Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Letras empilhadas, ano após ano, em Fevereiro, 04 e 05, (re)colhidas em 2025

 Victor Nogueira

4 de fevereiro de 2011  · 

Se repararem o negro é apresentado como "primitivo" e se  se lembrarem dos livros de leitura da instrução primária, idênticos e únicos do Minho a Timor, nas ilustrações apenas apareciam brancos e o tema era ... Portugal Continental. Duma penada se desmentiam assim  a multicontinentalidade, a igualdade e a multi-racialidade !

   

 5 de fevereiro de 2014  · 

Praticamente desde o século XVI os povos de África  resistiram à ocupação dos seus territórios pelos europeus e ao tráfico de escravos, sobretudo para as colónias americanas e para o que viria a ser os Estados Unidos da América. A partir da Conferência de Berlim em 1885, que procedeu à partilha de África e  não só de acordo com os interesses do desenvolvimento capitalista, verificou-se a ocupação efectiva dos territórios. No que respeita a Portugal, este no final da Monarquia e durante a 1ª República procedeu às chamadas Campanhas de Pacificação, vencendo a resistência dos africanos devido à superioridade de armamento. 

Desde então a resistência foi mais ou menos sufocada. Em Janeiro de 1961 os camponeses da Baixa do Cassange, em Angola, (numa área equivalente à de Portugal Continental) iniciaram uma greve contra o regime de monocultura de algodão e contra as condições de trabalho. Esta greve foi sufocada pela aviação militar, metralhando e regando com napalm as populações originando entre centenas e milhares de mortos, a ela não se referindo os órgãos de informação devido à férrea censura fascista.

Em 4 de Fevereiro do mesmo ano de 1961, coincidindo com o desvio do paquete Santa Maria e as greves em Portugal, as cadeias de Luanda foram assaltadas para a libertação de presos políticos. Os assaltos, posteriormente reivindicados pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) falharam e em Luanda seguiram-se tempos de massacre das populações dos muceques da periferia da cidade, perpetrados por civis brancos armados.

Em 15 de Março de 1961 a UPA (União dos Povos de Angola), apoiada pelos EUA, desencadeou no Norte de Angola um ataque e a chacina de fazendeiros e suas famílias nas roças de café e dos respectivos trabalhadores bailundos, do Sul de Angola, usados para quebrar a resistência dos camponeses do Norte dentro do princípio do dividir para reinar, como sucedia em Portugal no Alentejo. 

O Governo de Salazar sabia da preparação da revolta mas nada fez para evitá-la. Falhada a conspiração do General Botelho Moniz, Salazar e o seu governo resolveram ir "Para Angola e em Força". Nesse mesmo ano a União Indiana ocupou os territórios do chamado Estado da Índia e nos anos seguintes iniciou-se a guerra colonial em Moçambique e na Guiné.

O 4 de Fevereiro de 1961 marca pois o início da guerra colonial, a que o 25 de Abril de 1974  pôs termo, apesar da resistência e oposição  do General Spínola e das ambiguidades posteriores de Mário Soares/PS.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Textos em fevereiro 04

 * Victor Nogueira

2023 02 04 Fotos victor nogueira - Vila do Conde - Capela do Socorro e relógio de sol na Praça D. João II, como se fora no norte de África, muçulmano, em dias de infernal calor mas que afinal e na realidade eram de invernal gélida frialdade. [IMG_1975  (2023 01 15) IMG_1461 (2022 12 06 08)] 

2023 02 04 PS e PSD, os gémeos Dupond e Dupont e as bengalas do Chega e da Iniciativa Liberal, todos de manitas dadas e passo acertado, à direita volver, sem que o Ventura esbraceje clamando "Vergonha!" com estas alianças pro-natura! 

