* Victor Nogueira
11 de junho de 2016
Natal de calor sufocante, com humidade que colava miríades de gotículas de suor ao corpo, com violentas tempestades, aterradoras trovoadas riscadas de raios, era o de Luanda, com a única maravilha da praia. O Natal, esse ainda era mais faz de conta, um pai Natal enfarpelado qd tudo andava em mangas de camisa, a neve da árvore representada com flocos de algodão ou o esguicho dum spray em bisnaga, o presépio com animais que nunca víramos: carneiros, burros, vacas ....
Era um Portugal de faz de conta onde a única maravilha real era o alvoroço de acordar manhã cedo, a 25 de Dezembro, para desembrulhar as prendas, mais dadas pelo Menino Jesus quase despido que propriamente por um Pai Natal encalorado em desapropriadas vestes. E como vivíamos num Portugal de faz de conta que a nós, angolanos por nascimento e vivência, nada nos dizia, o ano lectivo era igual ao de cá, mas com Verão/calor infernal durante 9 meses e as férias grandes na época "fria". Com o Euromilhões bastava-me um clima temperado como o da costa mediterrânicaDum estrangeiro em Portugal, apátrida, ao contrário do que diz o BIVictor NogueiraSabes, a 2ª vez que estive em Portugal. tinha 16 anos e desembarquei em pleno inverno, a caminho dum Porto cinzento, frio e chuvoso, mas com, um calor humano nas ruas que já não existe ou já não sinto. A terceira vez tinha 20 anos e. descia em Lisboa a calçada da estrela até económicas, no Quelhas, transido de frio, noite cerrada ainda às 8 da manhã (em Luanda já era dia às 5/6 da manhã), mal conseguindo falar ou escrever, os lábios e os dedos gelados como prisões, admirado pelas nuvens de fumo saindo pelas narinas dos guarda nocturnos, dos pessoas com quem me cruzava, dos burros ja desaparecidos, puxando carroças, num tempo em que os pobres andavam a pé, de bicicleta ou de motorizada, em cidades onde os automóveis eram ainda uma raridade. Deste País de faz de conta e do meu país falo no poema Raizes
.Ao fim dum ano em Portugal, tão pequenino, tão mesquinho, tão vistas curtas, o nosso desejo era regressar a África. Mas para mim significava ter de andar para trás, para mudar de alínea e seguir engenharia. Em história falava-se nas largas artérias pombalinas, espantosas ruelas qd as vi pela 1ª vez, face às largas avenidas e ruas de Luanda LOLVictor NogueiraE só voltei a sentir calor humano e solidariedade nas aldeias do Alentejo, mas não nas vilas e cidades onde vivi (como évoraburgomedieval), nas gentes da Beira Baixa, por onde deambulei, e do Barreiro, onde trabalhei.Fiquei em Setúbal pk me fazia lembrar Luanda, mas esta é uma cidade individualista, um deserto, um cada um por si mas tudo coscuvilhando, um deserto cercado de maravilhas naturais que a mão do homem ainda não destruiu, ao contrário do que tem feito à cidadeVictor NogueiraAna, ainda existirá o Barreiro de humanidade onde trabalhei e, apesar de tudo, fui feliz ?Victor NogueiraE a mim dói-me a ausência da presença das amizades, feitas de bolas de sabão* Victor NogueiraSe me ficasse apenas pela aparência do que os meus olhos vêm, a neblina e o cinzento que envolvem a cidade prenunciariam um dia frio, de chuva miúdinha. Mas o suor goticular que permanece à flor da pele sem que se evapore indica que o resto do dia, para além de nublado, será quente e húmido; uma boa chuvada seguramente que refrescaria o tempo e afastaria este pesado chumbo que me envolve, que em Luanda, na estação quente, prenunciaria grandes e violentas bátegas de água quando não relampejantes e ensurdecedoras trovoadas. Mas este é um país de brandos costumes, de pequenas tempestades, de meias águas e de meias tintas. E depois nem sequer há os quilómetros de areia de praias para mergulhar como na minha terra perdida. Como se não bastassem os ajuntamentos, as praias da costa da Arrábida estão na sua maioria impróprias para consumo devido ao grau de poluição. De modo que ao fim do dia, após o emprego, resta apenas a água fresca do chuveiro. (MMA - 94.06.15)uma terra são as pessoas, as casas, as ruas, as memórias, que se vão (re)construindo lentamente ou com um corte radical entre o antes e o agora. sem um presente mais ou menos contínuo. A memória é assim como que um corpo amputado, como o que senti ao voltar a évoraburgomedieval, por um dia, após 20 anos de ausência.É disso que falo também em "Uma outra Luanda - o antes e o agoramente ou o impossível retorno."
Em 1986, numa encruzilhada da minha vida, (o meu divórcio, o saneamento político pelo PS - o 1º de vários ocorrera em 1976, post 25 de Novembro) optei por continuar em Setúbal, onde nunca fui feliz, em vez de regressar a Angola ou ir para o Porto, para o Norte, onde vivia e vive a maioria da minha família. Valeu a pena a opção por Setúbal ? Não, não valeu a pena. Mas não podemos refazer o passado, mas apenas tentar que o futuro seja um pouco diferente e menos cinzento e vazio.Se o Victor de hoje se sentasse defronte do victor dos 20 anos, não se reconheceria embora para lá da pele estejam como se fora um náufrago sem terra no horizonte, como que amortalhados e tentando resistir ao sufoco daquilo que Alda Lara expressa emPRESENÇA AFRICANAE apesar de tudo,Ainda sou a mesma!Livre e esguia,filha eterna de quanta rebeldiame sagrou.Mãe-África!Mãe forte da floresta e do deserto,ainda sou,a Irmã-Mulherde tudo o que em ti vibrapuro e incerto...A dos coqueiros,de cabeleiras verdese corpos arrojadossobre o azul...A do dendémNascendo dos braços das palmeiras...A do sol bom, mordendoo chão das Ingombotas...A das acácias rubras,Salpicando de sangue as avenidas,longas e floridas...Sim!, ainda sou a mesma.A do amor transbordandopelos carregadores do caissuados e confusos,pelos bairros imundos e dormentes(Rua 11!... Rua 11!...)pelos meninosde barriga inchada e olhos fundos...Sem dores nem alegrias,de tronco nue corpo musculoso,a raça escreve a prumo,a força destes dias...E eu revendo ainda, e sempre, nela,aquelaLonga história inconsequente...Minha terra...Minha, eternamente...Terra das acácias, dos dongos,dos cólios baloiçando, mansamente...Terra!Ainda sou a mesma.Ainda sou a que num canto novopura e livre,me levanto,ao aceno do teu povo!Benguela,1953 (de Poemas,1966)Em tempo - Ao contrário de Francisca Van Dunem penso que naquele tempo, pelo menos em Luanda, as influências culturais identitárias eram do Brasil, (então visto como um país multi-racial), da França e dos EUA (estes na altura vistos como uma "democracia", em contraposição a Portugal). Afinal, em 1958, nas eleições presidenciais, o general Humberto Delgado obtivera expressiva votação nos principais centros urbanos, vencendo largamente em Benguela e por 68 votos não conseguindo a maioria em Luanda)

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