Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

terça-feira, 12 de novembro de 2019

pingos do mindelo -18.19 p'ra não dizer que não falei das flores

* Victor Nogueira

Comecemos pois não pelas do quintalejo, vistas e revistas que o tempo não estará para florescências, mas recuando até aos tempos do senhor D. Dinis e as suas "flores do verde pino".


"La Batalla" & Pedro Caldeira Cabral - "Ai flores do verde pino" do disco "Cantigas D'Amigo" (1984)

__ Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
    Ai Deus, e u é?

__ Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
    Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
    Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do qui mi á jurado!
    Ai Deus, e u é?

__ Vós me perguntardes polo voss'amigo,
e eu bem vos digo que é san'vivo.
    Ai Deus, e u é?

Vós me perguntardes polo voss'amado,
e eu bem vos digo que é viv'e sano.
    Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san'vivo
e seera vosc'ant'o prazo saído.
    Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv' e sano
e seera vosc'ant'o prazo passado
    Ai Deus, e u é?

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Mas continuando, umas centúria depois, Geraldo Vandré também falou de flores, aqui na voz de Zé Ramalho:


vídeo Guilherme Junqueira
Zé Ramalho - "P'ra Não Dizer Que Nao Falei Das Flores", de Geraldo Vandré (1968)

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantado e seguindo a canção
Vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Pelos campos a fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição:
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Vem vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

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Chuva e frio,, frio e chuva, chuva e frio, frio e chuva, de vez em quando com uns raios de sol.

SEM ABRIGO. mULHER ABANDNA RECÉM NAScido
parlamento chega livre iniciativa liberal
fascismo em marcha
américa latina
amália




segunda-feira, 11 de novembro de 2019

pingos do mindelo 17.19 - entre o "Clair de Lune" e o pôr-do-sol, com ... mais flores, mais flores, mais flores!

  Tintin, criação de Hergé


* Victor Nogueira

Em anteriores pingos falou-se de Paul Verlaine e do seu poema "Claire de lune", que foi objecto de composição musical por Claude Débussy (Suite bergamasque), Beethoven (Sonata para piano nº. 14 em C♯ menor "Quasi una fantasia", Op. 27, No. 2) e por Gabriel Fauré [Op. 46 "Two Songs" (1887)], que se apresenta de seguiida.


Teresa Stich-Randall e Gerald Moore -"Clair de lune", por Fauré / Verlaine-

Em contraponto, um "Madrigal renascentista - Estrela no Céu é Lua Nova". do folclore afro brasileiro,um arranjo de Heitor Villa-Lobos.



Estrela do céu é lua nova
cravejada de ouro ma kumbêbê,
Óia ma kumbêbê,
Óia ma kumbaribá,
Estrela do céu é lua nova
cravejada de ouro ma kumbêbê
Óia ma kumbêbê,
Óia ma kumbaribá.

E, para finalizar este intemezzo, duas interpetações da canção estudantil coimbrã: "À Meia Noite Ao Luar"


Estudantina Universitária de Coimbra - "À Meia Noite Ao Luar"


Nuno da Câmara Pereira - " À Meia Noite Ao Luar"

À Meia Noite Ao Luar - tradicional do fado Coimbrão

Á meia noite ao luar
Vai pelas ruas a cantar
O boémio sonhador

E a recatada donzela
De mansinho abre a janela
À doce canção de amor

Ai como é belo
Á luz da lua
Ouvir-se um fado em plena rua

Sou cantador apaixonado
Vibrando as cordas
A cantar o fado

Dão as doze badaladas
E ao ouvir-se as guitarradas 
Surge o luar que é de prata

Mas, descendo à terra, por vezes há dias de sol aqui pela nortenha, fria e nublada Scotland,  como diz o meu amigo Carlos, que se havia habituado aos quentes verões eborenses e às tépidas e amenas temperaturas lisbonenses. É de seguida um pôr-do-sol, ali na Ponta da Gafa, aqui no Mindelo. Na foto aparece uma recorrente fotógrafa amadora, referida por mim num anterior "pingo", embora ela more à beira-mar e só tenha de atravessar a rua, enquanto eu estou a uns 2 km da Gafa e tenha de percorrer toda a longilínea Rua da Praia para lá chegar.

Dias de sol  ....




A fotógrafa fotografada 




... noites e dias de chuva






"Veneza" no milheiral, após uma noite de temporal



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Este é verdadeiramente um pingo de complementaridade. Num anterior referira "Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!", um verso dum poema de Alberto Caeiro, a seguir reproduzido na totalidade.


