Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN
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terça-feira, 6 de outubro de 2026

ruínas do moinho de maré das Praias do Sado (2025)

 * Victor Nogueira

6 de outubro de 2025

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 Foto victor nogueira - Setúbal - ruínas do moinho de maré das Praias do Sado (rolo 113 26)

No âmbito do Planeamento Urbanístico e em colaboração com o Dr. Fernando António Baptista Pereira, conservador do Museu de Setúbal ,procedi ao levantamento, cartografia e registo do património edificado de Setúbal e Azeitão, com interesse histórico, cultural ou arquitectónico, tendo em vista o eventual intereese na classificação e protecção, projecto que não teve seguimento.

Sempre estive convencido que em Setúbal apenas teriam existido três moinhos de maré: o da Mourisca (no Faralhão), o aa Mitrena e este, nas Praias do Sado. Um texto  entrevisto há dias, refere a existência de um quarto, não o identificando e localizando. (1)

Do moinho das Praias do Sado praticamente já nada existia, na altura em que o fotografei, com o  Carlos Mouro no cimo do que restava. Há uns dois anos atrás tentei voltar ao local, mas não consegui localizar o sítio, por entre o emaranhado do esteiro.

(1) - «Espaço Interpretativo da Herdade da Mourisca» dgterritorio.pt

sábado, 26 de setembro de 2026

mós de moinhos de vento na Serra de S. Filipe,em Setúbal (2025)

 26 de setembro de 2025


Foto victor nogueira - Setúbal  - mós de moinhos de vento na Serra de S. Filipe, com a cidade e o estuário do Rio Sado no horizonte. Divisam-se as duas esguias e altaneiras  chaminés da central termo-eléctrica de Setúbal, entretanto demolidas há uns anos.  (Rolo 112 12)

sábado, 19 de setembro de 2026

Setúbal engenho de moer nas ruínas dum moinho de vento (2025)

 19 de setembro de 2025


Foto victor nogueira - Setúbal  engenho de moer nas ruínas dum  moinho de vento, na Serra de S. Filpe. 

Pode ver-se o eixo da roda ligada às velas, cujo movimento articulado com a roda dentada (entrosga) permitia moer os grãos  de cereal, introduzidos entre as duas mós, visíveis na imagem. Um mecanismo permita ajustar a distância entre as mós, de modo que a farinha saísse mais ou menos fina.

sábado, 5 de setembro de 2026

Moinho de vento, em Évora (2025)

 5 de setembro de 2025

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2025 09 05 - Foto vitor nogueira   Évora 197x - Moinho de Vento (talvez Espinheiro  ou Alto de S. Bento)?)

sábado, 22 de agosto de 2026

moinhos na Serra de S. Filipe (2025)

 * Victor Nogueira

22 de agosto de 2025

Foto victor nogueira Setúbal moinhos na Serra de S. Filipe e Estuário do Sado (199x rolo 128 04)  Na imagem vislumbram-se três dos moinhos. A foto deve ter sido tirada a partir do Forte de S. Filipe

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

(07) Os moinhos na toponímia portuguesa

 


A toponímia portuguesa, que abrange desde grandes povoações até pequenos arruamentos, reflete a importância histórica dos sistemas de moagem — as azenhas (moinhos de água) e os moinhos (de vento ou água) — na organização do território nacional.

Povoações, Lugares e Freguesias

Em termos de unidades administrativas maiores, a presença dos termos "azenha" e "moinho" é comum em nomes compostos, mas rara como nome principal de uma freguesia ou vila.

As Azenhas do Mar são a localidade (aldeia) mais conhecida com o termo "azenha", um ponto turístico notável no concelho de Sintra, tal como a localidade de Vilarinho das Azenhas em Vila Flor. O termo não é utilizado em nomes de cidades ou vilas com estatuto oficial.

A palavra "moinho" está frequentemente associada a topónimos como Rio de Moinhos, que é o nome de várias freguesias em Portugal (por exemplo, em Abrantes, Aljustrel e Arcos de Valdevez). A localidade sede da freguesia de Rio de Moinhos, no concelho de Penafiel, possui o estatuto oficial de vila.

