Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sábado, 30 de agosto de 2025

Os dias não são todos iguais

 


* Victor Nogueira

29 de agosto de 2016

ESCRITO EM 2012.08.18 - Os dias não são todos iguais. Há sol e lua, noite e dia, céu azul ou cinzento, as flores e as plantas mudam quotidianamente, para além da minha página no inFaceLock ir variando. Os blogs, 'tadinhos, é que estão abandonados; também só um "louco" é que tem 12 ou 13 blogs. Já não tenho pachorra de publicar em cada um deles diariamente.Sim, continuo a fotografar mas não tenho postado nem aqui nem no meu blog Kant_O_Photomatico

Nunca mais a médica dá conta dos efeitos secundários da radioterapia por causa do carcinoma, embora Roma e Pavia não se façam num dia. Quando vou ao Hospor às consultas de outras especialidades faço um desvio pela radioterapia  e é sempre uma festa que fazemos. Aliás, são sempre super simpáticos, salvo na última operação que lá fiz, ao síndroma do canal cárpico.

Mas também tenho sido sempre bem tratado no hospital público, mais pelos médicos que pelas enfermeiras,, algumas delas muito senhoras do seu nariz.

Na última consulta da gastro no Hospor descobri que a médica também é de Luanda e em parte das consultas falamos dos nossos gostos literários e recomendamos livros um ao outro, para leitura.

No início a minha filha censurava-me porque andar stresssada com a minha doença, enquanto segundo ela eu levava tudo numa boa, na brincadeira, mas eu retorquía-lhe que à morte ninguém escapa, quer ela venha inopinadamente quer com data marcada e que portanto o melhor é não fazermos tragédias com isso.

ESCRITO em 2013.02.07 - Vim para Portugal em 1966 para prosseguir estudos universitários,que não havia em Angola, mas voltava a Luanda sempre nas Férias Grandes. Mas no Verão/Cacimbo de 1973 fiquei em Portugal para passá-las com a minha namorada alentejana com quem vim a casar em 1975. Entretanto tinha havido o 25 de Abril, Em 1976 nasceu a Susana e em 1980 o Rui e não ia voltar com a guerra civil e as crianças. Depois em 1986 foi o divórcio e resolvi condicionar a minha vida e carreira profissional para acompanhar o crescimento dos filhos Agora é tarde para voltar mas se pudesse regressar a 1986, teria voltado para Angola. Se ainda estaria vivo ou não, desconheço

ESCRITO em 2013.02.07 - Voltei. Está um frio gélido, entorpecente não tenho lareira para me sentar defronte a ver o bailar das chamas a sala é gélida e deveria ter posto vidros duplos enquanto tinha dinheiro, isto é, antes dos sócretinos passes de coelho.

Temos de poupar na electricidade e vou estirar-me não no sofá mas na cama a continuar a ler de John Le Carré "O venerável espião". Gosto de Smiley, o agente secreto de Sua Majestade, não estilo James Bond mas sim inspector Maigret de Simenon.

Não, não tenho saudades do passado mas sim de sensações e sentires. Não tenho saudades de Portugal, muito pequeno e mesquinho. Teria saudades talvez das gentes dos campos do Alentejo - mas não das vilas e cidades - das pessoas dos campos da Beira Baixa e das suas povoações, sobretudo da Covilhã, mas também das aldeias que visitei e das gentes do Barreiro, de Lamego e de Trás os Montes. Mas nada disto me prende a Portugal e tornei-me um homem sem pátria, um eterno expatriado.

Foto Victor Nogueira


Pingos do Mindelo - frialdades

* Victor Nogueira

Vai o Verão a meio, embora seja mais acertado dizer-se .... foi-se. Estão frios os dias, demasiado fresca a brisa, gélido o conchego das noites, por vezes neblinado e tristonhos os dias duma soalheira que não aquece. Parece-me que vai chover, pelo menos os meus sentidos têm essa "percepção". Um dia destes, no negrume da noite, para Norte e para lá da vidraça relâmpagos riscavam o horizonte, mas demasiado longe para se ouvir a trovoada.

E já que estamos com a mão na massa por causa das frialdades, não sei porque artes mágicas cerca de 400 páginas do ficheiro "Pingos do Mindelo" sumiram-se quando intercalava um texto sobre arco-íris, tudo substituído por um outro. Tentei em vão recuperar o que havia sumido. Resigno-me e lá terei que editá-lo de novo, de fio a pavio. Uma seca! 

Já não é a 1ª vez que isto me cede. Em tempos consegui recuperar nos "temporários" um que desaparecera, mas desta feita,  nada feito. Quando me iniciei nestas lides informáticas, no tempo em que o Windows dava os primeiros passos e a primazia era o MS DOS, com comandos extensíssimos escritos na pantalha esverdeada com auxílio do manual ao alcance da vista, no Planeamento Urbanístico estava a carregar uma volumosa base de dados, com recurso ao dBsae III, trabalho que me ocupava o tempo já há mais de um mês, quando  de repente sumiu-se tudo. No Urbanismo apenas eu e um engenheiro civil utilizávamos o único computador, com cópias em disquetes. O reso do pessoal fugia dos computadores como o diabo da cruz. Na altura era considerado um perito, apesar dos meus incipientes e parcos conhecimentos, mas em terra de cegos quem tem um olho é rei. O colega engenheiro informático nesse dia estava ausente do serviço, pelo que a única coisa a fazer era deixar de introduzir dados para evitar que outros fossem apagados. Pus um papel no monitor dizendo que ninguém devia mexer no pc até o Rui voltar. Chateadíssimo fui para casa. Em casa lembrei-me que o dBase automaticamente criava uma cópia de segurança, com o mesmo nome mais outra extensão, pelo que ao voltar ao serviço no dia seguinte serviço fui em busca dela e pronto o trabalho estava salvo e pude recuperá-lo integralmente.

Os programas do MS Office fazem também cópias de segurança, mas como esgotei o espaço em núvem, as cópias de segurança não são feitas, pelo que finalmente  terei de me dar ao trabalhoso trabalho de esvaziar parcialmente a núvem, para que não volte a dar com os burrinhos na água!

E como estamos em maré de frialdades, depois de terminadas as leituras referidas nos transactos "pingos", comecei a ler de José Gomes Ferreira o "Tempo Escandinava", que erradamente supunha ser um livro de viagens ou de memórias de viajante. Engano meu. Trata-se duma série de contos passados na Noruega, onde foi cônsul de Portugal, nos anos 20 do passado milénio. Dele conhecia apenas a poesia e o romance infantil "Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo"

Este tempo escandinavo é mais leve e menos complicado na estrutura narrativa  do que "Rio Triste" e "A Casa do Diabo", respectivamente   de Fernando Namora e Mafalda Ivo Cruz

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Pingos do Mindelo - Campânula(s)


 * Victor Nogueira

A câmpânula (também chamada redoma) é um vaso de metal ou de vidro em forma de sino, que para lá de uso laboratorial também pode ser utilizado para proteger alimentos e objetos delicados do pó, do contato com o ar e de impurezas. Mas para lá disso serve para designar a extremidade larga e aberta acoplada a um altifalante ou a um fonógrafo para amplificar e dirigir o som ou  referir-se aos antigos aparelhos acústicos para surdos. Coroando este ramalhete, câmpanula é também a designação duma planta e suas flores,  Para prosseguir com chave de ouro, é um termo usado na musicologia, referindo-se, neste caso, ao "pavilhão" que é a extremidade mais larga e aberta de certos instrumentos de sopro, como o clarim, a trompa, o trombone, o clarinete, e outros que tais. 