2023 02 04Ele há a Belinha do Banco Alimentar Contra a Fome que alimenta a bolsa voraz e choruda das grandes distribuidoras de bens essenciais, upa, upa, e ele há o CEO do Banco Santander que em tempos de crise embolsou chorudos milhões. Tal como aquele pulhítico nórdico, que achava que os/as portugueses/as gastavam em p***s e vinho, tal como o Passes de Coelho achava que os/as portugueses/as são uns piegas que vivem acima das suas possibilidades e deviam emigrar, saindo da sua zona de conforto, tal como a Jonet que defende os tempos de uma sardinha a distribuir à refeição como opíparo jantar, nada de bifes, caviar ou faisão, assim o CEO do Santander, lídimo representante da banca da usura,  acha que os/as portugueses/as abusam dos jantares fora às 6ªs feiras. Para que conste: «Lucro do Santander Totta quase duplica para 568,5 milhões de euros em 2022

Maria Márcia Marques
O meu receio é de um dia deixarem de existir pessoas com pensamento próprio, livres e capazes de lutar por ideais. As tuas análises são certeiras e mordazes...


2023 02 04 As congratulações e namoros do PS e os arrufos da Iniciativa Liberal quanto a "coligações", acordos" ou "apoios": . Estamos conversados sobre a deriva cada vez mais à direita  do PS e seus dirigentes, livres dos empecilhos  à esquerda que eram o PCP, Bloco e Verdes.  

«O líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, elogiou esta quinta-feira a “clareza” com que o novo presidente da Iniciativa Liberal (IL) recusa qualquer entendimento com o Chega e desafiou Rui Rocha a apresentar um candidato para a vice-presidência da Assembleia da República (AR).

(...) Em resposta, Rui Rocha reafirmou que a IL sempre prezou a “clareza” sobre com quem se poderá ou não entender em alguns pontos ou alcançar acordos: “Infelizmente essa clareza não parece estar presente em todos os partidos políticos”, atirou, numa crítica ao PSD e ao próprio PS. O líder liberal lamentou que os socialistas não tenham sido também claros em relação a entendimentos com “extremos” no passado, acabando por chegar a acordo com o BE e o PCP para uma solução governativa - a antiga ‘geringonça’.»

2023 02 04Por alguma razão o atentado contra Hitler pretendia criar condições para que o III Reich pudesse "assinar" a Paz apenas com a França / Grâ Bretanha e EUA para permitir aos nazis prosseguirem a ofensiva contra a URSS, o "inimigo" comum às potências capitalistas. Por alguma razão os nazis preferiam render-se às forças expedicionárias da USA ao Exército Vermelho. Por alguma razão os EUA "reciclaram" os nazis, com o apoio da Igreja Católica, que garantiu a sua fuga. Por alguma razão após o fim da II Guerra Mundial nada sucedeu aos regimes fascistas e anticomunistas de Espanha e Portugal. Por alguma razão Portugal fascista esteve entre os fundadores da "democrática" USA/NATO. 


2022 02 04 Foto victor nogueira - Setúbal - Avenida 5 de Outubro, com as buganvílias em flor

Á direita corria outrora a muralha medieval, com suas torres, portas e postigos, que o desenvolvimento urbano derrubou e da qual já pouco ainda existe, como testemunho e memória. Nesta artéria localiza-se o Centro de Trabalho do PCP. (Canon 180_05 2020 05 31 IMG_1505)


"Todo o mundo / há-de ouvir / Todo o mundo / há-de sentir / Tenho a força / de mil homens / para o que há-de vir." "Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos."



2021 02 04 Foto Victor Nogueira - Murais de Abril - Instituto Superior Técnico) - Lisboa 1981  (montagem) - A Juventude vota APU / Juventude Comunista Portuguesa



2020 02 04 Foto MENS - na Casa de Goios ou dos Vitorino, em Barcelos, com o avõ António e o primo Adelino, com outro mais novo a espreitar

VER 

Goios, Pedra Furada e Remelhe (edição revista)

na Casa de Goios, Barcelos

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2016 02 04 Há 55 anos - a 4 de fevereiro, em angola - começou a guerra, colonial para uns, de libertação, para outros. ------semanas antes as forças armadas portuguesas haviam regado a napalm e metralhados milhares de camponeses em greve contra o regime de monocultura e condições de trabalho na cotonang, na baixa do cassange, em angola, numa ára equivalente à de portugal continental

