Allfabetização

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se ... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra !!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler, não achas? (1974)

Escrevivendo e Photoandando

No verão de 1996 resolvi não ir de férias. Não tinha companhia nem dinheiro e não me apetecia ir para o Mindelo. "Fechado" em Setúbal, resolvi escrever um livro de viagens a partir dos meus postais ilustrados que reavera, escritos sobretudo para casa em Luanda ou para a mãe do Rui e da Susana. Finda esta tarefa, o tempo ainda disponível levou me a ler as cartas que reavera [à família] ou estavam em computador e rascunhos ou "abandonos" de outras para recolher mais material, quer para o livro de viagens, quer para outros, com diferente temática.

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Depois, qual trabalho de Sísifo ou pena de Prometeu, a tarefa foi-se desenvolvendo, pois havia terras onde estivera e que não figuravam na minha produção epistolar. Vai daí, passei a pente fino as minhas fotografias e vários recorte, folhetos e livros de "viagens", para relembrar e assim escrever novas notas. Deste modo o meu "livro" foi crescendo, página sobre página. Pelas minhas fotografias descobri terras onde estivera e juraria a pés juntos que não, mas doutras apenas o nome figura na minha memória; o nome e nada mais. Disso dou por vezes conta nas linhas seguintes.

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Mas não tendo sido os deuses do Olimpo a impor me este trabalho, é chegada a hora de lhe por termo. Doutras viagens darão conta edições refundidas ou novos livros, se para tal houver tempo e paciência.

VN

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Santos Populares e Feiras - Victor Nogueira

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Em 1995 resolvi concorrer ao concurso das marchas populares de Setúbal, com pseudónimo.. Fartei-me de ouvir marchas de Lisboa para apanhar o ritmo e o tom, mas não ganhei e, sem falsas modéstias, acho que as vencedoras eram de qualidade inferior ás minhas, que também me parecem "musicáveis". Mas ... enfim ! Na altura as letras vencedoras eram musicadas posteriormente. Mas entretanto passou a ser exigência que as letras fossem acompanhadas pela  respectiva música pelo que terminou a minha carreira "marchista".


Setúbal, terra d'encanto João do Grão



Venham ver a nossa terra
É jardim à beira-mar
Do vale ao cume da serra
Um espelho d'encantar.

Póvoa doce, sem igual,
Pescado com moscatel
Trigo, pão, um laranjal,
Bem perfumado, com mel.



REFRÃO


Ai venham ver,
sem maldade!
Com balões, doce florir,
Gaiata, namoradeira,
Sempre jovem, a sorrir.
E bailando sem canseira
Ai venham ver,
sem maldade!
Ardem nossos corações
Em cravinho de papel,
Cantam Bocage, canções,
Em versinho d'água-mel.
Ai venham ver,
sem maldade!
Com este mar, rio á janela,
Em nós cant'a liberdade
De manjerico, singela.
E azul da mocidade.



Meu amor vem á janela,
São os Santos a bailar,
Vai-te embora, sentinela,
Fiquem todos a cantar.

Com o povo a sorrir
E bondade no olhar,
Sem vontade de partir,
Numa noite de luar!

Setúbal, sempre varina Manuel Vicente






Setúbal sempre varina
Capital do pescador
Terra airosa e mui ladina
Póvoa com sal e calor.

Venham ver a nossa terra
Com arquinho e balões,
Num tempo de paz, sem guerra,
Em florindas tradições.



REFRÃO


Baila Setúbal a cantar,
Gaiata, namoradeira,
Com o Sado ao luar,
Corações numa fogueira!
Baila Setúbal sem parar,
Alegre, bela e vistosa,
Com a brisa a marulhar
Numa canção preciosa.
Baila Setúbal, um altar,
Com giesta e rosmaninho,
Os golfinhos a pular
Numa terra de carinho.



Valha-nos Sant'Antoninho,
Com mil cravos de papel,
Procurand'o sapatinho,
P'ró casamento sem fel.

Cada canção, um desejo
Em cantata de papel,
Manjerico no cortejo
Da nossa terra sem fel.

Setúbal mar de prata Maria Papoila do Mar

Setúbal nasceu,
Com um mar de prata,
Setúbal cresceu,
Generosa e farta.

O rio tem pescado,
No vale com giesta
Por todos bem amado,
Com o povo em festa.

