Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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quinta-feira, 5 de março de 2026

Pingos do Mindelo em dia invernal e nos dias finais

 

* Victor Nogueira

De súbito, de ontem para hoje, o dia esteve muito frio, pluvioso e ventoso, por vezes em rajadas, com o céu pejado de nuvens com várias tonalidades de branco acinzenttado. Amanhã e durante o fim de semana o tempo melhorarámas para 2ª feira, dia programado para retornsr à beira Sado, está previsto o regresso da chuva.

Terminei de ler o volumoso 'Por Dentro do Chega . A face oculta da extrema-direita em Portugal. de Miguel Carvalho. Dizia a publicidade que a sua leitura era um murro no estômago. Na verdade, nada do que lá e exposto é para mim novidade. Com maior ou menor frequência o mesmo sucederá nos partidos da central de negócios e  negociatas, embora na agremiação do Mestre André se  atinja o 'ground zero', entre miliantes, incluindo fundadores e dirigentes aos vários níveis, com 'facadas', expulsões, subserviências, dissidências, saídas, carreirismo e traições, sem esquecer o crescente culto da personalidade em torno do líder.

O livro divide-se em quatro capítulos, antecedidos dum Prólogo. Cada uma destas cinco partes é antecedida duma foto a preto e branco, em cada uma delas figurando o líder messiânico. Os quatro capítulos são designados de acordo com os lemas do Chega: 'Deus, Pátria, Família e Trabalho'. Supus que cada um dos capítulos reflectisse as posições do partido  sobre cada um dos temas, mas isso não é a realidade. Dum modo geral estes capítulos registam os testemunhos de militantes, dirigentes e fundadores, quer no activo, quer em dissidência, bem como alguns dos mais ou menos generosos financiadores. Contrariamente à ideia propalada, há não pouco pessoal com cursos superiores: advogados, engenheiros, professores universitários ... Entre os financiadores estão não poucos agentes imobiliários

Não sei sei serão da chamada 'geração mais qualiicada', que inclui Passos Coelho, Miguel  Relvas e José Sócrtates. Mas da velha guarda há no livro  o testemunho dum professor universitário catedrático, no ISCSP, António de  Sousa Lara, que 'boicotou' a candidatura a um prémio literário do  livro "Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago. Sousa Lara era na altura  Sub-secretário de Estado da Cultura dumo Governo de Cavaco Silva, que posteriormente, em 2026, o condecorou, enquanto Presidente da República,  com a Ordem do Infante D. Henrique,por  «serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro»., Em 1992, Sousa Lara havia censurado a obra de José Saramago, atrás referida, impedindo a candidatura da mesma ao Prémio Literário Europeu por considerar que o livro "não representa Portugal". Pois o testemunho de Sousa Lara recolhido por Miuel Carvalho é duma pobreza confrangedora. Sosa Lara foi um dos 'ilustrs' ifrólogos do Chega, até que, eventualmente mensprezacdo, o abandonou em rota de colisão. Tal como posteriormente Gabriel Mirthá Ribeiro, também investigador e professor universitário.  Sousa Lara, um dileyante,  'anarquista' pois tem de admnistar a fortuna da família, depositada na Suiça, entre baboseiras consegue dizer algumas aceradas Entre os fundadores, apoiantes ou militantes do Chega figuram evangélicos, católicos ultraconservadores e alguns membros da Maçonaria

Mas nas páginas finais do livrro de Miguel Carvalho surgem alguns testemunhos sobre as razões e caracterização do eleitorado do Chega e do seu 'sucesso' e penetração ente a juventude e os 'desildudos' e abandonados pelas políticas do Centrão PS / PSD. Segundo esses testemunhos muitos, atraídos nas redes sociais,  valorizam as conquistas de Abril e ao cardápio do Chega vão buscar umas 'ideias' e rejeitar outras, contraditoriamente.  Como dizem alguns desses depoientes ostracizar a maioria desses 'seduzidos' e 'enganados' pelo Chega é contraproducente, servindo para acantoná-los'wm trincheiras.  Apenas uma outra política que não a do PS/PSD/IL & Chega permitiria 'reconquistá.los'

Morreu António Lobo Antunes. A minha memória já n~so é o que era, mas seguramente li alguns dos seus romances, que figuram na minha biblioteca, em Setúbal, embora não consiga de momento precisar quais. Terei gostado das primeiras obras, com a guerra colonial portuguesa como pano de fundo. Para além de achar que tinha um  ego do tamanho do Mundo, os seus romances eram, não puucas vezes, duma leitura difícil- Apreciava deveras as suas Crónicas na imprensa, reclhidas em vários volumes ao longo dos anos. Também o que me ficou de Lobo Antunes foi o desprezo por José Saramago e a 'mágoa de não ter sido ele o Nobel da Liberatura, sem esquecer o seu deslumbramento ao receber o Prémio Camões em 2007, o galardão literário mais importante da língua portuguesao, o mesmo com  que Saramago fora homanageado em 1995

Outros cronistas que aprecio são António Sousa Homem, autor das 'Crónicas do Moledo', e Miguel Esteves Cardoso, especialmente o MEC dos primeiros tempos, e José Eduardo Águalusa.