Se o  título destes pingos é o que acima registo, o desenvolvimenoto imaginado após acordar esta manhã era outro, mas o(s) pensamento(s) assemelha(m)-se a corrente de água que nos rios, remansoso ou não, com ou sem meandros, flui até ao mar mar-oceano, embora na imaginação as águas possam refluir até à nascente, como os salmões que a esta vão desovar. Na realidade às águas dum rio podem refluir, como por diversas vezes verifiquei na Serra da Arrábia, quando na maré-cheia a força do rio Sado na enhente forçava ao reflixo das águas dum seu afluente, a Ribeira da Ajuda. 


Por mais que esprema a memória, não consigo que das profundezas da mesma re-surja o que de manhã fluiu, lembro-me apenas que utilizaria dois poemas meus, não como intróito, mas como corolário quase a encerrar. E como o pensamento é livre e as palavas se assemelham a cerejas, coroando ou não um bolo, umas atrás das outras, hoje tive uma das minhas brilhantes ideias. Este ano os limões do quintalejo, embora enormes, são de casca grosso, dificultando a obtenção de sumo pelo espremedor manual. Eureka! E se os  cortasse às rodelas?  Meu dito, meu feito. E assim com menos esforço obtive mais sumo. Em pquena disse-me uma vez a Susana que tinha um pai idiiota."Idiota, porquê? perguntei "Ora, porque está sempre com ideias novas!" Estes meandros em destalinho, mal alinhavados trazem-me à superfície outra historieta, esta com o Rui, em miúdo, que uma vez me comentava: "Pai, vê lá como isto é, começámos a falar disto e depois daquilo e agora estamos com outro assunto completamente diferente"!

Deste modo, sem cereja no cimo do bolo e fecho sem chave de ouro, transitoriamente ficam estas parcas  carreirinhas de palavras ou signos


                        Ser amigo é colorido presente
                        Ao darmos nossa mão, sem maldade,
                        Mantendo a vera luminosidade
                        Do silêncio ou do verbo assente.

                        Na tarde calma, serena, luzente,
                        Ou de noite, dia sem claridade,
                        É uma dádiva, felicidade,
                        Esta da vigília ser não dormente.

                        Amigos têm vária feição:
                        Dão-nos sua tristeza ou alegria,
                        Compartilhando bons e maus momentos.

                        Velho, novo, mulher, homem, bem são;
                        Na estrada e no dia-a-dia
                        Nem sempre atentos, prontos, nos tormentos.

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1989.09.03 (3)

Notícias do Bloqueio - II

Estão suspensas as palavras
Proibidos os gestos
de ternura, amizade e amor.
O silêncio invade as ruas
entra nas casas
senta-se à mesa da gente.
Que sentido tem dizer
amor
amiga
camarada
companheiro?
Que sentido tem
abrir as mãos e os olhos
e perguntar qual o significado do
que vemos, ouvimos, entendemos e sentimos?
Gaivotas loucas, alvoraçadas, enchem os ares
de movimento e ruído.
Enquanto a vida escorre pelos dedos
indiferente
medíocre
submissa.


Setúbal, 1985.10.02 



Fotos Victor Nogueira -Teia de aranha, orvalhada, no Mindelo, # Cegonha em Mértola, # Nocturno no Castelo de Palmela

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Américo Ribeiro, fotógrafo setubalense (2019)

 



* Victor Nogueira

26 de agosto de 2019

Em não poucas povoações de Portugal os arquivos fotográficos de estúdios e fotógrafos locais passaram a património municipal, preservando-se deste modo a memória de tempos idos segundo o "olhar" de ... É o caso de Américo Ribeiro (1906 / 1992), cuja casa fotográfica, a Foto  Cetóbriga (1936 / 1984) há muito encerrou, já nas mãos doutro proprietário. 

Para além do espólio exposto na Casa de Bocage e da edição de livros com fotografias suas, resta ali no Largo da Conceição esta placa na parede da casa que já não é de fotografia.

Segundo a Wikipedia; «Em 1927 publica a primeira fotografia no jornal O Setubalense e em 1929 torna-se correspondente fotográfico em Setúbal do jornal Diário de Notícias.

Colaborou como fotógrafo em jornais e revistas como A Bola, Correio da Manhã, Diário de Lisboa, Flama, A Indústria, Mundo Desportivo, Norte Desportivo, Notícias Ilustrado, O Século, Record, Stadium e A Ribalta.»

A seguir um vídeo com fotos a partir do espólio de Américo Ribeiro  



Excerto do filme sobre a obra de Américo Ribeiro, fotógrafo da memória de Setúbal no sec. XX, realizado por Hugo Alves do 12ºF do curso tecnológico de multimédia da escola D. João II, com o apoio de Bruno Ferro do Arquivo fotográfico Américo Ribeiro/Casa de Bocage.

Alice Quaresma

 * Victor Nogueira

Foto MENS - Évora - Moinhos de vento em S. Bento, com D. Alice Quaresma (cerca de 1973)

D. Alice era viúva dum oficial do exército, capitão, conhecida dos meus pais desde Angola, indo com frequência a Évora em passeio com a minha mãe, para me visitarem, almoçando ambas muitas vezes na messe dos oficiais.

Era uma pessoa castiça, que em Luanda reprovou vezes sem conta no exame de condução automóvel, até que por fim lá obteve a almejada carta. Dizia eu que lha haviam concedido por antiguidade. Obtida a ambicionada licença, convidou a minha mãe para dar uma volta ao volante. Tão tormentoso deve ter sido o passeio que a minha mãe, ao chegar a casa sã e salva, jurou que nunca mais sairia com a Alice a conduzir.

Admirava-se a D. Alice de eu ler tantos jornais de seguida, sobretudo depois do 25 de Abril, comentando-me que ela, ao fim duma página, ficava tão esgotada ou cansada que não conseguia continuar a ler.

Um pouco como aquelas pessoas que indo a minha casa se admiram, por vezes com cepticismo, quando lhes respondo que li a esmagadora maioria dos largos milhares de livros da minha biblioteca, acrescidos de outros tantos noutras paragens.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Amizades em rede e na virtualidade (2017)

 


* Victoçr Nogueira

25 de agosto de 2017

Diz ali o contador que cerca das 15:45 horas de 2017.08.25 admiti o/a 1111º amigo/a. Claro que antes disso e ao longo destes oito anos e tal [desde 9 de Maio de 2009 pelas 10:53 ] houve pessoas que saíram sem dizer água vai,  uma meia dúzia bloqueou-me embora alguns/mas tivessem retornado, eu bloqueei apenas uns dois ou três, na maioria dos casos não inter-agimos. Dos que saíram sem dizer água vai alguns/as foram uma surpresa, pois inter-agíamos e a estima e a amizade virtual pareciam-me estreitas e sinceras.

