Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

entre eros e afrodite 33 - nas brumas do tempo e da memória 01

* Victor Nogueira

Uma vez mais deambulei pelas feiras das velharias e entre o que comprei ... ao ver o meu interesse por um maço de papéis amarelecidos, manuscritos com uma letra miúdinha e rápida, o vendedor  ofereceu-mos, num gesto largo e (aparentemente) desinteressado. Afinal sempre sou um cliente habitual Eram talvez o espólio de alguém falecido,  perdido numa gaveta dum qualquer armário vendido a peso pelos sobreviventes. Ao chegar a casa sentei-me na sala, os pés apoiados na cadeira defronte, a música em surdina quebrando o silêncio da noite. Foi num  crescendo de interesse que fui decifrando os hieroglifos e resolvi partilhar convosco parte dos papéis, selecionando esta e aquela passagem, para construir um texto  corrido, dividido em duas partes. Eis a primeira delas.

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Não sei se lá fora chove ou não. Mas está vento, porque as janelas e persianas batem cadenciadamente. Olho pela janela, gesto maquinal, e para lá das plantas e da varanda está o negrume da noite, pontuado lá ao longe por luzes brilhantes e dispersas. Também sei que está nortada porque a casa está cheia de correntes de ar, incómodas e cortantes.

Estou cansado e pesa-me o silêncio, mas não tenho música a tocar. O domingo foi triste, frio e cinzento; passei o dia fechado em casa e não comprei jornais. Continuei a escrever o meu infindável livro de viagens. Há sempre um acréscimo a fazer.

Acabei de ler um livro de Fernando Dacosta, chamado Máscaras de Salazar, feito essencialmente de colagens de pequenos testemunhos do personagem e de quem com ele conviveu, convenientemente interligados. É um livro que se lê duma penada, com agrado, mas que me não trouxe novidades. Tinha-me sido recomendado pelo sr. Graça, livreiro da Antecipação. Li, confirmando no catálogo aí comprado em Coimbra, que foi o escultor António Duarte quem fez os moldes da máscara funerária e da mão direita de Salazar após o seu falecimento, sem que depois aparecessem interessados, segundo Dacosta, o que é desmentido no referido catálogo, pois embora o molde em gesso pertença ao escultor, existem bronzes numa colecção particular. Ora, independentemente do que Salazar tenha sido, é inquestionável que foi um personagem determinante e marcante na história portuguesa e condicionante do desenvolvimento dos portugueses e dos povos das colónias. Inválido, muitos se afastaram, morto, muitos o esqueceram ou desprezaram, o espólio disperso quando não vendido ao desbarato, a casa da aldeia em ruínas, a estátua estralhaçada por uma bomba em Santa Comba Dão, onde quem afinal vence eleições parece ser o Partido Socialista.

Mas, deixando as leituras e reflexões, que fiz mais? Andámos os três em arrumações: aspirar a casa, limpar o pó, descongelar o frigorífico e a arca, matar as baratas que parece terem vindo para ficar, limpar azulejos e casas de banho. Nos intervalos ouviu se música, umas vezes escolhida por mim, outras pelo Miguel. Era para ver um filme português, Oxalá, de António Pedro Vasconcelos, mas como entretanto me apercebi que na TV estava a dar uma fita do James Bond interpretada pelo já envelhecido Roger Moore, acabei por escolhê-lo. A história era uma cowboyada, essencialmente passada num comboio, mas como envolvia uma companhia de circo com números circenses e algum humor, acabei por vê lo até ao fim.

Ainda não vi a 5ª e 6ª séries d'O Polvo. Qualquer dia tem de ser, pois não vale a pena esperar por ti, senão esqueço os episódios anteriores. Entretanto, nestes dias de recolhimento forçado, vi um documentário de Mariana Otero sobre a SIC e o debate entre Álvaro Cunhal e Mário Soares. A SIC reagiu mal àquele documentário, que comprou e passou de madrugada. A mim não me trouxe novidades, mas passado em horário nobre poderia eventualmente levar ingénuos tele-espectadores, que são a maioria, a mudarem de canal e lá se iam as audiências, a publicidade e os lucros do sr. Balsemão e Pandilha.