Sobre os cronistas atrás referidos ver no meu blog D'Aqui e D'ali as etiquetas

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Ant%C3%B3nio%20Lobo%20Antunes

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Ant%C3%B3nio%20Sousa%20Homem

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Miguel%20Esteves%20Cardoso

https://daliedaqui.blogspot.com/search/label/Jos%C3%A9%20Eduardo%20%C3%81gualusa

Imagens geradas pelo chatGPT segundo guiões da minha autoria

1. - O texto deste post, que deu origem à gravura seguinte



.2. - Face ao resultado, 'encomendei' outra gravura com um outro guião: um homem idoso sentado defronte a uma secretária. O homem, pensativo, tem barba branca e cabelo grisalho. Escreve num computador. Á esquerda um livro aberto. Á direita uma pilha de livros e alguns jornais. Ao fundo uma estante com as prateleiras cheias de livros. 

É este último que serve de abertura a estes 'Pingos do Mindelo'

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Letras empilhadas, ano após ano, em Novembro, 14, (re)colhidas em 2024

 * Victor Nogueira


14 de novembro de 2009

A demo-cracia em que vivemos! 

A respública é um emaranhado de podridão e a democracia há muito que já foi! Desta demo-cracia, já nada há esperar! Restam-nos cada vez menos espaços de liberdade e cada vez mais trincheiras, não para recuar ou resistir apenas, mas para avançar, sabendo que não será ainda hoje ou amanhã, mas com a esperança determinada k avançaremos, não só aqui mas no resto do Planeta, cada vez menos azul e mais negro de cinza e lama e destroços! 

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Clara Roque Esteves - Infelizmente estou tão descrente quanto tu. DEMO-cracia é o que nos sobra. Essa tua imagem demonstra bem como se " esfrangalhou" o tecido, agora desfeito em pequenas pedras negras.

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Judite Faquinha -Victor! Eu á muito, que vou vendo, as pessoas manifestarem-se falando em democracia!!! Eu penso onde ela está... há o nome, mas na prática não á!!! A penas Demo-encapotada de termos certas liberdades de expressão e de luta...e a sermos roubados á quantas decadas, agora gravilha por cima de uma camada de alcatrão, e nada mais resta!!! bjs amigo.

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Luisa Neves - A tristeza de um Povo espelhada na imagem...

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14 de novembro de 2010  · 

O céu está com um azul cinza, como brancas ou de cinza estão as nuvens. Apesar da claridade à beira Sado, a tarde está mortiça, enquanto escrevo e ouço música, conjuntamente com o silêncio do meu pensar e o dedilhar no teclado do pc!

14 de novembro de 2010  · 

José Saramago fez uma dura crítica ao Twitter dizendo: "Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido"

14 de novembro de 2010  · 

Não concordo com a não utilização das redes sociais no dia da Greve Geral. Seria uma forma de silenciar a Greve no próprio  dia em que se realiza. Pelo contrário, até lá deveriam ser utilizadas para a sua divulgação e justeza da sua realização. E nesse dia deveria ser afixado um cartaz da Greve em cada blog ou página nas várias redes sociais.


14 de novembro de 2012  · 

Agora é a sério. A festa acabou. É a doer, como no tempo do fascismo a  GNR no Barreiro carregava sobre os manifestantes.

DO RIO QUE TUDO ARRASA SE DIZ QUE É VIOLENTO, MAS NINGUÉM DIZ VIOLENTAS AS MARGENS QUE O COMPRIMEM (Brecht)

Há maior violência que esta que promove o desemprego, a miséria, a fome, a doença e que tira o futuro a biliões de pessoas em todo o mundo ? 

Tão violenta é a exploração capitalista como foram as da servidão da gleba e do esclavagismo.

VER  Agora é a sério. A festa acabou.

A Internacional - versão portuguesa

14 de novembro de 2012  · 

Os trabalhadores alemães não são os capitalistas alemães e doutros países. Os interesses dos trabaçhadores não são os interesses dos capitalistas. Contra a interrnacional capitalista, a internacional ds trabalhadores

14 de novembro de 2014  · 

Em S. Paulo da Assunção de LUANDA (este era o nome completo, tal como havia a Cidade do Santo Nome de Deus de MACAU, Não Há Outra Mais Leal) - foto MNS - Quando nasci os meus pais moravam na Rua Frederico Welwitsch, no Bairro do Maculusso. e daqui mudámos para outra vivenda, no Bairro de S. Paulo, lá onde a cidade do asfalto terminava na altura para imediatamente começar a empurrar a cidade vermelha (a cor do barro), a dos musseques, ainda mais para a periferia. Pouco tempo residimos aqui, de que tenho poucas memórias, até mudarmos para a Praia do Bispo, quando tinha 11/12 anos, para uma casa de função, essa sim que me marcou e ficava à beira mar, com o mar infindo defronte e para lá dele o Brasil, na outra margem.

