Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Pingos da Lanchoa - Fora com este calor, já! (colectânea alargada) (2026)

  


* Victor Nogueira

Persiste o calor estival, extremo. A máxima prevista para hoje é de 38º C. O corpo está coberto de viscosas gotículas, que se não evporam, como se fossem sangessugas. O céu está dum azul neblinado, o tempo de calmaria, que não enfuna as velas. Tudo em meu redor é silêncio, um silêncio estéril. Os lábios estão secos, sem que a água os consiga amaciar. O precioso líquido não é cristalino, límpido, refrigerante, nas sim como se fosse mistela baça e salobra. Segundo as previsões meteorológicas para os pr]oximos três dias as temperaturas diunas situar-se-ão acima dos 31º C e as máximas, em horas sucessivas, nos 37º C.

Reslvi compilar dos meus escritos ao longo dos anos os pedaços em que falo  do tempo estival, sujeito à exspressão 'Fora com o calor, já', que serve de título a esta colectânea. 

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1961

Aos domingos os habitantes deslocam‑se para as praias de Luanda, como sejam as da Ilha do Cabo, Samba, Corimba e tantas outras. À noite frequentam‑se as elegantes "boites" e exibem‑se filmes nos cinco principais cinemas da cidade (...)

Enfim, Luanda é uma cidade moderna, que se desenvolveu prodigiosamente e que muito mais se desenvolverá num futuro próximo. Pode orgulhar‑se, com justiça, de 1ª cidade do Ultramar Português e 3ª de Portugal. (1961.04.) ([1] Dum exercício de Português (5º ano Liceal), no Colégio Cristo Rei, dos Irmãos Maristas, em Luanda.

 1968

Os pescadores acabam de puxar o dongo ([1]) para a praia. O Zé come pão‑de‑ló. Hoje resolveu ocupar o meu lugar de comilão‑mor. Duas gaivotas, elegantes na sua alvura, passeiam à beira‑mar. Aquele barco ancorado dança vagarosamente ao sabor das ondas. Gostaria de poder descrever isto tudo, não em prosa, não em verso, mas musicalmente.

Notas finais: lado negativo: moscas, praia suja, água fria. (Num dia qualquer de Novembro 1963 a Julho 1968)

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A Maureen, borboleta esvoaçante  - Ontem fui à praia com a Maureen [Baltazar]. Os filhos dela estão na Covilhã passando férias com os avós. Connosco foram o António e o Manuel, dois miúdos que ela conhece. O dia estava muito quente e foi agradável tomar banho. Como a Maureen tem sido muito gentil para comigo ofereci-lhe o almoço, o que a sensibilizou. Convidou-me para jantar com ela, e nós os quatro fizemos o jantar, pusemos a mesa e lavámos a louça (…)  (NSF - 1968.07.02)   

Uff! que calor!, até parece o Abril em Luanda! hoje a temperatura baixou um pouco mais, em relação aos dias anteriores. mas mesmo assim.… o ar está seco e quente; sinto-me pegajoso, indisposto. calor, só calor; nem uma leve brisa para refrescar; quando corre não é senão um bafo quente. as engrenagens cerebrais estão emperradas, o raciocínio faz-se ao retardador! A casa é um forno, a rua um inferno. nem sequer tenho tido coragem de ir à praia, não obstante a sedução dum mergulho infindável nas águas do oceano, melhor, do Tejo. Ontem fui com o Manel até Sintra.  A viagem de comboio, na ida e na volta, foi um suplício. mas lá, meu Deus, que paraíso! Um parque aprazível, o rumorejar da brisa por entre as ramagens, a quietude, o sossego! por lá ficamos largos momentos, eu com a "História da Música Europeia", o Manel com "O pequeno lorde" (MCF- 1968.07.24)

A voz quente e cordial da Emília  Estou cansado, cheio de calor. Convidei a Milinha [Emília Dias] para irmos à praia, mas não aceitou porque tem duas cadeiras para Outubro. (NSF - 1968.08.21) 

