Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

.

Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

segunda-feira, 8 de março de 2021

Victor Nogueira - Dia da mulher

 


* Victor Nogueira

.
Dia da mulher
é dia do homem
Haja o que houver
A noz não nos comem
.
Dia da mulher
é dia da mentira
boa p'ra esquecer
nos dias com ira
.
Dia da mulher
é pura assombração
sem adão na colher
é tudo negação
.
Dia da mulher
é tempo de comércio
tempo de colher
na bo£$a com ob$€quio
.
Dia da mulher
é tempo que não existe
se não for o crescer
da Humanidade que persiste
.
Dia da mulher
é dia sem fim
haja o que houver
em canto de alecrim
.
Dia da mulher
não é hora;
é tempo de vivencer
sempre e agora
.
Não há verso nem rima
nem varinha de condão
mas dia que arrima
varrendo a escuridão
.
dia da mulher
dia do homem
dia do homem
dia da mulher
.
dia da mulher
dia do homem são
dias dos homens
dias das mulheres
.
.
2012.03.08 Setúbal
Ilustração O Quarto Estado, de Volpedo

domingo, 7 de março de 2021

os textos em março 07

 * Victor Nogueira


2021 03 07 RIMANCE DO CONDE NIÑO, por Victor Nogueira 
 .
Ia o Visconde Niño
 Pelo caminho real
 Com andar bem pequenino
 Por causa do areal.
 . 
Cavalgava noite e dia
 Por rio, vale e montes,
 Quando o sol refulgia
 Bebia água das fontes.
 . 
Um falcão no ar voava
 Em busca do céu d'anil
 Com o seu olhar buscava
 Mui para lá do redil.
 . 
Numa curva do caminho
 Oh! céus, cantando estava
 Só, num ermo sózinho,
 Quem pelo Niño chamava.
 . 
Era uma fada princesa
 Com um manto de jasmim
 Envolto em muita sageza
 Num campo de alecrim.
 . 
Com pós de perlimpimpim
 Seus cabelos penteava
 Enquanto um bom lagostim
 No fogaréu se cozinhava.
 . 
Bom, soberbo, valioso,
 Cálido refrigerante,
 Um apelo precioso,
 Raro, belo, cativante.
 . 
Parou Niño, o Visconde,
 Em pose primaveril;
 Ao chamamento respondeu
 Mui garboso, senhoril.
 . 
Com um gesto desenvolto
 Tirou, de breu, o capuz,
 Com o cabelo revolto
 Guardou o arcabuz.
 . 
O cavalo à rédea solta
 Ali ficou a pastar,
 Sua verde crina envolta
 Na doce brisa do ar.
 . 
A viseira levantada,
 Pé em terra, sem temor,
 Ao coração descansado
 Cantou pacificador:
 . 
"Sinhá moça, és tão linda!
 Com teu corpo donairoso
 Comigo vem na berlinda
 Mais teu mosto precioso;
..
Ao ver-vos sinto o luar
 Aquecer-me sem ardor."
 Disse o Conde sem pasmar,
 armado em versejador.
 . 
"De vós não quero eu ser
 Prisioneira, cativa,
 Ide-vos, ensandecer 
 Qualquer outra nativa."
 . 
"Eu não vos quero guardar
 Como o vento vós sois livre,
 Assim ide cavalgar
 Que não sóis do meu calibre!"
 . 
De negro ficou o céu,
 De branco, o Visconde Niño,
 Na montanha um escarcéu
 Mui descontente o malino!
 . 
"Chorai, gaivotas, chorai,
 Por dona tão altiva,
 Na tempestade vogai
 A nau presa, fugitiva."
 .
No seu cavalo real
 O herói vai abalar. 
 O canto acaba mal
 Se o Conde não ficar?!
 .
. 
1991.Maio.23/28  -  Setúbal

2021 03 07 O que distingue Cavaco de Marcelo? Um subiu a pulso desde o Poço de Bole e Queima até à Quinta da Coelha, outro nasceu em berço de ouro. Um tem pouco verniz e é carrancudo, outro tem muita "finesse" e beijoqueirice.

Mas ambos têm de comum elogiarem a "obra" de Passes de Coelho suportada pela troika e lhe darem a mão, em louva-deles. Ambos são muito devotos da Santa Madre Igreja e da "Senhora".

Ambos prefeririam um governo todo poderoso capitaneado pelo "seu" PSD de que foram presidentes, ambos não gostam da solução dum governo do PS viabilizado pelo PCP, Bloco e Verdes. Mas não gostando, Marcelo engole o sapo à espera de melhores dias.

Com maior arte e manha, Marcelo mantém o governo do PS em lume brando, atiçando para que o seu PSD e adjacências encontrem líderes que empolguem as ma$$a$, face ao declínio do CDS, ao falhanço da Aliança do Santana Lopes e ao descalabro desse trauliteiro Rui Rio. 

