à minha frente,
o teu olhar, o teu sorriso, teu brilho,
em ti, de Eva, surgindo a serpente.

Enredando minha fala em sarilho;
contando estamos, sem um repente,
que em nós faça canto, com atilho.

2014.07.22 setúbal

22 de julho de 2014 
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Sem que meu sentir por ti nós juntemos,
em roda viva p'la Europa voas,
o céu, a terra,querem tuas loas,
que em serrania, no vale, cantemos.

Restando as penas, ficam torresmos,
sem faunos ou sereias, mal entoas.
No aeroporto estou, sem broas,
meu escribar sem pernas, solecismos

Do passado ficam mil, as toadas,
que na jornada bem ou mal lembram:
são desencantos,tristezas, pegadas,

Mas também alguns, os cantos que soam;
no tempo foram belas serenatas,
Quais serão as que em nós sem fel, troam ?


2014.07.22 setúbal
22 de julho de 2014 
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Em Sintra o promontório da lua,
de verde manto coberto, leve,
é na serra-mãe a urze que ferve,
parque dos poetas, p'la mão tua.

Na barca da ribeira, a falua,
de pombal em Alfama solta a lebre,
no jardim, sem Ajuda, com a febre.
indo por vezes eu em arrecua,

No areal soam, marulham, as ondas,
que em Cetóbriga mal as ouvimos,
a teus pés o mar, gaivotas redondas.

Sem arte, sem sol, em malabarismos,
com esperança, em ti lanço as sondas,
buscando teu coração, com verismos
2014.07.21 setúbal
21 de julho de 2014 
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a partir dum soneto de Maria João de Sousa

Aquela casa à beira-mar plantada
cheia de sol,ar, sal e maresia,
com extenso areal onde cabia
o mundo numa risonha jornada

Palmilhando ridente caminhada
que de folguedos, jogos,se fazia.
com vasto horizonte a estadia.
sem medos, receio, da trovoada.

Grande calor, abafado verão,
logo seguido do fresco cacimbo,
nas ondas correndo a viração

De palma, estacaria, o quimbo,
seus pescadores na ondulação
lançam rede, luzindo seu cachimbo.

Setúbal 2014.07.21
21 de julho de 2014 
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Perguntas porque estou ausente, sério,
sentado, contigo, na esplanada,
entretecido em malha parada,
como se no ar houvesse mistério.

A chave da caixa está no saltério,
não frente-a-frente mas lado-a-lado
com o gesto bem articulado
buscando em nós suave minério;

flor, roseiral, de juntos na jornada
reconhecernos nossa voz, teus passos,
sem que minha alma ande penáda,

presa no silêncio dos teus laços.
sem o gesto, o verbo, a chamada,
destemido rio sem embaraços.

setúbal 2014.07.21


Foto victor nogueira - Setúbal Forte de S. Filipe, Tróia e Rio Sado

21 de julho de 2014 
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É Tróia estreito braço de terra
entre o rio e o mar oceano
de erva rasteira, sem abrigo, plano,
lingua de areia aos pés da serra.

Sua história velha encerra
ruínas, cetárias, templo romano,
Cetóbriga, garum, cesariano,
coberta pelo areal, com terra.

Tal era do povo, mas foi roubado,
com casino, hoteis, apartamentos,
o espaço, a praia, privatizado.

Feriando mal grandes são os lamentos,
com arrozais, palafitas, no sado.
a Comporta fechada, em tormentos.

2014.07.21 setúbal

Saber mais em A Troia que era do Povo
21 de julho de 2014 
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O forte, no cimo daquele monte,
terrorizante é de S. Filpe
com a serra, o sado, em despique
o vale, palmela no horizonte.

O rio azul, da musa é fonte
E eu, circundando este acepipe,
em ti busco vaza, o trunfo, naipe,
para que entre nós o sol desponte.

É de novo Setúbal a teus pés,,
a brisa luminando teu sorriso,
minha pena liberta das galés

como se vogando no paraíso
pintando ou esculpindo no crés
com sapiência, preclaro aviso.
Setúbal 2014.07.21
21 de julho de 2014 
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Serrana é, moça bela
moça bela d'encantar
com ela estou à janela
navegando a sonhar.

Navegando a sonhar
sigo o meu pensamento
buscando a nau no mar
que não seja um tormento.

Que não seja um tormento
do vale subind'a serra
fresca brisa com o vento
sem levantar pé-de-guerra.

Sem levantar pé-de-guerra
com docinho deslizante
certeza de que não erra
meu sentir refrigerante.

