Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sexta-feira, 26 de abril de 2013

falando com os meus botões

de Victor Nogueira (Notas) - Sexta-feira, 26 de Abril de 2013 às 3:22
 
O telemóvel cai ao chão e não sei de cor o pin, pois desligou. Mas já não estás ali ao fundo na cozinha ou já não atenderás mais o telefone, para mo dizeres. Está vazio de ti o meu lugar que passara a ser o teu, defronte para a janela e para o céu multivariado, perante a qual passavam rápidas as gaivotas em voo planado ou os pombos – estes poisando por vezes no peitoril da varanda,imóveis ou com a cabeça a dar a dar. O céu límpido ou acastelado de nuvens, cinzentas de chumbo ou em flocos brancos, azul ou laranja ou vermelho da cor do fogo, ao nascer,  com ou sem lua cheia à noite. Por vezes cruzado pelo rasto dum avião a jacto. O teu cantinho, como o designavas. Pedias-me sempre para voltares para minha casa, para o teu cantinho. Desde há semanas que ter-te-ás convencido que tal não era possível – como irias perceber a política criminosa desta gentalha que destrói a vida de tanta gente, gentalha da mesma laia daquela responsável por uma guerra colonial que nunca entendeste e que foi a causa da morte do teu filho caçula ? – E passaste então a perguntar ao dono de lar se eu podia ir para lá viver, para eu não voltar para setúbal, até que te encerraste em ti e deixaste de ser capaz de telefonar-me ou de atender o telefone, a persiana do quarto encerrada. Deixaste de ler o jornal diariamente ou os livros que regularmente te levava. Pelo evoluir do teu carcinoma ou porque desistiras de viver.
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Não sabíamos mas talvez já o pressentíssemos, que aquela tarde seria a última da tua vida. Quando cheguei e entrei pelo teu quarto adentro não sorriste como ambos sorriamos, com os olhos e todo o rosto, sorriso como se fora um riso sonoro, à chegada do teu menino: “o teu menino Jesus, chegou”, como eu te dizia na brincadeira. Continuaste a olhar para a parede, os retratos defronte de ti, na secretária, os livros arrumados ao lado esquerdo, a jarra com as flores artficiais que  te levara mas que pareciam verdadeiras. Perguntei-te se estavas zangada comigo, olhámo-nos olhos nos olhos, os teus olhos castanhos na altura inexpressivos, depois de te beijar e dar o abracinho forte e prolongado que me pedias sempre e nenhum de nós conseguiu sorrir naquele momento e disseste lentamente que não, que não estavas zangada. Mas sem o sorriso largo e aberto como aquele que me deste daquela vez, dias antes, em que eu jantava com o dono do lar, depois de ter jantado convosco, quando te interpelei: “Que contas, mãe, que estás tão silenciosa ?” e me respondeste, embora com dificuldade: “Saber ouvir é uma grande virtude.”
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Disseste como doutras vezes que não, que não querias que levasse o meu pai para junto de ti, dizendo que ele não tinha conversa, que estava sempre calado ou adormecia. Não é verdade, a verdade é que tu é que não querias falar com ele, que continua a ser um bom e agradável conversador, apesar das falhas de memória que se agravam: nem comigo conseguias falar nos últimos tempos, presa ao passado que não fora o que sonharas.
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O meu pai esqueceu-se de muita coisa, por causa da doença dele, mas quando falava contigo não lhe respondias nem aceitavas os gestos de ternura e carinho que durante quase toda a vida ele nos recusou, porque foi educado na teoria de que os homens não choram nem demonstram afecto. A tua última tarde foi diferente: disse-te, mas ficaste silenciosa, que ele era teu amigo, à maneira dele sempre o fora, que podiam fazer companhia um ao outro, mas nada retorquiste. Foi também uma tarde diferente pk deixaras abrir a persiana do quarto e os raios de sol primaveril alegravam o quarto e batiam-te no rosto e aqueciam-te, como se os estivesses a desfrutar, ao fim de várias semanas.
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Ultimamente estavas sempre com frio, embora o sol batesse toda a tarde na tua janela virada a poente, tal como a nossa casa em Luanda, à beira-mar: por isso querias ultimamente a persiana corrida e não querias ir até ao jardim do lar. Mas desta vez eu e a Lina – uma das funcionárias de quem gostavas levámos-te agasalhada para o exterior onde, embora falasses por monossílabos e com dificuldade – sorriste quando te dei os abracinhos de que gostavas e disse-te que éramos dois esquimós, tocando com o teu nariz no meu. Mas já não conseguias comer sózinha e fui eu ou a empregada - não me lembro se a Lina, se a Manuela - que te ajudámos a jantar e quiseste logo que te fossem deitar e já dormias quando me vim embora, depois duma vez mais ter jogado ao dominó com o meu pai – ganhei sete partidas, ele seis e empatámos duas.
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No dia seguinte fiz questão de ser eu a dizer-lhe que partiras nessa manhã, de levá-lo ao teu quarto para se despedir. Ficou triste, mãe, muito triste,  e só dizia que nunca notara que estivesse assim tão doente, que ninguém lho dissera, ele que me perguntava sempre por ti quando não aparecias no refeitório e se estavas bem. Ficou tão alquebrado, tão frágil, tão incrédulo !
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Insistiu que que o fossemos buscar para o funeral, No dia seguinte. Fizemo-lo, mas desde então ele não voltou a falar de ti, mas dissera-nos que não se esqueceria da Maria Emília, nunca ! Sou como ele, mãe, estóico ou calado, e ele mais do que eu, avesso a falar das tristezas, preferindo “esquecê-las”. Desde sempre fui a única pessoa da família que lhe fez frente, que lhe disse "não", delicada mas frontalmente quando dele discordava, mas apesar de todas as justas razões de “queixa” que tinhas dele – e ele de ti -  nunca o ouvi dizer mal de ti, sempre se referiu a ti com enorme carinho, elogiando a beleza da “miúda” que para ele continuavas a ser, apesar de terem praticamente a mesma idade, mandando-te sempre um beijo, para ti, quando ainda vivia sozinho; que me não esquecesse, que depois te perguntaria se eu to dera.
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Ouço o concerto do José Afonso no Coliseu enquanto escrevo estas linhas. [o Zé morreu uma semana depois do Zeca, lembras-te ?] Esta tarde dei a volta aos teus papéis que trouxe do lar. Estava entre eles o teu último bloco de notas (já me havias entregue os dois anteriores), com a anotação de que era para mim, mas nunca o lera pois sou avesso a ler os papéis dos outros. A 1ª entrada é de 7 de Junho de 2002 - 6ª feira -  e a última de 19 de Agosto de 2011. Assinas pela 1ª vez as notas, como se fossem as últimas. Escreves, a terminar:
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– “E é porque sabemos que é “a chatice de ser velho” que esta crise que nos deprime não pode servir justificação a  todos os cortes sociais.
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Velhos são, afinal, os velhos e não os trapos.
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19 de Agosto de 2011
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[segue-se o meu endereço e a tua assinatura e, em adenda],
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(4 horas da tarde na cozinha da casa do filho, Victor Barroso Nogueira da Silva)”