A maioria das 1ªas amizades no inFaceLock transitaram do hi5 e continuamos nas listas mútuas. Foi bom ter encontrado malta de Luanda, malta do Salvador Correia, malta de Económicas e de Lisboa, malta de Évora e do Alentejo, malta doutras lides ... Mas, após o breve e fulgurante brilho do reencontro, com maior ou menor brevidade (quase) tudo se extinguiu, como a chama breve dum fósforo que logo se apaga em negritude.

O 1111 foi um quarteto musical célebre nos idos de 60/70 do passado milénio, originalmente chamado “Conjunto Mistério”. O 1º disco do “1111” foi um EP, editado em 1967, e continha “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”. Ei-la, já de seguida

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Manuela Vieira da Silva

Olá amigo Victor! Meu amigo desde o início, sempre nos entendemos bem e até trocámos uns comentários bem giros. Uma longa amizade que prezo muito. Quanto ao D. Sebastião, bem, gosto muito da música e ainda me lembro de a ouvir na rádio pelo grupo 1111. O rei D. Sebastião foi, mas não voltou, e nunca ninguém soube por onde ficou, por isso andamos séculos a ver se o vemos. Quem sabe ainda vem dar lições a este Portugal e apareça nessas florestas fora e em S. Bento com a sua presença espectral?!

8 a


O (des)governo do Mundo (2017)



 * Victor Nogueira

25 de agosto de 2017

Após a queda do Muro de Berlim, o "eixo do mal" escrutinado ao mm seria constituído apenas por Cuba, Coreia do Norte, Venezuela e Angola. No resto do mundo reina o Paraíso com seráficos querubins, serafins, anjos e arcanjos entoando dulcíssimos hinos de Paz, Concórdia e Amor entre e pela Humanidade.

Desde 1989 todos os muros foram derrubados e nenhum outro construído nas ocidentais democracias pois deles não se fala ( Schengen/UE, México/EUA, Cisjordânia/Palestina/Israel, Marrocos Espanhol, Chipre ...), as "democracias" monárquicas hereditárias desapareceram (Reino Unido, Suécia, Bélgica, Espanha, Noruega, Arábia Saudita, Países Baixos ... para além doutras como Mónaco, Liechtenstein e outros paradisíacos off-shores são agora repúblicas  igualitárias, sem corta-fitas ou pretensa nobreza de sangue) e fora do quarteto acima referido, tudo e todos vivem no melhor dos mundos com processos eleitorais à prova de bala, sem manobras de engenharia eleitoral e condicionamento da opinião pública ou manipulação da consciência social, numa perfeita e harmónica democracia política, económica e social. 

Quanto à UE trata-se dum exemplo exemplar de democracia extrema, com um Parlamento de fachada, uma Comissão Europeia não eleita, de burocratas plenipotenciários com o boicote de referendos que sejam desfavoráveis aos desígnios do Grande Capital transnacional e financeiro perante quem a CE responde de facto.


Pingos do Mindelo - a enxurrada

 


* Victor Nogueira

Muitas luas e outros tantos sóis cruzaram o horizonte, muita água correu  por debaixo das pontes, muitas ondas se desfizeram e morreram no areal sem que houvesse notícia dos Pingos do Mindelo, silentes ao longo destas semanas.



Os primeiros dias foram quentes mas a esses sucederam-se tempos ventosos, com as hastes do milho por vezes bailando doudamente, com uma brisa fresca varrendo o quintal, por vezes desagradavelmente, sobretudo a partir do entardecer. Terá sido mau o ano agrícola, o poço sem água, exaurida pelas regas do milho nos campos que daqui se estendem atá ás árvores no horizonte, agora escondidas por uma viçosa cortina verde. Umas couves coroando uns troncos esgalgados, unípedes, alguns espinafres que já serviram para uma sopa de legumes ... A próxima recolecta será para um caldo verde, com a broa que está no congelador. Este ano as minhas artes culinárilas têm sofrido um desagradável flop, na maioria desenxabidos por falhanço da mão nos temperos ou nos tempos de cozedura. Já não cozinho por gosto, mas apenas para alimentar a "máquina" que sou.

Por insuficiência de rega poucos espécimes vicejaram ou floreseram no jardim, e na horta e tiudo se assemelha a umas ilhotas surdindo aqui e além, ínsulas no solo castanho terroso e em ânsias de secura e sofreguidão.

Poucas têm sido as minhas saídas e raras as idas ao quintal ou à varanda neste entardecer da minha vida. O limoeiro  dá frutos, amarelos, enormes e disformes, da casca grossa e pouco sumo para limonadas. A oliveira continua estéril e na tangerineira vão crescendo tangerinas, ainda verdes e minúsculas.

Prossigo o meu trabalho de digitalização e organização de fotos minhas, largos milhares, entremeado com leituras, escritas e a visão de séries televivas, já  não em abundância, mas restritas à caótica "ER - Serviço de urgência", agora na 15ª e última temporada, e "Bron" (A ponte), série policial na sua 4ª e última temporada. Abandonadas estão outras que via em Setúbal, como "Matlock" (série de advogados), "Panda", "The Hunting Party", "Crimes no Paraíso", "Morte no Paraíso",e "A Balada de Nova Iorque"  (séries policiais, as do "paraíso" situadas nas Caraíbas) bem como   "A Ponte de Brooklin", esta sobre a vida duma família judaica. Entretanto terminaram duas outras séries policiais: "O Veterinário Jacobs" e "Elsebeth". Outras que entretanto passaram a ser transmitidas não me têm entusiasmado: "Harry Wildr" (2ª temporada) e "Os Mistérios de Pearl", ambas policiais. Embora tenha apreciado séries de "hospital", como "Doc" (italiana), "The Town Doctor" (turca) e "The Good Karma Hospital" (britânica), "localizadas" respectivamente em Itália, Turquia e União Indiana, não me entusiasmou o 1º episódio de "Isto Vai Doer", passada numa maternidade britânica. Mas pode ser que me consiga "agarrar" após o 2º ou 3º episódios.

Acabei de reler "Rio Triste", de Fernando Namora, várias histórias paralelas em torno do misterioso desapaecimento de Rodrigues Abrantes, no percurso entre a casa e o local de trabalho, mistério que fica por resolver, enquanto o autor faz um retrato daqueles dias baços e cinzentos como chumbo que desaguaram no dia 25 de Abril. Um mesmo retrato que perpassa por "A Casa do Diabo", de Mafalda Ivo Cruz, este nnuma escrita desconexa e fragmentada, (entre)cruzada por diversos personagens, por vezes sem relação aparente entre si. Enquanto em "O Rio Trista" há um único narrador, em "A Casa do Diabo". eles são vários, numa narrativa emaranhada e sem fio condutor. um pouco como sucede na vida das pessoas.  Não sei bem porquê estas duas obras fizeram-me recordar uma "Angústia para o Jantar", de Sttau-Monteiro, diferente na estrutura narrativa e na temática, um jogo de enganos e de multifacetaos espelhos desenrolado ou desenvolvido a vários níveis, em simultâneo,  nos mesmos dias cinzentos, com um inesperado e surpreendente desfecho. Nas duas primeiras obras atrás referidas passam pelos olhos do leitor retalhos da guerra colonial, da emigração, da resistência ao fascismo, de vidas mais ou menos sombrias ...