Alberto Caeiro
XLIII - Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto

XLIII

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

7-5-1914
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.
1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.





Mais flores, mais flores, mais flores!



Luis Cilia - "É preciso avisar toda a gente" (1967) - poema de João Apolinário

É preciso avisar toda a gente
Dar notícia, informar, prevenir
Que por cada flor estrangulada
Há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
Engrossando a verdade corrente
duma força que nada  a detenha.

É preciso avisar toda a gente
Que há fogo no meio da floresta
E que os mortos apontam em frente
O caminho da esperança que resta.

É preciso avisar toda a gente
Transmitindo este morse de dores
É preciso, imperioso e urgente
Mais flores, mais flores, mais flores.





Captação de imagens em 2019.11.03/10

domingo, 10 de novembro de 2019

pingos do mindelo 16.19 - a menina dança?

* Victor Nogueira

Num "pingo" anterior escutámos "Au clair de lune", composta por Debussy. O palco hoje é para Beethoven e a sua "Sonata ao luar".


Beethoven - "Sonata para piano n.º 14, Op. 27 n.º 2"

Voltando a Debussy, o 3º andamento da sua composição inspirou-se num poema, homónimo, de Paul Verlaine:

Paul Verlaine - "Clair de lune"

Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.

Tout en chantant sur le mode mineur
L'amour vainqueur et la vie opportune
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.

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Nunca mais soube da Guerreiro, depois de ela se despedir de servir em casa dos meus padrinhos. A Guerreiro e eu éramos da mesma idade e sempre que eu vinha a Lisboa, tinha eu 16 / 17 anos, quando estive durante um ano lectivo a estudar no Porto, alojado alternadamente em casa dos meus avós, saíamos e íamos ao cinema, como dois jovens amigos que, após o meu regresso a Luanda e durante dois anos se corresponderam. Mas entretanto ela despediu-se de casa  dos meus padrinhos, eu fui para Évora e perdemos o contacto um com o outro. Naquele tempo não havia as facilidades de comunicar possibilitadas pela internet e telemóveis, nem mesmo telefones fixos em muitas casas.

A vida dela em casa dos meus padrinhos, como aliás em Portugal a vida das  empregadas domésticas com quarto na casa dos patrões burgueses, era uma vida difícil. Tinha apenas direito a uma saida, na tarde dum domingo, cada 15 dias, não podia deitar-se antes dos meus padrinhos chegarem, fosse a hora que fosse, para atendê-los, mesmo de madrugada, e tinha de se levantar cedo e antes do meu padrinho ir para o seu escritório comercial.  A minha tia Lili, que ficava muitas vezes na casa dos meus padrinhos, de cujas filhas, a Melita e a Bita, era amiga desde Angola, gostava da Guerreiro que considerava ser muito inteligente. Anos mais tarde disse-me que a encontrara acidentalmente numa rua de Lisboa, mas para mágoa minha não se lembrou de pedir-lhe o telefone. 

A Fernanda era mais nova que eu, ela tinha 15  anos e eu 17, e é um personagem central do meu diário de adolescente. Escrevi-lhe duas ou três vezes, de Luanda e de Lisboa, mas após a minha vinda para Portugal, para em Lisboa cursar Economia as minhas idas ao Porto passaram a ser breves, normalmente apenas no Natal e na Páscoa (nas Férias Grandes rumava para casa, em Luanda) e assim perdemos o contacto e nunca mais soube dela nem das irmãs.

Mas voltando aos "bailaricos"   A minha mãe, que tinha uma voz bonita, por vezes cantarolava este  tango: "Amores de Estudante", composto em 1937 por Paulo Pombo e Aureliano Fonseca. A primeira interpretação é da Tuna do Orfeão Universitário do Porto, para mim muito superior à do Conjunto UHF, que se lhe segue.


Tuna do Orfeão Universitário do Porto - "Os amores de estudante"


UHF - "Amores de Estudante"

São como as rosas d'um dia,
Os amores de um estudante
Que o vento logo levou
Pétalas emurchecidas
Deixam no ar um perfume,
De um sonho que se sonhou.

Capas negras de estudante,
São como asas de andorinha
Enquanto dura o Verão.
Palpitam sonhos distantes,
Alinhados nos beirais
No palácio da ilusão.

