Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sábado, 31 de agosto de 2024

Largo do Padrão, no Porto, em 2016.12.04

 


* Victor Nogueira

31 de agosto de 2019  · 

foto victor nogueira . Largo do Padrão, no Porto, em 2016.12.04.. Na Rua de Santo Ildefonso trabalhava o meu avô Luís, como químico-analista, que morou  nas cercanias, sucessivamente nas Ruas de Santos Pousada e de Fernandes Tomás. Neste Largo do Padrão, perto do Jardim de S. Lázaro, do Campo 24 de Agosto e da Praça dos Poveiros, ficavam o café onde íamos e a tabacaria onde comprávamos os jornais., na altura da foto há muito encerrados.

Mindelo - a mini-horta.

 


* Victor Nogueira 

31 de agosto de 2016  · 

Colheram-se batatas e há couves, incluindo repolhos. O feijão verde não deu vagens e  apenas descortino duas abóboras medrando a medo. A oliveira resistiu ao transplante mas precisa de ser podada, pois tem ramos a saírem do caule como se fossem matagal; apenas terá dado azeitonas no 1º ano, mas nessa altura eu estava ausente. A tangerineira e o limoeiro vão crescendo, ainda sem frutos. Para os temperos há hortelã e salsa..

No tempo em que o meu avô Barroso era vivo - um homem que na cidade nunca perdeu o apego ao campo - no quintal desta que era a sua casa de verão  e no terreno anexo que era do meu tio e o meu pai vendeu cultivava hortaliça, batatas e cebolas que após a colheita armazenava no sótão da Rua dos Bragas, no Porto,  para consumo durante o ano.

Nesse tempo isto era campo e não uma rua agora completamente ladeada de moradias. Havia apenas quatro casas no terreno loteado pelo senhor Marcelino, que não conheci. Não havia água canalizada nem saneamento  público. Cada casa tinha fossa séptica e um poço donde se extraía a água para a rega e para uso doméstico. Hoje, finalmente  e ao fim de décadas a Câmara de Vila do Conde lá acabou por concluir as redes públicas  de saneamento e de abastecimento de água, servindo o poço apenas para rega.

O silêncio já não é total como há 40 anos, agora quebrado pelo rodado dos automóveis na rua empedrada e pelo movimento dos aviões do aeroporto das Pedras Rubras, em Matosinhos.

1969 - A casa que o avô Barroso está construindo no Mindelo encontra‑se numa fase adiantada e é interessante. Tem janelas amplas, uma paisagem encantadora (enquanto não construírem mais casas), quatro salas [assoalhadas], casa de banho e cozinha, além de poço. Alguns pormenores poderiam ter sido melhor solucionados, a meu ver, mas cada cabeça cada sentença. (NSF - 1969.10.17)

Hoje fomos ( [...], o José João, o Zé e o avô Barroso) ao Mindelo ver a casa que este está lá a construir, [...] airosa. (NSF - 1969.12.31)

1970 - Estive na casa do Mindelo que me agradou. Está mobilada com bom gosto. (NSF - 1970.12.25)

1973 - Gostaria de passar as férias sossegadas, calmamente lendo e estudando, com um mergulho nas ondas e passeios ao entardecer em amena cavaqueira com os amigos ou com as pessoas da terra. O meu avô Barroso tem uma casa no Mindelo, onde há uma praia rochosa que me deslumbra pela violência com que as ondas batem na rocha em cascatas de espuma que salpicam o rosto. Ou então aquele moinho [azenha] que eu visitei ao inquirir dois velhotes, lá para os lados de Arraiolos. Gostava de passar as férias, p.ex., num sítio assim. (MCG - 1973.08.02)


foto victor nogueira - mindelo - a mini-horta. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Eu desta escapei.

 


* Victor Nogueira

30 de agosto de 2016  · 

ESCRITO EM 2012.07.08 - Eu desta escapei. Ficaram os efeitos secundários da radioterapia, mas espero dar conta deles. Um dia de cada vez! 