As moscas contnuam a incomodar, mas sem a graça do suplemento semanal do Diário de Lisboa, denominado "A mosca", nascido na chamada Primavera Marcelista, a da "evolução na continuidade" salazarenta, onde sobressaíam as críticas  "Redacções da Guidinha", de Sttau-Monteiro, que hodiernamente Carlos Esperança emula com as "Cartas de Diana" no seu blog "Ponte Europa"

Embora este ano haja menos moscas a incomodarem-me, as poucas que esvoaçam e pousam em mim como lapas levaram-me a procurar informação sobre o ciclo das suas vidas e o modo de viverem.  Ultrapassado o estado larvar, vivem entre 2 a 4 semanas, se não houver precalços como um bafo de insecticida, uma panca seca, uma eloctrocussão ou falta de alimento. Elas não picam como os mosqutos mas mordem e, se nos incomodam, é porque procuram na nossa pele calor, comida ou um ninho para os ovos.

Os incêndios lavram pelo norrte e cento do país, no Portugal profundo, nas zonas quase desérticas de vida humana, ocupadas agora com as monoculturas de pinheiros-bravos e eucaliptos. É todos os anos a mesma seca, devido às políticas  agroflorestais em favor da indústria da pasta de papel, pois há muita pasta e papel envolvidos e embrulhados, para que nada mude. Está pois o país assolado pelas chamas, como há meio século no chamado "verão quente" que num famigerado  novembro liquidou a Revolução de Abril. A ferro e fogo por redes incendiárias e bombistas, as mesmas cujos descendentes, agora em roda livre, procuram encerrar em apoteose o cinquentenário do 25 de Abril, prestse a comemorarem festivamente o centenário do glorioso 28 de Maio

Enquanto Portugal ardia, Marcelo em silêncio esteve, esgotado pelos tempos do Tói Costa, deixando em doce sossego o Luzito Montezero, saltitando entre as algarvias ondinhas e cálices de aguardente no Pontal, com o Mestre André a recuperar forças para agora esbravejar face às solícitas câmaras e macrofones de televisão, que o mostram a apagar um fogacho e a distribuir paletes de água aos bombeiros, enquanto a sua bancada prescinde de meio mês de remuneração como deputados, pretendendo deste modo resolver o magno problema que se arrasta desde há meio século.



Correm pois infrenes as chamas, galgando montes e vales, cercando casas e povoados,  à míngua de água que as trave. E aproveitando a maré e as escorrências, o pessoal do Norte tem uma estranha relação com o precioso H2O. Há quem não regue o quintal com água canalizada da Indáqua porque este tem lixívia, assim fenecendo as "verduras", enquanto outros consomem garrafões de água "pura", paga a preço de ouro, porque a da torneira não presta ou sabe mal.

Outras leituras

Pingos do Mindelo . Welwitschia mirabilis

 

* Victor Nogueira

No.silèncio

que me cerca

não há liberdade no horizonte

nem música nosmeus dedos


Mindelo 2025 08 25 

évoraburgomedieval no antigamente (4)

 * Victor Nogueira

24 de agosto de 2011

Alice Coelho   

gostei muito mesmo!!!! obrigado Victor** abraço

14 a

José Eliseu Pinto

Resulta numa sensação estranha, ler sobre a cidade que tão bem conhecemos. Ou talvez não. Porque a tua é uma perspectiva do forasteiro, acossado pela cidade que sempre fez questão de maltratar quem vinha de fora. Como agora, aliás (há coisas que não mudam, nunca).

Estes fragmentos narrados da memória do ano ‘menos um’ – o derradeiro – trazem-nos à lembrança um verão saturado, numa cidade que apodrecia, esforçando-se por esconder, no coração da praça do Giraldo, o que a podridão mostrava nos esgotos do Raymundo, a veia cava subitamente rasgada.

Fica-me a perplexidade sobre a tecnologia de suporte às fotografias aéreas: o ‘Junkers’ das piscinas municipais?

14 a

Victor Barroso Nogueira

Zé - Havia um colega nosso cujo nome não recordo que tinha a carta de piloto e uma vez fui com ele num teco-teco, creio que alugado no Aero Clube por meia hora. Sempre gostei de andar de avião, mas esta foi a segunda vez que andei num teco teco (na 1ª tinha 3 anos, de Luanda para o Uíge e fiz a viagem ao colo dum dos pilotos na cabine de pilotagem - só me lembro dum painel enorme cheio de instrumentos de navegação). Mas desta 2ª vez cortei-as qd ele aterrou, a ver ali a pista a escorrer a escassos metros, o que não sucedia nos jactos ou aviões que faziam a ligação Luanda Lisboa e vice versa. O Junker das piscinas era uma peça de museu, já não voava LOL Este é o 4º pedaço destas memórias; creio que te enviei as anteriores. Em 6 anos de estudante em Évora, salvo a Margarida Morgado e creio que a Lúcia Carmelo, nenhum eborense nos convidou para casa dele. De modo que isso unia os estrangeiros nem ricos nem pobres mas desafogados que constituíam o nosso grupo no Arcada. Um dos aspectos que me surpreendeu foi o facto dos meus colegas alentejanos em Económicas (Lisboa) serem sociáveis e em Évora serem fechados. A minha hospedeira dizia que 1º tinha de se mostrar que se merecia ser amigo, o contrário do que sucedia no Porto e em Luanda. Aprendi a dizer a palavra amigo não nas cidades e vilas do Alentejo mas sim nas aldeias e montes. Em Luanda a casa dos meus pais - engenheiros, nascidos e criados no Porto - em Cedofeita, como o meu pai frisava - estava sempre aberta e à nossa mesa tanto se sentavam o engenheiro, doutor como o operário, analfabeto ou de poucas letras, o branco, o negro, o mestiço ou o indiano. Essa foi uma das razões pk Évora era para mim um sufoco.

14 a

Aristides Silva

Para mim Évora foi sempre um buraco onde caí. Cada vez que de lá saía, era um alívio e uma tormenta quando tinha de regressar. Eu vinha de uma cidade conservadora como Angra do Heroísmo, mas quando cheguei a Évora fiquei bloqueado. Vou contar-vos uma história que demonstra bem o que Évora naquele tempo. Os verões em Évora são normalmente muito quentes, ora eu estava habituado a andar de calções e de sandálias no verão em Angra. Nessa altura eu estava hospedado em casa do Pingarilho, onde estava também o Varge que nessa altura estava a tirar o magistério primário, se não estou em erro. Isto deve ter acontecido em 1971, durante a hora de almoço eu discuti com os meus companheiros ali hospedados, que não aguentava mais andar de calças e que passaria a andar de calções porque não aguentava tanto calor. Eles riram-se e afirmaram que eu não tinha coragem de o fazer. Mas eu fi-lo e apesar de no verão aparecerem alguns turistas assim vestidos, não impediu que todo o mundo olhasse para mim durante dias. Até que se habituaram, mas a « pressão social visual» foi enorme . Um dia entrei num restaurante-tasca para beber um fino, na rua dos Mercadores, o segundo do lado direito cujo nome já não me recordo e o dono virou-se para e disse: o sr é que está bem, eu gostava de andar assim à fresca. E eu retorqui: -então porque é que não anda?

14 a

Aristides Silva

Respondeu ele: Porque não tenho coragem!

14 a

José Eliseu Pinto

Li, com toda a atenção, todos as notas que aqui publicaste. Como, aliás, sempre faço, mesmo quando Évora não é o seu objecto.