Uff! que calor! Estou todo pegajoso!... E eu que durante quatro ou cinco dias não posso tomar banho de chuveiro ou de praia por causa dum raio duma vacina antivariólica que fiz hoje. Vede o paradoxo: uns serviços medico sociais a fomentarem a falta de higiene. Só neste jardim! (ELF - 1968.08.24)

Está uma tarde cinzenta e tristonha, ou não fosse o Porto a Londres portuguesa, fria e húmida, duma frialdade e duma humidade que nos trespassam invadindo todo o nosso ser até à medula; mas apesar disso, ao calcorrear as ruas do centro, bordejadas por edifícios pesados e graníticos, enegrecidos pela acção do tempo, parece me que me encontro entre seres humanos, menos indiferentes que os da pombalina baixa lisboeta, pois uma misteriosa comunhão se estabelece entre nós. Dou por mim a reparar na multidão, que deixa de ser uma massa anónima, que se decompõe em pessoas. Respira-se um outro "ar", quiçá menos refinado ou "aristocrático" mas mais humano, mais caloroso. Esta sensação apodera se de mim sempre que venho passar as férias ao Norte.

A semana passada estive em Évora - o contraste entre estas duas cidades é flagrante. (ACG - 1968.09.12)

1969

Que tenho feito? Andado por aí. Ir ao Instituto ouvir uns tipos a vomitarem sabedoria, uns, ignorância, outros, presunção, alguns. Vender folhas atrás do balcão da Associação de Estudantes. Ir bissemanalmente às piscinas [cobertas] nadar. Ouvir música, de rádio, pois o gira-discos avariou--se. Andar por aí. Ler. Aborrecer-me. Desesperar-me. Angustiar me. Mas,... que interessa isto?! Respiro, como, ando. Estou vivo! O resto, hum! o resto são cantigas. (MLF - 1969.02.23)

Finalmente e já não era sem tempo, parece ter chegado o verão. Embora não esteja calor, o céu está azul, com alvos flocos de núvens aqui e além. As piscinas, uma das coisas boas que esta terreola possui, serão uma tentação na época de exames que atravessamos. (...) Dentro de cinco dias abre a Feira de S. João, ao que sei muito apreciada pelo povo de Évora. A tal ponto que o cinemazeco cá do burgo aproveita os quinze dias para férias do pessoal. ( ) (MLF - 1969.06.17)

Uma ida ao correio   -  Vai uma pessoa de manhã ao correio, para o monte das que esperam pela abertura dos portões. Vai uma pessoa após o almoço, a cidade envolta num bafo quente Penosamente o corpo abre caminho pelas ondas de calor. Sai do Arcada, curva á esquerda, segue em frente até ao Largo do Sertório. Faltam só 20 passos, 19. 18 ... 10 . 9 . 8 . 7 . 6 . 5 . 4 . 3 . 2 . 1 . (Uffa, finalmente a sombra dos arcos do correio, agora mais bonito porque deitaram abaixo o prédio  nas traseiras do edifício da Câmara Municipal - o prédio que agora se avista é lindo. Deviam, no terreno vago, plantar erva e árvores frondosas. E colocar bancos. Mas tá quieto! Já andam lá tractores a escavar. Deve ser para outro prédio.) Entretanto entro no edifício. Viro á esquerda, dirijo-me para o apartado e ... levanto-me da mesa onde estou e procuro no monte das cartas e ... ah! deve estar ali. EUREKA - cá está! Não é! Olha, não encontro. Paciência. Mas que baldes de água ando apanhando! Safa! Nem um postalinho! (MCG - 1973.06.17) 

O Verão chegou finalmente, envolvendo a cidade num bafo quente e opressivo (NSF - 1969.06.28)

1970

O calor chegou. E no Verão Évora é mais insuportável. Daqui a pouco talvez vá até ao Arcada meter uns líquidos. É quase meia-noite. Anteontem estive em Lisboa. (...) Já estou desabituado daquele bulício e das longas distâncias. Aqui está tudo ao alcance da mão. Tive de fechar a janela, pois o quarto foi invadido por umas mosquitas incómodas. Música pop ouve se no gira discos. (NSF - 1970.05.23)