Reparo agora que não, que os escritos no bloco estão intercalados, com folhas "brancas” entre eles,  e não em sequência cronológica.
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O último é de 17 de Janeiro de 2012 – 3ª feira
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“Reli o que tinha escrito.
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Fiquei possuída de imensa tristeza !
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O meu único amparo é o Victor. O carinho que sinto por ele não tem preço. Só desejo que tudo lhe corra sempre bem. Não consigo escrever mais do que sinto.
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Meu querido filho Victor. Um beijo de muito Amor. A mãe Maria Emília.
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São 11 horas da noite. Estou na “minha” cadeira da cozinha, aonde me sinto bem. Lá para a 1 hora da noite irei para o quarto deitar-me. O Victor está no escritório. É o dia-a-dia. Maria Emília”
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Eu sabia da tua solidão, mãe, mas sentindo-me ou estando sozinho, não conseguia ou sabia quebrá-la! Dizias-me por vezes que te deixasse ser como eras e eu respondia-te que para tu seres como eras teria eu de deixar de ser como sou. A tua “liberdade” como a entendias tinha como contrapartida a negação da minha!
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É da tua solidão que falas em 22 de Outubro de 2011 – sábado – “Continuo caída num abismo! Falta-me uma bóia para vir ao de cima ! Com o peso desta tempestade é difícil consegui-lo.”  Em 13 de Outubro de 2004 escreveras “Estas recordações deixam-me numa tristeza enorme: a morte do Zé Luís continua a ser a minha maior tristeza. Continuo numa tristeza sem solução. (…) Gostaria de escrever algo mais feliz, mas reconheço que não consigo.”
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E em linhas acrescentadas em 28/6/2006 – “Dizer e repetir que o meu grande afecto é o Victor ! É desnecessário ! Tudo lhe desejo do melhor.”

