Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sexta-feira, 26 de abril de 2013

falando com os meus botões

de Victor Nogueira (Notas) - Sexta-feira, 26 de Abril de 2013 às 3:22
 
O telemóvel cai ao chão e não sei de cor o pin, pois desligou. Mas já não estás ali ao fundo na cozinha ou já não atenderás mais o telefone, para mo dizeres. Está vazio de ti o meu lugar que passara a ser o teu, defronte para a janela e para o céu multivariado, perante a qual passavam rápidas as gaivotas em voo planado ou os pombos – estes poisando por vezes no peitoril da varanda,imóveis ou com a cabeça a dar a dar. O céu límpido ou acastelado de nuvens, cinzentas de chumbo ou em flocos brancos, azul ou laranja ou vermelho da cor do fogo, ao nascer,  com ou sem lua cheia à noite. Por vezes cruzado pelo rasto dum avião a jacto. O teu cantinho, como o designavas. Pedias-me sempre para voltares para minha casa, para o teu cantinho. Desde há semanas que ter-te-ás convencido que tal não era possível – como irias perceber a política criminosa desta gentalha que destrói a vida de tanta gente, gentalha da mesma laia daquela responsável por uma guerra colonial que nunca entendeste e que foi a causa da morte do teu filho caçula ? – E passaste então a perguntar ao dono de lar se eu podia ir para lá viver, para eu não voltar para setúbal, até que te encerraste em ti e deixaste de ser capaz de telefonar-me ou de atender o telefone, a persiana do quarto encerrada. Deixaste de ler o jornal diariamente ou os livros que regularmente te levava. Pelo evoluir do teu carcinoma ou porque desistiras de viver.
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Não sabíamos mas talvez já o pressentíssemos, que aquela tarde seria a última da tua vida. Quando cheguei e entrei pelo teu quarto adentro não sorriste como ambos sorriamos, com os olhos e todo o rosto, sorriso como se fora um riso sonoro, à chegada do teu menino: “o teu menino Jesus, chegou”, como eu te dizia na brincadeira. Continuaste a olhar para a parede, os retratos defronte de ti, na secretária, os livros arrumados ao lado esquerdo, a jarra com as flores artficiais que  te levara mas que pareciam verdadeiras. Perguntei-te se estavas zangada comigo, olhámo-nos olhos nos olhos, os teus olhos castanhos na altura inexpressivos, depois de te beijar e dar o abracinho forte e prolongado que me pedias sempre e nenhum de nós conseguiu sorrir naquele momento e disseste lentamente que não, que não estavas zangada. Mas sem o sorriso largo e aberto como aquele que me deste daquela vez, dias antes, em que eu jantava com o dono do lar, depois de ter jantado convosco, quando te interpelei: “Que contas, mãe, que estás tão silenciosa ?” e me respondeste, embora com dificuldade: “Saber ouvir é uma grande virtude.”
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Disseste como doutras vezes que não, que não querias que levasse o meu pai para junto de ti, dizendo que ele não tinha conversa, que estava sempre calado ou adormecia. Não é verdade, a verdade é que tu é que não querias falar com ele, que continua a ser um bom e agradável conversador, apesar das falhas de memória que se agravam: nem comigo conseguias falar nos últimos tempos, presa ao passado que não fora o que sonharas.
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O meu pai esqueceu-se de muita coisa, por causa da doença dele, mas quando falava contigo não lhe respondias nem aceitavas os gestos de ternura e carinho que durante quase toda a vida ele nos recusou, porque foi educado na teoria de que os homens não choram nem demonstram afecto. A tua última tarde foi diferente: disse-te, mas ficaste silenciosa, que ele era teu amigo, à maneira dele sempre o fora, que podiam fazer companhia um ao outro, mas nada retorquiste. Foi também uma tarde diferente pk deixaras abrir a persiana do quarto e os raios de sol primaveril alegravam o quarto e batiam-te no rosto e aqueciam-te, como se os estivesses a desfrutar, ao fim de várias semanas.