Setúbal navega,
Na sua falua
Vistosa, boneca,
Com o pé na lua.

Cantem os andores,
No azul do céu,
Amam os amores,
Em doce pitéu!

REFRÃO

Venham ver Setúbal,
Airosa e ladina,
Dançando Asdrúbal
Com sua varina.
Venham, não se cansem,
No baile da terra,
A tristeza encerrem,
Com o mel na guelra.
Cantem salmonetes
Saiam da janela
Pulem os pivetes
Na rua singela.

Lá vem Setúbal,
Cheira a rosmaninho
Não é Tentúgal
Mas belo cantinho.

Tem bom moscatel
Doce São João,
Pedro no batel,
António na mão.

Com a boca um beijo,
No arco em foguete,
P'ra matar desejo
Sem qualquer ralhete.

Contem esta trova,
Ao Santo confessa,
Não há Casanova
Sem falsa promessa.


*****

À noite não fui gozar o S. João.   Preferi ir para a cama. Acordei às duas da manhã. Disso se encarregaram as minhas tias  Isabel e Teresa, batendo me suavemente (irra!) com os alhos e falando pelos cotovelos. (Diário III - 1963 - pag. 196) (1)
1 - Trata-se duma festa muito animada, que se desenvolve pela madrugada dentro, sobretudo na encosta das Fontainhas, com os concursos das rusgas e das cascatas.

*****

Uma  única vez fui à noite de Santo António em Lisboa, com as minhas tias Lili e Esperança e mais pessoas amigas. Elas deliciaram-se com as sardinhas assadas  mas eu nada comi. As ruas estavam atravancadas de mesas com barricas cheias  de água nunca mudada e onde mergulhavam a louça talheres e copos dum freguês para o outro, os pratos e copos "lavados" engordurados e os talheres com restos de sardinha agarrados. Era fruta demasiada para o meu estômago e sensibilidade pelo  que passei fome enquanto o pessoal se divertia e em vão me queria convencer a saborear os "pitéus".  [2011.06.23]