Toponímia Urbana (Ruas, Praças e Similares)

A nível de arruamentos, os nomes são extremamente comuns e diretos, indicando a proximidade de um antigo moinho ou azenha.

Existem inúmeras Rua da Azenha e Travessa da Azenha espalhadas pelo país, em localidades como Loures, Montijo ou na ilha da Madeira.

A toponímia portuguesa reflete a importância histórica das azenhas (moinhos de água) e moinhos (de vento ou água) na organização do território nacional. Em termos de unidades administrativas maiores, a presença dos termos "azenha" e "moinho" é comum em nomes compostos, mas rara como nome principal de uma freguesia ou vila. As  Azenhas do Mar  são a localidade (aldeia) mais conhecida com o termo "azenha", tal como  Vilarinho das Azenhas  em Vila Flor. A palavra "moinho" está frequentemente associada a topónimos como Rio de Moinhos , que é o nome de várias freguesias em Portugal, sendo que a localidade sede da freguesia de Rio de Moinhos, no concelho de Penafiel, possui o estatuto oficial de vila. A nível de arruamentos, os nomes são extremamente comuns, indicando a proximidade de um antigo moinho ou azenha. Existem inúmeras  Rua da Azenha  e Travessa da Azenha  espalhadas pelo país. Relativamente a "moinho", a frequência é ainda maior, com exemplos como a  Rua dos Sete Moinhos   e a  Calçada do Moinho de Vento  em Lisboa, e a  Rua do Moinho  e a  Rua do Moinho do Frade  em Setúbal, perpetuando o legado molinológico nacional.

Concentremo-nos numa lista exemplificativa e não exaustiva que inclua os tipos de povoações mais relevantes (cidades, vilas, aldeias) com os termos "azenha" e "moinho", focando nas localidades com maior visibilidade ou estatuto.

Lista Exemplificativa de Povoações com "Azenha"

Povoação

Tipo de Localidade / Estatuto

Freguesia

Concelho

Azenhas do Mar

Aldeia / Localidade turística

União de Freguesias de Colares

Sintra

Azenha do Mar

Aldeia / Localidade costeira

Brejão (União de Freguesias)

Odemira

Vilarinho das Azenhas

Aldeia

União de Freguesias de Vilas Boas e Vilarinho das Azenhas

Vila Flor

Vale d'Azenha

Localidade/Lugar (vários)

Ex: Freguesia de Alfeizerão

Ex: Alcobaça

Lista Exemplificativa de Povoações com "Moinho"

Estas localidades são geralmente sedes de freguesia ou vilas, muitas vezes com o nome composto "Rio de Moinhos".

Povoação

Tipo de Localidade / Estatuto

Freguesia

Concelho

Rio de Moinhos

Vila (estatuto oficial)

Freguesia de Rio de Moinhos

Penafiel

Rio de Moinhos

Aldeia / Sede de Freguesia

Freguesia de Rio de Moinhos

Abrantes

Rio de Moinhos

Aldeia / Sede de Freguesia

Freguesia de Rio de Moinhos

Arcos de Valdevez

Moinho Velho

Aldeia / Lugar (comum)

Várias localidades

Vários concelhos

Moinho Novo

Aldeia / Lugar (comum)

Várias localidades

Vários concelhos

Estas listas destacam os exemplos mais proeminentes em Portugal Continental.

Aqui está uma lista exemplificativa, com foco em arruamentos (ruas, largos, travessas) que contêm "azenha" ou "moinho", e a indicação da cidade ou vila onde se localizam.