Quanto ao debate, embora ambos os intervenientes dissessem coisas com interesse, este foi um pouco monótono, pois qualquer deles se limitou a ler as folhas, com maior ou menor ênfase, com pior desempenho e embaraço do Cunhal no que se refere à leitura. Foi mais vivo quando passaram ao taco-a-taco. Entre a assistência estavam jovens, muitos, e menos jovens, bastantes, aqueles com ar interessado, artilhados de bloco e caneta para as notas que raramente tomavam, estes muito sérios, alguns mesmo com cara patibular. Durante a intervenção do Soares um assistente da 1ª fila dormia esparramado na cadeira, a cabeça apoiada na mão. Mas fora este, a câmara não focou pessoas a bocejarem ou com ar de muito enfado.

Na assistência distinguiam se algumas celebridades: Durão Barroso, Francisco Louçã, Pezarat Correia, Pedro Canavarro, Jorge Coelho, Medeiros Ferreira, Fernando Rosas ... Alguns dos assistentes sobretudo os menos jovens, mostraram-se pouco à vontade quando focados pela câmara, outros não esconderam o seu inchaço, talvez babosos para o vídeo lá em casa gravando para a família e para a posteridade. Contudo, a 2ª parte do programa televisivo foi perfeitamente surrealista: nela participaram três jornalistas: Maria João Avilez, Bettencourt Rodrigues e Vicente Jorge Silva. Aquilo foi um fartar vilanagem a desancar no Álvaro Cunhal, a propósito e, sobretudo, a despropósito, com especial relevo para os dois últimos e alguma moderação da Joãozinho Avilez. Uma autêntica masturbação, daquelas que se admitem lá em casa ou à mesa do café, em roda de família e amigos, mas não para massacrar os telespectadores.

E, neste ponto da leitura, imagino-te a murmurar: mas que raio de carta, ainda não me chamou amorzinho uma vez que fosse ou me disse que tinha saudadinhas minhas ou me mandou beijinhos. Pois é ! ...

Levanto-me, fecho a janela da sala e as correntes de ar diminuem, embora continue a entediante batida de portas e janelas. Continuo cansado, dói-me a garganta, que parece estar por dentro aos folhos, e tenho o nariz semi-entupido. Levanto-me novamente e vou pôr a água a aquecer para tomar o antibiótico. Não no micro-ondas mas sim no fogão a gás, porque o micro-ondas começou a fazer um ruído estranho e resolvi pô-lo fora de serviço. Não imaginas a falta que faz. É como se de repente deixássemos de ter electricidade e passássemos a ser alumiados com luz de vela ou candeia. Uma seca! A propósito, embora elegantes, as chávenas brancas que comprei contigo para substituir as que se foram partindo têm pouca estabilidade e são fáceis de entornar quando postas aqui em cima da mesa onde trabalho, no meio de livros e papéis; é preciso mais cuidado. Por vezes não se pode ter tudo: ou estabilidade, ou elegância!

Recebi três postais teus, havendo um quarto em Leiria, devendo amanhã chegar outro lá abaixo à caixa do correio. Como nos telefonamos, mais propriamente sou eu que o faço, por escrito poucas novidades temos a dar. Ainda bem que os postais apareceram todos.   

Embalado nesta conversa, bebi o café sem tomar o antibiótico, o que se remedeia com o resto da água quente que ficou na cafeteirinha e que previdentemente não havia despejado no lava-louças! Resolvido este incidente, prossigamos.

Devo te algumas coisas: a tua ajuda,  quando não é impositiva, a tua presença quando fiz o exame no Vasconcelos, a tua companhia e alguns momentos de alegria. O que te devo é pouco, face ao muito que os teus filhos te devem, a ti que te sacrificas e continuzas a permitir que condicionem a tua vida e decisões, apesar de já adultos. Sou lúcido, por vezes demasiado, e não sou de modo algum do estilo mãe galinha, sempre pronta a passar uma esponja sobre as suas crias e a ver com olhos negros e chamejantes as crias dos outros, como sucede contigo.

Enquanto estás para aí, eu estou para aqui. O tempo passou e já são três da manhã, sem que o meu cansaço ou fartura da vida e das pessoas tenha diminuído. O barulho provocado pelo vento amainou e o silêncio apenas é quebrado pelo zumbido contínuo do ventilador do computador e pelo tac tac mais ou menos regular, mais ou menos rápido, do teclado. A violenta tempestade passou, tempestade que fazia bater as janelas com fragor, conjuntamente com a porta de acesso ao terraço que se deve ter aberto e, em vai-vem, soava com estrondo.

