Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Pensões e restaurantes no Livro de Viagens (2026)


* Victor Nogueira

Antigamente as pessoas escreviam muito e as cartas eram meio de transmitir notícias e muitas delas, com maior ou menor valor literário, tornaram-se testemunho dos factos, acontecimentos, ideias e sentimentos. Mas hoje, hoje as pessoas telefonam ou encontram-se, devido à facilidade e rapidez dos transportes e das comunicações, e o tempo é pouco, paradoxalmente, devido à sobrecarga do que se gasta em transportes, sentado frente à TV ou em tarefas domésticas.

O mesmo sucede com o convívio e a conversação: por vários motivos os cafés e as tertúlias desaparecem, só se conhece o vizinho da frente ou do lado, quando se conhece, e as pessoas metem-se na sua concha, casulo, carapaça ou buraco. Muita gente junta, ao alcance da mão ou da voz, não significa que estejamos mais acompanhados e humanizados. (MMA - 1993.08.19)

Visitámos as ruínas da antiga povoação de Cambambe. Fomos até à ponte do  Rio Cuanza. Almoçámos num restaurante duma estação de serviço FINA, a uns 8 km da povoação: bife com ovo estrelado... e batatas fritas.  Às 14:45 demos início ao regresso a Luanda. No Dondo está sol. Na viagem de ida e volta a Luanda percorreram‑se cerca de 430 km. (Das notas manuscritas da viagem, 1964.06.14)

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 Viagem: de Luanda a Cambambe - Saímos de Luanda às 4 horas da madrugada, tendo regressado às 22 horas. passámos por Viana, Catete, Maria Teresa, Dondo, etc.) Almoçámos na cantina da barragem. no dondo parámos. fui à capela de lá.  Atravessámos vários rios: Cuanza, Lucala e outros. Visitámos a barragem. As ruínas da antiga povoação estão cobertas de capim. (Diário 1962.06.17)

 

 

Às 14:45 demos início ao regresso a Luanda. No Dondo está sol. Na viagem de ida e volta a Luanda percorreram‑se cerca de 430 km. (Das notas manuscritas da viagem, 1964.06.14)

 

Às 17 horas fomos ao Farol das Lagostas lanchar. Bebi pela primeira vez “coco-pinha”. Bebemos champanhe. (...) Subimos ao farol. Percebi como é que a luz do farol anda à roda.

 

Em 5 Ago 60 eu, a mãe e o Zé embarcámos no “Uíge” para uma viagem ao Lobito, Moçâmedes e Nova Lisboa.  No dia seguinte chegámos ao Lobito (... que) visitámos de autocarro. Almoçámos no Restaurante Luso. Qualquer que seja o percurso que andemos de autocarro pagamos sempre 2$50. Não há cobradores. (...)  (Diário III - pag. 7/9)

 

Viagem no “Infante D. Henrique” do Lobito ao Huambo - Chegámos ao Lobito na 3ª de manhã. Desembarcámos e como não havia lugares nos hotéis acabámos por ficar na Pensão Ideal, que de ideal nada tinha. era triste, com colchões mais duros que o meu, mosquitos... a comida é que não era má. (MNS - 1962.08.24)

 

Em Luanda, por exemplo, dos amigos, uns iam e vinham, mas outros mantinham‑se. Uns e outros se juntavam periodicamente, para irem à praia, ao cinema, aos restaurantes dos arredores, no Cacuaco ou na Estrada de Catete, nas Ilhas do Cabo ou do Mossulo. (MCG - 1988.07.18/20)

 

Eu, o pai e o José João fomos almoçar ao "Mar e Sol" [na Ilha do Cabo]. Comemos sopa, batatas com linguado, batatas fritas com rim grelhado e pudim flã. À tarde o Rui [Almeida] veio brincar comigo. Já arranjámos a bicicleta (descansa que eu vesti uns calções e uma camisa velha. Em Ponta Negra dei‑me ao trabalho de contar os buracos dessa camisa e contei mais de 21) (MEB - 1959.09.03)

 

 

 

Fomos almoçar ao "Vilela", na Estrada da CUCA ([1]). Comemos o prato tradicional: bacalhau assado e churrasco [de frango]. (...) A esplanada possui um jardim acolhedor e as mesas estão colocadas em redor. ([2])

 

Após o almoço fomos todos passear: Cacuaco, Estrada da Circunvalação, Estrada da Samba e pela cidade. Voltámos para casa tendo estado a ouvir música. Foi um domingo bem passado. (1964.06.22 - Diário V)

 

 

Nova Lisboa - De há dois anos para cá a cidade não se desenvolveu muito. Estão a construir um mercado novo, de linhas modernas, que fica defronte da Pensão. Fartei‑me de passear a pé, tendo por isso ocasião de verificar que há por aqui coisas que Luanda deveria ter: ruas arborizadas, bons jardins e cestos para o lixo (logo as ruas são limpas). Gostei bastante da Restinga, com casas engraçadas. ([3])

 

Nova Lisboa ficámos hospedados no Hotel Coelho, esplendidamente situado. Já visitei bastante a cidade e se não andei mais é porque ela se estende ao longo do caminho de ferro. Já visitei tudo, desde a estação postal na "baixa" até à Câmara Municipal, na "alta". (MNS - 1962.08.24)

 

O nosso quarto no Hotel Coelho era o nº 1. Possui duas camas, uma delas de solteiro, cómoda, guarda-fatos, uma mesa, uma cadeira e um lavatório. (Diário III - pag. 18/19)

 

Nova Lisboa a Luanda, por terra - Relato I 

13 de Setembro - 5ª feira

8:00 - Saída de Nova Lisboa (Eu, a mãe e o Zé)

 

10:15 -10:40 - Vila Teixeira da Silva - sede do concelho do Bailundo. Altitude 1640 m. Vila airosa e electrificada. Tomamos aqui o pequeno-almoço.

 

12:35 - 13:40 - Hengue - Possui uma modesta pensão estalagem onde almoçámos. A comida não era nenhuma maravilha: sopa de feijão (que não comi), pasteis albardados (muito aldrabados) com salada, arroz branco (parecia cola) com chouriço e galinha. Conclusão - 50 paus.

 

 

8:45 - Quibala - vila, sede de concelho do mesmo nome. Possui luz eléctrica e campo de aviação. Altitude - 1340 m. Clima subtropical seco. Dormimos numa pensão. O nosso quarto era o nº 4 e era razoável. Comida idem aspas. O jantar foi sopa, que não comi, peixe frito com salada, arroz com bifes e bananas. 150$00 foi

 

 

14 de Setembro - 6ª feira

 

Acordámos às 5:45. Matabichámos. Tome café com leite e pão.

 

6:40 - Partida da Quibala

 

9:15 - 9:50 - Atravessamos o rio Mucongo. Tomamos o pequeno-almoço no Munenga. Acabou o pão de ló que a sra. D. Maria Delfina nos oferecera. Bebi uma laranjada e comi pão com manteiga

 

11:30 - 12:55 - Chegámos ao Dondo, o “Ouro Preto” de Angola. está muito calor, que me incomoda bastante. Na Praça da República há um jardim com um coreto. naquele, escrito com relva, lê‑se “Aqui é Portugal”.  Vila, sede de concelho de Cambambe, é uma povoação muito antiga. Possui energia eléctrica. Clima tropical quente. O Dondo foi uma importante povoação nas duas últimas décadas do século passado e princípios deste. Já naquele tempo possuía hospital, bons prédios, ruas alinhadas, etc. Com a construção do CFL (Caminho de Ferro de Luanda) as casas comerciais distribuíram‑se ao longo da linha férrea e a vila perdeu muita da sua importância comercial.