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São duas e vinte da madrugada subsequente à do 25 de Abril. O silêncio enche o prédio e nesta casa ouço apenas o zumbido nos ouvidos e o suave dedilhar ritmado nas teclas ou o baque seco e compassado da barra de espaços.
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A vida é tão frágil e o tempo tão breve para dizermos quanto amamos e somos amigos daqueles que amamos e que estimamos. Mais do que dizer, não menos importante, é mostrá-lo não apenas com palavras mas com os gestos e os actos e a mão no ombro ou no rosto.
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Tal como escrevi uma vez sobre a Maria do Mar, "Tenho esperado as suas notícias, a sua voz, o seu sorriso, a sua companhia, a sua presença e, porque não dizê-lo, a sua ternura. E rio-me (...) de mim. Porque, ao contrário dela, não faço grandes discursos sobre a amizade e a franqueza pessoal, porque são apenas palavras e poeira aqueles que não têm correspondência nos actos. (...) A mim o que me interessa são os vivos e a solidariedade ou o gesto que se não recusa, a liberdade que conseguimos fazer nascer nesta teia de constrangimentos e de embaraços."  Ou, muito antes, à Maria Papoila ou Maria Vai com as Outras: «Mas nada disto interessa. Uma presença, um gesto, um sorriso, valem mais que mil palavras. Não entendes isto ?»
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Tu, em parte,  sabias isto mãe. E tu, que me lês ?
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Foto Victor Nogueira - em setúbal


Foto Victor Nogueira - 2009 - em setúbal

quinta-feira, 25 de abril de 2013

em évora - os dias da pré-Revolução - 1974 Abril 25 a Maio 03


 de Victor Nogueira (Notas) - Quinta-feira, 25 de Abril de 2013 às 0:32


Com um ar grave e solene o locutor de serviço na Televisão comunica à hora do noticiário que a emissão prossegue com um concerto de Freitas Branco, até que sejam transmitidos os comunicados do Movimento das Forças Armadas. O emissor do Rádio Clube Português transmite música portuguesa. Aguardo que retransmitam o comunicado da prisão do Presidente do Conselho de Ministros, refugiado no Quartel da GNR, no Largo do Carmo em Lisboa.

A Rua do Raimundo, os carros nela estacionados, o pátio, o terraço, a casa de banho, estão juncados de restos de papéis queimados. Grande actividade vai ali na sede da Acção Nacional Popular (1) onde devem procurar livrar-se de papéis comprometedores.

São já quase 20 horas e um novo comunicado informa que "Sua Excelência o ex-Presidente do Conselho de Ministros se rendeu incondicionalmente a Sua Excelência o General António de Spínola,  juntamente com os ex-Ministros do Interior e dos Negócios Estrangeiros" O   Pai Tomás ainda não se rendeu.