Toponímia (Ruas, Largos, etc.) com a palavra "Azenha"

Estes exemplos demonstram como o termo é usado em contextos urbanos para referenciar marcos históricos ou geográficos:

Topónimo (Nome da Rua/Local)

Tipo

Localidade/Cidade

Rua da Azenha

Rua

Fanhões, Loures

Rua da Azenha

Rua

Caniço, Santa Cruz (Madeira)

Travessa da Azenha

Travessa

Montijo

Beco da Azenha

Beco

Alcochete

Rua da Azenha de Baixo

Rua

Estômbar, Lagoa (Algarve)

Caminho da Azenha

Caminho

Águeda

Toponímia (Ruas, Largos, etc.) com a palavra "Moinho"

Estes são exemplos comuns de nomes que refletem a presença histórica de moinhos de vento ou de água em áreas urbanas ou semi-urbanas:

Topónimo (Nome da Rua/Local)

Tipo

Localidade/Cidade

Rua do Moinho

Rua

Setúbal

Rua do Moinho do Frade

Rua

Setúbal

Rua dos Moinhos

Rua

Torres Vedras

Rua dos Sete Moinhos

Rua

Lisboa (Freguesia de Campolide)

Calçada do Moinho de Vento

Calçada

Lisboa (Freguesia de Santana/Arroios)

Rua do Moinho de Água

Rua

Olhão

Praça dos Moinhos de Vento

Praça

Amadora (Freguesia de Mina de Água)

Rua Nova do Moinho

Rua

Cascais

Estes nomes de arruamentos são extremamente comuns em Portugal e podem ser encontrados em praticamente qualquer cidade ou vila com alguma história ligada à agricultura ou à moagem.

A toponímia associada aos moinhos de maré tem uma distribuição geográfica específica em Portugal, concentrando-se nas zonas estuarinas, como os estuários do Tejo, Sado e Mira. Estes nomes aparecem principalmente ligados aos edifícios dos próprios moinhos (muitos dos quais recuperados como ecomuseus ou centros interpretativos) e, secundariamente, em arruamentos próximos.

Povoações, Lugares e Freguesias

Geralmente, o termo "moinho de maré" não nomeia cidades, vilas ou freguesias inteiras, mas sim a localidade exata onde o moinho se situava.

Corroios: A localidade de Corroios, no concelho do Seixal (que tem o estatuto de vila), é famosa pelo seu Moinho de Maré de Corroios (ou do Castelo), um dos mais antigos do país, datado de 1403. O nome da freguesia é Corroios.

Mourisca: Localidade no concelho de Setúbal, próxima do Moinho de Maré da Mourisca, que funciona como um centro de educação ambiental.

Olhão: O Moinho de Maré de Olhão (ou do Largo) é um marco na cidade.

Montijo / Aldeia Galega: A área do Montijo tinha vários moinhos de maré (ex: Moinho do Cais, Moinho de Maré do Bate-pé), que marcaram a paisagem e a história da antiga Aldeia Galega do Ribatejo.

Toponímia Urbana (Ruas, Praças e Similares)

A nível de arruamentos, os nomes costumam referir-se diretamente ao moinho de maré específico, ou à área envolvente:

Topónimo (Nome da Rua/Local)              Tipo      Localidade/Cidade

Rua do Moinho de Maré             Rua       Diversas localidades, ex: Olhão

Rua do Rouxinol (localização)    Rua       Corroios (Seixal)

Moinho de Maré da Mourisca   Local / Ecomuseu           Setúbal

Moinho de Maré do Duque        Local / Monumento       Barreiro

Moinho de Maré de Coina          Local / Monumento       Coina, Barreiro

Estes topónimos estão intrinsecamente ligados ao património industrial e cultural das zonas ribeirinhas e estuarinas de Portugal.

A toponímia nos meus livros de viagens

Há em Setúbal três Ruas do Moinho. duas delas na cidade (uma delas a do Moinho do Frade) e a terceira na Aldeia da Piedade (Azeitão), sem esquecer a Rua do Moinho de Maré, na Mourisca (Santo Ovídio - Faralhão)

No Livro e Viagens há outros registos:

Alpedriz, Alcobaça  -  Rua do Rio Moinho / Arraiolos – Rua dos Moinhos de Vento  / Couto (Côto), Alcobaça – Rua do Moinho Velho  / Minde – Escadinhas do Moinho Velho / Praia (da Nazaré) -  Beco do Moinho / Santa Catarina, Alcobaça – Beco do Moinho

 e lugares 

 Paredes de Coura – Rio de Moinho / Sapataria  - Monte do Moinho do Céu

Sapataria -   Dado o adiantado da hora é difícil encontrar onde jantar, pelo que regressamos ao restaurante O Ferrador, cujos donos nos contam curiosidades da terra, como sejam a origem do seu nome, derivado dali se fabricar o calçado para a tropa. Do terraço da casa mostram nos o Monte do Moinho do Céu, de que se distingue o piscar das luzes para a navegação aérea.