 

Almoçamos no Bar Passarinho: um prego e uma laranjada. Foi a 3ª vez que estive no Dondo. O ajudante de motorista, o Sebastião, desapareceu, mas por fim lá apareceu todo esbaforido. Meteram gasoil no autocarro

 

15:30 - Catete - 60 km de Luanda. Vila sede do Concelho de Icolo e Bengo. Luz eléctrica. Alt. 70 m. Clima tropical regular. Passámos a 3 km da vila. Zona algodoeira, com uma produção média anual de 4000 toneladas.

 

15:50 - 16:00 - Km 44 - Merendámos - 1 laranjada. Fica no cruzamento da Estrada de Catete com a do Bom Jesus. Possui uma casa comercial. Não é povoação.

 

16:40 - Estalagem do leão - pousada a 17 km de Luanda, transformada em aquartelamento militar.

 

16:45 - Grafanil - 7 km - Fábrica de explosivos e aquartelamento.

 

16:50 -   Entrámos em luanda. Paragem no posto de controle militar, perto da F.T.U. (Fábrica de Tabacos Ultramarina)

 

Paragem ao pé da Esquadra da Polícia Móvel, onde desceram alguns passageiros

 

17:05 - Chegada ao Largo das Ingombotas. Fim da viagem. O pai estava à nossa espera.

 

Nova Lisboa a Luanda, por terra - Relato II

Saímos de Nova Lisboa às 8 horas em ponto. A viagem decorreu normalmente e, para mim, não foi muito maçadora, pois tive oportunidade de conhecer novas terras e novas paisagens. Pouco depois de passarmos o Vale do Queve um taxi carro ultrapassou‑nos, parando à frente do autocarro. Era uma senhora que havia perdido a carreira, por chegar atrasada, e apanhara um táxi, que numa espécie de maratona lá nos conseguiu alcançar. Seguimos viagem, já com a tal senhora. Entre o Cachimbombe e o Hengue vimos um casamento de pretos. As duas noivas iam vestidas de branco, seguidas por numeroso séquito, batendo palmas e cantando.

 

Almoçamos no Hengue. A comida não era nada famosa e o arroz mais parecia uma pasta -. Ainda estive para guardar um bocado para cola. Levantámos ferro, se assim se pode dizer, cerca das 13:40

 

Antes de chegarmos à Quibala passamos por uma povoação de açorianos, o Catofexe "catofe"§ chegámos à Quibala já ao anoitecer, não tendo visitado a vila. No dia seguinte também não tivemos oportunidade ensejo de o fazer, pois às 6:30 já estávamos a caminho. Esquecia‑me de dizer que pernoitámos na Quibala, nu

 

Matabichámos no Munenga, onde acabou o pão de ló que trouxemos daí. [Caala] Ainda assim durou bastante (...). Até esta altura parecia que a paisagem se queria associar ao meu estado de espírito, pois o tempo estava muito enevoado. Onde o sol deu um arzinho da sua graça foi no Dondo xe "Dondo"§mas as núvens não devem ter gostado, pois até hoje e mesmo em Luanda tem estado um tempo triste, embora às vezes bastante quente. Almoçámos aqui no Dondo e demos uma volta pela vila.

 

Como até aqui e daqui a Luanda, a paisagem é triste e monótona, em nada se comparando com a do Centro. Só imbondeiros, com os seus braços descarnados, e capim, sempre capim. A única nota alegre são as elegantes palmeiras, que por aqui há bastantes, bem como exóticos cactos candelabro. (...) Chegámos a Luanda à tardinha. Estava ansioso por ver o meu pai, mas fiquei desolado com o acolhimento que nos dispensou. Podia ao menos ter afivelado um sorriso e feito um acolhimento mais caloroso. (BGF - 1962.09.25)

ma pensão, ou lá o que é, perto da igreja. O que eu reparei na Quibala foi que há quase mais postos de gasolina que casas (exagero!)

 

De Nova Lisboa a Luanda, por terra - Relato III

 

 A viagem de regresso decorreu bem. Almoçámos no Hengue e dormimos na Quibala e no dia seguinte almoçámos no Dondo. Na quinta-feira a paisagem e o dia estavam óptimos. Mas no dia seguinte grande parte da manhã esteve enevoada. À tarde o sol mostrou um arzinho da sua graça. É pena que tudo fosse monótono, com árvores secas, capim e mais capim e imbondeiros. Tudo a condizer com a minha disposição nessa altura.

 

E cá estou de novo em Luanda. Parece que ainda ontem estávamos nós a embarcar no Infante D. Henrique. No entanto, já lá vai mais dum mês. (ASV - 1962.09.24)

 

Dei hoje uma saltada a Badajoz. É uma cidade muito movimentada e com muitas e belas garotas. que diferença de évoraburgomedieval andei por aí, com uns colegas meus. daqui a pouco vamos jantar. temos de atravessar de novo a fronteira até às 24 horas. (...) (NSF - 1970.03.06)

 

 

Farol das Lagostas - Tive um bocado de medo ao subir e descer as escadas, pois eram em ferro e em forma de caracol. Tínhamos de subir agarrados aos degraus. Foi o 3º farol que vi. O outro foi o da ilha do cabo.

No terraço do Farol das lagostas estava muito frio. Também vi o farol de Ponta Negra, quando lá estive. (Diário - 1959.01.04)

 

 

 

Lembro-me, sim, que em Badajoz, no tempo da outra senhora. fiquei retido na fronteira, como refém, às ordens da PIDE, com outros colegas, por causa do contrabando (de bebidas, roupas e chocolates), enquanto o prevaricador‑mor ia a casa (em Évora) buscar dinheiro para pagar a pesada multa. (MBC - 1990.09.19)

 

 

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A viagem correu optimamente, excepto quando sobrevoámos Lisboa. Devemos ter apanhado alguns poços de ar e parecia que o estômago me saía pela boca. Em Kano [Nigéria] apanhei um bocado de frio. (...) Atravessámos montanhas, ou melhor, sobrevoámos montanhas cobertas de neve e o Deserto do Saara.  (...) A comida a bordo era para um pássaro. E paga um sujeito uns poucos de contos para isto.

 

No aeroporto estavam à minha espera a Bita, a Maria Luísa e a minha madrinha [Cristina Santos] (NSF - 1962.12.28)

 

 

 

A viagem era uma festa, uma canseira ou uma sensaboria. Dependia do clima ou do tempo disponível. Passava‑se pelo interior das povoações, parava-se para meter gasolina, para comer ou devido aos engarrafamentos provocados pela estreiteza das vias, pelas carroças puxadas por animais ou devido a qualquer acidente rodoviário. Se tempo houvesse era mais demorada a paragem nas povoações ou pelo caminho para admirar a paisagem ou para pequenos desvios. (Memórias de Viagem, 1997.11.16)

 

 

Finalmente Almeirim, onde numa noite chuvosa comi uma sopa de pedra num dos seus restaurantes, e a comprida ponte sobre o rio Tejo, até avistarmos o morro sobranceiro no cume do qual foi construído o na altura poderoso Castelo de Santarém.

 

Almeirim foi terra onde os reis vinham passar o inverno nos séculos XV e XVI, mas hoje encontra‑se descaracterizada. Fora deste trajecto, para (Memórias de Viagem, 1997)

 

 

Águeda - Fomos ao Sanatório do Caramulo. Passámos por S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Albergaria‑a‑Nova, Albergaria‑a‑Velha (comemos algo na Praça D. Teixeira). Chegámos a Águeda  xe "Águeda "§passava pouco das 11. Almoçámos no Restaurante Santos. (...) Às 14:15 chegámos ao Caramulo. A serra é muito descampada, além de estar um dia excepcionalmente quente. ([4]) Não gostei do passeio, não por não gostar do passeio, mas sim porque ultimamente tenho andado indisposto ([5]) (1963.06.28 - Diário III - pag. 317/31)

 

Alandroal - Vila onde não conseguimos almoçar: os poucos cafés e restaurantes fechados por ser Domingo. Foto ao castelo, tirada de longe; o castelo tem uma torre de menagem branca, que mais parece mirante árabe. A vila é pequena e o castelo dentro das muralhas resume-se a uma rua. Casas pobres, embora arranjadas. (2000.09.17)

 

 

Alte - Paramos para almoçar. Soneto de Cândido Guerreiro, gravado na rocha,  que em Coimbra se lembrava da Fonte de Alte (Fonte Grande), onde escreveu os primeiros versos e as mulheres do povo contavam lendas. À volta e na parede da igreja os Passos da Cruz. Largo da Igreja, Ruas do Oiteiro, da Barroca, Nova da Ribeira, Estrada da Ponte, Rua, Beco e Escadinhas da Barroca.

