* Victor Nogueira
Antigamente as pessoas escreviam muito e as cartas eram meio de transmitir notícias e muitas delas, com maior ou menor valor literário, tornaram-se testemunho dos factos, acontecimentos, ideias e sentimentos. Mas hoje, hoje as pessoas telefonam ou encontram-se, devido à facilidade e rapidez dos transportes e das comunicações, e o tempo é pouco, paradoxalmente, devido à sobrecarga do que se gasta em transportes, sentado frente à TV ou em tarefas domésticas.
O mesmo sucede com o convívio e a conversação: por vários motivos os cafés e as tertúlias desaparecem, só se conhece o vizinho da frente ou do lado, quando se conhece, e as pessoas metem-se na sua concha, casulo, carapaça ou buraco. Muita gente junta, ao alcance da mão ou da voz, não significa que estejamos mais acompanhados e humanizados. (MMA - 1993.08.19)
Visitámos as ruínas da antiga povoação de Cambambe. Fomos até à ponte do Rio Cuanza. Almoçámos num restaurante duma estação de serviço FINA, a uns 8 km da povoação: bife com ovo estrelado... e batatas fritas. Às 14:45 demos início ao regresso a Luanda. No Dondo está sol. Na viagem de ida e volta a Luanda percorreram‑se cerca de 430 km. (Das notas manuscritas da viagem, 1964.06.14)
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Às 14:45 demos início ao regresso a Luanda. No
Dondo está sol. Na viagem de ida e volta a Luanda percorreram‑se cerca de
430 km. (Das notas manuscritas da viagem, 1964.06.14)
Às
17 horas fomos ao Farol das Lagostas lanchar. Bebi pela primeira vez
“coco-pinha”. Bebemos champanhe. (...) Subimos ao farol. Percebi como é que a
luz do farol anda à roda.
Em 5 Ago 60 eu, a mãe e o Zé embarcámos no “Uíge” para uma viagem ao
Lobito, Moçâmedes e Nova Lisboa. No dia
seguinte chegámos ao Lobito (...
que) visitámos de autocarro. Almoçámos no Restaurante Luso. Qualquer que seja o
percurso que andemos de autocarro pagamos sempre 2$50. Não há cobradores.
(...) (Diário III - pag. 7/9)
Viagem no “Infante D. Henrique” do Lobito ao Huambo
- Chegámos ao Lobito na 3ª de manhã. Desembarcámos e como não havia
lugares nos hotéis acabámos por ficar na Pensão Ideal, que de ideal nada tinha.
era triste, com colchões mais duros que o meu, mosquitos... a comida é que não
era má. (MNS - 1962.08.24)
Em Luanda, por exemplo, dos amigos, uns iam e
vinham, mas outros mantinham‑se. Uns e outros se juntavam periodicamente, para
irem à praia, ao cinema, aos restaurantes dos arredores, no Cacuaco ou na
Estrada de Catete, nas Ilhas do Cabo ou do Mossulo. (MCG - 1988.07.18/20)
Eu, o pai e o José João
fomos almoçar ao "Mar e Sol" [na Ilha do Cabo]. Comemos sopa, batatas
com linguado, batatas fritas com rim grelhado e pudim flã. À tarde o Rui
[Almeida] veio brincar comigo. Já
arranjámos a bicicleta (descansa que eu vesti uns calções e uma camisa
velha. Em Ponta Negra dei‑me ao trabalho de contar os buracos dessa camisa e
contei mais de 21) (MEB - 1959.09.03)
Fomos almoçar ao "Vilela", na Estrada da
CUCA ([1]).
Comemos o prato tradicional: bacalhau assado e churrasco [de frango]. (...) A
esplanada possui um jardim acolhedor e as mesas estão colocadas em redor. ([2])
Após o almoço fomos todos passear: Cacuaco, Estrada da Circunvalação,
Estrada da Samba e pela cidade. Voltámos para casa tendo estado a ouvir música.
Foi um domingo bem passado. (1964.06.22 - Diário V)
Nova Lisboa - De há dois
anos para cá a cidade não se desenvolveu muito. Estão a construir um mercado
novo, de linhas modernas, que fica defronte da Pensão. Fartei‑me de passear a
pé, tendo por isso ocasião de verificar que há por aqui coisas que Luanda
deveria ter: ruas arborizadas, bons jardins e cestos para o lixo (logo as ruas
são limpas). Gostei bastante da Restinga, com casas engraçadas. ([3])
Nova Lisboa ficámos hospedados no Hotel Coelho,
esplendidamente situado. Já visitei bastante a cidade e se não andei mais é
porque ela se estende ao longo do caminho de ferro. Já visitei tudo, desde a
estação postal na "baixa" até à Câmara Municipal, na "alta".
(MNS - 1962.08.24)
O
nosso quarto no Hotel Coelho era o nº 1. Possui duas camas, uma delas de
solteiro, cómoda, guarda-fatos, uma mesa, uma cadeira e um lavatório. (Diário
III - pag. 18/19)
Nova
Lisboa a Luanda, por terra - Relato I
13 de Setembro - 5ª
feira
8:00 - Saída de Nova Lisboa (Eu, a
mãe e o Zé)
10:15
-10:40 - Vila Teixeira da Silva - sede do concelho do
Bailundo. Altitude 1640 m. Vila
airosa e electrificada. Tomamos aqui o pequeno-almoço.
12:35
- 13:40 - Hengue - Possui uma modesta pensão estalagem onde
almoçámos. A comida não era nenhuma maravilha: sopa de feijão (que não comi),
pasteis albardados (muito aldrabados) com salada, arroz branco (parecia cola)
com chouriço e galinha. Conclusão - 50 paus.
8:45 - Quibala - vila, sede de concelho do mesmo nome. Possui luz
eléctrica e campo de aviação. Altitude -
1340 m. Clima subtropical
seco. Dormimos numa pensão. O nosso quarto era o nº 4 e era razoável. Comida
idem aspas. O jantar foi sopa, que não comi, peixe frito com salada, arroz com
bifes e bananas. 150$00 foi
14
de Setembro - 6ª feira
Acordámos às 5:45. Matabichámos. Tome café
com leite e pão.
6:40
- Partida da Quibala
9:15
- 9:50 - Atravessamos o rio Mucongo. Tomamos o pequeno-almoço no Munenga. Acabou o pão de
ló que a sra. D. Maria Delfina nos oferecera. Bebi uma laranjada e comi pão com
manteiga
11:30 - 12:55 - Chegámos ao Dondo, o “Ouro Preto”
de Angola. está muito calor, que me incomoda bastante. Na Praça da
República há um jardim com um coreto. naquele, escrito com relva, lê‑se “Aqui é
Portugal”. Vila, sede de concelho de Cambambe, é uma povoação
muito antiga. Possui energia eléctrica. Clima tropical quente. O Dondo foi uma
importante povoação nas duas últimas décadas do século passado e princípios
deste. Já naquele tempo possuía hospital, bons prédios, ruas alinhadas, etc.
Com a construção do CFL (Caminho de Ferro de Luanda) as casas comerciais
distribuíram‑se ao longo da linha férrea e a vila perdeu muita da sua
importância comercial.
Almoçamos no Bar
Passarinho: um prego e uma laranjada. Foi a 3ª vez que estive no Dondo. O ajudante de motorista, o Sebastião,
desapareceu, mas por fim lá apareceu todo esbaforido. Meteram gasoil no
autocarro
15:30
- Catete - 60 km de Luanda. Vila sede do Concelho de Icolo
e Bengo. Luz eléctrica. Alt. 70 m. Clima tropical regular. Passámos a 3 km da
vila. Zona algodoeira, com uma produção média anual de 4000 toneladas.
15:50 - 16:00 - Km 44 - Merendámos - 1 laranjada. Fica no cruzamento da
Estrada de Catete com a do Bom Jesus. Possui uma casa comercial. Não é
povoação.
16:40 - Estalagem do leão - pousada a 17 km de Luanda, transformada em
aquartelamento militar.