Para além de pretender ser o Presidente-Rei Sol absolutista, na linhagem de D. Sebastião Marcelo poderia ter como cognome "O Recauchutador-mor"?

Até lá, com ou sem purgante para engolir sapos, Marcelo vai mantendo o governo do PS em lume brando., orando por um novo ciclo político com alterne duradouro e forte à direita e actualização de protagonistas, para enganarem o pagode, tirando simultaneamente o tapete a Rui Rio no PSD e a Tó Costa no PS.

Entretanto, já novos protagonistas ressurgem das catacumbas, a Iniciativa Liberal e o Chega de Ventura , hipotéticos novos sustentáculos do PPD/PSD?



2020 03 07Foto Victor Nogueira - Évora e Rua Serpa Pinto

Nunca entendi bem a planta do edifício. Aqui morámos no 2º andar dto do º 21, num apartamento com enormes assoalhadas e tectos abobadados. 

Os do lado esquerdo, onde moravam a Isabel e o António Ricardo, professores como nós, eram trabalhados em estuque. Ambos se situavam ao cimo duma íngreme escadaria, de dois lances, no topo da qual uma cancela permitia que os miúdos (a Susana e o Daniel Filipe) brincassem no vasto átrio. Para aceder ao da direita subia-se um pequeno degrau e entrávamos num minúsculo átrio; defronte, a cozinha, à esquerda, um pequeno pátio com a despensa e, à direita, subindo uns degraus, ficava uma sala interior, com um pequeno nicho, onde preparávamos as lições e estava a biblioteca. Novos degraus permitiam o acesso a um vasto piso com enormes assoalhadas: a sala de estar, o nosso quarto e a casa de banho. Novas escadas para a traseira conduziam-nos ao quarto da Mariazinha e da Susana.

No nosso quarto uma porta permitia o acesso a um segundo pátio, por uma larga escadaria de dois lances, escadaria que servia também para arrumos. Neste segundo e soalheiro terraço se estendia a roupa para secar e dele se avistavam os telhados de Évora, as torres sineiras da Igreja de Santo Antão e a Rua da Moeda.

No princípio eram deveras incomodativas as badaladas da Igreja, assinalando as horas e os quartos, mas passado algum tempo já não dávamos por isso. Os< nossos amigos admiravam-se da Susana não dar quedas numa casa com tantas escadinhas, mas a verdade é que ela depressa se habituou, subindo e descendo desassombradamente, no princípio gatinhando. Foi nesta casa que aprendeu a andar sozinha.

Gostava imenso desta casa, situada a dois passos da Praça do Giraldo, mas hoje seria um entrave subir aquela íngreme escadaria ajoujado de compras e circular pelo seu interior subindo e descendo escadinhas incessantemente.

No rés do chão do edifício, com janelas de guilhotina por onde entrava um frio gélido e cortante, situava-se um estabelecimento comercial e no 1º andar dois escritórios, um dos quais do Banco Espírito Santo.

O prédio pertencia ao Santana, que tinha uma casa de móveis mais abaixo; no princípio não queria alugar-nos, mas fui falar com a nora, casada com um filho dele (ambos tinham sido meus colegas de curso no ISESE) e lá se resolveu a dar-nos o aluguer.

sábado, 6 de março de 2021

os textos em março 05 - 06

2021  03 06 CAVACO REGRESSA DAS CATACUMBAS ELOGIANDO O SEU PUPILO PASSES DE COELHO, O MESSIAS DE MASSAMÁ

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Antigo Presidente voltou a uma iniciativa do PSD para deixar muitas críticas ao Governo PS e à "geringonça": "impunidade", "abusos", com "sinais de uma democracia amordaçada". Mas deixou também recados - ou sugestões - ao seu partido e um elogio a um ex-líder: Passos Coelho  

(...) 

 Cavaco Silva diz ter aberto "uma excepção à minha resistência de participar em eventos partidários", mas aproveitou a dita excepção para deixar um ataque sem rodeios a António Costa e à "geringonça" - não deixando de dar conselhos ao atual PSD - como ignorar o Chega e concentrar todo o discurso na crítica ao PS -, assim como elogiar um (só um) dos líderes do partido que lhe sucederam: Pedro Passos Coelho.

(...)

Portugal é hoje "uma democracia imperfeita", com "sinais de uma democracia amordaçada" - disse, alargando as críticas ao jornalismo. "Escrevi-o e reitero: episódios recentes fazem crer que um dos riscos para qualidade da democracia é do jornalismo se alhear e deixar de se submeter aos princípios isenção".

(...)

Mais: Rui Rio deve, para Cavaco, "denunciar erros e omissões, falhas de respeito, tentativas de amordaçar a democracia", assim como apresentar "políticas alternativas adequadas a melhorar o bem-estar - mas nunca recorrendo a insultos, não recusando o diálogo. A luta processa-se entre adversários, nunca entre inimigos".