Diz a sabedoria popular que não há uma sem duas nem duas sem três. Como já estão três páginas escritas, vão sendo horas de ir para Vale de Lençóis, para os braços de Morfeu, na companhia esquiva mas pronta e quase sempre fiel da Joana Pestana.

Creio que é muito difícil encontrarmos alguém que corresponda inteiramente áquilo que desejamos. Cada uma das pessoas que nos surge na vida tem aspectos que nos atraem com maior ou menor intensidade ou que nos afastam. E cada um destes aspectos assumirá maior ou menor importância conforme o nível das nossas aspirações, conforme o nível do relacionamento pretendido. Exigimos diferentemente conforme se trata do contacto ocasional, do vizinho, do colega de trabalho, do amigo, do camarada de partido ou do sindicato. Obviamente exigimos muito mais daquele que é ou será o nosso companheiro de vida, perante o qual se procura não ter máscaras ou disfarces. O que não significa que cada um de nós não tenha direito á sua reserva de intimidade, que terá a liberdade de expor e compartilhar ou não.

A minha terra está longe, noutro continente, para lá do Equador, já não é a mesma e não sei se alguma vez lá voltarei. Por outro lado, já morei e já estive ou andei por muitas terras, já conheci muita gente, largos milhares de pessoas, já tive e perdi muitos amigos porque o tempo, os lugares, a vida (ou a morte) e a política dificultaram ou cortaram a convivência. Gostaria que a vida fosse um eterno presente, com todos os lugares e todos os amigos ali sempre ao alcance da vista, da mão e da voz. Mas nada disto acontece e tu nada entendes da minha vida e sentir, porque és como és. Há pelo menos três poemas meus que "falam" disto.

Como te disse tenho mais amigas do que amigos, e a maioria deles já vêm de longe. São amizades que nuns casos já têm cerca de 40 anos, noutros apenas sete ou oito. São na esmagadora maioria amizades anteriores ao meu casamento ou posteriores ao meu divórcio, porque as amizades do casamento "foram-se" com o divórcio. Não tenho qualquer problema em apresentar-te ás minhas amigas, se e quando entender oportuno e conveniente. Mas não tenho que fazê-lo face aos teus descabidos ciúmes, "exigências" de rompimento de amizades de décadas, nalguns casos, ou com ameaças de escândalo e "pancadaria". Não és tu mas sim eu e mais ninguém quem decide das minhas amizades. Por exemplo, gosto de ajudar e ser prestável para com as pessoas. Sou amigo dos meus amigos! O que tu não aceitas ou mal entendes. 

E num outro parênteses noto que há uma grande diferença entre aquilo que tenho escrito ao longo dos tempos, desde as cartas da meninice e o "diário" de adolescente (secos, lacónicos, objectivos), passando pelas "filosofias" psicologizantes dos meus tempos de "perdido" em terra estranha de Portugal como universitário, "desenraizado" ainda hoje neste "jardim á beira-mar plantado", até ás cartas que passei a escrever a partir dos 25 anos. Como há uma grande diferença entre o meu desinteresse pela poesia, até começar a escrevê-la, primeiro apenas em momentos de crise e de angústia, até passarem a reflectir outros sentimentos, desde a "seriedade" que caracterizava os primeiros poemas até à ironia, humor ou brincadeira das que escrevi após o meu divórcio. Há pessoas que influenciaram a maneira como escrevo ou a forma utilizada. Quando leio o que escrevo, leio como se tivesse sido outrem que tivesse escrito e não eu e gosto mais ou menos do que escrevi e comovo-me mais ou menos não porque tenham sido escritas por mim mas porque também me comovo ou sensibilizo com o que outros escreveram, por exemplo, poetas como Eugénio de Andrade, António Reis, António Gedeão, Brecht ou Shakespeare. Mas tu consideras- te o centro único da vida e dos afectos de quem gostes e não tens sido capaz de sair para além do teu umbigo.

