Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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sábado, 5 de julho de 2014

entre eros e afrodite 24 - cartas a Penélope 10

5 de Julho de 2014 às 1:12

* Victor Nogueira

Mais uma  photoandarilhice, desta feita aos jardins do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras,precedida dumas divagações em solilóquio, quando não em circunlóquio.


Foto Victor Nogueira - Setúbal


Depois duma interessante  BD sobre o Holocausto, "Maus" (Ratos) de Art Spiegelman - cuja tradução é péssima - acabei de ler um livro de Anita Vilar com biografias de mulheres ligadas a Setúbal ao longo das eras, no qual se faz referência a um opuscúlo sobre o mesmo tema escrito por uma colega e amiga minha que foi bibliotecária da Câmara, a Idília das Mercês. Já reformada e com a doença de Alzheimer, um dia levaram-na ao edifício onde eu trabalhava para visitar os colegas, não reconhecendo qualquer deles, com uma surpreendente excepção: ao cruzar-se comigo num corredor, o rosto iluminou-se num sorriso, exclamando: "Olha, o Victor". Também o meu pai já só me reconhecia e às minhas mãe e filha, perguntando pela Celeste. Quando lhe dizia que já tinha morrido afirmava que não sabia e que ninguém lho tinha dito, repetindo-se a cena algum tempo depois, conjuntamente com a afirmação de que o filho Zé Luís também já morrera, interrogando-me sobre a causa da morte do caçula.

Continuo a ler uma obra sobre as civilizações africanas na Idade Média, algumas delas tão avançadas como as europeias e, nalguns aspectos, mais adiantadas. E na forja para leitura uma colectânea de escritos de viajantes estrangeiros que ao longo dos séculos passaram por Setúbal, um dos quais é o autor duma interessante obra que acabei de ler há dias "Portugal, Recordações do ano de 1842", do Príncipe Félix Lichnowsky.

Voltando a "Maus" de Art Spiegelman, de leitura que prende, toda a trama gira em torno da eliminação genocida dos judeus, como se estes - dentro e fora dos campos de concentração e de extermínio - tivessem sido as únicas vítimas. omitindo-se - como é habitual - a perseguição e o extermínio de opositores políticos ou de "sub-humanos", como ciganos, comunistas, socialistas, sindicalistas, eslavos, incluindo os prisioneiros do exército vermelho (soviético), a quem os nazis não aplicavam o estatuto de prisioneiros de guerra.

Em vai-vém, oscilando entre as margens dos rios tejo e sado, entre Setúbal e Paço de Arcos e seus arrabaldes, estilo borda de água, prosseguem os dias de verão, ora chuvosos, ora outonais, ora frementes de electricidade, entre a clara luminosidade e o cinza das núvens acasteladas. As noites são povoadas de contínuas histórias, como se sessões de cinema fossem, cujo enredo procuro fixar ao acordar, logo esvaídos e sem préstimo como matéria prima para "literaturas". Sucedem-se os tempos e os espaços e na tessitura deste (es)correr dos astros, das núvens e das águas, tu não és senão uma efabulação minha, uma ausência de nós e de laços, mas apesar disso contigo percorro e photoandarilho, contigo que és toda a gente e ninguém, cada um metido na dobadoira da vida em caminhos que ainda não se encontra(ra)m na estrada da Junção do Bem. Seria a Junção do Bem ?  Huuummmm !!!

1. de quantas pétalas é tecido o sol
e de quantas escamas o mar?
quais as malhas que entretelam o lençol
e de que notas se veste o luar?

é difícil a rima,
verso branco que arrima
e anima
oco louco
muito ou pouco ?

e a seara cerealífera
na esfera da espera

na concha do sentido
caracol
pelíicula a película (des)folh(e)ada
quantos sentidos se encerram ou libertam ?

de quantos caracteres, signos e palavras
se retiram duma só?
sol rissol solidão metanol briol
solário vário
refrigério
quente ou frio
etc & tal

ou assim e assim
afinal
sem pós de perlimpimpim ?