 

A caminho de Salir parece haver pequenas propriedades divididas por muros de pedra. Os campos estão coloridos com bonitas flores. Ruas estreitas e algumas com escadinhas por onde ia enfiando o carro. (2000 04 19)

 

 

Estou em Beja, na casa da Cultura. Está uma tarde de verão, apesar do inverno não ter ainda acabado. Ontem à noite andei a passear pelas ruas da cidade, que me pareceu mais bonita na parte velha, fazendo‑me lembrar Faro. Logo à noite vamos jantar a uma cooperativa em Pias. (...) Esta Ermida [de Santo André] não é tão bonita como a de S. Brás, em Évora. (SRN - 1988.08.03)

 

 

Cacilhas (Almada) - completamente descaracterizada, feia, placa giratória dos ferry boats e dos autocarros. Conhecida a rua do ginjal, com restaurantes, à beira-rio; das casas antigas pouco resta. (Notas de Viagem, 1997)

 

 

Castro de Aire  - Não encontramos o pelourinho. Igreja. Foto à torre junto ao cemitério, por entre as árvores. Castro Daire é uma terra arranjadinha, airosa, sem velharias. A igreja, junto ao cemitério, está num local aprazível, arborizado, onde almoçamos. A povoação tem algumas casas de telhados grandemente inclinados, como nos países nórdicos. (1999 11 01)

 

 

Coimbra é também o rio Mondego reduzido muitas vezes a um miserável fio de água, e bancos de areia. Contornava‑se a baixa, parava‑se numa arborizada avenida à beira-rio para almoçar num dos restaurantes e raramente houve tempo para subir à Universidade, com um magnífico miradouro, para deambular pelo Choupal ou pela Lapa, celebrizados pelos fados coimbrões, ou para visitar o Portugal dos Pequeninos, reprodução em miniatura de casas tradicionais portuguesas, de monumentos ou os pavilhões com artesanato das colónias e baseados na arquitectura destes territórios, ao tempo províncias ultramarinas, em manifestação típica do Estado Novo. . (Memórias de Viagem, 1997)

 

 

Évora

 

Ao fim duns vinte minutos foi a chegada a Évora. Após alguns infrutíferos telefonemas feitos dum barzeco existente junto à estação, consegui arranjar um quarto na xe "Évora: pensão Eborense"§Pensão Eborense. Começara pelas pensões de 2ª classe e estava a ver que terminava no hotel de luxo. Mas Deus Nosso Senhor teve pena da minha bolsa! Entretanto os táxis tinham debandado. Sabendo que a pensão ficava a cerca de 1 km e porque a noite estava amena, pus o saco da TAP a tiracolo e pés a caminho. (...) ([6]) (NSF - 1968.10.25)

 

Hospedei‑me numa pensão (Pensão Restaurante "Os Manuéis"), a dois passos da Praça do Giraldo. O edifício foi construído com essa finalidade, o quarto é bom, o mobiliário obedece a um único estilo - rústico, ao contrário do bric‑à‑brac doutras pensões por onde tenho andado, como a Distinta ou as Zitas [em Lisboa]. A comida, dois pratos, é variada, à lista e abundante. A diária oficial é de 88$00 (safa!) É uma hipótese não a considerar, já que a mensalidade (com banhos e tratamentos de roupa) atingiria os 2 000$00. As casas particulares são mais em conta. (NSF - 1968.10.27)

 

É noite. Do pátio chega‑me o esfregar da escova no cimento e da água que escorre. Música do século XVIII abafa (quase) o tiquetaque do relógio. São 19 horas em Évora. A cama desfeita, o pijama sobre o corpo, um bocejar enorme. A viagem foi mais fatigante e monótona, cortada por longos silêncios. Cansado - fatiga nervosa - resolvi ir jantar aos "Manuéis", eram 14 horas: vitela em molho de tomate e "mousse" de chocolate (a última!) (...) (MCG - 1973.10.29)

 

 

Pensão os Manuéis - tenho de arranjar outro quarto, pois aquele [nos Manuéis] é muito acanhado (apesar de pagar 60 paus por dia) e sem água corrente (tenho de ir ao 2º andar e apanhar grandes frialdades quando passo nos corredores) (MCG - (1974.12.05)

 

Agora não tenho pachorra para procurar quarto em casa particular - os "Manuéis" é uma merda para 1 800$00. Antes mudar para a "Giraldo" e pagar 2 100$00. ([7]) Mas isto não é sistema e não pode ser senão uma solução provisória. (MCG - 1974.12.08)

Agora ali no Giraldo (pensão) tenho mais condições para estudar e há mais luz, a mesa é melhor e posso ligar o aquecedor. Falta‑me no entanto a música para repousar (o rádio a maior parte das vezes não serve) [2º andar, quarto 21] (MCG - 1974.12.10)

 

Acabou de chegar o almoço. Isto não é comida para uma pessoa de alimento como eu. Évora deve ser das cidades onde se come pior. Parece que os alentejanos jejuam por sistema. Arre! (MCG - 1974.12.16)

A mesa é pequena e está atulhada de livros, empilhados uns sobre os outros. O rádio transmite música, aos soluços, Faz‑me falta o gira‑discos, mas não tenho local para colocá‑lo aqui no quarto. Está um domingo frio, enevoado - anteontem à noite choveu - e resolvi ligar o aquecedor. (MCG - 1975.01.13)

 

É já noite, durante o jantar, aqui no poiso habitual que é o "Manuel Iglésias". Choveu todo o dia, por vezes a cântaros, e esteve um frio desagradável. (MCG - 1975.02.11) Embora me aborreça o gigantismo de Lisboa, obrigando a perder imenso tempo em percursos, a verdade é que o contraste entre os montes de malta amiga ou simplesmente conhecida de Lisboa e a pacatez sorna de Évora fazem‑me detestar toda a vida estúpida de Évora. (MCG - 1975.01.02)

 

Acabei de jantar aqui no "Manuel Iglésias". São 21 horas e não me apetece ir para casa. Gosto do convívio social e de estar com as pessoas. Mais um dia de aulas! (...) Ontem foi o último dia de cinema, que só reabrirá lá para o mês de Julho. Até lá teremos [a] Feira [de S. João]. Vamos lá ver se continua em decadência. (MCG - 1975.06.16

 

Na pequena salinha do café do senhor Gonçalves ([8]) (é outro que não o da Raymond Street) alguns clientes assistem à televisão ali por cima do balcão: o Jorge Alves apresenta o programa da próxima semana. O [Emídio] Guerreira queixa‑se que a sopa está quente (...). Comecei hoje a comer aqui neste café, junto ao jardim infantil, entre a Praça de Touros e o Rossio [de S. Brás]. O almoço estava saboroso. Esperemos que assim continue. Ali numa mesa ao lado um grupo de jovens vê uma colecção de fotografias pornográficas, que de vez em quando mostram a outros noutra mesa, cruzando o meu campo de visão. Entretanto a TV transmite um documentário sobre a guerra israelo-árabe, prendendo a atenção dos clientes. (...) Na televisão sereias soam numa cidade síria, sobrevoada por aviões israelitas que a bombardeiam. Escombros e feridos enchem o ecrã.  (MCG - 1973.11.21)

 

