
Entretenham-se com os posts anteriores, se quiserem.
No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.
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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.
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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.
VNVou ver "Bíblia"? Vou, não vou ... Quando entrei já Deus ia no 3º dia. O filme desiludiu me imenso. A criação do mundo é qualquer coisa de fantástico, difícil de conceber. Tudo muito verdinho, muito limpinho. E o Adão e a Eva, tão lindos, tão amorosos, tão lourinhos, eles que pouco diferentes seriam dos macacos. O Caim era feio, não se barbeava com Gilette como o Abel. E o Noé? Um simplório, tímido, a dar palmadinhas nos tigres, nos avestruzes, a dar o leitinho aos hipopótamos. Mesmo a voz de Deus nada tinha de solene, de majestosa ! Muitas passagens importantes nem sequer são citadas. A Bíblia é algo que não pode ser transposto para o cinema. A sua linguagem é quase sempre figurada, obscura. É algo que cada um de nós imagina e sente ao lê la. Transplantá la para o cinema é ridicularizá la, identificar Adão com o actor Xis, Sara com a actriz épsilon. E ficamos desiludidos. O filme é muito parado e fez me sono. Não havia meio de aparecer o "FIM". Lá apareceu às 18 h e 30 m. (1)
1 - "Estive a ler o "Genesis" e cheguei à conclusão que o filme "A Bíblia" é fiel ao livro, embora não cite algumas passagens, como por exemplo a embriaguez de Noé. (...) Será sempre uma deturpação dos textos bíblicos - refiro me ás imagens, dado o seu carácter comercial" (MEB - 1966.12.16)
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Ontem a RTP na sua noite de cinema transmitiu o filme italiano "S.Francisco de Assis
O apresentador comparou-o ao "Evangelho segundo S.Mateus , de Piero Paolo Pasolini premiado pelo Office Catholique International du Cinema (?) - OCIC - este último filme, cinematização daquele Evangelho, caracteriza-se pela rudeza e crueza das suas imagens e cenas. Os seus personagens são gente do povo: não são bonitinhos, como Adão e a Eva da "Biblia". Este realizador é comunista, e há pouco tempo viu galardoado por aquele organismo um outro filme seu, o que levantou uma onda de protesto por parte de determinado sector dos católicos!
Mas retomemos o fio à meada. Voltemos ao argumento de filme:
Após uma juventude despreocupada, Francisco resolve despojar-se de todos os seus bens materiais e viver segundo o desprendimento evangélico. Em breve se juntam a ele dois outros homens. A sua vida miserável, o seu deprendimento dos bens materiais, escrupuloso respeito pelos preceitos evangélicos "Vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro nos Céus; depois vem e segue-me." e "Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem quanto ao vosso corpo com que haveis de vestir. (...) O Vosso Pai Celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. Procurai primeiro o seu reino e a sua justiça, e tudo o que mais vos será dado por acréscimo. Não vos inquieteis, portanto, com o dia de amanhã.", tudo isto, como escrevia eu, escandaliza a hierarquia da igreja, ameaçada pela proliferação de heresias como a dos Albigenses. Mas não só a hierarquia; os leigos, demasiados realistas e comprometidos com os bens materiais, fazem chacota deles. Estou a lembrar-me daquela cena em que Franscisco envia os seus companheiros em diferentes direcções para pregarem a boa nova. Rufino terá que falar na Sé. Balbucia, suplica que seja enviado outro em seu lugar, pois não sabe falar e tem vergonha de fazê lo em frente aos seus familiares e amigos que abandonou para seguir Franscisco. Este, para humilhá-lo pelos seus escrúpulos, ordena-lhe que vá, ... apenas de calções. A medo, entra na igreja, atravessa a multidão atónita e dirige-se para o altar. A assembleia começa a vaiá-lo. Cada vez mais constrangido, perturbado pelo clamor e pela chacota crescentes, não consegue senão repetir, quase inaudivelmente "Cristo disse: Amai-vos uns aos outros ..." Como são despreziveis os homens com a sua miserável tacanhez de espírito, a sua estupidez, a sua falta de caridade, a sua superioridade farisaica!
O número dos adeptos de Francisco aumenta mais e mais e os problemas também. São já tantos que este desconhece muitos deles. Incapazes de aceitarem a total renúncia de bens e cuidados materiais, eles criticam-no frequentemente, mesmo quando ele afirma não ser nada de transcendente o que propõe: viverem, voluntáriamente, como a esmagadora maioria dos seus semelhantes, que nada possuíam e viviam miserávelmente. Há aqui uma situação flagrantemente semelhante à do mundo dos nossos dias, em que o número de miseráveis suplanta, de longe, o dos opulentos. Pretendem uma renovação da ordem, a escritura de novas regras, "onde esteja escrito o que devem fazer e o que devem deixar de fazer". E Francisco não consegue convencê-los de que não é necessário que os doutores as escrevam porque já as possuem: o Evangelho.
Há em Francisco uma constante preocupação pela vivência da doutrina cristã, uma vivência real, traduzida em acções, em modos de vida. Na sequência daquela cena que atrás transcrevi, Francisco, também em calções, entra na igreja, dirige-se para junto de Rufino. Mas este está demasiado perturbado. Francisco, olha á sua volta (o pandemónio é indescretível) apodera-se dum crucifixo e coloca-o junto a Rufino. O pandemónio reduz-se cada vez mais, transforma-se num múrmúrio e esvai-se. Francisco, então, inicia um àspero discurso no qual critica todos aqueles que se prostam e reverenciam um pedaço de madeira enquanto, numa atitude pouco caridosa e fraterna, apupam um semelhante seu que lhes vai falar da Palavra de Deus.