O meu pai era um engenhocas. Aliás na caricatura do livro de curso ele aparece sentado a uma mesa  com montes de construções de armar, desde aviões a casas. No quintal da Praia do Bispo construiu sucessivamente os 3 "gasolinas" (barcos com motor fora de borda) que tivemos; o 1º roubado, o 2º queimado inadveridamente no areal da praia e o 3º ficou lá depois da independencia. Este "jeep" também foi parcialmente contruído por ele, a partir do chassis que comprara: a carroçaria foi toda feita por ele e sob sua orientação.

Na foto, para além do escriba os seus irmão e mãe. Aqui ainda era miúdo, pois usava calções e suspensórios. O uso de calças e cinto significava a passagem a jovem e adulto. Esta regra não foi rígida para o meu irmão, cinco anos mais novo, que naturalmente "herdava" a minha roupa.

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Victor Nogueira - nesta foto, ainda na rua Frederico Welwitsch, vê-se o referido "jeep" 

10 a

Graça Maria Teixeira Pinto  - Gosto de ver memórias e destas, em particular que falam de uma vivência que se perdeu.

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Carlos Rodrigues - Isso é que era reciclar, Vitor, agora nem dá para passar os livros escolares de irmão para irmão e roupa também não que tem de ser de marca, mas é sempre possível arranjar uma etiqueta. Os nossos pais dariam com certeza melhores Ministros da Economia do que os que temos tido. Obeigado.

10 a

Victor  Nogueira - Carlos Rodrigues Naquele tempo os livros eram recicláveis "ad æternum", pois vigorava o livro único e obrigatório no Portugal estático que eles diziam ser "do Minho a Timor". Os livros pouco mudavam, eram quase os mesmos de pais para filhos LOL.

Mas irritava-me que eu tivesse de ter cuidado com a roupa nova que depois de "herdada"pello meu irmão já não merecia advertências nem cuidados. LOL

E naqele tempo alguma da roupa era costurada em casa, não havia lojas de pronto--vestir. 🙂

10 a

Carlos Rodrigues - .Sem discutir o conteúdo desses livros Ad eternum, porque o regime fascista sempre se teve como imortal, por outro lado dava jeito...Quanto à roupa eu sendo filho único não herdava nada, nem vantagens nem desvantagens...LOL

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Elsa Cardoso Vicente  - Lembranças, obrigada

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Maria João De Sousa - Outra bela fotografia a preto e branco! Obrigada, Victor Barroso Nogueira!

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Joana Espanca Bacelar - Devem ser enormes as saudades desse tempo.

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Donzilia Conceiçao

Que lindos !!!

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Deolinda F. Mesquita - Excelentes lembranças, obrigada, Victor.

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Isabel Dias Alçada - Fazes com que nos lembremos de tempos passados , beijos meu querido amigo do ❤

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14 de novembro de 2018  · 

foto de família - o meu pai e a 'arrastadeira' do meu avô Luís nos anos '40 do passado milénio.

«O Citroën Traction Avant é um automóvel produzido pela montadora francesa Citroën entre 1934 e 1957. Foi o primeiro automóvel em uma carroceria monobloco e tração dianteira. Desenvolvido pelo engenheiro André Lefèbvre, o sistema de tração dianteira proporcionava uma mais eficaz repartição das massas e melhores condições de habitabilidade e de aderência à estrada.» (wikipedia)

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Isabel Magalhães- Não parece o teu pai. Tens uma só do carro?

6 a

Victor Nogueira - Não. Há outra com eles todos, mas ainda não a encontrei

6 a

Maria Vitorino - Há muito que gostava de ter uma "arrastadeira".

6 a

Victor Nogueira - No OLX há várias à venda, entre 14 000 e 24 000 € 🙂

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Maria Vitorino -Obrigado

6 a

Alexandrina Silva - havia aqui 2 taxistas com carros desses

6 a

Victor Nogueira

Sempre gostei deste carro 🙂

6 a

14 de novembro de 2024

Não, não vou alimentar-te, não vou dar-te vestuário ou abrigo. Vocês estão aqui ilegalmente, voltem para a vossa terra!
14 de novembro de 2024

O burro velho morreu

Depois do S. Martinho
Não há pão nem vinho
aquitico e somítico
Cínico e cafageste
O burro velho e asnático morreu
Rodeado de hienas e abutres
Trafulhas e aldrabões
Hip Hip Hurrah!
Fica a herança 
Tempos de festança e abastança
Com a pança cheia
Sem a poupança
De tostões aos milhões
O burro velho morreu
É dia de feira
E bailaricos na eira
com alegria e fantasia
para os seráficos querubins
Aleluia! Aleluia!
Até que enfim
Acabou-se o frete,
O burro velho morreu!