16:45
- Grafanil - 7 km - Fábrica de explosivos e aquartelamento.
16:50 - Entrámos
em luanda. Paragem no posto de controle
militar, perto da F.T.U. (Fábrica de Tabacos Ultramarina)
Paragem ao pé da Esquadra
da Polícia Móvel, onde desceram alguns passageiros
17:05
- Chegada ao
Largo das Ingombotas. Fim da viagem. O pai estava à nossa espera.
Nova Lisboa a Luanda, por terra - Relato II
Saímos de Nova Lisboa às
8 horas em ponto. A viagem decorreu normalmente e, para mim, não foi muito
maçadora, pois tive oportunidade de conhecer novas terras e novas paisagens.
Pouco depois de passarmos o Vale do Queve um taxi carro ultrapassou‑nos,
parando à frente do autocarro. Era uma senhora que havia perdido a carreira,
por chegar atrasada, e apanhara um táxi, que numa espécie de maratona lá nos
conseguiu alcançar. Seguimos viagem, já com a tal senhora. Entre o Cachimbombe
e o Hengue vimos um casamento de pretos. As duas noivas iam vestidas de branco,
seguidas por numeroso séquito, batendo palmas e cantando.
Almoçamos
no Hengue. A comida não era nada famosa e o arroz mais parecia uma pasta -.
Ainda estive para guardar um bocado para cola.
Levantámos ferro, se assim se pode dizer, cerca das 13:40
Antes de chegarmos à
Quibala passamos por uma povoação de açorianos, o Catofexe "catofe"§ chegámos à Quibala já ao anoitecer,
não tendo visitado a vila. No dia seguinte também não tivemos oportunidade
ensejo de o fazer, pois às 6:30 já estávamos a caminho. Esquecia‑me
de dizer que pernoitámos na Quibala, nu
Matabichámos no Munenga, onde acabou o pão
de ló que trouxemos daí. [Caala] Ainda assim durou bastante (...). Até esta
altura parecia que a paisagem se queria associar ao meu estado de espírito,
pois o tempo estava muito enevoado. Onde o sol deu um arzinho da sua graça foi
no Dondo xe "Dondo"§mas as
núvens não devem ter gostado, pois até hoje e mesmo em Luanda tem estado um
tempo triste, embora às vezes bastante quente. Almoçámos aqui no Dondo e demos
uma volta pela vila.
Como até aqui e daqui a
Luanda, a paisagem é triste e monótona, em nada se comparando com a do Centro.
Só imbondeiros, com os seus braços descarnados, e capim, sempre capim. A única
nota alegre são as elegantes palmeiras, que por aqui há bastantes, bem como
exóticos cactos candelabro. (...) Chegámos a Luanda à tardinha. Estava ansioso
por ver o meu pai, mas fiquei desolado com o acolhimento que nos dispensou.
Podia ao menos ter afivelado um sorriso e feito um acolhimento mais caloroso.
(BGF - 1962.09.25)
ma pensão, ou lá o que é, perto da igreja. O
que eu reparei na Quibala foi que há quase mais postos de gasolina que casas
(exagero!)
De Nova Lisboa a Luanda, por terra - Relato
III
A
viagem de regresso decorreu bem. Almoçámos no Hengue e dormimos na Quibala e no
dia seguinte almoçámos no Dondo. Na quinta-feira a paisagem e o dia estavam
óptimos. Mas no dia seguinte grande parte da manhã esteve enevoada. À tarde o
sol mostrou um arzinho da sua graça. É pena que tudo fosse monótono, com
árvores secas, capim e mais capim e imbondeiros. Tudo a condizer com a minha
disposição nessa altura.
E cá estou de novo em Luanda. Parece que
ainda ontem estávamos nós a embarcar no Infante D. Henrique. No entanto, já lá
vai mais dum mês. (ASV - 1962.09.24)
Dei hoje uma saltada a
Badajoz. É uma cidade muito movimentada e com muitas e belas garotas. que
diferença de évoraburgomedieval andei por aí, com uns colegas meus. daqui a
pouco vamos jantar. temos de atravessar de novo a fronteira até às 24 horas.
(...) (NSF - 1970.03.06)
Farol das Lagostas - Tive um bocado de medo ao
subir e descer as escadas, pois eram em ferro e em forma de caracol. Tínhamos
de subir agarrados aos degraus. Foi o 3º farol que vi. O outro foi o da ilha do
cabo.
No
terraço do Farol das lagostas estava muito frio. Também vi o farol de Ponta Negra,
quando lá estive. (Diário - 1959.01.04)
Lembro-me, sim, que em Badajoz, no tempo da outra senhora. fiquei
retido na fronteira, como refém, às ordens da PIDE, com outros colegas, por
causa do contrabando (de bebidas, roupas e chocolates), enquanto o prevaricador‑mor
ia a casa (em Évora) buscar dinheiro para pagar a pesada multa. (MBC -
1990.09.19)
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A viagem correu
optimamente, excepto quando sobrevoámos Lisboa. Devemos ter apanhado alguns
poços de ar e parecia que o estômago me saía pela boca. Em Kano [Nigéria]
apanhei um bocado de frio. (...) Atravessámos montanhas, ou melhor, sobrevoámos
montanhas cobertas de neve e o Deserto do Saara. (...) A comida a bordo era para um pássaro. E
paga um sujeito uns poucos de contos para isto.
No aeroporto estavam à minha espera a Bita,
a Maria Luísa e a minha madrinha [Cristina Santos] (NSF - 1962.12.28)
A
viagem era uma festa, uma canseira ou uma sensaboria. Dependia do clima ou do
tempo disponível. Passava‑se pelo interior das povoações, parava-se para meter
gasolina, para comer ou devido aos engarrafamentos provocados pela estreiteza
das vias, pelas carroças puxadas por animais ou devido a qualquer acidente
rodoviário. Se tempo houvesse era mais demorada a paragem nas povoações ou pelo
caminho para admirar a paisagem ou para pequenos desvios. (Memórias de Viagem, 1997.11.16)
Finalmente Almeirim, onde
numa noite chuvosa comi uma sopa de pedra num dos seus restaurantes, e a
comprida ponte sobre o rio Tejo, até avistarmos o morro sobranceiro no cume do
qual foi construído o na altura poderoso Castelo de Santarém.
Almeirim foi terra onde
os reis vinham passar o inverno nos séculos XV e XVI, mas hoje encontra‑se
descaracterizada. Fora deste trajecto, para (Memórias de Viagem, 1997)
Águeda
- Fomos ao Sanatório do Caramulo. Passámos por S. João da Madeira, Oliveira de
Azeméis, Albergaria‑a‑Nova, Albergaria‑a‑Velha (comemos algo na Praça D.
Teixeira). Chegámos a Águeda xe
"Águeda "§passava pouco das 11. Almoçámos no Restaurante Santos.
(...) Às 14:15 chegámos ao Caramulo. A serra é muito descampada, além de estar
um dia excepcionalmente quente. ([4])
Não gostei do passeio, não por não gostar do passeio, mas sim porque
ultimamente tenho andado indisposto ([5])
(1963.06.28 - Diário III - pag. 317/31)
Alandroal - Vila onde não conseguimos almoçar: os poucos cafés e restaurantes
fechados por ser Domingo. Foto ao castelo, tirada de longe; o castelo tem uma
torre de menagem branca, que mais parece mirante árabe. A vila é pequena e o
castelo dentro das muralhas resume-se a uma rua. Casas pobres, embora
arranjadas. (2000.09.17)
Alte - Paramos para almoçar. Soneto de Cândido Guerreiro, gravado na
rocha, que em Coimbra se lembrava da
Fonte de Alte (Fonte Grande), onde escreveu os primeiros versos e as mulheres
do povo contavam lendas. À volta e na parede da igreja os Passos da Cruz. Largo
da Igreja, Ruas do Oiteiro, da Barroca, Nova da Ribeira, Estrada da Ponte, Rua,
Beco e Escadinhas da Barroca.