Em todo o filme transparece uma crítica contra a inautenticidade da aplicação do Evangelho por parte dos fiéis e da hierarquia, contra a falta de confiança nos cuidados da Providência Divina, contra a vassalagem daqueles "homens de pouca fé" a dois senhores diferentes. (...) (NSF - 1968.10.05)
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Nota:
Em Portugal persiste a ideia que a Compnhia de Jesus era a responsável pelas prseguições da Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício. Contudo isto não é verdadade, a meu ver ver, pois os jesuítas forram por esta perseguidos, sendo os inquisidores Dominicanos (os Padres Negros) e os Franciscanos (a este propósito o Nome da Rosa, filme baseado em livro de Umberto Ecc)o é elucidativo.
O «Crime» dos Jesuítas foi serem os «educadores» da classe dominante e daí resulta a perseguição do Marquês de Pombal, que pretendia a «industrialização» de Portugal e o controle absoluto do poder real contra a «parasitária» classe dominante, como os Távoras e a Casa de Aveiro, entre outras.
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Pois é ... É como o filme de que se falava no último boletim do Núcleo Juvenil de Cinema: "A Súbita Riqueza dos Camponeses Pobres"
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Os tipos assaltaram a carroça dos impostos extorquidos pelo Príncipe para o faustoso casamento da princesa. Os camponeses eram pobres e não podiam pagar impostos?! E então, a princesa deixaria de casar se faustosamente , como convinha á sua condição? Lá estava o juiz inteligente, que descobre os "miseráveis" assaltantes, que alguns até se denunciam para ver se salvam a pele! Que a vida, apesar de tudo, é a única certeza. Mesmo que miserável! E exigem as autoridades e os padres o arrependimento público de todos - condenados á morte para não morrerem de fome - E aqui, o realizador deste filme, propõe outra leitura crítica da realidade, pela boca de um dos padres: desde Lutero, a religião está ligada ao poder civil, é o seu sustentáculo. [Por oportunismo dos príncipes alemães, Lutero teria proclamado aquilo que desde Constantino a Igreja Católica tem como princípio de actuação. ] É pois necessário que os criminosos sejam castigados, para sossego dos "príncipes" e aquietação dos que - justamente ou não - tenham a veleidade de querer perturbá lo. (MCG - 1973.04.16)
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Com uma assistência relativamente reduzida foi projectada na 4ª feira passada o filme "A Súbita Riqueza dos Pobres CamponesesXE "filme: Súbita Riqueza dos Pobres Camponeses (A)"§", narrando XE "argumento de filme: Súbita Riqueza dos Pobres Camponeses (A)"§as relações de poderio político e religioso exercido sobre os camponeses que cometem um assalto a um carro transportando o produto de impostos e as consequências que advêm para os autores de tal assalto, quando descobertos pela justiça: a pena capital, após o arrependimento e remorsos de todos salvo um, que afirma querer morrer como um homem, apesar de todas as pressões que sobre ele se exercem. (Núcleo Juvenil de Cinema de Évora, Boletim 1973.Abril)

Querida namoradinha
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Gostei de falar contigo ontem; eram uma voz e um riso bonitos. Estou tão contente - lá no fundo - por ti e pelo que tu representas que me apetece abraçar, beijar ou falar com as miúdas que se cruzam comigo que se sentam nos bancos do jardim ou ao meu lado no comboio. Mas como correria o grave risco de ir parar ao banco do hospital, ao xelindró ou ao manicómio, por atentado á moral e aos bons costumes! ... Pois é namorada, como reagiria eu (como reagirias tu) se uma mocinha (o) (como dizes) me beijasse (ou a ti) ao cruzar se comigo (ou contigo) ou tivesse gestos de ternura no breve tempo duma viagem entre duas estações? Bem sei o que muitos dizem e pensam da L., lá em Évora! Elas não podem ou não devem fazê lo, para não serem tidas por destravadas, eles também não, salvo se quiserem passar por D.Juans ou marialvistas! Assim, (...) (para teu descanso e da autorização do "flirt") resta-me olhar e ver o mundo e as pessoas com mais amor e serenidade (até quando?)
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Estou na sala de jantar da casa onde moram as minhas tias. A tarde hoje está enevoada. O sossego apenas é quebrado pelos pássaros cantando lá em baixo nas árvores que o vento agita. De vez em quando passa um carro. Ao fundo do corredor, noutra sala, a minha tia Maria Luísa ocupa-se com os seus trabalhos de costura (é modista) enquanto fala com a Bela, uma miúdita da vizinhança que vem ajudá-la por estar em férias e nada ter para fazer (que grande desperdício são as férias!). Ainda não vi a minha tia Esperança, pois ainda não fui a Lisboa e estes têm sido dias em que ela fica em Porto Salvo. Como Lisboa ainda fica a 20 minutos daqui (viagem de comboio) ela só cá vem jantar e dormir, apesar da farmácia de que é directora técnica ser a dois passos do Cais do Sodré. Este é um dos inconvenientes de Lisboa: está longe e tudo lá fica temporalmente longe, os amigos e os acontecimentos - apesar das facilidade de transportes - tornando os dias cansativos, pelas correrias a que nos sujeitamos e de que já estou desabituado. Que contraste com Évora, onde tudo respira lentidão e quietitude!
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Mas não é só o bulício e a azáfama constantes que se tornam cansativos. Também e ainda mais o "far niente" (nada fazer). Daqui a pouco vou até ao jardim cheio de gente estudar umas coisas, aguardar o "Diário de Lisboa" e desentorpecer as pernas e o corpo. Que isto de estar parado sem nada fazer ainda me é mais cansativo. Como diria a D.Vitória: "O sr. Nogueira é um insatisfeito". Eu acrescentaria: "porque gosto do equilíbrio". Bem, mas prometo que hoje não farei tiradas como as da carta de ontem, em que algumas passagens teriam de ser modificadas para corresponderem melhor á realidade. Consequências de escrever sob pressão!
E afinal cheguei ao correio com 1 (um) minuto de atraso, perdendo assim a tiragem das 20 h !!! Disseram me lá que a das 22 também servia. Espero que sim.