Setúbal 2024 11 14

domingo, 14 de maio de 2023

Textos em maio 14

 * Victor Nogueira


2023 05 14 - Foto victor nogueira - Bertiandos (Solar e pelourinho) . (Rolo # 01  2003 02 09 -  34 A)

O Solar de Bertiandos teria sido fundado no Século XV por um sobrinho de Nuno Álvares Pereira. A povoação foi município de 1795 a 1835, quando foi extinto, sendo presentemente uma freguesia do município de Ponte de Lima. O pelourinho, que se vê na foto, é um marco miliário romano que estava no terreiro do solar, datado do século III d.C., fazendo parte da Via Romana que ligava Braga a Tui e Lugo, passando, entre outras localidades, por Prado, Ponte de Lima e Paredes de Coura (Via XIX Bracara / Lucus, conforme consta do Itinerarium Antonini). O marco miliário fora descoberto em 1641 e então levado para o solar.  (Junta de Freguesia de Bertiandos, in https://www.bertiandos.net/freguesia/locais-a-visitar

Referências no Livro de Viagens - Bertiandos  Pequena povoação, onde há um palácio que mal vislumbramos, devido à noite cerrada; não há fotos. Alameda coberta por videiras. (1999 08 30). Bertiandos  - Igreja com torre sineira. (1999 10 21)


2021 05 14 Setúbal Padaria na Avenida 22 de Dezembro (fotomontagem) (2016.04.27 GEDSC_135)

Há uns anos esta padaria encerrou e o prédio entretanto entrou em ruína, embora mantendo as figuras que representavam os estabelecimentos que neste figuravam: a padaria e o amola tesouras, este na Rua Fran Paxeco. Actualmente o edifício encontra-se em obras de  recuperação.

Embora ainda existam padarias, desapareceram os amola-tesouras, que percorriam as ruas na sua bicicletas ou motorizadas com a pedra de esmeril accionada com o pé, anunciando-se com o pregão e uma flauta própria, oferecendo-se para consertar guarda-chuvas e sombrinhas, amolar faca e tesouras ou soldarem os buracos em tachos, frigideiras e panelas. O consumismo e a obsolescência programada para sustituição em vez de reparação levaram à extinção deste ofício.

Não serão propriamete murais as gravuras nestas paredes, que já surgiram em  Setúbal e Azeitão - Figuras de convite   ,  aqui e agora de novo publicadas na Série Murais e Grafitos. 

Fazendo parte do Projecto Setúbal Mais Bonita, situam-se num edifício da Rua 22 de Dezembro, nº 13, esquina com a Rua Fran Paxeco, onde havia uma padaria e  um amola-tesouras, profissão esta praticamente desaparecida. Aqui vários guarda-chuvas foram por mim deixados a consertar. Teria sido executado em 2013 pela ARTISET - Associação de Artistas Plásticos de Setúbal.

VER   Murais em Setúbal 23 - Padaria e amola tesouras



2020 05 14  SOBRAL DE MONTE AGRAÇO - A viagem para Sobral de Monte Agraço faz-se já de noite, contingências dos passeios em curtos dias de inverno. Da ruralidade da paisagem não me apercebo, mas sim e apenas do relevo do terreno, ora subindo, ora descendo, ora curvando, ora contracurvando. A povoação fica lá em baixo, mas é uma desilusão. Uma igreja barroca, na Praça da República, e um teatro (Eduardo Costa?), perto da Praça Dr. Eugénio Dias (médico dos pobres) com elegante coreto, busto do homenageado, fontanário, edifício da Câmara e uma residência do século XIX.
As lojas têm um ar de antigas, na sua decoração interior. Mais adiante um outro largo arborizado, a praceta 25 de Abril, de edifícios recentes, permanecendo por enquanto uma casa estilo chalet, com um corpo estreitinho, lateral, estilo pequeno torreão, e restaurantes com nomes curiosos: Café Montagreste, Café Restaurante A Toca do Coelho, Restaurante Pé de Galo, Pastelaria Pan Diogo ...
Já na saída da povoação a nossa atenção é desperta pelos painéis de azulejos do matadouro municipal (1940), representando cenas relativas à criação de gado: suinicultura, o pastor com as ovelhas, o ganadeiro com vacas e vitelos ...
O adiantado da noite não dá para procurar as casas azulejadas e as varandas de ferro fundido referidas pelos livros.
As ruas ostentam ainda cartazes da campanha eleitoral para as autarquias. Insolitamente, os do CDS/PP (Centro Democrático Social transfigurado de Partido Popular) afirmam «Só prometemos trabalhar.». Curioso, esta do partido do grande patronato, que aliás não define o sentido da sua "trabalhia"!
Não é desta que visitamos as ruínas das Igrejas de S. Salvador (século XII) e do Salvador do Mundo. Prosseguimos viagem em busca da Igreja de S. Quintino,( ) do século XVI, insólita porque na sua fachada principal coexistem um imponente portal manuelino e um pequeno portal gótico, emparedado, este sobressaindo na parede de pedra não rebocada. Defronte, no adro, um telheiro com bancos, sítio onde talvez o povo se juntasse para conversar abrigadamente.
Com o templo fechado não dá para visitar os painéis de azulejos dos séculos XVII e XVIII que cobrem as suas paredes. (Notas de viagem, 1998.01.13 e 2000.06.12)