2018 03 06 Gabriel Garcia Marquez é um dos escritores, que li na totalidade ou quase totalidade e que mistura o “fantástico” nas histórias d(um)a família ou de famílias ao longo do tempo, como em “Cem Anos de Solidão”, ou de personagens individualmente considerados. Neste um pouco ao jeito de John Steinbeck, mais “realista" como em “As Vinhas da Ira” ou “A Leste do Paraíso”, mas cujas linhas deliciosas iniciais de “Pastagens do Céu” remetem também um pouco para o mesmo registo de Gabriel Garcia.

2013 03 05 Remuneração de Ricardo Salgado desce 31% para 552 mil euros em 2012

Pois, pois ....

Que fazem homens destes senão "jogar" com os dinheiros dos depositantes e, quando a especulação lhes corre mal, transformam a dívida privada em dívida pública paga com os impostos e o saque ao pagode e depois ainda "€$peku£am" e ganham milhões, no ano seguinte, como o bpi do senhor ulrich ? 

Isto para não falar nas autoestradas e nos estádios de futebol e nas parcerias público privadas feitas à sua medida para embolsarem os lucros e nos passarem os prejuízos, com injecções de capital pagas com o nosso dinheiro. E para não falar nos bens e propriedades em off-shores. 

https://www.publico.pt/2013/03/04/economia/noticia/remuneracao-de-ricardo-salgado-desce-31-para-552-mil-euros-em-2012-1586602


2013 03 05 Foi você que falou de austeridade e de sacrifícios incomportáveis ?

~ Soares dos Santos (Pingo Doce)  e Belmiro de Azevedo  (modelo/continente) aumentam fortunas ~  Américo Amorim (banca do ex-bpn, sem lixo tóxico, e cortiça) continua a ser o português mais rico na lista da Forbes.

https://www.publico.pt/2013/03/04/economia/noticia/soares-dos-santos-e-belmiro-de-azevedo-aumentam-fortunas-1586550
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quinta-feira, 4 de março de 2021

chaparia a saltar

* Victor Nogueira


Foto victor nogueira - em Lisboa, a caminho da A5, para Paço de Arcos 2017.02.28, no banco do pendura

Há muitos anos, ao princípio da noite e depois duma cansativa reunião em Lisboa que durara todo o dia, ia perguntando a mim mesmo enquanto conduzia, se ia directo a Setúbal ou se iria a Paço de Arcos para jantar com a minha mãe: "vou", "não vou", admirado com o facto de não haver engarrafamentos aquela hora nem pára-arranca. 

Resolvo ir a Paço de Arcos e ao desfazer uma curva para  entrar   na A5 deparo-me com uma fila de automóveis. Guino para a esquerda mas a velocidade e o escasso espaço de manobra não evitam a colisão da dianteira direita do Fiesta com a traseira esquerda do último carro da fila que vai embater no da frente, com chaparia a saltar. 

Saímos dos respectivos carros e o condutor dum deles diz-me qualquer coisa como "ai o meu carro novo que comprei na semana passada", respondo-lhe que ele ainda tinha sorte, que a minha seguradora lhe pagaria o conserto mas não do meu. Preenchemos as declarações amigáveis, um outro automobilista ajudou-me a desencravar parcialmente o meu guarda-lamas dianteiro direito e lá vou jantar a Paço de Arcos seguindo depois para Setúbal.

No dia seguinte logo de manhã rumo para a oficina, devagarinho para evitar mais acidentes, com pouco angulo de manobra na direcção para a esquerda. Eis senão quando, quase a chegar ao destino surge inesperadamente um automóvel largado à minha direita. Guino para a esquerda, manobra limitada pelo guarda-lamas amolgado na véspera. Se o outro virasse à direita ter-se-ia evitado o embate, Mas não. A jovem condutora larga as mãos do volantes e leva-las à cabeça e vai embater no malfadado guarda-lamas da véspera.

Ela sai do carro exclamando “Fui eu que fiz isto tudo?” Respondo-lhe que a maior parte do estrago fora da véspera, que está com sorte, pois vinha da direita e eu tinha um sinal de ceder prioridade, pois se não fosse assim pagar-me-ia o conserto como se tivesse sido apenas ela a embater. 