Quero, ficar sempre estudante,
P'ra eternizar
A ilusão de um instante.
E sendo assim,
O meu sonho de Amor
Será sempre rezado,
Baixinho dentro de mim.

Nas minhas adolescência e juventude eu preferia e continuo a preferir a Françoise Hardy à Sylvie Vartan.  Mas é desta última a canção "La plus belle pour aller danser", escrita por Charles Aznavour et composta por Georges Garvarentz, em 1964, para o filme "Cherchez l'idole"-



 Sylvie Vartan -  "La plus belle pour aller danser"

Ce soir je serai la plus belle
Pour aller danser
Danser
Pour mieux évincer toutes celles
Que tu as aimées
Aimées
Ce soir je serai la plus tendre
Quand tu me diras
Diras
Tous les mots que je veux entendre
Murmurés par toi
Par toi

Je fonde l'espoir que la robe que j'ai voulue
Et que j'ai cousue
Point par point
Sera chiffonnée
Et les cheveux que j'ai coiffés
Décoiffés
Par tes mains
Quand la nuit refermait ses ailes
J'ai souvent rêvé
Rêvé
Que dans la soie et la dentelle
Un soir je serai la plus belle
La plus belle pour aller danser

Tu peux me donner le souffle qui manque à ma vie
Dans un premier cri
De bonheur
Si tu veux ce soir cueillir le printemps de mes jours
Et l'amour en mon cœur
Pour connaître la joie nouvelle
Du premier baiser
Je sais
QU'au seuil des amours éternelles
Il faut que je sois la plus belle
La plus belle pour aller danser


Não tendo sido de "estudante" os meus "amores",  nem mesmo ao jeito da Balada de Outono, de José  Afonso, ouçamos a  "Maria Rita", pelo Duo Ouro Negro. E no entanto seria mais feliz se fosse como outrora escrevi?

Quereria amar tudo e todos, mas sem malas, sem âncoras; ser como a ave a que o Alberto Caeiro dizia, ou pedia, "passa, ave, passa, e ensina-me a passar" (não garanto a literalidade) (NSM - 1969.05.10)


Duo Ouro Negro - "Maria Rita"

Foi um dia nas Fontainhas
Que a vi falando com umas amigas
Atirei-lhe beijos, elas riram das gracinhas
São coisas próprias das raparigas
E eu voltei, todos os dias a procurei
E soube que ela se chamava Rita
Foi a moça mais bacana que encontrei
E tinha os cabelos presos com uma fita

Maria Rita, Maria Rita
Eu pergunto à multidão, mas ninguém a viu passar
Maria Rita, Maria Rita
Dou uma vela a S. João se a voltar a encontrar

Quando chegou a madrugada
Ninguém sabia de nada
E eu voltei tão triste, tão triste
Que se ela soubesse voltava para me abraçar

Era noite de S. João
Toda a cidade estava iluminada
E toda a gente vinha em folia, em turbilhão
E nessa gente vinha a minha amada
E trazia a amarrar o cabelo negro
A mesma fita da cor do céu
Com a mão atirou-me um beijo
E entre a multidão desapareceu.

Como remate destes pingos, uma reflexão ilustrada com recurso a uma pintura de Vincent van Gogh:   "Noite Estrelada Sobre o Ródano"



De repente é como se todas as estrelas se apagassem, ficando o cansaço e esta velha vontade, por vezes renascida, de partir para longe, de apagar tudo, como se fosse possível fazê-lo para reescrever tudo de novo, rasgando o que escrevi, lixo para lançar aos quatro ventos, porque não rio nem choro nem tenho uma pedra no lugar do sentir pelo qual me deixei envolver. (...) (Setúbal, 1989.10.04)


Van Gogh - "Noite Estrelada Sobre o Ródano"

sábado, 9 de novembro de 2019

pingos do mindelo 14.19 - falando com os meus botões

* Victor Nogueira

O registo destes pingos foi ficando para trás e chegou a altura de gravar esta página que assim, embora fora da sequência, deixa de estar em branco, salpicada de caracteres que na sua simbologia pretendem ser uma forma de comunicar. 