VER 

Os moinhos de vento no Livro de Viagens (24)

Azenhas (moinhos de água) no Livro de viagens (26)

domingo, 2 de novembro de 2025

(04) Os Moinhos e os Moleiros na Literatura Portuguesa e Universal (2)

 


(1)

"Encarreguei"  o chatGPT  de indiar-me do me pesquisar o que nesta publicação  é o título   sendo o que a seguir trancrevo o resultado final apurado.

1. Introdução

Desde tempos remotos, o moinho acompanha o ser humano como instrumento de sobrevivência, engenho e simbolismo. Seja movido pela força do vento, da água ou das marés, representa a tentativa humana de dominar a natureza e transformá-la em pão, energia e vida.

O moleiro, guardião desse engenho, é figura de fronteira: entre o homem e a máquina, o natural e o espiritual, o quotidiano e o mítico.

Na literatura portuguesa — e, por extensão, na europeia —, moinhos e moleiros são presença constante, tanto como símbolos da persistência e da humildade do trabalho como figuras de sonho, memória e destino.

Este estudo reúne as principais obras onde o moinho ou o moleiro têm papel dominante ou relevante, na literatura portuguesa e universal.


2. Os Moinhos na Literatura Portuguesa

2.1. O moinho como símbolo popular e romântico

Durante o romantismo, o moinho surge como emblema do mundo rural e das virtudes do povo. Autores como Garrett e Junqueiro elevam o trabalho simples à dignidade poética.

  • Almeida Garrett – “O Moleiro de Santarém” (Romanceiro, 1843–1851)

Garrett recolhe e recria uma balada popular em que o moleiro é o herói humilde, representante da justiça natural e da moral camponesa. O moinho é o cenário do trabalho e da vida honesta.

  • Guerra Junqueiro – “Os Moinhos” (Os Simples, 1892)

Obra maior do simbolismo rural português. O moinho é símbolo do labor universal e da presença divina nas tarefas humanas.

“Roda, moinho, roda, / Que o pão de todos moas...”


Junqueiro transforma o ato mecânico de moer grão num gesto sagrado, unindo o homem e o cosmos.

  • Lendas e contos recolhidos por Teófilo Braga e Adolfo Coelho

O moleiro aparece como figura popular recorrente, astuto e moralizador, protagonista de lendas como O Moleiro e o Rei ou A Moura do Moinho. O moinho é local de fronteira entre o natural e o sobrenatural.


2.2. O moinho no realismo e naturalismo

O século XIX e o início do XX trazem uma visão mais sombria: o moinho torna-se símbolo de isolamento e decadência rural.

  • Júlio Dinis – As Pupilas do Senhor Reitor (1867)

O moinho é elemento do cenário pitoresco e harmonioso da aldeia nortenha. A presença do moleiro reforça a cor local e a verosimilhança social.

  • Fialho de Almeida – “O Moinho” (Contos, c. 1890)

Descrição crua e melancólica da vida no Alentejo. O moinho é espaço de solidão e de luta contra o tempo, e o moleiro, figura trágica da decadência rural.


2.3. O moinho no modernismo e regionalismo

No século XX, o moinho passa a representar o tempo, o destino e a memória coletiva.

  • Raul Brandão – Os Pescadores (1923)

Os moinhos de maré surgem nas margens das vilas costeiras, como metáfora da ruína e da passagem do tempo. O tom é elegíaco e simbolista.

  • Miguel Torga – “O Moleiro” (Contos da Montanha, 1941)

O moleiro é figura resistente e trágica, confrontado com a dureza da terra e o ciclo implacável da água. Representa o homem português na sua relação com a natureza e a fatalidade.