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Mas, namorada, reparo que se não tenho cuidado passarei as horas a escrever-te. Vês, efeitos de ter uma caneta ágil, (só a letra é que não prima pela legibilidade, o que também me aborrece) e de tu estares longe. Portanto vamos pôr um pouco de disciplina nisto. Vou mudar de roupa e no jardim estarei um pouco mais contigo! (Aqui o Victor prepara-se para levantar-se, contente beija a Celeste, com muito carinho e delicadeza - enquanto são namorados são todos atenções, o pior é depois ... ) E pouso a caneta.
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No jardim. "É palerma, a mocinha!" Só á tarde recebi a tua carta, pouco antes de sair. E foi porque resolvi lanchar antes: dois pêssegos, uma banana, um iogurte com batatas fritas que sobraram do almoço e um raspanete da Maria Luísa ... por eu não ter tido pachorra para fazer o leite em pó!) "É palerma a mocinha, namorada do Victor !" Sabes, és uma cabecinha de alho chocho! E se de vez de se deixar invadir por um mar de confusões fizesse umas pausas e intervalasse? Esperei pelo teu telefonema até ás 18 h de 2ª feira. Sem grandes esperanças, porque de manhã uma das empregadas dos CTT me confirmara a minha suspeita ao informar-me que na véspera (domingo) não houvera a habitual tiragem das 22 h 30 m.
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Como não sabia da menina Celeste (febril algures na Salvada), como não sabia como reagiria ao meu pedido de namoro (as cartas iriam para Lisboa, como fora combinado) só me restava uma solução: abandonar Évora. Contrariamente ao inicialmente programado resolvi adiar a partida para o dia seguinte: duma cajadada matando dois coelhos, isto é, aproveitando a passagem da camioneta em Setúbal para uma "breve pausa" para visitar amigos, o casal Armindo Gonçalves, amigos de Luanda, e a Noémia! A tua carta estava em Lisboa, qualquer que ela fosse, e a vida continuava! Cheguei pois a Paço d'Arcos ás 23 h desse mesmo dia e pouco depois tive a confirmação oficial da nossa nova situação. 'Ta percebido, namorada! Então vá lá uma beijoca, sem rios tumultuosos e violentos!
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Ah! outro pormenor importante: não sabia que a tua amiga Chiquinha já regressara de férias; também não me seduzia pedir a um Guarda Republicano para ir chamar te para atenderes ao telefone 2ª feira á tarde para saber se havia alguma hipótese de nos encontrarmos ainda em Beja! Chamar-te, ou á Teresinha ou ao teu mano António (a que propósito iria chamá-los ... para perguntar da Celeste?!) Vá lá, mais uma beijoca, mocinha marinheira! Que ia morrendo afogada!
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Olha, mando te uma banda do "Diário de Lisboa". Tem montes de piada!
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Hoje está desagradável no jardim: hoje ventoso e fresco. As minhas notas de ontem, carta que não escrevi, começam: "Uma tarde estival, quente e luminosa, no jardim de Paço d'Arcos ... " Tudo o resto é praticamente o mesmo. Os carros passam velozmente além na marginal, e o Tejo é azul. As crianças correm e brincam pelas áleas e vêm-se muitos triciclos e bicicletazinhas. A esplanada está cheia de gente que conversa. Além á esquerda vejo o barracão feio do cinema da vila: apenas 3 sessões semanais no verão: terças, sábados e domingos. Quero ver se em Lisboa vejo dois filmes de Orson Welles (um dos quais pela 2ª vez é um dos melhores de todos os tempos: "O Mundo a Seus Pés") e uma comédia "Trinitá, o Cowboy Insolente".
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Não é muito legível a escrita sobre os joelhos, sentado num banco do jardim. O melhor é ficar por aqui e comprar o jornal, passar pelo correio para deixar esta (hoje é 10, quando a receberás?) e regressar a penates.
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Lamento as tuas férias. Porque se Évora é o que é! ... Até 2ª feira traçarei definitivamente o meu programa de férias. Ouve lá, namorada, tu não tencionavas passar uns tempos em Lisboa, em casa duma prima tua? Porque desististe desses projectos?
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Diz me pois se podes, quando e por quanto tempo poderias vir! Se preciso fosse trarias a Emília como guarda costas.
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A vires, teria de ser até meados de Setembro. Porque só por essa altura sai o mapa de exames de Outubro, que poderá exigir a minha presença em Évora (Depende principalmente da data do exame de Demografia)
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[A Bia parece me que não chegou a telefonar me para Paço d'Arcos. Aquilo parece me que é outra rapariga que sonha ou planeia muito].
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Vou mesmo interromper. Ainda bem que te vais habituando á minha letra.
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Dá por mim cumprimentos aos teus. Um abraço á Emília. Breve lhe escreverei.
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Salut, namorada.
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Paço d'Arcos
10 AGO 72 VM
PS. Reparo que de hoje a cinco dias escrevia te eu há um ano de Luanda, no dia da cidade. As voltas que o mundo dá. Que voltas dará até daqui a um ano?
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MUDAM-SE OS TEMPOS, MANTENHA-SE O AMOR
* Victor Nogueira
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O amor, espelho de muita leitura
Com mil formas e feições, encantado,
Por muitos, belos matizes pintado,
Ao feio traz bem linda fermosura.
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Ah! ele tem sempre nova feitura
Do velho em novo ser transformado;
Em boas ou más trovas é louvado,
Quebrado o enlevo, já não perdura.
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Então, noutro campo deve a vontade
Buscar o entendimento e carinho;
O mau tédio afastado, sem pena
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Renascendo a nova felicidade,
De ouro e verde corando o caminho,
Com ternura doce e vida serena.
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Setúbal, 1989.09.06

A Celeste lá vai andando, bem como o mini, que deve nascer lá com a força do calor. (MEB - 1976.06.01) A Susana lá vai crescendo e engordando. (1). A semana passada já pesava 3,200 kg. Não chora muito, mas fá lo normalmente a horas inconvenientes, isto é, ente as 24 e as 2 da madrugada. Já tem uma configuração diferente mas não sei com quem é parecida. Ah! Ah! Ah! Dizem que é comigo! Coitadinha da criancinha, bem poderia ter saído mais bonitinha!
