* Victor Nogueira
17 de junho de 2023
Regresso à Cela Nova, cuja igreja dedicada a Santo André revejo pormenorizadamente, apercebendo me também do seu pelourinho e do edifício do antigo celeiro. Sigo por outros caminhos em busca de Cela Velha,A povoação tem um ar de abandono, mas a visão de Cela Velha é ainda mais deprimente, embora paradoxalmente pareça mais recente: situa-se no fundo duma descida aprazível mas interminável e, quase no seu termo, uma placa partida indica a existência dum monumento. Lá ao fundo um largo, alguns edifícios degradados, uma bomba de gasolina, a estação do caminho de ferro e um segundo monumento, tal como o primeiro dedicado a Humberto Delgadoxe "personagens:Humberto Delgado". Estranho estes dois monumentos a Humberto Delgado: o primeiro avista-se perfeitamente do largo da estação, lá em cima, a meia encosta.
Na Cela Velha uma igreja nova e um coreto sem cobertura, perto dum edifício duma qualquer associação cuja finalidade não fixei, onde convivem vários homens, para além duma fonte centenária, de 1894.
Uma carrinha e uma caravana de automóveis atroam os ares em propaganda eleitoral, mas não consegui distinguir se eram da CDU se do CDS/PP. Damos uma volta, mas tudo é desolado e em breve um operário ( ) despedido duma fábrica da região contar-nos-à a explicação do Humberto Delgado, que afinal tinha ali uma quinta, donde saíra na véspera a idosa viúva por causa do mau tempo.
O monumento resultou dum concurso público e do trabalho das populações sendo inaugurado em 22 Agosto 1976: uma série de gomos desagregam-se por acção dum ariete que me parece um cravo estilizado. Nos gomos destruídos palavras adjectivantes do fascismo: obscurantismo, mordaça, repressão, mentira, castração, medo, humilhação, violência, colonialismo, ódio, opressão, exploração. Lá em baixo na Praça, os dois blocos representam "o estilhaço impelido pela força indómita da liberdade."
A herdade da família Humberto Delgado - Quinta da Cela Velha - era uma granja, pertença dos monges de Alcobaça, situando-se a casa, recente, no cimo duma encosta, daí se avistando o fértil vale, outrora braço de mar, e as elevações em redor. Para lá dos portões, que franqueamos em visita. (NOTAS DE VIAGEM, 1997.06.28, 1997.07.08 E 1997.09.03)

Sem comentários:
Enviar um comentário