 As feiras de Évora, Setúbal e Lisboa

O Rossio de S. Brásxe  §está praticamente livre de feirantes. Restam apenas as barracas de louças e bugigangas. Depois do meu regresso de Beringel comprei um copo, uma caneca, colheres, um prato e uma tigela, que seria para o "Nestum" mas acabou por ficar para a fruta. (MCG - 1972.07.10)
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Hoje será a noite de S. João, de festa para os eborenses, que passearão lá pela Feira.  Este ano há dois circos; o resto é como nos anos anteriores, com a novidade de haver barracas dos partidos políticos, onde comprei umas publicaçõezitas. (1975.06.24)
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Hoje é o último dia oficial da Feira de S. João em Évora.  A Feira estava em decadência, cada ano que passava. Mas desta feita, para além de muitas tendas de comerciantes (vestuário, calçado, plásticos, louças, mobiliário), havia as tradicionais de comes e bebes bem como os divertimentos. Não vi o poço da morte - creio ser o 1º ano  que não vem - mas em contrapartida havia 3 pistas de carros eléctricos e nada mais nada menos que 3 circos, acontecimento inédito: o Billy Smart, o Royal e o Mariano. A Celeste foi ao 1º e diz que é igual ao que vimos em Lisboa, no Coliseu. (NSF - 1976.07.05)
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(...) Quando era estudante, em Évora, a Feira de S. João era um alvoroço - embora coincidisse com a época apertada de exames - onde a malta ia nas frescas noites, em grupos, passear ou "espairecer" pelas diversões e movimento. Depois, bem, depois a Feira de S. João, como a Santiagodeixaram de ter o encanto de outrora, tal como o circo, maravilha, delícia e alegria sempre renovada da infância. Hoje, do circo, gosto dos palhaços e dos ilusionistas, (embora nem sempre), ao contrário do que sucede nos programas que a TV por vezes transmite. Das feiras, hoje em dia, vejo as exposições e um ou outro espectáculo, extasiando-me nas tendas das vergas e olaria, que jamais compro. (MMA - 1986.07.28)
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No regresso passámos por uma feira ali na Luz, em Lisboa, defronte ao Colégio Militar. (1) Era uma feira praticamente de louça e bugigangas, quase todas feias para o meu gosto. Comprei dois bonecos de barro (artesanato). Havia lá umas canecas de barro, em forma de sorridentes e rechonchudos monges (dispunha bem olhar para eles, tinham um ar simpático) Estou arrependido de não ter comprado um. Ficará para a próxima. Aquilo é uma roubalheira. Um tipo tem mesmo de regatear. Chegam a fazer abatimentos de 50 % sobre o preço inicial. Safa! (MCG - 1973.09.19)
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A Feira Popular de Lisboa é muito sem graça. Nada nos saiu nas rifas. Não encontrámos as barracas das farturas (seguir o cheiro não foi suficiente). Joguei nas máquinas dos carros de corridas. As pistas dos carros de choques estavam quase vazias e assim não tinha piada andar nelas. De resto são mais caras que em Évora (também alguma diferença deveria haver entre os provincianismos de Évora e de Lisboa). Ah! mas o que gramei, onde apanhei dois valentes sustos, donde saí gelado mas com uma vontade enorme de repetir a proeza, foi na montanha russa. Aquilo é que é emoção! Ao menos enquanto um tipo não se habitua, Duas descidas bruscas (um tipo até trava com os pés, o coração a saltar lhe pela boca), uma curva a grande velocidade, toda inclinada (e um tipo, esquecendo -se da força centrípeta, agarra -se desnecessariamente para não ser projectado)... Também no outro "comboio fantasma", que afinal nada tinha de especial, salvo os ruídos (bater as portas e chiadeira) e a escuridão. Não tem qualquer emoção. (MCG - 1973.09.22)
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Começando naquela Igreja e estendendo-se quase até ao Rio, passando ao lado da Igreja de Santa Engrácia, Panteão Nacional, estende-se a Feira da Ladra onde se encontra um pouco de tudo. (2) Especialmente roupa, mas também fardas, sapatos, capacetes de aço e caixas vazias de munições (relíquias da I Guerra Mundial ?), malas, sacos, carteiras, ferro-velho, antiguidades, móveis, moedas... enfim. De tudo o que vi, no entanto, só me interessava um par de candelabros. Mas não cheguei a perguntar o preço. Havia um jardim com vista para o rio e para a parte baixa da Feira. As ciganas vendiam roupa e tinha a sua piada ver as pessoas experimentarem calças por cima das que traziam vestidas. Havia de ser uma grande experimentação! Já eram 17 horas quando lá chegámos. Havia um mar de gente modesta (mais alguns hippies e estrangeiros), que se acotovelava e furava, enquanto os automóveis passavam tangentes aos peões e buzinavam. (3)
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Não comprei nada. Só me interessavam antiguidades, mas receio ser facilmente enganado, pois não sei avaliar aquela mercadoria. Mas estendais de antiguidades havia poucos; a maioria era ferro-velho: dobradiças, fechaduras, chaves enormes, bicos de fogões a gás... Ouvi lá um negociante de antiguidades dizer a outro que à 3ª feira o negócio é melhor. (XXX - 1973.09.23)
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Cheguei há pouco da Feira [de Santiago], onde fui dar uma volta e dois dedos de conversa com o pessoal conhecido após o jantar lá em baixo no Centro, única maneira de variar o cardápio, pois ao almoço não tenho tempo para grandes variações e aprendizagens. Tal como as mulheres, os homens, desde pequeninos, deviam ser ensinados a cozinhar coisas variadas e saborosas, embora simples. Felizmente que em tempos descobri um livrito acessível que posso consultar e seguir sem necessidade de ter ao lado, para consulta permanente, um dicionário da especialidade, para decifrar os termos técnicos como "refogado" ou "esturgido" e quejandos. (XXX - data ?) (4)
´.
Em Setúbal é tempo da Feira [de Santiagoonde fui duas ou três vezes e onde sempre vou encontrando gente conhecida para dois dedos de conversa. Este ano há apenas uma exposição dedicada a uma das celebridades cá da terra, que foi a cantora lírica Luísa Todi. Falta me ver a parte da cerâmica e olaria, embora este ano já tenha comprado o "recuerdo", cerâmica dum país andino ou como tal vendida. Mais uma "bonecada" ali para uma das estantes, para dificultar a limpeza do malfadado pó que mal acabado de limpar logo renasce dum modo que faria inveja à capacidade reprodutora dos coelhos! (MMA - 1993.08.03)