2019 05 14 foto victor nogueira - Intervalo e pausa


2019 05 14 Calor - Nem tanto ao mar nem tanto à terra



 2017 05 14 Perante a maré encarnada, o azul e branco dos "bermelhos" que são vermelhos

EM TEMPO Já era do "glorioso"  em Angola, no tempo da outra senhora, quando os campeonatos eram normalmente ganhos pelos verdes lagartos e os encarnados que ainda não passaram a vermelhos.
Em 1956 ou 58  o Porto lá conseguiu um campeonato e foi uma eufórica enchente azul e branca a que invadiu as ruas de Luanda.

Em 1962/63 estive a estudar no Porto e sabia-se à 2ª feira nos eléctricos e nas ruas se o "glorioso"  vencera ou não na véspera, conforme o povo apresentava um ar contente ou macambúzio.

Hino Oficial Do F.C. do Porto

Oh, meu Porto, onde a eterna mocidade
Diz à gente o que é ser nobre e leal.
Teu pendão leva o escudo da cidade
Que na história deu o nome a Portugal.
REFRÃO:
Oh, campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto
Quando alguém se atrever a sufocar
O grito audaz da tua ardente voz
Oh, Oh, Porto, então verás vibrar
A multidão num grito só de todos nós


Leopoldo Cardoso Ferreira
Já foste este ano.
6 ano(s)
Victor Barroso Nogueira
Olh'á Virgem, O FCP tb tem uma no brasão LOL
6 ano(s)
Isabel Maria
Isto sim é ser solidário
Não é só quando se ganha campeonatos!....
6 ano(s)Editado
Victor Barroso Nogueira
Já era do "glorioso" no tempo da outra senhora, quando os campeonatos eram normalmente ganhos pelos encarnados que ainda não passaram a vermelhos e os verdes lagartos.
Em 1956 ou 58 o Porto lá conseguiu um campeonato e foi uma eufórica enchente azul e branca a que invadiu as ruas de Luanda.
6 ano(s)


2017 05 14 o prisioneiro, rabisco de 1958

Creio que teria alguma habilidade para a escultura mas não para desenho, muito menos naqueles tempos de alinhamento na escola segundo uma pretensa e niveladora "normalidade" em que a diferença era em princípio uma aberração.
Ainda na minha juventude pedi ao meu irmão caçula que me ensinasse as técnicas de modelação em argila, mas ele virou-me as costas e regressou pouco depois com a tralha instrumental, dizendo-me que tinha ali a ferramenta, indicando-me onde no quintal estava o monte de barro que ele utilizava para os seus trabalhos
Ao reler hoje o meu diário dos 12 / 13 anos constato com surpresa que já então escrevia muito bem, com propriedade e correctamente, embora sem "rodrigos". A única vez que escrevi dando asas à imaginação a professora decretou-me que o texto não fora por mim escrito. Só muitos anos depois ultrapassei a escrita objectiva, encadeada em alíneas e parágrafos, graças a duas amigas minhas: a Noémia, nos idos de 1968 em évoraburgomedieval, e a Joana Princesa, em Setúbal nos idos de 1989.
Nas aulas de canto coral, para além de aprender o solfejo, ficava sentado a um canto pois não tinha ouvido para a música. Quando disse ao meu pai que pretendia aprender a tocar viola ele perguntou-me se iria viver disso e como lhe respondesse que não, não me autorizou. Nem sei se seria capaz de escrever música apesar de me parecer que mentalmente a compunha, nunca aprendi a transcrever os sons para o papel nem tinha ouvido para trautear. Ficou apenas a aprendizagem de transcrever para o papel o meu pensamento.
Em casa lá em Luanda quando começava a cantar o "benjamim" atirava-me com os sapatos para que me calasse, num desrespeito pelo "mais velho". E desisti, depois duma vez durante a missa na Igreja de S. Joaquim, lá na Praia do Bispo, ter ficado ao lado do vizinho Sidónio que cantava com uma enorme e sentida devoção, enquanto desafinava ruidosamente.com a sua profunda voz de trovão.




2014 05 14 1. -  O inFaceLock é como a vida real, só que por aqui há mais máscaras e lantejoulas e menos freio para as inibições de muitos/as. E muitas e variadas narrativas, para (quase) todos os gostos, olhares e apetites.

2.- Aos efabuladores toda a magia dos gestos, dos dedos, do olhar , dos lábios e das palavras é permitida.