Nós cá vamos com uma nova actividade: o "tratar da Susana" (o nome sugerido pelo tio Zé [Luís] (...) Quando lhe damos as gotas [de Vi Dê] faz umas caretas enormes que nos faz rir (E a tomar banho também. Delicia se, salvo quando lhe molham a cabeça). O Victor está um pai "baboso" (NSF - 1976.08.30)
A Susana cá vai crescendo. Já tem cara de gente e vai engordando. Agora está bebendo o leite de biberon. Já nos segue com os olhos, desde que estejamos ao pé dela, e de vez em quando vai sorrindo, cada vez com mais frequência. Tem recebido bastantes prendas, mas sucede lhe um pouco como aos noivos: qualquer dia não sabe o que há de fazer aos "babetes" e aos "baby grows" (macacos). (NSF - 1976.05.09)
A Susana tem grandes palrações e de vez em quando berra para lhe irem fazer companhia. Pesa 6,050 kg. (MEB - 1976.11.29)
A D.Maria [avó] e a Susana dormem. A Susana fala muito, embora por enquanto só ela entenda o seu palrar. Nasceu lhe um dente e outro está a romper. Agarra as coisas e diverte se a tocar o guizo ou a fazer chiar o cão de borracha. Fora isso bebe o leite todo mas faz grandes fitas para comer a papa. (NSF - 1976.12.13)
A Susana está com muitas gracinhas. (NSF - 1977.05.22)
A Susana está para ali amuada pois quer ir para casa da Isabel, nossa vizinha. (MCG - 1978.06.27)
A Susana tosse - tem estado com anginas. Está numa fase de afirmação de si própria e só quer fazer o que muito bem entende. Não sei como lidar com ela! (NSF - 1980.08.28)
Apesar dos nossos "desentendimentos" [entre mim e a minha mãe] a casa ficou vazia, como sucede quando o Rui (2) e a Susana se vão embora, especialmente após estadias mais prolongadas. (MMA - 1993.08.10)
Hoje [o Caló] anda por aí muito feliz e risonho com as magias do Rui (...) e para as quais me vem chamar a atenção com frequência. (MMA - 1993.08.15)
À tarde o Rui queria ir ao cinema (...) [e] a Susana preferia ver as lojas da Baixa Pombalina, para arejar o dinheiro. Prevaleceu a proposta da Susana, que comprou adereços de artesanato em pele e missangas, tendo oferecido ao maninho uma fina pulseira em cabedal. (MMA - 1993.08.19)
O Rui anda ali no corredor exibindo o seu esqueleto bronzeado como se fosse musculado e atlético, ao murro à irmã, esquecendo se que em resultado de brincadriras semelhantes ela anteontem torceu lhe o dedo indicador, o que é um grave acidente com repercussões nos seus exercícios de viola e no seu dedilhar do computador. (MMA - 1993.08.20)
O Mindelo é para mim um quartel-general donde parto para as minhas explorações paisagísticas e turísticas. Para o interior e ao longo dos rios dão-se belos passeios, com protestos da Susana, que não aprecia ver pedras e monos. (MMA - 1993.08.21)
O Rui anda todo orgulhoso porque lhe teria aparecido uma borbulha de acne no rosto, sinal, segundo ele, de que já entrou na puberdade. Agora deu-lhe para experimentar penteados a ver qual lhe fica melhor. Já não bastava o orgulho na musculatura! (MMA - 1993.09.16/19)
Neste fim de semana a Susana não quis sair, a não ser para ir ás compras comigo, e pespegou-se em frente ao televisor ou a ouvir música, para além de se ter encarregado dos almoços e jantares e de aspirar a casa. O Rui pespegou-se frente ao computador a jogar com o Bruno, um dos filhos da vizinha Estrela, e desta vez não houve ensaios de viola porque a não trouxe. Outras vezes fazem um estendal no chão com carros, canhões e soldados simulando grandes, discutidas e barulhentas batalhas terrestres. (...)
De qualquer modo agora tenho com frequência companhia ao almoço. Com efeito o Rui XE "família: Rui e Susana"§anda com uma paisite aguda, de que te falei um dia destes ao telefone, pelo que vem até aqui frequentemente para almoçar ou quando não tem aulas, pois a Escola da Belavista fica a dois passos. Normalmente traz um colega, nem sempre o mesmo, para almoçar também ou para jogarem no computador. E neste fim de semana resolveu ficar ... até 3ª feira (5 Outubro), embora a Susana tivesse ido embora hoje. De vez em quando chega se inesperadamente a mim para beijar-me ou abraçar-me e retribuir-lhe. A Susana é que de vez em quando tem destes ataques de ternurite, mas vindos do Rui é novidade. Sabes, aqui é sempre o mais novo, enquanto que na casa da mãe passou a ser o do meio. Aliás o Jorge é um miúdo precoce, como a Susana, e o Rui ressente-se das habilidades comentadas dos irmãos das extremas. Quando está sózinho comigo é fácil de aturar, mas quando está com a irmã dá-lhe a veneta e aparecem as fitas para ser o centro das atenções.
O Rui agora passa a vida a experimentar penteados, parecendo-me que se fixou na risca ao meio com os cabelos para os lados, como se usava nos anos 40. Um dia destes rapou o bigode e depois comentava para a irmã que já o sentia crescer quando passava a lingua pelo lábio superior! (MMA - 1993.10.03/04)
Está uma tarde fria e cinzenta. Almoçamos em casa do Zé e da Ana. O Zé e o sr. Caldeira cantaram músicas do Alentejo; o pai da Ana tem uma voz muito bonita. O Rui também abrilhantou o almoço, com a sua viola, que já toca bem. Com os seus truques de magia e cartas, bem poderia começar a pensar em animar as festas de bairro!