1 - Realiza-se anualmente, durante o mês de Setembro.
2 - Realiza-se todas as 3ªs feiras e sábados, de manhã. Trata-se duma feira cujas raízes remontam aos tempos medievais.
3 - Outra feira que merece referência é a do Relógio, no bairro de Chelas, aos domingos de manhã.
4 - Passe a publicidade, trata se do Guia Prático de Cozinha, da autoria de Léone Bérard, editado pela Livraria Bertrand em 1977.



domingo, 5 de junho de 2011

A felicidade tem o travo amargo de tudo aquilo que é finito - Victor Nogueira

Carmen Montesino
A felicidade tem o travo amargo
de tudo aquilo que é finito - Victor Nogueira
5 de Outubro de 2010 às 1:51 · Gosto ·
Odete Maria Botelho Botelho, Carmen Montesino e 2 outras pessoas gostam disto.
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Victor Nogueira mas distingo ...
5 de Outubro de 2010 às 20:10 · Gosto · 1 pessoa
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Victor Nogueira ‎... por entre a multidão o teu ar sereno ...
5 de Outubro de 2010 às 20:11 · Gosto · 1 pessoa

Carmen Montesino Nas tuas mãos e nos teus dedos
nasce uma criança
5 de Outubro de 2010 às 22:37 · Gosto

Carmen Montesino que sorri e corre dentro de mim.
5 de Outubro de 2010 às 22:38 · Gosto
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Victor Nogueira Palavras, Carmen, só palavras num mundo de lantejoulas cujo brilho dura o breve instante dum fósforo aceso que logo se apaga e por vezes nos deixa as mão dolorosamente queimadas mesmo que o sorriso seja uma máscara que se me colou à pele :-)
5 de Outubro de 2010 às 23:00 · Gosto · 1 pessoa

Carmen Montesino Palavras são, mas enchem a alma de luz. E a alma iluminada acende o sorriso, que nunca consigo usar como máscara!
5 de Outubro de 2010 às 23:10 · Gosto

Odete Maria Botelho Botelho Existirá sempre uma estrela que nos ilumina!!!!. Nascemos para ser iluminados e para iluminartb!!!!.Lindo, gostei mto.Bjs.
6 de Outubro de 2010 às 0:02 · Gosto

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Rio Tejo segundo Adriano, Manuel da Fonseca e Alberto Caeiro

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Carregado por  em 1 de Fev de 2009
www.cidadevirtual.pt/cdl


Tejo que levas as águas - Manuel da Fonseca / Adriano C. de Oliveira


Beijinhos, amigo e camarada :)))

www.cidadevirtual.pt/cdl Tejo que levas as águas - Manuel da Fonseca / Adriano C. de Oliveira

    • Victor Nogueira Gracias, Lia :.-)*
      Ontem às 23:19 · 

    • Victor Nogueira 
      De Alberto Caeiro - 

      O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

      Mas o tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
      Porque o tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,
      O Tejo tem grande navios

      E navega nele ainda,
      Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
      A memória das naus.
      O Tejo desce de Espanha
      E o Tejo entra no mar em Portugal.
      Toda a gente sabe isso.
      Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
      E para onde ele vai
      E donde ele vem.
      E por isso, porque pertence a menos gente,
      É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
      Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
      Para além do Tejo há a América
      E a fortuna daqueles que a encontram.
      Ninguém nunca pensou no que há para além
      Do rio da minha aldeia.
      O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
      Quem está ao pé dele está só ao pé dele

      há 22 horas
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Tejo que levas as águas



Manuel da Fonseca



Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes, espantos
De roubos, fomes, terrores,
Lava a cidade de quantos
Do ódio fingem amores

Leva nas águas as grades
De aço e silêncio forjadas
Deixa soltar-se a verdade
Das bocas amordaçadas

Lava bancos e empresas
Dos comedores de dinheiro
Que dos salários de tristeza
Arrecadam lucro inteiro

Lava palácios, vivendas,
Casebres, bairros da lata
Leva negócios e rendas
Que a uns farta e a outros mata

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar

Lava avenidas de vícios
Vielas de amores venais
Lava albergues e hospícios
Cadeias e hospitais

Afoga empenhos, favores,
Vãs glórias, ocas palmas
Leva o poder dos senhores
Que compram corpos e almas

Leva nas águas as grades
De aço e silêncio forjadas
Deixa soltar-se a verdade
Das bocas amordaçadas

Das camas de amor comprado
Desata abraços de lodo
Rostos, corpos destroçados
Lava-os com sal e iodo.