Amanhã abre a Feira de Évora. Já não era sem tempo que algo surgisse para quebrar a chatice desta terra, onde até o cinema fechou desde há uns dias para férias do pessoal (NSF - 1970.06.22)

1971

Começou a época das piscinas  (NSF - 1971.06.30)

As idas á praia, as corridas de automóveis em miniatura, os jogos de cartas, "os polícias e ladrões", as zangas, as colecções de autógrafos, tudo isso já está tão para trás, que quase não consegue dar calor e vivacidade às nossas relações de agora.   (…) 

Todos estes e tantos outros fazem-me sentir o desconforto do meu exílio em Portugal, mais precisamente em Évora. Estou cansado dele! (NSM - 1971.12.01/03) 

1972

O dia está desagradável no jardim: ventoso e fresco. Ontem o tempo estava estival, dizem as minhas notas. Os carros passam velozmente ali na Marginal e o Tejo é azul. As crianças correm e brincam pelas áleas e vêm-se muitos triciclos e bicicletazinhas. A esplanada [do jardim] está cheia de gente que conversa. Além à esquerda vejo o barracão feio do cinema da vila [o Chaplin]: apenas três sessões semanais no verão - terças, sábados e domingos. (1) (MCG - 1972.08.10)

1973

Viemos hoje até à Ericeira, povoação de pescadores que os veraneantes descobriram para as suas férias. Ei-los que passam vagarosamente, atravessando as ruas e os cafés, no seu jeito muito burguês. de quem nada tem para fazer. E também os bancos do largo, na conversa, que parece chilreio de pássaros. Aproveito para ir lanchando. A estrada para cá é muito estreita e cheia de curvas; os carros vêm a passo de boi. (MCG - 1973.06.16)

Ao entardecer de ontem as ruas da Baixa tinham um cheiro a chuva - um cheiro bom - enquanto as montras ao longo das ruas eram um apelo pelos saldos, principalmente vestuário. (...) Está hoje um calor abafado, sem nada da leveza das semanas anteriores. Prevê se, segundo os jornais, o racionamento de água em Lisboa. Água que já falta há muito nos concelhos limítrofes de Oeiras, Sintra e Cascais, onde pessoas há que não se podem lavar senão com águas de garrafão, tipo Luso e similares. Isto se não quiserem cheirar a sovaquinho e plantarem uma hortazita na sujidade do corpo. Entretanto a cólera alastra pela Itália e a Companhia das Águas de Lisboa vai informando que lançará mais desinfectante nas águas e, à cautela, a Direcção Geral de Saúde faz as recomendaçõezinhas da praxe, sem qualquer interesse dada... a falta de água. (MCG - 1973.09.05)

(...) Na varanda das piscinas, em Évora, às 15:30. Está um dia quentemente abafado; nas ruas muitas saudações dos "amigos" e conhecidos que passam. Na boca um sabor amargo e de náusea. Detesto Évora. Pronto. Já disse. Poderei algum dia apreciar a beleza de Évora ? (MCG - 1973.09.07)

Mudei hoje de [nos Olivais]; trouxe a máquina da sala de jantar para a saleta onde durmo. São já 15 horas e pela persiana entreaberta entram os gritos e o chapinhar das pessoas nas águas da piscina, juntamente com o ronronar dos automóveis ali na Avenida de Berlim. Setembro chegou e com ele se foi o calor e veio esta temperatura amena que prenuncia o Outono. É agora tempo bom para os passeios e os jovens casais que passam pelas ruas, pelos jardins e pelos corredores do metropolitano, enlaçados, joviais ou simplesmente de mãos dadas aumentam, por vezes, a minha solidão e o desejo duma outra vida. Que nada tem a ver com esta esterilidade e desengano em que me encontro. (MCG - 1973.09.10)

