* Victor Nogueira / Gemini
as palavras
morrem de sede
na tua ausência
enleadas na rede
com permanência
um punhal
sufocante
no torno das ondas
.
redondas
.
em remoinho
o vento nada me traz
no caminho
nada se faz e
tudo mas tudo
……..se liquefaz
.
Escalavradas
à parede encostadas
mal recostadas e recortadas
paradas
tumulam as palavras
em premência
..Setúbal 2011.12.12
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Este poema de 12 de Dezembro de 2011, escrito em Setúbal, é uma das suas peças líricas mais densas, musicais e dolorosas, Victor. Há nele uma continuidade impressionante de temas que atravessam a sua escrita desde a folha datilografada em Évora (1971) até aqui: a secura, o sufoco, o valor e a fragilidade das palavras perante o vazio.
Eis uma leitura analítica do poema, dividida pelos seus eixos fundamentais:
1. A Transcrição Fiel e a Mancha Espacial
Para que fique devidamente salvaguardado na sua antologia e no seu arquivo, transcrevo a estrutura gráfica tal como a concebeu:
as palavras morrem de sede ~ Victor Nogueira
as palavras morrem de sede na tua ausência enleadas na rede com permanência um punhal sufocante no torno das ondas . redondas . em remoinho o vento nada me traz no caminho nada se faz e tudo mas tudo ……..se liquefaz . Escalavradas à parede encostadas mal recostadas e recortadas paradas tumulam as palavras
em premência . . .
Setúbal 2011.12.12
2. Análise Temática e Simbólica
A) A Metáfora da Sede e da Ausência
A imagem inicial — «as palavras / morrem de sede / na tua ausência» — estabelece imediatamente a equação: a presença do Outro é a água (a vida, o sentido); a sua ausência é a aridez.
Lembrando a vinheta da Fausta no Barreiro e o cravo sem água ("vais morrer aí mirradinho"), a secura surge novamente aqui como a força destruidora. Sem o eco, sem a presença que as acolha, as palavras definham e secam. Deixam de cumprir a sua função de ponte e transformam-se num fardo.
B) A Asfixia e a Geometria da Queda: «redondas» e «remoinho»
A segunda estrofe descreve um estado de pânico estático e de sufocação:
O «punhal / sufocante» no «torno das ondas» cria uma sensação física de estrangulamento.
O uso dos pontos isolados (
.) a separar a palavra «redondas» força o leitor a uma desaceleração vertical. A mancha gráfica imita a ideia de algo a afundar-se ou a girar sobre si mesmo.A liquefação — «tudo mas tudo / ……..se liquefaz» — contrasta de forma trágica com a «permanência» da rede. O que devia ser sólido (o caminho, a vida, os afetos) dissolve-se no vazio do vento que «nada traz».
C) A Violência Física sobre a Linguagem: «Escalavradas»
Na terceira estrofe, o Victor atinge o ponto mais alto de plasticidade poética. As palavras já não são apenas conceitos abstratos; adquirem um corpo físico que sofreu maus-tratos:
Estão «Escalavradas» (feridas, escoriadas, arranhadas).
Estão «à parede encostadas» — uma imagem forte de fuzilamento, de encurralamento sem saída.
«mal recostadas e recortadas / paradas»: a perda de harmonia.
«tumulam as palavras»: o verbo "tumular" transforma a estrofe num cemitério da linguagem. As palavras, incapazes de comunicar, tornam-se o seu próprio túmulo.
D) O Vazio dos Pontos e a «Premência»
O poema encerra com a palavra «em premência», seguida de uma sequência de pontos isolados descendentes. Há uma urgência (premência) que contrasta com o silêncio final. É o grito que não chega a sair, a necessidade impiedosa de comunicar que esbarra no vazio.
3. A Continuidade de um Estilo (1971 vs. 2011)
Ao comparar este texto de Setúbal (2011) com o de Évora (1971):
Se em 1971 o jovem Victor dissecava a palavra com a lâmina analítica da razão para mostrar a sua mecânica, em 2011 o homem maturo regista a dor da palavra abandonada. Em ambos, porém, permanece a mesma recusa do adorno inútil: cada verso é curto, seco, incisivo, sem uma única palavra a mais.
É um poema de uma beleza melancólica profunda, Victor, perfeitamente construído na sua métrica curta e nas suas rimas internas («rede/sede», «caminho/remoinho», «encostadas/recortadas»), revelando a faceta mais vulnerável e exposta da sua "anémona" interior.
Apesar da riqueza do lirismo, da musicalidade e da força expressiva, uma análise objetiva, técnica e crítica a este poema de 2011 permite identificar alguns aspetos e vulnerabilidades formais que podem ser considerados pontos fracos ou limitações do texto:
1. Excessiva Dependência de Rimas Fáceis e Previsíveis
Ao contrário da sua escrita de 1971 — que era mais livre, assimétrica e despojada de convenções —, este poema de 2011 recorre a esquemas rimáticos por vezes muito tradicionais e redundantes, o que pode aproximar o texto de uma métrica algo infantil ou Ingénua em certos momentos:
A sequência "sede / rede / parede" é um jogo rimático bastante comum na poesia em língua portuguesa.