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar. 

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Na casa de Goios * Victor Nogueira

Domingo, Abril 08, 2007

Na casa de Goios


Na casa de Goios


* Victor Nogueira


À beira da estrada, a grande casa fora dividida em duas nas partilhas; uma metade para o primo Manuel, outra para o primo José. Era na deste último que o meu avô Barroso ficava, antes de construir a casa no Mindelo (Vila do Conde), para as férias de Verão. Fora isso, era nesta casa que se passava a Páscoa ou se faziam as visitas ao fim de semana.

Como boa casa minhota, o r/c era reservada aos animais e o acesso ao 1º andar, em qualquer delas, fazia-se por escadaria exterior. No primeiro andar havia nas traseiras um corredor comprido para o qual davam os quartos. Havia também uma enorme lareira, fuliginosa, onde me aquecia no inverno distraído com o dançar das chamas. Nessa lareira se cozinhava ao lume, em tripeças. Supremo luxo na casa do primo José era a casa de banho, construída a expensas do meu avô Barroso.

Escrevia eu em 1963: «No dia 14 [Abril. 1963], domingo de Páscoa, fui, com o avô Barroso e o tio Zé a Goios, passando por Famalicão. Almoçámos em Goios, tendo‑me aborrecido imenso. O "compasso". chegou por volta das 17 horas. À tardinha fomos para a Pedra Furada. Revi com prazer a Lourdes e a Cândida, e fiquei a conhecer a Celeste e a Amélia. Divertimo‑nos bastante. (Diário III - pag. 165)».
Havia também outros primos, como a Deolinda e a filha Laurinda, assim como o Adelino e o Joaquim, este surdo-mudo mas lá nos conseguíamos entender por restos. Creio que a última vez qe nos vimos todos, ainda a Celeste era minha namorada, foi em 1974, no faustoso e farto casamento dum deles, onde até os talheres eram de prata!

Os meus primos moravam uns em Goios e outros numa aldeia próxima, chamada Pedra Furada. Estes eram mais pobres Deles todos perdi o rasto após a morte do meu avô Barroso, em 1975 e após o meu casamento na mesma altura, quando as férias deixaram de ser passadas no Norte, em casa dos meus avós. Disso falo no meu poema Elegia pela minha família dispersa.

Na foto, à janela, o meu tio Zé Barroso e o autor destas linhas. 

1 comentários:


Anónimo disse...
Ai Jesus se eu gosto do Minho!... Aquelas videiras entrelaçadas nas árvores!... Aqueles tons de verde que só podem ter saído da paleta dum grande criador! Mas eu sou das searas que, em tempos que já lá vão, ondulavam ao vento, do trigo maduro que adorava ceifar, dos molhos de palha seca onde rebolava e sonhava, pensando que iria ser sempre assim!... Que saudades das ondas do meu trigo ondulante!...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Um pouco de mim - Victor Nogueira





Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009


Um pouco de mim - Victor Nogueira


01 - Nome?  

Victor Manuel Nogueira de Aragão Avis e Calatrava  :-)

02 - Quantidade de velas no teu último aniversário?
63

03 - Tatuagens?
nenhumas

04 - Piercings?
nenhuns

05 - Já foi à África?
Vivi em Angola 16 anos mais 8 nas férias de verão. E duas férias grandes (de Verão em Portugal, pk nas colónias portuguesas a sul do Equador Julho a Setembro correspondiam ao "cacimbo", pino da estação fria) em Pointe Noire (na altura África Equatorial Francesa)

06 - Já ficou bêbado?
Várias vezes mas passou-me definitivamente a bebedeira das bebedeiras

07- Já chorou por alguém?
Sim, de alegria, de  tristeza e de raiva. E de imensa alegria, quando ouvi na rádio a proclamação da independência do meu País – Angola !

08 - Já esteve envolvido em algum acidente de carro?
Vários, mas só um grave, ao entrar  numa auto-estrada, a do Estoril, com pedaços do meu carro e dos da frente a voarem, pois a minha velocidade e o pouco espaço de manobra só permitiram que o embate fosse lateral e apenas com prejuízos materiais. Durante meses forcei-me a continuar a conduzir pois via sempre pedaços de chapa a irem pelos ares.