... o pior é se, levados nas asas da imaginação, no final encontram não um personagem de carne e osso mas apenas areia, pó, cinzas e chumbo em cadeia.

sábado, 8 de abril de 2023

Textos em abril 08

 * Victor Nogueira



Luanda Abril 2019 - Eixo viário - Av.Marginal - Av. Praia do Bispo - Mami África








2023 04 08 Há 50 anos nada era assim. A Avenida bordejava a baía e o trânsito era diminuto, Reconheço apenas a Igreja de S. Joaquim e algumas das vivendas geminadas, do Estado, para funcionários públicos, numa das quais morávamos.

A antiga Avenida da Praia do Bispo é agora uma rodovia interior, denominada Avenida Dr. Agostinho Neto.

2023 04 08  Luanda - Rua D. Luís Soveral, que fazia a ligação da Baixa à Praia do Bispo. Na foto o viaduto rodoviário que ligava o Morro e a fortaleza de S. Miguel à Cidade Alta.  À esquerda era uma mercearia/taberna. Entre esta mercearia e o início do bairro da Praia do Bispo, a meia encosta, ficava o Posto de Pescado, com a residência anexa do fiscal que cobrava a dízima aos pescadores da sanzala na ilha que lhe ficava defronte. Mais adiante, também a meia-encosta, entre a nossa casa, cá em baixo, e o Palácio do Governo Geral, lá no cimo,  ficavam as casas, mais modestas, dos trabalhadores indígenas do referido Palácio.


2019 04 08 foto victor nogueira -d' a horta do Mindelo (Vila do Conde) em  2016.09 - couves, abóboras, batatas, feijão verde, tomate e outros espécimes, para os meus cozinhados)  para lá da oliveira (que só deu azeitonas no 1º ano), do limoeiro e da tangerineira. Esta era a casa de verão do meu avô materno, que antes disso as passava na casa de lavoura dos sobrinhos, em Goios, nos arredores de Barcelos. Sinto-me lá  muito mais em casa e perto do mar que neste aldeia grande e apeadeiro de setúbal, um deserto de pessoas,  onde há décadas desembarquei, por acidente de percurso.


2014 04 08 Foto Victor Nogueira - Setúbal -  Largo da Misericórdia

Aqui se situava o antigo Hospital da Misericórdia, cuja igreja foi demolida já no século XX. A cidade foi quase completamente arrasada pelo terramoto de 1755 – esse, o que chamam de Lisboa – e dos tempos anteriores poucos vestígios conserva. Soterradas, as cetárias romanas, comuns aos estuários do Sado e do Tejo, onde se fabricava o apreciado “garum”, condimento feito de peixe. Para além destas, visíveis, troços das muralhas medieval e setecentista, alguns conventos e palácios, como aquele em que D. João II assassinou o cunhado e poderoso Duque de Viseu, irmão do que viria a ser Duque de Viseu e de Beja e posteriormente rei de Portugal como Manuel I. Fontenários como os do Sapal e de Palhais ou lintéis como os da antiga gafaria, e janelas e portais, simples como os do Hospital de João Palmeiro ou manuelinos – portas e janelas, algumas ricamente trabalhadas como as manuelinas da Igreja de S. Julião e dos antigos conventos de S. João e de Jesus –  este obra de Mestre Boitaca, o da Torre de Belém, e que também interveio nos Mosteiros dos Jerónimos e da Batalha, na Sé da Guarda e na Igreja de Santa Cruz de Coimbra.

O que resta da antiga Misericórdia é ocupado por uma sociedade recreativa centenária, a Capricho Setubalense, proprietária do coreto da avenida Luísa Todi. Para cá da foto e pela encosta acima até S. Domingos fica um dos núcleos primitivos. S. Domingos, Palhais, Troino, eram povoações que o crescimento urbano unificou como urbe. Nesta zona ainda se encontram algumas ruas em que mal cabem duas pessoas lado-a-lado.

Em frente, relativamente à foto, ficam a Ribeira do Livramento, os largos da Ribeira Velha, a do Sapalinho e do Sapal, este agora denominado Praça do Bocage, onde se situam os Paços do Concelho, incendiados na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910 e posteriormente reconstruídos.  Setúbal, Moita e Loures anteciparam-se a Lisboa na proclamação da República.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Textos em janeiro 18

 * Victor Nogueira


2023 01 18 - Foto victor nogueira - Vila do Conde - iluminações natalícias na Avenida João Canavarro (2023 01 14 IMG_1916)

JOÃO CANAVARRO Crispiniano da Fonseca nasceu em São Tomé e Príncipe (1881) e faleceu em Vila do Conde (1957). Advogado, foi Funcionário Público e Director da Escola Industrial da Reforma do Porto. Ligado ao Partido Republicano Português (PRP). Em Outubro de 1910 foi nomeado Administrador do Concelho de Resende e, em 1912, do Concelho de Vila do Conde. Nesta Cidade dirigiu o jornal O Democrático.

