Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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domingo, 9 de outubro de 2016

falando com os meus botões



1. - NO 7º ANIVERSÁRIO duma carta escrita a alguém que se perdeu de mim e nas brumas do tempo e da memória
Olá, Amiga
Está um domingo de sol e debato-me entre o ficar sozinho em casa ou ir em busca de outrem. Como habitualmente encerrar-me-ei em casa, fechado em mim mesmo. Detesto os fins-de-semana e feriados. Quase sempre os detestei. Embora desde há três anos "ferie" quotidianamente; nos chamados dias "úteis" as lojas e os serviços estão abertos e "saio" de mim para resolver os problemas diários, comezinhos ou não.

Como se inúteis tivessem de ser aqueles dias em que não trabalhamos ou produzimos, ganhando o vil metal para comer o pão que o diabo amassou. E nos dias úteis ou inúteis deixo por fazer aquilo que gostaria ou quereria fazer: estar com Outrem, procurar quem é de mim reflexo e complemento, acabar de arrumar os livros nas prateleiras, digitalizar milhares de fotos ou textos que escrevi, escrever, viajar em busca de novas ou "velhas" terras e gentes, conviver ...

Ignoro os convites para ir ao Barreiro, a Lisboa, ao Porto, ao Seixal, a Évora ... Um dia destes fui a uma loja ao pé do edifico onde trabalhei e ouço vozes cristalinas chamando pelo "doutor". Viro-me e vejo quatro das empregadas de limpeza que me sorriem, me perguntam por mim e pelos meus filhos cujos nomes conhecem de me irem visitar ao meu gabinete, que ficam todas contentes ao saberem que já sou avô. Afivelo a minha máscara que o não é, sorrio com o brilhozinho nos olhos que o Rui e a Susana dizem ser meus, sou naturalmente encantador e simpático, despedindo-me espontaneamente com um beijo e um gesto de carinho a cada uma delas, que me permito pois já não estou ao serviço, já não sou o "doutor" ou o "chefe" mas apenas o "Victor". Mas, após a despedida, retomo o meu ar sério e distante.

No meu quotidiano fica sempre o confronto entre o estoicismo e a "loucura", entre o agir e o deixar correr, entre o bate e foge. Nem sempre era assim e por vezes numa curva da estrada encontrava a Outra, portas e janelas abertas ao sol, ao sal, ao mar, à brisa refrescante ou sufocante, envoltas em breves e fugazes horas ou dias de paz e felicidade, de mar chão e sereno, de riso e de ternura. Todas em suas histórias por mim escritas tinham um nome que as despersonalizava mas as identificava e resguardava da devassa alheia !

Leio pois os teus escritos e coloco-me no limbo, como se outrem eu fosse, encantado com o que decifro, descobrindo na tua figura maneirinha, simples, sem lantejoulas, caminhos de ternura, de afecto, de humor! E procuro desesperadamente resguardar-me.