A Susana foi dar uma volta; ficou de vir às seis para irmos ao Jumbo comprar a prenda para o César, o filho da Ana e do Zé (de Pias), que hoje fez 3 anos. Quanto ao Rui, comigo, é mais caseiro e agora anda para ali aos saltos com o Bruno, desalojados que foram do computador, e em animada conversa com a Catia e a Aida, as filhas mais velhas da Ana e dum outro Zé (da Amareleja), com quem vivem. (MMA - 1994.02.06)
Pois é, a Susana chegou ontem aqui a casa positivamente nas nuvens. Estou apaixonada, disse me ela. Com aquele ar de extase ainda só a tinha visto quando me sabe interessado por alguém e me pergunta emocionada como vão as coisas ... comigo. (MMA - 1994.02.07)
1 - Nasceu em Évora a 7 Agosto 1976. Quando rebentaram as águas à Celeste, fomos para o hospital, tal como a Joana Espanca lhe dissera que fizéssemos. Apanhámos o táxi, de malinha na mão. Lá chegados, disseram-nos que ainda era cedo demais, que só voltássemos quando o intervalo das dores fosse de 5 minutos. A pé, lá regressámos à Rua Serpa Pinto. Quando as dores apertavam queria a Celeste ir para o hospital, enquanto eu, de relógio na mão, contando o tempo lhe dizia que o intervalo ainda estava longe dos cinco minutos. Mas, como ela protestasse, lá apanhávamos de novo um táxi, de malinha na mão, regressando a pé, com o mesmo recado. E a cena repetiu-se algumas vezes até que, sendo ao entardecer, os médicos acederam no seu internamento. Contudo a criancinha só nasceu no dia seguinte, pouco antes da visita. Quando a vi, acabadinha de nascer, toda vermelha, os olhos bogalhudos e a cabeça com a forma duma bola de basebol, fiquei desgostoso, comentando: mas que filha tão feia! Contudo passado algum tempo já estava bonitinha e assim se tem mantido! Falava muito, horas seguidas, sendo também muito teimosa. Como os livros na sala estivessem ao alcance da mão, dizia lhe que lhes não mexesse, Como persistisse, batia lhe na mão prevaricadora, mas ela, voltada para mim, com a outra, atrás das costas, ia mexendo nos livros. Tencionávamos chamar-lhe Natasha; contudo, no dia em que fui increvê-la para a consulta de pediatria, disseram-me que tinha de fazê-lo com um nome e, como não tivesse a certeza que no registo civil aceitassem o que pretendia, dei-lhe o de Susana, que havia sido sugerido pelo meu irmão Zé Luís e me parecia pouco comum. Qual não foi o meu desgosto quando no dia da consulta eram chamadas mais que muitas ... Susana! Estávamos todos enlevados com as gracinhas da recém nascida, até que vi um filme feito pelo Zé João tendo como protagonista o João Filipe, filho da Isabel, da mesma idade, e que fazia exactamente as mesmas ... gracinhas. Pelo que caí em mim, ao aperceber-me que em todo o mundo milhares de criancinhas faziam exactamente as mesmas graças perante familiares enlevados que as consideravam únicas!
2 - O Rui nasceu completamente careca, ao contrário da Susana, sendo menos sociável e risonho. Só aceitava o colo das avós e dos pais, chorando quando algum estranho lhe queria pegar. Habituado a andar com um capote alentejano, por causa do inverno, queria no pino do verão seguinte sair à rua ... de capote, chorando por isso.
Esta é a minha casa, esta é a casa dos meus filhos, fosse ou não a mãe deles viva. Eles chegaram primeiro que tu, um em 1976, outro em 1980. Como vês, muito antes de ti. De quem me divorciei foi da mãe deles, não deles. Como naturalmente te divorciaste não dos vossos filhos, mas sim do pai deles. É completamente disparatada, irracional, a aversão que tens à Natasha e à Ester.
Enquanto estás para aí, eu estou para aqui. O tempo passou e já são três da manhã, sem que o meu cansaço ou fartura da vida e das pessoas tenha diminuído. O barulho provocado pelo vento amainou e o silêncio apenas é quebrado pelo zumbido contínuo do ventilador do computador e pelo tac tac mais ou menos regular, mais ou menos rápido, do teclado. A violenta tempestade passou, tempestade que fazia bater as janelas com fragor, conjuntamente com a porta de acesso ao terraço que se deve ter aberto e, em vai vem, soava com estrondo.
Diz a sabedoria popular que não há uma sem duas nem duas sem três. Como já estão três páginas escritas, vão sendo horas de ir para Vale de Lençóis, para os braços de Morfeia, na companhia esquiva mas pronta e quase sempre fiel da Joana Pestana.
Setúbal, 1997.11.23 / 24
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ADENDA
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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.
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Victor Nogueira
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Fiquei ontem muito preocupado contigo, com a tua aflição. Não podendo ir à da Rainha, fiz das tripas coração e liguei para tua casa, a casa de Setúbal onde deverias estar mas não estás. Por ti, porque estava preocupado contigo, s(...)Decididamente, deixei de gostar dos teus filhos: até prova em contrário, ambos não passam de meninos da mamã, mimados, egoístas (...)
Devo te algumas coisas: a tua ajuda, quando não é impositiva, a tua presença quando fiz o exame no Vasconcelos, a tua companhia e alguns momentos de alegria. O que te devo é pouco, face ao muito que os teusa filhos te devem, nem mais nem menos do que os meus devem à mãe e a mim. Sou lúcido, por vezes demasiado, e não sou de modo algum do estilo mãe galinha, sempre pronta a passar uma esponja sobre as suas crias e a ver com olhos negros e chamejantes as crias dos outros, como sucede contigo.