.
Ultimamente estavas sempre com frio, embora o sol batesse toda a tarde na tua janela virada a poente, tal como a nossa casa em Luanda, à beira-mar: por isso querias ultimamente a persiana corrida e não querias ir até ao jardim do lar. Mas desta vez eu e a Lina – uma das funcionárias de quem gostavas levámos-te agasalhada para o exterior onde, embora falasses por monossílabos e com dificuldade – sorriste quando te dei os abracinhos de que gostavas e disse-te que éramos dois esquimós, tocando com o teu nariz no meu. Mas já não conseguias comer sózinha e fui eu ou a empregada - não me lembro se a Lina, se a Manuela - que te ajudámos a jantar e quiseste logo que te fossem deitar e já dormias quando me vim embora, depois duma vez mais ter jogado ao dominó com o meu pai – ganhei sete partidas, ele seis e empatámos duas.
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No dia seguinte fiz questão de ser eu a dizer-lhe que partiras nessa manhã, de levá-lo ao teu quarto para se despedir. Ficou triste, mãe, muito triste,  e só dizia que nunca notara que estivesse assim tão doente, que ninguém lho dissera, ele que me perguntava sempre por ti quando não aparecias no refeitório e se estavas bem. Ficou tão alquebrado, tão frágil, tão incrédulo !
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Insistiu que que o fossemos buscar para o funeral, No dia seguinte. Fizemo-lo, mas desde então ele não voltou a falar de ti, mas dissera-nos que não se esqueceria da Maria Emília, nunca ! Sou como ele, mãe, estóico ou calado, e ele mais do que eu, avesso a falar das tristezas, preferindo “esquecê-las”. Desde sempre fui a única pessoa da família que lhe fez frente, que lhe disse "não", delicada mas frontalmente quando dele discordava, mas apesar de todas as justas razões de “queixa” que tinhas dele – e ele de ti -  nunca o ouvi dizer mal de ti, sempre se referiu a ti com enorme carinho, elogiando a beleza da “miúda” que para ele continuavas a ser, apesar de terem praticamente a mesma idade, mandando-te sempre um beijo, para ti, quando ainda vivia sozinho; que me não esquecesse, que depois te perguntaria se eu to dera.
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Ouço o concerto do José Afonso no Coliseu enquanto escrevo estas linhas. [o Zé morreu uma semana depois do Zeca, lembras-te ?] Esta tarde dei a volta aos teus papéis que trouxe do lar. Estava entre eles o teu último bloco de notas (já me havias entregue os dois anteriores), com a anotação de que era para mim, mas nunca o lera pois sou avesso a ler os papéis dos outros. A 1ª entrada é de 7 de Junho de 2002 - 6ª feira -  e a última de 19 de Agosto de 2011. Assinas pela 1ª vez as notas, como se fossem as últimas. Escreves, a terminar:
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– “E é porque sabemos que é “a chatice de ser velho” que esta crise que nos deprime não pode servir justificação a  todos os cortes sociais.
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Velhos são, afinal, os velhos e não os trapos.
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19 de Agosto de 2011
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[segue-se o meu endereço e a tua assinatura e, em adenda],
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(4 horas da tarde na cozinha da casa do filho, Victor Barroso Nogueira da Silva)”