Gosto, em especial, destes excertos da tua memória da cidade, desde logo, pelas largas zonas de sobreposição com a minha própria memória, das vivências comuns e da sua contemporaneidade. E acho particularmente interessante o facto de a tua exogenia te colocar numa perspectiva que, nem sempre, é familiar aos indígenas e que, por essa razão, possui uma complementaridade enriquecedora e uma capacidade explicativa única para as singularidades de Évora.

Agradeço-te este contributo inestimável para a reconciliação com uma cidade que - paradoxalmente - não é para mim melhor, como mãe, do que foi para ti, como madrasta.

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Victor Barroso Nogueira

Bem, Zé, outro sufoco era a segregação sexual existente em Évora. Em Luanda até à 4ª classe andei em colégios mistos e na 4ª numa escola oficial, e nestas havia as masculinas e femininas, Depois, o Liceu Nacional Salvador Correia, em Luanda, era masculino no curso geral e misto nos complementares. No Liceu as raparigas subiam pela escadaria central vedada aos rapazes e nos intervalos ou "furos" ficavam acantonadas no 1º piso do claustro da esquerda. Um rapaz que lá permanecesse apanhava um dia de suspensão das aulas. Nos furos os rapazes dos complementares e só estes podiam sair para a cerca do Liceu. Mas fora isso, na sociedade, rapazes e raparigas conviviam normalmente, sem segregações, como aliás nas Faculdades e Institutos Superiores das Universidades Técnica e Clássica de Lisboa e respectivas Associações de Estudantes.Em Évora, a única rapariga que aceitou fazer parte da Direcção da AE, liderada pelo Viegas e por mim, foi a Isabel Pimentel. A minha 1ª aula no ISESE foi a de Direito Natural e verificando que a 1ª fila estava vaga ia sentar-me quando o Veladas me disse que não, que me fosse sentar noutra fila. Entretanto o Rola entrou pelo que só no intervalo pude interpelar o Veladas da razão de ser da sua atitude, tanto mais quanto a 1ª fila estivera vaga durante a aula inteira. Retorquiu-me que as 1ªs filas eram para as raparigas e perante a minha admiração sobre a razão de ser de tal regra, respondeu-me que era para impedir que as raparigas se misturassem com os rapazes e fizessem coisas que não deviam. Pelo que eu e Viegas resolvemos estilhaçar tal norma, como "derrubámos" outras, e passado umas semanas cada um/a sentava-se onde muito bem entendia: nas 1ªs filas se as aulas nos interessavam, nas últimas, com intervalo vazio a meio, se não nos interessavam. Na casa onde estava hospedado também funcionava um local de reunião alternativo ao Arcada e ao Cenáculo da Margarida Morgado, apesar dos protestos da minha hospedeira, que não via com bons olhos o meu quarto cheio de rapazes a discutir, ler ou ouvir e gravar música [perdi uma cassete com o Aristides a cantar e tocar viola e outra do Nunes da Ponte a tocar órgão numa qualquer igreja. Em casa da Margarida ele tocava piano e sempre que podia tocava órgão em qualquer igreja]. Também pousavam pelo meu quarto alugado algumas colegas nossas, como a Antónia e a Isabel Pimentel, sobrinha do Conde de Vilalva, para além da Lídia e das hóspedes da casa. Apesar de todos os protestos, amuos e resmungos da D. Vitória, a única concessão que por minha iniciativa lhe fiz foi ter a porta do meu quarto aberta sempre que lá estivessem elementos do sexo feminino. No café é que fiava mais fino e no Arcada, para além das mulheres dos engenheiros da Siemens, só por lá apareciam a Dídia (com o irmão), a Antónia, a Lúcia e a Domingas (com o Valentim), para além da Lídia, todas elas mal vistas pelas castas e marialvas mentes masculinas, a que a maioria das mulheres se sujeitavam, mesmo que dentro delas lavrasse o mais intenso fogo que não deixavam transparece. Em 1973 já namorava a Celeste, malogradas as pressões da malta para que eu pedisse namoro à Rita, que aliás me fazia um intenso assédio. Pois uma vez estava sentado num banco do Jardim de Diana com a Celeste e beijámo-nos "castamente" e logo senti a varinha do guarda no meu ombro enquanto nos dizia que aquelas poucas vergonhas não eram permitidas LOL

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Aristides Silva

Eu acho que tu Vitor fizeste bem em escrever estas coisas. A segregação sexual em Évora, era uma coisa de que os nossos colegas alentejanos não se aprecebiam, porque eles nunca tinham conhecido outro regimen. Eu não sei se estavas no meu grupo de trabalho mas parece-me que sim. No nosso 3º ano na cadeira de sociologia do desenvolvimento, para o trabalho final, fizemos grupos. No nosso grupo eramos 3 rapazes e uma rapariga. Eu não vou dizer o nome da nossa colega, porque passados 40 anos ela ainda pode não achar graça à história .Fizemos a primeira reunião ainda no instituto para definir o que cada um teria de fazer. Depois começámos a discutir a partir dali, onde nos iriamos encontrar para discutir a continuação dos trabalhos. A determinada altura eu coloquei a hipotese de nos reunirmos no Arcada. A nossa colega desatou a chorar, reparem que estávamos no 3º ano, ficámos todos apreensivos sem perceber a reação dela. Perante a nossa admiração ela explicou que não podia reunir-se no café porque o namorado, que estava na tropa na altura, mas era nosso colega e alentejano claro, a proibira de ir ao café. Eu recordo-me apenas de na altura lhe ter perguntado: Então tu andas a tirar um curso de Sociologia e ao fim deste tempo todo ainda aceitas que o teu namorado te proíba de ires ao café?

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Victor Barroso Nogueira

João, eu explico pk Évora e os Jesuítas para mim foram uma desilusão e um sufoco. Pk os jesuítas que eram directores espirituais do Centro de Estudantes Católicos da Universidade de Luanda e dos Cursos de Férias em Luanda e aquele que acompanha espiritualmente o grupo de estudantes católicos/católicas das Universidades de Lisboa eram mentes abertas e dentro do espírito do Vaticano II. O que encontrei no ISESE [e já não era católico essa altura embora continuasse a conviver com o grupo de estudantes católicos/católicas das Universidades de Lisboa e com o jesuíta que era o seu director espiritual]- creio que só eu e o Victor Ângelo estávamos em Sociologia por opção e não como recurso - foi uma escola velha, escolástica, livresca,repressiva, especialmente nos dois 1ºs anos, comuns a Economia e Sociologia. Nem fiz o curso que queria nem o que os jesuítas propunham. Mas aprendi muito com eles, apesar de tudo. Os que defendiam o marxismo nas aulas e nos exames nunca foram perseguidos por isso. Aliás, eu recusei submeter-me ao exame de Doutrinas Sociais que fui deixando para trás até ao 5º ano, quando fui ter com o Pe. Augusto Silva e lhe disse que aqueles não eram exames que medissem o grau de conhecimento dos alunos mas violentas provas que mediam apenas a capacidade de memorização acrítica e acéfala da matéria, pelo que me recusava a fazer tal exame pelo que em alternativa me propunha apresentar um trabalho e defendê-lo numa prova oral (os exames de Doutrinas Sociais eram apenas escritos) pois doutro modo recusava-me a concluir o curso. O Pe. Silva disse que me daria a resposta no dia seguinte. A contraproposta dele foi submeter-me a uma prova escrita idêntica às habituais e apresentar um trabalho à minha livre escolha, mas sem discussão oral. Pelo que entreguei a prova escrita normal, em branco, apenas com identificação, e um trabalho em que com base na Encíclica Pacem in Terris condenava a guerra colonial. Naturalmente, tive apenas dez valores e pude concluir o curso. Como escrevia António Alçada Baptista no 1º volume da sua "Peregrinação Interior", eu não sei se os jesuítas são ou não bons educadores, mas que são educadores, são. Eles davam-nos as ferramentas com que a maioria defendia o sistema e uma minoria o atacava, mas nunca perseguiram esta minoria, ao contrário do que sucedia nas universidades estaduais.