As tuas parecem as minhas viagens de estudante de Évora para Paço de Arcos: autocarro, barco e comboio. A minha tia-avó morava em Paço de Arcos. Em Portugal a minha morada oficial era em Paço de Arcos e não Évora, para ter passe de estudante e em Luanda para ter descontos no avião quando ia de Férias Grandes por intermédio da Procuradoria dos Estudantes Ultramarinos, um organismo governamental que sucedeu à Casa dos Estudantes do Império, extinta pela Polícia Política sob acusação de desenvolver actividades subversivas. Para além das caminhadas a pé, dizia então na brincadeira que só me faltava andar de avião entre Évora e Paço de Arcos. Naquela altura era moço e muitas vezes parava em Setúbal para visitar pessoas amigas. Aquele foi o tempo em que tinha montes de amigos e amigas. Era o tempo em que ainda acreditava nas pessoas. Agora é tudo cinzento, temeroso, cheio de medos, cada um por si. Muitas pessoas apesar do 25 de Abril não superaram séculos de Inquisição, Pinas Maniques e Polícias Políticas. Nas redes sociais as amizades são virtuais e não poucas vezes  cheias de "medos" e de "temores" e de "prisões" quando não dos olhos e das vozes e das comadres e da vizinhança. Há por vezes muita encenação, para lá das aparências. E na vida real é cada um por si. Setúbal é uma terra tramada. Se soubesse que Setúbal era assim nunca teria ficado aqui. As desilusões resultam das ilusões.

ESCRITO EM 2012.07.20 - Estou triste e comovo-me ao reler cartas ou poemas que escrevi. Muito daquilo em que acreditei foi um fracasso: o casamento, a marginalização por aquelas que se "venderam" e traíram os ideais que dizem defender, acomodados às mordomias do capitalismo e as migalhas que lhe caiem nas mãos.

ESCRITO EM 2012.08.18 – Ninguém trata de mim. Trato eu de mim, dos meus pais e às vezes do meu neto. Mas por causa da gastro não fui ao Mindelo com a minha filha, o Sérgio e o Cisco. Nem hoje ao Zoo de Lisboa com o Cisco, o Rui e a Ana Sofia. Mas talvez esteja a melhorar das sequelas.

ESCRITO EM 2013,02.08 – Em Angola nós tínhamos de estudar exaustivamente uma realidade que não ara a nossa e um Pais – Portugal – que a muitos de nós nada dizia. No 7º ano do Liceu em Luanda defendíamos abertamente a independência de Angola nalgumas aulas Até o meu pai já era angolano. entre a ida em 1944 e o regresso, em 1975, apenas esteve cá poucos dias no Natal de 1974.

ESCRITO EM 2013.06.16 - Estou em casa da minha tia, com inércia para sair e sozinhito, mas ainda cá estarei até 3ª se não voltar antes para Setúbal. A minha tia Lili não leva a mal que leve pessoas amigas para amoçarmos com ela. Aliás  já nos meus tempos de estudante levava colegas meus para almoçarem, que ela assim conheceu e por quem me pergunta por vezes. Sou o ajuizado sobrinho querido com quem ela andou ao colo em Luanda ...

ESCRITO EM 2013.06.26 - Eu nunca te comento ! Logo sou dos maus segundo uma que reclamava do que escrevi há pouco

“Olha, se estou na lista das exclusões, paciência Não é por tão pouco que te excluo e aqui é quase tudo efémero, a vida real, quotidiana, essa é que conta: a mão, a voz, o sorriso, a gargalhada cristalina, as lágrimas de verdade, o brilho no olhar, o suave perfume ... “   

“Dizem que os livros são os nossos melhores e maiores amigos. Mas os livros não se sentam  nossa beira, nem têm olhos, nem sorriem nem nos abraçam, nem connosco passeiam pela rua, pelo campo. Nada podemos dar aos livros senão as letras dos nossos pensamentos ou um pouco de nós para que chegue aos outros.” Os livros têm os olhos que nós temos. E os seus lábios são os nossos lábios. Porque se os livros tivessem olhos e lábios e mãos e dedos seriam talvez pessoas, mas nunca livros. Victor Nogueira (1969) em évoraburgomedieval»

ESCRITO EM 2013,06.27 - Estou de greve, i.e., solidário com ela. Hoje não fiz compras, nem mesmo o Avante. Fi-las ontem.