2014 01 05 Praticamente desde o século XVI os povos de África  resistiram à ocupação dos seus territórios pelos europeus e ao tráfico de escravos, sobretudo para as colónias americanas e para o que viria a ser os Estados Unidos da América. A partir da Conferência de Berlim em 1885, que procedeu à partilha de África e  não só de acordo com os interesses do desenvolvimento capitalista, verificou-se a ocupação efectiva dos territórios. No que respeita a Portugal, este no final da Monarquia e durante a 1ª República procedeu às chamadas Campanhas de Pacificação, vencendo a resistência dos africanos devido à superioridade de armamento. 

Desde então a resistência foi mais ou menos sufocada. Em Janeiro de 1961 os camponeses da Baixa do Cassange, em Angola, (numa área equivalente à de Portugal Continental) iniciaram uma greve contra o regime de monocultura de algodão e contra as condições de trabalho. Esta greve foi sufocada pela aviação militar, metralhando e regando com napalm as populações originando entre centenas e milhares de mortos, a ela não se referindo os órgãos de informação devido à férrea censura fascista.

Em 4 de Fevereiro do mesmo ano de 1961, coincidindo com o desvio do paquete Santa Maria e as greves em Portugal, as cadeias de Luanda foram assaltadas para a libertação de presos políticos. Os assaltos, posteriormente reivindicados pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) falharam e em Luanda seguiram-se tempos de massacre das populações dos muceques da periferia da cidade, perpetrados por civis brancos armados.

Em 15 de Março de 1961 a UPA (União dos Povos de Angola), apoiada pelos EUA, desencadeou no Norte de Angola um ataque e a chacina de fazendeiros e suas famílias nas roças de café e dos respectivos trabalhadores bailundos, do Sul de Angola, usados para quebrar a resistência dos camponeses do Norte dentro do princípio do dividir para reinar, como sucedia em Portugal no Alentejo. 

O Governo de Salazar sabia da preparação da revolta mas nada fez para evitá-la. Falhada a conspiração do General Botelho Moniz, Salazar e o seu governo resolveram ir "Para Angola e em Força". Nesse mesmo ano a União Indiana ocupou os territórios do chamado Estado da Índia e nos anos seguintes iniciou-se a guerra colonial em Moçambique e na Guiné.

O 4 de Fevereiro de 1961 marca pois o início da guerra colonial, a que o 25 de Abril de 1974  pôs termo, apesar da resistência e oposição  do General Spínola e das ambiguidades posteriores de Mário Soares/PS.


 2021 / 2017 / 2016 / 2015 / 2013  04 - O 4 de Fevereiro, o Dia da Raça e a Guerra Colonial

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sábado, 4 de fevereiro de 2017

o 4 de Fevereiro, o Dia da Raça e a Guerra Colonial


Victor Nogueira – o 4 de Fevereiro, o Dia da Raça e a Guerra Colonial

O 4 de Fevereiro
Como já deves saber pelos jornais, houve assaltos a vários estabelecimentos de Luanda (cadeias civis, Casa de Reclusão Militar e Quartel da Brigada Móvel da PSP), na madrugada do dia 4 do mês corrente. No dia seguinte, domingo, quando a maioria da população desta cidade acompanhava à última morada os agentes da ordem mortos no dia anterior, alguns agitadores dispararam tiros, entregando-se a demonstrações de provocação. A polícia e o exército intervieram logo, travando luta com os díscolos. Houve dez assaltantes mortos e muitos outros foram presos. Também num outro ponto da cidade houve motins. Vários polícias ficaram feridos. Na quarta feira, dia 8, os assaltantes atacaram a cadeia de S. Paulo. Morreram 17 assaltantes e muitos foram feridos, efectuando-se numerosas prisões, tal como já acontecera no sábado, dia 4. A grande maioria dos assaltantes nativos estava fortemente drogados com “marijuana” e possuíam armas brancas (catanas) e armas de fogo de origem checoslovaca. Entre os assaltantes mortos ou presos havia alguns europeus pintados de preto. A polícia e o exército têm efectuado “rusgas” pelos muceques e prendido numerosos indígenas suspeitos de tomarem parte nos assaltos. Perto do cemitério foram encontrados muitos pretos feridos, tratados por duas feiticeiras, num hospital improvisado. Foram todos presos (1)