Reparo agora que não, que os escritos no bloco estão intercalados, com folhas "brancas” entre eles,  e não em sequência cronológica.
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O último é de 17 de Janeiro de 2012 – 3ª feira
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Reli o que tinha escrito.
 .
Fiquei possuída de imensa tristeza !
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O meu único amparo é o Victor. O carinho que sinto por ele não tem preço. Só desejo que tudo lhe corra sempre bem. Não consigo escrever mais do que sinto.
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Meu querido filho Victor. Um beijo de muito Amor. A mãe Maria Emília.
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São 11 horas da noite. Estou na “minha” cadeira da cozinha, aonde me sinto bem. Lá para a 1 hora da noite irei para o quarto deitar-me. O Victor está no escritório. É o dia-a-dia. Maria Emília”
.

Eu sabia da tua solidão, mãe, mas sentindo-me ou estando sozinho, não conseguia ou sabia quebrá-la! Dizias-me por vezes que te deixasse ser como eras e eu respondia-te que para tu seres como eras teria eu de deixar de ser como sou. A tua “liberdade” como a entendias tinha como contrapartida a negação da minha!
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É da tua solidão que falas em 22 de Outubro de 2011 – sábado – “Continuo caída num abismo! Falta-me uma bóia para vir ao de cima ! Com o peso desta tempestade é difícil consegui-lo.”  Em 13 de Outubro de 2004 escreveras “Estas recordações deixam-me numa tristeza enorme: a morte do Zé Luís continua a ser a minha maior tristeza. Continuo numa tristeza sem solução. (…) Gostaria de escrever algo mais feliz, mas reconheço que não consigo.”
.
E em linhas acrescentadas em 28/6/2006 – “Dizer e repetir que o meu grande afecto é o Victor ! É desnecessário ! Tudo lhe desejo do melhor.”

 .

São duas e vinte da madrugada subsequente à do 25 de Abril. O silêncio enche o prédio e nesta casa ouço apenas o zumbido nos ouvidos e o suave dedilhar ritmado nas teclas ou o baque seco e compassado da barra de espaços.
.
A vida é tão frágil e o tempo tão breve para dizermos quanto amamos e somos amigos daqueles que amamos e que estimamos. Mais do que dizer, não menos importante, é mostrá-lo não apenas com palavras mas com os gestos e os actos e a mão no ombro ou no rosto.
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Tal como escrevi uma vez sobre a Maria do Mar, "Tenho esperado as suas notícias, a sua voz, o seu sorriso, a sua companhia, a sua presença e, porque não dizê-lo, a sua ternura. E rio-me (...) de mim. Porque, ao contrário dela, não faço grandes discursos sobre a amizade e a franqueza pessoal, porque são apenas palavras e poeira aqueles que não têm correspondência nos actos. (...) A mim o que me interessa são os vivos e a solidariedade ou o gesto que se não recusa, a liberdade que conseguimos fazer nascer nesta teia de constrangimentos e de embaraços."  Ou, muito antes, à Maria Papoila ou Maria Vai com as Outras: «Mas nada disto interessa. Uma presença, um gesto, um sorriso, valem mais que mil palavras. Não entendes isto ?»
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Tu, em parte,  sabias isto mãe. E tu, que me lês ?
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Foto Victor Nogueira - 2009 - em setúbal

Foto Victor Nogueira - em setúbal



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    Manuela Miranda, Yolanda Botelho, Clara Roque Esteves e 23 outras pessoas

    gostam disto.
    de Victor Nogueira (Notas) - Sexta-feira, 26 de Abril de 2013 às 3:22