Já tinha amizades noutras redes sociais como o msn, o hi5 ou dos chats no mIRC. Ou dos blogs. Muitas estão no FB. E depois os camaradas e antigas amizades e colegas, que nos vamos descobrindo mutuamente. Dizem-me que há quem me queira conhecer pessoalmente - até no Brasil - devido ao que escrevo - e nada de especial escrevo. Algumas d "elas", após conhecerem o escriba em carne e osso, zarpam a grande velocidade e não regressam. Devem imaginar um príncipe de olhos azuis, atlético, louro e sai-lhes este

Com nariz grande, olhar estrelado, 

Baixo, cabelo negro, ondulado, 

Magro, moreno, mui desajeitado, 

Nada ou p'la vida sempre perdoado.~


Buscando amizade, mau achado, 

Agindo calma ou mui despeitado, 

O êxito logrou, mal torneado, 

Com persistência e pouco alegrado.


Tolerante, mas não libertário, 

Conduzindo, longe da multidão, 

Na vida procurando liberdade.


Em tudo mal, buscando seu contrário, 

Com ar sério ou risonha feição, 

Mal sente, co'a razão, felicidade.

1989.09.10 – Setúbal

Perguntam-me que lhes faço. Que lhes faço ? Se calhar a pergunta certa seria "que quereriam ou esperariam elas que eu lhes fizesse" ?

Há muito que em Setúbal não vou ao Mercado do Livramento. Salvo Ah! na verdade fui muitas vezes, quando havia greves, para  a difícil tarefa de convencer os comerciantes a aderirem ou participando nos  piquetes de greve.

Em conversa com ... (5) TODO O MUNDO e NINGUÉM DECLARAÇÃO

Maria do Mar, Maria Papoila, Maria dos Mil Sóis Rendilhados, Maria Vai com as Outras, Niña do Beco dos Passarinhos, Joana Princesa com Sabor a Cravo e Canela ou Princesa do Meio Caminho Andado, Princesa (Simplesmente), Fatma das Caldas, Fátma da Ilhoa da Floresta Queimada, Gaivotinha, Raposinha, Madre Abadessa Diabinho Diabeza, Musa d'Ante, Luciferazinha, Diabrete, Nlña de Aguiar e Belmonte, Joana da Côr do Trigo em Flor ou Joana Ratinho são personagens talvez verdadeiros mas com nomes inventados. João Bimbelo, João Baptista Cansado da Guerra ou o Conde Niño são personagens e como tal não existem. Se existissem, então eles não estariam de parabéns por qualquer delas. Mas elas, talvez os merecesssem, apesar de inventadas pelo escriba, a quem teriam deixado para trás 🙂 . Talvez porque o escriba, embora malabarista do verbo bordejando a chama, pouco valor teria nas histórias que inventava com a liberdade, engenho e arte que a todos os escribas é permitido. .

Victor Nogueira aka Kant_O_XimPi.Manog .

PS – Mais declara o escriba que não costuma ficar a chorar pelo leite derramado e do passado procura reter apenas aquilo em que foi feliz. O resto, o resto são «estórias», como agora se diz.


Foto victor nogueira Aldraba ou batente numa porta

Publicada por Victor Nogueira à(s) Domingo, Dezembro 09, 2007

Contigo de poucas palavras se tece o amor

 


* Victor Nogueira

 30 de agosto de 2016  · 

1. - Contigo de poucas palavras se tece o amor contigo saio sem receio contigo durmo sem tormento contigo passeio sem desmaio contigo vivo em pensamento contigo sou ... e não estou ! Setúbal 2013.09.13

2. - É de madrugada, deu-me a espertina e a vontade de rasgar tudo e partir para longe porque apesar do meu desejo não consigo descansar em ti o meu cansaço e se isto e o que escrevo é verdade ou efabulação, só eu veramente e de verdade o sei ! 

Com o mote "veramente" e seus múltiplos significados o artesão das palavras poderia escrever um romance. Mas como as palavras que se ficam pela ausência ou negação dos gestos meus e/ou de outrem nada valem e são um rio sem retorno, arrumo a caneta no bolso, sem usar nem a "pena" nem a "pluma", porque então o romance não teria fim.

