Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sábado, 4 de novembro de 2017

em Setúbal o café/pastelaria/Bandarra



foto victor nogueira -

em Setúbal o café/pastelaria/Bandarra, sem as profecias de Trancoso, ali no cimo das escarpas de S. Nicolau, paredes meias com o Jardim Camilo Castelo Branco, pela encosta acima ou abaixo, a cidade, o Estuário do Sado, a Serra da Arrábida e a Península de Tróia, a das ruínas da romana Cetóbriga, a seus pés ou no horizonte.

As empregadas são simpáticas e atenciosas e os bolos apetecíveis. Com alguma sorte encontram-me por lá, a ler um livro ou cavaqueando. Desde qur acertem no horário. Mas o melhor é não virem à aventura, apenas por minha causa. Podem não me encontrar.

os primeiros poemas - 02


Por Victor Nogueira a Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013 às 10:04
* Victor Barroso Nogueira

CENAS DO JARDIM
A vida
Anémona do Mar
  
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1969

04

CENAS DO JARDIM


Foto Victor Nogueira - Évora - coreto no jardim público - comício de Octávio Pato - candidatura à Presidência da República - 1976


No Jardim Público de Évora - foto MENS (1973)


1. Era um jardim
geometricamente desconfortável
artificial
No coreto
a banda tocava.
Além
caridosamente
alguém partilhava com os "jardineantes"
as goelas do transístor escancaradas
No banco
ao meu lado
uma matrona e uma gaiata conversam
banalmente,
"Puxa a mala um bocadinho mais para baixo.
Isso! Assim!
Para que te não vejam as pernas"
E eu sorrio-me
por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política"
Pobres e ridículas gaiatas!
Pobres e ridículas matronas!

2. Era um miúdo esfarrapado
sujo
de rosto envelhecido,
Aproxima-se do guarda, mas o dinheiro não chega.
Mas o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar.

O miúdo envelhecido corre,
Para,
Hesita!
Os olhos sorriem no rosto sujo,
Balancé? Carrocel? Escorrega? Ou avião?
Não poder ele desdobrar-se!
Corre, sobe, escorrega
o mundo é dele

Agarra-lo.
Sobe, desliza, corre, sobe, desliza
sobe; desliza, corre, sobe, desliza
contorce-se

"MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!"

As avózinhas contorcem os lábios
num rictus de desprezo
os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios.
Ele hesita.
Baloiça, baloiça, baloiça!
Roda, roda, roda,
sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre!
contorce-se, baloiça, roda
Olhos brilhantes cheios de felicidade!
Um velho num corpo de criança
pequena para a roupa suja
esfarrapada!

As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo
Os meninos, esses apedrejam com a língua
e crucificam com os lábios
Velhas envelhecidas
Garotos moribundos

e uma criança num pequeno corpo de velho!


Évora 1969.Fevereiro.24
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05

A vida 

  
Sousel  1969.Fevereiro.28
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06

Anémona do Mar
.
De um punhado
de branca areia salgada
fez-se
verde madeiro
.........................vogando
........................................ao sabor da corrente
na esteira de todos os sorrisos
De ilha em ilha
castelos no ar
que a chuva........gota .......a ........gota
.........................construiu
e o sol dispersou
.
.
Évora/Sousel 1969 Fevereiro 28


CENAS DO JARDIM
Muitas vezes ia ler ou estudar para o Jardim Público em Évora e estes dois textos aqui agrupados são fruto dum olhar crítico sobre o que me rodeava e que eu - entre uma e outra página - observava. O coreto e a mata ficavam na parte de cima do jardim e na parte de baixo do mesmo, perto da Praça de Touros, eram o Parque Infantil e o Campo de Mini-Golfe. Naquele tempo as crianças tinham de pagar a entrada para poderem usufruir dos aparelhos do Parque Infantil.
Anos mais tarde, talvez em 1973, sentados num banco deste mesmo Jardim Público,dei um inocente e fugaz beijo à minha namorada e logo senti a varinha do guarda batendo-me no ombro e avisando que "poucas-vergonhas" daquelas não eram permitidas.
A vida
Neste ano passei o Carnaval na casa da Noémia, em Sousel, um casarão que remontava aos tempos do Senhor D. Manuel I, para grande incómodo da mãe dela, a D. Cacilda, que sempre me olhou de lado. Foi dessa vez em Sousel que "nasceram" este texto despojado e a "Anémona do Mar". Anos mais tarde essa casa surge num outro texto meu. Nesse tempo, as "mães" e não só eram "zeladoras"  e policiavam o que entendiam dever ser a moral, a honra e os bons costumes das filhas solteiras, tivessem a idade que tivessem, mesmo que trabalhassem e fossem economicamente independentes da família. Depois de casadas esse policiamento passava para os respectivos maridos e para as vizinhas ou comadres.
Anémona do Mar
Este pretende ser um auto-retrato.
Texto reelaborado em 2017.11.04