Não aceito abdicar do meu espírito crítico, não tenho sentimentos exclusivistas e de posse das pessoas, no meu "coração" há lugar para todos, cada um no seu canto e com a dimensão adequada.

E por isso não adoro quem quer que seja - homem ou mulher, pai ou mãe, filho ou filha, amizades ou amante e companheira. A adoração e a paixão são intolerantes e cegas e nada têm a ver com a razão, o entendimento e a compreensão das pessoas, das coisas, dos sentimentos, das relações humanas e sociais. O que não significa que a minha amizade ou o meu amor não sejam valiosos.

Sei o que é uma pessoa gostar imenso doutra, pôr nela a esperança e o futuro, sei o que é "subir ao céu e á lua e cobri‑los de estrelas" quando estamos com ou pensamos na pessoa por quem estamos "enamorados", sei quanto custam a (des)ilusão e o (des)encanto, os sentimentos não correspondidos.

Apesar de tudo que nos tem separado, o tempo e a convivência criaram em nós laços e em mim sentimentos que em vários momentos me têm levado a querer estar contigo, a sentir a tua ausência, porque para além do que nos separa, tens qualidades e aspectos que me aproximam de ti, nos momentos em que parece tudo estar resolvido. 




Madalena Mendes
Muito belo! Obrigado pela partilha dos mistérios da escrita! E da vida!
8 ano(s)Editado

Fatima Mourão
lindo ❤
8 ano(s)

Isabel Dias Alçada
Obrigada por partilhares comigo estas tuas descobertas , beijos meu amigo do ❤
8 ano(s)Editado

Clara Roque Esteves
Também ando nessa tarefa.
8 ano(s)

Cecília Barata
❤
8 ano(s)

Deolinda F. Mesquita
Muito bonito. Obrigada Victor.
8 ano(s)Editado

Elsa Cardoso Vicente
Obrigada por partilhar
8 ano(s)

Maria João De Sousa
Magnífico "achado", o teu! Obrigada pela partilha, Victor Barroso Nogueira! Abraço!
8 ano(s)

Carlos Rodrigues
É bom achar escritos assim. Obrigado Vitor.
8 ano(s)

Maria Lisete Almeida
Bem haja Amigo Victor Nogueira. Continuo a adorar os seus "escritos". Abraço.
8 ano(s)

Jose Conceição
Partilho consigo o mútuo conhecimento do amigo Graça, na Livraria Antecipação, onde comprei muitas dezenas de livros, e frequentei com amizade, para a partilha de muita sabedoria experiência de vida do casal Graça.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

em torno de s. martinho ou as palavras são como ginjas, umas a seguir às outras

* Victor Nogueira
(texto e fotos, excepto  as que representam os quadros de Malhoa e a Virgem do Leite e a escultura da Senhora do Ó)



José Malhoa - O S. MartinhoJ 


Quem não conhece o São Martinho, da castanha assada e do bom vinho? Conhecer, conhecer, talvez não, pois há muito que a ter existido se transformou em pó e cinzas.

Quem não se lembra dos homens das castanhas, com os seus “carros” ambulantes, puxados à mão ou atrelados a uma motoreta, com os  fogareiros fumegantes nas esquinas das povoações, vendendo-as em cartuchos cónicos de papel de jornal ?  "São quentes e boas!", entoam os/as vendedores/vendedeiras. Mas hoje em dia o preço das castanhas, muitas estragadas, está pela hora da morte. Enfim ... adelante.





Foto Victor Nogueira - Paço de Arcos pelo Verão de S. Martinho em 2014 

Também há o Verão de S. Martinho, mas a tradição já não é o que era. Aqui nestes dias entre Lisboa e Setúbal o tempo tem estado frio, cinzento, chuvento, por vezes aguaceiroso. Com algumas abertas soalheiras, de sol de inverno, com céu azul coalhado de nuvens brancas. Bom para fotografias, incluindo o pôr-do-sol.