Tenho saudades de ti, da tua presença, da tua companhia, da tua voz, do teu sorriso e também tenho saudades da ternura que há em ti.

foto victor nogueira - pôr-do sol no Estuário do Sado

40 anos separam estas duas fotos

 

* Victor Nogueira

30 de agosto de 2022  · 

40 anos separam estas duas fotos, notando-se algumas diferenças assinaláveis. Goios é a freguesia onde nasceu o meu avô materno, António dos Santos Barroso, a poucos quilómetros de Barcelos.  A minha avó Francisca, essa era de Chaves, na raia transmontana.

A Rua de Santa Maria, que vai dar ao cemitério e á Igreja Paroquial de N. Senhora do Ó, atravessa uma ribeira, cujo nome desconheço. 

Neste local funcionou uma azenha e localizava-se a escola primária, já demolida, onde o meu avô tirou a 4ª classe, antes de rumar para o Porto para frequentar a escola comercial. Terminado o curso. passou a trabalhar como guarda-livros (contabilista) na  filial do Porto do Banco Nacional Ultramarino, na Praça da Liberdade, hoje designada como do General Humberto Delgado.

Ao fundo a chamada Casa dos Vitorino, lavradores, que foi dos meus bisavós maternos. 


Fotos MENS e VN -  Goios (Barcelos) - ponte sobra a ribeira, na Rua de Santa Maria (EN 306 - 1) 

As fotos são de 1974 e 2014.

Incêndio na A1, em 2023

 * Victor Nogueira


De Santarém a Vila do Conde o ar estava vermelho acastanhado devido à fuligem dos incêndios, que para leste das rodovias eram núvens de fumo branco. Numa parte do percurso o trânsito estava vedado, obrigando os automobilistas a vaguearem por estradas secundárias, mal sinalizadas. Valeu-nos o GPS e a orientação solar. para conseguirmos reentrar na A1. A tarde estava excepcionalmente quente, a roupa ensopada e o corpo coberto de gotículas de suor, que pegajosamente se colavam à pele, quais sanguessugas. (20 de agosto de 2023)

Foto victor nogueira (IMG_2774 2023 08 07) - Incêndios e pôr do sol, na área de serviço de Pombal (A1)


21 de agosto de 2023 
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Os incêndios na zona centro de Portugal levaram ao corte e desvio do trânsito na A1, obrigando a circular por estradas secundárias e povoações, muitas delas para mim desconhecidas,, entre Santarém e Leiria. Uma das povoações que atravessámos foi Fátima, onde capturei, de passagem, esta imagem.

Foto victor nogueira (IMG_2728 2023 08 07) - Peregrinos em Fátima.


 
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Foto victor nogueira (IMG_2740 2023 08 07) Desviado o transito por causa dos incêndios, da A1 para estradas secundárias, para oeste o céu estava vermelho acastanhado, com o sol coado pela fuligem. Para leste, no cinzento, sob o astro-mudo, destacavam-se as núvens brancas resultantes doutros fogos florestais. O dia, esse, foi de calor opressivo, o corpo e o vestuário encharcados pelo suor, em bátegas miudinhas e constantes.


29 de agosto de 2023 
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Captura de imagens por victor nogueira (2023 08 07 MVI_2758_Moment) - GNR-BT e Brisa: desviando o tr


 
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Foto victor nogueira (2023 08 07 IMG_2733) - Atmosfera fuliginosa em tarde de incêndios florestais ao longo da A1ânsito da A1 para estradas secundárias, por causa dos incêndios.

Praxes académicas no Salvador Correia, em Luanda

 


Emanuel TeixeiraSALVADOR CORREIA - HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

Enquanto lugar de memória - Praxe Académica
  • Victor Nogueira
Naqueles longínquos tempos não havia Universidades nas colónias portuguesas, que só foram criadas na década seguinte, após o início da guerra colonial, para uns, de libertação, para outros, como o MPLA, a FRELIMO ou o PAIGC.
Nesses tempos quem pretendesse seguir estudos superiores, universitários, existentes apenas na Metrópole, i.e., em Portugal Continental, teria de dispor de meios financeiros que o possibilitasse. Naturalmente, isto não estava ao alcance senão duma escassa minoria branca e duma escassíma maioria negra.
O Liceu Salvador Correia, em Luanda, nos idos dos anos '50, era o patamar máximo que se podia alcançar, onde havia praxes como as da Universidade de Coimbra, com tonsuras aos caloiros no 1º dia de aulas, carolos na carecada, "veteranos" (do último ano) trajando alguns negra capa, veteranos esses que poderiam "benevolentemente" proteger algum caloiro, que deste modo se tornava intocável. A malta era uma elite, que vendo alguma miúda engraçada acompanhada por alguém que não fosse do Liceu clamava "Larga o osso, que não é teu. é da malta do Liceu!"
No final do ano havia arruadas em frente ao Liceu, que por vezes terminavam com intervenção policial. Numa destas houve estudantes levados para a esquadra, com o filho do Governador-Geral de Angola a reclamar , em vão, essa condição, com o polícia a responder-lhe "E eu sou filho do Presidente da República". Creio que dessa vez e para a malta em apuros a ordem de soltura terá sido mais rápida.