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Luís de Sttau Monteiro - Angústia para o jantar


sábado, janeiro 17, 2004
ANGÚSTIA PARA O JANTAR - Luís de Sttau Monteiro


«Nunca vi nada que não fosse lógico. Tudo tem uma lógica, muito embora esteja por vezes escondida. É a isso que chamamos o segredo das coisas. O que distingue os homens lúcidos dos inconscientes é que os primeiros procuram descobrir a lógica das coisas, ao passo que os segundos julgam que as coisas surgem por si próprias e procuram, não a sua lógica, mas a sua rima.» p.24 

«Gonçalo entrara um dia, à hora do almoço, em casa do porteiro dum dos seus prédios. A família estava reunida em torno da mesa. A mãe e os filhos comiam batatas fritas e o pai o único bife. Fora-lhe impossível não comentar. 
- Então a carne é toda para si, João? 
A mulher saltara logo a defender a casa portuguesa: 
- Carne é para quem trabalha, Sr. Doutor. 
O porteiro passara a manhã sentado numa poltrona, no átrio do prédio, lendo O Século, enquanto a mulher varrera a escada, limpara a casa, cozinhara e olhara pelas crianças. 
- Parece-me que a Maria é quem mais trabalha nesta casa... 
O porteiro, de pé, com o guardanapo na mão, esclarecera a situação: 
- O marido sou eu, Sr. Doutor.» p.29,30 

«- A cidade, vista à noite, é estranha. Já pensou no que farão em casa todos esses tipos que a gente vê na rua, com emblemas do Benfica na lapela? Uns emblemas feitos de pedrinhas? 
- Sou um deles. 
- É? E que faz você à noite, em casa? 
Hoje era capaz de responder. À noite, em casa, repetimos o que fizemos durante o dia: nada. À noite, em casa, continuamos a esperar pela morte e, quando ela se aproxima, compreendemos que devíamos ter feito mais qualquer coisa.» p.144 

 "Angústia para o Jantar", de Luís de Sttau Monteiro, areal editores, Outubro 2002, 205p., pvp.13€ 

Estas são personagens que vivem diariamente com o medo: da morte e da vida adiada, de que os 2500$00 não cheguem até ao fim do mês, que a fortuna e o estatuto já não passem para a geração seguinte, que a primeira vez nunca mais volte a acontecer. Isto num cenário em que todas as posições estão bem definidas, patrões e empregados, senhoras e pegas, em que a palavra “revolução” das conversas da malta tinha um sentido diferente do que lhe conhecemos hoje. 

Ao lermos esta obra, não é de espantar que Luís de Sttau Monteiro tenha sido várias vezes preso pela PIDE. Não há sequer referências directas ao regime político de então: é um “Isto já não chega aos nossos filhos...” que se lê aí e se sente em todo o livro. No fundo, “quem vence as batalhas é quem está dentro do seu tempo”. 

Um grande bem-haja a quem me sugeriu a sua leitura. Angústia para o Jantar é uma das primeiras obras do extenso legado que Luís de Sttau Monteiro nos deixou. 

«Levantou-se, deu a volta ao sofá e aproximou-se da janela. Lá fora a chuva parara. Por entre uma aberta nas nuvens via-se o Sol, um Sol da cor do aço frio, e indiferente. Durante uns momentos, telhados molhados reflectiram a luz acinzentada do fim do dia. Depois, subitamente, as nuvens juntaram-se e recomeçou a chover. Lá em baixo, na rua escura e suja, passaram dois cães a correr, e ao fundo, à esquina, surgiram uns vultos curvados que logo desapareceram pela porta da taberna. 

