* Victor Nogueira / Gemini
O Gemini pronuncia-se sobre uma colectânes referente eo 'processo criativo' intitulada escritos em 2009
Esta nova recolha de notas diárias de Victor Nogueira (de dezembro de 2009) oferece um olhar fascinante e melancólico sobre a escrita, a memória e a transitoriedade da matéria.
Se o texto anterior “The Shadow Dancer” (2026) explorava a escrita como "arte e capacidade de voar", estes fragmentos revelam a sua dimensão doméstica, material e existencial: o ato de escrever enquanto combate à solidão, ao esquecimento e à perda.
Análise Temática e Estrutural
1. A Fragilidade do Suporte: Do Papel ao Bit
O texto introdutório abre com uma meditação lúcida e profética sobre a obsolescência tecnológica versus a permanência da memória:
O paradoxo do digital: Registar em computador torna o texto mais "frágil e contingente" do que no papel, papiro ou pergaminho. O autor recorda com mestria a arqueologia da informática recente (Spectrum, disquetes de 5" 1/4, zip-drives, Betamax, VHS) para demonstrar como o progresso técnico paradoxalmente tranca ou destrói a memória em formatos ilegíveis ("monos").
A perda do papel: O relato da amiga que rasgou anos de correspondência sobre Évora para evitar que fossem lidos após a sua morte cria um contraste doloroso: o papel físico pode ser destruído pelo fogo ou pela mão humana, mas a tecnologia destrói o registo pelo simples passar do tempo e incompatibilidade de software.
2. A Economia da Escrita: Para Quem e Porquê?
Na nota de 19.12.2009, o autor recorre à sua formação em Economia para construir uma metáfora brilhante sobre o ato de manter um blog:
O balanço a negativo: Escrever na internet sem leitores ou sem tempo para ler os outros é comparado a uma conta bancária sem "feed-back".
A "Filosofia da Contabilidade": O autor cruza a burocracia do Direito e da Contabilidade (a anedota do artigo 2.º que sustenta os advogados) com a gratuidade da escrita. Na ausência de valor monetário ou de "cobertura", enche-se a caixa de "letras, melhor ou pior avalizadas", fechando o dia com a constatação do tempo meteorológico ("ontem choveu... hoje esteve cheio de sol") e uma ponta de ironia erudita em latim (Amicus certus in re incerta cernitur — o amigo certo reconhece-se na ocasião incerta).
3. A Atmosfera Intimista de Setúbal: O Tempo, a Comida e a Solidão
A nota de 16.12.2009 é um retrato intimista de um quotidiano dominado pela depressão e pelo frio de dezembro:
A anglicização da linguagem: A lista detalhada de anglicismos da informática com as suas traduções literais para português (mouse = rato, firewall = muro de fogo, firefox = raposa de fogo) funciona como um micro-ensaio linguístico, criticando a invasão do inglês no quotidiano.
O apelo aos sentidos: O detalhe da refeição (do entrecosto às empadas de pronto-a-comer), a onda de frio e a visita à Livraria Culsete em Setúbal. A descrição do livreiro Medeiros — "com o chapéu que nunca tira e o cachecol ao pescoço" — e a nota sobre o desaparecimento das andorinhas na cidade ancoram o texto numa geografia humana rica e nostálgica.
4. A Reclusão e a Natureza Doméstica
Na nota de 21.12.2009, o isolamento aprofunda-se:
O microclima da casa: A nortada que torna a janela da cozinha numa "lâmina gelidamente cortante" (15 ºC no interior) espelha o estado de espírito do autor.
A botânica da sobrevivência: A atenção minuciosa dispensada às plantas da varanda (o bonsai moribundo, a hera resguardada, o feto rejuvenescido) evoca a memória dos terraços cheios de cactos e malvas em Évora. Trata-se da tentativa de cuidar da vida vegetal num espaço exíguo ("minúscula varanda"), enquanto a mente navega por leituras, filmes de guerra (A Ponte), memória de jornalistas e escritores (Mário Castrim, Mário Crespo, Alice Vieira).
Aspetos Positivos (Valor Literário e Documental)
Autenticidade e Tom Diarístico: O texto possui a rara virtude de não tentar impressionar. A transição sem filtro entre a grande reflexão tecnológica/filosófica e a trivialidade diária (o que comeu ao jantar, a temperatura da sala) confere ao registo uma verdade humana e tocante.
Agudeza na Crítica Tecnológica: A reflexão inicial sobre a perda de leitabilidade dos suportes digitais é de uma grande lucidez ensaística.
Riqueza de Detalhe Local e Humano: As passagens sobre a Culsete em Setúbal, a memória da vida universitária em Évora e as cartas perdidas de Luanda transformam este diário num documento de valor memorialístico significativo.
Aspetos Negativos (Fragilidades Formais)
Dispersão Temática: Por ser um diário em estado bruto, a acumulação de micro-tópicos (meteorologia, culinária, política, botânica, informática) numa única entrada pode fragmentar a atenção do leitor que procure uma linha narrativa contínua.
Pequenas Inconsistências de Edição: Sendo notas de blog, persistem alguns lapsos de dactilografia ou formatação (espaçamentos irregulares, pontuação fluida), característicos do Rascunho Digital que o próprio autor ironiza no início.
Conclusão
Se na peça anterior Victor Nogueira refletia sobre a escrita como "capacidade de voar", nestes escritos de 2009 ele mostra-nos a gravidade da terra: a dificuldade de manter a escrita viva perante o desinteresse dos leitores, a perda irremediável das cartas em papel e a ferrugem dos suportes digitais. É um testemunho sereno e melancólico de alguém que, apesar do frio da sala e da "falência contabilística" do tempo, continua obstinadamente a "encher a caixa de letras" para que a memória não se perca.
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Imagem gerada pelo chatGPT a partir dum guião de minha autoria:
Desenho colorido Um avatar sentado a uma mesa olha para um quadro na parede. Dento do quadro branco coloca esta imagem.
Na mão o avatar segura uma lupa. Sobre a mesa um régua graduada, um esquadro, um compasso de desenho e um leitor de de cd's e dvd's . No cesto dos papéis '0' e '1' da linguagem binária, como lixo que extravasa Sobre uma estante livros e um monitor preenchido com linguagem binária. Num 2º monitor aparece um fluxograma


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