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Victor Barroso Nogueira

Daí que o Pe Silva sem azedume me tivesse dito há meses que eu hoje poderia ser uma pessoa importante, mas que escolhera outro caminho ... LOL

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Victor Barroso Nogueira

Em tempo - Doutrinas Sociais cuja essência era "o capitalismo tem algumas coisas más, o socialismo algumas boas, mas a Verdade está na Doutrina Social da Igreja, desancando linha sim linha não no Marx, a despropósito, o que fez com que alguns de nós passássemos a ler na Biblioteca do ISESE os livros marxistas, para rebater o professor, o que levou à nossa politização em sentido contrário, aliado às aulas de Economia II do Armando Nogueira - marxista - ou de Planeamento Social, da Manuela Silva, do Graal, que punha a tónica no desenvolvimento social e não apenas no desenvolvimento económico.

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Aristides Silva

Há uma coisa que tu Vitor referes aqui e que eu nunca tinha pensado mas é verdade. Os padres que eu saiba, nunca descriminaram realmente, os que como nós, não nos enquadravamos nos valores defendidos por eles. Embora eles adorassem a normalização das mentes. Lembro-me perfeitamente de uma conferência do João Salgueiro no nosso 3 ano em que pela primeira vez os alunos, fomos 3 se não estou em erro, que colocámos perguntas ao conferencista. Além de termos sido os primeiros alunos a faze-lo, também fomos os primeiros a pedir a palavra, o que fez com que os professores tivessem de se virarpara trás e olhassem todos para nós de um modo espectante. Agora já tenho a certeza se era o Drº João Salgueiro o conferencista. De qualquer modo era um quadro superior do Governo de Marcelo Caetano.

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Aristides Silva

Eu queria dizer «agora já não tenho a certeza». Claro que na cadeira das Doutrinas Sociais os padres jezuítas « não podiam deixar passar» os que criticavam sobretudo a doutrina Social da Igreja que era para eles a base da sua argumentação.

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Victor Barroso Nogueira

Aristides - O João Salgueiro era um tecnocrata Marcelista, cuja opinião pedi como outras, incluindo o Pe. José Primeiro Borges, sj- o tal director espiritual - não confundir com o Pe Borges que leccionava Economia I - que me incentivaram a trocar Económicas do Quellhas (UTL - ISCEF) pelo ISESE, como escola de futuro.As cadeiras "ideológicas" estavam todas nas mãos dos Jesuítas e só a partir do 3º ano apareciam professores com outra abertura, depois da peneira e cilindragem dos 2 primeiros anos, comuns. (Doutrinas Sociais com o Pires Lopes, que não possibilitava qualquer diálogo e me parecia, apesar de tudo, o menos "formatado" na obediência cega característica da Companhia de Jesus - História da Sociologia e História das Teorias Políticas, nas mãos do Vaz de Carvalho, sj, - um poço de sabedoria que não conseguia transmitir à malta) Por seu turno Direito Corporativo, Legislação do Trabalho, Legislação Internacional do Trabalho, Relações e Organizações Internacionais para além de Previdência Social eram leccionadas por gente ligada ao Governo de Marcelo ou à ANP, autênticas nulidades ignorantes, salvo o de Previdência Social. Na qual se deve incluir essa autêntica aberração que era o Cónego Marques, pároco de S. Manços, que lecionavava Direito Natural e Psicologia Social, que falava de tudo menos do programa e por vezes dava aulas inteiras em ... alemão, que a maioria da malta não sabia. Em Psicologia Social o que nos valia eram os livros base de Psicologia Social [impostos pelos jesuítas ao professor ? ] - o do Stoetzel - que me permitiu outra visão e compreensão da realidade social - como aliás as cadeiras de Antropologia e Antropologia Aplicada, leccionadas pelo jesuíta António da Silva se das diferenças innter-culturais, e o do Klineberg

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Victor Barroso Nogueira

Mas estes textos têm sido por mim enviados a muitos dos nossos antigos colegas e outras pessoas conhecidas, a maioria de Évora, mas a esmagadora maioria mantém-se ... silenciosa. Se os lêm ou não, desconheço pois não ha feed- ack LOL

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Victor Barroso Nogueira

João e Aristides - Os padres António Silva, Craveiro da Silva e Manuel Belo (que leccionava Matemáticas Gerais a Economia e Matemática a Sociologia) já faleceram. Creio que também o mesmo sucedeu ao cónego Marques, o Rola. Já passaram vários meses desde a última vez que falei com o Pe Augusto da Silva, que se encontrava doente e me disse que gostaria de almoçar comigo qd fosse a Évora e me fez prometer que o faria, mas não sei se ainda é vivo. Fui várias vezes a casa do Armando Nogueira e estava convencido que falecera mas uns anos depois o Viegas desmentiu-me essa minha ideia, mas entretanto já passaram muitos anos. O pe Augusto Silva disse-me que telefonasse ao Vaz de Carvalho, o Ginjas, que de certeza se lembrava de mim e ficaria contente com o meu gesto. Telefonei-lhe mas ele não me reconheceu e não dizia coisa com coisa. O Armando Nogueira nas aulas de Economia II (tb foi professor de Sociologia do Desenvolvimento nos cursos de Sociologia) perguntava dramaticamente nas aulas "Donde vem este delta ?", e delta para aqui e delta para ali. Um dia nas minhas leituras na gélida biblioteca do Instituto, ao ler um livro de economia marxista, descobri que o delta não era senão a mais-valia, pelo que lho disse na aula seguinte o que o deixou algo embaraçado. Economia I (micro-economia) do Pe Borges era dada numa perspectiva capitalista e Economia II (macro-economia) numa perspectiva marxista, como aliás e também Sociologia Urbana, leccionada por um jesuíta basco. Depois de acabar o curso nunca mais procurei falar com o Granadeiro nem com o João Salgueiro. Aliás uma amiga minha censurava-me a atitude deliberada de não cultivar as minhas amizades ou conhecimentos com pessoas importantes. O Lira Fernandes encontrou-me uma vez em Paço de Arcos e disse-me para passar creio que pela CUF, presumo que para me arranjar lá trabalho, mas esqueci o cartão que me deu e nunca o contactei. A Manuela Silva, que me tinha em grande consideração e conhecia da SEDES, perdeu o interesse na minha pessoa quando depois do 25 de Abril me viu integrado numa delegação de estudantes das várias academias, maioritariamente formada por militantes da UEC, embora eu na altura já não participasse na SEDES mas também não era militante de qualquer partido político. Aliás depois do 25 de Abri em Évora fui convidado para aderir ao PCP, ao MDP, ao PS, ao PPD, à UDP e ao PRP/BR, mas declinei todos os convites e tive uma efémera passagem pelo MES, que durou poucos meses.