2. De quantas roupagens e de quantos espelhos se veste o amor ? Como e em que balanças se pesam os corações ? De que matéria ou materiais são feitos? De quantos rios refluindo em riacho cada vez mais estreito e para longe do mar ? De quantas luas se faz o sol ? Como se apura o deve e haver da mão invisível que equilibra as curvas da oferta e da procura ? Na economia do amor de que monopólios ou oligopólios se alimenta ? Amor rima com ar-dor e an-dor e amizade com serenidade.Fica um campo de flores estreladas


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Foto Victor Nogueira - Oeiras - Ribeira da Laje, no jardim público 

3. retrato de gioconda por Fra Angélico

Uma expressão de nórdica Gioconda, branca de neve contrastando com ondas de azeviche da cabeleira como se visão de El Greco fosse.Na contrastaria e em fundo a delicadeza colorida e nipónica, o verde  do canavial, junco ou papiro, a seara de esmeraldas … e o solário. O equilíbrio, a diversidade e … o enigma! A roca e o fuso, a esquadria curvilínea. Para lá da imagem a cisterna do mar dourado e a  flexibilidade das ondas em crescendo, serpenteante e diamantífero caracol. A sintonia da sinfonia.


4. os dedos em arremedos
um beijo em solfejo
abraços em baraços
nós sem laços
e na rua
a lua nua`
lassa
cruciforme
baça
sem ti
e o destino
um malão de cartão
no porão
e
a
ínsula
onde a pena ou a "pen" da península
istmo com ritmo
o sábio astrolábio ?


