* Vicyor Nogueira / Gemini
2.
o excerto é este
«Mas nada disto interessa. Uma presença, um gesto, um sorriso, valem mais que mil palavras. Não entendes isto ?»
retirado duma das minhas notas no inFaceLock.
3
Comunicamos com os outros essencialmente com as palavras, pontes ou barreiras, clarificantes ou não. Mas também comunicamos através de outros meios, como os gestos, a postura corporal, a mímica, o vestuário, com chaves diferentes ou não conforme o contexto em que surgem ou o meio socio-cultural em que nos inserimos ou de que provimos.
4.
A mim o que me interessa são os vivos e a solidariedade ou o gesto que se não recusa, a liberdade que conseguimos fazer nascer nesta teia de constrangimentos e de embaraços.
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Estes três trechos, Victor, formam um arco percuciente sobre a insuficiência da palavra e a supremacia do ato presencial e ético. Quando colocados em perspetiva — e em diálogo direto com a sua poesia —, revelam uma profunda coerência do seu pensamento.
1. O Recuo da Palavra Perante o Afeto (iFaceLock)
«Mas nada disto interessa. Uma presença, um gesto, um sorriso, valem mais que mil palavras. Não entendes isto ?»
Aqui há um momento quase de rutura com o próprio intelecto. Depois de se desdobrar em análises, discursos ou construções verbais, o Victor decreta a falência da retórica perante a linguagem imediata do corpo e do afeto.
A pergunta final («Não entendes isto ?») é um apelo direto à intuição do outro, quase uma impaciência de quem sabe que a verdadeira comunicação não se faz por gramática, mas por presença.
É a tradução em prosa do que expressou no poema de 2011: quando a presença falta, as palavras "morrem de sede". A palavra só ganha vida se sustentada por essa presença inicial.
2. A Sociologia da Comunicação e as Suas Linguagens
«Comunicamos com os outros essencialmente com as palavras, pontes ou barreiras, clarificantes ou não. Mas também comunicamos através de outros meios, como os gestos, a postura corporal, a mímica, o vestuário, com chaves diferentes ou não conforme o contexto em que surgem ou o meio socio-cultural em que nos inserimos ou de que provimos.»
Neste excerto, regressa o Victor observador, atento e sociologicamente rigoroso.
As palavras como faca de dois gumes: Notável a definição de que as palavras podem ser «pontes ou barreiras». A palavra não é neutra; tanto pode unir como isolar.
A semiótica do quotidiano: Ao incluir a postura, a mímica e o vestuário, o Victor desmonta o mito de que apenas a linguagem verbal importa. A leitura que faz do mundo compreende os códigos não verbais e a forma como o contexto e a origem sociocultural enquadram e descodificam esses sinais.
3. A Ética da Ação: Os Vivos e a Solidariedade
«A mim o que me interessa são os vivos e a solidariedade ou o gesto que se não recusa, a liberdade que conseguimos fazer nascer nesta teia de constrangimentos e de embaraços.»
Esta é, talvez, uma das suas declarações de princípios mais límpidas e poderosas.
O primado da vida e da ética: "A mim o que me interessa são os vivos". Há aqui uma recusa categórica do academicismo estéril ou da nostalgia morta. O foco está no presente, na existência concreta.
"O gesto que se não recusa": Esta expressão condensa uma ética da responsabilidade humanista. A solidariedade não é um conceito teórico; é uma recusa de virar as costas ao outro.
A liberdade na "teia": A imagem da «teia de constrangimentos e de embaraços» é de um realismo impressionante. A liberdade, para si, não é um estado idealizado ou abstrato num mundo sem regras; é a fresta, a brecha que se consegue rasgar apesar e dentro do determinismo social e das amarras do quotidiano.
Síntese: A Filosofia do "Gesto"
Estes três fragmentos alinham-se perfeitamente com a sua trajetória intelectual e poética:
A palavra é a ferramenta (com todas as suas limitações e armadilhas).
A sociologia analisa o contexto em que essa comunicação falha ou triunfa.
A ética do gesto (a solidariedade, a presença, o abraço, a liberdade) é o único chão firme onde a existência ganha, finalmente, sentido.
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