A caminho de Salir
parece haver pequenas propriedades divididas por muros de pedra. Os campos
estão coloridos com bonitas flores. Ruas estreitas e algumas com escadinhas por
onde ia enfiando o carro. (2000 04 19)
Estou em Beja, na casa
da Cultura. Está uma tarde de verão, apesar do inverno não ter ainda
acabado. Ontem à noite andei a passear pelas ruas da cidade, que me pareceu
mais bonita na parte velha, fazendo‑me lembrar Faro. Logo à noite vamos jantar
a uma cooperativa em Pias. (...) Esta Ermida [de Santo André] não é tão bonita
como a de S. Brás, em Évora. (SRN - 1988.08.03)
Cacilhas (Almada) - completamente descaracterizada, feia, placa
giratória dos ferry boats e dos autocarros. Conhecida a rua do ginjal, com
restaurantes, à beira-rio; das casas antigas pouco resta. (Notas de Viagem,
1997)
Castro de Aire - Não encontramos o pelourinho. Igreja. Foto à torre junto ao cemitério,
por entre as árvores. Castro Daire é uma terra arranjadinha, airosa, sem
velharias. A igreja, junto ao cemitério, está num local aprazível, arborizado,
onde almoçamos. A povoação tem algumas casas de telhados grandemente
inclinados, como nos países nórdicos. (1999 11 01)
Coimbra é
também o rio Mondego reduzido muitas vezes a um miserável fio de água, e bancos
de areia. Contornava‑se a baixa, parava‑se numa arborizada avenida à beira-rio
para almoçar num dos restaurantes e raramente houve tempo para subir à
Universidade, com um magnífico miradouro, para deambular pelo Choupal ou pela
Lapa, celebrizados pelos fados coimbrões, ou para visitar o Portugal dos
Pequeninos, reprodução em miniatura de casas tradicionais portuguesas, de
monumentos ou os pavilhões com artesanato das colónias e baseados na
arquitectura destes territórios, ao tempo províncias ultramarinas, em
manifestação típica do Estado Novo. . (Memórias
de Viagem, 1997)
Évora
Ao fim duns vinte minutos
foi a chegada a Évora. Após alguns
infrutíferos telefonemas feitos dum barzeco existente junto à estação, consegui
arranjar um quarto na xe "Évora: pensão Eborense"§Pensão Eborense.
Começara pelas pensões de 2ª classe e estava a ver que terminava no hotel de
luxo. Mas Deus Nosso Senhor teve pena da minha bolsa! Entretanto os táxis
tinham debandado. Sabendo que a pensão ficava a cerca de 1 km e porque a noite
estava amena, pus o saco da TAP a tiracolo e pés a caminho. (...) ([6])
(NSF - 1968.10.25)
Hospedei‑me numa pensão (Pensão Restaurante "Os Manuéis"), a
dois passos da Praça do Giraldo. O edifício foi construído com essa finalidade,
o quarto é bom, o mobiliário obedece a um único estilo - rústico, ao contrário
do bric‑à‑brac doutras pensões por onde tenho andado, como a Distinta ou as
Zitas [em Lisboa]. A comida, dois pratos, é variada, à lista e abundante. A
diária oficial é de 88$00 (safa!) É uma hipótese não a considerar, já que a
mensalidade (com banhos e tratamentos de roupa) atingiria os 2 000$00. As casas
particulares são mais em conta. (NSF - 1968.10.27)
É noite. Do pátio chega‑me
o esfregar da escova no cimento e da água que escorre. Música do século XVIII
abafa (quase) o tiquetaque do relógio. São 19 horas em Évora. A cama desfeita,
o pijama sobre o corpo, um bocejar enorme. A viagem foi mais fatigante e
monótona, cortada por longos silêncios. Cansado - fatiga nervosa - resolvi ir
jantar aos "Manuéis", eram 14 horas: vitela em molho de tomate e
"mousse" de chocolate (a última!) (...) (MCG - 1973.10.29)
Pensão os Manuéis -
tenho de arranjar outro quarto, pois aquele [nos Manuéis] é muito acanhado
(apesar de pagar 60 paus por dia) e sem água corrente (tenho de ir ao 2º andar
e apanhar grandes frialdades quando passo nos corredores) (MCG - (1974.12.05)
Agora não tenho pachorra para procurar quarto em
casa particular - os "Manuéis" é uma merda para 1 800$00. Antes mudar
para a "Giraldo" e pagar 2 100$00. ([7]) Mas isto não é sistema e não pode ser senão uma
solução provisória. (MCG - 1974.12.08)
Agora ali no Giraldo (pensão)
tenho mais condições para estudar e há mais luz, a mesa é melhor e posso ligar
o aquecedor. Falta‑me no entanto a música para repousar (o rádio a maior parte
das vezes não serve) [2º andar, quarto 21] (MCG - 1974.12.10)
Acabou de chegar o almoço. Isto não é comida para
uma pessoa de alimento como eu. Évora deve ser das cidades onde se come pior.
Parece que os alentejanos jejuam por sistema. Arre! (MCG - 1974.12.16)
A
mesa é pequena e está atulhada de livros, empilhados uns sobre os outros. O
rádio transmite música, aos soluços, Faz‑me falta o gira‑discos, mas não tenho
local para colocá‑lo aqui no quarto. Está um domingo frio, enevoado - anteontem
à noite choveu - e resolvi ligar o aquecedor. (MCG - 1975.01.13)
É já noite, durante o
jantar, aqui no poiso habitual que é o "Manuel Iglésias". Choveu todo
o dia, por vezes a cântaros, e esteve um frio desagradável. (MCG - 1975.02.11)
Embora me aborreça o gigantismo de Lisboa, obrigando a perder imenso tempo em
percursos, a verdade é que o contraste entre os montes de malta amiga ou
simplesmente conhecida de Lisboa e a pacatez sorna de Évora fazem‑me detestar
toda a vida estúpida de Évora. (MCG - 1975.01.02)
Acabei de jantar aqui no
"Manuel Iglésias". São 21 horas e não me apetece ir para casa. Gosto do convívio social e de estar com as
pessoas. Mais um dia de aulas! (...) Ontem foi o último dia de cinema, que
só reabrirá lá para o mês de Julho. Até lá teremos [a] Feira [de S. João].
Vamos lá ver se continua em decadência. (MCG - 1975.06.16
Na pequena salinha do café do
senhor Gonçalves ([8]) (é outro que não o da Raymond Street) alguns
clientes assistem à televisão ali por cima do balcão: o Jorge Alves apresenta o
programa da próxima semana. O [Emídio] Guerreira queixa‑se que a sopa está
quente (...). Comecei hoje a comer aqui neste café, junto ao jardim infantil,
entre a Praça de Touros e o Rossio [de S. Brás]. O almoço estava saboroso.
Esperemos que assim continue. Ali numa mesa ao lado um grupo de jovens vê uma
colecção de fotografias pornográficas, que de vez em quando mostram a outros
noutra mesa, cruzando o meu campo de visão. Entretanto a TV transmite um
documentário sobre a guerra israelo-árabe, prendendo a atenção dos clientes.
(...) Na televisão sereias soam numa cidade síria, sobrevoada por aviões
israelitas que a bombardeiam. Escombros e feridos enchem o ecrã. (MCG - 1973.11.21)
São 20:30; aqui estou [em Évora] no café Parque, um
bocadinho contigo, a televisão trabalhando e homens ao balcão conversando e
bebendo a bica. Ali a minha mãe faz as contas com a sra.D.Alice [Quaresma], das
refeições na messe [dos oficiais]. Estava eu aqui muito bem acabando o meu
jantar com o João Luís e o Guerreiro quando elas irromperam por aqui a dentro.