1974

Fora com o calor, já!  - O Calor é aquele monstro que nos empasta o cérebro, é uma pancada súbita quando se passa do átrio do instituto para a rua, é aquela viscosidade que nos encarapaça o corpo, os dedos, o tronco coberto pela camisa, os sovacos, a região púbica. FORA COM O CALOR, JÁ! (MCG - 1974.07.24 - aniversário da Revolução Cubana) 

O tempo está agradável, mas o meu espírito anda fora de mim. Não sei bem porquê! Olho para os livros aqui nos caixotes e sinto me aprisionado. Já deviam ter seguido para qualquer parte, porque estando ainda aqui, significa que eu também estou e que não tenho ainda para onde ir. Sinto me enredado parado! (1974.07.17)

Depois.... é preciso arrumar - convenientemente - a tralha nos caixotes, o que deve levar uns dois dias (por causa deste calor infame!) Entretanto vamos ver se cravo o meu tio Zeca Jones a vir até cá. (MCG - 1974.07.24)

1976

(…)  Cá por Évora um calor infernal e falta de água: na maioria do tempo os canos deitam apenas ar. Enfim, vai ser um lindo verão. Também esta casa é muito quente á tarde, contrariamente á outra. A tartaruga, como vai? Um aluno da Celeste, por sinal chamado Victor, deu-lhe bichos-da-seda. Aquilo são piores que marabuntas ou piranhas: passam o tempo a devorar folhas de amoreira. Estão ali numa tampa duma caixa de sapatos. (MEB - 1976.06.01)  

 Os bichos-da-seda, na sua maioria, já fizeram os seus casulos amarelos. Vamos ver quando nascem as borboletas. Encanto-me a ver a sua evolução. (MEB - 1976.06.15) 

Os campos agora estão ressequidos e o calor aperta. Só à tardinha e à noite apetece sair. (MEB - 1976.06.15)

Cá recebemos a ventoinha. (...) já a temos utilizado - é bonita e fica bem na cozinha - mas faz um ruído que não sabemos se é natural ou falta de óleo. esperemos que se não estrague (MEB - 1976.07.05)

1986

Está um dia de calor, que só arrefece à noite. Escrevi-te ontem um postal para receberes hoje, que enderecei para o 7º andar por não estar certo de teres a chave do correio. Mas ...parece-me que o enderecei para o 7º C, pelo que se o não receberes terás de procurá-lo na casa da Isabel Guterres. 

Parece-me que o Algarve se assemelha ao sul do Alentejo (o Manuel [Salazar] diz que é a Trás-os-Montes), quer nos campos, quer no estilo de algumas ruas e casas.

Mas, por enquanto, Vila Nova de Mil Fontes ainda vai à frente nas minhas preferências.

O Rui e a Susana como vão? Dá-lhes um beijinho e paa ti um abraço do VM (MCG – 1986 08 01)

O rádio aqui em Lagos transmite música rock Esta Praia [da Luz] fica a 2 km do Parque de Campismo e tem muitas vivendas bonitas, a maioria das quais só estão habitadas no Verão A água é fria como a da Figueirinha [em Setúbal] e não tem ondas nem sabe a sal como a de Vila Nova de Milfontes- O Parque de Campismo é muito grande e é divertido ir‑se lavar a loiça ou a roupa nas instalações colectivas, embora as pessoas não falem umas com as outras. O Parque tem um supermercado, cabeleireiro, restaurante, "boite", piscina, parque infantil (com um carro de bombeiros) e, imaginem, uma geladaria com sorvetes de 3 qualidades!!! (SRN - 1986.08.21)

O sol já desapareceu e dele há apenas no horizonte, debruando as colinas, uma faixa vermelha alaranjada. Ali à direita, a estrada para Porto Salvo, polvilhada de casario que vai substituindo os campos onde ainda se pratica a agricultura, agora secos. Ao longe um cão ladro e lá do fundo da casa vem o barulho da televisão. O mundo parece de brinquedo, assim, visto dum nono andar [na Tapada do Mocho].

