Foto Victor Nogueira - Paço de Arcos (editada pelo Gemini)
* Victor Nogueira / Gemini
Na sala, a porta da varanda aberta para que entrasse a fresca brisa nocturna, temperada pelo cheiro da terra molhada e o leve agitar dos espanta-espíritos, permitia que de longe viesse o ruído da feira de Santiago, nas Manteigadas, para lá do parque verde da Belavista, enquanto via um filme que me agradou, “The Shadow Dancer”, mal traduzido para “Paixões Sob O Sol Da Toscana”. Não é de “paixões” que o filme trata, mas sim do dom da escrita, da arte e da capacidade de voar, usando as palavras e dando outra dimensão à descrição da realidade, sendo o escritor aquele que assumindo o dom supera desse modo os sonhos não realizados, dele ou de quem o lê, para isso necessitando duma dose maior ou menor de loucura, não se confundindo com o mero habilidoso no manejo das palavras e dos sons nelas contidos. É o jogo de luz, cor e sombras, no processo criativo, aquilo de que nos fala a película.
Era um texto para complementar a foto aquele que pretendia gravar no monitor. O que me faz lembrar outra cena do filme quando o velho escritor dá ao neófito uma máquina de escrever, daquelas com teclado, fita e carreto, em substituição do computador que dificultaria o processo criativo pois tudo é facilmente apagado, sem a obrigação de pensar e de escolher melhor as palavras. Pessoalmente não penso assim, pelo contrário, que facilita e o único óbice é perder-se o registo da evolução do processo criativo,, umas vezes rápido, outras dificultoso, em torno duma palavra ou duma descrição..
Mas a única semelhança ou ligação entre o jogo de cores e formas do azul da foto e o castanho dourado debruado de verde e vermelho do filme é a suavidade. E o silêncio que me rodeia e no qual estou mergulhado. Como pássaro de asas cortadas.
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Aqui está a análise detalhada deste texto em prosa de Victor Nogueira, que combina o tom diarístico, a crítica de cinema e a reflexão estética sobre o processo de criação.
Análise Temática e Estrutural
Diferente das peças anteriores, este texto é um fragmento em prosa reflexiva e confessional. Nele, o autor entretece a sua perceção sensorial do momento com uma meditação profunda sobre a escrita, a fotografia e as ferramentas da arte.
1. A Envolvente Sensorial e a Geografia Afetiva
O texto abre com uma ambientação íntima e imersiva. Há uma forte presença dos sentidos: a "brisa nocturna", o "cheiro da terra molhada", o som discreto dos espanta-espíritos e, ao fundo, o "ruído da feira de Santiago, nas Manteigadas, para lá do parque verde da Belavista". O autor volta a ancorar a sua narrativa no espaço físico de Setúbal, estabelecendo um contraste imediato entre o ruído exterior da cidade (a feira) e o silêncio recolhido da sua sala.
2. A Crítica de Cinema e a Natureza da Escrita
A visão do filme The Shadow Dancer serve de catalisador para a tese central do texto. Victor Nogueira rejeita a tradução portuguesa comercial (Paixões Sob O Sol Da Toscana) para focar a essência do filme: o dom e a responsabilidade da escrita. O autor estabelece uma distinção fundamental:
O verdadeiro escritor: É aquele que possui o dom de "voar", dar uma dimensão transcendente à realidade e sublimar os sonhos não realizados (seus e do leitor), o que exige "uma dose maior ou menor de loucura".
O "mero habilidoso": Aquele que se limita a um manuseamento técnico e superficial das palavras e dos sons, sem a luz ou a sombra do verdadeiro processo criativo.
3. A Ferramenta vs. o Processo Criativo
Num segundo momento, o texto assume um tom quase metanarrativo. O autor revela que pretendia apenas escrever uma legenda/texto para acompanhar uma fotografia no monitor, o que o faz recordar uma cena do filme: a dialética entre a máquina de escrever (defendida no filme por obrigar a pensar antes de gravar no papel) e o computador (onde tudo se apaga facilmente). A posição do autor é de pragmaticidade e honestidade: ele discorda da perspetiva saudosista da máquina de escrever, reconhecendo as vantagens do computador, mas aponta com precisão o seu único grande defeito — a perda do rasto do processo criativo (as hesitações, as correções, a evolução em torno de uma palavra).