Beijo-te, simplesmente, Amiga
do
Victor Manuel do Kant_O

Publicada por Victor Nogueira à(s) Domingo, Novembro 20, 2011


2. - segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Carta para AMF

Olá, "Marie"
Também eu gosto do mar e do sol, que aparecem em muitos dos meus poemas. Durante muitos anos, em Luanda, vivi à beira-mar - era só atravessar a estrada e encontrava a praia, de que fala um poema meu - RAIZES. Como de mim falam o OBRIGADO e a ELEGIA PELA MINHA FAMÍLIA DISPERSA. Mas como adoras cozinhar - eu sou autodidata e lá me vou desenvencilhado, por vezes com invenções culinárias, deixo-te uma RECEITA PARA UMA MENINA CALADA. À tua pergunta se sou feliz deixo uma resposta transcrevendo duas passagens dum dos meus ESCRITOS AO (es)CORRER DA PENA E DO TEMPO:
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"Ontem, que já é anteontem, a Maria do Mar falou sobre a felicidade em contraponto a uma pretensa atitude de infelicidade minha. Não me considero infeliz. Vou vivendo, melhor que muita gente, embora não tão desafogadamente como outros ou do modo que eu preferiria. Diferente da infelicidade é o desencanto pela falta de solidariedade e de humanidade crescentes nesta sociedade em que estamos. E desencanto tenho, por vezes muito, por vezes em demasia. O que não significa que não tenha tido momentos de alegria e serenidade. Alguns deles com ela, apesar de tudo. E talvez parvamente e sem razão eu persiga nela a crença ou a esperança de que teria sido (seria) possível ter sido (ser) feliz com ela, como amigo ou como amador e ser amado. Mas isto só teria resposta se outra fosse a nossa relação. A isso, só a convivência límpida e no dia-a-dia teria dado resposta. 
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Apesar de tudo acredito que é possível as pessoas serem felizes. Por muito breve que seja a felicidade. Porque entendo que os homens e as mulheres não foram feitos para estarem sózinhos ou viverem solitáriamente. Por isso, na breve passagem nossa por este mundo, é preferível, digamos, um ano de felicidade, mesmo que repartida no tempo, a uma vida inteira com medo de perdê-la ou não alcançá-la.
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Todos temos limitações maiores ou menores, neste ou naquele campo. Preciso é sabermos aprender a viver com as nossas limitações para ultrapassarmos os muros que nos cercam ou querem levantar ou levantamos á nossa volta. 
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Quando estudante de Economia em Lisboa, tinha então vinte anos, frequentei um curso intensivo de inglês. A professora, uma jovem inglesa, a Maureen Baltazar, era alegre, encantadora e todos nós gostávamos muito dela. Mas entretanto ela resolveu regressar a Inglaterra, já não me lembro se por se ter entretanto separado do marido português. E o surpreendente para mim era o desgosto e a ideia expressa nas palavras duma das empregadas da escola pelo facto da Maureen abalar, creio que definitivamente, dizendo que mais valia não a ter conhecido porque assim não teria o desgosto de perdê-la. E surpreendia-me esta atitude, pelo que então lhe contrapuz que o que era importante era termos conhecido e convivido com a Maureen, porque a recordaríamos sempre com alegria e ao tempo em que tínhamos estado com ela, porque era um tempo que tinha valido a pena ter sido vivido! 
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Da felicidade, da liberdade e do amor falam outros poemas meus: FLOR DO MAR, LIBERDADE, NOSTALGIA, O QUE AMO EM TI, TODO O DIA e, finalmente, TU VIRÁS.
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Espero que digas qualquer coisa e me escrevas.
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Saudações do

Victor Manuel 
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Setúbal, 99.01.30



3. - falando com os meus botões
de Victor Nogueira (Notas) - Sexta-feira, 26 de Abril de 2013 às 3:22

(...)
São duas e vinte da madrugada subsequente à do 25 de Abril. O silêncio enche o prédio e nesta casa ouço apenas o zumbido nos ouvidos e o suave dedilhar ritmado nas teclas ou o baque seco e compassado da barra de espaços.
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A vida é tão frágil e o tempo tão breve para dizermos quanto amamos e somos amigos daqueles que amamos e que estimamos. Mais do que dizer, não menos importante, é mostrá-lo não apenas com palavras mas com os gestos e os actos e a mão no ombro ou no rosto.

Tal como escrevi uma vez sobre a Maria do Mar, "Tenho esperado as suas notícias, a sua voz, o seu sorriso, a sua companhia, a sua presença e, porque não dizê-lo, a sua ternura. E retratro-me (...) de mim. Porque, ao contrário dela, não faço grandes discursos sobre a amizade e a franqueza pessoal, porque são apenas palavras e poeira aqueles que não têm correspondência nos actos. (...) A mim o que me interessa são os vivos e a solidariedade ou o gesto que se não recusa, a liberdade que conseguimos fazer nascer nesta teia de constrangimentos e de embaraços." Ou, muito antes, à Maria Papoila ou Maria Vai com as Outras: «Mas nada disto interessa. Uma presença, um gesto, um sorriso, valem mais que mil palavras. Não entendes isto ?»
.
Tu, em parte, sabias isto (...). E tu, que me lês ?