Passei a manhã lendo ou gravando música - desta vez brasileira - para além de ter ajudado a minha tia lavando a louça e na parte das lides domésticas resultantes da minha estadia. À tarde fui com a Susana ver o comércio de Paço de Arcos e passear pelo jardim.

(...) Olho novamente pela janela e o céu é agora azul-escuro, com um leve debrum alaranjado no horizonte. Piscando, um avião passa além, enquanto lá em baixo fieiras de luzes assinalam as estradas, as casas e os automóveis. (MMA - 1986.08.15)

1988

Aqui na Tapada do Mocho, como na maioria do concelho de Oeiras, continua a falta de água. Habituamo-nos à facilidade de simplesmente rodarmos uma torneira para obter água em abundância pelo que é um aborrecimento o racionamento e o termos de andar suados e peganhentos por não se poder tomar banho ou termos de nos lavar a prestações.

1989

Passei as férias lá para o norte, para as bandas do berço da nacionalidade, visitando o castelo de guimarães; igrejas românicas e citâneas celtibéricas, como sanfins e briteiros. xe "condução automóvel"§uma aventura andar a conduzir naquelas estreitas e sinuosas veredas, mal sinalizadas, com pessoas simpáticas que se metem no carro para nos indicarem o caminho, quando não nos dizem que é já ali à direita enquanto apontam a esquerda, já ali a dois quilómetros, que não pertencem ao sistema métrico do contador do renault 5, que os multiplica sempre por quatro ou cinco. mas outro factor de aventura resulta de possuírem outro código de estrada: não abrandam nas cruzamentos, mesmo que se apresentem pela esquerda, o stop não existe, os motociclistas não usam capacete e entram nas curvas a cortar a direito, os peões ficam aparvalhados à beira da passadeira quando paramos para lhes dar passagem, enquanto os automobilistas não gaciliam mesmo nada para entrarmos ba 'corrente'. 

Mas aventura também porque assim, deste modo, não há programa que resista, chegando a noite sem o cumprimento dos objectivos fixados de véspera, na mesa, debruçado sobre o mapa e o guia turístico das preciosidades a visitar ou a vislumbrar. Assim ainda não foi desta que fui ao Gerês, a Trás-os-montes ou bordejando a margem norte do Rio Douro, para montante.

Mas o Norte está diferente e poucos troços verdejantes se encontram ao longo dos caminhos ou pelos atalhos. Casas, muitas casas, sejam ou não "maisons" dos "avec" que irrompem agressivamente na paisagem, numa fúria de "apagar" o passado, sejam ou não melhoradas as condições de habitabilidade; os campos e as povoações já não ostentam aquele equilíbrio entre o "natural" e o humanizado. (MBC - 1990.09.19)

(...) Estou aqui no meio dos montes verdejantes do Minho [serra do Soajoxe "serras: do Soajo"§] e tudo isto é muito lindo, calmo e sossegado. Ontem estivemos ali sentados no quintal, ouvindo os grilos e conversando à luz da lua em quarto minguante, o relógio da torre sineira cantando o tempo que passava. E hoje, hoje quando me levantei, fiquei simplesmente encantado com esta portentosa paisagem. Pena o dia estar nublado, limitando a linha do horizonte e a cadeia de montanhas. (MCS - 1989.08.22)

1993

Ultimamente, em Set+ubal, a rua parece um forno. como se estivéssemos no Alentejo, com uma brisa sufocante e uma luminosidade que fere o olhar. (...) Há dias em que o brilho do ar é tão intenso que não consigo ler o jornal ao fim de semana no cimo das escarpas de Santos Nicolau, com o Estuário do rio Sado ao fundo e a Serra da Arrábida à direita. Mas aqui à noite, na varanda, corre uma brisa acariciante, conjuntamente com o cheiro da terra molhada. (MMA - 1993.08.10)