São 20:30; aqui estou [em Évora] no café Parque, um bocadinho contigo, a televisão trabalhando e homens ao balcão conversando e bebendo a bica. Ali a minha mãe faz as contas com a sra.D.Alice [Quaresma], das refeições na messe [dos oficiais]. Estava eu aqui muito bem acabando o meu jantar com o João Luís e o Guerreiro quando elas irromperam por aqui a dentro. A Maria Antónia - penso que é o nome da cozinheira -.muito delicada e sorridente, "recebe as ordens". Sou levado a concluir que tem qualquer preconceito contra os homens, pois nunca lhe ouvimos nem saudação ou vislumbrámos um sorriso. (MCG - 1973.12.04)

 

 (...) Lá em baixo  no café Parque (a cozinheira anda muito simpática. Até já me trata e ao Guerreiro pelos nossos nomes!)    (MCG - 1973.12.06)

 

 

Isto, nesta terra, é o fim da macacada. Aqui há umas semanas, à hora do almoço, a Domingas foi com o Carlos [Nunes da Ponte] ao restaurante Fialho, onde o dr. Vasco Caetano nos marcara encontro para proceder ao pagamento dos inquéritos [de Arraiolos]. Pois o amigo Valentim foi diligentemente informado, por um tipo que até nem é das relações dele, que a "sua mais‑que‑tudo" tinha ido e vindo do Fialho... acompanhada! Deu‑se ao trabalho de segui‑los, para conveniente informação a quem de direito! Isto é o fim! (MCG - 1973.07.03)

 

A fotografia é antiga! Não parece! Mas... a cerca da fonte já não é assim e o táxi (1º) já não existe. Também as motorizadas já não param no topo do tabuleiro. A indumentária das pessoas e a esplanada defronte do "Diana" indicam que é Verão! Eis aqui a célebre Praça do Giraldo, o local que os meus pés mais têm calcorreado. É sábado e estou jantando. Este fim-de-semana foi um pouco "chocho". A semana passada houve uma boa peça de teatro (O Amigo do Povo) e um filme a ver (O Espantalho). Esta semana, nada. Enfim. Por mero acaso integrámo-nos numa das visitas guiadas Túlio Espanca. Mais duas igrejas visitadas. (MCG - 1974.01.18)

 

Vou até ao café (Arcada) lanchar e poluir um pouco os pulmões. (MCG - 1973.01.24)

 

 

Ferreira do Alentejo - Vila de casas solarengas, onde se destaca a Capela de Santa Maria da Madalena ou do Calvário, única no mundo, tendo externamente a configuração duma redoma; o hemisfério superior apresenta pedras salientes, contrastando com a alvura das paredes. Monte a caminho de Beja, à beira da estrada com o seu forno do pão, no exterior, perto dum restaurante de beira‑estrada onde se anuncia a sopa de pedra. (Notas de Viagem, 1997)

 

 

No dia 14 [Abril. 1963], domingo de Páscoa, fui, com o avô Barroso e o tio Zé a Goios, passando por Famalicão. Almoçámos em Goios, tendo‑me aborrecido imenso. O "compasso chegou por volta das 17 horas. À tardinha fomos para a Pedra Furada. Revi com prazer a Lourdes e a Cândida, e fiquei a conhecer a Celeste e a Amélia. Divertimo‑nos bastante. (Diário III - pag. 165)

 

Almoçámos em Guimarães e visitámos o castelo, de que só restam as muralhas e a torre de menagem, além de vestígios das antigas habitações (lareiras, janelas na muralha). A torre de menagem, construção quadrangular ao centro, era o último reduto do castelo, com uma única porta, quase ao nível das ameias; uma ponte levadiça era e é o único acesso a tal torre. O guia empregou uma expressão original: "se o castelo era a vida da torre, a torre era o castelo da vida". . (NSF - 1968.10.04)

 

 

Daqui de Leiria, a caminho de Lisboa, enquanto espero pelo almoço, envio um aceno. Está um lindo dia cheio de sol. No entanto esta parte da cidade é corriqueira. A única que acho interessante é aquele em que estive tempos atrás (MCG - 1975.04.01)

 

Lisboa

Ficámos no Hotel Americano, na Rua 1º de Dezembro. Ao entardecer vim dar uma volta, para ver as montras nos Restauradores e Avenida da Liberdade. Vi os cinemas Éden, que parece luxuoso, e Restauradores (que dá sessões contínuas). Subi a avenida e cheguei ao Parque Mayer. Dei por lá uma volta, tendo feito o gosto ao dedo na barraca de tiro ao alvo. Parte do [filme] "O Parque das Ilusões" passa‑se aqui. Quando cheguei ao S. Jorge [um pouco mais acima] voltei para o hotel. Passei pelo Tivoli e pelo Condes. As montras das lojas são variadas. Utilizei a passagem subterrânea. Depois do jantar fomos comer uns camarões e beber umas cervejas. A casa onde comemos tem as paredes forradas de conchas. (1963.09.09 - Diário III)

 

São 12 h 00.m. Estou a escrever sentado numa das mesas dum dos cafés do Rossio, que tem resistido às investidas dos bancos (por quanto tempo, ainda?) mais precisamente o "Nicola", que foi o poiso dum dos nossos maiores colegas: Bocage. Escrevo e simultaneamente vou comendo um "croissant", sorvendo aos poucos um escaldante "garoto" claro (ou "pingo", como se diz lá para o Norte). Nas mesas homens que já não são jovens - pelo menos cronologicamente como eu - encafuados em pesados sobretudos, alguns de chapéu a cabeça, cavaqueiam (sobre quê?), lêem o jornal ou limitam‑se a seguir com os olhos, absortos em pensamentos, o fumo dos cigarros. Também estão algumas mulheres (talvez senhoras, mas isso não interessa, somos só homens e mulheres). Aquela ali à minha esquerda escreve, não cartas mas, numa agenda ou bloco, notas. Ali a porta gira, gira, gira. Na fonte que se entrevê pela montra, a água jorra, jorra, jorra. Os automóveis passam, passam, passam. E o murmúrio das vozes, o tilintar das louças, a gaveta da caixa, constituem um pano de fundo. Évora morta, chata, entediante, onde estás tu!? (...) [Depois da monotonia de Évora, todo este bulício é reconfortante]. São 14:50. Fui corrido do café pois um "garoto" e um bolo não dão direito a mesa "per omnia saecula, saecolorum"! Especialmente à hora do almoço. (NSF - 1968.12.23)

 

Esta Lisboa do miúdo que choraminga. E do velhote, límpidos olhos azuis, humildemente vestido, mas não enxovalhado, que é brutalmente arrastado para o passeio por um pai rude, exaltado, mal barbeado, que lhe torceria o nariz, o esmigalharia, lhe daria duas bofetadas, ... se ele não estivesse bêbedo. Enquanto aquele retorquia: "Estavam a maltratar os pombinhos", sem muita firmeza, de olhos perdidos sabe Deus onde Ou do miúdo que me aponta uma pistola: "Mãos ao ar", num Chiado repleto de gente azafamada. Que é admoestado por uma mãe derretida. Que se perdeu no rio das gentes que sobem ou descem. Das duas "meninas bem" que, especadas no passeio qual escolhos, lançam olhares furibundos ao pirralho esfarrapado e sujo que lhes aponta uma espingarda de lata. Do café Nicola, donde sou desalojado sem cerimónia, pois um "garoto" e um "croissant" não permitem a ocupação indefinida de uma mesa para escrever, especialmente à hora de almoço. Dos vendedores ambulantes, que jogam ao corre‑corre com os polícias, de tabuleiros cheios de quinquilharia, jogando ao passo‑passa com os automóveis. (NSM - 1968.12.27)

 

Da Alfama medieval para a Baixa pombalina, eis a rota do nosso passeio. Também gosto desta "vista". Repara que enquanto Alfama é residencial, a Baixa é essencialmente comercial. Uma única semelhança: os candeeiros da iluminação pública [1972]. Anúncios luminosos, automóveis, e ruas mais largas são o contraste (Quando andava na 4ª classe [em Luanda] e ouvia falar nas ruas do Marquês, imaginava-as em largura à medida das de Luanda... que têm o dobro ou o triplo destas!). Ao fundo fica o elevador de Sta. Justa, que separa o Largo do Carmo da Igreja do mesmo nome, cujas ruínas se avistam do lado direito - os dois arcos em ogiva. Esta é uma das igrejas da expressão "Cair o Carmo e a Trindade” (após o terramoto de 1755). (MCG - 1972.09.13)

 

As visitas que hoje, em Lisboa, fizemos a várias pensões foram muito instrutivas. Algumas não tinham condições, especialmente nos prédios antigos, onde os quartos são na maioria interiores, dando para saguões, tristes, soturnos e deprimentes. Isto já sem falar nas cores horríveis de alguns. Mas não se arranja quarto por menos de 2 000 $ mensais [1973]

 

Estou agora a lanchar numa pastelaria aqui no Chiado, que tem penduradas na parede - um armorial, uma couraça, um capacete e duas espadas do século XVI. Desgraçados dos soldados que usavam tal ferraria em climas tórridos. (1973.01.04)

 

Hoje não me apetece ir a Lisboa! Lisboa é o andar dum lado para o outro, a azáfama sem sentido.Outrora era a Associação de Estudantes [de Económicas] e o cinema. Depois, já em Évora, era a Emília [Dias] e os nossos almoços e as conversas sobre o momento político e o movimento estudantil. A ela se juntou o Luís Filipe [Vidigal Pereira], que andou comigo no 1º ano de Sociologia, Mas... a Emília passou e a sua presença amiga e gentil é a lembrança da mulher e do afecto que não consigo ter. O Luís Filipe é a divergência dos caminhos - a minha radicalização (ao menos teórica e intelectual) - e a sua aceitação desta sociedade, revelado no curso [que acabou por tirar], no emprego que arranjou, na vida que levará, que a colecção completa dos Livros RTP/Verbo e de Bolso Europa‑América e do Círculo de Leitores prenunciam, conjuntamente com um passatempo caro - a fotografia. Os outros amigos? O tempo nos separou. Lisboa seria então, na semana passada, a procura de emprego. (1974. Outono)

 

Almocei com a Emília [Dias]. O almoço no "Isaura", ali na Av. Paris, estava bom e falámos dos nossos velhos companheiros de lides associativas - quantos já se integraram no sistema? Outros continuam a lutar, alguns mesmo à custa da própria liberdade. (MCG - 1973.10.02)

 

Ali as Galerias ITAU, aqui na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, estão fechadas - e deve ser há muito - pelo que resolvi sentar‑me na Esplanada do Pão‑de‑Açúcar a lanchar e, enquanto faço horas para ir até à Gulbenkian, vou escrevendo. O barulho é muito: dos carros que passam, o roncar dos motores e as buzinadelas, o chiar dos pneus no asfalto e o roçar das cadeiras e mesas de ferro no empedrado da calçada, isto sem falar no homem que varre o passeio e no vozear das pessoas que conversam. Enfim, uma "sinfonia" pouco agradável, mas lá dentro o ar está quente e de cortar à faca. (MCG - 1974.10.17)

 

P'ráqui estou num café no Cais do Sodré. Os autocarros e os eléctricos passam lá fora na rua. O ambiente está ruidoso e o tempo ameaça chuva. A sandes e o galão estavam uma merda. (São 18:30 de sábado) (...) Parece que vai chover. Esperemos que consiga chegar a casa antes do aguaceiro, pois não trouxe guarda‑chuva. (...) E por aqui me fico hoje. Tenho de ir apanhar o comboio [para Paço de Arcos]. Não avisei que ia jantar e vai haver sermão, pois não contam comigo. (MCG - 1974.10.19)

 

Desta vez escrevo do café Gelo, aqui no Rossio, em Lisboa, avistando ali uma nesga da Rua 1º de Dezembro e da Estação [do Rossio]. Defronte a mim o [Emídio] Guerreiro acabou de lanchar e lê agora o jornal. Mais adiante, o empregado da tabacaria, calças aos quadrados., camisola preta e longos cabelos louros, vai lanchando e arrumando a loja. Esperamos que o Carlos [Nunes da Ponte] saia do emprego. O Guerreiro chegou ontem e temos percorrido Lisboa em busca dum emprego que não aparece, apesar do coração de Portugal estar doente e ser uma chatice se deixar de trabalhar (Pelo menos é o que diz o anúncio da RTP). Assim, temos deixado impressos devidamente preenchidos... aguardando. As minhas tias, especialmente Esperança, andam inquietas, pois dizem que eu sou bolchevista (ai, credo!) e assustam‑se quando digo que vou começar a assaltar bancos. (...) (MCG - 1974.10.22)

 

Já era tarde para jantar em Paço d'Arcos e dei uma volta, acabando por vir parar a um restaurantezeco aqui no Cais do Sodré, em Lisboa, mesmo na rua dos bares e das prostitutas. Na cadeira ao meu lado ronrona um enorme gato. (MCG - 1975.03.25)

 

Amanhã regresso a Évora com o João Lucas. Vim ontem com o Viegas e a Violete; chegámos já tarde a Lisboa, onde jantei na tasca habitual lá para o Cais do Sodré, onde passeia o "bas‑fond" cá da cidade: prostitutas, chulos, clientes e chuis.  (1975.06.29)

 

Voltei a Carnide e fiquei com vontade de regressar. Fomos lá almoçar, num simpático largo arborizado com esplanadas dos restaurantes que o circundam. (Notas de Viagem, 1996. Verão)

 

 

Fui a casa do avô Luís. Éramos para ir a Guimarães, mas como ele não arranjara o carro acabámos por ir almoçar a Matosinhos, ao Restaurante Tainha. Viemos para casa de eléctrico e chovia a potes. Levámos mais de três quartos de hora para chegar à [rua] Sá da Bandeira, onde apanhámos outro para casa. À noite vimos [na TV] mais um episódio do "Mascarilha" e outro do "Mr. Ed", o cavalo que fala. (Diário III - 1963.02.17)

 

 

Na Mealhada - Havia sempre muitos camiões e automóveis parados, para que os seus ocupantes comessem e bebessem nos restaurantes à beira da estrada, que não se pode impunemente andar com ‘a garganta seca’ ou ‘a barriga a dar horas’. (Memórias de Viagem, 1997.11.16)

 

 

Moimenta da Beira - Da 1ª vez – na anterior – jantámos na churrascaria Chouriço. Desta almoçámos na Pizzaria/Restaurante Horizonte. À saída da povoação as árvores têm vários matizes; se estivesse sol seria um espectáculo deslumbrante. Assim, resta o cinzento e o verde carregado deste dia de chuva miudinha. (1999 10 31)

 

 

Monforte - Almoçamos nesta vila, onde há muitos cartazes de touradas. . Ponte romana. (2000 09 11)

 

 

 

Chegámos a Monte Real cerca das 17:30. Na Pensão Cozinha Portuguesa fiquei instalado. Um quarto do sótão, pequeno, sem água corrente, com uma clarabóia. O quarto tem uma cama com um óptimo colchão, um guarda fatos, uma mesa de cabeceira, além do lavatório e bidé. Como é meu costume tratei de visitar a terra, tendo dois hotéis e quase duas dezenas de pensões; a nossa fica num extremo.

A comida é boa. Habituado como estou à vida na cidade, não gosto muito do campo. Aqui não se tem nada que fazer. Só comer e dormir. (1963.08.26 - Diário III)

 

Monte Real - O Hotel das Termas, à entrada do frondoso parque que integra as mesmas, encontra-se desactivado, realizando-se nele apenas exposições. No parque as pessoas deambulam conversando, passeando, tricotando ou olhando simplesmente para lado nenhum. O referido hotel foi bem frequentado, incluindo pelos Nazis durante a 2ª Guerra Mundial, segundo informação algo orgulhosa da “recepcionista” da exposição. Aliás esta veneração explicará a persitência da Rua 28 de Maio e do Largo Oliveira Salazar.  (1999.08.22)

 

Monte Real - Foto no pelorinho, defronte do que teria sido a Casa da Câmara, que chama a atenção pela escadaria exterior que dá acesso ao 2º piso. Perto uma igreja que foi gótica, cuja reconstrução nada conservou da traça primitiva. Pela 1ª vez dou conta dos afamados Paços da Rainha, reduzidos a um rectangulo ameado, sem tecto, espécie de adro duma igreja que, entretanto, se construiu.

 

 

O tempo está húmido e frio e quando cheguei de Lisboa estava farto da viagem e da constipação (...) No comboio duas raparigas - especialmente a que se chamava Nani - tentaram provocar conversa - as deixas foram muitas - mas sem grande resultado. Não sei o que seriam: empregadas de escritório, operárias ou qualquer outra coisa. A máquina de discos aqui doutro café da rua principal de Paço de Arcos transmite qualquer coisa barulhenta e desconchavada cujo estribilho é "Oh Mary". Não vale a pena a troca, pois aqui também não há pregos nem leite. Tenho mesmo de ficar mal jantado. (1974.12.26)

 

 

Pateira de Fermentelos (Lagoa) - Povoação (vila) que parece clandestina, com ruas estreitas e tortuosas. Monumento ao emigrante e busto de Sá Carneiro, este com alguma qualidade, perto da estalagem eem jardim aprazível à beira lagoa.

 

Nesta apanha-se ainda o moliço, mas sem as brigas de outrora entre os habitantes das várias povoações que a bordejam. (1998 09 11)

 

 

Por uma estrada atravancada de carros, espinha dorsal transversal do Algarve, fomos até Faro. Pelo caminho, lá em baixo, Portimão, à beira do curso de água, com os seus restaurantes característicos de sardinhadas. A cidade situa‑se na foz da Ribeira do Arade Do cimo da ponte, lá em baixo, os restaurantes com a fumarada da sardinha assada e o reflexo das traineiras nas águas que balouçam suavemente. Foi importante centro ligado à indústria conserveira, como Peniche, Setúbal e Matosinhos, hoje em decadência. . (Memórias de Viagem, 1997.08.21)

 

 

Fomos ao Palácio de Cristal (no Porto). Diverti‑me bastante, pois a Fernanda e a Elvira [primas da D. Alexandrina]. Jantámos no Restaurante Santa Luzia, na Feira xe "Porto: Feira do Palácio de Cristal"§. Andámos nos carros eléctricos 1963.05.16 - Diário III)

 

Safa, que o Porto é frio, duma frialdade enregelante. Estou aqui num café na Rua Formosa, aguardando o pequeno-almoço.  A casa do meu avô Luís está superlotada - os meus tios estão lá - e resolvi ficar numa pensão, que só de pensar nela me arrepio. Ali a Pensão Brasil (3 estrelas) já deve ter tido uma certa categoria - no tempo em que as pensões eram uma casa, mas agora está em franca decadência, porca, suja e desleixada. 100 paus é a diária dum quarto num quinto andar. Enfim... O velho, dono da pensão, estava ontem às voltas com um dedo entalado, enrolado num pano que enchia a casa de vinagre.

 

Aconselhei‑o a pôr o dedo em água quente e hoje lá me foi dizendo que estava melhor. (...) No Porto, nova aventura: onde ficar? Pego na lista telefónica, retiro uma série de endereços de pensões e... nova preocupação. E então, os preços?! Pego em mim e venho andando tentando adivinhar a categoria da pensão - e consequente modicidade do preço - pela fachada. E assim caí [nesta] espelunca. (MCG - 1974.09.22)

 

 

Fui [1968.Agosto] pelo Rio Tejo acima, num barco dos faroleiros, até perto de Vila Franca de Xira. Aquela visão da cidade [de Lisboa] é interessante. Almoçámos no meio do rio. Fiquei bastante queimado. Aprendi umas coisas de marinharia, apesar de ter a Carta de Marinheiro Amador, da Capitania de Luanda. Comemos bacalhau com batatas. Regado com muito azeite. Estava saborosíssimo. E quente, na cabine do barco. O cais dos petroleiros e as refinarias, com as suas torres chamejantes, pareciam uma cidade monstruosa, de aço. As fragatas são elegantes com o seu mastro oblíquo. E aqueles hidroaviões, completamente desmantelados. É um crime deixarem assim apodrecer aqueles aviões. Deixarem, não, terem deixado! (ELF - 1968.08.24)

 

Sapataria -  Dado o adiantado da hora é difícil encontrar onde jantar, pelo que regressamos ao restaurante O Ferrador, cujos donos nos contam curiosidades da terra, como sejam a origem do seu nome, derivado dali se fabricar o calçado para a tropa. Do terraço da casa mostram‑nos o Monte do Moinho do Céu, de que se distingue o piscar das luzes para a navegação aérea.

 

Nesta viagem passamos ainda por Almargem. povoação de casas pobres, com construções que me parecem respiradouros dum aqueduto, para além duma igreja modesta, parque infantil e poço. (Notas de viagem, 1998.01.--)

 

 

Cá arranjei um quarto (só quarto) em Setúbal (vivenda Ruxa, para os lados do Hospital.([9]) Fica um pouco longe da Escola, mas há transportes regulares e relativamente frequentes, que passam mesmo ao pé da EICS [Escola Industrial e Comercial de Setúbal]. Praticamente ainda não tive uma única aula, umas porque são nuns pavilhões, que não estão construídos, outras, ou não apareceram os alunos ou só um ou dois.([10]) Aborrece-me o ofício de professor e ainda mais nestas condições, andando por aí o dia inteiro ou enfiado no quarto, sabendo que em Julho levo um pontapé e recomeça tudo. (NSF - 1978.01.11)

 

Cheguei há pouco da Feira [de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de conversa com o pessoal conhecido após o jantar lá em baixo no Centro, única maneira de variar o cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para grandes variações e aprendizagens. Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de ter ao lado, para consulta permanente, um dicionário da especialidade, para decifrar os termos técnicos como "refogado" ou "esturgido" e quejandos. (XXX - data ?) ([11])

 

Depois, bem depois resolvi almoçar um prato africano, moamba de galinha com farinha de pau, num restaurante aqui perto de casa. Faço isso normalmente uma vez por semana, para variar e porque me aborrece tomar as refeições sistematicamente sozinho. Mas desta vez o único comensal era eu, mas ao menos comi um prato que não sei cozinhar e não me preocupei com a arrumação da cozinha. (MMA -- 1993.09.10/11)

 

 

Torres Vedras - É dia de S. Gonçalo e o museu, neste domingo, está excepcionalmente aberto aos visitantes, atendendo‑nos funcionários simpaticamente e convidando-nos para confraternizar e compartilhar com eles o jantar, transportado do exterior em grandes panelões, pois viemos de tão longe - Setúbal - e deste modo querem obsequiar‑nos. Mas declinamos o convite e prosseguimos o passeio, agora novamente nocturno, pelas ruas da povoação.