foto - auto-retrato no Mindelo

4. -  NOSTALGIA

Procuro  dentro de mim
................a memória das naus que partiram
................nesse teu gesto de me
.........................................tocar o rosto
.........................................afagar os cabelos
.........................................ajeitar o kispoo
................toque das tuas mãos
................tocata ligeira e graciosa
Recordo a tua pele morena
................a tua voz  camarada e amiga
  quente sedutora
................o teu ar fresco e donairoso corpo
................a tua mão na minha
  no café no cinema ou no restaurante
................o teu cabelo curto ou comprido
................as tuas palavras
................quando  me dizes
................à partida
................rápido pela auto-estrada
................não vás depressa
................cuida de ti da tua saúde
................o beijo na face ou como ave
............................pássaro lançado ao vento
Regresso em pensamento viajo
Percorro os sítios onde estivemos
................o areal o lugar à beira-mar
................a esplanada as ruas da cidade aberta
................a tua casa acolhedora
................o silêncio
Hoje  raro me telefonas ou procuras
a não ser quando me sabes doente ou
  no dia do meu aniversário
  na passagem dos anos
com  delicada gentileza!
Flor do mar retraída.


1989.09.11 setúbal. 

terça-feira, 5 de março de 2013

Eros e Afrodite 05 - Cartas de Soror Maria Madalena ao Conde Niño

 Espero que não esteja a repetir a dose para quem já as leu
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* Victor Nogueira
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1. - Escrevo isto:  no entanto nada diz do meu desejo por ti e de toda a ternura que gostaria tivesse livre curso; são sensações e impressões, memórias e desejos vagos; já não sei onde eles terminam e estás tu, a tua pessoa. Gostaria de largar tudo e partir à tua busca, chegar e dizer: aqui estou, na fragilidade e na leveza dos gestos ternos que buscam a forma de expressão não nas palavras mas em si mesmos, no estar ali presente. E o meu entendimento perde-se no iinebriamento dos sentidos, por ti, que só os meuis olhos e os meus dedos conhecem: sermos apenas um completos em tudo o que nos rodeia. Mas isso, ah! isso é um instante fugaz na constância de eu ser eu, cada outro o outro e o mundo uma realidade distinta de nós. Sei isso. Sei-o até agora. A vida vai passando e nós com ela, em caminhos distintos que ainda não vejo como nem onde se juntarão. De mim sei apenas que vagueio de mãos vazias com tudo o que não floresceu senão incompletamente. Palavras, que algo em mim refreia enquanto Haydn se ouve além., no coro alto.  Os meus dedos e os meus lábios percorrem o teu rosto e o teu corpo ao de leve, como brisa suave e cariciante; busco-te com ardor e tudo isto é memória ou imaginação, emoção que a nada conduz porque não é senão passado ou futuro, sem realidade no agora. Nada resta senão calá-la no fundo de mim. Hoje deixo-te apenas isto sem te falar do tempo que escorre pelos meus dedos abertos, como areia onde nada cresce, meu Senhor de mim !   
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2. - Isto que eu sinto ao pensar em ti, ao ler, por exemplo, a tua carta de hoje, ao ouvir a tua voz no parlatório, de ir em busca de ti como rio para o mar, este sentido de fragilidade ...  Que sgnifica? Que rumor de ave é este que me desperta? Quero e não quero e já não sei o que é feito de mim neste vai-vem. Toda eu sou qualquer força que me abandona. Mas a alegria quebrada, os gestos de amor suspensos e o prazer que não foi até à saciedade tornam-me dolorosamente dolorosas as memórias das alegrias que me deste. Meus olhos em ti ficam, meu Amor, com  meus suspiros e cuidados !  Quereria escrever "Amo-te" e dói-me que o nosso amor não possa ser puro e límpido como riso cristalino na manhã clara. Que a cidade esteja cheia de olhos duros e dedos em riste que nos curvam a cabeça e tornam pesado e triste o nosso sorriso. Ah! não poder eu ir ao teu encontro, não poder eu rasgar este hábito com  que me encerraram em vida e para o Mundo ! Me encerraram contra mim !   
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3. - Este tempo enlouquece os sentidos e dos nossos lábios brotam as palavras ainda há pouco envoltas em espinhos e agora frescas e acetinadas, brilhantes como o orvalho. Dizem que a Primavera é a estação do amor. Mas o amor primaveril é recatado e suave. Mas o nosso, meu Amor, é quente como o fogo, convidando-nos à loucura; o nosso é um amor de Verão, pois é dos dias em que fora de nós estamos,  em que o meu pensamento por ti me faz desejar-te até ao delírio, em que o sorriso e a voz terna  fazem desejar-te, paradoxalmente, com toda a simplicidade que deveria haver entre um homem e uma mulher. Estás longe e os gestos e as palaras simples, os deslumbramentos, estão interditos. Não sei escrever coisas bonitas como as que me escreves. Queria apenas dizer-te da minha imensa ternura por ti, nestes dias quentes de verão, na cidade que proíbe os gestos que a mostrariam. envolta neste maldito vento suão. Ah! não poder escalar-te lábio a llábio, seguir-te com os meus dedos o perfil do nosso corpo em ti, em mim,  até  que a loucura corra livremente em nós !  Beijo-te e abraço-te e abandono-me-te com Amor, com ardor, porque não quero hoje pensar no futuro.
 