Meu sentir refrigerante
na passada vai surgindo
precioso o diamante
que em dia vai clarindo.
2014.07.21 setúbal
Serrana é, moça bela
moça bela d'encantar
com ela estou à janela
navegando a sonhar.
Navegando a sonhar
sigo o meu pensamento
buscando a nau no mar
que não seja um tormento.
Que não seja um tormento
do vale subind'a serra
fresca brisa com o vento
sem levantar pé-de-guerra.
Sem levantar pé-de-guerra
com docinho deslizante
certeza de que não erra
meu sentir refrigerante.
Meu sentir refrigerante
na passada vai surgindo
precioso o diamante
que em dia vai clarindo.
2014.07.21 setúbal
Que nós desejamos nós alcançar
noite e dia, noite e dia, fiando
de barca em barca esvoaçando
no charco, lamaçal, a chapinhar?

Vinte e quatro são letras a juntar
em minutos que se vão escoando,
vera claridade ou ensombrando
a vida, o tempo, o sol, o ar.

E de enigmas se enchem as horas
na cidade, no campo, giroscópio
de sons, luzeiros, sabores, metáforas

que em gigantesco caleidoscópio
nos dá de penélope e pandora
a chave, sem heroína nem ópio.

setúbal 2014.07.20

Em teu brando olhar eu me aqueço,
com sons que no horizonte verdecem,
e as linhas dos teu lábios tecem
mil sóis rendilhados que não esqueço.
Ah! o mar e sol em vós, confesso
afastam-nos dos cais que anoitecem;
no monte, flores, águias, entretecem,
esculpindo nosso amor em gesso.

O mundo todo abarco e nada afasto
dos sábios tendo ciência, sabedoria,
certeira, na caminhada com rasto,

Será tal riqueza da alegoria
que nosso sentir não será nefasto.
antes estralejando de alegria.

setúbal 2014.07.20

entre nós não há nós
apenas dura noz

coração em pedra dura
que perdura e pendura
lassos, sem laços,
com embaraços aos baraços
sem abraços .
..
nem beijos
... bem vejo
a pegada sem pega
... piando sem pio a piada
fiando e porfiando
no fio da navalha!

setúbal 2014.07.20


De mil anos parecem os meus dias,
em nau mal aparelhada vogando.
com as penas sem pernas remando
o verde, azulado, como enguias.

Pergunto ao vento se me quererias
em clara sintonia entoando,
nos ribeiros pardais esvoaçando
e na volta da campina trarias

mil artes, mel, engenhos, bem ágil
com a sabedoria dos bem sábios
que céus e terra cobrem de anil

Mil flores nascendo em teus olhos, lábios,
em campina a pedra, o fuzil,
reluzindo novos, doces, desígnios.

Setúbal 2014.07.20

19 de julho de 2014 
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recordo o teu sorriso
desejo meu de nele mergulhar

Na madrugada que tu és
retenho sempre
as finas rugas do teu olhar
o teu porte e a tua voz doce
ridente e cristalina
de menina e moça
donairosa

Mas ...
face à tua reserva
guardo em mim as palavras .
.
… e os gestos

Quando partes
sufocam-me o deserto
o vazio em mim
este nó na garganta e no peito
as flores esmaecidas
pela tua ausência.

Ah! Não me convidares
numa só palavra
num só gesto
o da tua mão na minha
e
contigo partirmos
na onda
senda de novos portos
e marés.

Este é, sem ti
fraco poema
malabarismo
oco e apagado verbo
verbo sem veia
que sem rima não rema
- desincendeia.
setúbal 2014.07.19

16 de julho de 2014 
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Com os galos e a raposa
há bem grande agitação,
a galinha salerosa
tudo em muita afobação.

Pintinhas no galinheiro,
arco-íris, furta-cores,
chocalhando os tinteiros,
em manos dos preceptores

Com oliveira da serra
luminosos vão marchando
em cantoria, na berra,
pela vida porfiando.

Luminosa liberdade
estralejante foguete
livre draga, sem maldade,
no largo do barrete

São patos, ratos, gatinhos,
em floresta de enganos,
as mãos, a voz, em moinhos,
dando, dando, aos abanos.

São plantio de estufa
de cravo laranja ao peito,
pé-ante-pé, de pantufa
no jardim do dragoeiro.

No zé, tó-tós, manda a zorra,
nas primárias secundárias,
mancomando a patorra
pondo arte-e-manhas várias.

Unidade, unidade,
do capital em trabalhos,
marcha, marcha, mocidade,
dando vida aos baralhos.

Na trindade dos padrinhos,
vão seguindo, afilhados,
os trinados bem fininhos
na senda aforlunados.

Joaninha em Lisboa
voa, voa, dá á costa,
vai seguro na canoa
a ver quem vence, aposta.