entre eros e afrodite - 04 (a re-colecta dedilhada)



* Victor Nogueira

como não sei os caminhos das penedias e se são ou não acetinados como não ouço o murmúrio da brisa nos desfiladeiros serei em meus sonos cega e surda sem luz mergulhada nas trevas dos pesadelos pesados e sobressaltantes um dia que nos encontremos fecharei os olhos e com os nossos dedos e lábios traçarás o mapa de mim devidamente cartografado bem se calhar levarás uma lamparina que te fará ver as estrelas olha o abusador direi pimba, lamparina para te abrir os olhos ou abro os olhos e tudo será escuridão salvo as estrelas do teu olhar ou será uma metáfora porque os teus olhos são por vezes raios relampejantes não cintilantes  será apenas um jogo floral  ?  dardos setas, não de cupido ou vénus, mas de marte ?

só amanhã saberás os meus pensamentos até lá terás de contentar-te com os sonhos que sonho em ti. Tal como eu. Enquanto sonho, toda eu sou uma ave em ti, ave alvoraçada mas estrangulada nas tuas mãos, nas quais procuro a nossa liberdade

 

ele delira

e na pira

com a lira

suspira

 

com a pira

ateia

incendeia

preso na teia

setúbal 2013.08.28

~~~~~~~~~~

sem dó

 

sem dó

com poeira da jeira

na leira te cubro e descubro

com lazeira

a piteira

 setúbal 2013.08.25

 ~~~~~~~~~~

na leitura de ti

 

na leitura de ti

é dos deuses o manjar

bem picante e sonante

 

e eu

pobre escriba

sem fibra

na lira

esturrico

qual mafarrico

 setúbal 2013.08.25

  ~~~~~~~~~~

alinharei as letras

 

alinharei as letras

linha a linha

alinhavadas

sem tretas

 

nota a nota

a pauta

bem janota

 

- entoarei pela porta

tu à janela

singela

 

a mesa posta

com presteza

e gentileza

  Setúbal 2013 08 25

 ~~~~~~~~~~

 passo a passo

 

passo a passo

no paço

a espaço

passo o tempo

 

passa grainha

sem modinha

nem vinha

 

vou

não estou

 

virei

pé ante pé

 setúbal 2013.08.25

 ~~~~~~~~~

não sei qual é de ti o sabor

 

não sei qual é de ti o sabor

a paleta da cor

o aconchego do calor

 

de ti sei apenas a neblina

longe da oficina 

oh Céus

coberta de véus !

 

de linho te cobres

e não descobres

o leito

refeito

 

o rio

frio e seco

onde o norte

a ode 

 

piano-forte ?

 setúbal 2013.08.25

 ~~~~~~~~~~

Flor do Mar

 

entre eros e afrodite

................a via láctea

................duas lanternas cintilantes

e o beijo

bem vejo

a serpente serpenteante entrelaçada

estrangulada

...................entre a vida e a morte

 

na planura

duas colinas

........entreaberto o pico

........rosado e fremente do seio

o vale-desfiladeiro

 

na leveza da pele

............moreno vale

o prado-bosque

............da seara em flor

a rosada cisterna

ósculo

óculo

bainha de  veludo

onde nos perdemos

e re-encontramos

a nau à bolina

de onda em onda

o fragor silente do desejo

explodindo

 

em cem mil lucernas

 setúbal 2013.08.25

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quem vai ao mar

 

Tanto que ela parvamente gosta dele e por ele em vão espera mas com todos os seus passos/passes de dança ainda não me convenci se mulher sou para olhos nos olhos lhe dizer que o amo.