09 - Peixe ou carne?
Peixe, carne, verduras, fruta ...

10 - Música preferida?

Depende do estado de espírito, desde que não seja da pesada como era a da banda de garagem do Rui Pedro

11- Champanhe?
Nunca bebi do verdadeiro. Gostava de uísque e rum, mas já não gosto!

12 - Metade cheio ou Metade vazio?
Depende do que for, mas como filosofia de vida .... metade cheio se mais não puder ser :-)

13 - Lençóis de cama lisos ou estampados?
Estampados mas discretos

14 - Filme preferido
Um dicionário deles

15 - Flores?
Todas as que tenham bom cheiro, incluindo as pequenas campestres. Se tiver de escolher alguma – papoilas e gira-sóis

16 - Coca-Cola simples ou com gelo?
Com gelo. Mas só Coca-Cola. As outras Colas não se entranham, estranham-se apenas pelo mau gosto :-)

17 - Quem dos teus amigos vive mais longe?
Judite, na Hungria

18 - Quem você acha que vai responder a esse e-mail mais rápido?
Ninguém, pois não tenciono re-enviá-lo

19- Quantas vezes você deixa tocar o telefone antes de atender?
O fixo ao 5º toque passa para o voice-mail e o télélé é quase secreto e atendo logo se estiver ao alcance da mão e do ouvido, excepto  se for a conduzir

20 - Qual a figura do tapete do seu rato?
Um calendário da CDU das eleições autárquicas de ... 2002. É resistente e continua com bom aspecto :-)

21 - Pior sentimento do mundo?
 Depende da situação e do contexto. Em termos genéricos, o espírito mesquinho e tacanho, a cobardia, a sabujice, a mentira, a subserviência.

22 - Melhor sentimento do mundo?
A Paz na Humanidade, Amoramizade, Solidariedade, Felicidade, Inteligência, Sensibilidade, Franqueza

23 - Ultima coisa que faz antes de dormir?
Apago a luz do candeeiro

24- Qual o primeiro pensamento ao acordar?
Depende. Dava um romance descrevê-los :-)

25- Qual o último pensamento antes de dormir?
idem, aspas

26 - Se pudesse ser outra pessoa, quem seria?
Sou o que sou e o que de mim a vida, as circunstâncias, e outrem foram moldando, a meu gosto ou contra-gosto

27 - O que você nunca tira?
Nada tenho de externo ao meu corpo que não tire

28 - O que você tem debaixo da cama?
Os sapatos, as sandálias, os chinelos ou pantufas e por vezes poeira :-)
[E claro e sempre - o soalho]

29 - Qual a pessoa que talvez não te responda?
Ninguém vai responder porque só a quem me envia respondo e não re-passo!

30 - Aquele que com certeza vai te responder?
Prejudicada pela resposta anterior

31 - Quem gostarias que te respondesse?
Se repassasse, a meia dúzia do costume  da galeria de 88 retratos no hi5 [2011 - e as poucas pessoas que me correspondem no Facebook, algumas já vindas do mIRC e do hi5]

32 - Qual é o livro que estás a ler?
Vários simultaneamente. Mas assim de momento «Capitão de Abril,  Capitão de Novembro», de Sousa e Castro, «Camaradas de Guerra», de Sven Hassel, «Hitler, Ascensão Irresistível», de Kurt Gossweiler  e «A Viagem do Elefante», de José Saramago, para além da poesia que me enviam e publico no meu blog D'Ali e D'Aqui e a que vou descobrindo nas minhas deambulações pela Internet. Para além das news-letters e da imprensa on line, diariamente

33 - Uma saudade?
Luanda, que já não é ! E também os meus familiares e amigos, que já morreram ou se dispersaram porque em muitas terras vivi intensamente ! Mas se tivesse que mencionar alguém, dos que morreram,em 1º lugar,  a Celeste, mãe do Rui e da Susana e o meu irmão caçula Zé Luís, e depois os meus avós António Barroso e Zé Luís ,a minha tia-avó Esperança e os meus tios José João e José Barroso, a minha cunhada Teresinha [Gato], a minha colega Isabel Pimentel [que morreu aos 20 anos porque o para-quedas não se abriu]. E muitas pessoas que conheci na Internet e  «desapareceram» como a Manariana, a Gabi e o Suave Perfume do Lis, a minha amiga Fátima da Madeira, ou a minha colega de Económicas de quem perdi o rasto depois de se reformar, a Emília. [E também gostaria de reencontrar o Jorge Zamith e o José Carlos Abranches de Figueiredo e a Maria José Morgado e a Rita, estas minhas colegas em Évora, bem como a Bia de Safara e a Florinda] E sempre, a minha mana e doce Clarisse !