Esta artéria é um eixo estruturante em Vila do Conde, nela se localizando muitos estabelecimentos comerciais, o Cinema S. João, estabelecimentos bancários como a Caixa Geral de Depósitos, o Palácio da Justiça, os CTT e, nas cercanias, os Paços do Concelho, a Igreja de S. João Baptista, o Mercado Municipal e as Igreja e antigo Hospital da Santa Casa de Misericórdia. 



2020 01 18 SER AMIGO - Victor Nogueira .

Ser amigo é colorido presente
Ao darmos nossa mão, mas sem maldade,
Mantendo a vera luminosidade
Do silêncio ou do verbo assente.

Na tarde calma, serena, luzente,
Ou de noite, dia sem claridade,
É uma dádiva, felicidade,
Esta da vigília ser não dormente.

Amigos têm vária feição:
Dão-nos sua tristeza ou alegria,
Compartilhando bons e maus momentos.

Velho, novo, mulher, homem, bem são;
Na estrada e no dia-a-dia
Nem sempre atentos, prontos, nos tormentos.
.
.
1989.09.03 (3)
[1989.12.22]

2020 01 18 foto victor nogueira - Todos os anos nos desfiles do 1º de Maio, em Setúbal, no Largo dos Combatentes, com um cravo na mão e acenando aos manifestantes, estava à janela um casal idoso. Depois, passou a estar apenas a mulher e nos últimos anos ninguém. Esta é uma das fotos que tirei ao longo dos tempos.

2019 01 18 Victor Nogueira visto por Camilo Monteiro em 1973.01.05

Este dedo assinalado
Não é para descuidar.
Tem pretensões, é ousado
É dedo parlamentar !
É de Aragão e Avis
Que a voz não te esmoreça
Vamos cantar
NOTA - a história do Aragão e Avis tem história. Havendo algum sangue azul no ISESE, embora tão vermelho como o meu, republicano, laico e subversivo, descobri que o meu nome ao contrário se lê Rotciv Leunam Osorrab Arieugon ad Avlis, visigótico, e pronto, dei-me umas pinceladas de azul celeste descendente das Casas de Aragão, Avis e Calatrava LOL


2018 01 18 Diz-me o InFaceLocked que não posso partilhar esta minha NOTA de 18 de Janeiro de 2013  pois contém matéria insegura e que ele bloqueou. Serão duas gravuras eróticas ilustrando As Cartas Portuguesas de Soror Mariana ?

2018 01 18 O que conta é o Projecto, o Partido. Quantos foram esforçados nas autarquias e no Parlamento ou no Movimento Sindical e depois alguns (m/f) foram no canto da sereia e mudaram de campo, de "renovadores" a "independentes" ou "socialistas/sociais-democratas". Eles e nós passamos, mas o que deve sobreviver e vencer são os ideias, a organização e a praxis comunistas.

Como escrevi nesse longínquo ano de 1972
«Salut, camarada!
Se puede enganar
a todo el pueblo
parte del tiempo
Se puede enganar
a parte del pueblo
todo el tiempo
pero no se puede enganar
a todo el pueblo
todo el tiempo. (Lincoln)
Aqui está a minha esperança! Nós venceremos. Mesmo que eu seja derrotado ou me venda, outros tomarão o meu lugar, empunharão o estandarte. Algum dia venceremos! Algum dia! Salut, camarada!»
Gravura - O 4º Estado, de Volpedo (1901)


2018 01 18 Lassos, por Victor Nogueira

Lassos como roupa no chão.......em rodilha .............Rugas (imperceptíveis) .............nos olhos um leve sorriso: olá amiga! , um erguer pela gola um desalento um sorriso brando . na serenidade do entardecer uma enorme interrogação a luz do candeeiro o pó dos caminhos . nos lábios um leve sorriso (imperceptíveis) .........ao canto dos olhos rugas .........na alma um enorme cansaço 1972.Março.04. Évora


2018 01 18 - Marcelo Caetanos e as Conversas em Família

Nem todos podem ser o Marcelo das selfies e dos afectos, afilhado do Marcelo que inaugurou em 1968 as então chamadas Conversas em Família.
Escrevia eu outrora, em 1973 74