Teresa voltou a sentar-se. Parecia-lhe que acabara de ver o futuro. A rua escura e suja, a luz acinzentada e os vultos lá ao longe, à porta da taberna, constituíam uma antevisão do mundo pelo qual se batiam o Pedro e os seus amigos. Sem que soubesse porquê, voltou a ter medo.» p.151


IN http://pilha-livros.blogspot.pt/2004/01/angstia-para-o-jantar-lus-de-sttau.html

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A obra “Angústia para o jantar”, da autoria de Luís de Sttau Monteiro, narra a história de dois "amigos" dos bancos do liceu que jantam todos os meses no dia 15, há mais de 3 décadas. No entanto nada mais os une, um - o "senhor doutor" - bem instalado e sucedido na vida, outro levando uma obscura, mesquinha e miserável vida de amanuense. O que me prendeu na obra foi a simultaneidade dos discursos: aquele que se pronuncia, por vezes mais ou menos hipocritamente, e aquele que se pensa, muitas vezes com cinismo ou inveja. (Victor Nogueira)

    “ANGUSTIA PARA O JANTAR”   (1)


(...) " Se o meu destino histórico não se apressa, chega tarde...Estou velho. Velho e farto. E se eu tivesse agora uma mulher na cama? Se eu fosse casado? Não acontecia nada. Contava-lhe o que se passou no restaurante. Contava-lhe tudo. Tudo não. Há coisas que não se podem contar. Um homem não pode contar à mulher que foi humilhado por um amigo no restaurante. Essas coisas só se contam quando é possível rematá-las acrescentando que depois se deu um par de bofetadas no amigo. E os homens que levam bofetadas nos restaurantes? Que contam eles às mulheres? Nada. Deve ser difícil ser casado. Todo o homem, mais tarde ou mais cedo, leva um par de bofetadas de que não pode falar à mulher e depois, cada vez que olha para ela, lembra-se das bofetadas que não foram contadas. Cada vez que olha para ela, leva outro par de bofetadas.(...)

 As mulheres odeiam os jogos dos homens, como odeiam todos os jogos de que não façam parte. Necessitam de estar no palco como os peixes de estar na água. É por isso que odeiam a guerra, o futebol, a caça. Sabem instintivamente que são jogos de homens, jogos inventados por eles, jogos que os homens preferem jogar sozinhos e nos quais elas, ainda que tomem parte, constituem um embaraço.(...)

 O marido é quem decide, é quem vai à frente, é quem come o bife. Acima do marido está o pároco, acima do pároco, o bispo, e acima do bispo, Deus. Eu estou no meio, dou dinheiro ao pároco e pisco o olho ao beijar a mão do bispo. É o meu jogo, o meu lugar no jogo. Regra número sete dos jogos que não levam a nada: "ninguém escolhe o seu lugar no jogo. Ninguém ganha o seu lugar no jogo. Todos nascem no lugar que lhes compete."(...)

 As pegas são mesmo assim. As baratas, as que estão no princípio da carreira e que ainda se chamam Lucindas, Lurdes ou Carmos, têm um profundo respeito pelas famílias e pelas mulheres legítimas dos amigos. Para elas a família é qualquer coisa de sagrado que está ligada ainda às recordações das mães que deixaram nas Beiras ou no Alto do Pina, no Minho ou em Campo de Ourique. No segundo grau da carreira já se chamam Odettes, Lizettes e Arlettes. Já falam dos "velhotes" com desprezo e da família como se esta fosse uma "velharia" merecedora do destino que tem. Num terceiro grau chamam-se Celines, Jeaninnes e Marguerites. Começam a compreender que existem regras e já não falam das famílias. Nem das suas, nem das famílias dos amigos.(...)

 Gostaria de te chamar "amor", Alexandra, mas não o posso fazer. Eras capaz de acreditar, e como necessitas de amor e de acreditar em alguém, eras mesmo capaz de acabar com o matulão que te faz ler Aragon... e eu não te amo, Alexandra, embora gostasse, neste momento, de te chamar "meu amor"... só porque tenho pena de ti... e de mim... e de tudo...(...)