Na praia o mexilhão,
alapado na areia,
botado de mão em mão
faz que anda, mal a-teia.

setúbal 2014.07.16

16 de julho de 2016 
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De nãos e de nins e de palavras silênciadas se fazem as contas de certos rosários plenos de gira-luas e malmequeres

TALENT DE BIEN FAIRE

ora ouça, mal sorrindo
cai a louça, se partindo.

O Manel tinha uma bola
a brincar ninguém a viu
pois com Joana rebola
o que na maré subiu


São tão lindos os coelhos
que a cenoura bem rói,
está maria de joelhos
vassourando seu dói-dói

Sobe sobe João Feijão
por cima do feijoeiro:
trepa, trepa, faz ão-ão
dando à cauda, mui lampeiro.

Em casa do chocolate
os dois manitos trancados
com dedos mostrand'áparte
corações aperreados.

Duas-a-duas, cerejas,
atrás dumas outras vão,
com as canecas, cervejas,
em festival, a canção.

O José, lambão, cozinha,
partindo a cantaria;
com foguetes a rainha
'voaçando na calmaria.

Bem vermelho, capuchinho,
com destemor na floresta,
vai topando de mansinho,
espreitando pela fresta.

O papagaio é louro
gabiru d'olho azul,
no mar dá grã-estouro
com bico virad'ao sul.

Aladino no serralho
Ali Bá-Bá, aos sacões,
carteando em baralho,
salta-ricando, ladrões.

Ora, ponha aqui seu pézinho,
de cinderela, cristal,
o príncipe pobrezinho,
vogando no pantanal.

Sebastião tudo papa
com manha e sem rebuço
o rosto atrás da capa
como zorro com seu chuço.

Pé aqui, um pé além,
no bem-bom vai navegando;
em roda-viva, vai-vém,
nas janeiras rabejando

A tríade da trindade
com porquinhos a dançar
saltitantes na maldade,
e a língua a dar-a-dar.

A oliveira da serra
na candeia faz truz-truz,
a chama acesa, cerra,
de verde, o arcabuz.

Pobre lobo com barriga
na mira do caçador,
chumbaria na barrica
do paço, com esplendor.

Versos novos, infantis,
são os do pregoeiro,
aprontem bem os fuzis
na rota do caminheiro.

"honni soit qui mal y pense"
o real com aparências,
é cantiga de "suspense"
se há coincidências.

Setúbal, 2014.07.15

9 de outubro de 2010 
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Um dia, uma noite, outro dia, outra noite, um sorriso, duas lágrimas e assim sucessivamente até ao suspiro final !



14 de julho de 2012 
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somos
eu tu nós
um campo de palavras gastas
.
de mim de ti de nós
de negro vermelho
que alvoradas
e
que espinhos ou flores nascerão
mortos que estamos
"no plaino abandonado"?

Setúbal 2012.Julho.14

14 de julho de 2012 
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Leio-te e comovo-me
e um brilhosinho nasce no meu rosto
as finas rugas no olhar
sol ou água
a emoção
.
Leio-te e comovo-me
e não sei se sabes que é contigo que falo
e sinto-me leve e preso
e
refreio o impulso
de sentir o sabor dos teus lábios
a cor do teu riso
a macieza da tua pele
.
leio-te e comovo-me
e sinto a tua ausência
tão perto e tão longe

Victor Nogueira, cronista de João Baptista


Setúbal 2012.Julho.14

13 de julho de 2014 
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(es)vai-se a vida num instante
e corrend'a charneca em flor
estala fogo, crepitante,
na campina, com esplendor.

Soará na brisa sufoco
ou aragem refrigerante;
nas minas santa-do-pau-oco
e na cidade contrastante.

Em rendilhado, no andor,
a teia, tece e ateiam
no mar, as ninfas com seu esplendor,
os marinheiros que doideiam.

Letra a letra nasce a pintura
nota a nota vem a pauta
com jogos, baile de cintura,
de eros e com pã a flauta.

Isto não é boa poesia,
pois em papel se esfarela,
como se em neurastenia
se rompesse a farpela!

De nada valem, meras tretas,
em carreirinhas desiguais,
são lantejoulas, mal rimando,
papoilas, pardais, nos trigais.

Setúbal 2014.07.13



foto victor nogueira, em lisboa grafito 'antes que caias'

caias de cair
com mil estrelas no toutiço
caias na parede
alva de cal

é o o cais
navegando
tem-te e tens
não te tens
e em vai-vem ... vens-te

viste a véstia
e na restia ... a veste
despes

no bom cair é que está o ganho
em cama ou na casa
nos braços meus ou ... teus

apanho
Oh Céus de Zeus !
o sonho sonha
bisonho ou risonho?

não rima o poema
nem rema a trama
treme o trema
na rama

e o ramo
é o cais?