Morten Sennah  - 16/12/2018
Beethoven's Silence - (Extended) - Composed and played by Ernesto Cortazar

O discurso lógico trai a manifestação dos sentimentos; "as palavras são (redes) de dois gumes..." e o discurso lógico uma corrente que nos arrasta para onde não queremos. Um olhar, a mão que se levanta para acariciar um rosto, os dedos entrelaçados, o corpo que sentimos junto ao nosso, a simples presença, o saber-se aqui nesta sala ou na outra, não entendes que tudo isto, na sua simplicidade, diz mais e responde e/ou acalma mais interrogações que todas as palavras? É preciso saber ler para além das palavras ou não recusar essa leitura. Lembro-me dum poema do Alberto Caeiro, cuja humildade e simplicidade me atraem, humildade e simplicidade perante as pessoas e as coisas que talvez nunca sejam minhas. Levanto-me e vou ali á estante buscá-lo. Escolho o poema que trancreverei. Hesito na escolha. Será este!

XLV - Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
 Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
 Renques e o plural árvores não são coisas, são nomes.

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de coisa a coisa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso! (MCG - 1972.07.14)

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Muitos sois e luas, encobertos ou não, passaram pelo horizonte, ora soalheiros, ora pluviosos, ora límpidos, ora nublados, ora cinzentos, ora pintalgados de azul e branco, como flocos de algodão.

Desses dias que retenho? Joacine Katar e a tentativa de "Livre", tal como o "Chega", pretenderem capitalizar e insuflar com sound-bytes para os cabeçalhos da imprensa e telejornais, embora com objectivos antagónicos? Joacine tem dificuldades de expressão oral.  São elas compatíveis com cargos tribunícios? Sendo deputada única, como pensa o Livre intervir com oportunidade e capacidade de passar uma mensagem? Que mensagens pretendem passar Joacine e o Livre, de Rui Tavares? Para lá da "igualdade" há as "diferenças". Para o reconhecimento da igualdade e do respeito pela diferença. a "vitimização" é "um" ou "o" caminho?

Um tal "de Bourbon" escreveu no "Observador"   uma patética "Carta Aberta ao "seu" Querido Portugal", epístola dum jovem de 17 anos, que em redacção corriqueira e banal no estilo e envelhecida no conteúdo "impreca" Portugal, ao modo oitocentista, com a cartilha da "liberdade" dum neoliberalismo desenfreado. O jovem envilecido teve o seu momento de glória, com "cartas-abertas" de resposta, quer na imprensa escrita, que na blogosfera. Na verdade, a "liberdade" chorada com saudosismo por gente como o "de Bourbon" tem as suas àncoras estribadas na escravatura, nas praças da jorna, nos baixos salários de quem trabalha e produz e nos pingues lucros do patronato na mão estendida à esmola e à caridadezinha, na sopa dos pobres, nos "bancos alimentares" que engordam e com que facturam as grandes superfícies comerciais, na submissão ao "senhor Morgado".

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Finalmente os pombos apareceram em velozes formações,sobrevoando e debicando no campo, onde na extrema se amontoam toros de madeira.










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As arrumações prosseguem, nestes dias chuvinhentos e gélidos. Este ano descubro que o frio se infiltra pelas frinchas das janelas como lâminas cortantes.  Mas não posso ligar os aquecedores se ando em arrumações; no quintal e debaixo da varanda vai-se acumulando  o que está à espera do carro dos monos. E não tirei fotos ao que já foi directamente para o contentor. Está tanto frio que uma noite destas tive de reforçar o "aquecimento" da minha cama com mais um edredon. Safa! Nas horas vagas bem procuro mas não há Penélope nem Dulcineia que corram para os meus braços.

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Estou tão cansado, que nem imaginam. Faço muitas vezes tenção de  sair para espairecer, se não passo as tardes em arrumações com baixa produtividade e acrescida fatiga. Mas o tempo pluvioso e cinzento e o encurtar dos dias não convidam a passeios pelas ruas ou à beira-mar. Para lá disso, apesar de todo o meu racionalismo, sou também um sensitivo e preciso de quem me abrace e  acarinhe. para recarregar as baterias. Mas isto aqui é um ilhéu e eu um náufrago solitário.  

Nestas tardes cinzentonhas, as aves cruzam os ares, em bandos, os aviões atroam ao passar lá em cima e, um dia destes, o frango assado não ficou grande coisa e estava seco. Azares de mestre Cuca!  Já melhor e mais saborosos ficaram o puré de batata e as almôndegas, mas não as ervilhas com ovos escalfados, mas neste caso o "chouriço" vendido como sendo de Lamego era uma pessegada. .