Penso que os regimentos de Évora ainda não aderiram ao pronunciamento militar. Pelo menos nenhum dos jornais que li hoje fala em Évora, sede de uma das quatro Regiões Militares.

Foram pancadas secas as que me acordaram cerca das 8 h 30 m desta manhã, seguidas dum jorro de luz sobre os olhos e da visão do Diogo [Guerreiro] em pijama, o rádio na mão: "Ouve lá isto e vê se percebes alguma coisa!" Meio a dormir ouço, pelo rádio, um apelo aos médicos e falar nas operações iniciadas na madrugada de hoje. Estou baralhado e nada sei sobre o que estou a ouvir. A Emissora Nacional está silenciosa. Ouve-se música portuguesa, especialmente do Zeca Afonso. Durante o resto do dia segue-se a audição dos comunicados do Comando das Forças Armadas. No Instituto a malta aglomera-se junto aos automóveis com rádio. A Filomena está assustada (Tem muito medo das revoluções!) e diz que é um golpe das esquerdas. Mas nada se sabe de concreto sobre a finalidade e orientação do Movimento.

Dizem-me que os bancos estão encerrados e dou por mim a pensar se o dinheiro que tenho no bolso me chegará para o fim de semana. Felizmente que levantei ontem massas, se não estava lixado.

À cautela passo pelo Nazareth para arranjar um exemplar do "Portugal e o Futuro”, de Spínola, que não circula em Angola proibido pela censura]  e que o [meu irmão Zé Luís] tem interesse em ler.(...)

Venho até casa para saber de que lado está a RTP. A emissão começa à hora habitual - 12:45 - e surge um locutor de olhar esgazeado, olhando para a direita e para a esquerda, ouvindo se ruídos no estúdio. A emissão é interrompida. Será um locutor do Movimento? A emissão recomeça pouco depois e a dúvida desvanece-se: o locutor, com ar atrapalhado, informa que seguir-se-à um filme da série Daktari, o telejornal das 13:45 e a Telescola. A emissão é novamente interrompida, recomeçando pouco depois com o filme anunciado: animais sendo caçados com laços.

…

O locutor de serviço informa que a interrupção foi devida a uma falta de energia. Por momentos pensei que fosse outro o motivo. São 20h20 A minha mãe telefonou a saber como estou. Digo-lhe que estou bem.

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Após o almoço tentámos ouvir o noticiário da TV, às 13h 50. Mas … nada. Em vez deles um filme da série “Viver no Campo”.

Numa emissão especial da BBC às 14:45 permite saber que o Movimento contactara com os generais Spínola e Costa Gomes. Começam assim a definir-se as posições.

Nos comunicados do MFA o general Spínola é apresentado como o fiel intérprete dos sentimentos da população (que não se teria manifestado) (2) Eis o homem. Para já, teremos uma ditadura para restaurar as liberdades cívicas !

Nas ruas de Évora, durante o dia, a malta sorria-se, euforicamente, numa euforia um pouco contida.

Bem, amiga, vou jantar. Junto te envio um recorte sobre a anti-psiquiatria. (1974 ABRIL 25).


1 - Cujas traseiras dão para o pátio da casa onde moro.
2 - Ao contrário do que sucedia em Lisboa, com a população a encher as ruas e rodear os militares, determinando o rumo do Movimento, em Évora as manifestações populares foram muito comedidas.