 Não vale a pena responder. A estas coisas não se responde. São os diálogos domésticos dos casais da nossa idade e do nosso meio. Substituem o amor e a vida. Quebram o silêncio e dão a impressão de que tudo vai bem. E vai. O mais engraçado é que tudo vai bem. Quando nada há de comum entre um homem e uma mulher senão a cama e o facto de conhecerem a mesma gente, de que podem eles falar, na idade em que a cama começa a ser o local onde se dorme e nada mais?(...)"

(1) Este romance de Luís de Sttau Monteiro, foi editado em 1961, em pleno fascismo e no início da guerra colonial. Refere-se aos hábitos sociais e aos preconceitos que existem numa sociedade dividida em classes e dos vários papéis sociais (aparentemente) pré-definidos pela sociedade [para garantirem a ordem social estabelecida e a reprodução das relações de produção.]..Através da narração de acontecimentos banais, do quotidiano, mais ou menos anódinos, e dos vícios e embustes que caracterizam a vida social lisboeta dos anos 60 do século XX,  talvez extensível a todos os recantos do jardim à beira-mar prantado,o escritor - oscilando entre a "verdade" do que é dito e a "verdade" do que ao mesmo tempo e na realidade se pensa  - apresenta/representa um conjunto de personagens que se vão cruzando entre si, revelando conversas de grupos de estudantes de esquerda; o comportamento de um indivíduo de classe média-alta que tem esposa e filhos já adultos e noutra casa sustenta a amante [como sucedia com o meu padrinho de baptismo, com casa montada para a(s) amante(s)] e de quem a esposa [mal-conformada] tem conhecimento; a diferença de mentalidade e atitude entre jovens e a. geração dos seus pais já conformados com a realidade vigente e do seu lugar na sociedade, até  atingir um final surpreendente. (Victor Nogueira)

https://www.facebook.com/notes/victor-barroso-nogueira/lu%C3%ADs-de-stau-monteiro-entre-ang%C3%BAstia-para-o-jantar-e-as-redac%C3%A7%C3%B5es-da-guidinha/10152164254509436/
.***
(...) É depois do jantar. Um enorme cansaço, desolador, entorpecedor, tem-se estado apoderando da minha cabeça. Completamente alheio enfiei a comida, acabando primeiro que os outros, uma grande irritação pela barulheira do rádio na cozinha (sempre a merda ruidosa do rádio), um enfado pelas desajeitadas tentativas do sr. Marquês para tirar-me do meu alheamento, do meu mutismo, a despedida brusca. Todo este cansaço, todo este desalento, pelo clarão súbito da última página [de Domingo à Tarde, de Fernando Namora] pela consciência de que todas as nossas relações são um jogo cujas regras (subconscientemente) sabemos (mas não queremos admitir), que toda a vida é uma enorme representação teatral, um palco mundano. (Lembras te, Shakespeare? Lembras te, Stau Monteiro da "Angústia para o Jantar"?)   (NSM - 1971.12.01/03)

Chove chuva ensurdecedoramente trovejada em Setúbal

* Victor Nogueira

Chove chuva ensurdecedoramente trovejada em Setúbal, não em catadupa mas morrinhenta, os relâmpagos escondidos por impenetrável céu cinzento, com astro e estro mudos, dulcineias em parte incerta e quixote em seu rocinante, mero saco de ossos.







Captações de imagem em 2017.11.03

Os primeiros poemas 01


Ao ler os meus diários e a correspondência recuperada, desde a meninice até à juventude, verifico que a minha prosa é seca, objectiva, sem metáforas, e mais ou menos encadeada. Ler os meus diários escritos dos 13 aos 15 anos é ler um relato seco e objectivo de factos, na maioria dos casos sem ponta de revelar sentimentos ou emoções. Nas bibliotecas familiares dos meus pais, do meu tio paterno José João ou minha não havia praticamente livros de poesia,  não obstante os cadernos manuscritos de poesia escritos pela minha mãe ou pelo meu tio materno Joaquim. Para além destes manuscritos, lembro-me que havia apenas o Só, de Soares de Passos, a Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, e os da Biblioteca Imbondeiro, de Sá da Bandeira, com poetas angolanos, de outras colónias e do Brasill. Ah! E uma antologia mimeografada de poetas angolanos, retirada do mercado pela censura fascista, editada pela posteriormente encerrada Casa dos Estudantes do Império, acusada de actividades subversivas.