João Baptista

~~~~~~~~~~

O passeio de hoje é uma deambulação pelos jardins do Palácio do Marquês de Pombal, na vila de Oeiras. Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, foi o poderoso e autoritário Ministro de  D. José, cujo poder - baseado no despotismo iluminado -  procurou fortalecer contra muito poderosas casas senhoriais, como as dos Marqueses deTávora ou dos Duques de Aveiro, ou  de influentes ordens religiosas como a Companhia de Jesus, vulgo Jesuítas, cujos colégios espalhados pelo país, incluindo a Universidade de Évora, extinguiu.

Representante dos interesses da nascente burguesia, aboliu a distinção entre cristãos-novos e cristãos velhos, reformulou o ensino em novas bases e lançou os alicerces para o desenvolvimento económico através da criação de manufacturas, cujos produtos eram protegidos através de pautas aduaneiras, ou de companhias majestáticas e monopolistas, designadamente no campo dos tecidos (seda e lanifícios), das pescas e da vitivinicultura, ou comercias, nas colónias (Brasil), reprimindo violentamente as manifestaçãos populares e dos pequenos produtores, como as dos vinhateiros e pequenos comerciantes (Motim dos Taberneiros do Porto), a dos pescadores de Santo António da Arenilha (Algarve) ou o incêndio da Trafaria, povoação de pescadores onde se haviam refugiado fugitivos à Justiça Real.

O racionalismo iluminista no campo da urbanização é bem patente na reconstrução da baixa lisboeta após o terramoto de 1755, e na construção de raiz de Vila Real de Santo António, no Algarve. Li algures e em tempos que em Setúbal, arrasada pelo terramoto, tentou aplicar os novos princípios racionalistas no traçado urbanístico, mas a vila reconstrui-se mais rapidamente no seu traçado medieval.

Foi o Marquês de Pombal quem quebrou o poder da Inquisição  em Portugal (que viria a ser definitivamente abolida com a Revolução Liberal de 1820), embora sintomáticamente o último auto-de-fé, "encomendado" pelo Marquês, tenha queimado o padre jesuíta Malagrida (que defendia que o Terramoto tinha sido provocado não por causas naturais mas pela ira de Deus). Em estátua ou efígie, porque fora do alcance da Justiça Real, foi executado o Cavaleiro de Oliveira, libertino, racionalista, que havia abjurado a fé católica, crítico impiedoso da Inquisição e da Igreja Católica (religião única da Monarquia), a cujo obscuranturismo atribuía a miséria de Portugal e o seu atraso económico.. Também em efígie, porque já haviam morrido, foram executadas duas pobres mulheres, talvez acusadas de bruxaria ou feitiçaria.

Para além do Palácio no Bairro Alto, em Lisboa, o todo-poderoso Ministro, oriundo da pequena burguesia rural, feito Conde de Oeiras na sequência das medidas tomadas após o terramoto de 1755, na povoção do mesmo nome ficou proprietário de vastas e férteis terras, junto à Ribeira da Laje, combinando a quinta de recreio e palácio com a exploração agrícola segundo métodos avançados. Foi também em Oeiras que o Marquês de Pombal realizou a 1ª Exposição Agrícola e Industrial portuguesa. (1770).



 in http://anyformsdesignmapas.blogspot.pt/2012/07/palacio-do-marques-de-pombal-oeiras.html

A entrada principal do palácio, projectado por Carlos Mardel, é feita por um amplo terreiro onde actualmente se localizam o edifício da Câmara Municipal, o Pelourinho e um grande chafariz.  Olhando para  mapa, o palácio situa-se no canto superior esquerdo, numa das laterais do largo fronteiro aos Paços do Concelho, onde se situam os referidos pelourinho e fontenário com as armas do Marquês. No lado direito, na extrema do mapa, os edifícios da adega e do lagar de azeite, junto dos quais fica a Cascata dos Poetas ou Gruta Nobre, construção artificial, com os bustos dos quatro poetas preferidos de Pombal, entre eles Camões e Virgílio. Adjacente ao Palácio desenvolvem-se espaços, decorados com estátuas e bustos de mármore, muretes e escadarias revestidas de azulejos. Nos jardins, atravessados pela ribeira da Laie, encontram-se excelentes bustos de autoria de Machado Castro, para além do Jardim das Merendas e da Casa do Peixe. Os jardins deste palácio são representativos da arte do paisagismo em Portugal, apresentando uma concepção do século XVIII europeu, mas permanecendo  fiel a uma tradição portuguesa que produz a partir do século XVI as Quintas de Regalo. Era nos jardins em torno do palácio que se realizavam os eventos culturais: teatro, bailado, música, entre outros. Do renomado escultor Machado de Castro, já falámos em notas anteriores, das photoandanças por Lisboa (Arco da Rua Augusta e Praça do Comércio) e por Caxias (Quinta Real).

Nestes quentes dias estivais o sol ofusca e a luminosidade fere o olhar, não se ouvindo o rumorejar das águas na cascata nem o trinado de aves ou o sussurrar das folhas agitadas pela brisa e o perfume das flores não volteia em meu redor.   



Foto Victor Nogueira - Varanda com  pérgula  de glicinias.

MEMÓRIA DESCRITIVA

no jardim
aragem chinesa ou nipónica
em filigrrana rendilhada
um jogo de luzes em chiaroscuro
dicotómico e caleidoscópico

sombria de sombras
na penumbra em contrastaria
rútilo é o i

entre o gradeamento
e a folhagem
a preto e branco