Os teus filhos não são capazes de telefonar-me, mesmo que seja por causa da mãe deles, e o teu filho mais novo, nas tuas palavras, 'tadinho, é um joguete nas mãos de outrem ... Pareceu me que estavas aflita e se eu não estivesse doente teria ido ter contigo; coitados dos teus filhos, que não são capazes de telefonar-me, eu que lhe telefone, condescendia o Jorge, dando desculpas esfarrapadas, que tu perdoas! Coitados dos teus filhos, tão bonzinhos, tão educadinhos, que não são capazes de telefonar-me para saberem de ti ou para combinarmos a assistência de que tu precisarias ou para se arranjar alternativa ajustada, como consegui telefonando aos meus pais que - estes sim - a ti nada devem mas se prontificaram a ir buscar-te, se necessário e a qualquer hora! Decididamente, não gosto da educação que deram aos vossos filhos.
Admito que o telefonema do Jorge tenha sido uma das causas da tua crise e aflição! Tu dizes que não; eu, conhecendo as tuas histórias, admito que sim. Mas neste caso a verdade não me interessa. A verdade que me interessa é que os teus filhos não me gramam e tu não gramas os meus. Embora discordando dalguns resultados da educação que deste aos vossos, a verdade que me interessa e repito é que acho muito bem que tenhas sido e continues a ser amiga deles, que os tenhas acompanhado e ajudado e que continues a fazê lo, que tenhas convivido, convivas e continues a conviver com eles. A verdade que me interessa é que não me reconheces esses mesmos direitos e deveres relativamente aos meus filhos.
A verdade que me interessa é que as nossas casas são à beira Sado. A verdade que me interessa é que os teus filhos vivem na tua casa donde saíste e os meus vivem na minha casa, donde não saí. E a verdade que me interessa é que eu não entro nem tenho cabimento na tua casa enquanto tu entras e tens tido cabimento na minha casa. A verdade é que os teus filhos mimados não são pêra doce para ti, mas não é por isso que os pões fora de tua casa, o que, repito, acho muito bem, assim como acho muito mal que queiras que eu corra com os meus da minha, para estares à vontade comigo, como já mo disseste várias vezes! O que é verdade é que comes à mesa com os meus filhos mas eu não como à mesa com os teus, que te convidam como se eu não existisse.
Não é nada disto que eu quero, repito-te novamente. Jogas um jogo comigo que não é o jogo da verdade. Não estás habilitada para a profisssão que dizes ter.
Pensei um futuro contigo mas o que pensei não tinha consistência. Tu não me dizes a verdade, os teus filhos, que nunca hostilizei, não me gramam, tu não gramas os meus filhos, que praticamente desde o início tens hostilizado sem qualquer fundamento ou razoabilidade. A minha vida é em Setúbal, onde moro e trabalho. Não é onde vives agora Ausente de Setúbal durante a semana, não é fora da minha casa que quero passar sistematicamente os meus fins de semana, pois aqui tenho assuntos a tratar, para além das minhas coisas que gosto de desfrutar.
Se não fosse outro, o curso que estás a tirar aí, tirarias aqui em Setúbal ou no Barreiro. Em qualquer destas terras tens casa tua, que compraste, e só a tua terceira não é a minha porque não gramas os meus filhos nem os aceitas, nem é razoável que, vivendo tu comigo não os aceitando, tu saias para conviver com os teus filhos porque estes não me gramam. Não ao emprego em Setúbal
Estás por aí. Eu estou para Setúbal. Temos cada um de nós à volta de 50 anos de idade. Eu não vou aí sistematicamente porque a minha vida e a minha casa são em Setúbal e porque tenho dois filhos a quem tenho de dar assistência, quer tu queiras e aceites ou não. Atitude louvável que tomaste relativamente aos teus, que assististe até uma idade mais avançada, tão avançada que até saíste da tua casa sem que eles, beneficiários, o aceitem e compreendam. Dever de assistência que não aceitas nem compreendes tu que eu tenha relativamente aos meus filhos. No teu entender, os teus filhos, 'tadinhos, não podem ir buscar-te ou levar-te à povoação onde vives preesentemente ou a qualquer sítio, hoje como ontem. Mas, no teu entender, eu posso e devo!
Não vens a Setúbal porque é longe, porque é caro, porque não gramas os meus filhos. Doentes ou não, o futuro é passarmos os dias, férias e fins de semana cada um para seu lado. Eu telefono-te, por vezes mais duma vez. Tu não me telefonas ou porque é caro ou porque estás em casa dos teus tios e não estás à vontade. Tu podes telefonar-me a qualquer hora, desde que eu não tenha o telefone desligado. Eu não posso telefonar-te: ou porque te deitas cedo, ou porque está a chover, ou porque acordei os teus tios, ou porque estou a incomodá-los.
Se te telefono, procuro não aborrecer-te. Fazes tu sempre o mesmo? Não! Por exemplo, digo te que o micro-ondas está avariado e tu metes logo veneno contra os meus filhos, como meteste com os teus postais que eles teriam rasgado mas afinal ainda estavam em Terras da Rainha! Falei na história do micro-ondas a várias pessoas, algumas das quais têm filhos, que conhecem os meus tão bem ou melhor do que tu, e o que todas as pessoas disseram foi: Vê lá, que maçada, habituamo-nos à sua comodidade e depois faz falta!
Passo o fim de semana em Setúbal, metido em casa porque estou doente. Mas se não estivesse doente, se não estivesse contigo, então só teria ordem tua para sair com a minha mãe e os meus tios, para almoçar ou jantar com eles ou para telefonar-lhes!
Telefono-te porque estou sozinho, telefono-te porque talvez estejas sozinha, telefono-te porque me apetece falar contigo, embora as chamadas possam ser dispendiosas. E tu, esquecida dos amorzinhos e dos beijinhos e doutros ... inhos, manifestas surpresa e comentas que não me telefonaste nem tens que fazê-lo porque ... já tínhamos falado e porque acordara a tua tia e porque torna e porque deixa! Tens razão, queridinha, parvo sou eu.