Foto Victor Nogueira - pôr do sol em S. Martinho do Porto 

S. Martinho foi também imortalizado num célebre quadro do pintor José Malhoa, com vasta obra exposta num dos museus das Caldas da Rainha. E perto desta ficam Óbidos e o seu afamado e saboroso licor de ginja, que nada tem a ver com as mistelas dos supermercados. Já agora, Óbidos é uma encenação, pois a vila foi completamente arrasada pelo terramoto de 1755, que destruiu completamente inúmeras povoações da Beira Litoral até ao Algarve, muito, mas muito  para além de Lisboa. E perto desta vila, atravessando a serra do Bouro, desembocamos na povoação de S. Martinho do Porto e a sua “concha” lagunar. Aqui, numa das minhas eternas andanças e “peregrinações” de photoandarilho, encontrei a imagem dum cavalo branco num quadro em destaque no altar mor duma igreja. Bem, o cavalo está acompanhado de S. Martinho e do mendigo que seria Cristo, segundo reza a lenda. Como esta cena insólita uma outra, num altar da Igreja da Misericórdia duma vila Alentejana, num painel de azulejos, uma sereia de seios ao léu.

É verdade que outrora em muitas igrejas católicas havia representações escultóricas ou em quadros da Senhora do Ó, representado a Virgem com um seio desnudo amamentanto o Menino, mas esse culto foi proibido e muitas das representações destruídas, devido à "pudibundícia" e misogenia da Igreja Católica, seus sacerdotes e respectivas hierarquias. A tallhe de foice, é contraditório o culto e eudeusamento, idólatra,  católicos da Virgem Maria, que teria concebido por obra e graça do Espírito Santo, e a menorização e diabolização das mulheres, de carne e osso. Incluindo Eva, que em meu entender teve o enorme mérito de quebrar a submissão do homem e libertá-lo dos dogmas e questionarem o Mundo, o Bem e o Mal, incluindo Deus e a "ordem" divina, em si inquestionável. Uma vez mais .... adelante.


Foto Victor Nogueira - igreja de S. Martinho do Porto


E, do meu inacabado Livro de Viagens. as notas em torno de S. Martinho do Porto

Da Foz do Arelho, nas terras da Rainha, a S. Martinho do Porto, nas terras do Mosteiro [de Alcobaça] de que foi granja, podemos seguir pelo cume da Serra do Bouro, cuja altitude é de apenas 162 m, sobranceiro ao mar, primeiro caracterizada por ser ventosa, com vegetação rasteira, inóspita, que vai dando lugar a arvoredo à medida que nos aproximamos de S. Martinho. Não obstante o deserto, na encosta norte até ao vale existem alguns casais, como o de Celão e o das Cidades, de ruas ingremes, estreitas e casas arruinadas. Alguns moinhos estão reconvertidos em residências. No Cabeço da Vela, à berma da estrada, uma enorme eira, reconstruida recentemente.


Foto Victor Nogueira - na serra do Bouro

         Numa povoação que um velho mal-humorado me diz ser a da Serra do Bouro, registo nomes de ruas como a das Hortas, da Prata, do Loureiro, do Centro Social, do Chafariz e dos Quintais. Em Casal Celão reparo na rua  dos Ribeiros. (Notas de Viagem, 1998.02.09 e 24)


Foto Victor Nogueira - na serra do Bouro

         Vagueando de noite pela serra, deparamos com o que resta da estação do caminho-de-ferro, perdida num ermo, um barracão de madeira longe da povoação. Da estação resta apenas este fantasmagórico armazém e no chão a marcação do edifício demolido e roseiras do jardim que outrora alindavam o local. Nesta existe uma pequena igreja branca, adjacente ao cemitério e a um coreto de betão armado, com coberto.  (Notas de Viagem, 1998.02.24)

         S. Martinho do Porto

         Chove desalmadamente na noite em que vamos a S. Martinho do Porto, em baia conchiforme que figura num azulejo à entrada da povoação, em curva apertada onde não se pode parar o carro, pelo que sigo caminho. A chuva não convida a passeios pedestres e da povoação retenho as ruas molhadas, a iluminação, as casas ao longo da baia e outras pela encosta acima.

         De dia noto que os cabeços das colinas em volta estão cobertos de moinhos, muitos com ar de abandono. (Notas de Viagem, 1997.10.26)

         Por acaso, doutra feita, sigo por uma rua acima e tenho uma surpresa agradável, pois vou ter ao centro antigo da povoação, que afinal não se resume à estrada marginal. Esta parte tem algumas parecenças com Aljubarrota, na brancura das casas e na estreiteza das ruas; num largo que pouco mais é que o alargamento duma rua encontra-se a incaracterística Igreja Paroquial de S. Martinho. Insolitamente, no altar mor, um enorme quadro representa S. Martinho ... e o seu cavalo branco! Nunca tal vira, a imagem dum animal no altar‑mor! Mais adiante, em direcção à baia, um fontenário amarelo, mandado construir no século XIX com o legado de José Bento da Silva, personagem que reaparece mais adiante, num aprazível largo sobranceiro ao mar.