«Se me refiro a ti, não sei como, pk ou és inamovível como uma rocha, ou serpenteante como uma enguia». [perante esta provocação] levanta-se o mocinho inopinadamente a cadeira da esplanada atirada para trás um ar inquisitorial no olhar brilhante a mão esquerda na anca o indicador direito como gatilho apontado ao seu coração a voz imperativa: RESPONDE

Seria fácil responder se estivéssemos à beira-rio numa esplanada. Ele tem sempre uma fuga. [E em sonhos] meu deus que romântico eu na cama e ele desvendando-me aqui um bocadinhdo do lençol além uma entreaberta no pijama depois os dedos como pardalito desenhando o seu contorno dela.

O segredo e a arte estão na descoberta gradual. É muito mais sedutor na primavera uma camisa ou blusa entreabertas deixando ver um bocadinho do seio do que uma garina logo de supetão toda sem roupa na praia do meco. Convidas-me ? ts ts bem morrerei de fome faminta. Mas o meu véu para ti é estilo do eça ou estilo mata-hari? Podes fotografar-me de véu? Mas não de laranjeira. 

29 de agosto de 2013

Foto Victor Nogueira


"Sob o manto diáfano da fantasia a nudez forte da verdade" - Lisboa (Largo do Quintela) - pormenor da estátua a eça de queirós, inaugurada em 1803, da autoria do escultor Teixeira Lopes  

Lisboa queirosiana: a estátua de Eça e sua musa - Autor(a) Ana Ferreira  in http://olhares.sapo.pt/lisboa-queirosiana-a-estatua-de-eca-e-sua-musa-foto5367096.html

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Margarida Piloto Garcia - O estranho encantamento do quente Agosto. O delírio feito ave, sereia, corcel alazão, principe encantado, mata hari em véus ou maja desnuda. Um prazer para os olhos que te leem. 11 anos

Maria Jorgete Teixeira - Não sei como comentar esta profusão de sentires, este jogo de palavras, ora em tom coloquial, ora num registo mais cuidado, sempre resvalando para a ironia que é a forma de dizermos as coisas cuidando que não parecem tão pesadas, mas não, conhecendo a tua escrita sabe-se que é uma fuga onde o "eu" se esconde...um "eu " poético que por vezes aparece no feminino, numa tentativa de descobrir o que vai do outro lado...

Um prazer para os olhos como diz a Margarida. Há muitas coisas que se intitulam de poesia, mas não passam de um empilhar de palavras, metáforas, algumas até bem conseguidas. O que tu escreves é poesia, Victor, da boa! Bj 11 anos

Graça Maria Teixeira Pinto - Mordaz, irónico, terno.Que mais posso eu dizer depois destas duas poetizas que sabem e comentam melhor do que eu: Gostei muito, Victor Nogueira! 11 anos

Ana Wiesenberger - Talvez a mensagem mais organizada em partes distintas fosse mais acessível a uma leitura atenta. Quem sou eu para te dizer isto? Cada um tem o seu registo, o seu estilo. 11 anos

Victor Barroso Nogueira - Queres explicitar/exemplificar, Ana Wiesenberger ? A meu ver estão lá 3 partes - uma introdução-final em prosa,, uma parte sem métrca a que chamaria poética e uma 3ª final-introdução, de acordo com as datas da escrita, anotadas em cada "pedaço", como se fora um contínuo incessantemente recomeçado. Sem esquecer a foto das ervas no telhado. Ah! Mas a recolecta não contém qualquer mensagem, não foi essa a intenção do autor: são meros registos que se sucederam no tempo, em agosto, entre os dias 23 e 29 11 anos

Maria Lisete Almeida - Bem haja pela partilha destas verdadeiras pérolas. Abraço Amigo. 11 anos s

Graça Maria Teixeira Pinto - P.S. Eu escrevi "poetisas",mas o FB anotou erro.Francamente, já ando baralhada.E fico na minha: Acho que é mesmo "poetisas".(Cá está o sinal vermelho....🙁 11 anos

Carlos Rodrigues ~Inspiração na verdade crua e nua do Eça, com variações Vitorianas, Muito bom. Obrigado, Victor. 11 ano s