    * Victor Nogueira
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    O telemóvel cai ao chão e não sei de cor o pin, pois desligou. Mas já não estás ali ao fundo na cozinha ou já não atenderás mais o telefone, para mo dizeres. Está vazio de ti o meu lugar que passara a ser o teu, defronte para a janela e para o céu multivariado, perante a qual passavam rápidas as gaivotas em voo planado ou os pombos – estes poisando por vezes no peitoril da varanda,imóveis ou com a cabeça a dar a dar. O céu límpido ou acastelado de nuvens, cinzentas de chumbo ou em flocos brancos, azul ou laranja ou vermelho da cor do fogo, ao nascer,  com ou sem lua cheia à noite. Por vezes cruzado pelo rasto dum avião a jacto. O teu cantinho, como o designavas. Pedias-me sempre para voltares para minha casa, para o teu cantinho. Desde há semanas que ter-te-ás convencido que tal não era possível – como irias perceber a política criminosa desta gentalha que destrói a vida de tanta gente, gentalha da mesma laia daquela responsável por uma guerra colonial que nunca entendeste e que foi a causa da morte do teu filho caçula ? – E passaste então a perguntar ao dono de lar se eu podia ir para lá viver, para eu não voltar para setúbal, até que te encerraste em ti e deixaste de ser capaz de telefonar-me ou de atender o telefone, a persiana do quarto encerrada. Deixaste de ler o jornal diariamente ou os livros que regularmente te levava. Pelo evoluir do teu carcinoma ou porque desistiras de viver.
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    Não sabíamos mas talvez já o pressentíssemos, que aquela tarde seria a última da tua vida. Quando cheguei e entrei pelo teu quarto adentro não sorriste como ambos sorriamos, com os olhos e todo o rosto, sorriso como se fora um riso sonoro, à chegada do teu menino: “o teu menino Jesus, chegou”, como eu te dizia na brincadeira. Continuaste a olhar para a parede, os retratos defronte de ti, na secretária, os livros arrumados ao lado esquerdo, a jarra com as flores artficiais que  te levara mas que pareciam verdadeiras. Perguntei-te se estavas zangada comigo, olhámo-nos olhos nos olhos, os teus olhos castanhos na altura inexpressivos, depois de te beijar e dar o abracinho forte e prolongado que me pedias sempre e nenhum de nós conseguiu sorrir naquele momento e disseste lentamente que não, que não estavas zangada. Mas sem o sorriso largo e aberto como aquele que me deste daquela vez, dias antes, em que eu jantava com o dono do lar, depois de ter jantado convosco, quando te interpelei: “Que contas, mãe, que estás tão silenciosa ?” e me respondeste, embora com dificuldade: “Saber ouvir é uma grande virtude.”
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    Disseste como doutras vezes que não, que não querias que levasse o meu pai para junto de ti, dizendo que ele não tinha conversa, que estava sempre calado ou adormecia. Não é verdade, a verdade é que tu é que não querias falar com ele, que continua a ser um bom e agradável conversador, apesar das falhas de memória que se agravam: nem comigo conseguias falar nos últimos tempos, presa ao passado que não fora o que sonharas.
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    O meu pai esqueceu-se de muita coisa, por causa da doença dele, mas quando falava contigo não lhe respondias nem aceitavas os gestos de ternura e carinho que durante quase toda a vida ele nos recusou, porque foi educado na teoria de que os homens não choram nem demonstram afecto. A tua última tarde foi diferente: disse-te, mas ficaste silenciosa, que ele era teu amigo, à maneira dele sempre o fora, que podiam fazer companhia um ao outro, mas nada retorquiste. Foi também uma tarde diferente pk deixaras abrir a persiana do quarto e os raios de sol primaveril alegravam o quarto e batiam-te no rosto e aqueciam-te, como se os estivesses a desfrutar, ao fim de várias semanas.
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    Ultimamente estavas sempre com frio, embora o sol batesse toda a tarde na tua janela virada a poente, tal como a nossa casa em Luanda, à beira-mar: por isso querias ultimamente a persiana corrida e não querias ir até ao jardim do lar. Mas desta vez eu e a Lina – uma das funcionárias de quem gostavas levámos-te agasalhada para o exterior onde, embora falasses por monossílabos e com dificuldade – sorriste quando te dei os abracinhos de que gostavas e disse-te que éramos dois esquimós, tocando com o teu nariz no meu. Mas já não conseguias comer sózinha e fui eu ou a empregada - não me lembro se a Lina, se a Manuela - que te ajudámos a jantar e quiseste logo que te fossem deitar e já dormias quando me vim embora, depois duma vez mais ter jogado ao dominó com o meu pai – ganhei sete partidas, ele seis e empatámos duas.
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    No dia seguinte fiz questão de ser eu a dizer-lhe que partiras nessa manhã, de levá-lo ao teu quarto para se despedir. Ficou triste, mãe, muito triste,  e só dizia que nunca notara que estivesse assim tão doente, que ninguém lho dissera, ele que me perguntava sempre por ti quando não aparecias no refeitório e se estavas bem. Ficou tão alquebrado, tão frágil, tão incrédulo !
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    Insistiu que que o fossemos buscar para o funeral, No dia seguinte. Fizemo-lo, mas desde então ele não voltou a falar de ti, mas dissera-nos que não se esqueceria da Maria Emília, nunca ! Sou como ele, mãe, estóico ou calado, e ele mais do que eu, avesso a falar das tristezas, preferindo “esquecê-las”. Desde sempre fui a única pessoa da família que lhe fez frente, que lhe disse "não", delicada mas frontalmente quando dele discordava, mas apesar de todas as justas razões de “queixa” que tinhas dele – e ele de ti -  nunca o ouvi dizer mal de ti, sempre se referiu a ti com enorme carinho, elogiando a beleza da “miúda” que para ele continuavas a ser, apesar de terem praticamente a mesma idade, mandando-te sempre um beijo, para ti, quando ainda vivia sozinho; que me não esquecesse, que depois te perguntaria se eu to dera.