Depois de Abril de 1974 os pedintes desapareceram das ruas de Lisboa e doutras cidades, não por qualquer medida repressiva, mas porque as condições de vida melhoraram. Vinte anos depois regressaram, tal como os encontrei na Madeira, embora muitos sejam jovens que agressivamente exigem dinheiro pela arrumação de carros em lugares que indicam, muitas vezes para aquisição de droga. Contudo não se amontoam às portas das igrejas, como outrora. (1998)

A Rádio Renascença transmite "Os Vampiros", do Zeca Afonso! Rei morto, Rei posto! A Junta de Salvação Nacional, como a si própria se intitula, abre a tarracha e já hoje tornou público o seu programa, cujo ponto limite é a realização de eleições gerais para a Assembleia Constituinte e Presidente da República no prazo de 12 meses.

No café Estrela, velhos falam dizendo que os jovens de agora são melhores que no seu tempo: “A gente também não concordava com o Salazar mas nunca tivemos coragem de fazermos o que eles fizeram.". Nas imagens que a RTP transmite a nota dominante entre os manifestantes e os mirones era a juventude. Outro velho diz que nunca foi marcelista.

No Instituto o Director [António da Silva, s.j.] anda nervoso e carrancudo. Comunica à Comissão Administrativa da Associação dos Estudantes que não autoriza a Reunião Geral de Alunos convocada para essa tarde, pretende que a [referida] Comissão nomeie outra Comissão, que deverá submeter à sanção da Direcção do Instituto. A Comissão discorda, o Director desdiz-se mas exige que lhe sejam comunicados os nomes, reservando-se o direito de vetá-los. A reunião realiza-se, comparecendo 30 estudantes.

É aceite por maioria absoluta uma moção minha: "Escolher uma Comissão que terá como finalidade detectar junto dos estudantes dos problemas que os afectam enquanto estudantes., o modo de resolvê-los bem como à sua atitude face à Associação dos Estudantes"

Seguidamente 10 dos estudantes presentes oferecem-se para serem votados para constituírem essa Comissão. Decide-se que serão escolhidos os cinco nomes mais votados, que integrarão a Comissão, que fica assim constituída: Ribeiro (1º ano) - 9 votos; Luís Carmelo (2º ano Sociologia) - 11 votos; João Luís Garcia (3º ano Sociologia) - 11 votos; Faria Monteiro (1º ano) - 12 votos; Victor Nogueira (5º ano Sociologia) - 16 votos.

Quer a Direcção [do ISESE] aceite ou não, ela submeter se à a um plebiscito [entenda se, ractificação] junto de todos os estudantes.

Vamos ver o que sai daqui.

Dois professores do Instituto, altamente comprometidos com o Governo de Marcelo Caetano, os drs. Silva Leal e Amílcar Mesquita, não compareceram às aulas.

A BBC de ontem informava que a Comissão Democrática Eleitoral (dominada pelo Partido Comunista) e o dr. Mário Soares (líder do Partido Socialista Português) [ambos os partidos até agora considerados ilegais] apoiam o Movimento das Forças Armadas. Segundo o dr. Agostinho Neto do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) o golpe não seria mais que uma manobra de Marcelo [Caetano] para afastar os elementos de extrema direita, encabeçados pelo Pai Tomás [Presidente da República].

Por seu turno o Ministro da Saúde do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) afirmou que numa entrevista à BBC subida de Spínola não modificará as coisas; a sua política é a do “adormecimento do povo”.

De resto, segundo a BBC, de anteontem, a situação em Moçambique não ´é muito brilhante dado que a FRELIMO controla as comunicações com a Rodésia, onde existe um governo racista branco, apesar das medidas de segurança intensificadas.

Ainda não sei se amanhã teremos exames de Estudos da População: o Cónim virá ?  O prazo para entrega dos exercícios de Técnicas de Investigação Social II foi adiado para a próxima 4ª feira. Respiro de alívio.

PS – Elementos da Polícia Secreta e do Exército Rodesianos actuariam em território de Moçambique, procurando detectar guerrilheiros da FRELIMO e anti-rodesianos. Segundo um relatório secreto de oficiais portugueses têm instruções (ou autorização) para abater todos os que possuam armas, desde que ofereçam resistência às inquirições com vista à obtenção de informações; para isso torturavam as populações, sendo esponsáveis pelos massacres ultimamente cometidos.