Longe, contudo, vão os tempos das perplexidades dum aprendiz de Mestre Cuca, quando as minhas tias Esperança e Lili iam de férias, ficando eu com a casa de Paço de Arcos por minha conta:  

Mestre "Cuca" I
Estou com um grave problema, pois já me esqueci das recomendações das minhas tias (eu bem lhes disse para deixarem-mas escritas): será que as batatas se põem ao lume durante 15 minutos? E quanto ao feijão verde? Deita-se no tacho quando a água ferver. E depois? Continua? Apaga-se o lume? Bem,  o que for se verá! (MCG - 1972.08.23)

Mestre "Cuca" II
Contrariamente aos outros anos, parece-me que desta vez a casa [de Paço d'Arcos] anda mais desarrumada. Ainda nem sequer lavei a louça do almoço, ali empilhada na pia. Hoje os meus parcos dotes culinários sofreram um rude golpe, ao tentar grelhar lulas. Ah!Ah!Ah! Uma "pessegada"! Espero que o esturricado saia e não dê cabo da frigideira (daquelas que estrelam ovos sem gordura!)  Se não, lá vou entrar em despesas. (MCG - 1974.09.12)

Claro que não tenho as pretensões a "Chef" e o consequente merecimento dos meus amigos Carlos Barradas e Carlos Chagas; fico-me pelo trivial, já sem a paciência e as "invenções" post 1986 e anos subsequentes. Nessa altura morava a dois passos do Urbanismo, onde estava colocado, e tinha sempre a companhia de colegas que convidava para almoçarem comigo. Era o tempo em que escrevia eu à Maria do Mar:

Cheguei há pouco da Feira [de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de .conversa com o pessoal conhecido após o jantar lá em baixo no Centro [da cidade), única maneira de variar o cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para  grandes variações e aprendizagens. Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de ter ao lado, para consulta  permanente, um dicionário da especialidade, para decifrar os termos técnicos como "refogado" ou  "esturgido" e quejandos. (MMA - 1986.07.28)

E, para concluir, uma receita oferecida a uma certa "Maria dos Mil-Sóis Rendilhados"


RECEITA PARA UMA MENINA CALADA

Em toalha de renda
planta-se uma seara de gestos e palavras
sem novelo, q.b.
………….. azul de amizade, macia como veludo
………….. murmúrio do mar com sol a nascer
 …………..ósculos, dois, odoríferos.
Estende-se bem e junta-se um traço de união
…………………………ternura e uma esmeralda
Leva-se ao lume em fogo brando.
À parte no almofariz mistura-se
uma pitada de sal, pimenta, salsa vinho e pão.
Junta-se tudo e agita-se com delicadeza suave.
.
Serve-se fresco com doce riso   sem rodela
.………………………………….au clair de la lune
Próprio para qualquer estação
………acompanhado de açucenas
…………………….malmequeres
 …………………...orquídeas e
.…………………...rosas em fundo verde.

1991.Agosto.08 - Setúbal



Debussy - "Clair de lune"


captação de imagens em 2019.11.03/07

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

auto-retrato monástico

* Victor Nogueira




mindelo 2019.11.06 - auto-retrato monástico, sem que se vislumbre qualquer Penélope no horizonte. Carago, está um frio do caraças, gelidamente envolvente e cortante, o cansaço infiltrando-se por todos os poros.


Tudo está cinzentonho, os sonhos transformado em pesadelos, como tecida teia que não ateia nem incendeia, não aquece mas arrefece, o tempo, o corpo e a alma.

Fernando Pessoa - Do vale à montanha

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.
24-10-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).
- 146.

pingos do mindelo 15.19 - o cavaleiro-monástico

*  Victor Nogueira



mindelo 2019.11.06 - auto-retrato monástico, sem que se vislumbre qualquer Dulcineia no horizonte. Carago, está um frio do caraças, gelidamente envolvente e cortante, o cansaço infiltrando-se por todos os poros.

Tudo está cinzentonho, os sonhos renascidos como pesadelos, tecida a teia que não ateia nem incendeia, não aquece mas arrefece, o tempo, o corpo e a alma.




Don Quixote (1955), por Pablo Picasso

Fernando Pessoa - Do vale à montanha

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.


24-10-1932

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 
 - 146.