 

Doçaria típica desta região são, vejam lá, os pasteis de feijão! . (Notas de Viagem, 1997.10.27)

 

 

Está uma tarde maravilhosa aqui em Viana do Castelo, onde viemos almoçar neste domingo de Páscoa. Estamos a dar uma volta, visitando a cidade; vou escrevendo enquanto vou andando. Interrompi para tirar umas fotografias no largo deste postal, [Praça da República] mas não encontrei nenhum ângulo que me agradasse. O José João tirou fotografias e o resto da família conversa. (MCG - 1974.03.30)

 

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 Á porta de casa, com alguém a espreitar numa das janelas do 2º andar

 

Évora – Casa de hóspedes de Vitória Prates -   Desde há 24 dias que assentei arraiais com armas e bagagens num segundo andar da Rua do Raimundo, mais precisamente no nº 44. A dois passos da Praça do Giraldo e a quatro do ex‑Palácio da Inquisição, actualmente ISESE. O quarto é grande, enorme. Deve ser o maior quarto que jamais tive. Uma cama que vai ser substituída por dois divãs. Uma mesa de cabeceira. Duas cadeiras. Com um candeeiro. Uma escrivaninha. Com outro candeeiro. Um guarda-fatos com porta de pano. Isto é, uma cortina. Um armário transformado em estante e roupeiro. Uma mesa semi‑circular, encostada a uma parede. Com uma saia de pano púrpura. Junto a um espelho de moldura dourada. Algo estragada. Os [meus] caixotes serrados e amontoados transformados em prateleiras. Interessante. Ou não fosse eu estudante! Um cesto de papéis. Indispensável. Pois rasgo muitos ditos cujos. A mala de porão a fazer de banco. E de arca da velharia e lixarada. Aquela lixarada que não serve para nada, que só estorva, mas de que não conseguimos separar‑nos nem sabemos onde guardar. O mesmo que o sótão das casas grandes e antigas como esta (que não tem sótão, mas tem terraço). Pelas paredes gravuras, fotografias ou reproduções de quadros. A maioria trágicos. Para o que me havia de dar. E, imprescindível, uma janela! Vale mais que uma porta. Esta dá para um corredor. Aquela para um patiozito interior. O contrário seria mais assombroso, não seria?

O aquecedor da casa de banho é a petróleo. Lá em casa, em Luanda, temos um arrumado a um canto. Este avariou‑se há dias. Fez greve! Provisoriamente utilizamos um balde‑chuveiro. Também temos um lá para um canto, em Luanda. Aqui aquecemos a água num panelão, num fogãozito a gás. Despeja‑se a água no balde, içando-o seguidamente. Puxa‑se uma coisa qualquer (não sei o nome) e a água cai em chuveiro. Mas no fim do mês a sra. D. Vitória [Prates] também comprará um aquecedor a gás. Lá em Luanda também temos um. Creio que não está arrumado a um canto. Há uns dois anos e uns dias não.

 

(...) Pago mensalmente 1 150$00, incluindo cama, mesa, banhos e roupa lavada. Muito menos do que gastava nessa multi‑tentadora Lisboa. (ELF - 1968.11.24)

 

Preparo a frequência de Sociologia II enquanto ouço a "Valsa" de Ravel. É uma tarde de domingo, dum inverno já não rigoroso, aprazível. Sentado numa cadeira, os pés noutra, rodeado de livros, papéis e apontamentos. Daqui a pouco vou até ao café lanchar e ler o jornal. A dona da casa ainda não veio arrumar o quarto. (NSF - 1971.01.24)

 

Ouço o Zeca Afonso e daqui a pouco vou até ao Arcada, dar dois dedos de conversa ao Camilo, lanchar a sandes de fiambre, galão claro e iogurte habituais, e dar uma vista de olhos pelos jornais da tarde. (MCG - 1972.09.22)

 

E como são 20 horas e a voz da D. Vitória está quase a soar!... (....) Há dias a senhora ficou muito com a alma enevoada porque cheguei ali à cozinha e comentei a vê‑la fritar batatas, uma vez mais: "Qualquer dia passa a ser a das batatas fritas." Um inocente e amigável comentário provocou tais tempestades, tais amuos - agravados pela falta de doçura habitual da minha voz - que nem imaginado! Resultado, para além dos habituais comentários ("Já não sei o que hei‑de cozinhar!", etc.): três ou quatro dias sem batatas fritas. (...) (Regressaram hoje ao almoço! "E que saudades, Deus meu!" (MCG - 1972.10.24)

 

Está frio e eu cansado. Passo os dias na biblioteca ou no café, como vagabundo. Gosto do silêncio do meu quarto - só se ouve o tic-tac do relógio e o roçar da caneta no papel. O café, com o seu ruído e a fumarada, cansa‑me. Mas lá é que estão as pessoas, lá é que se conversa, lá é que falamos a sério ou rimos a bandeiras despregadas, lá se gasta o dinheiro, em lanches e ceias, de pão de forma ou galões claros ou bolos. Uma pequena fortuna ao fim do mês.

 

Ao chegar a casa - será por isso que o Camilo passa dias no café? - o desejo de entrar em nós e a desolação porque não se pode contar aos livros aquilo que nos vai na alma ou comunicar as maravilhas das descobertas que se vão fazendo diariamente. O carinho e a ternura estão fechados dentro de mim, por trás desta máscara que não é se não uma parte de mim. Não saberás o que é para mim este desenraizamento. Compreendo muita coisa - sei até coisas demais que não tenho onde aplicar. O quarto reflecte‑se no negrume brilhante do vidro da janela onde se espelham os candeeiros. (..) O tempo foge‑me por entre os dedos e não sei o que me ficará dele. (MCG - 1973.12.14)

 

Évora - São 10 h 25 m dum sábado do meu 29º ano de existência. Na mesa, os restos do pequeno-almoço:  o bule vazio de chá. um bocadito de pão ainda com manteiga, restos do pacote de açúcar. Uma natureza morta! (MCG - 1975.02.17)

É depois do jantar. Pela janela aberta entram a brisa da noite, vozes de pessoas e dum e outro carro que passa na rua. (...) A D. Vitória pintou‑me o quarto de verde, como lhe pedira. A princípio gostei, mas estou a sentir‑me mal com tanto verde. Como as paredes são muito duras, terei de fixar as gravuras com cola, pois os "punaises" não entram. (NSF - 1970.10.06)

 

Cheguei há pouco vindo de Lisboa. É bom encontrar de novo as paredes e as coisas familiares, até que o aborrecimento de Évora nos faça esquecê-lo. Dizem-me que está frio; não o tenho sentido e a brisa da noite que entra pela janela escancarada é repousante e refrescante [apesar de ser o pino do inverno]. Vou pôr este no marco do correio. Lara apanhar a tiragem da uma da madrugada e comer qualquer coisa, pois não tive tempo de jantar em Lisboa. (NSF - 1971.01.02/03)

[Foi] o tempo de ter visto a D. Vitória e lhe ter dito uns piropos até ao próximo chá. Tempo de travar conhecimento, ao jantar, com duas novas hóspedes - temporárias - cá de casa. Ambas de Montemor: uma é velhota, professora primária, de sua graça Maria Inocência, outra auxiliar social, a menina Maria do Céu, em breve senhora de não sei quem. Enfim, se eu não conseguir "controlar" as conversas à mesa terei de ouvir conversas de chacha - Porque será que há pessoas tão chatas?!  (...) [Esta] minha falta de jeito para conversar em qualquer circunstância e sobre qualquer assunto! (MCG - 1972.06.07)

 

O silêncio que substituiu as discussões políticas á mesa após a partida da sra.D.Ilda e do sr.Marquês tem sido agora substituído por "importantíssimas" discussões entre o Diogo da Amareleja e o Victor [Dordio] do Cano sobre as altas percentagens de reprovações no Liceu e, sobretudo, como hoje, [por] questões automobilísticas. Enfim, se todos gostassem do mesmo era esta vida uma sensaboria, como diria a sabedoria popular. (MCG - 1972.06.30)

 

Sabes quem apareceu por Évora, hoje? O Aristides [Picanso da Silva] ! Vem fazer quatro exames, regressando aos Açores no fim de Outubro. Até lá será hóspede da D.Vitória, a quem pagará ... 50$00 diários. Safa! (MCG - 1972.09.29)

 

O Aristides [Picanso da Silva] dormia ali no divã e, lá em baixo no pátio, alguém lavava a roupa. Ouvia‑se a água escorrendo e o barulho dum balde ou bacia de plástico. Alguém fala aí numa das casas e o relógio da torre [da Igreja de Santo Antão] batia, então, a sua badalada do quarto de hora. (MCG - s/data 1972. 09/10 ?)