Foi pois em Évora - em 1968/69 - que o meu interesse pela poesia foi despertado, sobretudo pela Noémia, mas também pela Margarida Morgado, no seu cenáculo na sua casa de évora  - a toca da Margarida, como a malta do Arcada a denominava.

Os meus poemas dessa altura são relativamente despojados, alguns neo-realistas, praticamente sem metáforas, e sem rima. A rima, a métrica, as quadras, os sonetos, (estes sobretudo a partir de Shakespeare), esses foram-me ensinados em 1989 pela Joana Princesa.

A presente edição respeita a formatação original.

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1, - Tinha uma carta já escrita, fluente na minha mente. Chegou a hora de escrevê-la e ela ruiu, as palavras escorregaram por entre os dedos, em todas as direcções, e no papel nada fica senão uma pasta informe (...) Nunca liguei á poesia. Achava-la inútil, algo inexistente para mim. Ouvi falar em rima (amor com fervor, queijo com vejo, morte com sorte), em métrica, etc. Das divisões silábicas apenas me lembro dos alexandrinos....
.
Bem, como a prosa é mais fácil, com mais canelada para a direita, menos cotovelada para a esquerda, resolvi escrever epístolas por gosto e exercícios de apuramento e chamadas escritas a contra-gosto e relógio. Se alguém dissesse que eu acabaria um dia por escrever frases desiguais empilhadas umas em cima das outras, a que a minha amiga [Noémia] chama poemas, eu rir-me-ia. Mas também nunca nos dias da minha vida sonhara viver em Évora e tirar um curso de sociologia. (NSM - 1969. Évora - Páscoa)

2.

A "Natureza Morta" (*) não me parece nem pessimista nem optimista; são apenas os olhos com que vejo Évora. (...) Os meus escritos permitem várias leituras, possibilitadas pela ambiguidade decorrente da disposição das palavras e frases, pela colocação da pontuação ou sua ausência. (MCG - Évora - 1972.10.20)
.
No que digo ou escrevo não há senão a constatação despojada do que me parece ser a realidade. (MMA - Paço de Arcos, 1986.08.31



3. - 

PS 1 - E DEPOIS na volta DO ADEUS (*)


"Para quê tanto silêncio e palavras?"
Foi a primeira quadra que eu bem fiz
Mas com a rima eu não acertava
E daquela maneira ficou, assim quis

Na segunda fabricação minha amiga
Me ensinou a contar bem com os dedos
As sílabas para bem escrever minha cantiga
E vai daí começou este meu enredo  (...)

PS (2)  - E DEPOIS na volta DO ADEUS
OH! MIL SOIS, MARIA, SEM FUTURAR
DAS ESTRELAS NO CAMINHO DOS ASTROS

" Para quê tanto silêncio e palavras?"
Foi a primeira quadra que eu bem fiz
Com a rima eu não acertava
De maneira que ficou, assim quis

Na segunda fabricação, amiga
Me ensinou a contar bem com dedos
Silabas p'ra escrever minha cantiga
Vai daí começou o meu enredo (...)

Setúbal 1989.08.08


4 - Também posso vestir a realidade com fatos alegres e música e folguedos e brisas cariciantes e olhares de veludo e sedutores e de pedrinhas saltitando pelo riacho com se aves cantando fossem. Com as palavras e a arte de usá-las se pode tornar mágico o que não é e soalheira a mais triste noite ou brilhante como se de mil sóis rendilhados falassem o que me cerca e com elas me libertando :-)

Ou não ! ! Porque o mágico tem consciência dos truques para tornar mágicos os enganos ! (setúbal 2010.11.01)

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No cimo das escadas, o menino ...
Os negros olhos perdidos algures
Carta recebida/respondida

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1969

01.

 
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02

Os negros olhos perdidos algures
Parados. Imóveis. Ausentes.
E uma terrível raiva desesperada apoderando-se de mim.

Que pouco mais poderia fazer senão esperar
Esperar que se movessem
que a palidez se fosse.
Tão grandes e tão pequenos
Tão fortes e tão fracos!

Que somos nós?
Que podemos nós?
Esperar, esperar. Iludir!

Uma face imóvel
Uns olhos fixos desmesuradamente abertos
Uns cabelos emaranhados e molhados
um rosto pálido, imóvel!
Não mais ver o seu sorriso
Não mais esperar tudo esperando nada.
Ou antes ... esperar nada
desesperar.
Tão fortes e tão fracos!
Tão grandes e tão pequenos!