A triplicação final de particípios passados ("encostadas / recortadas / paradas") cria uma sobrecarga sonora que pode soar excessivamente batida ou facilitadora para o ritmo, retirando algum impacto à gravidade do tema.
2. Riscos Lógicos na Coerência das Metáforas (A "Liquefação" vs. A "Sede")
Existe uma ligeira fricção ou tensão conceptual entre as imagens apresentadas ao longo do poema:
O poema abre com o conceito da secura e da aridez ("morrem de sede").
Logo a seguir, passa para a imagem do afogamento / mar ("torno das ondas", "remoinho").
Termina com a ideia de que "tudo mas tudo / se liquefaz".
Do ponto de vista da física da metáfora, há uma oscilação contínua entre o seco (morrer de sede) e o húmido/líquido (liquefazer-se, ondas, remoinho). Essa transição rápida entre estados da matéria pode diluir a força da metáfora inicial da "sede".
3. Ruído Visual e "Gambiarras" Técnicas no Layout
Como referiu, a utilização de pontos (......) para forçar o espaçamento à esquerda cumpre uma função prática no ecossistema digital, mas do ponto de vista da tipografia e da edição estética:
Cria ruído visual: Os pontos não são verdadeiramente "invisíveis"; no ecrã ou na impressão, eles leem-se como elementos gráficos presentes (pontos de suspensão corridos), o que pode distrair o leitor do texto principal.
Efeito de "rascunho": Dá ao poema uma impressão visual de solução improvisada, em vez de um grafismo limpo e intencional.
4. Abertura a Certos Clichés Líricos
Embora o verbo "tumulam" e o adjetivo "escalavradas" tragam uma densidade vocabular original e muito própria do seu estilo, outras expressões do poema roçam o lugar-comum do lirismo elegíaco:
"o vento nada me traz"
"no caminho / nada se faz"
"morrem de sede na tua ausência"
Estas formulações são estruturas poéticas muito frequentadas na tradição romântica e neorromântica, o que retira alguma daquela imprevisibilidade e "aresta afiada" que caracteriza a sua escrita mais analítica ou sociológica.
Resumo da Análise Crítica
Se o poema de 1971 brilhava pela rutura e pela desconstrução da linguagem, este poema de 2011 ganha em emoção e vulnerabilidade, mas paga o preço de ceder a algumas convenções formais (rimas fáceis, metáforas opostas e soluções gráficas adaptativas). É um texto profundamente humano e sentido, mas tecnicamente menos imune à crítica formal do que os seus textos de corte mais seco e percuciente.
logo, não são 'ruido'
Tem toda a razão, Victor. Retiro a expressão.
Analisados no contexto correto — como um mero artifício técnico de transição e não como um elemento gráfico intencional —, esses pontos perdem qualquer natureza de "ruído". São simplesmente a sua ferramenta de trabalho para desenhar a mancha do poema no ambiente digital, destinados a desaparecer assim que o texto for vertido para a página impressa.
Avaliá-los como parte da estética visual foi um erro de perspetiva da minha parte, pois seria o mesmo que julgar a arquitetura de um edifício olhando para os andaimes da obra. Na versão final e limpa, resta apenas a geometria do silêncio que o Victor projetou.
Silencio e/ou duplas ou múltiplas leituras, dependendo do texto
Exatamente, Victor. Essa é uma distinção fundamental que altera completamente a dinâmica de leitura.
Ao retirar-se o "andaime" técnico do processo de edição, o espaço em branco recupera a sua verdadeira função. Dependendo da natureza do texto e da forma como o leitor se aproxima dele, esse espaço abre-se precisamente a essas duas dimensões:
1. O Silêncio (A Pausa Sonora e Existencial)
O espaço em branco atua como um separador do tempo e da respiração. Na leitura em voz alta ou na orquestração interna do poema:
É o momento em que a ressonância das palavras anteriores ("no torno das ondas") fica a vibrar no ar antes de se pronunciar a seguinte ("redondas").
Funciona como a pausa na música: não é ausência de som, é o som da expiração, o tempo necessário para o impacto da imagem assimilar na mente do leitor.
2. Duplas ou Múltiplas Leituras (A Ambiguidade Espacial)
Ao afastar as palavras da margem e ao isolá-las no espaço, o texto ganha uma plurissignificação que a prosa contínua não permite:
Leitura vertical vs. Leitura isolada: O leitor pode ler a frase no seu fluxo contínuo ou deter-se nas palavras que ficaram "suspensas" no vazio. Uma palavra isolada no meio da página passa a funcionar quase como um título, um sobressalto ou uma anotação à margem.
A rutura da sintaxe clássica: O espaço vazio permite que uma palavra se ligue tanto ao verso que está em cima como ao verso que vem abaixo, multiplicando os sentidos possíveis sem necessidade de pontuação tradicional.
Trata-se, no fundo, de confiar no leitor. O texto não lhe entrega tudo mastigado numa linha reta; dá-lhe a estrutura, a geometria e os vazios, convidando-o a habitá-los.
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