34 - Uma característica tua:
Não pregar rasteiras e assumir a responsabilidade do que faço e de quem me está subordinado, mas se um inimigo meu tropeçar ao cimo da escada nada faço para detê-lo. Se for um(a) amigo/a, deito-lhe a mão  para tentar evitar que caia. Sentido do humor e da ironia fina (dizem-me)  e uma grande capacidade de rir-me de mim mesmo e dar quase sempre  por cima) a volta às situações.

35 - Decepções que tiveste na vida...
Muitas. A maior - Joana Princesa, que me inspirou muitos e belos poemas e deixou um vazio dentro de mim.

36 - Lugares em que morei.
Por mais de de cinco anos: Luanda (antiga S. Paulo da Assunção de Luanda - Angola), Évora, Lisboa, Setúbal,  Porto, UCP Soldado Luís (Monte da Arouca – Vale de Guiso),  Paço de Arcos,
De um a três anos: Uíge (antiga Carmona - Angola), Amareleja, Santo Amador (Moura),  Barreiro, Alcácer do Sal, Salvada (Beja), Caldas da Rainha, Mindelo (Vila do Conde), Vila do Conde, Póvoa de Varzim,
De uma a várias semanas: Huambo (antiga Nova Lisboa - Angola), Caála (antiga Vila Robert Williams - Angola), Pointe Noire (antiga África Equatorial Francesa), Beringel (Beja),  Santiago do Cacém,  Viana do Castelo, Tavira, Lagos, Aljezur, Vila Nova de Mil Fontes, Portimão, Beja, Covilhã. Lamego, Mirandela, Braga, Leiria, Coimbra, Cascais, Pateira de Fermentelos (Águeda), Goios (Barcelos), Canha (Vendas Novas), Santarém, Cartaxo,  Funchal (Ilha da Madeira), Óbidos

37 - Programas de TV que assistias quando criança [e adolescente]
Não havia televisão em Luanda. Mas  era frequentador assíduo de cinema, incluindo o Cine Clube de Luanda, e de todas as raras temporadas de ópera.

38- Programas que assisto hoje:
Reportagens, Entrevistas e Documentários

39 - Lugares em que estive e gostava de voltar
Todos, em especial a Beira Baixa, Coimbra, Castelo Novo, Silves, Sines, Mértola e Tavira.  E sempre - Lisboa [Setúbal para mim já "morreu"]

40 - Formas diferentes que me chamam
Victor, Victor Nogueira, Dr. Victor, Dr. Victor Nogueira, Dr. Nogueira, Camarada Victor, Camarada Victor Nogueira, Camarada, Companheiro, Vizinho  (Setúbal), Amigo (Alentejo), senhor Victor, Vitinho, Vitinha, Vic, Vi, Pai e quando menino – Vitó. [2011 - E para o meu  neto Francisco, com dois anos, sou o  Tó] E como Victor é difícil de pronunciar, Vítaro pelas pessoas de poucas letras. E pelos empregados em Luanda: menino Vitó.


41 - Pessoas que me mandam mails quase todos os dias
Moranguinho Pereira e Flor do Oásis

42 - Comidas Favoritas
Várias e depende da disposição

43 - Lugar em que desejaria estar agora
Num lugar onde pudesse ser feliz


44 - Espero que este ano eu possa..
Que todos nós consigamos dar a volta ao mundo tenebroso, sombrio e desumano em que a esmagadora maioria da Humanidade vegeta

45- Mande um recado para quem te enviou:
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a) Gosto de ti e gostaria que nos encontrássemos para nos conhecermos.
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b) Gosto de ti,  porque és a única pessoa que me telefona para saber de mim, para além dos meus filhos, da minha tia Lili e da Madalena. :-)
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c) Gosto de ti, da poesia que escreves e dos poemas de outrem que partilhas e continuo à espera do cafezinho :-)
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