Um corpo frágil envolto num roupão rosa

Mas os olhos movem-se.
Um sorriso nasce nos lábios
E a calma volta!

Depois, ... a vida.
E os outros à volta
ouvindo a história duma grande viagem que se não realizou
que foi adiada!

Depois o esperar tudo e o esperar nada.

Lábios que uma vez mais se cerraram
E não disseram o que pretendiam

Mãos que de novo não acariciaram um rosto.

Que ficaram suspensas
sempre suspensas
esperando tudo
esperando nada.

Risos, danças, lágrimas
desesperos, danças e risos
Num Sábado deste imenso carnaval.

Évora  1969.Fevereiro.15

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03

 Para a Lili

Carta recebida/respondida
respondida/recebida
Assim, como bom menino
- que todos devemos ser -
Todo aperaltado:
o   vinto das calças bem marcado,
bem "nodada" a velha e querida gravata,
o cabelo, sem brilhantina, bem penteadinho
-    para a direita..

                                      Um cheiro a Lavanda
                                       ... e a Pitralon.
Nas mãos
-          lavadinhas –
um ramo de flores.
Tão amoroso!
o ramo ou o menino?
Braços que se abrem e se estreitam ...
Ffffchiúu! Ffffchiúúu
Feliz Aniversário, tti;
Que este dia se repita por muitos
Muitos, muitos e loooooongos anos!


(1) bem "nodada" - com o nó bem feito 

Évora, 1969.FEVEREIRO. 24

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No cimo das escadas, o menino ...
Este texto refere-se ao meu 1º dia de aulas, na primária, no Colégio D. Duarte, tendo como professora a D.Judite Mata. Entrei para a 1ª classe já o ano lectivo ia adiantado mas depressa apanhei os meus colegas. Contudo tive de repetir a 1ª classe, uma seca, pois não tinha ainda idade para me poder apresentar a exame. Esse foi o último ano lectivo que não coincidiu com o de Portugal. A partir daí as aulas e o ano lectivo coincidiam com os meses de imenso e abrasador calor e as férias grandes com a estação fria, a do "cacimbo"
Os negros olhos perdidos algures
Em Évora, na casa de hóspedes da D. Vitória Prates, o esquentador a gás estava na casa de banho. Enquanto os rapazes tomavam banho com a janela escancarada ou semi-cerrada, conforme a estação do ano, as raparigas fechavam-na, escusadamente, pelo que por vezes, sobretudo se tomassem banho umas a seguir às outras, alguma acabava por ficar intoxicada, o que sucedeu com a sobrinha da hospedeira, a Ermelinda Prates, referida neste texto. A janela da casa de banho, num 2º andar, dava para telhados e não havia qualquer janela ou terraço que servisse de miradouro e permitisse a quem quer que fosse devassar as "intimidades" das meninas, mas as púdicas virtudes a tanto obrigavam. Anos mais tarde tive mesmo de fazer a respiração boca-a-boca a outra hóspede até ela abrir os olhos, a Vicência, encontrada inanimada e - oh! meu Deus - completamente nua no lajedo da casa-de-banho, trancada a sete chaves, mas que consegui abrir, ultrapassando a atrapalhação e aflição da D. Vitória, também deveras preocupada em cobrir a nudez da moça, ali exposta com todas as suas curvas e miudezas aos olhos do senhor Nogueira, como o Criador a pusera no Mundo. 
Carta recebida/respondida
Este é um texto escrito por ocasião do 43º aniversário da minha tia Maria Luísa, que só respondia a uma carta depois de ter tido resposta à dela e se preocupava muito com a apresentação e vestimenta do sobrinho.