Os polícias da Brigada Móvel terraplanaram os terrenos à volta do quartel, instalaram projectores nos diversos edifícios do dito quartel e cercaram-no de arame farpado que, segundo dizem, está pronto a ser electrificado no caso de um novo assalto. Na cadeia de S. Paulo foram instalados projectores e a guarda foi reforçada. No Quartel General da PSP a guarda foi reforçada. De vinte em vinte metros encontra-se um polícia de metralhadora e com a baioneta calada. São ao todo seis polícias e um cipaio. Tirando isto e as “rusgas” aos muceques, tudo está normal, como antigamente. (MLF - 1961.02.23)

(1) Toda a população branca da cidade foi aos funerais. Estava tudo dentro do cemitério da Estrada de Catete quando alguém gritou Eles vêm aí, começando a ouvir-se rajadas de metralhadora. A partir daí foram o pânico generalizado e o caos, com as pessoas a correrem desordenadamente, aos gritos, uns para aqui e outros para ali, todos confluindo para o portão principal do cemitério, pequeno para tão grande avalanche. Lá dentro, havia sapatos pelo chão, pessoas correndo com um pé descalço e outras partindo árvores e estacas de sustentação para improvisadas armas. Conseguimos sair, todos juntos, em direcção à carrinha no meio dos inúmeros veículos que estavam cá fora estacionados. De repente ouviram-se novas rajadas de metralhadora, e aí deitei-me no chão, esperando que uma cova se abrisse debaixo de mim para me proteger. A viagem de regresso fez-se a passo de caracol e seguramente que muitos brancos teriam sido chacinados se tivesse mesmo havido um ataque. E a imagem que me ficou, perante o absurdo evidente daquela retirada geral sem qualquer segurança, foi a imagem dum negro desolado à beira da estrada, esfarrapado e ensanguentado. Essa noite e os dias que se seguiram foram de represálias e massacres indiscriminados sobre os negros dos musseques, perpetradas pelos civis brancos armados. 

Ñotas e reflexões epistolares

1961
No fim as alunas do Liceu D. Guiomar de Lencastre entoaram a “Angola é Nossa” e as internas do Asilo D. Pedro V uma canção especialmente composta para a Marisol.

Depois disto começou o filme, que me agradou bastante. (Diário - pag. 126/127 - 1961.11.26)

1969
Dentro de momentos a Praça do Giraldo será cenário duma manifestação [do 10 de Junho] que pretendem grandiosa e durante a qual se enaltecerá essa gloriosa e alegremente sacrificada juventude portuguesa que em terras de África defende a herança dos seus avoengos, numa guerra santa sobre cujos fundamentos se não admitem dúvidas. Entretanto a Universidade de Coimbra está em greve desde há largas semanas, greve de que os jornais não falam, a não ser publicando os diversos e por vezes incoerentes e inverosímeis comunicados das autoridades académicas. A música continua a ser monoral. (...) Está uma manhã cheia de sol, contrastando com o pluvioso e cinzento dia de ontem. Pela janela aberta chegam-me aos ouvidos o chilrear dos pássaros e os discursos transmitidos pelos autofalantes, na cerimónia que se realiza a dois passos daqui, entrecortados por salvas de palmas. (NSF - 1969.06.10)

1970
Isto por cá não anda muito bom. As greves sucedem-se diariamente - só por portas travessas se sabe - e as deserções do exército, nomeadamente dos oficiais milicianos, continuam a verifica-rse. Entretanto o problema do Ultramar continua a ser explorado emocionalmente, com completo desrespeito pelos interesses do povo português. A emigração aumenta. A nau mete água por muitos rombos. (NSF - 1970.07.18)