Se estava a chover, a tua tia só tinha que dizê-lo. Se estavas a dormir, só tinha que dizer-me e tu continuares a dormir, porque não mando quem quer que seja telefonar-me. Mas se me telefonas, não tenho que ouvir-te dizer-me que estou a brincar contigo ... porque o meu telefone estava, uma vez mais, ocupado, talvez em prelúdio de mais uma descabida cena de ciúmes. Como se a linha tivesse que estar desimpedida para ti, à espera dum eventual telefonema teu, como se ninguém cá em casa pudesse entretanto fazer ou receber chamadas. Olha, minha linda, se marquei hora contigo, procuro que o telefone esteja desimpedido. Se não, o telefone está livre, nem que seja para eu falar com outrem, já que estás longe ou indisponível, pelo adiantado da hora, porque chove ou porque estás a dormir. Para falar com quem é meu amigo, não me chateie e me faça esquecer a minha solidão.
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ADENDA
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Toda a Série «Entre Adão e Eva» é puro romance inventado e qualquer semelhança com factos ou personagens reais é pura coincidência.
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Victor Nogueira
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Estou cansado e pesa-me o silêncio, mas não tenho música a tocar. O domingo foi triste, frio e cinzento; passei o dia fechado em casa e não comprei jornais. Continuei a escrever o meu infindável livro de viagens. Há sempre um acréscimo a fazer.
Acabei de ler um livro de Fernando Dacosta, chamado Máscaras de Salazar, feito essencialmente de colagens de pequenos testemunhos do personagem e de quem com ele conviveu, convenientemente interligados. É um livro que se lê duma penada, com agrado, mas que me não trouxe novidades. Tinha me sido recomendado pelo sr. Graça, livreiro da Antecipação. Li, confirmando no catálogo aí comprado nas Caldas, que foi o escultor António Duarte quem fez os moldes da máscara funerária e da mão direita de Salazar após o seu falecimento, sem que depois aparecessem interessados, segundo Dacosta, o que é desmentido no referido catálogo, pois embora o molde em gesso pertença ao escultor, existem bronzes numa colecção particular. Ora, independentemente do que Salazar tenha sido, é inquestionável que foi um personagem determinante e marcante na história portuguesa e condicionante do desenvolvimento dos portugueses e dos povos das colónias. Inválido, muitos se afastaram, morto, muitos o esqueceram ou desprezaram, o espólio disperso quando não vendido ao desbarato, a casa da aldeia em ruínas, a estátua estralhaçada por uma bomba em Santa Comba Dão, onde quem afinal vence eleições parece ser o Partido Socialista.
Mas, deixando as leituras e reflexões, que fiz mais? Andámos os três em arrumações: aspirar a casa, limpar o pó, descongelar o frigorífico e a arca, matar as baratas que parece terem vindo para ficar, limpar azulejos e casas de banho. Nos intervalos ouviu se música, umas vezes escolhida por mim, outras pelo Pelágio com a Cabeça na Lua. Era para ver um filme português, Oxalá, de António Pedro Vasconcelos, mas como entretanto me apercebi que na TV estava a dar uma fita do James Bond interpretada pelo já envelhecido Roger Moore, acabei por escolhê lo. A história era uma cowboyada, essencialmente passada num comboio, mas como envolvia uma companhia de circo com números circenses e algum humor, acabei por vê lo até ao fim.
Ainda não vi a 5ª e 6ª séries d'O Polvo. Qualquer dia tem de ser, pois não vale a pena esperar por ti, senão esqueço os episódios anteriores. Entretanto, nestes dias de recolhimento forçado, vi um documentário de Mariana Otero sobre a SIC e o debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares. A SIC reagiu mal àquele documentário, que comprou e passou de madrugada. A mim não me trouxe novidades, mas passado em horário nobre poderia eventualmente levar ingénuos tele-espectadores, que são a maioria, a mudarem de canal e lá se iam as audiências, a publicidade e os lucros do sr. Balsemão e Pandilha. Quanto ao debate, embora ambos os intervenientes dissessem coisas com interesse, este foi um pouco monótono, pois qualquer deles se limitou a ler as folhas, com maior ou menor ênfase, com pior desempenho e embaraço do Cunhal no que se refere à leitura. Foi mais vivo quando passaram ao taco-a-taco. Entre a assistência estavam jovens, muitos, e menos jovens, bastantes, aqueles com ar interessado, artilhados de bloco e caneta para as notas que raramente tomavam, estes muito sérios, alguns mesmo com cara patibular. Durante a intervenção do Soares um assistente da 1ª fila dormia esparramado na cadeira, a cabeça apoiada na mão. Mas fora este, a câmara não focou pessoas a bocejarem ou com ar de muito enfado.
Na assistência distinguiam se algumas celebridades: Durão Barroso, Francisco Louçã, Pezarat Correia, Pedro Canavarro, Jorge Coelho, Medeiros Ferreira, Fernando Rosas ... Alguns dos assistentes sobretudo os menos jovens, mostraram-se pouco à vontade quando focados pela câmara, outros não esconderam o seu inchaço, talvez babosos para o vídeo lá em casa gravando para a família e para a posteridade. Contudo, a 2ª parte do programa televisivo foi perfeitamente surrealista: nela participaram três jornalistas: Maria João Avilez, Bettencourt Rodrigues e Vicente Jorge Silva. Aquilo foi um fartar vilanagem a desancar no Álvaro Cunhal, a propósito e, sobretudo, a despropósito, com especial relevo para os dois últimos e alguma moderação da Joãozino Avilez. Uma autêntica masturbação, daquelas que se admitem lá em casa ou à mesa do café, em roda de família e amigos, mas não para massacrar os telespectadores.
E, neste ponto da leitura, imagino te a murmurar: mas que raio de carta, ainda não me chamou amorzinho uma vez que fosse ou me disse que tinha saudadinhas minhas ou me mandou beijinhos. Pois é ! ...