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    Ouço o concerto do José Afonso no Coliseu enquanto escrevo estas linhas. [o Zé morreu uma semana depois do Zeca, lembras-te ?] Esta tarde dei a volta aos teus papéis que trouxe do lar. Estava entre eles o teu último bloco de notas (já me havias entregue os dois anteriores), com a anotação de que era para mim, mas nunca o lera pois sou avesso a ler os papéis dos outros. A 1ª entrada é de 7 de Junho de 2002 - 6ª feira -  e a última de 19 de Agosto de 2011. Assinas pela 1ª vez as notas, como se fossem as últimas. Escreves, a terminar:
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    – “E é porque sabemos que é “a chatice de ser velho” que esta crise que nos deprime não pode servir justificação a  todos os cortes sociais.
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    Velhos são, afinal, os velhos e não os trapos.
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    19 de Agosto de 2011
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    [segue-se o meu endereço e a tua assinatura e, em adenda],
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    (4 horas da tarde na cozinha da casa do filho, Victor Barroso Nogueira da Silva)”

    Reparo agora que não, que os escritos no bloco estão intercalados, com folhas "brancas” entre eles,  e não em sequência cronológica.
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    O último é de 17 de Janeiro de 2012 – 3ª feira
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    Reli o que tinha escrito.
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    Fiquei possuída de imensa tristeza !
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    O meu único amparo é o Victor. O carinho que sinto por ele não tem preço. Só desejo que tudo lhe corra sempre bem. Não consigo escrever mais do que sinto.
    .
    Meu querido filho Victor. Um beijo de muito Amor. A mãe Maria Emília.
    .
    São 11 horas da noite. Estou na “minha” cadeira da cozinha, aonde me sinto bem. Lá para a 1 hora da noite irei para o quarto deitar-me. O Victor está no escritório. É o dia-a-dia. Maria Emília”
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    Eu sabia da tua solidão, mãe, mas sentindo-me ou estando sozinho, não conseguia ou sabia quebrá-la! Dizias-me por vezes que te deixasse ser como eras e eu respondia-te que para tu seres como eras teria eu de deixar de ser como sou. A tua “liberdade” como a entendias tinha como contrapartida a negação da minha!
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    É da tua solidão que falas em 22 de Outubro de 2011 – sábado – “Continuo caída num abismo! Falta-me uma bóia para vir ao de cima ! Com o peso desta tempestade é difícil consegui-lo.”  Em 13 de Outubro de 2004 escreveras “Estas recordações deixam-me numa tristeza enorme: a morte do Zé Luís continua a ser a minha maior tristeza. Continuo numa tristeza sem solução. (…) Gostaria de escrever algo mais feliz, mas reconheço que não consigo.”
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    E em linhas acrescentadas em 28/6/2006 – “Dizer e repetir que o meu grande afecto é o Victor ! É desnecessário ! Tudo lhe desejo do melhor.”