A malta no café hoje está indignada porque o Mesquita reprovou o Alpendre em Direito Corporativo. O Alpendre perdeu assim o ano e vai para a tropa. Mas eu já estou calejado demais para trovejar como o Camilo ou ficar com a lágrima ao canto do olho como o Carlos. O Mesquita ( ) é um incompetente, não prepara as lições e mete água. Mas é o Mestre, Senhor todo poderoso enquanto os estudantes continuarem a falar pelos cafés, cada qual metido no seu individualismo, no seu morno egoísmo, na sua indiferença quotidiana! (MCG - 1972.10.18)

1973
Chegou agora o Guerreiro, mas vai lendo os vespertinos para se pôr em dia. Assisti ontem, como não podia deixar de ser, ao discurso do Marcelo Caetano sobre o Ultramar Português, na sequência dos incidentes verificados em Lisboa na Capela do Rato, após a atitude tomada por um grupo de católicos - chamados progressistas - sobre a paz - e as consequências da guerra colonial. (...) Pois o discurso do 1º Ministro foi atentamente escutado pela audiência ali do Café Alentejo - onde vejo o pouco que me interessa na TV. Escutado atentamente mas não reverentemente. Um discurso notável pela sua construção, pelo encadeamento (embora falacioso) das ideias e factos, pela sua poesia ("Que bom poder ser moralista...", faz-me lembrar um dos poemas dum dos heterónimos do Fernando Pessoa), pela deturpação dos factos e pela demagogia. Nem o tom nem o tema me surpreenderam. Parece um facto que o Governo Português procura uma solução política para o problema colonial. (MCG - 1973.01.16)

No Giraldo Square erguem-se bancadas e toldos, que vedavam ao trânsito automóvel a rua da Selaria (ou 5 de Outubro). O Giraldo é uma "bancadaria" para [comemorações d]o 10 de Junho, que este ano deve ser comemorado em grande, para compensar os desastres que se vão averbando na Guiné e no Norte de Moçambique. (...) Domingo próximo, em Portugal de lés a lés, viver-se-ão jornadas de fervor patriótico! (MCG -1973.06.07)

Encontrei hoje a primeira pessoa que me falou abertamente contra a "guerra no nosso Ultramar". ("nosso, não - acrescentou - que eu não tenho lá nada") Mas não falou contra por nobres ideias. Arrendatário de 500 ha de terras (desde há 49 anos), pareceu-me um lavrador à antiga, estilo senhor de escravos, cm salários de fome, condenado à morte, como o segundo, um rendeiro de 15 ha há 30 anos. O mundo andou e eles ficaram para trás. Ganharam a batalha durante 40 anos mas perderam a guerra. Nas pesquisas que fiz pela biblioteca do Instituto descobri 2 livritos interessantes, dum tal Pequito Rebelo, pessoa célebre na altura, sobre a agricultura cerca de 1925 / 1931 (são dessa altura) Por essa altura (1925) o Governo da I República queria promulgar uma lei da reforma agrária (não sei se ainda conseguiu fazê lo), para divisão dos latifúndios do Alentejo e distribuição das terras pelos tipos do Norte, uma tentativa para diminuir a emigração para o Brasil. E o Pequito Rebelo desenvolve toda uma argumentação para justificar a manutenção do estado de coisas. Um primor. Claro que o 28 de Maio de 1926 permitiu o "triunfo" momentâneo destes tipos como os que citei atrás. A lei que o Ministro Ezequiel de Campos pensava promulgar era chamada de "comunista" pelo Pequito. Não houve "revolução" no sentido de se proceder à reforma agrária. Mas o desenvolvimento do Centro e Norte da Europa determinou o êxodo, primeiro dos rurais e agora dos operários e doutros jovens. Agora gritam que não têm pessoal, falam contra a emigração e a guerra. (MCG - 1973.06.08)