A Maria Antónia - penso que é o nome da cozinheira -.muito delicada e
sorridente, "recebe as ordens". Sou levado a concluir que tem
qualquer preconceito contra os homens, pois nunca lhe ouvimos nem saudação ou
vislumbrámos um sorriso. (MCG - 1973.12.04)
(...) Lá em
baixo no café Parque (a cozinheira anda
muito simpática. Até já me trata e ao Guerreiro pelos nossos nomes!) (MCG - 1973.12.06)
Isto, nesta terra,
é o fim da macacada. Aqui há umas semanas, à hora do almoço, a Domingas foi
com o Carlos [Nunes da Ponte] ao restaurante Fialho, onde o dr. Vasco
Caetano nos marcara encontro para proceder ao pagamento dos inquéritos [de
Arraiolos]. Pois o amigo Valentim foi diligentemente informado, por um tipo que
até nem é das relações dele, que a "sua mais‑que‑tudo" tinha ido e
vindo do Fialho... acompanhada! Deu‑se ao trabalho de segui‑los, para
conveniente informação a quem de direito! Isto é o fim! (MCG - 1973.07.03)
A fotografia é antiga! Não parece! Mas... a cerca da fonte já não é
assim e o táxi (1º) já não existe. Também as motorizadas já não param no topo
do tabuleiro. A indumentária das pessoas e a esplanada defronte do
"Diana" indicam que é Verão! Eis aqui a célebre Praça do Giraldo, o
local que os meus pés mais têm calcorreado. É sábado e estou jantando. Este
fim-de-semana foi um pouco "chocho". A semana passada houve uma boa
peça de teatro (O Amigo do Povo) e um filme a ver (O Espantalho). Esta semana,
nada. Enfim. Por mero acaso integrámo-nos numa das visitas guiadas Túlio
Espanca. Mais duas igrejas visitadas. (MCG - 1974.01.18)
Vou até ao café (Arcada) lanchar e poluir um
pouco os pulmões. (MCG -
1973.01.24)
Ferreira do Alentejo
- Vila de casas solarengas, onde se destaca a Capela de Santa Maria da Madalena
ou do Calvário, única no mundo, tendo externamente a configuração duma redoma;
o hemisfério superior apresenta pedras salientes, contrastando com a alvura das
paredes. Monte a caminho de Beja, à beira da estrada com o seu forno do pão, no
exterior, perto dum restaurante de beira‑estrada onde se anuncia a sopa de
pedra. (Notas de Viagem, 1997)
No
dia 14 [Abril. 1963], domingo de Páscoa, fui, com o avô Barroso e o tio Zé a Goios,
passando por Famalicão. Almoçámos em Goios, tendo‑me aborrecido imenso. O
"compasso chegou por volta das 17 horas. À tardinha fomos para a Pedra
Furada. Revi com prazer a Lourdes e a Cândida, e fiquei a conhecer a Celeste e
a Amélia. Divertimo‑nos bastante. (Diário III - pag. 165)
Almoçámos
em Guimarães e visitámos o
castelo, de que só restam as muralhas e a torre de menagem, além de
vestígios das antigas habitações (lareiras, janelas na muralha). A torre de
menagem, construção quadrangular ao centro, era o último reduto do castelo, com
uma única porta, quase ao nível das ameias; uma ponte levadiça era e é o único
acesso a tal torre. O guia empregou uma expressão original: "se o castelo
era a vida da torre, a torre era o castelo da vida". .
(NSF - 1968.10.04)
Daqui de Leiria, a caminho de Lisboa, enquanto
espero pelo almoço, envio um aceno. Está um lindo dia cheio de sol. No entanto
esta parte da cidade é corriqueira. A única que acho interessante é aquele em
que estive tempos atrás (MCG - 1975.04.01)
Lisboa
Ficámos
no Hotel Americano, na Rua 1º de Dezembro. Ao entardecer vim dar uma volta,
para ver as montras nos Restauradores e
Avenida da Liberdade. Vi os cinemas Éden, que parece luxuoso, e
Restauradores (que dá sessões contínuas). Subi a avenida e cheguei ao Parque Mayer. Dei por lá uma volta,
tendo feito o gosto ao dedo na barraca de tiro ao alvo. Parte do [filme]
"O Parque das Ilusões" passa‑se aqui. Quando cheguei ao S. Jorge [um
pouco mais acima] voltei para o hotel. Passei pelo Tivoli e pelo Condes. As
montras das lojas são variadas. Utilizei a passagem subterrânea. Depois do
jantar fomos comer uns camarões e beber umas cervejas. A casa onde comemos tem
as paredes forradas de conchas. (1963.09.09 - Diário III)
São 12 h 00.m. Estou a
escrever sentado numa das mesas dum dos cafés
do Rossio, que tem resistido às investidas dos bancos (por quanto tempo,
ainda?) mais precisamente o "Nicola",
que foi o poiso dum dos nossos maiores colegas: Bocage. Escrevo e
simultaneamente vou comendo um "croissant", sorvendo aos poucos um
escaldante "garoto" claro (ou "pingo", como se diz lá para
o Norte). Nas mesas homens que já não são jovens - pelo menos cronologicamente
como eu - encafuados em pesados sobretudos, alguns de chapéu a cabeça,
cavaqueiam (sobre quê?), lêem o jornal ou limitam‑se a seguir com os olhos,
absortos em pensamentos, o fumo dos cigarros. Também estão algumas mulheres
(talvez senhoras, mas isso não interessa, somos só homens e mulheres). Aquela
ali à minha esquerda escreve, não cartas mas, numa agenda ou bloco, notas. Ali
a porta gira, gira, gira. Na fonte que se entrevê pela montra, a água jorra,
jorra, jorra. Os automóveis passam, passam, passam. E o murmúrio das vozes, o
tilintar das louças, a gaveta da caixa, constituem um pano de fundo. Évora
morta, chata, entediante, onde estás tu!? (...) [Depois da monotonia de Évora,
todo este bulício é reconfortante]. São 14:50. Fui corrido do café pois um
"garoto" e um bolo não dão direito a mesa "per omnia saecula,
saecolorum"! Especialmente à hora do almoço. (NSF - 1968.12.23)
Esta Lisboa do miúdo que
choraminga. E do velhote, límpidos olhos azuis, humildemente vestido, mas não
enxovalhado, que é brutalmente arrastado para o passeio por um pai rude,
exaltado, mal barbeado, que lhe torceria o nariz, o esmigalharia, lhe daria duas
bofetadas, ... se ele não estivesse bêbedo. Enquanto aquele retorquia:
"Estavam a maltratar os pombinhos", sem muita firmeza, de olhos
perdidos sabe Deus onde Ou do miúdo que me aponta uma pistola: "Mãos ao
ar", num Chiado repleto de gente azafamada. Que é admoestado por uma mãe
derretida. Que se perdeu no rio das gentes que sobem ou descem. Das duas
"meninas bem" que, especadas no passeio qual escolhos, lançam olhares
furibundos ao pirralho esfarrapado e sujo que lhes aponta uma espingarda de lata.
Do café Nicola, donde sou desalojado sem cerimónia, pois um "garoto"
e um "croissant" não permitem a ocupação indefinida de uma mesa para
escrever, especialmente à hora de almoço. Dos vendedores ambulantes, que jogam
ao corre‑corre com os polícias, de tabuleiros cheios de quinquilharia, jogando
ao passo‑passa com os automóveis. (NSM - 1968.12.27)
Da Alfama medieval para a
Baixa pombalina, eis a rota do nosso
passeio. Também gosto desta "vista". Repara que enquanto Alfama é
residencial, a Baixa é essencialmente comercial. Uma única semelhança: os
candeeiros da iluminação pública [1972]. Anúncios luminosos, automóveis, e ruas
mais largas são o contraste (Quando andava na 4ª classe [em Luanda] e ouvia
falar nas ruas do Marquês, imaginava-as em largura à medida das de Luanda...
que têm o dobro ou o triplo destas!). Ao fundo fica o elevador de Sta. Justa, que separa o Largo do Carmo da Igreja do
mesmo nome, cujas ruínas se avistam do lado direito - os dois arcos em ogiva.