Como vão as coisas aí pela Amareleja?  (MCG - 1974.04.26)

O telejornal transmite a libertação dos presos políticos do Forte de Caxias. Fico indignado com as delongas: mas que história é essa da distinção entre presos de delito comum e presos políticos? Vão para o raio que vos parta, mais o vosso “percebes?”. Não percebo,  nada!

Começa a saída dos presos: reconheço alguns – o Sérgio Ribeiro, o Luís Moita. Ouço nomes conhecidos: Nuno Teotónio Pereira. E ouço as declarações de alguns dos libertos, nomeadamente [Palma Inácio] da LUAR (Liga Unida da Acção Revolucionária): aí, valentes, assim é que são! Nada de entusiasmos despropositados, nada de pactuações demagógicas. Não haja ilusões: o poder não irá para o povo; a burguesia reorganiza-se. Vamos ver durante quanto tempo durará este novo ar que se respira, duma liberdade que nunca tinha havido nos meus 28 anos de existência. É bom sentir também essa liberdade nos outros.

Sinto-me como se estivesse exausto. Nós podemos mesmo falar, podemos comunicar com os outros, podemos determinar a nossa acção, sem o dilema da marginalização pela recusa em pactuar com um governo e uma política criminosas?!

Vejo hoje no Instituto o dr. Amílcar Mesquita, o Rola, o Director do Instituto e outros professores. Sobe por mim a contrariedade que me despertam: o arrivismo, a cretinice, o autoritarismo, a desumanidade dum país de que a escola é o reflexo pela política dos jesuítas. Sobe por mim o desejo de gritar NÃO a tudo isto que profundamente abomino e que tão dolorosamente suportei durante estes seis anos de luta para não me deixar negar.

…
Ah! Mas a nossa luta ali no Instituto é agora conseguir o direito de associação, a liberdade de expressão de pensamento, negar o autoritarismo da  Direcção. Esta é a minha luta: NÃO à ditadura, não às fantochadas.

Vou ouvindo a BBC; por ela sei das reacções que se vão dando no mundo em como comentários interpretativos da situação. Comentários políticos têm surgido apenas no “República”. Os restantes, como o “Diário de Lisboa”, a “Capital”, o “Diário de Notícias” e o “Século” dedicam páginas inteiras à descrição dos acontecimentos, alguns com muitas fotografias.

Não acredito muito que a Junta Militar entregue o governo à população. Não acredito na neutralidade política das Forças Armadas. O Marcelo foi deposto, é certo, mas não vejo muito qual a possibilidade de instaurar em Portugal uma ordem radicalmente diferente. Ao render-se, o Marcelo foi bastante sintomático: entregar o governo ao Spínola [e ao exigir render-se apenas a Spínola quando já não tinha qualquer poder] “para evitar que o poder caia na rua” -  aquilo a que alguns chamam a “populaça”,  

Daí que o General Spínola possa lançar um apelo para evitar os excessos que possam por em causa “o poder que o General Spínola vos oferece”, diz um comunicado.  Mas .. a liberdade conquista-se. E se o “poder é oferecido” (ao povo)  por um general,  então não tenhamos grandes entusiasmos e aguardemos o desenrolar dos acontecimentos.

A Emissora Nacional transmite o seu noticiário da meia noite e transmite uma gravação (será integral?) do noticiário e comentários da BBC que ouvi há pouco !

O Partido Comunista Português pretendia declarar uma greve geral para o próximo 1º de Maio. Mas a Junta de Salvação Nacional instaurada após as 1ªs convocações - Haverá greve ou não? Ou limitar-se-á a uma convocação gigantesca? Até que ponto a SEDES e a CDE bem como os sindicatos conseguirão “controlar” a situação para não obrigar a Junta a desmentir as suas afirmações ?