O calor continua e neste fim-de-semana partirei mesmo para o Norte, pois eu e a Susana queremos estar de volta para poder assistir à Festa do Avante. De manhã fui cortar o cabelo a um barbeiro já velhote cuja existência desconhecia, ali numa transversal entre a Livraria Danny e o Largo do Mercado. A barbearia foi outrora o Salão Azul, agora decadente, e aplica cortes antigos e preços que são metade dos de outras barbearias. E que lento que é o velhote na execução da sua tarefa! Porque gosto do trabalho perfeito, explicava-me ele.  (MMA - 1993.08.19)

Hoje não choveu, apesar do tempo trovoadoresco, pelo que acabámos na Praça da Figueira [em Lisboa] cheia de gente, na Esplanada dos Irmãos Unidos vizinha da Suiça, mas com pouca variedade de comes e bebes. Por lá apareceu um indivíduo, poeta popular, vendendo meia dúzia de poemas em livro de sua autoria, a quem comprámos um exemplar que dedicou à Susana, depois dele e a minha mãe se terem recitado mútuamente poemas das respectivas autorias. De qualquer modo os dele, em conteúdo, não chegam nem de perto nem de longe aos calcanhares do António Aleixo, algarvio, ou do Calafate, setubalense, pois quanto ao estilo são diferentes.

O regresso a Paço de Arcos, pela autoestrada, foi uma limpeza em rapidez, pois Agosto é um bom mês para férias, porque o pessoal sai da cidade, para as suas vacances, havendo pouco trânsito e muitos locais para estacionar.

Ainda tenho de ir à do Conde S. Januário, a casa dos meus pais, buscar uns recipientes de água da torneira para fazer face à seca. (MMA - 1993.08.19)

Finalmente a água voltou: barrenta, jorrando das torneiras aos borbotões ruidosos. Finalmente o prazer de abrir o chuveiro e sentir a carícia da água tépida deslizando pelo nosso corpo!

O calor continua, com uma intensidade tal que a sede aperta e os joelhos fraquejam. Aqui na Tapada do Mocho o sol bate na fachada da casa durante toda a tarde. Em Setúbal não sinto tanto calor pois durante o dia normalmente não ando na rua. Por seu lado no Departamento onde trabalho existe ar condicionado e em casa sempre se abrem as janelas e, desde este ano, o calor em casa ameniza-se com a refrigerante ventoinha que comprei, que me refrescou muitas vezes. (MMA - 1993.08.20

No verão a população aumenta grandemente, pois trata-se duma praia muito procurada, com cheiro a algas e maresia, calma na zona rochosa e com ondas alterosas e batidas na zona arenosa, embora fria e ventosa para o meu g sto de pessoa nascida e criada nos trópicos. Deste modo no verão, com o comércio, o pessoal da terra procura tirar o sustento para o resto do ano. Fora isso as pessoas vivem da pesca e da agricultura (por trás da casa há um enorme campo que se cultiva), enquanto na praia se recolhem as algas para adubar as terras.  (...) (MMA - 1993.08.20)

 Finalmente a água voltou: barrenta, jorrando das torneiras aos borbotões ruidosos. Finalmente o prazer deabriro chuveiro e sentir a carícia da água tépida deslizando pelo nosso corpo!

O calor continua e o corpo cobre-se de camadinhas de finas gotículas de suor que se não evaporam, tal como sucedia em Luanda. (MMA - 1993.08.20)

Continuando o registo meteorológico, hoje o dia amanheceu nublado e chuvoso, mas para a tarde já estava soalheiro embora quente e abafado como nos anteriores. Não há dúvida que este mês de Agosto tem sido farto em variações climatéricas algo surpreendentes. (MMA - 1993.08.21)

1994

Se me ficasse apenas pela aparência do que os meus olhos vêm, a neblina e o cinzento que envolvem a cidade prenunciariam um dia frio, de chuva miúdinha. Mas o suor goticular que permanece à flor da pele sem que se evapore indica que o resto do dia, para além de nublado, será quente e húmido; uma boa chuvada seguramente que refrescaria o tempo e afastaria este pesado chumbo que me envolve, que em Luanda, na estação quente, prenunciaria grandes e violentas bátegas de água quando não relampejantes e ensurdecedoras trovoadas. Mas este é um país de brandos costumes, de pequenas tempestades, de meias águas e de meias tintas. E depois nem sequer há os quilómetros de areia de praias para mergulhar como na minha terra perdida. Como se não bastassem os ajuntamentos, as praias da costa da Arrábida estão na sua maioria impróprias para consumo devido ao grau de poluição. De modo que ao fim do dia, após o emprego, resta apenas a água fresca do chuveiro. (MMA - 94.06.1