         O que há de notável nesta povoação, procurada pela burguesia para banhos, é o mostruário de variados estilos arquitectónicos, de várias épocas, que se encontram ao percorrer as suas ruas.

         Prosseguindo a subida. em busca do pôr-do-sol, subimos ao Monte do Facho, algo inóspito, donde se avista a entrada da barra e, mais adiante, S. Martinho e Salir do Porto. (Notas de Viagem, 1998.02.09 e 24)

S. Martinho do  Porto - carta topográfica

         Salir do Porto

         Foi esta povoação porto de mar e estaleiro naval, até que o assoreamento da barra transferiu esta função para S. Martinho, povoação fronteira, que sofreu o mesmo destino sem que pudesse transferir aquelas funções. O mar já não vai terra adentro, até Alfeizerão e à Cela, e a concha de S.Martinho é alimentada por um modesto riacho que passa por entre as dunas de areia.

         A povoação, que foi outrora importante e pertencia às terras da Rainha, hoje é mais modesta e à noite uma e outra reflectem as suas luzes no negrume da escuridão. Um parque de campismo por entre as dunas, que me parece não ter condições, não constitui concorrência ao cosmopolitismo da povoação que lhe fica defronte.

         Pelas ruas ingremes ascende-se a um pequeno largo ajardinado em escadaria, no topo do qual se situa uma bica. Mais para cima sobressai a brancura da Igreja, no topo duma pequena escadaria.   (Notas de Viagem, 1998.02.09)

Os pescadores de Salir do Porto, nas terras da Rainha, estavam obrigados a manter um determinado número de caravelas para pescaria e a fornecer ao rei 1/3 do pescado, para que este e sua comitiva pudessem sobreviver durante as estadias no Paço da  Serra d'el Rey ou no de Monte Real.  (Notas de Viagem, 1997.12.05 e 1998.02.23)



Mapa da região Oeste, incluindo S. Martinho do Porto 

Neste mapa se localiza a região atrás referida, incluindo os Coutos do Mosteiro de Alcobaça. Não figura Óbidos, a SE das Caldas da Rainha, que fazia parte das Terras da Rainha. No canto superior direito a partir da "concha" de S. Martinho, encontram-se os coutos de Alfeizarão e da Cela, até onde chegavam as águas oceânicas e os barcos. Se quiseres viajar pelos coutos de Alcobaça e cercanias, segue este camnho:

entre as caldas e óbidos 01
entre as caldas e óbidos 02
entre as caldas e óbidos 03
de caldas a benedita e rio maior passando pelos coutos de alcobaça
por alcobaça 01
por alcobaça 02
por alcobaça 03
por alcobaça 04
por alcobaça 05 e nazaré



E para terminar, "o homem das castanhas", um poema de Ary dos Santos cantado por Carlos do Carmo:



 * Ary dos Santos - O Homem das Castanhas

Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.


Foto Victor Nogueira - Alvito - painel de azulejos num altar da Igreja da Misericórdia

Em tempo - no melhor pano cai a nódoa. Ao procurar pela iconografia, verifiquei que confundira a Senhora do Ó com a Senhora do Leite. Se o culto proibido foi o da primeira, da devoção das parturientes, a sua representação era a duma mulher pejada,  em adiantado estado de gravidez, o que não estava muito de acordo com a pretensa virgindade da Senhora e seu emprenhamento pelos ouvidos, por obra e graça do Espírito Santo.


Foto Rui Pires - Senhora do Ó (Museu de Lamego - in  http://lamegoimage.blogspot.pt/2011/02/museu-de-lamego-portugal.html



Virgem do Leite séc. XVI - Oficina de Bruges  - pormenor - Museu de Aveiro - in http://artalongtheages.blogspot.pt/2011/08/aveiro-museu-de-aveiro-parte-2.html