Preenchemos a declaração amigável, o Rui comenta que levo tudo numa brincadeira e respondo-lhe que de nada adiantava chatear-me. Mas durante algum tempo tive de forçar-me a continuar a conduzir pois via-me sempre a embater no carro da frente com chaparia a saltar.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Eros e Afrodite 03 - textos sobre a sedução, o encanto e a liberdade

  * Victor Nogueira

.eu bem sei que talvez já tenham lido, mas .... os dois primeiros correspondem à expressão dum sentir e a uma escrita como que espontânea. O 3º  (Um rio enche a casa com o  murmúrio de mil candeias) e o da 02 (gota a gota)  são fruto duma intelectualização, dum pensar a frio com a busca das metáforas, um trabalho de artesão mas não de artista. O 3º da presente nota é uma reelaboração dum outro texto, declaração de amor e sobre a ausência, que eu transformara "alargara" num hino à "Liberdade" mas que quem lê considera um texto de amor e não  um texto político. Considero tentativas falhadas quer o "gota a gota", quer "um rio ..." - crítico desapiedado de mim mesmo que sou.

Escritas e dispersas ao vento, as palavras deixam de pertencer ao autor e passam a ser vistas e lidas com os olhos e lábios e o pensar de quem as decifra e tenta descodificar.

~~~~~~~~~~~~~~~~~

SEDUÇÃO

 

O desejo é uma nave

..............penetrando na imensidão destes dias.

Gomo a gomo

desfolhamos o cetim

do nosso corpo.

O ar está pleno

.......deste cheiro agridoce

................almiscarado.

Procuramos a sombra

................fulva e ardente

................fresca

do sol

num murmúrio crescente e

........................ondulante

em vagas sucessivas

no chão arenoso

a macieza da boca

................no seio do ventre

os lábios traçando

..............o mapa do desejo

o sabor da cisterna

.............da viagem dos sentidos

.............ao fim do mundo

nos corredores

a ....ventura

por nós talhada

Descoberta inventada

sem sombras nem limites

.....................(des) enredada

No fragor da tempestade

a serenidade da calmaria

nesta cidadela

......................."sem muros

........................nem ameias"

 

 

 1989.Março.09 - Setúbal 

_________

 

Sedento nas tuas mãos esguias e belas

 

Sedento nas tuas mãos esguias e belas

aqui

na estrada da vida

à beira do caminho

de pé nesta tarde de verão

louco pássaro

.....................de asas partidas

busco a carícia do sorriso

..........o quente murmúrio da voz

..........o frémito das nossas mãos

..........o suave perfume do corpo apetecido

..........turbilhão incandescente sufocante

..........rio mar profundo

sigo ...com os dedos e os lábios o teu contorno

..........aqui os olhos ....a boca ....o lóbulo das orelhas

..........o andar decidido

..........os seios pequenos e firmes

além a ondulante seara

........a curva suave

........o moreno vale

fresco límpido agridoce refrigério

  

1985.Julho.28 - Setúbal

 


__________________

 

 Um rio enche a casa com o murmúrio de mil candeias

 

Um rio enche a casa com o murmúrio de mil candeias

enquanto  

............ondulados

............compassados

............rítmicos

ouço

sinto

e reconheço

............os teus passos

 

Em silêncio junto as palavras

.................percorro o teu corpo

.................flexível e moreno

 

Rio, choro e bailo contigo

quando assomas à porta e

..........busco o veludo dos teus lábios e do teu rosto.

bebendo o vinho da esperança

 

Tudo tem agora outra qualidade

..........................a qualidade do trigo em flor

...........................................da brisa incandescente

...........................................da sombra refrescante

...........................................do sol sem ardor

 

e no ar

o fragor e e a calma silente da tempestade liberta e  amainada

 

Setúbal 1989 / 2000

*************

Esta é a versão inicial (1989) do último escrito, que prefiro sem dúvida alguma

1989.06.07

Setúbal








nature,sea,black,and,white,ocean,view,water,waves - in http://linhacabotagem.blogspot.pt/2011/05/diurnos_30.html


"Operários", tela de Tarsila do Amaral, observados por olhos de um rosto na multidão - em http://blogdoricardonovais.blogspot.pt/2010/06/um-milagroso-acaso-de-amor.html

terça-feira, 2 de março de 2021

Eros e Afrodite 02 - gota a gota


Aljezur (foto victor nogueira)

* Victor Nogueira

.gota a gota irrompe o desejo

folha a folha se espraia
cistern'areal
no murmúrio sincopado
entreaberto em mil pétalas
radiante sintonia
de mil candeias
.
bate-bate
rítmica batida
bate-bate
sinfonia cintilante
no rio chão e alteroso
um mar impetuoso
de calmaria
feito
degrau a degrau
arte flamejante
dos meus lábios
e dos teus dedos
rendilhada
e
cartografada
.
.
Setúbal 2013.03.02

segunda-feira, 1 de março de 2021

os textos em março 01

 * Victor Nogueira


2021 03 01 O direitolas do Cisco Assis, férreo anticomunista e defensor de governos do PS / PSD e dos patrões, integra o coro dos preocupados com as raspadinhas dos pobrezinhos, mas não com os milhões dos tubarões mamões ou com o aumento das reformas e dos ordenados de miséria auferidos pelos pobrezinhos.

Mas se acabarem as raspadinhas, supletivas da senhora de Fátima e outras que tais, como irão as Santas Casas das Misericórdias, incluindo a de Lisboa, praticar a caridadezinha para com os pobrezinhos das sopas do Sidónio e dos Bancos Alimentares, que dão bastos lucros aos mamões dos grã-cifrõ€$?

2018 03   01 O ADEUS DE PEDRO DIABISTA

1. - Para além de ir para uma universidade da privada dar o seu contributo para tecnoformatar a geração mais qualificada de que ele, Pepe Sócrates e Relvas são excelsos exemplos, poderá recorrer quer à protecção de Ângelo Correia ou de Cavaco, quer ao Ilídio Pinho, antigo patrão, que disse que as empresas dele tinham sempre as portas abertas para o pedrocas, primo do outro que anda por aí, estilo "menino-guerreiro".

2. - Outros,  nem para porteiro o quereriam, se não não teria estado este tempo todo alapado em S. Bento à Lapa, à espera do diabo, deitando para o rio um negrão estendal de minas e armadilhas 

O Marcelo, mais fino que o Cavaco, sabia ao que ia, mas com muito mais afecto e popularuchicidade, elogiou Portas (em parte incerta a tratar da vida como o Relvas) e o Pedrocas (ingrato para com a mão de Marcelo). Nas próximas eleições ou o PS terá maioria absoluta, ou se puder tentará governar com outros apoios de bancada que não seja a do PCP.