Mariza - Cavaleiro Monge

Agarro os restos de mim
Preso por arames
Meto-me na mala
Ponho o pé na estrada
Malabarista do verbo
Bordejando as chamas
Tiro das palavras o sentido que lá não está

Hoje,
De novo á beira do caminho
Ergo novamente os diques
Tapo os interstícios da muralha que rompeste
Baixo lentamente a vizeira
Reponho a máscara
Numa pirueta
Até que o coração pare
ou a serenidade regresse
.
1987.08.07 - Setúbal

Mais valeria ser o cowboy beberrão em "Ghost Riders In The Sky", nas interpretações de Burl Ives, Johnny Cash ou do Ouro Negro?

Já de seguida a gravação de "Ghost riders in the sky", interpretada por  uma famosa balada com muitos intérpretes e versões por todo o mundo e em muitos idiomas. Esta é a versão de Burl Ives, em 1949. A primeira gravação contudo foi a do seu autor, Stan Jones, no ano anterior.



Burl Ives - A gravação original de "Ghost Riders In The Sky"


Johnny Cash - "Ghost Riders In The Sky"

Stan Jones - “(Ghost) Riders in the Sky: A Cowboy Legend” 

Yippie-yi-aie, Yippie-yi-oh!

An old cowpoke went ridin' out one dark and windy day
Upon a ridge, he rested as he went along his way
When all at once a mighty herd of red-eyed cows he saw
Come through the ragged skies and up a cloudy draw

Yippie-yi-aie, Yippie-yi-oh!
Ghost riders in the sky

Their brands were still on fire and their hooves were made of steel
Their horns were black and shiny and their hot breath he could feel
A bolt of fear went through him as they thundered through the sky
For he saw the riders coming hard and he heard their mournful cry

Yippie-yi-aie, Yippie-yi-oh!
Ghost riders in the sky

Their faces gaunt their eyes were blurred their shirts all soaked With sweat
They're riding hard to catch that herd but they ain't caught them yet
Cause they've got to ride forever on the range up in the sky
On horses snorting fire as they ride hard hear them cry

Yippie-yi-aie, Yippie-yi-oh!
Ghost riders in the sky


Ouro Negro - "Cavaleiros do céu" (1962)

Milton Nascimento - "Cavaleiros Do Céu"

Vaqueiro do Arizona, desordeiro e beberrão
Corria em seu cavalo pela noite no sertão
No céu, porém, a noite ficou rubra num clarão
E viu passar num fogaréu um rebanho no céu

Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu

A rubras ferraduras punham brasas pelo ar
E os touros como fogo galopavam sem cessar
E atrás vinham vaqueiros como loucos a gritar
Vermelhos a queimar também, galopando pro além

Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, seguindo para o além

Centelhas nos seus olhos e o suor a escorrer
Sentindo o desespero da boiada se perder
Chorando a maldição de condenados a viver
A perseguir, correndo ao léu, um rebanho no céu

Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu

Um dos vaqueiros, ao passar, gritou dizendo assim:
"Cuidado, companheiro, ou tu virás prá onde eu vi(m)
Se não mudas de vida tu terás o mesmo fi(m)
Querer pegar no fogaréu um rebanho no céu"

Y-pi-a-ê, y-pi-a-ô, correndo pelo céu


De bónus "O cavaleiro solitário" pelo Duo Ouro Negro


Duo Ouro Negro - "Cavaleiro solitário"

Pela estrada, vou cantando.
Sou um triste, cavaleiro, solitário.
Trabalhando, sem horário,
Uma rêz, que se perdeu,
Vou, procurando.
Eu canto para não, viver tristonho.
O amor, para mim
Foi só um sonho.

iolarei, iolarei, iolarei
iolarei, iolarei, iolarei
iolareiii, iolareiii ...


Lucky Luke, de Morris e Goscinny

Chove intermitentemente e nos céus não cavalgam equídeos mas voam, esporádicamente, aves,a razarem o solo, como pardais, sem a culminância de serem águia!

EM TEMPO - alguém me comenta:

1. - Parece que pertences à inquisição.😂😂😂
E, parafraseando o Carlos Barradas, replico:
  • Credo! Jesus, Maria Santíssima. Balha-me Deus!


    Eu prefiro que me compares a Guilherme de Baskerville, o frade franciscano de "O nome da rosa", de Umberto Eco. :-P

    Tão mázinha que és para mim LOL
***
2. -  lindo, não está assim tanto frio, VICTOR.

  • Ontem e a noite passada, sim,. No quintal estava um vento gélido e à noite tive de pôr uma manta suplementar na cama :-P
    ***
    Chove. A casa está gelida. E pela quarta vez em 15 dias a água da chuva que escorre pelo interior da chaminé alaga-me a cozinha,