Texto reformulado em 2017.11.03

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

o isese, évoraburgomedieval &The Sound of Silence

* Victor Nogueira

Quando um dia for escrita a história do ISESE, verifica-se-à quão castradora foi a sua acção - e esterilizante - quão veementemente destruiu nas pessoas a espontaneidade, a solidariedade, a camaradagem. Não propriamente destruir, porque nesta maldita sociedade portuguesa feudalizada, cinco séculos de história contribuíram para nivelar as pessoas no temor, na mediocridade e na inautenticidade. A coragem, a hombridade, a lealdade, o entusiasmo inovador, eis o que falta ao castrado povo português! (NSM - 1971.01.14)

Os meus detractores têm razão ao acusarem me - e aos meus colegas da Direcção [da Associação de Estudantes] de não servir os interesses dos estudantes. Que são os da mediocridade, do passivismo, da velhacaria ou da falta de hombridade. (...) Dentro duma semana começam os exames finais. Outro absurdo. Porque ou as cadeiras são circunstanciais - e para quê os exames? - ou são importantes - e, meus senhores, com que direito um homem decide da certeza ou falsidade dos conhecimentos doutro homem ou exige que ele saiba isto que ele, professor, sabe melhor ou pior, em detrimento daquilo - que ele talvez não saiba? Toda a sabedoria julgada nuns minutos de paleio falado ou umas horas de paleio escrito! Cinco meses em nove, de exames! Que falta de imaginação! (NID - 1971.05.26)

O senhor Todo Poderoso 

A malta no café hoje está indignada porque o Mesquita reprovou o Alpendre em Direito Corporativo. O Alpendre perdeu assim o ano e vai para a tropa [Guerra Colonial]. Mas eu já estou calejado demais para trovejar como o Camilo ou ficar com a lágrima ao canto do olho como o Carlos. O Mesquita é um incompetente, não prepara as lições e mete água. Mas é o Mestre, Senhor todo poderoso enquanto os estudantes continuarem a falar pelos cafés, cada qual metido no seu individualismo, no seu morno egoísmo, na sua indiferença quotidiana ! (MCG - 1972.10.18)




Simon & Garfunkel - Bridge over Troubled Water -The Sound of Silence (Original Version from 1964)

 Hello darkness, my old friend 
I've come to talk with you again 
Because a vision softly creeping 
Left its seeds while I was sleeping 
And the vision that was planted in my brain 
Still remains 
Within the sound of silence 

In restless dreams I walked alone 
Narrow streets of cobblestone 
'Neath the halo of a street lamp 
I turned my collar to the cold and damp 
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light 
That split the night 
And touched the sound of silence 

And in the naked light I saw 
Ten thousand people maybe more 
People talking without speaking 
People hearing without listening 
People writing songs that voices never shared 
No one dared 
Disturb the sound of silence 

"Fools," said I, "you do not know 
Silence like a cancer grows 
Hear my words that I might teach you 
Take my arms that I might reach you" 
But my words like silent raindrops fell 
And echoed in the wells of silence 

And the people bowed and prayed 
To the neon god they made 
And the sign flashed out its warning 
In the words that it was forming 
And the sign said "The words of the prophets are written on the subway walls 
And tenement halls 
And whispered in the sound of silence"



(Google Earth)


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O Colégio da Sé em évoraburgomedieval ... O que era o Colégio da Sé no medieval burgo de medos e receios, de relógios parados no tempo, de públicas e púdicas virtudes e privados vícios e devassidões .. ? O que foi o Colégio da Sé de silêncios no medieval burgo das meninas que para preservar a "honra" não circulavam desacompanhadas nem frequentavam os cafés - cruzes, canhoto, vade retro satanás, PN AM - num Alentejo cerrado nas mãos dos latifundiários e da pequena burguesia das cidades e das vilas ?
Que melhor espelho, que melhor resposta é a deste "grupo" que morrerá definitivamente quando morrer o estrangeiro que sou, o que veio de longe, de muito longe, como se não tivéssemos feito parte da vida de todos e de cada um de nós, com memórias e afectos mais ou menos profundos ? Tão parcos de acenos e de calor ? Tão cerrados e silentes por detrás das espessas cortinas nas janelas !

Tão jovens que terão sido as presentemente hoje envelhecidas crias do Colégio da Sé em évoraburgomedieval ? Tão triste, tão seca e arenosa é a "herança" do Colégio da Sé em évorburgomedieval no Alentejo do vento suão que esfarela(va) a alma e os ossos.e vilipendia(va) os malteses.?
Na foto o Colégio de S. Francisco Xavier (patrono da então Vila e actual Cidade de Setúbal) , missionário da Companhia de Jesus, actualmente Palácio Fryxel e sede do Instituto Politecnico de Setúbal .

SERÃO PALAVRAS (Eugénio de Andrade)

Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens
Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração
Diremos terra mar
ou madressilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos