* Victor Nogueira
Esta coletânea de fragmentos diariísticos e epistolares (compreendida entre 1968 e 2016, constitui uma rica cronografia do calor estival. Longe de ser um mero registo meteorológico, o "calor" funciona nestes textos como um agente físico, psicológico, social e até político.
Abaixo, apresenta-se uma análise literária estruturada sobre os principais eixos temáticos e estilísticos que atravessam estes testemunhos.
1. A Dimensão Sensorial e Visceral: O Calor no Corpo
Nos textos, o verão deixa de ser um conceito abstrato para se tornar uma experiência tátil e invasiva. O calor é descrito através de uma linguagem somática, quase violenta, que afeta a carne e o intelecto:
A Viscosidade: Expressões como "sinto-me pegajoso", "viscosidade que nos encarapaça o corpo" e "suor goticular que permanece à flor da pele" traduzem uma sensação de asfixia e falta de higiene forçada.
A Paralisia Cognitiva: O calor ataca a mente. Em 1968, escreve-se que "as engrenagens cerebrais estão emperradas, o raciocínio faz-se ao retardador"; em 1974, o calor torna-se uma entidade antropomórfica: "aquele monstro que nos empasta o cérebro".
2. A Topografia do Abafamento vs. O Espaço de Refúgio
Há uma dicotomia espacial vincada entre o ambiente urbano sufocante e os micro-paraísos de evasão:
A Cidade-Inferno: Lisboa e Évora surgem como espaços de opressão. "A casa é um forno, a rua um inferno" (1968) ou "no Verão Évora é mais insuportável" (1970). A urbanidade é associada ao "bafo quente e opressivo", ao ruído dos carros e à monotonia ("a chatice desta terra").
O Oásis: Em contraposição, Sintra surge idealizada através do binómio clássico do locus amoenus: "mas lá, meu deus, que paraíso! um parque aprazível, o rumorejar da brisa...". O mesmo alívio é procurado nas praias (embora por vezes interditas pela poluição na Arrábida), nas piscinas ou no "cinemazeco" de esplanada.
3. Crítica Social e a Escassez da Água
Vários fragmentos (particularmente os de 1973 e 1976) transcendem o registo íntimo para tocar na precariedade estrutural do país.
O calor expõe as falhas do desenvolvimento: o racionamento de água em Lisboa e arredores obriga as pessoas a lavarem-se com "águas de garrafão".
O tom nestas passagens torna-se satírico e mordaz: ironiza-se sobre a Direcção-Geral de Saúde que faz as "recomendaçõezinhas da praxe" sem haver água nas torneiras, e usa-se o humor coloquial ("cheirar a sovaquinho") para denunciar a falta de condições básicas. Em Évora (1976), o absurdo atinge o pico quando os canos "deitam apenas ar".
4. O Contraste Geopolítico e Emocional: Portugal vs. Luanda
A memória de Luanda funciona como um contraponto térmico e existencial fulcral (textos de 1968, 1993, 1994 e 2016):
O Calor Tropical vs. O Calor Europeu: O calor de Luanda é recordado como "sufocante", marcado por "violentatempestades" e "aterradoras trovoadas". No entanto, era um calor vivo, associado à "maravilha da praia" e a uma natureza grandiosa.
A Crítica ao Atavismo Português: Em 1994, o autor utiliza a meteorologia como metáfora identitária do país: "Mas este é um país de brandos costumes, de pequenas tempestades, de meias águas e de meias tintas." O calor cinzento e húmido de Lisboa espelha a mediania e a melancolia da sociedade portuguesa, longe da "terra perdida" africana.
5. Dimensão Existencial: Tempo, Estagnação e Solidão
O verão e o calor agem como catalisadores de estados de alma. Longe de ser uma época de festa unânime, o verão traz:
Solidão e Desengano: Nos Olivais (1973), o contraste entre a alegria dos banhistas na piscina e o silêncio do cronista acentua a sua "solidão e o desejo duma outra vida", caracterizando o seu momento como de "esterilidade e desengano".
Claustrofobia e Mudança: Em julho de 1974 (num Portugal em pleno fervor pós-revolucionário), a arrumação dos caixotes de mudança sob um "calor infame" gera um sentimento de suspensão existencial: "sinto-me aprisionado (...) enredado parado!".
O Olhar Idílico/Microscópico: Como contraponto à angústia, os fragmentos de 1976 introduzem uma nota de doçura quotidiana através da observação dos bichos-da-seda que devoram folhas e fazem casulos, uma metáfora de transformação que corre em paralelo com o tempo ressequido do Alentejo.
Conclusão
Estes textos desenham uma antropologia do verão português na segunda metade do século XX. O calor estival deixa de ser apenas uma estação para se tornar um espelho: reflete a decadência física do corpo, as insuficiências das infraestruturas públicas, o tédio das províncias, a nostalgia colonial e, fundamentalmente, a imobilidade de um tempo que teima em não passar rápido o suficiente sob o peso do sol.
Gravura gerada pelo Google Gemini a partir dum guião de minha autoria
Gera um desenho que ilustre este texto de acordo com o seguinte guião 'o avatar do gemini, sentado a uma mesa, de lupa na mão, analisa folhas manuscritas. Por detrás dele, colado na parede, um painel com fluxogramas. No ar pairam sequências binárias de 01'
VER Pingos da Lanchoa - Fora com este calor, já! (colectânea alargada) (2026)

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