Amanhã há uma reunião ou comício ali na Quina das Glicínias, na Estrada para Arraiolos, organizado pelo Movimento Democrático de Évora. Hoje desde o Cemitério até à Praça do Giraldo, uma grande multidão - milhares de pessoas aguardaram [em Évora]  - durante mais de hora e meia pela chegada do cortejo automóvel que acompanhava os presos políticos libertados - uns 3 ou quatro, um dos quais há 12 anos ! (1) São 20h30m  está frio e começa a chuviscar. Resolvo ir a casa buscar o guarda-chuva e acabo por ir jantar uma merda dum bife nos “Manuéis”.  Quando regresso à Praça [do Giraldo] já tudo havia terminado; apenas na placa central da Praça do Giraldo um grande magote de pessoas estão comprando "A Capital". São autênticas corridas aos jornais, avidamente disputados, como os dos últimos dias. Toda a gente anda de jornal debaixo do braço ou lê-o à mesa do café ou especado na rua. Até, oh! surpresa, raparigas! (Muitas mulheres têm tanta pena do Marcelo [Caetano], coitadinho, tão simpático, tão amigo do povo!) SAFA!

A caça aos PIDES continua. E não fossem as Forças Armadas e muitos se não todos seriam chacinados, após 40 e tal anos de tortura e repressão. Contam-me que em Évora um não escapou a alguns sopapos. Geram-se situações chatas e perigosas. Alguns dos suspeitos de serem informadores da PIDE andam à rasca. Um (dos suspeitos) agarrou num dos rapazinhos (acusadores) e levou-o ao quartel-general para esclarecer a situação. Aí foi informado que quem fizesse acusações desse género sem provas terá de responder em tribunal por difamação. Dizem-me que um dos PIDES de Évora se teria enforcado na sua residência esta manhã.

Passaram hoje em Évora uma coluna de carros de assalto, jipões e jeeps. Os soldados iam sorridentes, acenavam, alguns tinham flores nos canos das armas. Os populares gritam "Obrigado, rapazes!" e eu depois tenho pena de não ter correspondido ao aceno dos militares, apesar de estar comovido.

Bem, amiga Celeste, vou deitar-me.  (MCG – 1974.04.27/28)

Não tive oportunidade de acrescentar algo mais às linhas anteriores, salvo agora, enquanto aguardo que me façam a ligação para a Amareleja.  Ando um tanto ou quanto alvoraçado e precisava de recolher-me. Para conseguir estudar que é coisa que não faço desde 5ª feira passada, no princípio de ouvido colado ao rádio e depois lendo os jornais e pormenores.

Domingo de manhã houve uma manifestação popular. À noite fui ao cinema ver " Malteses, Burgueses e às Vezes", (2) que era português e passado em Angola, nomeadamente em Luanda. O 1º de Maio - Dia do Trabalhador - é finalmente feriado. Prevê se uma manifestação, que de resto agora são livres (3)

(1)   - Dois deles eram o António Gervásio e o Diniz Miranda.
(2)   -  filme de Artur Semedo -  cujo verdadeiro título é “Burgueses, Malteses e às Vezes” 
( 3)– Em Évora, no ISESE, antes do 25 de Abril o ISESE encerrava no dia 1º de Maio – Dia de S. José Operário, cuja estátua, com esta etiqueta, estava no 1º lance das escadas do piso térreo para os superiores.


Viste o TV 7, ontem, domingo? É muito para um homem só ouvir finalmente, aquilo que alguns pensavam, muitos sentiam, mas não se podia dizer. E sobretudo o fim da guerra colonial, o direito à greve... Não, (...) não creio que se possa retroceder. A luta dos próximos tempos será de morte (não, não me refiro à guerra civil!); espero que o povo português não perca tudo o que pretenderão tirar-lhe: uma sociedade mais justa e humana. Mas de algo estou certo: "a longa noite do fascismo não voltará!".