"Assisti ontem, como não podia deixar de ser, ao discurso do Marcelo Caetano sobre o Ultramar Português, na sequência dos incidentes verificados em Lisboa na Capela do Rato, após a atitude tomada por um grupo de católicos - chamados progressistas - sobre a paz - e as consequências da guerra colonial. (...) Pois o discurso do 1º Ministro foi atentamente escutado pela audiência ali do Café Alentejo onde vejo o pouco que me interessa na TV. Escutado atentamente mas não reverentemente. Um discurso notável pela sua construção, pelo encadeamento (embora falacioso) das ideias e factos, pela sua poesia ("Que bom poder ser moralista...", faz-me lembrar um dos poemas dum dos heterónimos do Fernando Pessoa), pela deturpação dos factos e pela demagogia. Nem o tom nem o tema me surpreenderam. Parece um facto que o Governo Português procura uma solução política para o problema colonial." (MCG - 1973.01.16)
"Só fiz um inquérito hoje [em Arraiolos. Um velhote de 72 anos, cabo reformado da GNR e ex-comandante do posto do Vimieiro. Muitos elogios ao Marcelo [Caetano] (já o carcereiro de Arraiolos me dissera: "Deus o conserve por muitos e bons anos"). Um casal de velhotes simpático, à moda antiga, que nunca bateram nos filhos, que no entanto tinham de andar na linha, nada de saídas nem bailes. " (MCG - 1973.03.16)
"Ontem à noite (1973.10.24), no regresso de Arraiolos, muitos Mercedes a caminho de Évora, onde às 21:30 alentejanos cinzentos de ar sisudo aguardavam ordeiramente o início da sessão de propaganda da ANP [Acção Nacional Popular]. Debaixo dos arcos [arcadas], uma fila de homens, com ar humilde e jeito de rebanho descido da camioneta, dirigia se para o cinema onde se realizaria a tal sessão. A Oposição não comparecerá ás eleições no domingo. O Marcelo [Caetano] bater-se-à contra nada" (MCG - 1973.10.25).
" Quando regresso à Praça [do Giraldo] já tudo havia terminado; apenas na placa central da Praça do Giraldo um grande magote de pessoas estão comprando "A Capital". São autênticas corridas aos jornais, avidamente disputados, como os dos últimos dias. Toda a gente anda de jornal debaixo do braço ou lê-o à mesa do café ou especado na rua. Até, oh! surpresa, raparigas! (Muitas mulheres têm tanta pena do Marcelo [Caetano], coitadinho, tão simpático, tão amigo do povo!). SAFA!" (MCG – 1974.04.27/28)


2014 01 18 -Ary dos Santos em Évora

Uma sessão cultural em Évora

Aqui, espalhados pela mesa, vários recortes de jornais, a maioria deles da Isabel da Nóbrega, que já conheço desde há seis anos pelos artigos que tem publicado no "Diário de Lisboa" e na "Vida Mundial". Actualmente já nem sempre aprecio tanto os seus artigos como outrora: porque ela teria mudado a sua maneira de escrever ? Ou eu a minha maneira de ser? Vi‑a apenas uma vez (em Évora) há dois anos, num colóquio sobre poesia (o Ary dos Santos - conhecido pelas letras da "Desfolhada" e de "Menina" - declamou - e bem - poemas seus) A esse colóquio o Ary chegou muito atrasado e já "entornado" e com uma garrafa de brandy com que ia molhando as goelas ao longo da sessão. Quem costuma andar lá pelas reuniões em Évora, como eu, conhece um certo número de autodidactas, o mais enfadonho dos quais é um tipo de bigode e óculos. Pois esses autodidactas - numa atitude compreensível mas inaceitável - aproveitam estas "manifestações " culturais para botar faladura a propósito e - sobretudo - a despropósito. De modo que para o fim aquilo começou a aquecer - o Ary dos Santos, bêbado, a falar contra a situação, em português vernáculo (e o Presidente da Direcção da Sociedade Operária de Cultura e Recreio Joaquim António de Aguiar muito aflito, por causa da PIDE e dos castos ouvidos das senhoras presentes) os autodidactas discutindo com a assembleia e a mesa, o Victor Ângelo e outros alimentando a discussão (dessa vez não abri o bico, pois por mim falava o ... Ângelo). O José Saramago ([1]) e a Isabel da Nóbrega procuravam, em vão, acalmar os ânimos. Apaixonei‑me pelo rosto da Isabel. Se a visses, aqueles olhos grandes, as suas mãos, a atenção e o cuidado para não ferir os autodidactas - vaiados pela assistência! Estou a vê‑la sentada, aflita à procura da palavra e do gesto, falando às pessoas, voltada para elas, aflita por não poder falar com os dois campos simultaneamente, um grande respeito pelas pessoas! Entrevi‑a depois à saída e fiquei algo desiludido: o seu corpo não me pareceu corresponder à nobreza do seu espírito. Pouco sei dela: que tem escrito alguns romances, que terá dois filhos da minha idade. (MCG - 1972.09.02)

[1] - Voltei a encontrar o José Saramago anos depois novamente em Évora, nos idos de 75, salvo erro numas reuniões para que assumisse a direcção do Diário do Sul, órgão reaccionário, e mais tarde numa sessão de autógrafos na Avenida da Liberdade em Lisboa, numa mesa debaixo dum toldo, cena que registei para o meu port-folio fotográfico. Ou várias vezes na Festa do Avante, com ar entediado a conceder autógrafos. Do Ary, recordo depois de Abril a sua voz empolgante, arrebatadora, umas vezes, mais intimista, noutras, conforme os poemas que “dizia”. Ouvir Ary emociona-me, ainda mais que outro "diseur" que foi João Vilaret.

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