Levanto me, fecho a janela da sala e as correntes de ar diminuem, embora continue a entediante batida de portas e janelas. Continuo cansado, dói me a garganta, que parece estar por dentro aos folhos, e tenho o nariz semi entupido. Levanto me novamente e vou pôr a água a aquecer para tomar o antibiótico. Não no micro ondas mas sim no fogão a gás, porque o micro ondas começou a fazer um ruído estranho e resolvi pô lo fora de serviço. Não imaginas a falta que faz. É como se de repente deixássemos de ter electricidade e passássemos a ser alumiados com luz de vela ou candeia. Uma seca! A propósito, embora elegantes, as chávenas brancas que comprei contigo para substituir as que se foram partindo têm pouca estabilidade e são fáceis de entornar quando postas aqui em cima da mesa onde trabalho, no meio de livros e papéis; é preciso mais cuidado. Por vexes não se pode ter tudo: ou estabilidade, ou elegância!
Recebi três postais teus, havendo um quarto em Paço de Arcos, devendo amanhã chegar outro lá abaixo à caixa do correio. Como nos telefonamos, mais propriamente sou eu que o faço, por escrito poucas novidades temos a dar. Ainda bem que os postais apareceram todos. E ainda bem que, datados por ti de 4 e 5 de Novembro, ostentam ambos os envelopes carimbos do dia 13 (treze) do mesmo mês, embora recebidos por mim em dias seguidos. Azar teu, que eu tinha razão ao dizer que devia ser problema dos correios, azar teu, porque não foram os meus filhos que lhes haviam dado sumiço, como era a tua verdade.
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Azar meu porque, embalado nesta conversa, bebi o café sem tomar o antibiótico, o que se remedeia com o resto da água quente que ficou na cafeteirinha e que previdentemente não havia despejado no lava louças! Resolvido este incidente, prossigamos.
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ADENDA
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Victor Nogueira
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Victor Nogueira
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Olá, Capuchinho Vermelho
O tempo está frio e cinzento, como aliás sucede desde a nossa chegada. No entanto, ao contrário dos dias anteriores, o sol ainda não deu um arzinho da sua graça. Daqui da janela da sala avisto as couves enormes que crescem no quintal e, mais além, os campos verdejantes e, ao fundo, uma mata [um renque] de árvores cujo nome desconheço.
O Pelágio com a Anda Cabeça no Ar e a Natasha vêm televisão na sala da frente enquanto a minha mãe dorme no quarto dela. Ainda não fui á praia (o tempo não ajuda, embora esteja cheia de gente) nem dei nenhum dos meus passeios. É difícil fazer andar uma "carruagem" com tantas locomotivas, cada um com seu gosto e hora de levantar. Gostaria que tivesses vindo, para passearmos por estas bandas.
Não gosto muito de escrever á mão, porque tenho de fazê-lo lentamente para ver se percebem a minha letra hieroglífica, o que nem sempre sucede. E tu, tens conseguido decifrar o que tenho escrito?
A tua carta levou quase uma semana a chegar! Recebi-a no dia em que chegámos, após uma viagem não muito tormentosa.
O que nela expressas poderia em grande parte ser dito por mim, embora possivelmente eu o fizesse doutro modo.
Bem, faz me falta o computador; mas não quis deixar de dar-te um arzinho da minha graça, para que não penses que me esqueci de ti.
Beijo te com amizade e ternura.
Algures à Beira Rio Ave, 94.08.21
VM
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Victor Nogueira
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Se isto é, pela tua parte, a expressão de compreensão, amizade, amor e desejo de paz, então, Capuchinho Vermelho, eu vou ali e já não volto.
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Como escrevi atrás, como amigo e apenas nesta qualidade posso tentar perceber e "desculpar" os teus ciúmes descabidos, os teus sentimentos possessivos, o teu mau relacionamento com os meus filhos, a tua "submissão" de mãe galinha para com os teus. Mas nem aos amigos e muito menos á minha companheira desculpo o cinismo, a mentira, a falsidade, o engano premeditado. Porque nada de sólido e perene se fundamenta no lodo destas atitudes.
.Ao contrário do que combinaras, não me telefonaste no dia seguinte, após o teu pretenso "regresso" de Leiria. Por um lado era natural que me falasses da tua "viagem" e por outro deixaste-me preocupado com o teu silêncio, porque foras viajar e com uma pessoa desconhecida e poderia ter acontecido algum precalço ou acidente. Mas entendi também que resolveras cortar comigo (1) e até admiti que te tivesse deixado numa casa e logo tivesses partido para outra. Um facto é certo: nunca procederia contigo como tu procedeste para comigo, porque apesar de tudo, Capuchinho Vermelho, não és para mim uma pessoa qualquer.
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1 - Como atrás disse, esta carta tem sido escrita ao escorrer do tempo e numa conversa entretanto havida confirmaste a primeira destas minhas suposições.
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As pessoas não devem ser possessivas. Cada um de nós tem as suas qualidades e os seus defeitos, que se ajustam ou não. Não podemos é pensar que cada um de nós preenche todas as expectativas e todos os requisitos. Uma panela de pressão sem válvula de segurança é potencialmente explosiva e destrutiva. Uma coisa é as pessoas compartilharem aquilo que é comum, outra é quererem "policiar" tudo, com exigências exclusivistas. Num casal, o exigível, para mim, é a lealdade, a verdade, a confiança, respeito e solidariedade mútuas, a cooperação. E além disso deve deixar-se a cada um a liberdade das suas recordações, da sua memória, dos seus (outros) afectos e simpatias. Há um tempo e um lugar para tudo e para todos na vida, que para mim tu tens matado ao longo destes anos, com os teus ciúmes descabidos, os teus destemperos, as tuas exigências de exclusivismo e posse, os teus "mistérios". Não "ando" com esta e com aquela! Não ando pois a saltitar entre ti e as outras ou "aproveitando" as ocasiões". Estou contigo e com mais ninguém enquanto estiver contigo e não te disser o contrário. Mas tu não entendes isto. Não concluas daí que eu sou o bom e tu a má da fita. O que sucede é que não nos temos ajustado e cada um de nós não tem correspondido ás expectativas que trazia em si relativamente ao outro
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Victor Nogueira
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