  • Tomaz de Figueiredo – “Os Moinhos da Maré” (Contos Rústicos, 1946)
  • O moleiro vive preso ao ritmo das marés, símbolo do destino repetitivo e da solidão humana.
  • Sebastião da Gama – “O Moleiro do Mar” (Campo Aberto, 1951)

Poema lírico onde o moleiro, junto aos moinhos da Arrábida, funde-se com o mar e o vento. O trabalho é visto como poesia do quotidiano, em comunhão com a natureza.

  • Aquilino Ribeiro – Quando os Lobos Uivam (1958)

O moleiro aparece entre as figuras da serra, representando o povo resistente e livre, símbolo de autonomia e sabedoria prática.

  • Vergílio Ferreira – Manhã Submersa (1954)

O moinho e o moleiro são evocados como figuras da infância e da nostalgia, reminiscências de um mundo rural perdido.


3. Os Moinhos na Literatura Universal

O motivo do moinho é transversal na cultura europeia, assumindo significados distintos conforme o tempo e o espaço: idealismo, nostalgia, destino ou conflito entre o homem e a natureza.

  • Miguel de Cervantes – Don Quijote de la Mancha (1605–1615)
  • O episódio dos “moinhos de vento” é símbolo universal da luta ilusória contra forças imaginárias. O moinho é o emblema da fantasia humana e da cegueira heroica.
  • George Eliot – The Mill on the Floss (1860)
  • O moinho é núcleo da vida e do destino trágico de Maggie Tulliver. Representa o fluxo do tempo, a fatalidade e o vínculo entre homem e rio.
  • Alphonse Daudet – Lettres de mon moulin (1869)

O moinho da Provença é lar e observatório do narrador, símbolo de memória, trabalho e poesia rural. A influência desta obra é visível no regionalismo português.

  • Theodor Storm – Der Schimmelreiter (1888)

O engenheiro de diques e moinhos luta contra o mar. O moinho é símbolo da audácia humana e da inevitável derrota perante a natureza.

  • Giovanni Verga – “Il Mulino” (Novelle rusticane, 1883)

O moleiro siciliano e a sua família enfrentam a miséria, espelhando o verismo trágico e fatalista da vida camponesa.

  • Wilhelm Müller – Die schöne Müllerin (1823)

Ciclo de poemas (musicado por Schubert) sobre um aprendiz de moleiro apaixonado e condenado ao desespero. O moinho é espaço de inocência e tragédia romântica.


4. O Moleiro como Figura Literária

O moleiro é uma das personagens rurais mais antigas da literatura europeia. Trabalhador, astuto, solitário ou contemplativo, é uma figura liminar: entre a terra e a água, o trabalho e o mito.00000000000000000000000000000000

4.1. Na literatura portuguesa

  • Garrett e Junqueiro: o moleiro é herói moral e símbolo da harmonia natural.
  • Fialho e Torga: homem trágico, símbolo da resistência diante do destino.
  • Tomaz de Figueiredo e Sebastião da Gama: o moleiro como figura contemplativa, integrada na paisagem.
  • Brandão e Aquilino: o moleiro como testemunha da decadência rural e da dignidade popular.
  • Vergílio Ferreira: o moleiro como memória e símbolo da infância.

4.2. Na literatura universal

  • Cervantes: o moleiro é o contraponto realista do sonho quixotesco.
  • Daudet: o narrador-moleiro é o poeta da vida simples.
  • Eliot: o moleiro é o pai teimoso e digno, expressão do ciclo humano.
  • Storm e Verga: o moleiro é homem vencido pela natureza ou pela sociedade.
  • Müller: o aprendiz de moleiro encarna a pureza romântica e a dor amorosa.

