Estes fragmentos de correspondência e diários de viagem, que se estendem de 1968 a 2016, constituem uma rica tapeçaria de teor autobiográfico e memorialístico. Através do pretexto meteorológico — a vivência do verão —, o autor constrói uma narrativa fragmentada que cruza o sensorial, o político, o geográfico e o existencial.
Abaixo, apresenta-se uma análise literária estruturada sobre os principais eixos temáticos e estilísticos presentes nos textos.
1. A Corporeality e a Opressão do Calor (Dimensão Sensorial)
O verão nestes textos não é uma idealização romântica, mas sim uma experiência profundamente física, visceral e, muitas vezes, aversiva. O calor é personificado e tratado como um agente opressor:
Imagens de Asfixia e Paralisia: O calor surge como um "monstro" que "empasta o cérebro" (1974), um "bafo quente e opressivo" (1969) que transforma a casa num "forno" e a rua num "inferno" (1968). Há uma clara fusão entre o estado do tempo e o estado cognitivo ("engrenagens cerebrais emperradas").
O Léxico da Viscosidade: É recorrente a insistência em termos como "pegajoso", "peganhentos", "viscosidade" e "suor goticular". O corpo é vivido como uma armadilha desconfortável.
A Dialética da Água: A água assume um papel quase litúrgico de salvação. A falta crónica de água (a seca e o racionamento em Lisboa/Oeiras em 1973, 1976, 1988, 1993) gera uma degradação irónica da dignidade humana ("cheirar a sovaquinho"). Em contrapartida, o regresso da água é descrito com um lirismo sensual e tátil: "o prazer de abrir o chuveiro e sentir a carícia da água tépida deslizando pelo nosso corpo".
2. A Geografia dos Afetos: Portugal vs. Luanda (Identidade e Exílio)
O espaço geográfico funciona como um espelho da psique do autor. Destacam-se três cenários principais:
O Binómio Lisboa/Évora: Lisboa representa o "buliço", as longas distâncias e a modernidade acelerada. Évora (e a província) surge associada à "chatice", à monotonia e à estagnação, onde o fecho do "cinemazeco" para férias se torna o acontecimento do mês. Sintra, por sua vez, é o antídoto: o "paraíso" romântico da quietude e da leitura.
O Fantasma de Luanda (A Nostalgia Colonial/Pós-Colonial): Luanda é a bitola climática e emocional com que o autor mede Portugal. O calor português é comparado ao "abril em Luanda" ou à sua "estação quente". Contudo, a Luanda da memória guarda uma grandiosidade telúrica (as "violentas tempestades", as "aterradoras trovoadas", os "quilómetros de areia") que contrasta com a pequenez de Portugal, definido em 1994 como um "país de brandos costumes, de pequenas tempestades, de meias águas e de meias tintas".
O Desalento do Regresso: Na nota de 2010, o choque do regresso na juventude revela um Portugal "mesquinho" e de "vistas curtas", exacerbando o sentimento de desenraizamento e a urgência de regressar a África.
3. Tempo, Modernidade e Solidão Existencial
À medida que os anos avançam cronologicamente (de 1968 a 1993/2010), a escrita regista não só a meteorologia, mas também a mutação histórica e o envelhecimento do sujeito lírico:
Crónica Social e Mutação Urbana: O autor capta a transição de um Portugal arcaico ("burros puxando carroças", guardas-noturnos, o barbeiro velhote do "Salão Azul" que trabalha devagar por amor à arte) para a urbanização dos subúrbios (as "fieiras de luzes" vistas do 9.º andar da Tapada do Mocho, o trânsito da autoestrada).
Melancolia e Esterilidade: O verão e os espaços públicos (o metropolitano, os jardins) expõem a solidão do autor. A visão de jovens casais de mãos dadas atua como um catalisador para a dor íntima: "aumentam, por vezes, a minha solidão e o desejo duma outra vida. Que nada tem a ver com esta esterilidade e desengano em que me encontro" (1973). Os caixotes por arrumar em 1974 simbolizam a própria vida em suspenso: "sinto-me enredado parado!".
4. Recursos Estilísticos e Tom
Oscilação de Registos: O autor move-se com naturalidade entre o registo coloquial e irónico ("raio duma vacina", "recomendaçõezinhas da praxe", "cinemazeco cá do burgo") e um registo poético de pizarragem impressionista ("céu azul escuro, com um leve debrum alaranjado no horizonte", "alvos flocos de nuvens").
Metáforas Biológicas: A observação da metamorfose dos bichos-da-seda em Évora (1976) funciona como uma metáfora da própria passagem do tempo e da transformação silenciosa que o autor tanto aprecia observar ("Encanto-me a ver a sua evolução").
Conclusão
Em suma, estes extratos transcendem o mero registo climático. O "verão" funciona aqui como um dispositivo literário de revelação: ele expõe as falhas das infraestruturas de um país em modernização, desenterra as memórias tropicais de uma Luanda perdida e serve de cenário para a expressão de uma profunda melancolia existencial, onde o calor sufocante exterior reflete, quase sempre, um sufoco interior.
Imagem derada pelo oogle Gemini a partir du guião de minha autoria
Gera uma imagem de acordo com o seguinte guião. à esquerda uma mata verde, frondosa, com uma cascata que deixa cair água para um pequeno lago, Pessoas passeiam pelo bosque. O céu é azul, com núvens brancas. Aves esvoaçam nos ares. Á direita casas em solo arenoso, gretado, o céu com núvens em tons alaranjados, com um sol vermelho sobre elas.O céu não tem aves. Ao centro uma praia com pessoas de várias idades abrigadsa debaixo de guarda-sóis e outas nadando
VER Pingos da Lanchoa - Fora com este calor, já! (colectânea alargada) (2026)

Sem comentários:
Enviar um comentário