Gostaria de estar contigo. Os dias que vivemos hoje são – para quantos de nós ?- a libertação do futuro, que talvez já não seja um beco escuro. Quero-te, mas isso que adianta se tudo [entre nós dois] continua como sempre ?  (MCG - 1974.04.27/28)

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Proclamação aprovada em RGA (Reunião Geral de Alunos)  de 3 de Maio de 1974
(na sequência dos plenários de 25, 26 e 30 de Abril e de 1 de Maio)

Os estudantes do Instituto Superior Económico e Social de Évora   reunidos em 3 de Maio de 1974, saúdam todos quantos, sobretudo na clandestinidade e  com risco da sua segurança e bem-estar, têm lutado contra todas as formas de repressão e violação dos Direitos Humanos em sociedade, nomeadamente a partir da instauração da ditadura fascista em Portugal.

Incluem nesta saudação o Movimento das Forças Armadas

Na sequência lógica das Declarações Universais dos Direitos Humanos e da Doutrina Social da Igreja;

Considerando os poderes discricionários da Direcção do ISES, exclusivamente formada por membros da Companhia Portuguesa de Jesus e dela directa e exclusivamente dependentes,

REIVINDICAM

- o direito de participação na gestão do ISESE.

DECLARAM que o direito de participação na gestão do ISESE implica:

- o reconhecimento imediato dum Conselho de Estudantes (cuja constituição será objecto duma próxima RGA)
- a liberdade de expressão do pensamento e na procura da verdade, o que implica a abolição do ensino dogmático e magistral;
- o reconhecimento imediato do direito de participação na constituição dos júris de exame;
- a liberdade de comparência às aulas, o que implica a abolição imediata do regime de faltas;
- a liberdade de reunião nas instalações do ISESE.

RECONHECEM aos empregados o direito de participação e decisão na resolução dos próprios assuntos.

SAÚDAM todos os professores do ISESE que de  forma inequívoca e expressa adiram ao conteúdo da presente Proclamação.

PROCLAMAM que prosseguirão na sua luta contra todos quantos, de qualquer modo, se oponham às declarações e reivindicações da presente Proclamação

Évora, 3 de Maio de 1974




Foto Victor Nogueira
Foto Victor Nogueira - Alcácer do Sal
Foto Victor Nogueira - Évora - campanha eleitoral
Foto Victor Nogueira - o homem da bicicleta ao nascer do sol
Foto Victor Nogueira - Évora
Foto Victor Nogueira - Évora - 1976 - A terra a quem a trabalha

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Maria Emília - Memória no 7º Dia

Victor Nogueira actualizou a sua foto de capa.
Fotos Victor Nogueira - Memória no 7º Dia ~~~~
Maria Emília da Conceição Barroso Nogueira da Silva
~~~~ (1920.01.04 - 2013.04.17) ~~~~

 Victor, Susana, Rui Pedro, Manuel e restante família: recordam a mãe, avó e familiar, mulher que foi generosa, lutadora, alegre, amiga e cheia de vida, que permanece na memória e nos corações de quantos a conheceram e amaram.
 


 
  • Judite Faquinha Lindas senhoras, com sorrisos de felicidade!!! que estão na tua memória!!! bjs.
  • Victor Nogueira Judite Faquinha É a mesma pessoa em 3 fotos tiradas por mim
  • Maria Jorgete Teixeira A tuamãe era uma linda mulher, já te tinha dito! Um beijinho especial para ti...
  • Graca Maria Antunes Esta linda senhora tua mãe, aqui alegre e cheia de vida...Mas sabemos que um dia é altura de partir...E dói muito! Beijinho, Victor.
  • Carlos Rodrigues Parabéns, Victor. Bela senhora e simpática a tua mãe.
  • Maria Célia Correia Coelho Simpática, rosto bonito, segura de si, são pensamentos que me acodem ao ver estas fotos Victor! Bji para si! Obrigada.