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    São duas e vinte da madrugada subsequente à do 25 de Abril. O silêncio enche o prédio e nesta casa ouço apenas o zumbido nos ouvidos e o suave dedilhar ritmado nas teclas ou o baque seco e compassado da barra de espaços.
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    A vida é tão frágil e o tempo tão breve para dizermos quanto amamos e somos amigos daqueles que amamos e que estimamos. Mais do que dizer, não menos importante, é mostrá-lo não apenas com palavras mas com os gestos e os actos e a mão no ombro ou no rosto.
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    Tal como escrevi uma vez sobre a Maria do Mar, "Tenho esperado as suas notícias, a sua voz, o seu sorriso, a sua companhia, a sua presença e, porque não dizê-lo, a sua ternura. E rio-me (...) de mim. Porque, ao contrário dela, não faço grandes discursos sobre a amizade e a franqueza pessoal, porque são apenas palavras e poeira aqueles que não têm correspondência nos actos. (...) A mim o que me interessa são os vivos e a solidariedade ou o gesto que se não recusa, a liberdade que conseguimos fazer nascer nesta teia de constrangimentos e de embaraços."  Ou, muito antes, à Maria Papoila ou Maria Vai com as Outras: «Mas nada disto interessa. Uma presença, um gesto, um sorriso, valem mais que mil palavras. Não entendes isto ?»
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    Tu, em parte,  sabias isto mãe. E tu, que me lês ?
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    Foto Victor Nogueira - 2009 - em setúbal

    Foto Victor Nogueira - em setúbal


     

    • Maria Amélia Martins os meus sentimentos amigo e estimado Victor, beijinhos!

    • Ana Estrela lindo texto de homenagem tal qual eu fiz quando a mamy morreu

    • Alice Coelho Muito, muito, muito|||| Beijinho
      Sexta-feira às 14:51 · Não gosto ·
      1







      Maria Jorgete Teixeira   Li o teu texto e mais do que uma vez um nó na garganta quase me fazia chegar aos olhos as lágrimas que também chorei pelos seres que amei e que se foram. A tua narrativa, em forma de recado está cheia de silêncios, de palavras que não se disseram, mas também de afetos, de partilha, de generosidade, de perda e de dor. Nela perpassa uma reflexão sobre o que somos, os nossos medos, as nossas fraquezas, o amor e as suas formas, por vezes bem estranhas, de o demonstrar , a amizade e a solidão de sermos seres únicos e incompletos.
      É preciso dizer que escreves muito bem e que gostei muito?
      Beijinhos, Victor Nogueira, um abraço apertado.







    • Deolinda Figueiredo Mesquita Querido Amigo Victor, foi com as lágrimas as correr na cara que li, sei o que sentes. Um abraço muito apertado.

    • Margarida Piloto Garcia Eu volto mais tarde. Preciso pensar e reler o que escreveste. Os sentimentos já tos tinha dado mas quero deixar aqui várias coisas que agora não consigo escrever. espero que me perdoes e aguardes. Beijo.

    • Maria Célia Correia Coelho "A vida é tão frágil e o tempo tão breve para dizermos quanto amamos e somos amigos daqueles que amamos e que estimamos. Mais do que dizer, não menos importante, é mostrá-lo não apenas com palavras mas com os gestos e os actos e a mão no ombro ou no ro...Ver mais

    • Manela Pinto como entendo tao bem um e outro, afinal àas vezes em pequenas palavras escritas revelamos grandes amores e afectos, um abracinho grande...

    • Graca Maria Antunes Esta tua narrativa tão sentida, tão magoada...Revi-me em algumas partes aquelas em que afogas as lágrimas e continuas a narrar.Recordo com um aperto no coração a última frase da minha mãe enquanto me olhava com aquele olhar de despedida, que me há-de magoar a alma para sempre."Minha querida filha..."Mas é assim, Victor.Somos seres mortais.Beijinho.