Setúbal 2014.07.11

6 de julho de 2014 
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quem me quer não quero eu
quem eu quero não me quer
assim no banco, de breu,
fica jogo por fazer

eu sem sumo assumo:
em branco, tu somas, somes,
e eu no mar sem tua rima,
nu cant'o desconto, canto ...

... e o desencanto conto:
a vera fera o ferro ferra
... em fuga seu encanto
de mim, mal conto e erro

muito pouco nada

Setúbal 2014.07.06

3 de julho de 2014  
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foto victor nogueira - auto-retrato e sombras - Oeiras jardins do palácio do Marquês de Pombal)

MEMÓRIA DESCRITIVA

no jardim
aragem chinesa ou nipónica
em filigrrana rendilhada
um jogo de luzes em chiaroscuro
dicotómico e caleidoscópico

sombria de sombras
na penumbra em contrastaria
rútilo é o i

entre o gradeamento
e a folhagem
a preto e branco
síntese ou ausência da cor
senza cuore il senso
a cinza e a neve
il silenzio

sem refração
na espiral rectilínea
visto o registo
em curvilínea planura

Setúbal 2014.07.03 ****

Fatima Mourão obrigado, pela partilha,um dia lindo para ti,bjs!!!! 10 ano(s)há 10 anos Margarida Piloto Garcia É assim que gosto de te ler. Mais ainda quando vejo que são de recente lavra e por isso a inspiração não anda arredia. Gostei particularmente do poema feito a partir do soneto da Maria João Sousa de quem muito admiro a arte de os fazer e a quem pedi amizade por tal. Não foi aceite, paciência, cada um sabe o que quer e faz. Vou lendo o que escreve na tua página. E tu não pares agora que reencontraste a vontade de encher o branco de palavras coloridas, seja qual for a cor. 10 ano(s)há 10 anos Isabel Maria Continuas a ser um bom poeta e fotografo...continua.Boa tarde. 10 ano(s)há 10 anos Graça Maria Teixeira Pinto Desta poesia, gosto mais, e desculpa Victor Nogueira .A outra, que ser ser irónica acaba por ser amarga, na minha opinião, claro.E belas fotos, também! Bj 10 ano(s)há 10 anos Maria Jorgete Teixeira Poesia que dá gosto ler. Só um reparo que já te tenho feito anteriormente: são muitos poemas e imagens para um só post, as pessoas aqui passam de forma muito ligeira... 10 ano(s)há 10 anos Nascimento Maria Lindos poemas !!! Lindas fotos sobre o mar azul da nossa linda arrabida que te inspira Bjos 10 ano(s)há 10 anos Victor Barroso Nogueira Isabel Reis, Fatima Mourão e Nascimento Maria Grato pelos comentários. E em acréscimo, Menina Graca Maria Antunes a ironia faz parte de mim, sou .. ai, falta-me a expressão ! Deixa lá ver ... olha, não me ocorre o termo, com semelhanças a "irreformável", "não reciclável" ... Menina Maria Jorgete Teixeira Bons olhos te vejam, senhora da aparecida. Tenho publicado isoladamente quer na minha cronologia, quer no meu blog ao (es)correr da pena e do olhar, quer no grupo ao sabor da pena e do olhar. Resolvi fazer uma compilação parcial, que seria mais extensa se tivesse coligido toda a poesia das cartas a penélope ;.) E, the last but not the least, folgo o regresso dos nutridos comentários da menina Guidinha, aka Margarida Piloto Garcia 10 ano(s)há 10 anos Editado Maria Lisete Almeida Grata caro Amigo por me incluir na patilha das suas fotos e escritos que muito aprecio. Abraço. 10 ano(s)há 10 anos Elsa Cardoso Vicente Lindíssimos obrigada 10 ano(s)há 10 anos Odete Maria Botelho Obg. amigo Victor Barroso Nogueira...eu adorei...simplesmente bela poesia e imagens maravilhosas....Um grande abraço com mto carinho ❤ 10 ano(s)há 10 anos Maria Célia Correia Coelho Mas que inspiração !!! Gostei da poesia e das belas imagens! 10 ano(s)há 10 anos Judite Faquinha Victor, adorei todos os poemas onde transmites o teu eu e o teu sentir sobre o que vês, e o teu saber com sentimento, de um coração aberto para a poesia e partilhares por nós, também gostei muito, do texto da Gioconda!!! Continuas a ser um belo fotografo parabéns... e não desistas de o fazer e de escrever!!! Os teus poemas são melodias transmitidas pelas belas fotos forte de D. Filipe o Sado a Serra da Arrábida o forte do outãoo belíssimo amigo beijokinhas ❤ 9 ano(s)