4. O Fecho Síntese: A Imagem, a Cor e a Solidão
No parágrafo final, o autor procura a ponte entre a sua fotografia (o "azul"), o filme ("castanho dourado debruado de verde e vermelho") e o seu estado de espírito. A ligação não é temática nem visual, mas sim atmosférica e emocional: a "suavidade" e o "silêncio". A frase de fecho — "Como pássaro de asas cortadas" — corta abruptamente o tom analítico e mergulha o texto numa nota de melancolia e impotência existencial, contrastando com a ideia inicial do escritor como alguém que "tem a capacidade de voar".
Aspetos Positivos (Valor Literário)
Capacidade de Associação Imersiva: O texto flui com grande naturalidade entre a perceção do espaço físico (Setúbal de noite), a fruição de uma obra de arte (o filme), a técnica da escrita e o estado de alma do autor.
Agudeza Teórica sobre o Processo Criativo: A reflexão sobre o que distingue o escritor autêntico do "mero habilidoso" e a análise sobre como o meio digital apaga o "rasto da evolução" das palavras são perspicazes e de grande valor ensaístico.
Riqueza Cromática e Sensorial: O uso do detalhe ambiental (o cheiro da terra, o azul da foto, os tons dourados do filme) cria uma atmosfera denso-poética que sustenta o texto do início ao fim.
A Metáfora de Fecho: A imagem do "pássaro de asas cortadas" no final ganha uma força dramática enorme por oposição direta à ideia expressa no primeiro parágrafo de que a escrita é a "capacidade de voar". Revela a dor de quem conhece a dimensão do voo da arte, mas se sente incapacitado ou preso no momento presente.
Aspetos Negativos (Fragilidades Estilísticas)
Sintaxe Densa e Frases Longas: O primeiro parágrafo é composto por uma única frase longa, recheada de orações subordinadas e incisos. Embora pretenda mimetizar o fluxo de pensamento, exige do leitor uma atenção redobrada para não perder o fio condutor sintático.
PONTUAÇÃO E RITMO: Nota-se uma certa fluidez informal na pontuação (como a utilização de vírgulas duplas em "processo criativo,,") que aproxima o texto de uma nota de diário ou rascunho de blog, retirando-lhe algum do rigor formal que a densidade das ideias pedia.
Conclusão
Este texto em prosa é um excelente complemento aos poemas do autor. Revela um Victor Nogueira lúcido, observador e autoexigente, que pensa a arte não apenas como intuição, mas como trabalho, escolha de palavras e gestão de luz e sombra. A transição entre o ruído da festa popular ao longe, a ecrã do computador na sala e a solidão do "pássaro de asas cortadas" faz desta peça uma meditação intimista e tocante sobre a condição de quem tenta "lavrar um rasto" através das imagens e das palavras.
'The shadow dance' poderia ser um título apropriado para este meu texto?
Dar o título The Shadow Dancer (ou The Shadow Dance) ao seu texto em prosa funciona extraordinariamente bem por três razões principais:
A Relação de Espelho com o Filme: O seu texto parte explicitamente da reflexão sobre a película The Shadow Dancer. Assumir esse título cria um cordão umbilical direto com a obra que despoletou a sua meditação, assumindo o seu texto como uma variação ou um diálogo com o filme.
A Dança Entre a Luz e a Sombra da Criação: No próprio texto, menciona que o processo criativo é um "jogo de luz, cor e sombras". Escrever é, em si mesmo, uma "dança com as sombras" — o movimento de dar forma ao que é imaterial, aos pensamentos que esvoaçam no silêncio da sala.
O Contraste com o Fecho: Há uma ironia poética e comovente entre a ideia de uma "dança" ou de um "dançarino" (que pressupõe movimento, leveza e a capacidade de voar que atribui ao escritor) e a imagem final do autor no seu texto: o "pássaro de asas cortadas", imóvel no silêncio de Setúbal. O título passa a funcionar como a evocação do voo que se deseja, mesmo quando se está preso ao chão.
Se a intenção é evocar essa atmosfera de criação, penumbra e reflexão sobre a escrita, o título ajusta-se com enorme precisão.
VER

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