síntese ou ausência da cor
senza cuore il senso
a cinza e a neve
il silenzio

sem refração
na espiral rectilínea
visto o registo
em curvilínea planura



As propriedades que o Marquês de Pombal possuía em Oeiras englobavam oito olivais, cuja colheita era transformada no Lagar de Azeite, parcialmente recuperado. 

Uma parte do jardim, na margem esquerda da Ribeira da Laje, é o Jardim Público da Vila, estendendo-se quase até à estrada marginal. É dos Jardins do Palácio e do exterior deste que falam as photos seguintes.


vem de entre eros e afrodite 23 - cartas a Penélope 09


Foto Victor Nogueira - vista do palácio com terraço das araucárias


Foto Victor Nogueira - vista fachada lateral do palácio com terraço das araucárias


Foto Victor Nogueira - painéis de azulejos do século XVIII nos muretes


Foto Victor Nogueira - painéis de azulejos do século XVIII nas escadarias


Foto Victor Nogueira - Terraço das araucárias e jardins de buxo


Foto Victor Nogueira - Terraço das araucárias e jardins de buxo


Foto Victor Nogueira - Terraço das araucárias e jardins de buxo


Foto Victor Nogueira - flores do jardim


Foto Victor Nogueira - flores do jardim


Foto Victor Nogueira - Ribeira da Laje


Foto Victor Nogueira - Jardim das merendas.


Foto Victor Nogueira - Fonte das 4 Estações (antiga Horta ajardinada)


Foto Victor Nogueira - jardim


Foto Victor Nogueira - jardim


Foto Victor Nogueira - Ribeira da Laje


Foto Victor Nogueira - Cascata do Poeta


Foto Victor Nogueira - Cascata dos Poetas



Foto Victor Nogueira - Cascata dos Poetas


Foto Victor Nogueira - Ponte sobre a Ribeira da Laje em direcção à Cascata dos Poetas.


Foto Victor Nogueira - Ribeira da Laje
  

Foto Victor Nogueira - aqueduto vendo-se em 2º plano o pombal.


Foto Victor Nogueira - fonte (pormenor, com as armas do Conde de Oeiras)


Foto Victor Nogueira - pombal, junto à estrada da Junção do Bem


 Retrato do Marquês de Pombal, por Louis-Michel van Loo (sec XVIII)

5 comentários

Comentários

Maria João De Sousa Obrigada, Victor Nogueira! Muito bem tratas a minha linda terra!!! Quando era pequenina e, ainda morando em Algés, Oeiras era, para mim, um sítio que ficava "muito longe" e onde eu ia passear, com o pai e a mãe, aos fins de semana, a cascata do Poeta fazia as minhas delícias!
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Fatima Mourão Lindooooos locais  (y)Ver Tradução
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Carlos Rodrigues Muito bom, Vitor e que belas fotos. Obrigado, um abraço.
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Deolinda Figueiredo Mesquita Excelente, Victor Nogueira, muito obrigada.
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Alice Coelho  <3 o:p="">
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sábado, 21 de junho de 2014

entre eros e afrodite 20 - cartas a Penélope 06

21 de Junho de 2014 às 16:51


* Victor Nogueira

Amor rima com ar-dor e an-dor e amizade com serenidade ? 
Com que mais resmas e outras  rimas rema o amor ?
De quantas roupagens e de quantos espelhos em caleidoscópio se veste o amor ?
Como e em que balanças se pesam ou medem os corações ?
De quantos rios para montante refluindo em riacho e ribeiras estreitando-se cada vez mais longe do mar imenso que os alargaria e a todos abraçaria?
De quantas luas se faz o sol e quantas estrelas são por ele encobertas ?
Como se apura o deve e haver da mão invisível que equilibra as curvas da oferta e da procura ?
Na economia do amor de que monopólios ou oligopólios se alimenta ?


Foto cf link - vista do jardim da Quinta Real de Caxias

Foto cf link - vista do jardim da Quinta Real de Caxias

Foto CMO - vista aérea do jardim da Quinta Real de Caxias - foto retiradas de
http://www.cm.oeiras.pt/amunicipal/Ambiente/EspacosVerdes/JardinseQuintasHistoricas/Paginas/JardinseQuintasHistoricas.aspx

Foto CMO - vista aérea do jardim da Quinta Real de Caxias - foto retiradas de http://www.cm.oeiras.pt/amunicipal/Ambiente/EspacosVerdes/JardinseQuintasHistoricas/Paginas/JardinseQuintasHistoricas.aspx


Contigo apenas no meu espírito, sombra sem rasto que se veja, virtual como a vida na estratosfera das auto-estradas cibernéticas, combinações infinitas de 01, "zeros" e "hums" ...

Hoje, nesta tarde amena e soalheira, o passeio é ao jardim da Quinta Real de Caxias, um dos muitos que o Município de Oeiras recuperou e mantém para usufruto dos munícipes e viandantes. Ao dizermos Caxias associamos o nome ao Forte do mesmo nome, uma das várias prisões políticas do fascismo português, como entre outras em Portugal: o Forte de Peniche, as prisões do Aljube e da PIDE em Lisboa e Porto,  e nas antigas colónias os Campos de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde), de S. Nicolau (Angola), da Machava (Moçambique) …. Não esquecendo em Caxias o amuralhado hospital prisional, fronteiriço da mata que cerca o forte-prisão.


 "Caxias, bella flor, lyrio dos valles,
Gentil senhora de mimosos campos". António Gonçalves Dias (1823/64)  [1]