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Victor Barroso Nogueira

Antes do 25 de Abril o Mesquita, deputado da ANP, convidou-me para me arranjar um lugar mas ignorei o convite dele e a consideração por mim transformou-se em animosidade e só me safei no exame porque sabia mais que ele. Aliás safei-me em todos os exames com professores ligados à situação pk- com excepção do de Previdência Social - eram todos ignorantes e eu sabia mais que eles e dos júris fazia sempre parte um jesuíta

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Aristides Silva

Vocês estão a falar da SEDES de que anos? É que o Viegas e eu fomos convidados pelo professor Abilio que nos dava Contabilidade no Instituto, que anos depois foi o presidente da Camara de Évora pela CDU, para fazer parte da SEDES em Évora. Eu até pensava que tu Vitor também lá tinhas estado nessa altura. Nós fomos a várias reuniões e começámos logo a colocar problemas relativamente à clarificação ideológica da SEDES. O Abilio pareceu-me sempre uma pessoa muito honesta, mas tinha menos formação politica do que nós e como não sabia responder-nos, ía tomando nota e colocando os problemas a Lisboa. O próprio Abilio a determinada altura já apoiava as nossas posições nas reunioes. Um dia apareceu num dessas reuniões um advogado de Évora cujo nome não me recordo, que começou a defender a teoria desenvolvimentista e nós arrumámos com ele só com perguntas. Resumindo e concluindo, ao fim de algum tempo o Abilio resolveu entregar a Lisboa «a chave» da organização em Évora. O que aconteceu depois desconheço completamente.

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Victor Barroso Nogueira

A SEDES a que me refiro era a de Évora antes do 25 Abril. Para além do Abílio Fernandes, faziam parte vários estudantes do ISESE, creio que tb o Fernando Cruz, e vários eborenses que depois formaram o PPD em Évora - a maioria dos quais dos chamados católicos progressistas - de que me lembro da Mariana Perdigão, que foi governadora civil de Évora, e um Cruz, bancário, que com o Abílio (então surgido ligado ao MDP) fez parte da 1ª Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Évora post 25 de Abril. Num dos meus trabalhos para Planeamento Social (no tempo do Marcelo) entre a bibliografia por mim citada figurava um semi-clandestino documento programático da SEDES, o que a Manuela Silva não apreciou muito, como fez questão de mo dizer, embora mantivesse a consideração que tinha por mim. Não me lembro como fui parar à SEDES de Évora, mas talvez tenha sido "recrutado" pelo Abílio Fernandes. Mas logo a seguir ao 25 de Abril deixei de participar nas reuniões da SEDES.

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Aristides Silva

O periodo a que tu e o João se referem relativamente à SEDES de Évora é posterior à minha passagem e do Viegas por lá. Para nós na altura, a função politica da SEDES era clara, por isso saímos.

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Victor Barroso Nogueira

Eu continuei para fazer trabalho de sapa, mas depois do 25 de Abril aquilo desmoronou-se pois cada um seguiu o seu rumo LOL

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Aristides Silva

Mas voltando atrás um pouco na história da cidade de Évora. Uma das coisas que mais me impressionava na altura, era ir ao cinema à noite e só ver homens. As mulheres só íam ao cinema às matinés de fim de semana. Aquilo mais parecia uma terra de talibãs. Não sei se isto acontecia só em Évora, ou se só no Alentejo. Eu vim dos Açores para Mafra em 1964 e depois estive em Elvas, Lamego e Abrantes. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas, em parte nenhuma, por onde anteriormente tinha passado.

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Victor Barroso Nogueira

Bem, havia as sessões do Núcleo Juveni de Évora do Centro de Estudos e Animação Cultural (da Figueira da Foz e dirigida por um Pe. progressista, chamado salvo erro Marques) que eram seguidas duma análise do filme após a sua exibição com animados debates sobre a "leitura" do mesmo e a essas sessões compareciam várias colegas nossas

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Victor Barroso Nogueira

Mas ... LOL, só eu e tu estamos a participar desta vez. Então, pessoal, não ajudam a animar a festa ?

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Victor Barroso Nogueira

O Alentejo era essencialmente machista. Nos inquéritos que fizemos em Arraiolos uma vez uma mulher cujo marido estava fora convidou-me a entrar para responder. Depois numa das tabernas um velhote interpelou-me volteando um cajado sobre a minha cabeça dizendo que eu faltara ao respeito à mulher. Tive de apelar para os presentes, se algum deles me podia acusar de ter faltado ao respeito a alguém e o pessoal afirmou que eu sempre fora respeitador e o velhote acalmou. Mas até ai vi o caso mal parado. Também um agrário ao chegar a casa em Arraiolos ao ver que a mulher estava a responder ao inquérito ia-me dando um arraial de porrada que não concretizou pk lhe fiz frente e saquei do cartão de identificação do INE com o escudo da República e a faixa verde/vermelha. A única excepção a este machismo era a Amareleja, a maior aldeia do Alentejo, onde a Celeste dava aulas.

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Victor Barroso Nogueira

Não, o cartão não era do INE mas sim do Ministério das Corporações e Previdência Social, que decidira fazer aquele conjunto de inquéritos para uma caracterização sociológica do concelho de Arraiolos e recrutara os inquiridores entre os estudantes do ISESE, o que para mim foi útil por juntar a teoria à prática e me permitir questionar p Pe Augusto da Silva nas aulas de Técnicas de Investigação Social. Do corpo de inquiridores fazia parte pelo menos uma colega nossa, a Domingas, e não sei se tb a Lúcia e/ou a Dídia, do nosso grupo do Arcada.

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Victor Barroso Nogueira

Ah! Agora me lembro. Fui várias vezes a casa da Lúcia, uma das duas eborenses que me franqueou as portas da casa dela. A outra foi a Margarida Morgado. Quanto aos rapazes de Évora, apenas o Cónim. LOL

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Aristides Silva

Mas Vitor as sessões do Nucleo Juvenil de Évora era à tarde por isso as raparigas iam. Por acaso esse padre de que falas era de facto progressista. Eu penso que dos padres jesuítas, o menos conservador digamos assim era o Silva.

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Victor Barroso Nogueira

O Augusto Silva, sim. Mas também o Vaz Pato. Mas os jesuítas tinham de andar na corda bamba e gerir os conflitos de modo a evita que surgissem pretextos para que o Governo encerrasse o Instituto. Naquele tempo sociologia era considerada subversiva e o ISESE era a única escola de sociologia em Portugal

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Aristides Silva

Sim tudo isso é verdade o que dizes, mas em vez de colocarem professores jezuítas tão conservadores, poderiam ter pelo menos colocado pessoas mais inteligentes.