 .
 
Cartas não datadas escritas por Soror Maria Madalena, encontradas numa feira de velharias, vertidas em português actual por Victor Nogueira, na cidade de setúbal aos 3 de Julho de 2012
 

 
Cartas de uma freira portuguesa ilustradas por milo manara em http://edeuscriouamulher.blogs.sapo.pt/
 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Cartas de Amor de Fernando Pessoa a Ofélia Queroz

 
 
Uma delícia conhecer a ofélia ! Um encanto ... de pessoa e para mim ! Vale a pena ler até ao fim :-) ~~~~~~~~~~~~~~~
CARTA XLI

Ex.ma Senhora D. Ofélia Queirós:

...
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.a considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) que V. Ex.a está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.

Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.a a pegar na imagem mental, que acaso tenha formada do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.

Cumprimenta V. Ex.a

Álvaro de Campos

eng. Naval

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

carta de Ofélia Queiroz a Álvaro Campos
Ex.mo Senhor Engenheiro Álvaro de Campos

Permita-me que discorde por completo com a primeira parte da sua carta, porque, nem posso consentir que Vª Exª trate o Ex.mo Sr. Fernando Pessoa, pessoa que muito prezo, por abjecto e miserável indivíduo nem compreendo que, sendo seu particular e querido amigo o possa tratar tão desprimosamente. Como vê estamos sempre em completa desarmonia, nem podia deixar de ser, pedindo-lhe por especial fineza, que não volte a escrever-me. Quanto às observações que me faz, como foram ditadas pelo Sr. Fernando Pessoa, farei quanto em mim caiba por lhe ser agradável. Agradeço o conselho que me dá, mas já que me puxa pela língua, deixe-me dizer-lhe que quem eu de boa vontade há muito tempo teria, não deitado na pia, mas debaixo dum comboio, era Vª Exª. Esperando não o tornar a ler, subscreve-se com respeito a 26-09-1929