Desde o século XVIII e durante a Monarquia a povoação de Caxias era um lugar de veraneio para a Corte e para a fidalguia por nele se situar a Quinta e o Paço Real, a par do Convento da Cartuxa, daquela separado hoje em dia por uma  estreita e serpenteante estrada vicinal. A igreja do Convento tem alguma similitude com a homónima de Évora. Fazendo parte da linha fortificada da costa, o Forte de S. Bruno, junto ao rio. Só a partir do século XX a povoação se desenvolveu com a construção de numerosas vivendas encosta acima.

No seu termo situa-se Laveiras, que durante séculos forneceu a pedra utlizada nas obras mais significativas das redondezas, do convento da Cartuxa às fortificações ribeirinhas mas, também, no mosteiro dos Jerónimos, no Terreiro do Paço, nas calçadas lisboetas, tal como Paço de Arcos desde tempos imemoriais fornecia cal para toda a região até Lisboa, de que se conservam os fornos, a par do antigo casino e dos palacetes de veaneio da burguesia dos princípios do século XX.

Mas regressemos a Caxias. A entrada para a Quinta Real é feita por amplo terreiro, com um edifício à direita com varanda azulejada, no devido tempo encoberto pelas flores de jaracandás, cujas pétalas atapetam o solo. Fora isto, este intróito é pouco convidativo e atraente, os edifícios degradados ou dissonantes. Por duas estreitas escadarias se acede ao jardim, geométrico e ao estilo francês, artificial, demonstrativo inquestionável do trabalho da mão humana, ao contrário do estilo britânico e aparentemente natural dos jardins do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, a sede do concelho.

No jardim conhecido por "Jardim do Paço Real", podem ser admiradas as estátuas em terracota da autoria de Machado de Castro, a "Cascata Real" e o "Lago das Ninfas". Muitas das esculturas encontram-se em restauro, assinalando-se tal facto com figuras planas. Hoje as águas não correm nem murmuram por aquela em salpicos de gotículas irisadas aspergindo e refrescando os ares. A Cascata é mais monumental que a do Palácio do Marquês, embora esta e o seu jardim me agradem mais. Aqui a Ribeira da Barcarena não atravessa o jardim ao contrário do que em Oeiras sucede com a da Laje, hoje ambas “encanadas” a céu aberto e muitas vezes, no verão, reduzidas a fios e charcos de água em leito limoso e de cascalho.

Machado de Castro (1731-1822), que dá o nome a um museu conimbricense, foi o reputado autor da estátua equestre de D. José I, em Lisboa, que figura na anterior Carta a Penélope. Para além disso é autor de multiplos conjuntos escultóricos, designadamente na Basílica da Estrela e no Palácio Nacional da Ajuda, ambos em Lisboa, sem esquecer a arte tumular e presépios, designadamente o da Sé de Lisboa e o da referida Basílica da Estrela.

O jardim com dois amplos pavilhões está bem tratado e placas por ele espalhadas elucidam os passeantes mais curiosos de saber, mas apenas uma parte dele está recuperado, a outra, também visitável, mais parecendo matagal de arvoredo e erva por onde se coam os raios de sol. Não vislumbro bancos pelo jardim, apenas os degraus da cascata ou de acesso aos pavilhões ou os muretes do terraço da cascata, em cujo cimo se encontra um enorme tanque cheio de água, sobranceiro à estrada vicinal. No interior da cascata um pequeno dédalo de galerias, algumas de acesso vedado. 

É pois e sobretudo um jardim para deambular e não para os viandantes se sentarem a ler, conversar, namorar ...

João Baptista

vem de entre eros e afrodite 19 - cartas a Penélope 05


Mais sobre a Quinta Real de Caxias, espaço de lazer e fruição pública em

e sobre Caxias em

para além de breves referências a Machado de Castro em



[1]  Adenda

CAXIAS [Maranhão, Brasil, possível homenagem a Caxias, Portugal, ou derivação de cachia,  nome dado à esponja, flor do arbusto chamado "corona christi"]. Ao contrário do que um dos textos consultados dá a entender, esta Caxias do poema é a do Brasil, onde se deu a Rebelião da Balaiada, contemporânea de  revoltas de escravos como as da Farroupilha, da Cabanagem ou da Sabinada, todas na 1ª metade do séc. XIX. Da Balaiada fala o poeta em A desordem de Caxias, escrita em 1845, durante o seu exílio em Portugal.

Ao aniversário da sua Independência. 1 de Agosto.


Caxias, bela flor, lírio dos vales,
Gentil senhora de mimosos campos,
Como por tantos anos foste escrava,
Como a indócil cerviz curvaste ao jugo?
Oh! como longos anos insofríveis,
Rainha altiva, destoucada e bela,
Rojaste aos pés de um regulo soberbo?
À míngua definhaste em negro câncer,
Onde um raio de sol não penetrava;
Em masmorra cruel, donde não vias
Cintilar o clarão d′amiga estrela...

Oh! não, que a luz da esperança tinhas n′alma,
E o sol da liberdade um dia viste,
De glória e de fulgor resplandecente,
Em céu sem nuvens no horizonte erguido.

Eis o som do tambor atroa os vales,
O clangor da trombeta, os sons das armas,
A terra abalam, despertando os ecos.
— Eia! oh bravos, erguei-vos, — à peleja,
À fome, à sede, às privações, — erguei-vos!
Tu, Caxias, acorda, — tu, rainha,
Lamina de aço puro, envolta em ferro,
Ao sol refulgirás; — flor que esmoreces,
À míngua de ar, em cárcere de vidro,
Em ar mais livre cobrarás alento,
Graça, vida e frescor da liberdade.

Ante mural do lusitano arrojo,
Último abrigo seu, — feros soldados,
Veteranas cortes nos teus montes