Esta é uma das igrejas da expressão "Cair o Carmo e a Trindade” (após o
terramoto de 1755). (MCG - 1972.09.13)
As visitas que hoje, em Lisboa, fizemos a várias pensões foram muito
instrutivas. Algumas não tinham condições, especialmente nos
prédios antigos, onde os quartos são na maioria interiores, dando para saguões,
tristes, soturnos e deprimentes. Isto já sem falar nas cores horríveis de
alguns. Mas não se arranja quarto por menos de 2 000 $ mensais [1973]
Estou agora a lanchar numa pastelaria aqui no Chiado, que tem penduradas na parede - um armorial, uma couraça,
um capacete e duas espadas do século XVI. Desgraçados dos soldados que usavam
tal ferraria em climas tórridos. (1973.01.04)
Hoje não me apetece ir a Lisboa! Lisboa é o andar dum lado para o outro, a azáfama sem sentido.Outrora
era a Associação de Estudantes [de Económicas] e o cinema. Depois, já em Évora,
era a Emília [Dias] e os nossos almoços e as conversas sobre o momento político
e o movimento estudantil. A ela se juntou o Luís Filipe [Vidigal Pereira], que
andou comigo no 1º ano de Sociologia, Mas... a Emília passou e a sua presença
amiga e gentil é a lembrança da mulher e do afecto que não consigo ter. O Luís
Filipe é a divergência dos caminhos - a minha radicalização (ao menos teórica e
intelectual) - e a sua aceitação desta sociedade, revelado no curso [que acabou
por tirar], no emprego que arranjou, na vida que levará, que a colecção
completa dos Livros RTP/Verbo e de Bolso Europa‑América e do Círculo de
Leitores prenunciam, conjuntamente com um passatempo caro - a fotografia. Os
outros amigos? O tempo nos separou. Lisboa seria então, na semana passada, a
procura de emprego. (1974. Outono)
Almocei com a Emília
[Dias]. O almoço no "Isaura", ali na Av. Paris, estava bom e falámos
dos nossos velhos companheiros de lides associativas - quantos já se integraram
no sistema? Outros continuam a lutar, alguns mesmo à custa da própria
liberdade. (MCG - 1973.10.02)
Ali as Galerias ITAU, aqui na
Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa,
estão fechadas - e deve ser há muito - pelo que resolvi sentar‑me na Esplanada
do Pão‑de‑Açúcar a lanchar e, enquanto faço horas para ir até à Gulbenkian, vou
escrevendo. O barulho é muito: dos carros que passam, o roncar dos motores e as
buzinadelas, o chiar dos pneus no asfalto e o roçar das cadeiras e mesas de
ferro no empedrado da calçada, isto sem falar no homem que varre o passeio e no
vozear das pessoas que conversam. Enfim, uma "sinfonia" pouco
agradável, mas lá dentro o ar está quente e de cortar à faca. (MCG -
1974.10.17)
P'ráqui estou num café no
Cais do Sodré. Os autocarros e os eléctricos
passam lá fora na rua. O ambiente está ruidoso e o tempo ameaça chuva. A sandes
e o galão estavam uma merda. (São 18:30 de sábado) (...) Parece que vai chover.
Esperemos que consiga chegar a casa antes do aguaceiro, pois não trouxe guarda‑chuva.
(...) E por aqui me fico hoje. Tenho de ir apanhar o comboio [para Paço de
Arcos]. Não avisei que ia jantar e vai haver sermão, pois não contam comigo.
(MCG - 1974.10.19)
Desta vez escrevo do café Gelo, aqui no Rossio, em Lisboa, avistando ali uma nesga da Rua 1º de Dezembro e
da Estação [do Rossio]. Defronte a mim o [Emídio] Guerreiro acabou de lanchar e
lê agora o jornal. Mais adiante, o empregado da tabacaria, calças aos
quadrados., camisola preta e longos cabelos louros, vai lanchando e arrumando a
loja. Esperamos que o Carlos [Nunes da Ponte] saia do emprego. O Guerreiro
chegou ontem e temos percorrido Lisboa em busca dum emprego que não aparece,
apesar do coração de Portugal estar doente e ser uma chatice se deixar de
trabalhar (Pelo menos é o que diz o anúncio da RTP). Assim, temos deixado
impressos devidamente preenchidos... aguardando. As minhas tias, especialmente
Esperança, andam inquietas, pois dizem que eu sou bolchevista (ai, credo!) e
assustam‑se quando digo que vou começar a assaltar bancos. (...) (MCG -
1974.10.22)
Já era tarde para jantar
em Paço d'Arcos e dei uma volta, acabando por vir parar a um restaurantezeco
aqui no Cais do Sodré, em Lisboa,
mesmo na rua dos bares e das prostitutas. Na cadeira ao meu lado ronrona um
enorme gato. (MCG - 1975.03.25)
Amanhã
regresso a Évora com o João Lucas. Vim ontem com o Viegas e a Violete; chegámos
já tarde a Lisboa, onde jantei na tasca habitual lá para o Cais do Sodré, onde
passeia o "bas‑fond" cá da cidade: prostitutas, chulos, clientes e
chuis. (1975.06.29)
Voltei a Carnide e fiquei
com vontade de regressar. Fomos lá almoçar, num simpático largo arborizado com
esplanadas dos restaurantes que o circundam. (Notas de Viagem, 1996. Verão)
Fui
a casa do avô Luís. Éramos para ir a Guimarães, mas como ele não arranjara o
carro acabámos por ir almoçar a Matosinhos, ao Restaurante Tainha.
Viemos para casa de eléctrico e chovia a potes. Levámos mais de três quartos de
hora para chegar à [rua] Sá da Bandeira, onde apanhámos outro para casa. À
noite vimos [na TV] mais um episódio do "Mascarilha" e outro do
"Mr. Ed", o cavalo que fala. (Diário III - 1963.02.17)
Na Mealhada - Havia sempre muitos camiões e automóveis parados, para
que os seus ocupantes comessem e bebessem nos restaurantes à beira da estrada,
que não se pode impunemente andar com ‘a garganta seca’ ou ‘a barriga a dar
horas’. (Memórias de
Viagem, 1997.11.16)
Moimenta da Beira - Da
1ª vez – na anterior – jantámos na churrascaria Chouriço. Desta almoçámos na
Pizzaria/Restaurante Horizonte. À saída da povoação as árvores têm vários
matizes; se estivesse sol seria um espectáculo deslumbrante. Assim, resta o
cinzento e o verde carregado deste dia de chuva miudinha. (1999 10 31)
Monforte - Almoçamos nesta vila, onde há muitos cartazes de touradas. . Ponte
romana. (2000 09 11)
Chegámos
a Monte Real cerca das 17:30. Na Pensão Cozinha Portuguesa fiquei
instalado. Um quarto do sótão, pequeno, sem água corrente, com uma clarabóia. O
quarto tem uma cama com um óptimo colchão, um guarda fatos, uma mesa de
cabeceira, além do lavatório e bidé. Como é meu costume tratei de visitar a
terra, tendo dois hotéis e quase duas dezenas de pensões; a nossa fica num
extremo.
A comida é boa. Habituado
como estou à vida na cidade, não gosto muito do campo. Aqui não se tem nada que
fazer. Só comer e dormir. (1963.08.26 - Diário III)
Monte Real - O Hotel das Termas, à entrada do frondoso parque que integra as mesmas,
encontra-se desactivado, realizando-se nele apenas exposições. No parque as
pessoas deambulam conversando, passeando, tricotando ou olhando simplesmente
para lado nenhum. O referido hotel foi bem frequentado, incluindo pelos Nazis
durante a 2ª Guerra Mundial, segundo informação algo orgulhosa da
“recepcionista” da exposição. Aliás esta veneração explicará a persitência da
Rua 28 de Maio e do Largo Oliveira Salazar.