1996

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

1997

Para Norte, atravessando a sinuosa Serra do Espinhaço de Cão, encontramos Aljezur, em árabe significando Aldeia das Pontes, já referida, pequena vila "conservada" na sombra do seu castelo, povoação ainda com dimensão humana, no meio duma mata que na altura não passava de troncos esquálidos e carbonizados em consequência de sucessivos incêndios. O marulhar das ondas é um ruído constante e monótono audível no Parque de Campismo, a cerca de dois quilómetros. Na praia do Monte Clérigo, extenso areal balizado a a sul pela mole rochosa, casas de veraneio, despretensiosas, onde sobressai uma mais "rica". Para Norte, um pequeno e calmo riacho desagua na arenosa e solitária praia da Amoreira, a qual se alcança atravessando a vau apenas na maré baixa.

Ainda mais para Norte, a caminho de Vila Nova de Mil Fontes, o alcantilado Cabo Sardão, os esgotos desaguando no areal, a praia alcançada por estreito carreiro iniciado cá em cima junto ao característico incaracterístico barraco de comes e bebes. (Memórias de Viagem, 1997.08.21)´

2010

Sabes, a 2ª vez que estive em Portugal. tinha 16 anos e desembarquei em pleno inverno, a caminho dum Porto cinzento, frio e chuvoso, mas com, um calor humano nas ruas que já não existe ou já não sinto. A terceira vez tinha 20 anose. descia em Lisboa a calçada da estrela até económicas, no Quelhas, transido de frio, noite cerrada ainda às 8 da manhã (em Luanda já era dia às 5/6 da manhã), mal conseguindo falar ou escrever, os lábios e os dedos gelados como prisões, admirado pelas nuvens de fumo saindo pelas narinas dos guarda nocturnos, dos pessoas com quem me cruzava, dos burros ja desaparecidos, puxando carroças, num tempo em que os pobres andavam a pé, de bicicleta ou de motorizada, em cidades onde os automóveis eram ainda uma raridade. Deste País de faz de conta e do meu país falo no poema Raizes

Ao fim dum ano em Portugal, tão pequenino, tão mesquinho, tão vistas curtas, o nosso desejo era regressar a África.

2016

Natal de calor sufocante, com humidade que colava miríades de gotículas de suor ao corpo, com violentas tempestades, aterradoras trovoadas riscadas de raios, era o de Luanda, com a única maravilha da praia.

2026

O vaso onde nidificou o casal de pombos continua vazio. O calor extremo persiste, criando uma enorme lassidão e o desejo de mergulhar em águas oceânicas ou debaixo do chuveiro, breve e fugaz lenitivo. Ontem a previsão meteorológica para hoje em Setúbal  era a de que se atingissse a extrema dos 42º C. Para amanh\a prev||em/se temperaturas elevadas, atingindo os 38º C à beira-Sado. (2026 07 02)

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Imagem gerada pelo Google Gemni a partir dum guião de minha autoria

Gera uma imagem colorida com o seguinte guião . um homem idoso, em mangas de camisa, t-shirt,  sentado a uma mesa, defronte a um pc portátil. Sobre a mesa folhas manuscritas, uma pilha de livros e um globo terreste Por detrás do homem uma estante com livros. Uma janela aberta permite a entrada da luz. No exterior o céu está com núvens alarajadas, com um sol vermelho sobre elas

VER  

O Gemini analisa a colectânea 'Fora com o calor, já!' (1* versão, alargada) (2026)

O Gemini analisa a colectânea 'Fora com o calor, já!' (1* versão, reduzida) (2026)

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