A chamada geringonça foi um balão de oxigénio ao PS português, permitindo-lhe evitar ou adiar o que sucedeu aos partidos da internacional socialista europeia, varridos do mapa.

O que distingue o Marcelo e o Costa é que ao contrário da maioria alapada do PS(d) são a inteligência e finura políticas, de acordo com a filosofia do leopardo, de que é necessário que alguma coisa mude no acessório para que o essencial (e estrutural) se mantenham.

2014 03 01 Num Carnaval pegado andamos quase todos nóe e deve ser por isso, para não rebentarmos de alegria, que esCavaco tentou e passes de coelho (quase) conseguiu ... proibir o feriado, com prejuízo para os festejos e para a  economia dos municípios.

Esta gente do porrete e do escavaco nem válvulas de escape permite, tudo de castigo, por andarem a gastar acima das posses - coitadinha da banca e dos milionários - vá, a crise é grande, é preciso "trabucar", reanimar as exportações, tudo na miséria, nada de economias e folguedos de carnaval - tudo de cinzas coberto deve ficar para maior glória do grã-cifrão.

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2014 03 01 Nunca apreciei o Carnaval que era tema de redacções do estilo O Carnaval, A Primavera ou "Que queres ser quando fores grande" Não me recordo de alguma vez ter-me mascarado, quanto muito apenas uma caraça. Nas redacções lá vinha a inevitável referência "à carne a vala", da folia que antecedia a quaresma das cinzas até à 6ª Feira Santa - em que se não podia ouvir música, antes meditar na Paixão e Morte de Cristo, Nosso Senhor que ressuscitaria em grande no Domingo de Páscoa, aquele em que pelo menos uma vez no ano se devia comungar.

Mas retornando ao Carnaval, sempre me causou uma certa perplexidade que em Portugal, sociedade machista de pegas, toiros, engates e mulheres submissas ao estilo faduncho do "Não Venhas Tarde", de Carlos Ramos, homens pretensamente másculos se disfarçassem de mulher. Do que recordo do Carnaval são as criancinhas mascaradas e das brincadeiras estúpidas e de mau-gosto, como atirar farinha, ovos ou urina para cima dos transeuntes. Farinha que em Luanda tb se lançava na rua ou para dentro dos automóveis, obrigando-nos a fecha os vidros e trancar as portas Em Luanda havia tb corsos carnavalescos indígenas, animados e multicolores, que foram proibidos após o início da guerra colonial em 1961.

Aqui há uns anos ao deambular por Oeiras com uma amiga minha, o passeio terminou inesperadamente com o arremesso por pretensos foliões de ovos que a deixaram a escorrer pela cara e fato claras e gemas. Enfim ....

Embora os houvesse, não me lembro de haver corsos carnavalescos em Portugal antes do 25 de Abril como hoje existem, uma caricata e tola imitação do Brasil, onde nesta altura está sol e faz calor - como em Luanda, enquanto que em Portugal está frio e muitas vezes chove, obrigando as "corsantes" quase despidas a tiritarem e baterem os dentes.

Querer transpor para o inverno festejos como se no trópico sul estivéssemos é aquilo a que se poderá chamar uma mera "macaquice de imitação"

Na foto do Centro de Informação e Turismo de Angola, dos anos 60 do passado milénio - Carnaval em Luanda

2014 03 01 assurancetourix é o bardo incompreendido na aldeia dos irredutíveis gauleses, xenófobos, misóginos, broncos, que à cultura preferem a pancadaria e a javardice dos banquetes de machos à volta do lume. Pobres javalis.

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2014 03 01 São tão engraçados os coelhos, com as suas grandes orelhas, enormes os olhos, o narizito em constante vibração, andando aos pulinhos em zig-zag. 

Não confundir os coelhos com os coelhones, torpes, de pernas portas, galifões com passes de coelho por lebre sorvendo os cifrões para os pat(r)ões, que nos fazem em estilhas com um prato de lentilhas.


2014 03 01 ...  e eu que o diga e ... sem lareira para ver ao borralho e em repouso mas sem raposa o baile do fogo em labaredas crepitando


2014 03 01 por aqui, na margem direita do sado, ainda não chove, apenas o céu está de cinza claro e o frio trespassa até aos ossos. E faz silêncio, no alto da torre no cimo duma encosta 

Mais um Carnaval molhado, quase sem mascarados - salvo algumas crianças, e os corsos talvez fiquem aguados, com as barbies em cima dos "carros" do cortejo, de biquini e tiritando estoicamente de frio e sem guarda-.chuvas.

Foto victor nogueira Sombras na Feira de Santiago em Setúbal

POESIA EM 2014 fevereiro


compilação das escritas de 2014 fevereiro, para quem as quiser ler e comentar

* Victor Noguera

És a clara madrugada ?

És a clara madrugada ? Por mais que eu tente esquecer-te o meu entendimento persiste em esperar e lutar por ti. Mesmo que eu cerre os meus olhos posso sentir-te ao meu lado e renascer com o calor do teu abraço. Vives nos meus sonhos, desde sempre. O teu sorriso tem a cor da maresia, é uma brisa na planície, o rumor dum riacho ... És a esperança em que moramos e de que me alimento. Que dia será aquele em que despertarmos deste plúmbeo sono de cinzas e negro de fumo ? (2014.02.07)

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neste canto

em quebranto

canto

teu encanto

sem espanto

por nós suspiro

expiro

inspiro

e transpiro

busco

ao lusco-fusco

de verdade

a liberdade

do amor

sem dor

nem andor

mas

com fulgor

o beijo

em solfejo

é desejo

de abraço

sem laço

nem embaraço


Paço de Arcos 2014.02.08

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sem o teu gesto que as liberte

naufragando

as palavras prendem-se

nos intervalos do

silêncio

sem brilho

nem fulgor


Paço de Arcos, 2014.02.09

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Entre o ser e o nada

Calámos as palavras e prendemos os gestos, perante o nada que é a vida, breve instante, fósforo que brilha com maior ou menor intensidade, refulgente ou não, e logo se apaga. No vazio de ti, ausência eterna em que persistes enquanto de ti nos lembramos, resta uma paleta mesclada de sons e de cores, alegres ou na sombra, de cambiantes mil. Sem resposta ficarão as perguntas que não foram feitas, a vida que não vivemos ao escolher este ou aquele destino nas múltiplas encruzilhadas. Restam a saudade e a imaginação, entre o nascer e o morrer, entre o tudo e o nada. Ah! Ao pôr o pé na estrada da vida, viandante, a resposta é só uma: “caminhante, caminhando se faz o caminho.” Não há outra saída entre o ser e o nada!