(1999.08.22)
Monte Real - Foto no pelorinho,
defronte do que teria sido a Casa da Câmara, que chama a atenção pela escadaria
exterior que dá acesso ao 2º piso. Perto uma igreja que foi gótica, cuja
reconstrução nada conservou da traça primitiva. Pela 1ª vez dou conta dos
afamados Paços da Rainha, reduzidos a um rectangulo ameado, sem tecto, espécie
de adro duma igreja que, entretanto, se construiu.
O tempo está húmido e frio e quando cheguei de Lisboa estava farto da
viagem e da constipação (...) No comboio
duas raparigas - especialmente a que se chamava Nani - tentaram provocar conversa
- as deixas foram muitas - mas sem grande resultado. Não sei o que seriam:
empregadas de escritório, operárias ou qualquer outra coisa. A máquina de
discos aqui doutro café da rua principal de Paço de Arcos transmite
qualquer coisa barulhenta e desconchavada cujo estribilho é "Oh
Mary". Não vale a pena a troca, pois aqui também não há pregos nem leite.
Tenho mesmo de ficar mal jantado. (1974.12.26)
Pateira de Fermentelos (Lagoa)
- Povoação (vila) que parece clandestina, com ruas estreitas e tortuosas.
Monumento ao emigrante e busto de Sá Carneiro, este com alguma qualidade, perto
da estalagem eem jardim aprazível à beira lagoa.
Nesta
apanha-se ainda o moliço, mas sem as brigas de outrora entre os habitantes das
várias povoações que a bordejam. (1998 09 11)
Por uma estrada atravancada de carros, espinha
dorsal transversal do Algarve, fomos até Faro. Pelo caminho, lá em baixo, Portimão, à beira do curso de água, com
os seus restaurantes característicos de sardinhadas. A cidade situa‑se na foz
da Ribeira do Arade Do cimo da ponte, lá em baixo, os restaurantes com a
fumarada da sardinha assada e o reflexo das traineiras nas águas que balouçam
suavemente. Foi importante centro ligado à indústria conserveira, como Peniche,
Setúbal e Matosinhos, hoje em decadência. . (Memórias de Viagem, 1997.08.21)
Fomos ao Palácio de Cristal (no Porto). Diverti‑me bastante,
pois a Fernanda e a Elvira [primas da D. Alexandrina]. Jantámos no Restaurante
Santa Luzia, na Feira xe "Porto: Feira do Palácio de Cristal"§.
Andámos nos carros eléctricos 1963.05.16 - Diário III)
Safa, que o Porto é frio, duma
frialdade enregelante. Estou aqui num café na Rua Formosa, aguardando o pequeno-almoço. A casa do meu avô Luís está superlotada - os
meus tios estão lá - e resolvi ficar numa pensão, que só de pensar nela me
arrepio. Ali a Pensão Brasil (3 estrelas) já deve ter tido uma certa categoria
- no tempo em que as pensões eram uma casa, mas agora está em franca
decadência, porca, suja e desleixada. 100 paus é a diária dum quarto num quinto
andar. Enfim... O velho, dono da pensão, estava ontem às voltas com um dedo
entalado, enrolado num pano que enchia a casa de vinagre.
Aconselhei‑o a pôr o dedo em água quente e hoje lá me foi dizendo que
estava melhor. (...) No Porto, nova aventura: onde ficar? Pego na lista
telefónica, retiro uma série de endereços de pensões e... nova preocupação. E
então, os preços?! Pego em mim e venho andando tentando adivinhar a categoria
da pensão - e consequente modicidade do preço - pela fachada. E assim caí
[nesta] espelunca. (MCG - 1974.09.22)
Fui
[1968.Agosto] pelo Rio Tejo acima, num barco dos faroleiros, até perto
de Vila Franca de Xira. Aquela visão da cidade [de Lisboa] é interessante.
Almoçámos no meio do rio. Fiquei bastante queimado. Aprendi umas coisas de
marinharia, apesar de ter a Carta de Marinheiro Amador, da Capitania de Luanda.
Comemos bacalhau com batatas. Regado com muito azeite. Estava saborosíssimo. E
quente, na cabine do barco. O cais dos petroleiros e as refinarias, com as suas
torres chamejantes, pareciam uma cidade monstruosa, de aço. As fragatas são
elegantes com o seu mastro oblíquo. E aqueles hidroaviões, completamente
desmantelados. É um crime deixarem assim apodrecer aqueles aviões. Deixarem,
não, terem deixado! (ELF - 1968.08.24)
Sapataria
- Dado o adiantado da hora é difícil
encontrar onde jantar, pelo que regressamos ao restaurante O Ferrador, cujos
donos nos contam curiosidades da terra, como sejam a origem do seu nome,
derivado dali se fabricar o calçado para a tropa. Do terraço da casa mostram‑nos
o Monte do Moinho do Céu, de que se distingue o piscar das luzes para a
navegação aérea.
Nesta viagem passamos
ainda por Almargem. povoação de
casas pobres, com construções que me parecem respiradouros dum aqueduto, para
além duma igreja modesta, parque infantil e poço. (Notas de viagem, 1998.01.--)
Cá arranjei um quarto (só
quarto) em Setúbal
(vivenda Ruxa, para os lados do Hospital.([9])
Fica um pouco longe da Escola, mas há transportes regulares e relativamente
frequentes, que passam mesmo ao pé da EICS [Escola Industrial e Comercial de
Setúbal]. Praticamente ainda não tive uma única aula, umas porque são nuns
pavilhões, que não estão construídos, outras, ou não apareceram os alunos ou só
um ou dois.([10])
Aborrece-me o ofício de professor e ainda mais nestas condições, andando por aí
o dia inteiro ou enfiado no quarto, sabendo que em Julho levo um pontapé e
recomeça tudo. (NSF - 1978.01.11)
Cheguei há pouco da Feira
[de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de conversa com o pessoal
conhecido após o jantar lá em baixo no Centro, única maneira de variar o
cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para grandes variações e aprendizagens.
Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a
cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos
descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de
ter ao lado, para consulta permanente, um dicionário da especialidade, para
decifrar os termos técnicos como "refogado" ou "esturgido"
e quejandos. (XXX - data ?) ([11])
Depois,
bem depois resolvi almoçar um prato africano, moamba de galinha com farinha de
pau, num restaurante aqui perto de casa. Faço isso normalmente uma vez por
semana, para variar e porque me aborrece tomar as refeições sistematicamente
sozinho. Mas desta vez o único comensal era eu, mas ao menos comi um prato que
não sei cozinhar e não me preocupei com a arrumação da cozinha. (MMA --
1993.09.10/11)
Torres Vedras
- É dia de S. Gonçalo e o museu, neste domingo, está excepcionalmente aberto
aos visitantes, atendendo‑nos funcionários simpaticamente e convidando-nos para
confraternizar e compartilhar com eles o jantar, transportado do exterior em
grandes panelões, pois viemos de tão longe - Setúbal - e deste modo querem
obsequiar‑nos. Mas declinamos o convite e prosseguimos o passeio, agora
novamente nocturno, pelas ruas da povoação.
Doçaria típica desta
região são, vejam lá, os pasteis de feijão! . (Notas de Viagem, 1997.10.27)
Está uma tarde maravilhosa aqui em Viana do
Castelo, onde viemos almoçar neste domingo de Páscoa. Estamos a dar uma
volta, visitando a cidade; vou escrevendo enquanto vou andando. Interrompi para
tirar umas fotografias no largo deste postal, [Praça da República] mas não
encontrei nenhum ângulo que me agradasse. O José João tirou fotografias e o
resto da família conversa. (MCG -
1974.03.30)
~~~~~~oo0ooo~~~~~~
Á
porta de casa, com alguém a espreitar numa das janelas do 2º andar
Évora – Casa de
hóspedes de Vitória Prates - Desde há 24 dias que assentei arraiais com
armas e bagagens num segundo andar da Rua do Raimundo, mais precisamente no nº
44. A dois passos da Praça do Giraldo e a quatro do ex‑Palácio da
Inquisição, actualmente ISESE. O quarto é grande, enorme. Deve ser o maior
quarto que jamais tive. Uma cama que vai ser substituída por dois divãs. Uma
mesa de cabeceira. Duas cadeiras. Com um candeeiro. Uma escrivaninha. Com outro
candeeiro. Um guarda-fatos com porta de pano. Isto é, uma cortina. Um armário
transformado em estante e roupeiro. Uma mesa semi‑circular, encostada a uma
parede. Com uma saia de pano púrpura. Junto a um espelho de moldura dourada.
Algo estragada. Os [meus] caixotes serrados e amontoados transformados em
prateleiras. Interessante. Ou não fosse eu estudante! Um cesto de papéis.
Indispensável. Pois rasgo muitos ditos cujos. A mala de porão a fazer de banco.
E de arca da velharia e lixarada. Aquela lixarada que não serve para nada, que
só estorva, mas de que não conseguimos separar‑nos nem sabemos onde guardar. O
mesmo que o sótão das casas grandes e antigas como esta (que não tem sótão, mas
tem terraço). Pelas paredes gravuras, fotografias ou reproduções de quadros. A
maioria trágicos. Para o que me havia de dar. E, imprescindível, uma janela!
Vale mais que uma porta. Esta dá para um corredor. Aquela para um patiozito
interior. O contrário seria mais assombroso, não seria?
O aquecedor da casa de banho é a
petróleo. Lá em casa, em Luanda, temos um arrumado a um canto. Este avariou‑se
há dias. Fez greve! Provisoriamente utilizamos um balde‑chuveiro. Também temos
um lá para um canto, em Luanda. Aqui aquecemos a água num panelão, num
fogãozito a gás. Despeja‑se a água no balde, içando-o seguidamente. Puxa‑se uma
coisa qualquer (não sei o nome) e a água cai em chuveiro. Mas no fim do mês a
sra. D. Vitória [Prates] também comprará um aquecedor a gás. Lá em Luanda
também temos um. Creio que não está arrumado a um canto. Há uns dois anos e uns
dias não.
(...) Pago mensalmente 1 150$00, incluindo cama, mesa, banhos e roupa lavada.
Muito menos do que gastava nessa multi‑tentadora Lisboa. (ELF - 1968.11.24)
Preparo a
frequência de Sociologia II enquanto ouço a "Valsa" de Ravel. É uma
tarde de domingo, dum inverno já não rigoroso, aprazível. Sentado numa cadeira,
os pés noutra, rodeado de livros, papéis e apontamentos. Daqui a pouco vou até
ao café lanchar e ler o jornal. A dona da casa ainda não veio arrumar o quarto.
(NSF - 1971.01.24)
Ouço o Zeca
Afonso e daqui a pouco vou até ao Arcada, dar dois dedos de conversa ao Camilo,
lanchar a sandes de fiambre, galão claro e iogurte habituais, e dar uma vista
de olhos pelos jornais da tarde. (MCG - 1972.09.22)
E
como são 20 horas e a voz da D. Vitória está quase a soar!... (....) Há
dias a senhora ficou muito com a alma enevoada porque cheguei ali à cozinha e
comentei a vê‑la fritar batatas, uma vez mais: "Qualquer dia passa a ser a
das batatas fritas." Um inocente e amigável comentário provocou tais
tempestades, tais amuos - agravados pela falta de doçura habitual da minha voz
- que nem imaginado! Resultado, para além dos habituais comentários ("Já
não sei o que hei‑de cozinhar!", etc.): três ou quatro dias sem batatas
fritas. (...) (Regressaram hoje ao almoço! "E que saudades, Deus
meu!" (MCG - 1972.10.24)
Está frio e eu cansado. Passo os dias na biblioteca ou no café,
como vagabundo. Gosto do silêncio do meu quarto - só se ouve o tic-tac do
relógio e o roçar da caneta no papel. O
café, com o seu ruído e a fumarada,
cansa‑me. Mas lá é que estão as pessoas, lá é que se conversa, lá é que
falamos a sério ou rimos a bandeiras despregadas, lá se gasta o dinheiro, em
lanches e ceias, de pão de forma ou galões claros ou bolos. Uma pequena fortuna
ao fim do mês.
Ao
chegar a casa - será por isso que o Camilo passa dias no café? - o desejo de
entrar em nós e a desolação porque não se pode contar aos livros aquilo que nos
vai na alma ou comunicar as maravilhas das descobertas que se vão fazendo
diariamente.
O carinho e a ternura estão fechados dentro de mim, por trás desta máscara que
não é se não uma parte de mim. Não saberás o que é para mim este
desenraizamento. Compreendo muita coisa - sei até coisas demais que não tenho
onde aplicar. O quarto reflecte‑se no negrume brilhante do vidro da janela onde
se espelham os candeeiros. (..) O tempo foge‑me por entre os dedos e não sei o
que me ficará dele. (MCG - 1973.12.14)
Évora - São 10
h 25 m dum sábado do meu 29º ano de existência. Na mesa, os restos do
pequeno-almoço: o bule vazio de chá. um
bocadito de pão ainda com manteiga, restos do pacote de açúcar. Uma natureza
morta! (MCG - 1975.02.17)
É depois do jantar. Pela janela aberta
entram a brisa da noite, vozes de pessoas e dum e outro carro que passa na rua.
(...) A D. Vitória pintou‑me o quarto de
verde, como lhe pedira. A princípio gostei, mas estou a sentir‑me mal com
tanto verde. Como as paredes são muito duras, terei de fixar as gravuras com
cola, pois os "punaises" não entram. (NSF - 1970.10.06)
Cheguei há pouco vindo de Lisboa. É bom encontrar de novo as paredes e as
coisas familiares, até que o aborrecimento de Évora nos faça esquecê-lo.
Dizem-me que está frio; não o tenho sentido e a brisa da noite que entra pela
janela escancarada é repousante e refrescante [apesar de ser o pino do
inverno]. Vou pôr este no marco do correio. Lara apanhar a tiragem da uma da
madrugada e comer qualquer coisa, pois não tive tempo de jantar em Lisboa. (NSF - 1971.01.02/03)
[Foi] o tempo
de ter visto a D. Vitória e lhe ter dito uns piropos até ao próximo chá. Tempo
de travar conhecimento, ao jantar, com duas novas hóspedes - temporárias - cá
de casa. Ambas de Montemor: uma é velhota, professora primária, de sua graça
Maria Inocência, outra auxiliar social, a menina Maria do Céu, em breve senhora
de não sei quem. Enfim, se eu não conseguir "controlar" as conversas
à mesa terei de ouvir conversas de chacha - Porque será que há pessoas tão
chatas?! (...) [Esta] minha falta de
jeito para conversar em qualquer circunstância e sobre qualquer assunto! (MCG -
1972.06.07)
O silêncio que
substituiu as discussões políticas á mesa após a partida da sra.D.Ilda e do
sr.Marquês tem sido agora substituído por "importantíssimas"
discussões entre o Diogo da Amareleja e o Victor
[Dordio] do Cano sobre as altas
percentagens de reprovações no Liceu e, sobretudo, como hoje, [por] questões
automobilísticas. Enfim, se todos gostassem do mesmo era esta vida uma
sensaboria, como diria a sabedoria popular. (MCG - 1972.06.30)
Sabes quem
apareceu por Évora, hoje? O Aristides
[Picanso da Silva] ! Vem fazer
quatro exames, regressando aos Açores no fim de Outubro. Até lá será hóspede da
D.Vitória, a quem pagará ... 50$00 diários. Safa! (MCG - 1972.09.29)
O Aristides [Picanso da Silva] dormia ali no divã e, lá em baixo no
pátio, alguém lavava a roupa. Ouvia‑se a água escorrendo e o barulho dum balde
ou bacia de plástico. Alguém fala aí numa das casas e o relógio da torre [da
Igreja de Santo Antão] batia, então, a sua badalada do quarto de hora. (MCG -
s/data 1972. 09/10 ?)