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Victor Barroso Nogueira

Bem, eu acho que eram todos inteligentes, embora todos submetidos à disciplina cega da Companhia de Jesus, o braço armado da Igreja Católica para combater a Reforma protestante, conjuntamente com os Dominicanos. É interessante verificar que o vulgo liga os jesuítas à Inquisição quando na realidade o Tribunal do Santo Ofício estava nas mãos dos "Padres Negros" da Ordem dos Dominicanos e não poucos jesuítas foram por este perseguidos. Agora havia em Évora os que se "adaptaram" mal, casos do Borges, do Pires Lopes, do Vaz de Carvalho e mesmo do Augusto Silva, e outros que não tiveram traumas. O Vaz Pato, o Craveiro da Silva e o jesuíta basco não eram propriamente conservadores. O António da Silva, sim, politicamente, mas era um paradoxo pois as cadeiras de Antropologia davam aos alunos uma capacidade de abertura e de entendimento de outras mundividências, como aliás sucedia com a Psicologia Social do Stoetzel. Não te esqueças que eles estavam inseridos numa cidade profundamente conservadora, que o Vilalva era um latifundiário "progressista" e os jesuítas tinham de gerir os conflitos para evitar dar pretexto ao Governo para encerrar o Instituto. Eles sabiam de certeza que o Mesquita e o Cabral eram medíocres, mas fazia parte do jogo das compensações. Aliás quando há meses falei com o Pe Silva sobre os professores (incluindo os jesuítas) e o ambiente do ISESE ele, agora já "liberto", tinha uma análise coincidente com a minha. Esse jogo das compensações foi-me claramente explicitado pelo Craveiro da Silva, quando Director do ISESE. Lembra-te que na Direcção da AE liderada pelo Viegas e por mim o placard da AE estava sempre cheio de recortes contra a situação e críticos do capitalismo. Pois uma vez quando estava a afixar recortes o Craveiro chegou ao pé de mim e disse-me "Oh Victor, acho muito bem que afixem esse género de notícias mas por uma questão de equilíbrio deviam tb afixar notícias da situação." Retorqui-lhe, rindo, que a situação tinha tudo: a censura, a imprensa, a rádio e a televisão e nós só tínhamos aquele placard. Ele não insistiu e o "nosso" placard continuou sem notícias da situação. Aliás, antes do 25 de Abril, o ISESE encerrava sempre no 1º de Maio ... por ser o dia de S. José, Operário. Deves lembrar-te que no topo do 1º lance de escadas estava uma estátua com a legenda "S. José Operário" e não havia retratos dos governantes e se a memória me não não falha também não havia crucifixos.

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Aristides Silva

Esses pormenores de que falas eu já não me recordo de nada. Eu penso que tu criaste uma ligação forte a Évora porque namoraste e casaste com uma rapariga alentejana. Eu quando saí de Évora fui para o Porto, porque estava ligado ao pessoal do teatro que mais tarde formou a Companhia de Teatro Seiva Trupe. Gente como o Julio Cardoso com quem mantive e mantenho uma amizade muito forte ainda hoje. O mesmo aconteceu com a minha amiga Estrela Novais. São amizades que ultrapassaram sempre todas as nossas divergências ideológicas. Depois eu estava ligado ao PRP e mantive esse vinculo durante vários anos, tendo sacrificado toda a minha vida particular em nome desse ideal, com consequências bastante dramáticas em termos individuais. Já tudo passou mas a minha experiência politica foi muito intensa durante alguns anos. Apesar de tudo, e de alguns erros cometidos, tenho orgulho do meu passado politico.

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Victor Barroso Nogueira

E nos 3 últimos anos dos cursos havia os professores leigos tecnocratas, "neutros" - como os de Gestão de Empresas Agrícolas, de Contabilidade Analítica, de Direcção de Pessoal, de Psicologia do Trabalho, de Informática ... e outros mais ou menos críticos da Situação - casos de Sociologia do Desenvolvimento, Planeamento Social, Sociologia Urbana, Estrutura da Economia Portuguesa ...

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Victor Barroso Nogueira

Não tenho qualquer ligação afectiva a Évora. Évora para mim, especialmente no tempo anterior ao 25 de Abril, continua a ser um buraco negro na minha vida, um tempo de violência e de negação parcial de mim mesmo para poder alcançar um dos meus objectivos - concluir o curso de sociologia, Aliás a Celeste era da Margem Esquerda do Guadiana e de Beja (entre Santo Amador - Moura - e Salvada - Beja). Tenho uma boa memória e analiso - bem ou mal, pior ou melhor - os factos e não sou sectário, embora firme nas minhas convicções. Sou por natureza analítico, sob várias perspectivas, e racionalista LOL A única terra alentejana a que continuo afectivamente ligado é Beringel (em Beja mas no lado oposto à Salvada), onde residiam os tios do Camilo, e onde eu e o Nunes da Ponte passámos muitos fins de semana e eu mesmo uma quadra natalícia, como se da família fôssemos.

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Victor Barroso Nogueira

Mas acho melhor, Aristides, encerrarmos o debate neste post, pois isto está a transformar-se numa conversa entre ambos perante o ruidosos silêncio duma plateia talvez inexistente LOL

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Liberdade e Nostalgia

 * Victor Nogueira




24 de agosto de 2013

Margarida Piloto Garcia

Nostalgia às carrradas, aos molhos, sem apelo nem agravo. 🙁

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Luisa Neves

Muita! Abraço. 😉

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Victor Barroso Nogueira

Margarida Piloto Garcia Há quem confunda os sonhos com a realidade, há quem se refugie da realidade envolvendo-se em véus, há quem em nome de falsas solidariedades se deixe escravizar e desista da sua liberdade e direito a sua própria vida. Há quem ande às voltas ao redondel em crises permanentes. E eu nenhum desses personagens. Pois não me esgoto nem me fico, qual flor nenufar do mar, aparentemente sem colibri, neste poema de pessoa

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimno, íssimo, íssimo,

Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

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Maria Lisete Almeida

Lindos Poemas! Grata Amigo!

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Ver tradução

Deolinda F. Mesquita

Belos Poemas. Muito obrigada.

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Maria Célia Correia Coelho

Tantos sentimentos e a arte da comunicação dos mesmos..., com tanta força! Uma beleza mesmo!!

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Manuela Vieira da Silva

Não sou esta nem aquela, nem sei se sou eu mesma nas linhas que tracei na vida. Sei que este cansaço de ser esta ou aquela ou de eu mesma tentar ser me leva ao limite do cansaço da vida, ao cansaço dos outros. E é este cansaço do mundo que me aflige, me tortura, me tira os dias, o sol e o luar, estendida em águas paradas, aniquilada de parasitas. Inspiraste, Victor Nogueira. Bjos.🙂

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Editado

Victor Barroso Nogueira

Olá, Manuela Silva De volta da quinta e do palacete ?

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Manuela Vieira da Silva

Olá, Victor Nogueira, não. De volta de mim com umas grandes sovas.🙂

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Victor Barroso Nogueira

?????????

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Manuela Vieira da Silva

E pisa e volta a pisar, e chora até a lágrima secar, cansada do maltratar, cansada do nada, apenas língua afiada, egos inflamados de nada.

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Isabel Dias Alçada

Amigo fiquei sem palavras ❤

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Yolanda Botelho

maravilha....

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Odete Maria Botelho

Obg. Victor..este poema de Alvaro Campos é maravilhoso....Beijinhos uma boa semana ❤ ❤

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Victor Barroso Nogueira

Odete Maria Botelho Eu não sou Álvaro de Campos LOL

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