~~~~~~~~

num deserto

de flores esmaecidas

sôfregas

trôpegas

atoladas de silêncio

as palavras

e o gesto


Paço de Arcos 2014.02.09

~~~~~~~~

são de mágoas as águas

véus e anáguas

com palavras lavras

são sábios os lábios

de carmim ou jasmim

nos teus olhos, aos molhos,

mergulho sem engulho

pobre poema, um teorema

cuja rima não rema ?

em carreirinha maneirinha

dor, andor, amor, fervor, calor ?

ou rio frio ?


Paço de Arcos 2014.02.10

~~~~~~~~

sorrio

no fio

do rio

e

canto


Paço de Arcos 2014.02.09

~~~~~~~~

o sorriso

suave

e

leve

muito leve

enigma


Paço de Arcos 2014.02.09

~~~~~~~~

página a página te desfolhas

pétala a pétala te recrias

gota a gota d'alegrias

dia e noite em teu olhar


Paço de Arcos 2014.02.11

~~~~~~~~

o silêncio sonoro das palavras

apenas

e

só

silabadas

enca(n)deadas


Paço de Arcos 2014.02.11

~~~~~~~~

à janela

bagos de centeio

o frio

e

a chuva

de permeio


Paço de Arcos 2014.02.12

~~~~~~~~

A cor das palavras (re)colhidas em Fevereiro

12 de Fevereiro de 2014 às 1:31

Há palavras e palavras, há emoções e sensações. Há a riqueza e a pobreza: a riqueza das tuas palavras e a pobreza das minhas palavras gastas. Seria uma eterna repetição dizer o quanto me encanta o que escreves, o quanto me encantam os sentimentos que nelas espelhas e reflectes

texto completo em

https://www.facebook.com/notes/victor-nogueira/a-cor-das-palavras-recolhidas-em-fevereiro/10151971044574436