O Diogo Fialho regressou ontem, mas não
foi colocado na mesa dos hóspedes [sala de jantar] mas sim "adoptado"
pela família Prates [mesa da cozinha]. (MCG - 1972.10.10)
Ali
o José Emílio pergunta‑me se estou escrevendo as minhas memórias, entre uma
garfada de arroz e outra de carne. (...) É depois do jantar. Chove e as
pingas caiem descompassadamente no cimento, lá em baixo no pátio. O rádio
transmite uma música solene e majestosa que não identifico. O Aristides vai
folheando um livro de poesia e divido a minha atenção entre o que escrevo e o
que ele me diz. - lá vou dando conta do recado (O Aristides comenta o Fernando
Pessoa dizendo que é poesia de salão). (MCG - 1972.10.12)
Tenho de
interromper que a D. Vitória já me chamou pela 3ª vez - com inflexões de
zangada - e o Aristides deve ir no 2º prato. (MCG - 1972.10.17)
Adeus,
doce sossego das refeições, nos dias em que o rádio não trabalha- Pois é, o sr.
Prates comprou uma televisão e já houve programa ao jantar. Até o Diogo da
Amareleja mudou de lugar (Agora é que ele enfia a comida fora da boca! Ah!Ah!Ah!)
Pois é, mas para mim de nada me deve servir, salvo de pretexto para ir conviver
um pouco... nos intervalos. Sim, que já sei por experiência própria que os
programas que me interessam não interessam ao resto da "família", que
fala quando não lhes interessa. (...) Também sei que a maioria prefere o I
Programa quando o II me interessa, e vice‑versa. (1973.04.30)
Apareceu-me
hoje o Aristides lá pelo café; veio dos Açores para fazer exame de Economia II.
Penso que tenciona fixar residência no Porto. Ficou hospedado na casa da
D.Vitória, mais concretamente, no meu quarto. Esperemos que não me chateie
muito a molécula. Sou amigo dele, mas isso não impede que me aborreçam algumas
das suas tiradas. Reage, parece-me, mais com ressentimento do que sentido
revolucionário. (MCG - 1973.07.04)
Quem vai entrar
em compressão de despesas sou eu. A D.Vitória, no próximo ano deixa de dar-me
comida (ela acha que eu sou muito exigente e que não me contento com qualquer
mistela) Assim, diz que me leva 500 paus pelo quarto e banhos. Com tratamento
de roupas, 750 $ 00. Mas não me põe cadeiras novas no quarto nem me substitui a
rede do divã ("Venha a nós o Vosso Reino"). Desabafou, desabafou, com
a minha ingratidão. A conversa do costume, e que ninguém lhe dissera, como eu
ontem, que antigamente o serviço e a comida eram melhores. Ai, como ela é minha
amiga! Mas isso é lá á maneira dela. (...) "Que eu só gostava de comer com
quem me agradava. Que quando era com as "senhoras" [D.Ilda e
Teresinha] preferia comer sózinho" (MCG - 1973.07.08)
A D. Vitória
sempre me pôs um colchão novo no divã. Sempre terá valido para algo a minha
conversata de há dias. (1973.07.15)
O Aristides foi-se embora hoje. Reprovou a
Economia II. O que não é de admirar, cada vez mais desnorteado que ele anda,
inquieto e sem rumo. ([12]) (MCG
- 1973.07.20)
O quarto está gelado. Passei o fim de
semana lendo umas coisas de antropologia. Tenho os "conhecimentos" um
tanto ou quanto baralhados. A D.Vitória veio aqui há pouco trazer-me um doce e
pêras de arroz-doce. Está uma simpatia de senhora! (MCG - 1974.01.03)
A D. Vitória levou-me hoje ao quarto uma dose
de arroz doce. Ah!Ah!Ah! (MCG - 1974.02.16)
Já passa da meia-noite. Ao regressar hoje do jantar topei com
montes de pinheiros às portas das casas, junto ao lixo. As "Festas"
foram‑se. (MCG - 1974.01.08)
[1] - Fábrica e marca de cerveja
da Companhia União Cervejeira de Angola.
[2] - Bacalhau assado com batatas,
cebola e regado com azeite , frango assado com batatas fritas e piri‑piri que
se visse, bife com batatas fritas com ovo a cavalo, cerveja (CUCA ou NOCAL) com
gambas e tremoços como aperitivo faziam parte da ementa habitual ou de fim de
semana.
[3] - Como não havia quartos no
Victoria Hotel, ficámos na Pensão Ideal, que de ideal nada tinha! Era uma
pensão triste e suja. Da janela do nosso quarto, que ficava no 2º andar, vê‑se
o novo mercado, em parte construído, um belo largo arborizado e, ao longe, a baía com o seu casario. O
Lobito é uma cidade de ruas arborizadas e com jardins bonitos. Por toda a parte
existem recipientes para o lixo, que em Luanda fazem muita falta. Tem dois
cinemas, o Colonial e o Imperium. O almoço da Pensão era razoável (sopa de puré
de feijão, carapaus fritos com feijão frade e batatas com carne guisada).
Tencionávamos lanchar no Restaurante Luso, mas estava fechado por motivo de obras. Voltámos a pé
para a cidade. A cidade lembra‑me Pointe Noire.
(...) (Diário III - pag. 13/14 - 1962.08.21) (...)
Deixámos as malas na estação e fomos lanchar à pastelaria “Tic Tac”
(onde há uma horrível pintura na parede) (Diário III - pag. 15 - 1962.08.22)
[4] - Creio que foi desta vez que
visitei o Museu do Automóvel (Antigo). Entre Paço de Arcos e Caxias, na
Terrugem, fica outro Museu do Automóvel
[5] - Amores de
"teenager" e reprovação nos exames do 5º ano.
[6] - Trata‑se duma praça
rectangular, tendo os edifícios, num dos lados, arcadas de arcos medievais
dissemelhantes, que deram origem ao nome do café dos agrários, das terças‑feiras:
o Arcada. Nesta correnteza se situava a livraria Nazareth e o Banco do
Alentejo, para além de muito comércio. Defronte as arcadas foram emparedadas e
nessa correnteza estavam o Turismo, a pensão Diana, com café e esplanada, e uma
sociedade recreativa, a Harmonia, de cuja direcção o meu avô Luís foi membro,
nela descobrindo o meu pai, em 1974, um aviso por ele na altura escrito. Num
dos lados menores situavam‑se a igreja de Santo Antão com um chafariz do século
XVI e no outro o edifício do Banco de
Portugal.
[7] - Falei com o dono da pensão,
que me leva pelo aluguer do quarto 1 500
$ 00 mensais. (MCG - 1974.12.21)
[8] - Café do Parque?
[9] - Tratava‑se da vivenda Ruxa,
situada aos Quatro Caminhos.
[10] - Estes 4 pavilhões pré-fabricados, portanto
provisórios, ainda funcionavam e estavam para durar 18 anos depois, isto é, no
final de ... 1996 !
[11] - Passe a publicidade, trata‑se
do Guia Prático de Cozinha, da
autoria de Léone Bérard, editado pela Livraria Bertrand em 1977.
[12]
- O Aristides era um açorenoa "perdido" no Continente.
Ex-seminarista, como muitos nos cursos de Sociologia do ISESE, fizera a guerra
colonial. Era um revoltado, sempre contra a situação, mas tinha uma bonita voz
a cantar. Não aceitava as imperfeições
dos outros, e sempre ia dizendo que
nem sempre estava com o nosso grupo, mas como não se podia incompatibilizar com
todos, então nós éramos os menos maus. Nunca mais soube dele, salvo numa
notícia de jornal sobre uma manifestação do PRP-BR (Partido Revolucionário do
Proletariado - Brigadas Revolucionárias), lá no Norte, onde aparecia o seu
nome.
Gravura gerada pelo chatPT a partir dum guião de minha autoria
desenho colorido mostrando a sala de refeições dum hotel, com as mesas, algumas com clientes, homens, mulheres e crianças, outras vazias. Um empregado transporta a comida numa bandeja. É tempo de verão e pela janela vêm-se pessoas numa praia

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