O Diogo Fialho regressou ontem, mas não foi colocado na mesa dos hóspedes [sala de jantar] mas sim "adoptado" pela família Prates [mesa da cozinha]. (MCG - 1972.10.10)

 

Ali o José Emílio pergunta‑me se estou escrevendo as minhas memórias, entre uma garfada de arroz e outra de carne. (...) É depois do jantar. Chove e as pingas caiem descompassadamente no cimento, lá em baixo no pátio. O rádio transmite uma música solene e majestosa que não identifico. O Aristides vai folheando um livro de poesia e divido a minha atenção entre o que escrevo e o que ele me diz. - lá vou dando conta do recado (O Aristides comenta o Fernando Pessoa dizendo que é poesia de salão). (MCG - 1972.10.12)

 

Tenho de interromper que a D. Vitória já me chamou pela 3ª vez - com inflexões de zangada - e o Aristides deve ir no 2º prato. (MCG - 1972.10.17)

 

Adeus, doce sossego das refeições, nos dias em que o rádio não trabalha- Pois é, o sr. Prates comprou uma televisão e já houve programa ao jantar. Até o Diogo da Amareleja mudou de lugar (Agora é que ele enfia a comida fora da boca! Ah!Ah!Ah!) Pois é, mas para mim de nada me deve servir, salvo de pretexto para ir conviver um pouco... nos intervalos. Sim, que já sei por experiência própria que os programas que me interessam não interessam ao resto da "família", que fala quando não lhes interessa. (...) Também sei que a maioria prefere o I Programa quando o II me interessa, e vice‑versa. (1973.04.30)

 

Apareceu-me hoje o Aristides lá pelo café; veio dos Açores para fazer exame de Economia II. Penso que tenciona fixar residência no Porto. Ficou hospedado na casa da D.Vitória, mais concretamente, no meu quarto. Esperemos que não me chateie muito a molécula. Sou amigo dele, mas isso não impede que me aborreçam algumas das suas tiradas. Reage, parece-me, mais com ressentimento do que sentido revolucionário. (MCG - 1973.07.04)

 

Quem vai entrar em compressão de despesas sou eu. A D.Vitória, no próximo ano deixa de dar-me comida (ela acha que eu sou muito exigente e que não me contento com qualquer mistela) Assim, diz que me leva 500 paus pelo quarto e banhos. Com tratamento de roupas, 750 $ 00. Mas não me põe cadeiras novas no quarto nem me substitui a rede do divã ("Venha a nós o Vosso Reino"). Desabafou, desabafou, com a minha ingratidão. A conversa do costume, e que ninguém lhe dissera, como eu ontem, que antigamente o serviço e a comida eram melhores. Ai, como ela é minha amiga! Mas isso é lá á maneira dela. (...) "Que eu só gostava de comer com quem me agradava. Que quando era com as "senhoras" [D.Ilda e Teresinha] preferia comer sózinho" (MCG - 1973.07.08)

 

A D. Vitória sempre me pôs um colchão novo no divã. Sempre terá valido para algo a minha conversata de há dias. (1973.07.15)

 

 O Aristides foi-se embora hoje. Reprovou a Economia II. O que não é de admirar, cada vez mais desnorteado que ele anda, inquieto e sem rumo. ([12]) (MCG - 1973.07.20)

 

O quarto está gelado. Passei o fim de semana lendo umas coisas de antropologia. Tenho os "conhecimentos" um tanto ou quanto baralhados. A D.Vitória veio aqui há pouco trazer-me um doce e pêras de arroz-doce. Está uma simpatia de senhora!  (MCG - 1974.01.03)

 A D. Vitória levou-me hoje ao quarto uma dose de arroz doce. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1974.02.16)

 

Já passa da meia-noite. Ao regressar hoje do jantar topei com montes de pinheiros às portas das casas, junto ao lixo. As "Festas" foram‑se. (MCG - 1974.01.08)

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] - Fábrica e marca de cerveja da Companhia União Cervejeira de Angola.

[2] - Bacalhau assado com batatas, cebola e regado com azeite , frango assado com batatas fritas e piri‑piri que se visse, bife com batatas fritas com ovo a cavalo, cerveja (CUCA ou NOCAL) com gambas e tremoços como aperitivo faziam parte da ementa habitual ou de fim de semana.

[3] - Como não havia quartos no Victoria Hotel, ficámos na Pensão Ideal, que de ideal nada tinha! Era uma pensão triste e suja. Da janela do nosso quarto, que ficava no 2º andar, vê‑se o novo mercado, em parte construído, um belo largo arborizado  e, ao longe, a baía com o seu casario. O Lobito é uma cidade de ruas arborizadas e com jardins bonitos. Por toda a parte existem recipientes para o lixo, que em Luanda fazem muita falta. Tem dois cinemas, o Colonial e o Imperium. O almoço da Pensão era razoável (sopa de puré de feijão, carapaus fritos com feijão frade e batatas com carne guisada). Tencionávamos lanchar no Restaurante Luso, mas estava  fechado por motivo de obras. Voltámos a pé para a cidade. A cidade lembra‑me Pointe Noire.  (...) (Diário III - pag. 13/14 - 1962.08.21) (...)

 

Deixámos as malas na estação e fomos lanchar à pastelaria “Tic Tac” (onde há uma horrível pintura na parede) (Diário III - pag. 15 - 1962.08.22)

[4] - Creio que foi desta vez que visitei o Museu do Automóvel (Antigo). Entre Paço de Arcos e Caxias, na Terrugem, fica outro Museu do Automóvel

[5] - Amores de "teenager" e reprovação nos exames do 5º ano.

[6] - Trata‑se duma praça rectangular, tendo os edifícios, num dos lados, arcadas de arcos medievais dissemelhantes, que deram origem ao nome do café dos agrários, das terças‑feiras: o Arcada. Nesta correnteza se situava a livraria Nazareth e o Banco do Alentejo, para além de muito comércio. Defronte as arcadas foram emparedadas e nessa correnteza estavam o Turismo, a pensão Diana, com café e esplanada, e uma sociedade recreativa, a Harmonia, de cuja direcção o meu avô Luís foi membro, nela descobrindo o meu pai, em 1974, um aviso por ele na altura escrito. Num dos lados menores situavam‑se a igreja de Santo Antão com um chafariz do século XVI e  no outro o edifício do Banco de Portugal.

[7] - Falei com o dono da pensão, que me leva pelo aluguer do quarto  1 500 $ 00 mensais. (MCG - 1974.12.21)

[8] - Café do Parque?

[9] - Tratava‑se da vivenda Ruxa, situada aos Quatro Caminhos.

[10]  - Estes 4 pavilhões pré-fabricados, portanto provisórios, ainda funcionavam e estavam para durar 18 anos depois, isto é, no final de ... 1996 !

[11] - Passe a publicidade, trata‑se do Guia Prático de Cozinha, da autoria de Léone Bérard, editado pela Livraria Bertrand em 1977.

[12] - O Aristides era um açorenoa "perdido" no Continente. Ex-seminarista, como muitos nos cursos de Sociologia do ISESE, fizera a guerra colonial. Era um revoltado, sempre contra a situação, mas tinha uma bonita voz a cantar. Não aceitava as imperfeições dos outros,  e sempre ia dizendo que nem sempre estava com o nosso grupo, mas como não se podia incompatibilizar com todos, então nós éramos os menos maus. Nunca mais soube dele, salvo numa notícia de jornal sobre uma manifestação do PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias), lá no Norte, onde aparecia o seu nome.

Gravura gerada pelo chatPT a partir dum guião de minha autoria

desenho colorido mostrando a sala de refeições dum hotel, com as mesas, algumas com clientes, homens, mulheres e crianças, outras vazias. Um empregado transporta a comida numa bandeja. É tempo de verão e pela janela vêm-se pessoas numa praia


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