5. Tabela Cronológica Comparada

(podes copiar esta tabela diretamente; o Word mantém o formato)

Século

Autor / Obra

Nacionalidade

Tipo de Moinho

Papel do Moleiro

Tom Dominante

XVII

Miguel de Cervantes – Don Quijote de la Mancha

🇪🇸

Vento

Implícito / simbólico

Satírico, idealista

XIX

Almeida Garrett – “O Moleiro de Santarém”

🇵🇹

Vento

Herói popular

Moral, popular

XIX

George Eliot – The Mill on the Floss

🇬🇧

Água

Pai protagonista

Trágico, realista

XIX

Guerra Junqueiro – “Os Moinhos”

🇵🇹

Vento

Coletivo / simbólico

Lírico, espiritual

XIX

Júlio Dinis – As Pupilas do Senhor Reitor

🇵🇹

Água

Figurante rural

Idílico, realista

XIX

Fialho de Almeida – “O Moinho”

🇵🇹

Água

Protagonista trágico

Naturalista

XIX

Alphonse Daudet – Lettres de mon moulin

🇫🇷

Vento

Narrador / poético

Nostálgico, humorístico

XIX

Giovanni Verga – “Il Mulino”

🇮🇹

Água

Protagonista

Trágico, verista

XIX

Theodor Storm – Der Schimmelreiter

🇩🇪

Maré

Engenheiro / simbólico

Fatalista

XIX

Wilhelm Müller – Die schöne Müllerin

🇩🇪

Água

Jovem aprendiz

Romântico, trágico

XX

Raul Brandão – Os Pescadores

🇵🇹

Maré

Figurante simbólico

Melancólico

XX

Miguel Torga – “O Moleiro”

🇵🇹

Água

Protagonista

Trágico, simbólico

XX

Tomaz de Figueiredo – “Os Moinhos da Maré”

🇵🇹

Maré

Protagonista

Contemplativo

XX

Sebastião da Gama – “O Moleiro do Mar”

🇵🇹

Maré

Poético / simbólico

Lírico

XX

Aquilino Ribeiro – Quando os Lobos Uivam

🇵🇹

Água

Secundário / simbólico

Social, resistente

XX

Vergílio Ferreira – Manhã Submersa

🇵🇹

Água

Evocativo / memória

Existencial, nostálgico


6. Conclusão

O moinho e o moleiro são símbolos universais do ciclo da vida e do esforço humano. O moinho gira movido por forças naturais — vento, água ou maré — tal como o homem se move pelo tempo e pela necessidade.

O moleiro, entre o engenho e a contemplação, é guardião da matéria e do espírito, figura de persistência, solidão e saber.

Na literatura portuguesa, o moinho é ao mesmo tempo cenário e metáfora: o labor humilde que se eleva à poesia.


Na literatura universal, torna-se símbolo da utopia e da luta humana — desde a ilusão quixotesca até ao fatalismo verista.

Em todos os casos, o moinho é mais do que uma máquina: é um espelho do destino humano, sempre a girar entre o esforço e a esperança.


7. Fontes e Referências Principais

7.1. Literatura Portuguesa

  • Almeida Garrett, Romanceiro (1843–1851)
  • Guerra Junqueiro, Os Simples (1892)
  • Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor (1867)
  • Fialho de Almeida, Contos (c. 1890)
  • Raul Brandão, Os Pescadores (1923)
  • Miguel Torga, Contos da Montanha (1941)
  • Tomaz de Figueiredo, Contos Rústicos (1946)
  • Sebastião da Gama, Campo Aberto (1951)
  • Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam (1958)
  • Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1954)
  • Teófilo Braga, Contos e Lendas do Norte (séc. XIX)

7.2. Literatura Universal

  • Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (1605–1615)
  • George Eliot, The Mill on the Floss (1860)
  • Alphonse Daudet, Lettres de mon moulin (1869)
  • Theodor Storm, Der Schimmelreiter (1888)
  • Giovanni Verga, Novelle rusticane (1883)
  • Wilhelm Müller, Die schöne Müllerin (1823)

8. Resumo Final

O moinho é o coração do mundo rural; o moleiro, a sua consciência.
Juntos, representam o movimento eterno do trabalho e do tempo, a luta do homem com os elementos e a beleza silenciosa do esforço humano transformado em literatura.

 

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(1) o Joaquim das Neves brincando com o seu cão, junto a um dos três moinhos de vento que se situavam junto à antiga pousada de São Brás de Alportel. Fotografia real, provavelmente do início dos anos 40 do século XX, gentilmente cedida pela família.

in https://www.facebook.com/photo/?fbid=10157935472252666&set=a.10156040118187666