~~~~~~~~

chovem pedras

na cidade

sufocam os campos

é de trevas a idade

à luz trémula

dos pirilampos

tempo de senhores

erva daninha nos entre-folhos

noite de estupores

enricando aos molhos

vela ensonada

a tua sentinela

calada

até que despertes

da noit'-e-dia


paço de arcos 2014.02.14

~~~~~~~~

o pantanal ... dos cifrões

é um festival

o pantanal ... dos cifrões

é o maralhal

comprado por tostões

o lamaçal do laranjal

preciosa rosa

do centro casas adentro

são os portas de pernas tortas

os loureiros da banca rendeiros

os limas das pantomimas

os santanas de pantanas

os mendes que mal sentes

os cavacos por patacos

os coelhos de joelhos

os seguros perjuros

os pinóquios em solilóquios

a manela de janela

o victor do gamancio

o guta com erres

os mário-olás com ares

o marcelo a martelo

os sarmentos dos sacramentos

os durões furões

a tropa fandanga

com a chraranga

... e os patrões

dos milhões

e o povo ?

no ovo chocando a serpente

da ditadura

que perdura

na confusão

sem tostão

a burguesia

pequena ou média

que ria

do operário sem salário

simples percalço do pé descalço.

quem vence

e convence

no caldo da cultura:

a revolução ?


Paço Arcos 2014.02.16

~~~~~~~~

marcham silenciosos

temerosos

atados

e

maltratados

sem voz

sois vós

caminham

alinhados

e

calados

silenciados

alinham

e

definham

temerosos

sem voz

sois vós


Paço de Arcos 2014.02.19

~~~~~~~~

assume o lume

assume

o lume

e

solta

a

revolta

a

canção

da

revolução


Paço de Arcos 2014.02.19

~~~~~~~~

sem lamentos

com a tristeza

em riste

cantas

mas não espantas

o escarmento

lamentas

o teu

sofrimento

as rimas

lastimas

em pensamento

sem talento

bolorento o pão

avaro


Paço de Arcos 2014.02.19

~~~~~~~~

de escárnio e maldizer

a cantiga

pobre

a rapariga

estéril a espiga


Paço de Arcos 2014.02.19

~~~~~~~~

cantiga d'amigo

semtigo

sem abrigo

sentido ceitil

sem til

sentada

pasmada

de castigo


Paço de Arcos 2014.02.19

~~~~~~~

faz sol

em

dó ré mi

à sombra

arrefece

ao sol

não aquece

luminoso o dia

que esfria

de cinza

a claridade


Setúbal 2014.02.21

~~~~~~~~

claro o dia

que esfria

a

luminosidade

de

cinzas


Setúbal 2014.02.21

~~~~~~~~

grão a grão

aumenta o cifrão

e

o milhão

do patrão

é

a canção

do ladrão

(des)graças

do sono teu

nosso o pesadelo


Setúbal 2014.02.21

~~~~~~~~

mobiliza a dor

da fome

com ardor

acende o lume

do perfume

liquida o estrume


Setúbal 2014.02.21

~~~~~~~~

o operário

com mau solário

o camponês

sem a rês

e a classe média

que ria

pequena ou média burguesia

com azia

do capital

a razia

é fatal ?


Setúbal 2014.02.21

~~~~~~~~

mar-oceano a planície

monte maior

ou

menor

ilhas de pedra e cal

polvilhéus

imenso o calor

imersa a dor

da secura

na corredoura

o frio da telha vã

de verde a seara

em aberto campo

de vermelho o horizonte

ígnea a colheita

o magma


Setúbal 2014.02.22

~~~~~~~~

sinuoso é o rio

lento

ao relento

temeroso

é o tempo

encolhido

não há sol

nem luar

à beira-mar

em espuma

se desfazem

as ondas

na margem

do vento

sem assento

em turbilhão

Setúbal 2014 02 21

~~~~~~~~

gato que brincas na rua

gato

que brincas

na rua

a beira-mar

ao luar

não é minha

mas

é

tua

a liberdade

de

vadiar


setúbal 2014.02.23

~~~~~~~~

nús

com pús

purulentos

e

macilentos

na rede

com sede

enleados

e

oleados

capacho

são

ou não ?


setúbal 2014.02.23

~~~~~~~~

o gato

não é pato pató

ao ri- sol

não esfria

aquece

e

não arrefece

lampeiro

no

boieiro


Setúbal 2014.02.23

~~~~~~~~

triste traste

triste

traste

all-quebrado

e

cansado

vegetando

na ínsula


setúbal 2014.02.24