Cavam bélicas tendas! — Um guerreiro,
O nobre Fidié, que a antiga espada
Do valor português empunha ardido,
No seu mando as retém: debalde, oh forte,
Expões teus dias! teu esforço inútil
Não susta o sol no rápido declive,
Que imerge aquém dos Andes orgulhosos
Da África e da Ásia os desbotados louros!

Eia! — o brônzeo canhão rouqueja, estoura,
Ribomba o férreo som d′um eco em outro,
Nuvens de fumo c pó lá se condensam...
Correi, bravos, correi!... mas tu és livre,
És livre como o arbusto dos teus prados,
Livre como o condor que aos céus se arroja;
És livre! — mas na acesa fantasia
Debuxava-me o espírito exaltado
Fráguas cruas de morte, o horror da guerra
Descobrir, contemplar. — Oh! fora belo
Arriscar a existência em pró da pátria,
Regar de rubro sangue o pátrio solo,
E sangue e vida abandonar por ela.

Longe, delírios vãos, longe fantasmas
De ardor febricitante!
À glória deste dia comparar-se
Pode acaso visão, delírio, ou sonho?
Ao fausto aniversário
Da nossa independência?
Aclamações altíssonas
Corram nos ares da imortal Caxias:
Seja padrão de glória entre nós outros
Santificada aurora,
Que os vis grilhões de escravos viu partidos.


Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - Largo fronteiro à estação ferroviária

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - Largo fronteiro à estação ferroviária

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - Largo fronteiro à estação ferroviária

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - Largo fronteiro à estação ferroviária

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -
  
Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  árvores no jardim

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - árvores no jardim

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  a sombra do photoandarilho

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - a sombra do photoandarilho

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  planta geral

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - planta geral

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  árvores no jardim

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - árvores no jardim

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - cascata
  
Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  planta da cascata


Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - planta da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  pormenor da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - pormenor da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  vista da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - vista da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  pormenor do interior da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - pormenor do interior da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  vista da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - vista da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  pormenor da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - pormenor da cascata


Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  pormenor da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - pormenor da cascata

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  pavilhão

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - pavilhão

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  jardim

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - jardim

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  pormenor dum dos pavilhões

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - pormenor dum dos pavilhões

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - escultura de Machado dos Santos (Júpiter)

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - escultura de Machado dos Santos (Júpiter)

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - escultura de Machado dos Santos - guarda romano (pormenor)

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - escultura de Machado dos Santos - 
guarda romano (pormenor)

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - escultura de Machado dos Santos - Ceres

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - escultura de Machado dos Santos - Ceres

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  parte do jardim a recuperar

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - parte do jardim a recuperar

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  parte do jardim a recuperar

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - parte do jardim a recuperar

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -  parte do jardim a recuperar

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias - parte do jardim a recuperar

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Quinta Real de Caxias -

Foto Victor Nogueira - Caxias - Igreja do Convento da Cartuxa

Foto Victor Nogueira - Caxias - Igreja do Convento da Cartuxa

Foto Victor Nogueira - Caxias - Igreja do Convento da Cartuxa

Foto Victor Nogueira - Caxias - Igreja do Convento da Cartuxa

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