A cadeira de Doutrinas Sociais
Assim fui deixando para trás o exame final de Doutrinas Sociais, até ao 5º ano, quando fui ter com o Pe. Augusto Silva e lhe disse que aqueles não eram exames que medissem o grau de conhecimento dos alunos mas violentas provas que mediam apenas a capacidade de memorização acrítica e acéfala da matéria, pelo que me recusava a fazer tal exame pelo que em alternativa me propunha apresentar um trabalho e defendê-lo numa prova oral (os exames de Doutrinas Sociais eram apenas escritos) pois doutro modo recusava-me a concluir o curso. O Pe. Silva disse que me daria a resposta no dia seguinte. A contraproposta dele foi submeter-me a uma prova escrita idêntica às habituais e apresentar um trabalho à minha livre escolha, mas sem discussão oral. Pelo que entreguei a prova escrita normal, em branco, apenas com identificação, e um trabalho em que com base na Encíclica Pacem in Terris condenava a guerra colonial. Naturalmente, tive apenas dez valores e pude concluir o curso. (1973)
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(...) Num ápice o [café] Arcada enche-se. Terminaram as condecorações, os toques de clarim e o desfilar das forças em parada. Já ontem se notavam muitos forasteiros que de longes terras vieram até ao povoado. ( MCG - 1973.06.10)

Levanto os olhos e vejo muitos magalas, na sua farda verde oliva. Andam também pelas ruas, aos grupos, espalhafatosos, como quem já tem o seu grão na asa. "Cheira-me" que haverá dentro em breve mais um contingente para a guerra em África. Alguns escrevem, curvados sobre o papel, a caneta firme na mão, como quem não está habituado a frequentes escrituras. Parecem rapazes muito novinhos; uns conversam, irrequietamente, outros têm um ar absorto, ausente. (MCG - 1973.11.26) 

Os magalas ainda não embarcaram, continuando a encher ruas e cafés. Cheguei há instantes da tabacaria, onde confirmei um anti-slogan: "Não telefone, vá!" Uma hora, foi o tempo que levei para conseguir uma chamada para Lisboa. (...) A gasolina é quase como agulha em palheiro para encontrá-la. Está praticamente esgotada em Évora ou Lisboa. P'rá semana há mais! Domingo passado, segundo o Carlos, às 4 da tarde já havia 3 ou 4 carros parados numa bomba aguardando pela meia noite para poderem seguir rumo a Lisboa. No regresso de Portalegre tiveram de juntar-se-lhes. (...) (MCG - 1973.11.27)

1974
 (...) Viste o TV 7, ontem, domingo? É muito para um homem só ouvir finalmente, aquilo que alguns pensavam, muitos sentiam, mas não se podia dizer. E sobretudo o fim da guerra colonial, o direito à greve... Não, (...) não creio que se possa retroceder. A luta dos próximos tempos será de morte (não, não me refiro à guerra civil!); espero que o povo português não perca tudo o que pretenderão tirar-lhe: uma sociedade mais justa e humana. Mas de algo estou certo: "a longa noite do fascismo não voltará!". (MCG - 1974.04.27/28) 

No café Estrela, velhos falam dizendo que os jovens de agora são melhores que no seu tempo: "A gente também não concordava com o Salazar mas nunca tivemos coragem de fazermos o que eles fizeram.". Nas imagens que a RTP transmite a nota dominante entre os manifestantes e os mirones era a juventude. Outro velho diz que nunca foi marcelista. (MCG - 1974.04.26)

 .
(...)

De Angola
pouco sabíamos
até ao 4 de Fevereiro, até ao 15 de Março
Veio a guerra e
....................a mentira
que alimenta
..................a Guerra,
Veio a guerra e a violência
veio a guerra e a liberdade.

Em Évora a 11 de Novembro
Em Luanda a bandeira do meu país
no mastro subiu.
Era o tempo da liberdade e da esperança.

(...)


(do meu poema "Raízes" - 1989) in http://aoescorrerdapena.blogspot.pt/2017/02/o-4-de-fevereiro-o-dia-da-raca-e-guerra.html