~~~~~~~~

tiritas

de medo

ou

de frio

não sei

e

não rio


setúbal 2014.02.24

~~~~~~~~

o cansaço

do baraço

às braçadas

é meu

teu

o

abraço ?


setúbal 2014.02.24

~~~~~~~~

com mil olhos

e

dez mil bocas em cadeia

na verdade

sem vida

de interditos

benditos ou malditos

é

a cidade

entre dentes

a serpente

em surdina


setúbal 2012.02.24

~~~~~~~~

em casa minha

os

livros são como coelhos

e de joelhos

estou

do chão ao tecto

não em adorações

de andores

mas em arrumações

com dores

tarefa infinda

dia-a-dia

na berlinda

pum catrapum


setúbal 2014.02.24

~~~~~~~~

abril

das águas mil

em maio

no funil

otário

na boca larga

o povo

'tormentado

no estreito

canal

em cornucópia

os cifrões

crescente

de bolsa

a(ba)rrotando

os salafrários

e

os

seus patrões


setúbal 2014.02.25

~~~~~~~~

na festança

da abastança

o povo

com apneia

e a classe média

pequena ou média burguesia

com azia

todos proletários

os otários

ricos

os mafarricos


setúbal 2014.02.25

~~~~~~~~~~

hoje não falamos de flores

hoje não falamos

de flores

nem de amores

ardores

ou andores

hoje falamos

dos nós

sem voz

lassos de embaraços

hoje falamos

de nós

(quase) todos

sem pauta

e

a malta

sem acordo

desafinando

e

desfiando


setúbal, 2014.02.24

~~~~~~~~

não esperes

nem desesperes

na esfera

escuta

não é nossa

a lei deles

a da submissão

revolve

a

revolta

e

canta

no ovo

contra o polvo

firma

e

afirma

a revolução


setúbal 2014.02.26

~~~~~~~~

presa e represa

presa

e

represa

nas teias

não ateias

nem incendeias

receias


setúbal 2014.02.26

~~~~~~~~

o mistério do saltério

sentes

e

no ministério

mentes

psalmo a palmo

as palavras

em tiras

tiaras

das mentiras

ao rés do chão

sem pão nem a vinha

advinha

a

adivinha

em sentido

neste sentido

que sentido

o sentido

sem ti

sentado

pasmado


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

trincas as palavras

trincas

as palavras

as tintas

retintas

e brincas

lavrando

e

lavando

as palavras


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

trancas as palavras

trancas

as palavras

o olhar

sem

vaguear

nem

vadiar

brancas

ou

negras

as sílabas

o sílabus


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

nú esteiro

esteio

sem receio

mordes

e

remordes

o seio

avulta

a vulva

encoberta


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

na janela aberta

encoberta

estás

coberta

de véus

sem a descoberta

tecida de receios

de medos

sem arremedos


setúbal 2017.02.27

~~~~~~~~

no recreio

enleada

mordes

e

remordes

a

imaginação

desenfreada

sem

o

freio

do

receio

a ventura

sem cobertura ?


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

na pousada

da poesia

as palavras

são

os sonhos

encobertos

do leitor

e

do

autor

anelo

anel de papel

pesadelo

rimando

ou remando

com

flores

ardores

andores

e

dores

ou nada

rimando

e

remando

ou

naufragando


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

à lareira

ponteias

na braseira

com areia

não ateias

a teia

nem incendeias

remedeias


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

pétala a pétala

pétala

a

pétala

silabando

e

rimando

é tecido

o poema

teorema

cálido

ou

ventoso


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

não há entre nós palavras belas

não há

entre nós

palavras belas

nem versos

apenas reversos

pois não escutas

o que escrevo

escrevo

como se

entre o meu cérebro

que comanda

e as minhas mãos

que executam

dedilhando

eu não estivesse

mas sim a máquina

em que me transformo

e

tu

não entendes

o meu cansaço

é o da máquina

que não sou

e tu insistes

na minha desumanização


setúbal 2014.02.27

~~~~~~~~

são ocas as tuas palavras

são ocas

as

tuas

palavras

balofas

balelas

sem velas

desfolhadas

são de areia

a tua determinação

uma

efabulação

brlham talvez

com a leveza

etérea

do pechisbeque

uma borboleta

que volteia

e

não

aquece

a

chama

os teus mimos

não são arrimos

mas pantominas


setúbal 2014.02.28

~~~~~~~~

calamos as palavras

e morremos

sem as dizermos

resguardamos os gestos

dos afectos

e partimos sem

os

partilharmos

em semi-breve

enleamos de nós

a meia-voz

a vida

vivida

e

morremos

sem cantarmos


setúbal 2014.02.28

~~~~~~~~

com teu receio

de

permeio

as flores

fenecem

nas

dores

e

o

cais

deserto

de naus


setúbal 2014.02.28-