    • Carlos Rodrigues Chegaremos alguma vez a dizer tudo o que era preciso dizer ou fazer na altura própria, Vitor. Pelo menos que fique a certeza que o tentamos fazer o melhor possível. Abraço, Amigo.

    • Mariana Costa · Amigo/a de Manela Pinto e 10 outras pessoas
      As despedidas eternas são tremendas... e cada vez que parte alguém que amamos... parte um bocadinho de nós... por este motivo já parti um pouco... mas seguram-me aqui... os cá estão, e também e amo muito. Abraço.

    • Mira Santos abraço-te amigo.

    • Maria Márcia Marques Acabei de ler um elogio aos sentimentos onde as palavras se misturam com tristeza, silêncios, carinho, amizade, solidão e de saudade....

    • Clara Roque Esteves E hoje vou ler-te com calma. Depois de digerir cada palavra tua volto a este canto para conversarmos. Até já!

    • Maria Rodrigues As despedidas custam sempre muito,sei o que é,tem que se marranjar forças e coragem,para enfrentarmos a vida que é mesmo assim,amigo Vitor estarei sempre contigo na minha amizade,para te dar forças e lêr as tuas maravilhosas obras,bjs.da sempre amiga;

    • Yolanda Botelho Meu amigo este teu escrito mexeu comigo de uma maneira muito profunda,os sentimentos e afectos são o nosso suporte,quero dizer-te que estou contigo,meu esquerdista preferido,meu grande amigo Victor,estou emocionada,tenho que reler tudo de novo.....um grande beijo,mesmo grande,gosto muito de ti,muito.Sempre.

    • Clara Roque Esteves Amigo meu, li , reli e fico sem palavras para te exprimir a minha solidariedade e amizade. Há silêncios mais preenchidos. Da qualidade estética prefiro não falar agora, sabes quanto gosto de ler o que escreves. Também eu estava a REVER o Zeca Afonso. Também eu tinha lágrimas nos olhos lembrando-me daquele concerto e da minha presença no Coliseu. Também eu lembrava o passado. Mas estava acompanhada falando sobre ele. Conheço de cor a dor da perda. Há 1 ano a da minha mãe, há doze a do meu pai, que ainda hoje rejeito, que penso encontrar na casa da Figueira sempre que ali vou. Que mais te posso dizer? Oferecer os meus préstimos, a minha amizade. Diz se te posso se ajudar e como. Um grande, grande abraço!

    • Yolanda Botelho MEU AMIGO VICTOR.....HÁ ALTURAS EM QUE FICAMOS SEM SABER QUE DIZER.....MIL BEIJOS.

    • Manuela Miranda Que palavras para expressar o meu sentimento, pelo que tu sentes? É um momento duro, nesta hora os Amigos e a família dão um pouco de ajuda, já passei pelo mesmo, Amigo eu estou consigo, .......Os meus sentidos pesamos, O amigo fez uma linda homenagem. beijinhos Força!!

    • Maria Rodrigues

    • Arminda Griff Como não posso amar-te!? Sei que sabes o que sinto ao ler este!!!!!! Sem palavras... e sei que vou reler. Bjinho grande.

    • Elena Viqueira · 2 amigos em comum
      Impactada por tan bellos sentimientos...
      Ver tradução

    • Margarida Piloto Garcia Voltei mas continuo sem palavras, talvez porque as deixaste aqui todas presas nestes sentimentos. Fico enredada no que escreveste mas sobretudo presa nas palavras da tua mãe. Depois penso, penso muito, volto a reler e a pensar que tens a tremenda sorte de teres palavras para escrever sobre ela e teres algo dela para leres. Acredita que tal é uma ventura que nem todos possuem. A tua dor não é menor por tal razão, mas a expressão dela foi possível e isso é já um caminho. Nascemos no meio da dor mas mesmo assim negamos tal evidência numa eterna procura da felicidade. Mas a vida vai-nos ensinando quão efémera ela é. Um beijo grande e a certeza de que um dia chega aí o prometido.

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