Ofélia Queiroz

~~~~~~~~~~~~~

CARTA 59

Meu querido amor

Que triste ideia teve em encarregar o Sr Engenheiro Álvaro de Campos de escrever-me? Ele afinal não é seu amigo, trata-o tão mal! E não sendo seu amigo também o não é meu, e não sendo meu amigo eu também não sou amiga dele, portanto não gosto dele, detesto-o pronto. Peço-lhe meu querido Fernandinho que não volte a encarregá-lo de me escrever, e que por fineza lhe entregue a minha carta, que por não saber a sua direcção junto à sua. Ele afinal só pretende desacreditá-lo, mas eu não o poupo, e decerto não me escreverá mais.

Agora outra coisa: Gosto tanto que me telefone à noite! Já que nos não podemos ver, ao menos sempre é mais agradável falar assim um pouco mais intimamente. Só me dá vontade de enfiar pelo telefone e ir ter com o meu queridinho, mas está vedado o trânsito de "vespas" pelas linhas telefónicas... Que grande me vai parecer a noite de hoje e parte do dia de amanhã. Quase que fazia oito dias sem o ver. O Fernandinho não lhe custa estar tantos dias sem ver a sua Ofelinha? Gosta muito dela, gosta[,] amor? Então seu maroto, eu na minha carta d'hoje mostrava um princípio de afeição? Só princípio? E acho-me eu exigente mas ainda bem que também o é, entender-nos-emos assim melhor, porque sentimos da mesma forma, não é Fernandinho? Mas não me disse se lhe agrado para sua mulherzinha. Se lhe agrado Fernandinho? Se lhe agrado, e agradando-me o meu querido amor tanto para maridinho (parecia-me um sonho eu um dia vir a tratá-lo assim) não retardemos uma felicidade tão grande e tão desejada, pelo menos da minha parte. Mas estou convencida que Fernandinho, também há-de gostar muito de ter um dia o seu lar, com uma mulherzinha muito ao seu gosto e que torne o lar alegre e o Fernandinho feliz. Diga-me, não são estes os seus desejos? A não ser que não seja eu a mulherzinha (porque eu não chego a ser mulher) muito a seu gosto...

A mim encanta-me só a ideia de o vir a ser, de viver consigo uma vida inteira, sempre muito amigos e carinhosos! Mas não receberei de boa vontade na nossa casinha o tal Senhor Engenheiro, isso não. Sobre o assunto do meu encontro, escreveria muito, mas receio maçá-lo. Só lhe digo que tenho ânsia de ser sua esposa, e o Fernandinho, não tem, de ser meu esposo? Se gostar tanto de mim como eu de si, tem a mesma.

É isto que me tira o sono! Fica agora sabendo?

Adeus, meu amor, eu não lhe roubo mais tempo com as minhas cartas sempre tão mal redigidas, mas o Fernandinho já me conhece, em deixando escrito o que sinto é o principal, não é? Góta de mim? Góta munto? Góte chim?
Manda-lhe muitos beijinhos a sempre muito sua

Ofélia

26-9-929

http://www.astormentas.com/din/poema.asp?key=839&titulo=CARTA+XLI



Cartas De Amor
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Caixa Postal 147
(Acróstico de Fernando Pessoa dedicado a OPHÉLIA)

Onde é que a maldade mora
Poucos sabem onde é
Há maneira de o saber
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente não a entender

Nota: Relato da Exma Senhora Dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz.


Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o e pô-lo em cima da minha secretária.
Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetezinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu confesso, também lhe achava uma certa graça…

Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Ó, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até do último extremo, acredita!»

Fiquei pertubadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me apaixonadamente, como louco.

Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:

Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apartei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Fiquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhes dou também.

Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação,
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.

Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.

Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma núvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.

Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920.

Assim começámos o «namoro».

Confira a primeira carta de Fernando Pessoa para Ophélia Queiroz, clique aqui.


http://www.pessoa.art.br/index.php?paged=301


Carta - 01/03/1920

Ophéliazinha:

Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m’o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.

Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».

Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh’a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d’isto tudo sou eu.

Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…

Ahi fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.

01/03/1920
 

  • Filomena Pita Soares Uma delícia sem dúvida!:)

  • Conceição Baptista · 24 amigos em comum
    Obra de Arte!!! Lindo, lindo de morrer!

  • Maria Do Mar Magnifico....

  • Ana Albuquerque

  • Eugénia Bettencourt · 5 amigos em comum
    Já tive o prazer de ler algumas destas cartas num programa de rádio...

  • Deolinda Figueiredo Mesquita Maravilhoso, Obrigada Victor. bjs

  • Maria Lisete Almeida Grata pela partilha! Uma maravilha! Abraço!

  • Joaquim Jorge Oliveira · 3 amigos em comum
    A timidez de ser PESSOA ser amante e poeta português...

  • Henrique Arruda · 3 amigos em comum
    Quem nos traz estas excelentes participações, pertence a uma geração de boa Safra! Mesmo para quem gosta de Pessoa, nem sempre se consegue ter á mão estas preciosidades...Fui aluno em Nova Lisboa da Profª. Gabriela Antunes, apaixonada que era por Pessoa, fez-nos ler até os bilhetes trocados entre Fernado Pessoa e Mário de Sá Carneiro, mas não lemos as cartas trocadas com a Ofélia....muito menos sabia que o Álvaro de Campos "não gostava" do Fernando Pessoa!... enfim uma maravilha...

  • Fernanda Manangao nestes próximos 2dias o facebook não me deixa partilhar com muita pena só posso por gostoooooooooooo

  • Margarida Piloto Garcia Puro deleite. OBRIGADA.

  • Maria Rodrigues obrigada amigo

  • Isabel Reis Ainda sou do tempo das cartas de amor...saudades

  • Varela José Inácio É Fernando Pessoa...e basta...obrigado Victor por nos trazeres mais esta delícia...abraço.

  • Manuela Silva Maravilhoso amor que deu origem a estas deliciosas cartas. Amar é deixar a dor em deleite entrar.